quinta-feira, 19 de março de 2015

Uma experiência de choque: o encontro com José Mujica

19/03/2015 - Copyleft

Uma experiência de choque: o encontro com José Mujica

'Precisamos de uma cultura alternativa à cultura do capital. Ela não pode nos dar felicidade, pois, na ânsia de acumular, não nos sobra tempo para viver.'


Leonardo Boff

Gonzalo Viera Azpiroz / Flickr
Participando de um congreso iberoamericano sobre Medicina Familiar e Comunitária, realizado em Montevideo dos dias 18-22 de março, tive a oportunidade sempre desejada de um encontro com o ex-presidente do Uruguai José Mujica. Finalmente foi possível no dia 17 de março por volta das 16.00 horas. Tal encontro deu-se em sua Chácara, nos arredores da capital Montevideo.
 
Encontramos uma pessoa que vendo-a e ouvindo-a somos imediatamente remetidos a figuras clássicas do passado, como Leon Tolstoi, Maathma Gandhi e até com Francisco de Assis. Aí estava ele com sua camisa suada e rasgada pelo trabalho no campo, com uma calça de esporte muito usada e sandálias rudes, deixando ver uns pés empoierados como quem vem da faina da terra.
 
Vive numa casa humilde e ao lado, o velho fusca que não anda mais que 70 km a hora. Já lhe ofereceram um milhão de dólares por ele; rejeitou a ofera por respeito ao velho carro que diariamente o levava ao palácio presidencial e por consideração do amigo que lho havia dado de presente.
 
Rejeita que o considerem pobre. Diz: "não sou pobre, porque tenho  tudo o que preciso para viver; pobre não é não ter; é estar fora da comunidade; e eu não estou".
 
Pertenceu à resistência à ditadura militar. Viveu na prisão por treze anos e por um bom tempo dentro de um poço, coisa que lhe deixou sequelas até osdias de hoje. Mas nunca fala disso, nem mostra o mínimo ressentimento.Comenta que a vida lhe fez passar por muitas situações difíceis; mas todas eram boas para lhe dar sábias lições e por e fazê-lo crescer.
 
Conversamos por mais de uma hora e meia. Começamos com a situação do Brasil e, em geral da América Latina. Mostrou-se muito solidário com Dilma especialmente em sua determinação de cobrar investigação rigorosa e punição adequada aos corruptos e corruptores do caso penoso da Petrobrás. Não deixou de assinalar que há uma política orquestrada a partir dos Estados Unidos de desestabilizar governos que tentam realizar um projeto autônomo de país.
 
Isso está ocorrendo no Norte da Africa e pode estar em curso também na América Latina e no Brasil. Sempre em articulação com os setores mais abastados e poderosos de dentro do país que temem mudanças sociais que lhes podem ameaçar os privilégios históricos.
 
Mas a grande conversa foi sobre a situação do sistema - vida e do sistema - Terra. Ai me dei conta do horizonte vasto de sua visão de mundo.
 
Enfatizava que a questão axial hoje não reside na preocupação pelo Uruguai, seu pais, nem por nosso continente latinoamericano, mas pelo destino de nosso planeta e do futuro de nossa civilização. Dizia, entre meditativo e preocupado, que talvez tenhamos que assistir a grandes catástrofes até que os chefes de Estado se deem conta da gravidade de nossa situação como
espécie e tomar medidas salvadoras. Caso contrário, vamos ao encontro de uma
tragédia ecológico-social inimaginável.
 
O triste, comentava Mujica, é perceber que entre os chefes de Estado, especialmente, das grandes potências econômicas,  não se verifica nenhuma preocupação em criar uma gestão plural e global do planeta Terra, já que os problemas são planetários. Cada país prefere defender seus direitos particulares, sem dar-se conta das ameaças gerais que pesam sobre a
totalidade de nosso destino.
 
