sábado, 28 de maio de 2016

Informativo Semanal do Prof. Ernesto Germano Pares







O que vem por aí?

Com o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, o Brasil caminha rapidamente para retomar as políticas ortodoxas na economia, a exemplo do que está acontecendo na Argentina. E, é claro, o resultado disso nós conhecemos muito bem, pois já vimos no passado: arrocho e recessão econômica.

No início da semana, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, anunciou uma série de medidas para redução do gasto público. Segundo ele, “A ideia é um plano de voo, com medidas que tenham efeitos plurianuais e impactos permanentes. Não estamos focando apenas no resultado deste ano”.

As medidas afetarão o sistema da Previdência Social e eliminarão direitos trabalhistas – ainda que isto não tenha relação com as despesas do governo. O caráter recessivo pode ser encontrado nas próprias palavras de Meirelles, que atribuiu os atuais problemas ao aumento do gasto público, em especial por uma série de políticas que, nos últimos anos, tentaram aumentar o crescimento econômico. “Não há dúvida que a questão do Brasil começou com a elaboração de uma série de políticas que criaram uma dúvida sobre a sustentabilidade e solvência do Estado”, disse.

Ao levar o projeto de lei da nova meta ao Congresso, o presidente interino, Michel Temer, foi recebido com vaias e gritos de “golpista”. Os manifestantes pediram a prisão de Romero Jucá, comparando a situação do ministro com a do ex-líder do governo Delcídio do Amaral.

Em votação simbólica, na madrugada de quarta-feira (25), o Congresso Nacional aprovou a alteração da meta fiscal do governo para este ano. O governo Temer havia pedido autorização do Congresso para mudar a meta e ampliar o rombo previsto nas contas públicas. Assim ele poderá fechar o ano com um déficit (diferença entre a arrecadação e os gastos) de R$ 170,5 bilhões.

Anteriormente, Dilma Rousseff havia proposto um déficit de R$ 96 bilhões, mas ele não chegou a ser votado pelo Congresso.

David Harvey e Tariq Ali condenam golpe no Brasil. O geógrafo britânico David Havey e o escritor paquistanês Tariq Ali expressaram repúdio ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff.  Em imagem divulgada no Facebook do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) na segunda-feira (23/05), os intelectuais aparecem segurando cartazes com os dizeres “Pare o golpe no Brasil” e “Brasil não é mais uma democracia”.

Em um vídeo gravado durante evento nos EUA, Harvey afirmou que é preciso ter solidariedade com o Brasil neste momento. Segundo o geógrafo, “precisamos encontrar uma forma de reverter o golpe e restaurar a democracia”.

Jucá era informante da embaixada dos EUA. WikiLeaks é uma organização sem fins lucrativos, sediada na Suécia, e publica na Internet matérias, fotos, informações e documentos de fontes anônimas que são vazadas de governos ou empresas sobre os mais diversos assuntos. Seu principal editor e porta-voz é o australiano Julian Assange, jornalista e ciberativista, agora ameaçado de prisão pelo governo dos EUA e asilado na embaixada do Equador em Londres, desde 2012.

Ao longo de 2010, WikiLeaks publicou grandes quantidades de documentos confidenciais do governo dos EUA, com forte repercussão mundial. Em julho daquele ano, WikiLeaks promoveu a divulgação de uma grande quantidade de documentos secretos do exército estadunidense, reportando a morte de milhares de civis na guerra do Afeganistão em decorrência da ação de militares dos EUA.

E agora estamos diante de mais uma das denúncias da WikiLeaks, muito bem fundamentada com documentos “vazados” da embaixada dos EUA: acontece que, Romero Jucá, o ministro do Planejamento indicado por Temer e que preciso renunciar por ter denunciado o esquema de corrupção no STF, era também um informante fixo da embaixadora estadunidense no Brasil (leia nota a seguir). Os documentos divulgados pela WikiLeaks mostram que Jucá era informante da embaixada desde 2009.

Obama troca embaixador no Brasil. Por que será? Por que, um dia depois de sabermos que Romero Jucá era informante da embaixada estadunidense, Obama trocou seu embaixador por aqui?

O anúncio foi feito na quarta-feira (25) e agora sabemos que o novo embaixador nomeado por Obama é um tal de Michael McKinley. Ele é, atualmente, embaixador dos EUA no Afeganistão (já imaginaram?) e assumirá o lugar de Liliana Ayalde, que está à frente da representação estadunidense no Brasil desde outubro de 2013.

Nascido na Venezuela (êpa!), McKinley é filho de pais estadunidenses e cresceu entre Brasil, México, Espanha e EUA.

O novo embaixador substituirá Liliana Ayalde, que atua há três anos no país. Antes do Brasil, Liliana foi embaixadora em Honduras (na época do golpe contra Manuel Zelaya) e no Paraguai (durante o golpe contra Fernando Lugo).

Reportagem da Agência Pública em 2013 apontou que, pouco mais de um ano depois da posse de Lugo, em 7 dezembro de 2009, Liliana escreveu um telegrama para o departamento de Estado dos EUA, onde expressava ressalvas em relação ao governo paraguaio. “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”.

O estupro e as violações! Quase todo o país está chocado com o caso da jovem que foi estuprada por 30 homens, no Rio de Janeiro. Os nossos jornais, “muito preocupados”, não perdem tempo em fazer sensacionalismo com a agressão, mas não entram no debate principal: vivemos em uma sociedade machista, elitista e que garante a impunidade para quem pertence às classes privilegiadas.

Mas, além disso, há uma questão de fundo que não podemos deixar passar sem alguns comentários.

