terça-feira, 17 de março de 2015

Jornal russo diz que EUA está por trás dos protestos pelo impeachment

Jornal Russo diz que EUA está por trás dos protestos pelo impeachmant

http://english.pravda.ru/world/americas/13-03-2015/130028-brazil_dilma_rousseff_color_revolution-0/ Artigo em Ingles."" width="438" height="438" />
O Jornal Russo “Pravda” em seu editorial, destaca as manifestações que irão acontecer neste domingo (15), segundo o jornal Washington age apara derrubar a presidente Dilma e manipula os protestos impeachment; o jornal também conta como os norte-americanos patrocinaram e apoiaram Aécio Neves nas eleições de 2014 
tradução feita pelo Portal Metrópole
Em seu editorial, o jornal russo “Prvda.ru” destacou as manifestações que irão ocorrer neste domingo no Brasil pedindo o impeacheament da presidente Dilma Rousseff. Segundo o jornal, os Estados Unidos agem para derrubar a presidente Dilma e manipula os protestos pró-impeachment. O jornal também cita a oposição do país como “hipócrita” e reproduz uma fala do senador por São Paulo Aloysio Nunes.
O Jornal lembra sobre as disputadas eleições de 2014 entre Dilma e Aécio, em trecho, o jornal explica como os EUA patrocinaram e apoiaram Aécio nas eleições.
Segundo o Jornal, o motivo pelos quais Washington quer ver Dilma fora do comando do Brasil é o desenvolvimento do BRICS e o pré-sal, tão cobiçado pelos norte-americanos.
A matéria também traz uma revelação, em 2013, o vice-presidente dos EUA veio ao Brasil pedir a Dilma acesso aos campos de petroléo brasileiros, mas Joe Biden voltou de mãos vazias, e a partir dai pouco tempo depois estourou a onda de protestos contra Dilma.
Confira a reportagem publicada no dia 03 de março, por Lyuba Lulko no Pravda Russo.