Mas o ponto alto da conversa, sobre o qual pretendo voltar, foi sobre a urgência de criarmos uma cultura alternativa à dominante, a cultura do capital.  De pouco vale, sublinhava, trocarmos de modo de produção, de distribuição e de consumo se ainda mantemos os hábitos e 'valores' vividos e proclamados pela cultura do capital. Esta aprisionou toda a humanidade com a idéia de que precisamos crescer de forma ilimitada e de buscar um bem estar material sem fim. Esta cultura opõe ricos e pobres. E induz os pobres a buscarem ser como os ricos. Agiliza todos os meios para que se façam consumidores. Quanto mais são inseridos no consumo mais demandas fazem, porque o desejo induzido é ilimitado e nunca sacia o ser humano. A pretensa felicidade prometida se esvai numa grande insatisfação e vazio existencial.
 
A cultura do capital, acentuava Mujica, não pode nos dar felicidade, porque nos ocupa totalmente, na ânsia de acumular e de crescer, não nos deixando tempo de vida para simplesmente viver, celebrar a convivência com outros e nos sentir inseridos na natureza. Essa cultura é anti-vida e anti-natureza, devastada pela voracidade produtivista e consumista.
 
Importa viver o que pensamos, caso contrário, pensamos como vivemos: a espiral infernal do consumo incessante. Impõe-se a simplicidade voluntária, a sobriedade compartida e a comunhão com as pessoas e com toda a realidade. É difícil, constatava Mugica, construir as bases para esta cultura humanitária e amiga da vida. Mas temos que começar por nós mesmos.
 
Eu comentei: 'o Sr. nos oferece um vivo exemplo de que isso é possível e está no âmbito das virtualidades humanas'.
 
No final, abraçando-nos fortemente, lhe comentei: 'digo com sinceridade e com humildade: vejo que há duas pessoas no mundo que me inspiram e me dão esperança: o Papa Francisco e Pepe Mujica'. Nada disse. Olhou-me profundamente e vi que seus olhos se emudeceram de emoção.
 
Sai do encontro como quem viveu um choque existencial benfazejo: me confirmou naquilo que com tantos outros pensamos e procuramos viver. E agradeci a Deus por nos ter dado um pessoa com tanto carisma, tanta simplicidade, tanta inteireza e tanta irradiação de vida e de amor.


Créditos da foto: Gonzalo Viera Azpiroz / Flickr

O jornal anti-nacional

18/03/2015 - Copyleft

O jornal anti-nacional

Não há rede de televisão no mundo mais contrária a iniciativas diplomáticas abertas pelo seu país. Por lá, só o que é americano é que é bom.


J. Carlos de Assis*

reprodução
Em artigo anterior expus os vícios praticados pelos noticiaristas e comentaristas da Globo na cobertura distorcida do noticiário nacional. Agora vou acabar o serviço fazendo uma análise sumária do noticiário internacional. Este é o campo preferido de William Waack, onde, com seus esgares característicos, ele nada de braçadas, ora vocalizando os interesses do Departamento de Estado americano, ora fulminando com a política de integração sul americana iniciada na gestão de Lula e aprofundada no governo Dilma.

As duas mais brilhantes conquistas da diplomacia brasileira há décadas, a construção da Unasul e o apoio decidido à organização dos BRICS, pareceram à Globo um passo insignificante ou nulo para os interesses brasileiros objetivos. Por puro viés ideológico, ela desmereceu o momento político mais positivo da região, em décadas, criado por afinidades democráticas entre os presidentes da América do Sul. E relegou a Arnaldo Jabor a tarefa de caracterizar a Unasul como uma entidade ideológica esquerdista e insignificante.

A motivação óbvia é o descompasso potencial entre Unasul e os interesses norte-americanos, defendidos diligentemente por Jabor, algo que ficou ainda mais explícito com a organização dos BRICS. Neste caso, ao interesse econômico concreto, a diplomacia brasileira adicionou um aspecto adicional geoeconômico e geopolítico, tendo em vista a aproximação política do Brasil com a China e, principalmente, com a Rússia – o grande rival nuclear pós-Guerra Fria dos Estados Unidos no plano mundial. A atitude da Globo aqui não foi principalmente de oposição mas de omissão ou desmerecimento.

Talvez o fato mais significativo em outro nível, a subserviência da Globo à política racista americana pró-Israel e contra os muçulmanos, tenha sido a cobertura pela tevê da iniciativa do Governo Lula no sentido de uma solução para a questão nuclear iraniana. Com prévio conhecimento de Obama, Brasil e Turquia propuseram um caminho ao Irã e aos Estados Unidos para se chegar a um acordo aceitável para as partes. Israel ficou contra, e obrigou os Estados Unidos a voltarem atrás e abortar a iniciativa. Obama se comportou, portanto, como um mau-caráter servil aos belicistas, e o Jornal de Waack tomou o lado dos belicistas.