Em 2013, a presidenta Dilma Rousseff assinou a Lei 12.845/13. E o que diz tal Lei?

Em seu Artigo 1º estabelece que “Os hospitais devem oferecer às vítimas de violência sexual atendimento emergencial, integral e multidisciplinar, visando ao controle e ao tratamento dos agravos físicos e psíquicos decorrentes de violência sexual, e encaminhamento, se for o caso, aos serviços de assistência social”.

No Artigo 2º estabelece que “Considera-se violência sexual, para os efeitos desta Lei, qualquer forma de atividade sexual não consentida”. E o Artigo 3º diz que “O atendimento imediato, obrigatório em todos os hospitais integrantes da rede do SUS, compreende os seguintes serviços: I - diagnóstico e tratamento das lesões físicas no aparelho genital e nas demais áreas afetadas; II - amparo médico, psicológico e social imediatos; III - facilitação do registro da ocorrência e encaminhamento ao órgão de medicina legal e às delegacias especializadas com informações que possam ser úteis à identificação do agressor e à comprovação da violência sexual; IV - profilaxia da gravidez; V - profilaxia das Doenças Sexualmente Transmissíveis - DST; VI - coleta de material para realização do exame de HIV para posterior acompanhamento e terapia; VII - fornecimento de informações às vítimas sobre os direitos legais e sobre todos os serviços sanitários disponíveis”.  Pouco adiante vamos encontrar o Parágrafo 1º: “Os serviços de que trata esta Lei são prestados de forma gratuita aos que deles necessitarem”.

Por que estamos falando tudo isso? Simples. Porque há no Congresso Nacional um Projeto de Lei, de autoria do Pastor Eurico (com Marco Feliciano e Bolsonaro) para revogar aquela Lei! Ou seja, para acabar com qualquer tipo de atendimento às mulheres vítimas de estupro. O PL 6055/2013 tem total apoio de toda a bancada evangélica no Congresso. Mas isso os nossos jornais não comentam.

Queima de estoque!

“Dormia, a nossa Pátria Mãe tão distraída

Sem perceber que era subtraída

Em tenebrosas transações”

(Chico Buarque de Holanda)

Nos melhores moldes das “queimas de estoques” feitas pelas grandes lojas, como se fosse um “saldão de inverno”, o novo governo brasileiro colocou seu ministro de Relações Exteriores, o conhecido José Serra (aquele da bolinha de papel na cabeça) para correr o mundo com uma bandeja de produtos a serem vendidos. E entre esses produtos estão as nossas empresas do setor de energia, o melhor do nosso setor financeiro (Caixa Econômica, BNDES e Banco do Brasil), além de empresas de ponta na tecnologia nacional. Tudo está sendo oferecido “a preço de banana”.

Sem que se percebesse, a nossa “imprensa imparcial” cantava loas ao novo governo e muita coisa foi acontecendo nos bastidores: projetos de leis ampliando as terceirizações, projetos de leis retirando antigos direitos dos trabalhadores, projetos de leis que vão alterar nossa PLR, etc.

No último dia 12, o Diário Oficial da União publicou a Medida Provisória No 727, criando o PPI (Programa de Parcerias de Investimentos) que é apenas um nome fantasia que inventaram para recriar as privatizações da era FHC!

De que trata a MP 727?

1) a retomada do processo de desestatização da economia, entregando para a iniciativa privada as empresas estatais que interessarem ao capital privado e;

2) a retirada do caminho de quaisquer empecilhos (sociais, ambientais, culturais e trabalhistas) que possam postergar ou afetar a rentabilidade esperada pelos investidores.

Entenderam? A MP 727 vai “limpar o caminho” para os investidores que desejarem comprar as estatais. Ou seja, retirar diretos, limpar as pendências judiciais, calar os trabalhadores e destruir suas entidades representativas.

A MP está criando um braço privado dentro do BNDES para estruturar os projetos do PPI para que eles possam, depois, serem financiados pela parte do Banco que ainda convêm que seja público, posto que lhe oferece crédito subsidiado.

E você, que bateu panelas e pediu o impeachment é cúmplice nesse roubo.

“Num tempo

Página infeliz da nossa história

Passagem desbotada na memória

Das nossas novas gerações”

(Chico Buarque de Holanda)

No México, 4.253 professores demitidos por greve! A Secretaria de Educação Pública (SEP) do México anunciou a demissão de 1.134 professores do estado de Chiapas por participação na greve de quatro dias para protestar contra a reforma educativa que está sendo implantada pelo governo. Outros 3.119 professores já haviam sido demitidos nos estados de Guerrero, Oaxaca e Michocán.

A greve foi convocada pela Coordenação Nacional de Trabalhadores em Educação (CNTE) e a SEP exige que os professores encerrem as manifestações. Mas professores de todo o país se posicionam contra as reformas que estão sendo realizadas pelo presidente Enrique Peña Nieto. Cerca de 300 professores estavam acampados desde o dia 15 de maio nas imediações da Secretaria, mas desocuparam o local na terça-feira (24) pois estavam sendo ameaçados de um ataque da Polícia local.

Gás lacrimogêneo contra professores. Um comunicado divulgado pela Seção VII (Chiapas) da CNTE divulga que, na quarta-feira (25), professores e pessoas comuns foram reprimidos com gás lacrimogêneo durante uma caminhada que estava sendo realizada para chegar à Secretaria de Governo.