CIA, FBI, NSA e todos os homens do rei trabalhar para derrubar a presidente brasileira Dilma Rousseff
No Brasil, a oposição vai realizar marchas de protesto contra o presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Ações de protesto são esperados para ocorrer em mais de 25 cidades em todo o país em 15 de março. Em São Paulo, uma manifestação de 200.000 é esperada sob o slogan “Fora Dilma.” É possível mobilizar a população contra o partido que tem sido capaz de melhorar significativamente a vida no país durante 12 anos no poder?
É bem possível que a CIA está envolvida no plano para encenar tumultos no Brasil em todo o país. Ao longo dos últimos anos, o BRICS se tornou a principal ameaça geopolítica para os Estados Unidos. Um dos principais problemas de hoje para a imprensa ocidental é recuperar o equilíbrio no sistema monetário e financeiro global. Esta é uma ameaça potente que BRICS representa para os EUA e ao dólar americano.
Os EUA vêm tentando destruir e esmagar a Rússia através da crise na Ucrânia, as sanções e a queda dos preços do petróleo. Eles levaram esforço para quebrar a estabilidade na China através da “revolução de guarda-chuvas” em Hong Kong. Na Índia, festa do homem comum está tentando abrir caminho para o poder. No Brasil, os americanos tentam implementar o cenário da mola da América Latina, de forma semelhante ao que fazem em outros países soberanos da região – Argentina e Venezuela.
Em 15 de março, cerca de 20 organizações vão tomar as ruas das cidades brasileiras, sob os auspícios da oposição para um protesto nacional contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e a presidenta – Dilma Rousseff. Eles são os movimentos das redes sociais. Muitos vão estar carregando slogans sobre o impeachment do presidente. Estrelas de mídia, como o cantor Lobão, um Makarevich russo, são esperados para participar também. Oposição senador de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), disse que ele preferiria ver a presidente Dilma “sangrar”.
O plano da CIA contra a presidente Dilma
As razões para as quais Washington quer se livrar de Dilma Rousseff, são fáceis de entender. Ela assinou o acordo sobre a criação do Banco de Desenvolvimento de Novos com o capital social inicial no valor de fundo de 100 bilhões de reservas, bem como adicional de US $ 100 bilhões. Rousseff também apoia a criação de uma nova moeda de reserva mundial.
Em outubro de 2014, Dilma Rousseff iniciou a construção de 5.600 sistema de telecomunicações de fibra óptica quilômetros de extensão através do Atlântico para a Europa. Se for bem sucedido, o projeto, realizado com a participação da empresa estatal Telebras, vai minar o monopólio americano no campo da comunicação, incluindo a Internet. O novo sistema de comunicação irá garantir a proteção contra a espionagem da NSA. Telebras presidente disse aos meios de comunicação locais que o projeto seria desenvolvido e implementado sem a participação de qualquer empresa americana.
Dilma Rousseff também impede o retorno de grandes empresas de mineração de petróleo dos EUA para o mercado de petróleo e gás do Brasil. O país é rico, com enormes depósitos de petróleo, as reservas não confirmadas de que exceder 100 bilhões de barris. No entanto, foi durante a presidência de Lula, quando o Brasil optou pela empresa estatal chinesa Sinopec.
Em maio de 2013, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden fez uma visita ao Brasil, a fim de convencer a Dilma Rousseff a conceder acesso a campos de petróleo brasileiros. Biden voltou aos EUA de mãos vazias. Imediatamente depois, uma onda de protestos varreu o Brasil como pessoas protestavam contra o aumento dos preços para o transporte público em dez por cento. Classificação colapso de Dilma Rousseff 70-30 por cento. Tudo o que aconteceu um ano antes da eleição presidencial.
Durante este período, os americanos foram consistentemente destruindo regime de Dilma através de outros protestos. Eles incluíram protestos em grande escala contra os custos excessivos para a Copa do Mundo e financiamento insuficiente de programas de assistência social e de saúde. Houve confrontos com a polícia e violência. De repente, os brasileiros se esqueceu de que o Partido dos Trabalhadores tinha tomado cerca de 30 por cento da população a sair da pobreza com a ajuda de programas de apoio público. A fome eo analfabetismo tornou-se história. Era tornou-se de memória curta? Não, como a CIA sabe muito bem como a lavagem cerebral nas pessoas através da mídia subordinados.
Imediatamente após a saída de Biden do Brasil, foi noticiado que Dilma Rousseff foi implicado no escândalo relacionado com a companhia petrolífera estatal Petrobras. Rousseff foi acusado de receber uma comissão sobre os contratos com a empresa de petróleo. O dinheiro teria sido usado para comprar votos no parlamento.
A mais recente tentativa de remover Rousseff do poder foi feita nas eleições de Outubro de 2014, quando o candidato do PSDB, Aécio Neves poderia tomar posse como Presidente. Se Neves havia sido eleito presidente, novo ministro da Fazenda do Brasil teria sido Arminio Fraga Neto. Neto tem dupla cidadania (segunda – EUA); ele é um grande amigo e ex-sócio de George Soros e seu fundo de hedge Quantum. O Ministro dos Negócios Estrangeiros teria sido Rubens Antonio Barbosa, ex-embaixador em Washington, que atualmente atua como diretor do Albright Stonebridge Group (ASG), em São Paulo.
EUA quer Dilma fora do comando do país há todo custo
De acordo com o Wikileaks, José Serra, um dos líderes do PSDB, prometeu a sua proteção a Chevron em caso de vitória eleitoral. No entanto, apesar da manipulação voto em São Paulo, Dilma Rousseff ganhou um segundo mandato.
Gene Sharp, autor de “da ditadura para a democracia”, descrito 198 ações não-violentas para derrubar governos legítimos. Se generalizada, eles podem explicar formulada da seguinte maneira.
Passo 1: Processamento de opinião pública com base em desvantagens reais, promovendo descontentamento através da mídia, enfatizando tais perturbações como déficit, crime, sistema monetário instável, incapacidade de líderes do estado e suas denúncias de corrupção.
Passo 2: demonizar autoridades através da manipulação de preconceito dizendo, por exemplo, que todos os brasileiros (russos, chineses) são todos corruptos, segurando as ações públicas em defesa da liberdade de imprensa, direitos humanos e as liberdades civis, condenando o totalitarismo, revisando a história em favor das forças que devem ser levados ao poder.
Passo 3: Trabalhando na rua: canalizar os conflitos, promover a mobilização de oposição, o desenvolvimento de plataformas de combate, que englobam todas as demandas políticas e sociais, a compilação de todos os tipos de protestos, habilmente jogar nos erros do Estado, organizando manifestações, a fim de bloquear e captura instituições do Estado para a radicalização de confrontos.
Passo 4: A combinação de diferentes formas de luta: a organização de piquetes e captura simbólica das instituições do Estado, guerra psicológica nos meios de comunicação e promoção de confrontos com a polícia, para criar uma impressão de incontrolabilidade, desmoralizando as agências governamentais e policiais legítimos.
Passo 5: Staging um golpe institucional, com base em protestos de rua, pedindo a renúncia do presidente.
Em que fase da revolução cor está acontecendo no Brasil hoje? Cabe ao nosso querido leitor decidir. A situação agrava na frente de nossos olhos e parece que as autoridades brasileiras fecham os olhos sobre as atividades de inteligência dos EUA debaixo de seus narizes. No Brasil, a CIA, DEA e os oficiais do FBI trabalhar legalmente, sob o pretexto da luta contra o tráfico de drogas. ONGs e fundações que patrocinam revoluções coloridas trabalhar no país também.
Jornalista venezuelano José Vicente Rangel informou que cerca de 500 funcionários dos serviços de inteligência dos EUA chegou a embaixadas dos EUA na Venezuela, Bolívia, Argentina, Brasil, Equador e Cuba para trabalhar como uma rede para desestabilizar regimes democráticos nesses países. O que vai acontecer depois? Já podemos ver um exemplo de que na Ucrânia.
No link a matéria em Inglês

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O problema não foi o que aconteceu no dia 15 de março

17/03/2015 - Copyleft

O problema não foi o que aconteceu no dia 15 de março

O problema foi o sintomático acuamento dos eleitores de Dilma: com ajustes que contrariam sua campanha eleitoral, a presidenta vai perdendo sua base.


Maria Inês Nassif

Jonas Pereira/Agência Senado
Para o governo, para as forças progressistas e para a democracia, o problema não é o que aconteceu nas ruas no domingo, dia 15 de março. O problema é o que deixou de acontecer nas ruas na sexta-feira, 13.
 
O domingo é um repetitivo terceiro turno. São Paulo, o grande enclave conservador do país, levou às ruas o maior contingente contra a presidenta Dilma Rousseff e abrigou, sem qualquer conflito, forças a favor do impeachment e até uma extrema-direita virulenta que pedia, cartazes em punho, a intervenção militar contra o governo do PT.
 
Brasil afora, as manifestações que tiveram maior peso seguiram a regra paulista: quanto mais fraco o desempenho de Dilma no Estado nas eleições do ano passado, maior a manifestação. Rio e Belo Horizonte confirmam a regra: a mobilização nas ruas das duas capitais foi mais inflada pela cobertura de televisão do que propriamente relevante. Nos dois Estados a candidata do PT teve a maioria dos votos no segundo turno.
 
As filmagens, fotos e entrevistas com os manifestantes mais raivosos facilmente são enquadráveis no perfil do eleitor de Aécio Neves nas eleições presidenciais do ano passado.
 