A Globo regozijou-se com o mau resultado da legítima tentativa do Brasil, como membro temporário do Conselho de Segurança da ONU, de tentar ajudar no encaminhamento pacífico do mais prolongado e difícil conflito no mundo contemporâneo. O comentarista Arnaldo Jabor festejou o que teria sido um monumental fracasso brasileiro, condenando publicamente a interferência de Lula num jogo político que lhe parecia ser destinado exclusivamente aos “grandes”. Não houve uma única referência ao fato de que, pela primeira vez nas negociações dos Estados Unidos (ou, como querem, do “ocidente”) com o Irã, chegou-se muito próximo de um acordo por uma audaciosa e oportuna intervenção brasileira e turca, quebrando o gelo das negociações.

Não posso imaginar nenhuma televisão no mundo que se coloque tão abertamente contra iniciativas diplomáticas abertas de seu país, em especial quando se trata de iniciativas de paz, como a rede Globo. Claro, para Waack e Jabor mais vale uma gracinha na mão que um noticiário responsável voando.  A parcialidade em favor da direita anti-palestina de Israel, assim como da direita norte-americana salta à vista. No caso do Irã, assim como foi anteriormente no caso do Iraque, o interesse norte-americano vem descaradamente coberto por um ente de razão chamado “ocidente”, como se houvesse uma real coligação de países ocidentais coordenados pelo hegemon decadente. O que se tem, hoje, na Europa é apenas medo da pressão diplomática e econômica norte-americana.

Não fossem a internet e as redes sociais, jamais saberíamos que o avião derrubado na Ucrânia o foi provavelmente por forças radicais do governo de Kiev, e não pelos insurgentes russófilos; que o assassinato de Allende foi orquestrado pelo Departamento de Estado; que o golpe brasileiro teve o patrocínio direto americano; que a direita belicista israelense sequestrou corações e mentes americanas; que o noticiário vindo dos Estados Unidos está contaminado por uma visão parcial da história mediante o controle direto pelo aparato de informação da notícia distribuída pelas agências.

Os repórteres da Globo enviados para o exterior, com raríssimas exceções – posso citar Renato Machado, com medo de prejudicá-lo no meio da mediocridade e da negatividade -, absorvem a cultura local pela ótica norte-americana, e não pela brasileira. Em matéria de política e de economia o que vale é o que agrada o Tio Sam. Em geral, são mal formados, porque a Globo dá atenção máxima à forma, não ao conteúdo. De qualquer modo, as meninas bonitas da Globo defendem suas promoções seguindo rigorosamente a cartilha de direita extremada da emissora.

Conheci Waack décadas atrás, na cobertura de uma reunião dos Sete Grandes em Bonn, na Alemanha. Na época, a cobertura política tinha total precedência sobre a econômica, pois o neoliberalismo ainda não estava plenamente instalado no mundo.  Waack se revelou contente de me entregar a parte econômica da cobertura porque, dizia ele, não sabia nada de economia. Fiz minha parte. Testemunhei o que foi a completa capitulação da França e da Itália socialistas ao credo neoliberal defendido por Reagan e Thatcher no comunicado final. Claro, Waack e a maioria dos jornalistas políticos não tiveram ideia do que estava acontecendo.

Como isso aconteceu em 1985, teria bons motivos para acreditar que, desde então, aprendera alguma coisa de economia. Não é, porém, o que revela nos comentários. Na verdade, ele trava uma tremenda guerra com Jabor, outro fundamentalista da superficialidade, para saber qual dos dois é o mais raivoso, mais insolente, mais anti-nacional. A propósito, Waack fez uma longa pesquisa militar na Alemanha e na Itália para produzir um livro em que pretendeu demonstrar cabalmente que a FEB fez verdadeiro fiasco na Segunda Guerra, e que Monte Castelo foi um vexame. Bons, mesmo, verdadeiros heróis foram os norte-americanos!

*Jornalista, economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre Economia Política, entre os quais “A Razão de Deus”.