O comunicado diz que o governo mexicano “mostrou claramente sua atitude fascista” ao atacar de maneira violenta e exagerada os professores de Michoacán, Guerrero, Oaxaca e Chiapas que estavam realizando a caminhada para pedir que fosse reaberto um canal de negociação. A nota da CNTE diz também que foram usados helicópteros para jogar bombas de gás sobre os manifestantes.

Na sexta-feira (27) os professores realizaram novas manifestações e uma gigantesca marcha em Los Pinos, Ciudad de México, onde está sendo mantida uma grande vigília. No estado de Oaxaca estão sendo realizados bloqueios de estradas e mobilizações perto do aeroporto da capital.

A CNTE tem mais de 200 mil filiados em todo o país, 80 mil em Oaxaca!

Argentina condena oficiais envolvidos na Operação Condor. A Justiça argentina declarou culpados, na sexta-feira (27), 15 oficiais por participação na Operação Condor, cooperação entre regimes autoritários da América do Sul entre as décadas de 1970 e 1980 para combate à “subversão” nos países.

O tribunal de Buenos Aires condenou o último presidente do período ditatorial do país, Reynaldo Bignone (1982-1983), a 20 anos de prisão por crimes de lesa-humanidade. Ele está com 88 anos e já está cumprindo pena em uma penitenciária por diversos delitos.

Além dele, outros 16 militares - 15 argentinos e um uruguaio, o coronel Manuel Juan Cordero - foram julgados por sequestro, tortura e desaparecimento forçados. Catorze foram condenados e receberam penas que variam entre oito e 25 anos de prisão, incluindo Cordero, pela privação ilegítima de liberdade do filho e da nora do poeta uruguaio Juan Gelman. Dois militares foram absolvidos.

Do total de 105 vítimas da Operação Condor que integram esse processo, iniciado há 17 anos, há 45 uruguaios, 22 chilenos, 15 paraguaios, 13 bolivianos e 10 argentinos.

A Operação Condor foi uma rede de repressão política e troca de prisioneiros formada pelos serviços de inteligência das ditaduras do Cone Sul (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai), que perdurou entre as décadas de 1970 e 1980.

O “Dia da Pátria” censurado. Dando uma clara demonstração de suas preocupações com a “democracia” no país, o presidente argentino Maurício Macri mandou fechar todos os principais espações públicos na quarta-feira (25), data em que se comemora o Dia da Pátria!

A Plaza de Mayo e adjacências da Casa Rosada (sede do Governo) amanheceram cercadas por tropas policiais para impedir manifestações de protestos contra a atual crise.

Mais de 150 mil argentinos já perderam seus empregos desde a chegada de Macri ao poder. A inflação está em 19,2%, no primeiro quadrimestre de 2016.

Mas a fortuna de Macri está muito bem! O presidente argentino, Mauricio Macri, acaba de declarar um patrimônio de sete milhões de euros em três contas no exterior: EUA, Suíça e Bahamas. Além disso, pela sua declaração, ele possui quatro imóveis na Argentina avaliados em dois milhões de pesos e uma propriedade de 33.000 metros quadrados no Uruguai, além de ações e participações em seis empresas no país.

Esta foi a sua primeira declaração desde a eleição como presidente, o que demonstra que seu patrimônio cresceu 52 milhões de pesos em apenas um ano.

Segundo a agência Europa Press, Macri tem uma conta a prazo fixo no valor de 2 milhões de pesos (127.181 euros), uma caderneta de poupança no valor de 1 milhão de dólares (894.354 euros), outras três contas de poupança com um total de 176.000 pesos (11.191 euros), uma conta corrente de 73.000 pesos (4.642 euros) e 100.000 pesos (6.358 euros) e um milhão de dólares em ativos financeiros.

Crescem os protestos na França. O presidente francês, François Hollande, reiterou na sexta-feira (27) que não irá recuar sobre a reforma trabalhista, mesmo com os crescentes protestos no país contra a flexibilização dos direitos dos trabalhadores.

“Vou manter [as mudanças] porque acredito que esta é uma boa reforma”, declarou Hollande em intervalo da reunião do G7, no Japão. Também na quinta-feira, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, defendeu que “não será modificada a filosofia geral do texto”, e principalmente o artigo 2, que estabelece a primazia da negociação dentro da empresa, em detrimento dos convênios coletivos.

Nos últimos dias, sindicatos franceses intensificaram as paralisações e manifestações, iniciadas em março, contra a reforma. Trabalhadores bloquearam o acesso a refinarias de petróleo e depósitos de combustíveis, causando escassez do recurso em todo o país.

Os bloqueios dos centros industriais e de infraestruturas de transportes multiplicaram-se na França, especialmente nas plataformas petrolíferas e centrais nucleares, em ações de protesto contra a reforma trabalhista.

A Confederação Geral do Trabalho anunciou que a paralisação atinge as 19 centrais nucleares do país – que geram mais de 75% da eletricidade na França – mas não acredita que sejam desligados os 58 reatores, antes da redução da carga produzida.

O acesso a muitos depósitos petrolíferos foi fechado por piquetes de greve, mesmo depois de as autoridades terem sido chamadas a agir em 11 bloqueios nos últimos dias. Aliás, seis das oito refinarias do país encontram-se total ou parcialmente fechadas, segundo a União Francesa de Indústrias Petrolíferas.

Como consequência, segundo o primeiro-ministro, Manuel Valls, entre 20 a 30% dos postos de combustíveis estavam desabastecidos.

Ações semelhantes ocorreram em infraestruturas estratégicas como as pontes de Normandia e de Tancarville sobre o Rio Sena, no aeroporto de Nantes, na linha férrea entre Paris e Brest ou na autoestrada entre Bordéus e Baiona.