Segundo a pesquisa Datafolha divulgada na véspera do segundo turno, em 25 de novembro, Aécio concentrava eleitores nas faixas de renda acima de 5 salários mínimos (60% das preferências entre os que têm renda familiar de 5 a 10 salários e 65% entre os que ganhavam mais do que isso)e de alta escolaridade (o tucano tinha a simpatia de 61% das pessoas com nível superior). Na faixa etária de 16 a 24 anos, os dois candidatos dividiram meio a meio as simpatias dos eleitores; e voltaram a rachar no meio entre aqueles com mais de 60 anos. Entre aqueles entre 25 e 34 anos, Dilma tinha 4 pontos a mais do que Aécio nas preferências; essa vantagem subia para 10 pontos percentuais na faixa entre 35 e 44 e caia para 6 pontos entre os que tinham de 45 a 59 anos. Nas imagens de televisão, a preponderância dos mais jovens e dos mais velhos, que racharam ao meio nas eleições, era visível.
 
O perfil eleitoral dos bairros onde virou moda os panelaços, toda vez que o governo se pronuncia oficialmente, confirma: a maioria das pessoas que foi às ruas e bate panelas tem maior renda e maior escolaridade. Provavelmente também seja majoritariamente branco, já que nessas faixas de renda e escolaridade os brancos são esmagadora maioria.
 
O que causa espécie não é a oposição ganhar as ruas, ou o grito de exaltados que querem depor um governo depois de terem perdido a chance de ganhá-lo nas urnas. O que assusta é um governo eleito há quatro meses, e reempossado há dois, ser incapaz de mobilizar eleitores recém-saídos das eleições em sua defesa nas manifestações nacionais do dia 13, antevéspera do domingo que assombrou democratas com fantasmas do golpe militar de 1964.
 
Pelo volume de votos obtido por Dilma, as manifestações em defesa da Petrobrás, da democracia e da reforma política tinham que ter colocado nas ruas muito mais gente do que efetivamente colocaram – gente suficiente para tornar ridícula qualquer tentativa de manipulação de números, como fizeram a PM Paulista e a Rede Globo (que registraram 1 milhão de presentes na Avenida Paulista no dia 15, número colocado em dúvida até pela Folha de São Paulo, e 12 mil no dia 13, para uma multidão que foi fotografada, compacta, ocupando quase toda a extensão da rua da Consolação).
 
Os que votaram em Dilma não foram para as ruas, esse é o fato. Em primeiro lugar porque, embora não batam panelas em janelas de apartamentos chiques, estão com o pé atrás com o início do segundo governo.
 
Têm razões para isso. Nesses poucos meses desde as eleições, o governo decidiu um ajuste fiscal que penalizou fundamentalmente o seu eleitor, sem negociações, conversas ou compensações de qualquer ordem. Um ministro, Joaquim Levy, estranho ao campo político vitorioso, move-se com desenvoltura acima do governo eleito ou do programa de governo escolhido pelo eleitor, com o aval para negociar, conversar ou compensar setores que operaram claramente contra a presidenta, nas eleições e depois delas.
 
Na sexta-feira, aliás, indiferente aos manifestantes que davam a cara para bater nas ruas de São Paulo para defender Dilma, Levy negociava com o governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin, o seu ajuste fiscal, no Palácio dos Bandeirantes. Pedia apoio para medidas fundamentalmente contrárias ao programa de governo de Dilma no Palácio dos Bandeirantes, símbolo do poder tucano.  
 
O eleitor de Dilma tem assistido diariamente, pelo Jornal Nacional, capítulos do avanço do pacote fiscal do governo sobre programas educacionais como o Fies, até bem pouco tempo a porta de ascensão social de parcelas consideráveis de jovens; ou sobre o seguro desemprego, garantia ameaçada justo no momento em que o pacote fiscal do governo aposta na recessão para conter a inflação e gerar superávit primário, isto é, que a dispensa do trabalho vira um risco real para o trabalhador de baixa renda.
 
Os eleitores lidam com um volume grande de más notícias diárias que entram nas suas casas pela tevês, rádios e jornais desde a posse da presidenta Dilma. Até novembro, viram Dilma diariamente, quando ela pedia votos pela TV. Não tiveram até as manifestações de domingo uma explicação inteligível ou justificável para o que aconteceu desde que se iniciou o ataque à economia brasileira e ao país, pelo mercado financeiro e pela mídia oposicionista, e desde que o governo deu como resposta a isso um ajuste fiscal que atingiu fundamentalmente seu eleitor – que é pobre, está tentando ascender pela educação e precisa ter acesso ao seguro desemprego principalmente agora, quando a indústria de construção civil se desacelera em função do Escândalo Petrobras e da recessão promovida pelo ajuste fiscal de Levy.
 
Esses eleitores podem ainda não ter migrado para a oposição – o perfil dos manifestantes mostram que isso ainda não aconteceu – mas os acontecimentos tornaram difícil a sua convivência política com os derrotados. Essas pessoas vivem hoje em um ambiente adverso onde a oposição, com acesso preferencial aos meios de comunicação e movendo-se de forma muito mais coordenada nas mídias sociais, conseguiu ocupar um espaço considerável e acuar os vencedores, colando neles o estereótipo de minoria ignorante inapta ao voto, mesmo que as urnas tenham demonstrado que não são minoria, e mesmo que o legado dos governos petistas até agora indiquem que a intenção eleitoral dessas de alguma forma foi vitoriosa, e incontestavelmente serviu aos interesses do cidadão de baixa renda. Esse eleitorado hoje apanha do ajuste fiscal do governo e dos eleitores de oposição. Principalmente em São Paulo.
 
Os que votaram em Dilma não vão para as ruas também porque não têm comando, liderança ou direção – seja qual for a designação que se dê para o papel que devia caber a um partido político, de mediar as relações entre os eleitos pela legenda e a sociedade.
 