Créditos da foto: reprodução

Avanços dos BRICS em Ciência, Tecnologia e Inovação

Os ministros da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – países que integram os Brics - assinaram nesta quarta-feira (18), no Palácio Itamaraty, em Brasília, um memorando de entendimento para institucionalizar a cooperação dos países no âmbito do bloco.
Aldo Rebelo e os titulares das pastas correlatas das outras quatro nações também subscreveram a Declaração de Brasília, que reafirma e aprofunda as prioridades estabelecidas no 1º Encontro Ministerial de CT&I dos Brics, realizado em fevereiro de 2014, na Cidade do Cabo (África do Sul). Na ocasião, o grupo aprovou a Declaração da Cidade do Cabo.
Para o ministro, os dois documentos assinados hoje "constituem sinais claros da vitalidade e do dinamismo dos Brics, que estão assentados sobre bases muito firmes, seguras e sólidas, porque a iniciativa reúne as esperanças dos nossos povos e das nossas sociedades e tem o respaldo e o apoio dos nossos parlamentos, dos nossos poderes executivos", conforme afirmou no encerramento do 2º Encontro de Ministros de Ciência, Tecnologia e Inovação do bloco de países. "Essa reunião coloca um importante tijolo na construção desse edifício que nós iniciamos há tão pouco tempo, mas que tem progredido como se fosse muito antigo".
Aldo transmitiu aos colegas a reafirmação do compromisso da presidenta Dilma Rousseff com a construção e o destino do bloco. "Estamos convictos de que os Brics surgiram e caminham juntos porque correspondem a necessidades importantes das nossas populações e também do mundo", disse. "Somos experiências civilizatórias que não ambicionam o exercício de hegemonias. Não buscamos a superação dos nossos desafios com base na superação dos nossos vizinhos e amigos. Lutamos pelo equilíbrio necessário, como pressuposto da convivência pacífica entre os povos e as nações".
No discurso de abertura, ele ressaltou possíveis áreas de pesquisas a serem exploradas pelos países que compõem o bloco. "A cooperação abre para todos nós amplos horizontes de possibilidades em todas as disciplinas onde tivermos competência para atuar", apontou. "Energias renováveis e prevenção e mitigação de desastres naturais, por exemplo, são grandes desafios não apenas para nós, mas para toda a humanidade. Nós, naturalmente, estamos dando à CT&I os meios para preservar o bem-estar da nossa população e do planeta. Também precisamos de ousadia e ambição em outros domínios, como a produção de alimentos e a proteção da saúde dos nossos povos".
Avanços e desafios
Segundo o subsecretário-geral de Meio Ambiente, Energia, Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores (MRE), embaixador José Antônio Marcondes de Carvalho, o memorando de entendimento cria uma estrutura institucional para canalizar a cooperação, "justamente para permitir que avancemos, sem nunca perder de vista que ministros representam governos e que países necessitam de resultados". A intenção, acrescentou o embaixador, é a de que esses resultados "possam efetivamente ser alcançados, a partir dessa estrutura e de outros canais, como um fórum de jovens cientistas sugerido pela Índia".
