quarta-feira, 18 de maio de 2016

Eldorado dos Carajás: 20 anos de impunidade

Eldorado dos Carajás: 20 anos de impunidade

Em 17 de abril de 1996, dezenove trabalhadores rurais sem terra foram mortos pela polícia militar no episódio que ficou mundialmente conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no sudeste do Pará. Nestes vinte anos, mais 271 trabalhadores rurais e lideranças foram assassinados somente no estado do Pará, traçando um trágico cenário da luta pelo direito à terra no Brasil.
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Velório dos 19 trabalhadores assassinados. Foto Ripper.
Os trabalhadores do Movimento dos Sem Terra faziam uma caminhada até a cidade de Belém, quando foram impedidos pela polícia de prosseguir. Mais de 150 policiais – armados de fuzis, com munições reais e sem identificação nas fardas – foram destacados para interromper a caminhada, o que levou a uma ação repressiva extremamente violenta e na morte dos trabalhadores. Vinte anos depois, apenas dois comandantes da operação foram condenados – Coronel Mario Colares Pantoja, condenado a 258 anos, e Major Oliveira, condenado a 158 anos – e estão presos desde 2012. Nenhum policial ou autoridade política foi responsabilizado.
“É inaceitável que a impunidade continue sendo a regra para crimes cometidos contra trabalhadores e trabalhadoras do campo. Investigar e levar à justiça mandantes e executores, assim como garantir o direito à terra são condições fundamentais para que haja justiça no campo e para a efetiva vigência dos direitos humanos no país”, afirma Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional Brasil.
Ao longo destes anos, a organização documentou e analisou as violações de direitos humanos cometidas no massacre de Eldorado dos Carajás monitorou o andamento do processo judicial e demandou justiça no julgamento dos responsáveis. As autópsias revelaram que 10 dos 19 mortos foram executados, inclusive à queima roupa, e outros foram mutilados até a morte com suas próprias ferramentas de trabalho. O massacre também deixou 69 pessoas feridas, entre elas muitas com sequelas resultantes de balas alojadas em partes do corpo que as impossibilitam de trabalhar no campo. Dois deles faleceram em consequência dos ferimentos, totalizando 21 vítimas.
“Não se apurou o fato de os policiais que participaram da ação terem retirado suas identificações das fardas e de terem extraviado as cautelas (documento que relaciona o policial à arma utilizada para o crime). Ninguém foi investigado em razão de ter retirado os corpos da cena do crime sem a devida perícia no local. Não foi feita a reconstituição do crime”, relata José Batista Gonçalves Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá, Pará.
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Violência no campo e impunidade
O massacre de Eldorado dos Carajás não é um episódio isolado. Ele tornou-se símbolo do padrão recorrente de violações de direitos humanos e injustiças cometidas contra camponeses, trabalhadores e trabalhadoras rurais, povos indígenas e populações tradicionais como quilombolas, pescadores, ribeirinhos, seus advogados e defensores de direitos humanos engajados nas lutas pelo direito à terra e recursos naturais no Brasil. A Anistia Internacional Brasil tem acompanhado em especial o caso de Laísa Santos Sampaio. A irmã e o cunhado (Maria e José Claudio do Espirito Santo) de Laísa foram assassinados em maio de 2011 em Marabá, Pará, por sua denúncia da grilagem de terras e destruição da floresta. Desde então, Laísa está ameaçada de morte.
Em 2015, o Brasil registrou o maior número de mortes por conflitos por terra dos últimos 12 anos. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou 50 assassinatos, 144 pessoas ameaçadas e 59 tentativas de homicídio em conflitos no campo. Os estados de Rondônia, Pará e Maranhão concentram 90% desses casos.
Somente no estado do Pará, entre 1964 e 2014 (40 anos), foram registrados 947 assassinatos de trabalhadores rurais, lideranças, religiosos e advogados. As regiões sul e sudeste do estado apresentam os índices mais altos de violência e concentram a maioria dos assassinatos de trabalhadores e lideranças ruais.
A impunidade estimula a continuidade destes crimes. Dos 40 municípios do sul e sudeste do Pará, 30 possuem taxa de 100% de impunidade em relação aos assassinatos de trabalhadores rurais nos últimos 43 anos.ii “São raros os casos de assassinatos no campo que vão a júri, mais raro ainda que os responsáveis sejam condenados, e muito mais raro que os condenados cumpram pena. A impunidade, a lentidão nas desapropriações e no cumprimento das demarcações de terras previstas na Constituição Federal favorecem a violação de direitos fundamentais”, destaca Roque.
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Exposição
A exposição “Eldorado dos Carajás: 20 anos de impunidade” – resultado de uma parceria envolvendo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Anistia Internacional Brasil, fotos de João Roberto Ripper e curadoria de Julia Mariano -, é uma contribuição não somente à memória, mas também à luta pelo direito à terra e pelo fim da impunidade.
As imagens que estão expostas na curva do S desde o dia 11 de abril revelam a dor, a brutalidade do massacre e a injustiça, mas expressam também a força da resistência, da solidariedade e da esperança do direito à terra ser conquistado. Por meio da força destas imagens, fica o convite para a sociedade brasileira não mais aceitar que a impunidade continue sendo a regra para crimes cometidos contra trabalhadores e trabalhadoras do campo.
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Primeiro de Maio e o líder operário Domingos Passos