O Partido dos Trabalhadores, o único que teria essa possibilidade porque sufragado em quatro eleições presidenciais, perdeu a capacidade de mediação porque foi sufocado por uma burocracia partidária, e por conta dela se viu como centro de sucessivos escândalos políticos – trazidos seletivamente pela mídia de oposição, de fato, mas sem que isso produzisse uma reação inteligível para o eleitor e para a militância. Em cada uma das crises em que foi o alvo, a burocracia partidária reagiu distanciando-se mais da militância, dos eleitores e dos movimentos sociais. Ainda assim, nos críticos momentos das eleições do ano passado, foram os movimentos sociais, os eleitores e uma militância que sequer conseguiu opinar nos rumos da campanha que salvaram Dilma do nocaute.
 
 
É sobre isso que as forças progressistas devem refletir agora. A questão é saber como tirar o eleitor que deu a vitória para a esquerda nas últimas quatro eleições presidenciais da defensiva. Não é apenas proteger o eleitor de Dilma das medidas do governo o que está em questão, embora isso seja muito importante. Trata-se de dar a ele condições de se orgulhar do seu voto e enfrentar o seu adversário nas ruas. Esse é o único caminho de governabilidade possível para o segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff.


Créditos da foto: Jonas Pereira/Agência Senado

Argentina: Cristina resiste contra golpistas apoiados pelos EUA

17/03/2015 - Copyleft

Argentina: Cristina resiste contra golpistas apoiados pelos EUA

O que se viu na Avenida de Maio tem muita semelhança com as manifestações da Avenida Paulista, composta por muitos viúvos e viúvas da ditadura militar.


Dario Pignotti, de Buenos Aires

Administración Nacional de la Seguridad Social / Flickr
Um verão portenho asfixiante. Dias antes de completar 39 anos do golpe de Estado na Argentina, milhares de pessoas participaram de uma marcha contra a presidenta Cristina Fernández de Kirchner, exibindo uma atitude desestabilizadora nunca vista desde a recuperação da democracia, no começo da década de 80.

O ambiente político que impera nesses primeiros dias de março evoca a atmosfera do tango Verano Porteño, em que Piazzolla mescla uma sonoridade encrespada com uma melodia densa.

Os últimos dias de estio têm sido tórridos, com temperaturas superiores aos 30 graus, podendo alcançar os 35 graus quando alguém caminha pelas estreitas ruas do centro, próximas à Casa Rosada, o palácio de onde despacha a Chefe de Estado.

A morte do procurador Alberto Nisman, cujo corpo foi encontrado com um tiro na cabeça, é o pretexto em que se apoiam os neogolpistas interessados em incendiar o cenário.

Quando faltam 7 meses para o fim de seu segundo mandato, Cristina é objeto de uma campanha destituinte lançada pela oposição direitista e pela imprensa local, ambas respaldadas pelos principais grupos internacionais de notícias, com a CNN na vanguarda. E por trás de tudo isso, parece atuar o grande braço de Washington, interessado em fazer com que Cristina pague caro por sua aproximação com Irã, Venezuela e China.

Cristina não retrocede diante da estratégia incendiária de seus inimigos e promete enfrentá-los convocando os militantes, em boa parte os jovens, para “defender o projeto” iniciado em 2003 por seu marido, o falecido Néstor Kirchner, responsável pelo estreitamento das relações com o Brasil.


Fundamentalistas


Fanáticos, alguns inimigos do governo kirchnerista reconhecem que estão dispostos a prosseguir até um golpe branco, se com isso pudessem “defenestrar essa mulher de merda que está ocupando a Casa Rosada”, declara a senhora Beatriz Gimenez.

“Essa máfia bolivariana que está governando nosso país está acabando com tudo de bom que tivemos”, me diz uma indignadíssima Gimenez, que se apresenta como gerente de uma empresa de turismo na Avenida Santa Fe, situada no endinheirado bairro Norte, conhecido como um dos principais redutos do “anticristinismo”.

“Cristina está metida em tudo o que há de podre neste país. Eu tenho certeza de que ela mandou matar o procurador Alberto Nisman para calá-lo, foi um assassinato mafioso típico dos peronistas (seguidores do general Juan Perón). Essa gentalha tem que sair da (Casa) Rosada de qualquer jeito, porque na Argentina a maioria somos gente decente”, acrescenta.

De cabelo loiro e pele bronzeada – além de um botox que dá volume exagerado a seus lábios –, a senhora Gimenez dá por certo que o procurador Nisman “foi assassinado por gente a mando do governo”, apesar de os relatórios dos peritos da Corte Suprema não terem encontrado elementos para sustentar essa hipótese que, por ora, parece pouco crível.

As opiniões da senhora Gimenez, contaminadas pelo bombardeio de notícias falsas lançado pela imprensa tradicional, se repetem nos shoppings de alto padrão de consumo ou nos bares do aristocrático bairro da Recoleta, onde o mundo fala de política.


Espelho da Avenida Paulista


Aqui, na orla do Rio da Prata, a oposição ao kirchnerismo não emprega o termo “impeachment”, como fazem no Brasil os detratores da presidenta Dilma, mas querem que Cristina saia de qualquer modo, acusando-a pela morte do procurador Nisman – que em meados de janeiro apareceu morto com um tipo na cabeça em seu apartamento, em um episódio ainda não esclarecido, mas que poderia ter sido suicídio.

Milhares de portenhos – entre eles, a gerente Beatriz Gimenez – que participaram da passeata desestabilizadora do dia 18 de fevereiro, insultaram o governo e o grupo La Cámpora, formado por jovens quadros kirchneristas leais à mandatária e a uma gestão que culmina com os acordos estratégicos firmados com a China há um mês e com a reestatização das ferrovias, promulgada na primeira semana de março.

O que se viu na Avenida de Maio, em Buenos Aires, em fevereiro, tem muita semelhança com as manifestações da Avenida Paulista, onde senhoras bem vestidas e perfumadas escondem sua saudade pela ditadura que derrubou João Goulart em 1964.