Na opinião de Marcondes de Carvalho, os debates iniciados ontem (17) na 4ª Reunião de Altas Autoridades de Ciência, Tecnologia e Inovação dos Brics reforçaram a necessidade de que haja clareza nos objetivos do bloco para o setor, entendimento dos desafios que os cinco países enfrentam e uma avaliação dos meios disponíveis para alcançar os resultados esperados. Segundo ele, a Declaração de Brasília reafirma a importância estratégica atribuída pelos cinco países para CT&I no encontro realizado no ano passado na África do Sul. "O documento assinala os desenvolvimentos ocorridos no ano que se encerrou, registra a assinatura do memorando de entendimento e manifesta a disposição e o engajamento das nações para trabalharmos no plano de ação 2015-2018, a ser concluído na Rússia".
Cooperação multilateral
A vice-ministra russa de Educação e Ciência, Ludmila Ogorodova, confirmou que a 7ª Cúpula dos Brics e o 3º Encontro de Ministros de CT&I estão marcados para o segundo semestre de 2015, na cidade de Ufa, localizada nas encostas ocidentais dos montes Urais.
Pela segunda vez na presidência rotativa do bloco, a Rússia tem como objetivos gerais, segundo sua representante, lançar o banco de desenvolvimento dos Brics, coordenar a estratégia de parceria econômica e planejar sua possível estrutura parlamentar.
Em CT&I, a Rússia propôs uma série de workshops, fóruns e conferências para estabelecer mecanismos de integração nas cinco áreas temáticas de trabalho da cooperação: mudanças climáticas e prevenção de desastres naturais, a cargo do Brasil; recursos hídricos e ecologia, sob a responsabilidade da Rússia; tecnologia geoespacial e suas aplicações, com liderança da Índia; energias alternativas e renováveis, atribuídas à China; e astronomia, coordenada pela África do Sul.
"A presidência russa dos Brics sugere uma integração cada vez maior em CT&I, com grande potencial para os países continuarem a aumentar suas produções científicas por meio de mecanismos específicos e instrumentos de cooperação multilateral", detalhou. "Hoje, os cinco países desenvolvem parcerias de forma bilateral, mas a direção ideal seria o multilateralismo. Esse conceito deverá envolver ministérios e institutos de pesquisa".
Oportunidades estratégicas
A ministra sul-africana de Ciência e Tecnologia, Naledi Pandor, definiu o bloco como uma plataforma para o desenvolvimento das nações. "Eu acredito que a área de CT&I é altamente promissora para os nossos países e também para as relações que estamos construindo no âmbito da nossa parceria", avaliou. "Existem muitas oportunidades estratégicas na família Brics que trarão imenso benefício para as nossas parcerias no continente africano, e temos o forte compromisso de avançar nessas iniciativas".
Pandor ressaltou o papel de liderança que a África do Sul exerce no programa de CT&I do seu continente. "Nossos parceiros dos Brics têm cooperação substancial com diversas nações africanas, mas estamos prontos a contribuir, por meio de nossas extensas relações e experiência na região, na cooperação do bloco com o restante da África".
Resultados
O ministro indiano da Ciência, Tecnologia e Ciências da Terra, Harsh Vardhan, considerou que existe, no século 21, uma nova dinâmica de "cooperação transcontinental" em CT&I, encabeçada pelos Brics, para abordar desafios comuns e investir recursos em soluções, em busca de "um crescimento rápido e sustentável que atenda às aspirações dos nossos povos". Na avaliação dele, posteriormente os países do bloco precisam estabelecer uma rede de centros de pesquisa e consolidar o intercâmbio de cientistas e conhecimentos, em torno da infraestrutura criada.
O vice-ministro chinês de Ciência e Tecnologia, Cao Jianlin, destacou o "grande esforço" dos Brics para aproximar CT&I "das economias, dos desenvolvimentos e do bem-estar social" dos países membros. "Também para melhorar a eficiência e a qualidade do crescimento", finalizou.
Fonte: MCTI