Primeiro de Maio e o líder operário Domingos Passos

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Primeiro de Maio é oficialmente celebrado em mais cento e vinte países, e sua importância nas sociedades somente é comparável aos dias vinte e cinco de dezembro e primeiro de janeiro. Mas não foi sempre assim, como veremos.
Carlos Russo Jr*
Domingos Passos.
Há 102 anos, o Primeiro de Maio de 1914 foi uma das primeiras jornadas de afirmação de classe do proletariado brasileiro, barbaramente reprimida. Coordenada por Domingos Passos, logo a seguir fundou-se a Federação Operária do Rio de Janeiro e, em 1917, ocorreu a primeira Greve Geral Brasileira.
Um dos fatores que mais diferenciam o dia “Primeiro de Maio” das demais datas comemorativas é o fato de ela não haver sido instituída por religião alguma, assim como tão pouco foram poderes governamentais que a instituíram, mas sim, um movimento absolutamente não oficial de homens e mulheres pobres. O evento internacional da classe operária e dos trabalhadores foi instituído em 1890, através de uma convocação da Segunda Internacional, a bem da verdade, de sua ala marxista. Uma resolução aprovada em Paris, em junho de 1889, em comemoração ao centenário da Grande Revolução Francesa, e sua principal bandeira de lutas era pelo limite do dia de trabalho em oito horas.
Um importante detalhe. A convocação foi feita para uma única manifestação internacional, “que deveria realizar-se de acordo com as condições de cada país”. Como, posteriormente, escreveu Edouard Vailland, um dos mais importantes delegados da Internacional Socialdemocrata: “Quem poderia ter previsto o rápido e impressionante crescimento do Primeiro de Maio?”
Naquele momento histórico, uma questão importante dividia os comunistas, os social democratas e os anarquistas. Como o primeiro dia de maio de 1890 coincidia com uma quinta feira, necessariamente haveria de ser declarada uma greve; as atividades laborais parariam única forma de viabilizar as atividades previstas. De todo modo, parar as máquinas e manifestar-se consistia numa atitude aberta de desafio político, num gesto de afirmação de classe social em si e para si.
Uma correspondência entre Engels e Bebel enfatiza a necessidade de se evitarem conflitos, de que houvesse por parte da liderança “certo controle das manifestações programadas, evitando-se provocações desnecessárias”.
1 de Maio Diaologos do Sul2Para enorme surpresa dos organizadores, a convocatória do Primeiro de Maio de 1890 teve uma resposta de massas impressionante, conseqüência do avanço da força e da confiança que a classe operária experimentava naquele momento histórico. Na Grã Bretanha, em decorrência da greve vitoriosa das Docas de 1889 e na Alemanha, onde a vitória dos comunistas e dos social democratas derrotara uma lei anti-social de Bismarck, um sentimento de poder transformador dos proletários, desde que se unissem como classe social, fazia-se sentir. Novamente, “o espectro do comunismo” voltava a rondar a Europa.
Como resultado mais de trezentas mil pessoas tomou o Hyde Park em Londres. Em Berlim, o centro mais reacionário da Europa Central, cinquenta mil operários compareceu à convocatória e em Hamburgo, a “cidade vermelha alemã”, mais de cem mil saíram às ruas. O movimento em Copenhagen teve ao redor de 40% de adesão proletária. Em Viena, nos dizeres de Engels e de Adler ocorrera “a mais impressionante das manifestações”, uma massa superior a duzentas mil pessoas realizou sua caminhada, de forma “organizada e consciente”.
Tendo em vista o sucesso alcançado em 1890, o próximo encontro da Internacional Socialdemocrata, com os votos contrários dos delegados alemães e dos ingleses, endossou a posição política de Engels, de Adler, assim como a dos delegados espanhóis e dos franceses, a favor da repetição da manifestação do dia Primeiro de Maio, em 1891, “especialmente se combinada com a interrupção do trabalho, e não apenas como expressão de opinião”. Disse Adler, em 1893, “Esse é o sentido do feriado de maio, do descanso do trabalho, que nossos inimigos de classe temem. E temem por saberem que isso é revolucionário”.