Também os controladores aéreos franceses estão em greve, tendo levado ao cancelamento de vários voos.

Partes das barricadas foram desmontadas pela polícia e autoridades afirmam que somente uma refinaria continua bloqueada, mas os efeitos do distúrbio na distribuição de combustíveis devem durar ainda alguns dias.

Na quinta-feira (26), os franceses realizaram marchas em várias cidades do país em uma jornada de mobilização contra a reforma. Os sindicatos estimam que 300 mil pessoas tenham participado das manifestações, enquanto as autoridades francesas estimam a participação de 153 mil pessoas.

Em Paris, os sindicatos estimaram 100 mil pessoas na manifestação entre as praças da Bastilha e da Nação, enquanto a polícia contou cerca de 20 mil. Segundo o Ministério do Interior francês, 77 pessoas foram detidas no país, 36 delas na capital, e 15 agentes das forças de segurança ficaram feridos nos confrontos.

No fim do dia, oito sindicatos franceses lançaram um comunicado em que prometem intensificar as ações.

Grécia: novos cortes sociais e privatizações. Um dia antes da reunião do Eurogrupo, na terça-feira (24), o Parlamento da Grécia aprovou uma nova Lei prevendo novas medidas de austeridade!

Pelas novas medidas adotadas, haverá cortes nas áreas sociais, elevação de impostos, criação de novos impostos e criação de um novo fundo para privatizações no país. O corte nos investimentos sociais alcançará 1,8 bilhões de euros.

Em troca dessas medidas, os ministros de Finanças da zona do euro estão avaliando um novo empréstimo para a Grécia!

Metrô de Madri está parado. Os trabalhadores do metrô de Madri iniciaram, no sábado (28), uma greve de três dias, com paralisações parciais de serviços, para protestar contra o novo acordo coletivo que foi imposto à categoria.

Segundo os sindicatos que representam os trabalhadores, a greve foi convocada depois de 27 reuniões e três meses de negociação sem qualquer avanço no contrato de trabalho. O Sindicato dos Maquinistas e a Confederação Sindical das Comissões Obreras (CCOO) advertem que a empresa do metrô tenta impor condições injustas no novo contrato de trabalho para facilitar a privatização das linhas mais rentáveis.

A Bélgica contra as políticas de austeridade. Mais de 60 mil trabalhadores foram para as ruas em Bruxelas, na terça-feira (24), para protestar contra as políticas de austeridade econômica que estão sendo impostas por um governo de extrema direita. Entre as entidades que convocaram a manifestação estão: Confederação de Sindicatos Cristãos, Central Geral de Sindicatos Liberais da Bélgica e a Federação Geral do Trabalho da Bélgica.

Um vídeo que circula na Internet mostra quando um policial corre para atacar os manifestantes e é agarrado por eles, jogado no chão e desmaia. O policial, comissário Pierre Vandersmissen, é conhecido pelos movimentos sociais em Bruxelas por sua extrema agressividade. O vídeo mostra que ele corre em direção aos manifestantes com uma garrafa de gás lacrimogêneo e ataca os que estão mais próximos, mas é derrubado pela massa de manifestantes. Segundo informações que circulam, Pierre Vandersmissen é simpatizante de movimentos nazistas no país.

Na Bélgica, pelas novas medidas adotadas pelo governo, os trabalhadores perderam o direito de aposentadoria aos 65 anos de idade (agora é de 67 anos) e vários outros direitos foram retirados. As condições de trabalho estão se degradando rapidamente, a estabilidade no emprego foi extinta e o governo está impondo uma modalidade de “trabalho por prazo determinado”. Os salários estão congelados desde 2015 e não há mais o seguro desemprego e nem o atendimento público de saúde.

Israel nas mãos de radicais! Moshe Ya'alon, político israelense que renunciou ao cargo de ministro da Defesa de Israel na sexta-feira (20), declarou ao renunciar que “extremistas tomaram o controle de Israel”.

“Para minha grande tristeza, elementos extremistas e perigosos tomaram o controle de Israel e do Likud [partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu] e estão abalando as fundações e ameaçando machucar seus habitantes”, disse Ya'alon em pronunciamento à imprensa, acrescentando que “a maioria de Israel é sã” e tem como objetivo promover um país “judeu, democrático e liberal”.

“Tristemente, políticos antigos no país escolheram o caminho da incitação e da segregação de partes da sociedade israelense em vez de unificá-la”, disse o ex-ministro da Defesa. “Eu expressei minha opinião sobre o assunto mais de uma vez”, afirmou Ya'alon.

China assume novo papel no mundo. Os novos desafios globais procedem do papel da China no mundo atual, disse Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), um dos mais importantes organismos da ONU, em uma reunião com senadores mexicanos.

“Já não estamos diante de uma época de mudanças. A verdade é que se trata de uma mudança de época. Por que dizemos isso? Porque a China está assumindo um novo papel como potência mundial, não somente da área econômica, mas também na questão política e militar”, disse ela.

O Governo de Pequim “é hoje o maior contribuinte para as forças de paz, em matéria de orçamentos”, assegurou Alicia. Os líderes chineses “já não querem apenas jogar economicamente no mundo, mas politicamente, e nas Nações Unidas já ocupam pelo menos três organizações de alto nível”.

Vale lembrar que Alicia Bárcena é tida com a possível sucessora do atual secretário geral da ONU, Ban Ki Moon.