A mobilização destituinte do mês passado que desembocou na histórica Praça de Maio foi encabeçada por um grupo de procuradores – entre os quais há vários com um passado ligado à ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983, com um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos.

Em que pese sua grande exposição, a mobilização de 18 de fevereiro não conseguiu convocar um número importante de trabalhadores organizados, nem moradores das favelas, nem jovens com menos de 25 anos, uma faixa etária na qual o kirchnerismo é forte.

Em contrapartida, o ato de respaldo ao governo, ocorrido em 1° de março, contou com a presença de uma maioria de jovens junto a quem marcharam cidadãos oriundos dos subúrbios pobres da Grande Buenos Aires.


Intromissão dos EUA e de Israel


O procurador Alberto Nisman, que era um assíduo visitante da embaixada dos EUA, segundo documentou o Wikileaks, morreu pouco depois de acusar Cristina Fernández de Kirchner, em uma entrevista exclusiva ao Grupo Clarín, de ter obstruído a investigação do atentado terrorista que matou 85 pessoas em 1994, em uma associação da comunidade judia.

Atuando como um bispo dentro do xadrez diplomático que há anos os Estados Unidos e a Argentina disputam, Nisman recebia ordens de seus chefes políticos nos Estados Unidos e, também não se descarta, em Israel.

Essa relação do fiscal morto Nisman com Washington e Tel Aviv é algo que praticamente ninguém desconhece, e é até admitida implicitamente por alguns porta-vozes da direita, como a deputada Elisa Carrió.

Com seu tom provocador, similar ao da golpista venezuelana Maria Corina Machado (amiga de Aécio Neves), a opositora Carrió recomendou ao governo que solicite apoio à CIA e denunciou uma suposta conspiração de Venezuela e Irã para semear o terror na Argentina.

É claro que o governo argentino não seguiu os conselhos da legisladora, cujas declarações extravagantes não fazem inveja às do ex-militar e deputado carioca Jair Bolsonaro.

Em 8 de março, dia Internacional da Mulher, o ministro de Relações Exteriores Héctor Timmerman declarou que seu governo segue uma política exterior “independente” e considera que não é necessário “estar muito perto” da Casa Branca.

Em entrevista ao programa “60 minutos”, do canal norte-americano CBS, o ministro disse que “Washington estava sempre pressionando” o procurador Nisman para manipular a investigação do atentado contra a associação judia em 1994, a fim de culpar o governo do Irã.

Antes de falar no “60 minutos”, o chefe da política externa portenha havia solicitado aos governos de Barack Obama e Benjamin Netaniahu que não usassem o caso Nisman para intervir na política argentina, agravando o quadro desestabilizador construído pelas forças conservadoras.

“A Argentina não tem qualquer interesse estratégico, militar ou de inteligência no Oriente Médio. E observa com preocupação como alguns Estados intervêm em outros países para resolver suas disputas geopolíticas. Meu país rechaça essas ações e solicita que elas não ocorram em território argentino”.

Essa posição do titular do Palácio San Martin, sede do ministério de Relações Exteriores, recebeu enérgicas respostas das autoridades americanas e israelenses, que insistem em culpar o Irã pela matança de 85 pessoas em 1994, em Buenos Aires.

O próprio Netaniahu reiterou sua acusação ao Irã pelo massacre ao falar no Parlamento norte-americano no começo de março, o que foi entendido como uma advertência ao governo de Cristina, que acabará em 10 de dezembro.


O mensalão de Cristina


Em várias pesquisas, Cristina, eleita duas vezes e impedida constitucionalmente de tentar um terceiro mandato, conserva uma popularidade próxima aos 40%, bastante superior à de seus adversários políticos – como Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires e homem forte do clube Boca Juniors; e Sergio Massa, um ex-funcionário do governo de Néstor Kirchner que migrou para a oposição.

Mauricio Macri e Massa possivelmente serão candidatos nas eleições presidenciais do próximo dia 15 de outubro, quando o kirchnerismo se apresentará com um postulante ainda não definido. Este terá como principal capital o respaldo da mandatária.

É nesse contexto que a estratégia conservadora se apoia no desgaste da imagem presidencial, associando-a à morte do procurador Nisman e judicializando a campanha por meio de manobras de um importante grupo de juízes e procuradores que integram o “partido judicial”, segundo definição dada por Crisina.

Embora não escondam o fato de fazerem parte da ofensiva desestabilizadora, os procuradores são tratados como próceres pela imprensa, num roteiro em que são elevados à condição de heróis nacionais por sua obsessiva perseguição ao governo – imitando o ocorrido no Brasil, com o endeusamento do ministro Joaquim Barbosa durante o processo do mensalão.

Isso explica por que a multitudinária marcha opositora de fevereiro foi encabeçada por procuradores, por trás de quem caminham, semiocultos, os dirigentes da oposição, que ainda não tem uma estratégia comum para enfrentar o kirchnerismo nas eleições de outubro.


Podemos e Chomsky


Na segunda-feira, 9 de março, quando os EUA anunciavam represálias contra a Venezuela, um grupo de jovens defendiam o governo do presidente Nicolás Maduro em um café da rua Córdoba, próximo ao belíssimo Teatro Cervantes.

“Obama está tentando derrotar Maduro e Cristina ao mesmo tempo, para erradicar a chama latino-americana acendida por Kirchner, Chávez e Lula há 10 anos, quando eles sepultaram a Alca na reunião (Cúpula das Américas) de Mar del Plata”, afirma Guillermo Guisoni, um garoto de 18 anos que pretende cursar sociologia na Universidade de Buenos Aires.