Foi em fins de 1891, que o Congresso Internacional de Bruxelas instituiu, agora em forma permanente, que todo o dia “Primeiro de Maio deveria ser um dia de reivindicações econômicas e de afirmação da luta de classes”. Acrescentou também uma nova bandeira às econômicas: a luta pela paz, o que fortaleceu sobremaneira o caráter internacionalista do evento.
É importante destacar outra inovação: falava claramente em “comemorar o Primeiro de Maio”, incorporando à data dos proletários, a realização de festividades.
Essa orientação chegou a provocar um início de ruptura política por parte dos anarco- sindicalistas. Para eles, a data deveria ser exclusivamente de lutas, pois encaravam o “Primeiro de Maio” como uma celebração devida aos mártires operários massacrados pela polícia de Chicago, em 1886.
1-maio-chicagoNo dia 3 de maio de 1886, que a polícia estadunidense disparou contra um grupo de operários da fábrica McCormick Harvester, que estava em greve há dois dias, matando seis e ferindo mais de cinquenta pessoas. Dezenas de operários foram presos. Dia 4, ao final de uma manifestação de protesto, a polícia novamente atacou: centenas de operários morreram ou baleados, ou pisoteados por animais ou pessoas em fuga. Jamais os números finais do massacre foram divulgados. Não bastasse tão selvagem repressão, os líderes do movimento foram levados a julgamento por conspiração. A sentença condenou à morte na forca os operários Engel, Fischer, Lingg e Spies; outros dois, Fieldem e Schwab, à prisão perpétua; e Neeb, foi condenado a cumprir quinze anos de prisão.
Do ponto de vista dos anarquistas, o “luto” e não a “comemoração” deveria dar o tom.
De qualquer modo, quer assumindo o caráter de luta por objetivos econômicos e sociais, com um aspecto festivo, que foi o predominante na Europa Central; quer tipificando-se como uma manifestação ao estilo “martirológico”, no dizer de Hobsbawm, o que veio a ocorrer em países da América Latina, na Espanha e na Itália, em um dia de todos os anos, homens, mulheres e crianças permaneceram ausentes do trabalho, assumindo-se como classe social.
Normalmente os encontros políticos e as passeatas desenvolviam-se na parte da manhã e a tarde era dedicada à sociabilidade e à diversão entre os iguais. Dessa forma, os “invisíveis” expunham-se publicamente e, por um dia, tomavam para si o espaço oficial dos governantes e da “sociedade”.
Entretanto, em breve, a luta pela democracia viria a ser incorporada às bandeiras de luta já tradicionais, compondo uma espécie de trio de ferro que permaneceu por decênios: o direito ao sufrágio direto e universal, a jornada de oito horas de trabalho e direitos de proteção ao trabalho.
As iconografias dos primeiros dias do proletariado fortaleceram sobremodo a influência de Marx e do marxismo sobre os movimentos operários. Os cartazes alemães de 1890 traziam a imagem de Karl Marx, falecido há já sete anos, de um lado e a da “Estátua da Liberdade” do outro. Nos cartazes austríacos, que convocaram o segundo Primeiro de Maio, o de 1891, Marx aparece segurando o “Das Kapital”, tendo ao fundo um horizonte em que refulgiam bandeirolas com os ideais de 1789: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.
A permanência dessa data Internacional foi um dos motivos pelo qual o marxismo exerceria, sobre os movimentos de homens e mulheres, uma enorme influência. A maioria deles jamais havia ouvido falar de Marx, de suas teorias, mas reconheceram que sua convocação à luta tornava-os conscientes deles próprios, tanto como seres humanos, quanto como classe social.
Na maioria dos países onde os movimentos de massa da classe operária já estavam presentes, o “Primeiro de Maio” tornou-se uma rotina antes mesmo do ano de 1914, ou seja, da Primeira Guerra Mundial.
Observação – Uma grande exceção constituiu os Estados Unidos da América, onde a Federação Norte-Americana do Trabalho, que já estava envolvida com os interesses empresariais, decidiu não se arriscar convocando uma greve que coincidiria com os massacres de Chicago. Optaram por um domingo, inicialmente o dia quatro de maio de 1890, e posteriormente, pelo segundo domingo de setembro, como o seu Dia do Trabalho, dele retirando o caráter de interrupção do trabalho, assegurando-lhe, exclusivamente, aspectos festivos e de repouso no lar.