O que pretende Obama na Ásia? Quarenta anos depois de arrasar o Vietnam com terríveis bombardeios e o uso de bombas de napalm, causando a morte de mais de 3 milhões de cidadãos, Barack Obama visita o país. Curiosamente, na mesma viagem ele visita a cidade de Hiroshima, onde seu país jogou a primeira bomba atômica do mundo e causou a morte de 170 mil pessoas. O que ele pretende?

A resposta para essa pergunta está em uma declaração do próprio Obama, no final de 2015, dizendo que seu país não iria permitir que a China liderasse a economia mundial.

“Não podemos permitir que países como a China escrevam as regras da economia global. Nós devemos escrever essas regras, abrindo novos mercados aos produtos estadunidenses, estabelecendo altos padrões para a nossos trabalhadores e preservando o meio ambiente”, disse ele em um discurso sobre a implantação do TPP (Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica).

O interesse de Washington em se aproximar do Vietnam surge exatamente no momento em que a China se fortalece na região, disputando espaços marítimos na região, em particular no chamado “Mar da china”, importante rota comercial e passagem para o petróleo que vai para o Japão e outros aliados.

Curiosamente, depois de sua visita ao Vietnam Obama visitou a cidade de Hiroshima, mas declarou que seu país jamais vai pedir desculpas por ter lançado a bomba atômica.


Um Supremo Tribunal da Farsa?


Um Supremo Tribunal da Farsa?

O STF que deveria ser o principal guardião institucional da Constituição democrática, vem sendo escandalosamente o principal legitimador de sua violação.


Juarez Guimarães
Antonio Cruz / Agência Brasil
Frente a um Congresso Nacional enxovalhado por denúncias de corrupção e a um golpista interino que já assume com esmagadora rejeição da opinião pública, o sistema judiciário que vai da Lava-Jato a Procuradoria-Geral da República e ao Supremo Tribunal Federal passou a ser a principal peça de legitimação do golpe. Se é verdade que até a mais violenta ditadura ou regime de exceção  procura uma razão jurídica para cobrir a sua ilegitimidade, é preciso identificar que a singularidade da situação brasileira é exatamente que o processo de judicialização está desde o início no centro da sua viabilização e legitimação. Este foi exatamente o ponto da retórica do representante dos EUA em reunião da OEA: a legalidade prova que o impedimento da presidenta pelo funcionamento maduro das instituições da democracia não é golpe!

Esta retórica de que o poder democrático migrou definitivamente para o arbítrio de tribunais  veio a público no dia 23 de abril, em um Fórum promovido pela revista Veja, em palestra do ministro do STF, Luís Roberto Barroso, e do juiz Moro. A fala do ministro do STF, exatamente pelo progressivismo de suas posições, é a testemunha mais gritante da defesa do poder absoluto de sua corporação.

Esta retórica do poder absoluto do STF compõe-se de três peças. A primeira é a completa desqualificação da política: “O sistema político é um filme de terror que, tal como é hoje, reprime o bem e potencializa o mal”. Daí, a sequência acriticamente apologética: “Se punir corruptos fosse a regra, Moro e Joaquim Barbosa não seriam heróis nacionais”. Em sua palestra, o ministro defendeu inclusive o fim do foro privilegiado para políticos em exercício de suas funções.

Em seguida, a defesa da completa neutralidade e impossibilidade da corrupção não apenas do poder judiciário mas de qualquer membro do Supremo Tribunal Federal: “Acesso no sentido de influenciar com qualquer componente indevido uma decisão do ministro do Supremo, eu duvido muito que isto aconteça. Acho que isso é uma não possibilidade, isso, simplesmente, não acontece.”


A terceira peça retórica é a afirmação do sentido absoluto do STF, isto é, a sua posição de decidir por último e de forma incondicionada na democracia: “É impensável que alguém tenha a capacidade de paralisar as investigações. Ou que qualquer pessoa pode ter acesso ao Supremo para parar as investigações. O ministro que chega ao Supremo só responde à sua biografia e a mais ninguém.”

Esta retórica deve ser justa e democraticamente  denunciada como uma retórica do Terror  judicial. Pois é exatamente - como se estuda nas teorias republicanas e  democráticas – quando se judicializa  plenamente a democracia que mais se politiza o poder judiciário. É exatamente o contrário do que afirma Barroso: torna-se impensável, uma não possibilidade, em que em um ambiente de acirradas lutas judicializadas, o poder judiciário não seja, ele próprio, vazado, atravessado e submetido às forças políticas em luta pelo poder. 

Moro e Joaquim Barbosa não são “heróis nacionais”. São personagens midiáticos de um populismo penal que foram mitificados exatamente porque utilizaram seu poder seletivamente para punir políticos aos quais as grandes empresas de mídia fazem oposição. 

Quando à afirmação de que “um juiz do Supremo só deve responder à sua biografia”, ela não passa de um delírio escandaloso de poder absoluto. Até a tradição que legitimava o poder absoluto dos reis afirmava que eles, afinal, deviam prestar contas a Deus por seus atos. E não apenas a si próprios. Está na Constituição democrática brasileira que um juiz do Supremo pode vir a sofrer impedimento caso cometa crime de responsabilidade contra a Constituição que deve defender.  

Treze perguntas e uma sentença

Qualquer tribunal , que seguisse os preceitos democráticos e de defesa dos direitos humanos da ONU, decidiria exatamente em oposição ao STF brasileiros nas treze questões seguintes. Não há como negar que o STF brasileiro vem sistematicamente decidindo, por abuso de poder ou por vergonhosa omissão, contra a Constituição e contra as leis democráticas.

Pode um juiz federal decretar prisões em série por tempo indeterminado de acusados antes de serem julgados, passando por cima da presunção da inocência, do direito de defesa, do devido ônus da prova, por cima de razões excepcionais e legítimas que justifiquem a prisão cautelar?  