Banco de investimentos com apoio dos BRICS atrai outros países

Banco de investimentos com apoio dos BRICS atrai Alemanha, França e Itália

18/3/2015 11:29
Por Redação, com agências internacionais - de Berlim e Pequim

O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schaeuble, participou de reunião conjunta com os chineses
O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schaeuble, participou de reunião conjunta com os chineses
Os governos da Alemanha, França e Itália aceitaram o convite da China para ingressar no Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB, na sigla em inglês), do qual já participam o grupo do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS, também na sigla em inglês), em resposta às advertências norte-americanas para que os principais países europeus, junto com a Grã-Bretanha, desistissem da ideia. O AIIB, segundo Washington, rivaliza com o Banco Mundial (BID).
A China, segundo a agência chinesa de notícias Xinhua, pretende seguir adiante com os planos de uma rede de infraestrutura que ligue sua região mais oriental – Xian – a Atenas (na Grécia, e ao Porto de Pireus), Veneza (Italia) e Rotterdam (Holanda), depois de passar pelo Cazaquistao, Uzbequistao, Irã, Rússia e Turquia. O capital inicial do AIIB é de US$ 50 bilhões.
– Queremos trabalhar em conjunto com organizações financeiras internacionais, à qual somaremos nossa ampla experiência, para apoiar o novo banco a encontrar uma sólida reputação, em nível mundial – afirmou o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schaeuble, nesta quarta-feira.
Segundo o termo de adesão firmado entre China e Alemanha, nos moldes que seguem em negociação com os demais países europeus, ambos os países concordam que “o AIIB, como um novo banco de investimentos, pode representar um papel importante na provisão de fundos para a infraestrutura mundial”. A expectativa é que os países europeus subscrevam o capital inicial de US$ 50 bilhões até o final deste ano.
Reação dos EUA
Os Estados Unidos pediram, nesta quarta-feira, aos países europeus, que “pensem duas vezes” antes de se inscrever no novo banco de desenvolvimento liderado pela China. O movimento concentrado por parte de aliados dos Estados Unidos para participar no projeto de extensão econômica de Pequim, segundo analistas ouvidos pela agência inglesa de notícias Reuters, “é um golpe diplomático dos Estados Unidos, em seus esforços para combater o rápido crescimento da influência econômica e diplomática da China”.
A participação da Europa no novo banco, ainda segundo a Reuters, “reflete a ânsia por aderir a uma parceria econômica” com o rápido crescimento da China, segunda maior economia do mundo, em um momento de negociações comerciais espinhosas entre Bruxelas e Washington.
A União Europeia e os governos asiáticos estão frustrados que o Congresso norte-americano, que vetou a reforma dos direitos de voto no Fundo Monetário Internacional. O novo código daria aos BRICS mais voz na governança econômica global. Washington questionou se o novo banco seguirma com os altos padrões de governança e salvaguardas ambientais e sociais previstos no BID.
– Eu espero que, antes dos procedimentos finais, quem empresta seu nome a esta organização deve certificar-se de que a governança é apropriada – afirmou o secretário do Tesouro norte-americano, Jack Lew.
Lew advertiu ao Congresso, de maioria republicana, que a China e outras potências emergentes desafiam a liderança norte-americana nas instituições financeiras globais, e ele exortou os legisladores a ratificar, rapidamente, a reforma em curso no FMI, para ampliar a participação dos BRICS.
Em uma declaração conjunta, os ministros dos Negócios Estrangeiros e das Finanças da Alemanha, França e Itália disseram que iriam trabalhar para garantir que a nova instituição “siga os melhores padrões e práticas em termos de políticas de governança, de salvaguardas, de dívidas e de aquisições”.
O Ministério das Finanças do Luxemburgo, por meio de um porta-voz, também confirmou que o país, um grande centro financeiro mundial, também será um dos membros fundadores do AIIB.
O AIIB foi lançado em Pequim, no ano passado, como estímulo ao investimento na Ásia, em transporte, energia, telecomunicações e outras infra-estruturas. Uma porta-voz da Comissão Europeia, braço executivo da UE, aprovou a participação dos Estados membros no AIIB como forma de fazer face às necessidades de investimentos globais e como uma oportunidade para as empresas europeias.
O novo banco, segundo analistas, é um meio de ampliar o “suave poder” chinês na região, possivelmente em detrimento dos EUA que segue a sua própria estratégia asiática para reforçar a presença militar e econômica na região. O Banco Mundial é tradicionalmente dirigido por um candidato dos Estados Unidos e Washington também tem a maior influência no FMI.
Mais associados
O ajuste de ações e direitos de voto no FMI foi intermediado pela Grã-Bretanha em uma cúpula do G20 em 2010, e os países europeus ratificaram a medida há quase uma década. Lew disse aos legisladores que o atraso dos EUA em aceitar as mudanças mina a sua credibilidade e influência junto às instituições internacionais.
– Não é por acaso que as economias emergentes passaram a olhar para outros lugares, porque são frustrados. Francamente, os Estados Unidos estagnaram um conjunto muito leve e razoável de reformas no FMI – disse Lew.
O governo chinês disse, no início deste ano, que um total de 26 países foram incluídos como membros fundadores AIIB, na maior parte da Ásia e do Oriente Médio. Ela pretende finalizar os artigos do acordo até o final do ano. Segundo a Xinhua, a Coreia do Sul e a Suíça também fizeram consultas à China para ingressar no novo banco.
Porta-voz da chancelaria chinesa, Hong Lei não quis comentar sobre quais os países que já formam o conjunto de fundadores da instituição financeira e repetiu que o banco é “aberto, inclusivo, transparente e responsável”.