Outro aspecto a se analisar são os diferentes momentos em que a data ganhou a categoria de ato oficial. A oficialização do Primeiro de Maio como dia e feriado nacional ocorreu em primeiro lugar na União Soviética, logo após a Revolução de Outubro e durante os primeiros anos da Revolução eles foram magníficos, futuristas, empolgando toda uma nação e todos os delegados de muitos países que lá compareciam representando a sua classe social.
Por outro lado, as forças anti- socialistas, reconhecendo as profundas raízes que alicerçavam o movimento, tentaram cooptar a festa dos proletários e acanalhá-la, transformando-a em novo instrumento da política de alienação e dominação social. Não por acaso, Hitler foi o primeiro líder ocidental a oficializá-la na Alemanha. Logo após, o governo fascista de Vichy, sob a liderança de Petain, igualmente tornou oficial o Primeiro de Maio, intitulando-o de “Dia da Concórdia e do Trabalho”. O governo fascista de Franco já havia feito o mesmo na Espanha, logo após sufocar em sangue a República. Entretanto, tal fato não ocorreu na Portugal Salazarista. Somente em 1974, após a Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974), o Dia do Trabalhador foi permitido oficialmente.
Quanto ao Brasil, a chegada dos imigrantes europeus trouxe novas ideias, princípios organizacionais e a perspectiva de direitos trabalhistas já conquistados na Europa. Os operários brasileiros começaram a se organizar, inicialmente, sob a influência dos anarquistas e, posteriormente, dos comunistas. O alvorecer do movimento operários e os Primeiro de Maio  estão ligados à figura de  Domingos Passos. Já em 1914, sob a liderança deste negro operário e carpinteiro, ocorreu a primeira manifestação na cidade do Rio de Janeiro. Foi um dos principais articuladores da Federação Operária do Rio de Janeiro. Em 1917 aconteceu a primeira Greve Geral brasileira, que parou boa parte da indústria e do comércio, sob a incansável liderança de Domingos Passos, o assim chamado Bakunin brasileiro, tanto por seus companheiros e quanto por seus inimigos. Domingos, que tinha dotes artísticos, também participava dos festivais operários, atuando nas peças teatrais, declamando poesias e palestrando sobre temas sociais em todos os Primeiro de Maio.
Foi preso e torturado diversas vezes, por participar de comícios, greves e piquetes. Mandado para o campo de concentração de Clevelândia, no Oiapoque, sobreviveu e fugiu através da fronteira com a Guiana. Domingos Passos retornou à ativa na Federação Operária de São Paulo em 1927. Participou do 4° Congresso Operário do Rio Grande do Sul, realizado em Porto Alegre. Ao voltar do Rio Grande do Sul, foi preso e encarcerado na “Bastilha do Cambuci”, onde permaneceu por três meses, sujeito à toda sorte de torturas e maus tratos. Retirado do cárcere, foi enviado para morrer nas matas do interior paranaense. Morreu vítima da miséria, da fome e da destruição físico-psíquica a que fora submetido.
A  classe operária se fortalecia e, em 1924, o dia Primeiro de Maio foi decretado feriado nacional pelo governo reacionário de Artur Bernardes. Mesmo tendo sido declarado feriado, até o início da Era Vargas, o Primeiro de Maio era considerado um dia de protesto, sempre marcado por greves e manifestações.
Já no Governo de Getúlio Vargas, a propaganda trabalhista, conjugada à repressão feroz ao sindicalismo independente, não pelego, habilmente passou a escolher a data para anunciar benefícios aos trabalhadores, transformando-a em “Dia do Trabalhador”. Desta forma, o dia não mais era caracterizado por protestos, e sim, comemorado exclusivamente com desfiles e festas populares, comandado pelas autoridades instaladas em seus palanques.
Foi a partir de 1945, com a derrota do nazi- fascismo e, posteriormente, com o advento da Guerra Fria, países onde os proletários possuíam organizações mais combativas e identificadas com o socialismo, onde o Primeiro de Maio, apesar de mantido oficialmente como feriado nacional, teve as suas manifestações proibidas, com a repressão abatendo-se sobre os trabalhadores que não se submetiam. Já em outros países, onde a consciência de classe era menos desenvolvida, os Primeiros de Maio mantiveram exclusivamente o seu aspecto de festa, de show, ao estilo dos sindicatos estadunidenses agrupados na AFL-CIO.
No Primeiro de Maio de 2016, nossas homenagens para Domingos Passos, aquele que há um século comandou o primeiro Primeiro de Maio da classe operária brasileira!