Pode um juiz federal ou a procuradores federais dirigirem um processo de acusação que viola diariamente o segredo de justiça previsto em lei, que vaza de forma seletiva e politicamente orientada delações premiadas para empresas de mídia partidarizadas?

Pode um juiz federal e um procurador-geral da República repassar para uma empresa de mídia gravações telefônicas criminosas, obtidas sem autorização, da presidente da República? 

Pode um juiz federal mandar grampear escritórios de advocacia que atuam em defesa dos acusados em processo que dirige?

Pode um juiz federal, de forma reiterada, e de forma acintosamente midiática contra um ex-presidente da República, impor depoimentos coercitivos a pessoas que nem estão indiciadas e que se dispõem civilmente a prestar depoimentos?

Podem agentes da Polícia Federal responsáveis por dirigir investigações, de profundo impacto político, promover publicamente campanhas de difamação da presidente da República? 

Pode um membro do STF emitir juízos partidários, reunir-se secretamente e promover seminários com lideranças partidárias que o indicaram para ministro, defender e violar escandalosamente o princípio da imparcialidade em julgamentos a favor de seu partido?

Pode um ministro do STF de públicos e notórios vínculos, protagonismos e juízos partidários presidir um Tribunal Superior Eleitoral?

Pode um STF impedir a posse, por decisão monocrática, de um cidadão ex-presidente não indiciado ou sequer acusado de tomar posse como ministro e, logo depois, permitir que nove ministros investigados por corrupção assumam seus cargos em um novo governo ilegítimo?

Podem ministros do STF sistematicamente omitirem juízos públicos prévios a processos que irão julgar sem o exame qualificado das razões que virão a justificá-los? 

Pode o Procurador-Geral da República vazar criminosamente trechos de delação premiada, sob segredo de justiça, de um senador que acusa a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula para justificar midiaticamente um pedido de seus indiciamentos?  

Pode o STF, casuisticamente e sem amparo legal,  decidir em horas a prisão de um senador flagrado em fala gravada sem autorização judicial de manifestar intenção de influenciar ministros do STF e, logo depois, nada decidir sobre  outro senador, presidente de um partido, ministro e reconhecido com um dos principais articuladores do golpe parlamentar, que declara haver conspirado com ministros do STF para abafar a investigação sobre corrupção?

Pode o STF permitir que um presidente da Câmara Federal, gravemente denunciado e com provas robustas de corrupção sistemática, dirija e organize o processo de impeachment de uma presidente sob a qual não pesa nenhuma acusação?

Enfim, uma sentença. Vários ministros do STF, com exceção de dois, já anteciparam seus votos de que não são a favor de um julgamento de mérito do processo de impeachment por crime de responsabilidade em razão de um princípio de “auto-contenção” do poder Judiciário frente ao poder do Congresso Nacional. O argumento é claramente inconstitucional: a Constituição prevê exatamente que o papel do STF, tendo como referência os princípios previstos na constituição, zele para que nenhum dos poderes da República cometa abusos de poder. Se não há crime de responsabilidade claramente tipificado, o processo de impeachment é golpe. O que caracteriza o mais grave abuso de poder!  

Nem coerente é: o STF não decidiu pelo “afastamento temporário” do presidente da Câmara mas, oportunisticamente, só após a votação do impeachment na Câmara Federal? A auto- contenção só vale para legitimar o golpe, para tirar sua mancha após o acontecido? Ou para favorecê-lo como no caso do impedimento arbitrário da posse de Lula? 

Se o STF decidir pela legalidade do impeachment, então, ele terá consolidado – uma teoria republicana e democrática não autorizaria senão este juízo –  o seu insubstituível papel de Supremo Tribunal da Farsa!

Democracia contra o Terror judicial

Se é verdade que o STF assume crescentemente o papel de principal fiador do governo golpista e ilegítimo de Temer – que está sendo escandalosamente protegido de ser indiciado  pelo Procurador-Geral da República, apesar de inúmeras denúncias e provas de corrupção - , então, a denúncia da inconstitucionalidade de suas decisões, de seu arbítrio, de seu casuísmo sempre a favor do golpe, de sua evidente parcialidade, deve ocupar um lugar central  na luta democrática.

Esta luta democrática deve ser travada em dois níveis, nacional e internacionalmente. Em primeiro lugar, é preciso dar voz, dar publicidade, ouvir e amplificar  as razões da imensa massa de juristas que vêm criticando, denunciando e condenando o processo de judicialização do golpe. O povo brasileiro precisa hoje das razões do constitucionalismo democrático e republicano para defender seus direitos como de um pão para quem tem fome.

Em segundo lugar, já é hora da Frente Brasil Popular e da Frente Povo sem Medo  colocarem no centro da pauta o impedimento do ministro Gilmar Mendes, como já propôs o sempre brilhante colunista Jefferson Miola, e uma campanha pública para que o STF julgue pela ilegalidade do impeachment sem crime de responsabilidade.

É o caminho democrático e republicano na luta contra a corrupção que deve prevalecer. O que o STF está a fazer, de fato, é proteger a grande coalizão PSDB/PMDB que hoje organiza a impunidade dos corruptos.