Guillermo e dois amigos da mesma idade dizem que querem assistir ao Seminário Internacional pela Emancipação e a Igualdade, organizado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria do Pensamento Nacional, em que se reuniem algumas das cabeças mais prolíficas do pensamento político e da ação política. Representantes do partido espanhol Podemos, Noam Chomsky, o vice-presidente boliviano, Alvaro García Linera, Emir Sader, Ignacio Ramonet, o mexicano Cuauhtemoc Càrdenas e o italiano Gianni Vattimo estão entre os que dissertarão no Cervantes, uma joia arquitetônica construída à imagem e semelhança do Colégio San Idelfonso, na Espanha.

“Vamos chegar cedo ao Cervantes para ficar em primeiro na fila dos ingressos porque virá muita gente. E se não conseguirmos entrar, vamos ficar do lado de fora, vendo pelo telão”, conforma-se Guillermo, que em 15 de outubro votará pela primeira vez. “Em quem vai votar?”. “No candidato indicado por Cristina, é claro”, responde com segurança o garoto, enquanto seus companheiros sorriem com um gesto de aprovação.

 

16/03/2015 - Copyleft

'Este país está mais forte do que nunca', afirma Dilma após protestos

A presidenta disse que está disposta a dialogar com toda a sociedade e que 'não há setores acima de quaisquer suspeitas.'


Najla Passos
Um dia após os protestos que sacudiram o país e levaram milhares de brasileiros às ruas, a presidenta Dilma Rousseff afirmou, durante a cerimônia de sanção do novo texto do Código de Processo Civil, no Palácio do Planalto, que a democracia pela qual sempre lutou segue firme  no Brasil.

“Ontem quando vi, como ocorreu na sexta, centenas de milhares de cidadãos se manifestando nas ruas, não pude deixar de pensar e tenho certeza que muitos concordam comigo: valeu a pena lutar pela liberdade, pela democracia. Este país está mais forte que nunca”, observou.

Segundo a presidenta, a maturidade democrática garante o direito às manifestações sem violência e sem intolerância, ainda que contrárias ao seu governo. E admitiu que é obrigação do governo ouvir a todos.

“O meu compromisso é governar para os 203 milhões de brasileiros. Sejam os que me elegeram, sejam os que não votaram em mim. Sejam os que participam das manifestações, sejam os que não participam”, acrescentou.

Em coletiva à imprensa, ela adotou um tom humilde e disse estar aberta a dialogar com todos os setores da sociedade. Mas ressaltou que, para dialogar, é preciso que haja disposição também do outro lado.

E não se rendeu à tentativa de alguns jornalistas de insuflá-la a fazer uma espécie de mea culpa pública, admitindo para si a responsabilidade tanto pela crise política quanto pela corrupção no país. Segundo a presidenta, é preciso ter claro que a corrupção no Brasil não nasceu hoje.

“Ela é uma senhora bastante idosa neste país e não poupa ninguém. Ela pode estar em qualquer área, inclusive no setor privado. Não vamos achar que tem qualquer segmento acima de qualquer suspeita", alfinetou.

Dilma reafirmou que irá enviar nos próximos dias ao Congresso o pacote de medidas de combate à corrupção que havia prometido nas eleições, conforme já avia anunciado o ministro José Eduardo Cardoso.

De acordo com a presidenta, esta é a pauta das ruas que está em acordo com as diretrizes do seu governo. O desacordo seria em relação ao ajuste fiscal que, apesar de rejeitado pelos movimentos sociais, ela defendeu com rigor e didatismo jamais vistos.

A presidenta explicou que, nos últimos quatro anos, o governo usou todas as estratégias possíveis para absorver o custo da crise e não repassá-lo à população. Entretanto, lembrou que, como a crise continua e as condições climáticas não favorecem, os recursos estão se esgotando. “É por isso que defendo as medidas fiscais com tanta paixão”, esclareceu.

Ela também ressaltou a necessidade urgente da reforma política tão aclamada pelas ruas. Segundo Dilma, essa ampla reforma política deve ser feita com a participação da sociedade, mas no ambiente institucional correto, que é o congresso nacional.

O chão firme que resta ao governo

O chão firme que resta ao governo


O governo não pode mais negligenciar aqueles que demonstram responsabilidade política e querem renegociar a transição em curso no país.
Saul Leblon

Não há muito tempo, nem são tantas as opções assim. Os dados na mesa estão cada vez mais claros.

Eles exigem opções estruturais e coragem política para adotá-las.

O banho-maria já não alivia a pressão da caldeira.

O governo precisa negociar o futuro do país.

E fazê-lo dentro de certos critérios de bom senso histórico.

É preciso negociar com o país que ainda quer conversar sobre soluções coletivas  para os desafios nacionais.

Com o país que ainda se dispõe a erguer as linhas de passagem racionais e necessárias para a reordenação do seu crescimento e a capacitação da democracia, a quem caberá, afinal, ordenar e escrutinar a transição de ciclo econômico em marcha, determinada substancialmente pela desordem neoliberal reinante no mundo.

O governo teve entre sexta-feira e domingo um painel vivo do conflito latejante no tabuleiro.

Um conflito que ganha nitidez vertiginosa entre os que ainda querem e os que não parecem ver mais sentido em uma conversa democrática, liderada pela Presidenta reeleita com 54 milhões de votos.


Duas massivas manifestações tiveram lugar no mesmo palco simbólico da luta pelo poder no Brasil.

A plutocrática Avenida Paulista, em São Paulo, tem menos de três quilômetros.

Mas condensa o poder dos bancos e das entidades empresariais, projetando-se, ademais, como um território cultural simbólico da elite derrotada em outubro de 2014.

Na sexta-feira marcharam os rostos do Brasil que vive nas periferias e ocupa os degraus de baixo da pirâmide de renda.