Fonte: Diálogos do Sul

“Trabalhadores exilados: a saga de brasileiros forçados a partir (1964-1985)”

“Trabalhadores exilados: a saga de brasileiros forçados a partir (1964-1985)”

unnamedUm livro fruto de uma pesquisa de pós-doutorado na EHSS- Ecole de École des hautes études en sciences sociales, em Paris, sob a direção do professor, o antropólogo Afrânio Garcia Jr., publicado em francês em 2015. A versão em português é da Editora Prismas.
Apresentação do professor e sociólogo Marcelo Ridente:
Este livro instigante busca recuperar a memória e a história do exílio de trabalhadores brasileiros durante a ditadura militar, ressaltando as novas socializações que proporcionou, a despeito das circunstâncias difíceis da partida forçada. Mais importante: a ênfase está em operários, pouco destacados pela literatura.
Resulta de pesquisa de fôlego, com várias entrevistas e uso de ampla bibliografia e documentação. Ele apresenta dados estatísticos sobre a composição social dos exilados, reconstitui os eixos de migração e acolhimento: Chile, Argentina, Cuba, Europa Oriental, Europa Ocidental (especialmente França, Suécia e Portugal).
Apesar das dificuldades, os exilados oriundos das classes populares recordam das oportunidades de crescimento pessoal e coletivo no exterior, do contato com outras culturas e experiências políticas, das oportunidades de estudo e aperfeiçoamento profissional, das ligações com grupos e redes de sociabilidade, aspectos que facilitaram a reinserção na sociedade brasileira após a anistia.
Escrito com clareza, o livro favorece a leitura do público em geral, mas sem perder o rigor acadêmico que o torna indispensável aos estudiosos da ditadura, do exílio e de um paradoxo latente na obra: houve relativo êxito pessoal e profissional dos militantes exilados, a despeito da derrota dos projetos políticos originais que os forçaram ao exílio.
Mazé Torquato Chotil é jornalista, doutora em ciências da informação e comunicação, realizou este trabalho de pesquisa pós-doutoral em ciências sociais na EHESS – École des hautes études en sciences sociales em Paris, onde reside.
Afrânio Garcia Jr., orientador da pesquisa, é antropólogo, mestre de conferências na EHESS e pesquisador do CESSP