Créditos da foto: Antonio Cruz / Agência Brasil

Após estupros coletivos, ONU pede 'tolerância zero' a violência contra mulheres no Brasil


Após estupros coletivos, ONU pede 'tolerância zero' a violência contra mulheres no Brasil

Em nota, ONU Mulheres se solidariza com adolescentes vítimas e solicita que questão de gênero seja incorporada na investigação, processo e julgamento dos casos
A ONU Mulheres no Brasil pediu nesta quinta-feira (26/05) "tolerância zero" a todas as formas de violência contra as mulheres após os recentes casos de estupro coletivo no país.
Mídia Ninja

Marcha das Vadias em Porto Alegre; ONU Mulheres pede "tolerância zero" contra violência após casos de estupro coletivo
Em comunicado, a entidade se solidariza com as duas adolescentes que, recentemente, foram vítimas de estupro coletivo no Brasil. No Rio de Janeiro, uma jovem de 16 anos foi estuprada por mais de 30 homens, enquanto outra, de 17, foi violentada por cinco no município de Bom Jesus, no Piauí.
“À sociedade brasileira, a ONU Mulheres pede a tolerância zero a todas as formas de violência contra as mulheres e a sua banalização”, diz a nota.

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A entidade solicita também que a questão de gênero seja incorporada na investigação, processo e julgamento dos casos para evitar a “revitimização” e a culpabilização das jovens.
Leia a nota na íntegra:
Nota pública da ONU Mulheres Brasil sobre estupros coletivos
A ONU Mulheres Brasil se solidariza com as duas adolescentes vítimas de estupro coletivo: uma, no Rio de Janeiro, violada por mais de 30 homens, e outra, em Bom Jesus (PI), vitimada por cinco homens. Além de serem mulheres jovens, tais casos bárbaros se assemelham pelo fato de as duas adolescentes teriam sido atraídas pelos algozes em tramas premeditadas e terem sido violentamente atacadas num contexto de uso de drogas ilícitas.
Nesse sentido, a ONU Mulheres solicita, aos poderes públicos dos estados do Rio de Janeiro e do Piauí, que seja incorporada a perspectiva de gênero na investigação, processo e julgamento de tais casos, para acesso à justiça e reparação às vítimas, evitando a sua revitimização. Alerta, ainda, que uma das formas com que a revitimização acontece é pela exposição social da vítima e dos crimes, incluindo imagens e vídeos em redes sociais e demais meios de comunicação, em ações de violação do respeito e da dignidade das vítimas, entre eles a falta de privacidade, a culpabilização e os julgamentos morais baseados em preconceitos e discriminações sexistas.
Como crime hediondo, o estupro e suas consequências não podem ser tolerados nem justificados sob pena do comprometimento da saúde física, mental e emocional das mulheres, as quais devem dispor de todas as condições para evitar a extensão do sofrimento das violências perpetradas. Deste modo, urge a plena aplicação da Lei 12.845/2013 de atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual, com profilaxia de gravidez e antirretrovirais, em consonância com normativas internacionais a exemplo da Declaração sobre a Eliminação das Nações Unidas sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres.
Por fim, a ONU Mulheres reforça a necessidade de garantia e fortalecimento da rede de atendimento a mulheres em situação de violência e de órgãos de políticas para as mulheres e profissionais especializadas e especializados em gênero em todas as esferas governamentais, para o pleno acolhimento às vítimas, primando pelo cumprimento de protocolos, pela celeridade e pela humanização nos procedimentos de saúde, assistência psicossocial e justiça em todas as etapas do atendimento às vítimas e seus familiares, assim como a rigorosa punição dos agressores. À sociedade brasileira, a ONU Mulheres pede a tolerância zero a todas as formas de violência contra as mulheres e a sua banalização.
Nadine Gasman
Representante da ONU Mulheres Brasil

'Grande mídia é a caixa de ressonância do golpe, mas Judiciário é o ator principal', diz sociólogo da Unicamp

'Grande mídia é a caixa de ressonância do golpe, mas Judiciário é o ator principal', diz sociólogo da Unicamp

Para Laymert Garcia dos Santos, professor do departamento de Sociologia da Unicamp, 'esse golpe é, antes de tudo, jurídico', com o Judiciário liderando estratégia de desestabilização 'em articulação com o Legislativo e com a grande mídia'
Na opinião de Laymert Garcia dos Santos, sociólogo da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a grande mídia funciona como uma caixa de ressonância do golpe no Brasil, mas o grande ator desse processo é o Poder Judiciário. “Utiliza-se a lei de forma excepcional. Isso implica justamente dizer que o Estado de Direito é suspenso”, explica.
Nesse sentido, segundo Santos, a construção do discurso por meio do próprio Direito, através de apurações seletivas promovidas pela Operação Lava Jato, serviu para criminalizar a esquerda no país. “É justamente aí que entram os meios de comunicação para ganhar a chamada opinião pública. Eles funcionam como uma caixa de ressonância para tornar credível e aceitável uma única versão das coisas”, analisa.  
Eduardo Vernizi / Brasil de Fato