Foram tratados e olhados como marcianos pela mídia e por aqueles que veem em cada passo da iniciativa popular no país – do Bolsa Família, ao Mais Médicos, passando por uma passeata ou greve - as dores do parto de uma nova Cuba irrompendo do asfalto de sua pista de bike.

A crescente intolerância com essa dimensão nova da política brasileira manifesta-se no esforço de manter invisível, ilegítimo e subestimado o peso desse protagonista numericamente majoritário da sociedade.

A dificuldade cognitiva em enxergá-lo exceto nas funções subalternas é tão arraigada e difundida que a cada derrota eleitoral dos candidatos da elite o país vive um terceiro turno virulento dos inconformados.

Não por acaso, a presença desse Brasil invisível na Paulista na sexta, 13, foi reduzida à quarta parte da sua presença real pela Política Militar do governo tucano paulista e pela Globo.

‘Gente paga’, acusou o inconformismo de muitos daqueles que no domingo, tingiram a mesma avenida com uma massa colossal de rosto e demanda distintos.

A mesma dobradinha policial midiática que reduziu a um quarto os 41 mil manifestantes da sexta, segundo o Datafolha, multiplicou por cinco os 210 mil presentes ali no domingo, estimados pelo mesmo instituto de pendores sabidos.

Não se trata apenas de uma casquinha estatística.

Trata-se de criar comoção.

Aquela reação que desautoriza e abastarda a razão, a reflexão e a política e, portanto, qualquer outra opinião em contrário que desafie a ‘unanimidade esmagadora’ da sociedade – conceito que em si choca o ovo da serpente.

Foi o que fez a emissão conservadora durante todo o domingo em flashes desde cedo que rastreavam o país em busca de acepipes para motivar o deslocamento da classe média paulista à praça da apoteose.

O 'vem para a rua' conservador teve a partir da tarde o impulso fundamental do bate-bola entre as redes de televisão e a Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Em menos de duas horas, no afã de lotar o palco, a PM de Alckmin e a Globo multiplicaram por quatro o seu próprio exagero: de anunciados 240 mil pessoas na Paulista, por volta das 15h, mais que dobraram o contingente meia hora depois, para 580 mil e, na sequência, em escalada fulminante para dobrar de joelhos qualquer relutância, com perceptível sofreguidão nas vozes de um entusiasmo explicito, saltaram para a marca almejada: ‘mais de um milhão na Paulista nesse momento’.

Só então sossegaram, trocando passes para consolidar o ‘consenso’ em repetições autocomemorativas.

Orson Wells fez algo parecido em 1938, quando os recursos disponíveis eram substancialmente inferiores aos atuais.

Em 30 de outubro a rede de rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interrompeu a grade musical repentinamente para noticiar uma invasão de marcianos.

A ‘notícia’ transmitida com requintes de realismo assustador era a primeira frase de um radio-teatro de ficção científica ‘A Guerra dos Mundos’.

A CBS manteria o assunto no ar durante 60 minutos como se fosse verdade.

A narrativa tensa entrelaçada de flashes em espiral apavorante informava a chegada de centenas de marcianos a bordo de naves extraterrestres à cidade de Grover's Mill, em Nova Jersey.

A coisa se tornou ‘viral’, como se diz hoje se consolidando como um marco no exercício de manipulação da opinião pública pela mídia – razão pela qual seu poder precisa ser regularizado com o antígeno da pluralidade, que os barões do oligopólio local chamam ironicamente de ‘bolivarianismo’.

A peça radiofônica de 1938, que gerou comoção e fuga em massa para locais não ‘atacados’, induzidos pela CBS, ficou conhecida como a ‘radiofonia do pânico’ ou a ‘emissão do pânico".

O que esse episódio evidenciou com notável realismo é que a emissão do pânico não torna uma sociedade vulnerável apenas a marcianos.

O peso político dos consensos manipulados pode ter efeitos desastrosos na trajetória de uma Nação.

A história do Brasil mostra isso.

O acervo do Ibope guardado no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, reúne pesquisas de opinião pública feitas às vésperas do golpe de 1964.

Os dados cuidadosamente ocultados naqueles dias assumem incontornável atualidade cotejados com a ação do aparato midiático nas horas que correm.

Enquetes levadas às ruas entre os dias 20 e 30 de março de 1964, quando a democracia já era tangida ao matadouro pelos que bradavam em sua defesa e contra a corrupção, mostram que:

a) 69% dos entrevistados avaliavam o governo Jango como ótimo (15%), bom (30%) e regular (24%); b) apenas 15% o consideravam ruim ou péssimo, fazendo eco do que afirmavam os jornais; c) 49,8% cogitavam votar em Jango, caso ele se candidatasse à reeleição em 1965; d) 41,8% rejeitavam essa opção; d) 59% apoiavam as medidas anunciadas pelo Presidente na famosa sexta-feira, 13 de março  (em comício que reuniu 150 mil pessoas na Central do Brasil Jango assinaria decretos que expropriavam as terras às margens das rodovias para fins de reforma agrária, nacionalizara  refinarias de petróleo e cogitara plebiscitos para autorizar o voto dos analfabetos, ademais de promover uma reforma política – ele que, como Dilma, era refém de um Congresso conservador).

As pesquisas sigilosas do Ibope formam o contrapelo estatístico de um jornalismo que ocultou elementos da equação política, convocou, exortou, manipulou, orientou e criou a comoção necessária à legitimação da derrubada violenta do Presidente da República, em 31 de março de 1964.

Em editorial escrito com a tintura do cinismo, um dos centuriões daquelas jornadas, o diário O Globo, fez recentemente a autocrítica esperta de sua participação na ficção política em que os marcianos eram os comunistas cubanos.

O Globo lamenta agora o apoio explícito ao golpe de Estado, mas justifica a violência institucional: era inevitável, afirma, diante do quadro caótico e extremado vivido então.

O editorial da família Marinho omite a sua decisiva participação na semeadura do pânico caótico e extremado vivido então.