Playa Girón: 55 anos da vitória sobre a invasão

Playa Girón: 55 anos da vitória sobre a invasão

Wilfredo Alayón*
Playa Girón 55 anos da vitória sobre a invasão1Cuba celebrará no próximo 19 de abril 55 anos da vitória da Playa de Girón sobre força invasora equipada, treinada e financiada pelo governo dos Estados Unidos.
Será lembrado um dia transcendente da historia do continente com a primeira grande derrota militar estadunidense na América e símbolo da decisão dos cubanos de decidir, por eles mesmos seu destino.
Desde o triunfo das forças guerrilheiras lideradas por Fidel Castro em 1o de janeiro de 1959, a administração estadunidense vê com extremo desagrado as disposições adotadas pelos dirigentes do novo Estado que emergia.
Entre as muitas decisões adotadas para beneficiar a população, a lei mais significativa foi a de Reforma Agrária, que expropriou a terra de numerosos latifundiários nacionais e de consórcios estrangeiros, especialmente estadunidenses.
Washington começou a pressionar e agredir economicamente a Cuba com fortes medidas como a anulação da cota açucareira, proibição de exportar peças de reposição além de cortar o abastecimento de petróleo.
Como complemento, os governantes de EUA implantaram um rigoroso e férreo bloqueio econômico vigente ainda hoje apesar de transcorrido o ano 16 do terceiro milênio, medida que entorpece o comercio com La Habana.
Em março de 1960, o então presidente Dwight Eisenhower ordenou à Agência Central de Inteligência (CIA), financiar, recrutar e treinar uma força de exilados cubanos em território estadunidense para invadir Cuba.
A tropa, que simulava as unidades de assalto anfíbio do exército de EUA, com a denominação de Brigada 2506, a que se incorporaram modernos equipamentos como blindados, armas automáticas e uma trintena de aviões.
Depois de vários estudos a CIA escolheu para território para a invasão uma franja de praia na Ciénega de Zapata, região situada ao sul da província ocidental de Matanzas, com pouca população e poucas vias de acesso.
O Pentágono e a CIA concordaram com batizar de Pluto essa operação cujo objetivo era, depois do desembarque, isolar uma zona, estabelecer uma cabeça de praia e formar um governo que pediria auxílio a Estados Unidos.
A invasão começou na madrugada de 17 de abril de 1961 por Playa Larga, no arco superior da Bahia de Cochinos, e pela Playa Girón, no flanco direito da baía.
Os invasores chegaram de Puerto Cabezas, na Nicarágua, em cinco navios mercantes artilhados e batizados Houston, Atlantic, Rio Escondido, Caribe e Lake Charles, além de duas unidades LCI empregadas pela marinha estadunidense. Também dispunham de duas barcaças LCU para transporte e desembarque de equipamentos pesados e outras quatro embarcações tipo LCVP para carga e transporte de pessoal.
Depois de cruentos combates, as forças cubanas dirigidas por Fidel Castro no próprio cenário da batalha, esmagaram os invasores e libertaram Girón, ultimo reduto do inimigo em 19 de abril, em menos de 72 horas.
A força agressora teve um total de 88 mortos e 1.197 prisioneiros, enquanto da parte cubana caíram 155 combatentes e um número indeterminado de feridos.
Cienaga de Zapata atualmente
A Ciénaga de Zapata é uma zona agreste em que se situa o maior e melhor conservado pântano do Caribe insular; conta com mais de nove mil habitantes em uma vintena de comunidades e 4.520 quilômetros quadrados de extensão.
Tais características demográficas e geográficas fazem dela o maior município em extensão e também o menos povoado do país. A natureza é exuberante, com flora rica e abundante fauna e conta com três espécies de aves nativas: la Gallinuela de Santo Tomás, el Cabrerito de la Ciénaga e a Ferminia.
Apesar do inóspito do território, a 200 quilômetros ao sudeste de La Habana, os cenagueros (como são conhecidos os residentes) apreendem computação no Clube Jovem, instituído para esse fim.
Com a economia fundada na exploração florestal, turismo, pesca e apicultura, desde o início deste novo século sobre intensa transformação com construção de aterros, escolas e hospitais. Desde o início do processo revolucionário funcionam centros para atendimento do turismo agora incrementado com o eco turismo. Com avanço das reformas econômicas se está incrementando a iniciativa privada, porém, com sustentabilidade e com proteção à natureza.
Para celebrar 55 anos da vitória de Girón há um esforço no desenvolvimento de programas comunitários, como o de Aldea Taína, construído numa ilha artificial na Laguna del Tesoro, e o Museu de Girón. Este museu contém armamento capturado dos invasores, fotos e resumos biográficos dos que caíram em defesa da nascente revolução, testemunho do valor e firmeza dos que combateram naquela gesta.