A comoção inoculada  no imaginário  brasileiro  nesse momento - leiam as manchetes de qualquer jornal e listem a coluna das perdas e danos - é anterior ao consenso estatístico criada pela invasão de ‘mais de um milhão’ na Paulista - troco arredondado para ‘Milhões contra Dilma e a corrupção’, no site do Globo nesta 2ª feira.

Dilma e o PT não tiveram o apoio da classe média da Paulista nas urnas de outubro.

Não há razão para acreditar que o teriam agora em um quadro em que, sem a neutralidade do horário eleitoral para argumentar, o governo se resigna a entrevistas de ministros convocadas na verdade pela mídia para repercutir suas manchetes do dia anterior.

O agravamento da crise, com a escalada do dólar que atingiu o nervo não negligenciável de um segmento cuja pátria é o turismo internacional, ademais de elevar o custo de vida e o risco do desemprego, tudo isso foi habilmente martelado pela mídia para desaguar na catarse anticorrupção que energizou o milhão de domingo e os milhões da segunda-feira ‘contra Dilma’. 

Em time que está ganhando em saltos de mil para milhão e de milhão para milhões em um átimo de tempo, não há razões para se acreditar em mudança.

Quem precisa mudar é o governo.

Sua margem de manobra se estreita, ou melhor, ganha a nitidez prática que o bom senso político já advertia antes das eleições.

A nitidez mostra um governo sem canal de comunicação com a sociedade sendo encostada na parede por uma parte dela, para ‘atender’ a uma demanda de natureza difusa, irracional e de ultimato.

A agenda da comoção cobra de Brasília uma plataforma que não reserva outro espaço ao exercício da política que não a derrubada do governo.

Se não, vejamos.

A reforma política proposta para atacar a corrupção pela raiz, com o fim do financiamento privado de campanha, é tratada como ‘embromação’, no douto dizer de um ‘analista’ isento do jornal Valor nesta 2ª feira.

A austeridade ortodoxa – exigida pelo conservadorismo — e concedida pelo governo é diuturnamente classificada como ‘insuficiente’, ao mesmo tempo em que se difunde o terror diante das consequências negativas que as medidas já tomadas acarretam à sociedade (desemprego com inflação em alta, dólar mais caro e juros siderais).

Mas não, ‘Dilma não assumiu o ajuste’ e, ao mesmo tempo, ‘ as medidas do ajuste já sinalizam a recessão’, regurgitam colunistas do glorioso jornalismo de economia, auto mandatados para o exercício militante da incoerência.

As tímidas tentativas do Planalto de fazer o que o PT deveria ter  providenciado imediatamente após as eleições ou, melhor ainda, durante a campanha, ou seja, uma repactuação do país para a transição rumo a um novo ciclo de desenvolvimento são respondidas de forma peremptória pelo PSDB.

‘Não é hora de afastar Dilma nem de pactuar’, sentenciou o pavão Fernando Henrique Cardoso, assessorado pelo galo de briga das caçarolas de cobre, Aloysio Nunes Ferreira, ‘Eu quero sangrar a Dilma (para evitar Lula em 2018)’.

O que sobra, então, para traduzir as ruas em exercício político da democracia?

O impasse criado por quem insufla um milhão, ou ‘milhões’, mas não oferece alternativas críveis, exceto o sangramento de sua conveniência, costuma ser resolvido na história latino-americana da forma que sabemos.

Os selfies multiplicados na Paulista neste domingo no reencontro idílico entre uma classe média de sabidas tradições e integrantes da tropa de choque de Alckmin, evidenciam o terreno fértil à prática dessa lavoura regional.

Voltamos assim ao preâmbulo da nota publicada neste espaço na sexta-feira, após a manifestação do ‘tostão’, segundo a mídia, no mesmo palco do ‘milhão’ de domingo.

O que se dizia ali é que, se há aprendizado em política, o governo não poderia mais  ignorar o que ali se evidenciou.

O que se evidenciou ali é que existe – ainda - uma base social maior talvez do que o próprio governo supõe,  que transgrediu todas as dificuldades impostas (não só pela mídia, mas pelo PT, que se omitiu, e por Brasília, que titubeou e ficou distante) para ir ao templo das elites e ali promover uma passeata dos 50 mil tostões, antes da blitzkrieg estatística do domingo.

No altar do dinheiro e da elite paulistana, rostos, roupas e vidas de recorte predominantemente humilde - tudo muito distinto da bem nutrida alegoria do domingo - deixariam ali um recado que nem o temporal copioso do dia, nem o aluvião midiático posterior conseguiriam apagar: ‘Temos críticas, temos restrições, temos exigências e temos propostas. Mas queremos negociar com o governo democraticamente eleito da Presidenta Dilma’, diziam as faces de seriedade algo apreensiva debaixo da chuva inclemente.

Ainda há tempo de Brasília ouvir o recado.

O governo democraticamente eleito da Presidenta Dilma necessita, de forma urgente, negociar a repactuação do país com o futuro.

Até para tornar compreensível e tolerável as restrições do presente, que são reais.

Precisa ter um interlocutor credenciado para construir essa ponte em nome da Presidenta, com legitimidade e força política incontestável.

E precisa começar procurando quem quer conversar.

Mas, sobretudo, quem demonstra responsabilidade e discernimento político para se oferecer como um chão firme alternativo à ‘emissão do caos e do pânico’.

Esse que, infelizmente, não leva apenas a um domingão de selfies com centuriões da tropa de choque na Avenida Paulista.

Ou o governo reconhece esse interlocutor e mexe no tabuleiro do xadrez com as peças que se dispõem a permanecer no jogo democrático, e de lance em lance altera a rigidez das demais, ou o governo será tomado ele próprio por uma rigidez cadavérica.
 
Aquela a partir da qual o xeque-mate é uma questão de tempo.