*Prensa Latina, de Matanzas, Cuba, especial para Diálogos do Sul

terça-feira, 17 de maio de 2016

Declaração do Governo Revolucionário de Cuba



Declaração do Governo Revolucionário de Cuba

O que ocorre no Brasil faz parte da contraofensiva reacionária do imperialismo e oligarquia contra os governos revolucionários e progressistas da América Latina e o Caribe

O Governo Revolucionário da República de Cuba tem denunciado de maneira reiterada o golpe de Estado parlamentar-judicial, disfarçado de legalidade, que se gera há vários meses no Brasil. Hoje foi consumado um passo fundamental para os objetivos golpistas. A maioria dos senadores brasileiros determinou continuar o processo de julgamento político contra a presidenta legitimamente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, e com isso, afastá-la “provisoriamente” de seu cargo por um período de até 180 dias, em que o Senado deve decidir, mediante o voto de dois terços de seus integrantes, a destituição definitiva.

Trata-se, realmente, de um ardil montado por setores da oligarquia nesse país, apoiados pela grande imprensa reacionária e o imperialismo, com o propósito de reverter o projeto político do Partido dos Trabalhadores, derrubar o governo legítimo e usurpar o poder que não puderam obter com o voto eleitoral.

O que ocorre no Brasil faz parte da contraofensiva reacionária do imperialismo e a oligarquia contra os governos revolucionários e progressistas da América Latina e o Caribe, que ameaça a paz e a estabilidade das nações, contravindo o espírito e a letra da Proclamação da América Latina e o Caribe como Zona de Paz, assinada na 2ª Cúpula da CELAC, em janeiro de 2014 em Havana pelos chefes de Estado e de Governo da região.

Tal como expressou o presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros da República de Cuba, general-de-exército Raul Castro Ruz, no encerramento do 6º Período Ordinário de Sessões da Assembleia Nacional do Poder Popular, em 29 de dezembro passado: “A história demonstra que quando a direita chega ao governo não duvida, na hora, de desmontar as políticas sociais, beneficiar os ricos, restabelecer o neoliberalismo e aplicar cruéis terapias de choque contra os trabalhadores, as mulheres e os jovens”.

O povo brasileiro, as forças políticas de esquerda e os combativos movimentos sociais dessa nação rechaçam o golpe e se oporão a qualquer tentativa de desmontar os importantes programas sociais desenvolvidos pelos governos do Partido dos Trabalhadores, com Lula e Dilma na frente, como “Bolsa Família”, “Mais Médicos”, “Minha Casa-Minha Vida” e “Fome Zero”, que mudaram a vida de dezenas de milhões de pessoas nesse país.

Dilma, Lula, o Partido dos Trabalhadores e o povo de Brasil contam e contarão sempre com toda a solidariedade de Cuba.