Laymert Garcia dos Santos durante evento dos Advogados pela Democracia em Curitiba
Laymert Garcia dos Santos é Doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII, Mestre em Sociologia das Sociedades Industriais pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESS) e professor titular do departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e  Ciências Humanas da Unicamp. Ele participou no dia 18 de maio de um encontro promovido pelo coletivo Advogados pela Democracia, que reúne juristas, professores e estudantes do Paraná em defesa da legalidade democrática no atual momento político do país.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Santos fala sobre o papel do Judiciário como articulador do golpe institucional em curso, da atuação dos grandes meios de comunicação na disputa do discurso sobre os acontecimentos e sobre a potencialidade da internet em construir novas narrativas para a esquerda.
Confira a entrevista:
Brasil de Fato: A leitura dos movimentos populares e de intelectuais progressistas é de que há um tripé que sustenta o golpe institucional contra a presidenta Dilma Rousseff, que envolve uma articulação de setores empresariais, parlamentares e do Judiciário, fomentada pelo apoio da grande mídia. Como o senhor enxerga essa leitura?
Laymert Garcia dos Santos: Eu acredito que a mídia seja muito importante nesse processo como caixa de ressonância de uma estratégia de desestabilização e de golpe. Mas, no meu entendimento, ela não é a cabeça. A cabeça dessa estratégia é o Judiciário, mas em articulação com o Legislativo e com a grande mídia. Então realmente existe este tripé.  A questão é que precisamos colocar muito mais luz sobre o papel do Judiciário, incluindo o Supremo Tribunal Federal, porque se a gente só bate na Rede Globo e nos barões da mídia, e no Congresso, de certa maneira, a gente preserva um ator que foi fundamental nessa história para obter a inteligibilidade do golpe. Esse golpe é, antes de tudo, jurídico.
E que pontos podemos ressaltar nessa atuação do Judiciário?
A articulação se dá utilizando tecnologias jurídicas de um modo dentro da lei, mas ao arrepio da lei, com uma flexibilidade das regras do jogo. Utiliza-se a lei de forma paradoxal – ou para usar uma expressão que eu gosto mais –, de forma excepcional, porque isso implica justamente dizer que o Estado de Direito é suspenso. Então você tem a impressão de que está em um Estado de Direito, mas, na verdade, já está em um Estado de Exceção. E esse foi o papel que o Judiciário cumpriu, tanto o Ministério Público Federal, quanto a operação Lava Jato e o Supremo Tribunal Federal, no sentido de fazer uma apuração seletiva da corrupção e de conseguir, através dessa apuração, criminalizar a esquerda. É justamente aí que entram os meios de comunicação para ganhar a chamada opinião pública. Eles funcionam como uma caixa de ressonância para tornar credível e aceitável uma única versão das coisas. E esse é o jogo que eu vejo como mais importante. Insisto no papel do Judiciário, pois ele está sendo muito poupado nesse processo.
 

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Toda ação coletiva precisa disputar a narrativa que vai dar sentido ou não a uma determinada luta, como no caso das manifestações de rua. Como a esquerda tem se saído nisso?
A esquerda tem tentado disputar e tentado construir outra narrativa além da dominante. Em certo sentido, eu diria que, do ponto de vista das ruas, ela ganhou a batalha. Mas como ela não tem o aparato midiático a seu favor, o fato de ganhar a batalha das ruas não significa que ela ganha a guerra. Mas também há conquistas no discurso. Por exemplo, a palavra “golpe” pegou. No início do processo havia um conflito entre duas concepções, a de “golpe” e a de “impeachment”, e depois disso vimos que a narrativa do golpe foi criando raízes. Nas manifestações, começou a aparecer timidamente o “não vai ter golpe, vai ter luta”, e depois a ênfase maior foi dada ao “vai ter luta”. Então, nós percebemos que, apesar do aparato midiático, a esquerda conseguiu validar ou legitimar que o que está acontecendo é um golpe. A mobilização dos intelectuais e a construção – da qual participei também – de canais de esclarecimento à mídia internacional sobre o que estava acontecendo aqui também foi importante para que essa mídia internacional deixasse de comprar a versão de que se tratava de um impeachment constitucional.
A esquerda sempre se sentiu atacada pelo discurso da grande mídia. Mesmo assim, os governos do PT não levaram adiante a elaboração de um marco regulatório das comunicações no Brasil, nem quiseram rever as concessões públicas da Rede Globo, por exemplo. Como o senhor avalia essa atitude?
Nos anos 1980, quando eu era professor de jornalismo, tínhamos um curso sobre crítica da mídia. Já naquele tempo percebíamos que o PT não queria fazer a crítica da mídia. O PT tinha e mantém uma atitude ambivalente com a grande mídia. De um lado, eles querem ser reconhecidos pela mídia, então quando a mídia acena para eles, eles se derretem. E por outro lado, eles criticam a mídia, mas achando que, se a mídia topar fazer uma “troca de sinais”, não será necessário mexer nesse aparato. E eu penso que um dos pecados capitais dos governos populares foi justamente não ter atacado isso de frente, levando a regulação da mídia como uma questão chave. Então estão pagando um preço muito pesado agora. E não sei se já aprenderam.
Em 2013, houve uma mudança no cenário com as manifestações de junho que passa por uma articulação entre as redes e as ruas, surgindo uma novidade para vários espaços tanto da direita como da esquerda. Essa novidade, essa forma de fazer política, essa relação de massa com a tecnologia, foi apreendida pela esquerda?  
Acredito que sim, de forma diferente de como foi apreendida pela direita. E também acho que de uma maneira mais inteligente. A direita tem a possibilidade – porque tem dinheiro – de lançar trolls [método para desestabilizar a discussão e as pessoas envolvidas] em massa, de utilizar dispositivos na internet de difusão de calúnia, de desinformação, etc. Mas ela não tem inventividade de usar a potência dos meios, e a capacidade caritativa, pois tem um discurso muito fechado, monolítico e de pura violência. Ela funciona na base da intimidação e da mentira. Se pegarmos a desconstrução do discurso da direita pela esquerda na internet, perceberemos que é muito mais inteligente o uso da potência dos meios pela esquerda do que pela direita, o que me faz ter mais raiva ainda dos governos populares e do PT por não ter sabido avançar na questão das mídias.
O senhor se negou a escrever um artigo para o jornal O Estado de S.Paulo nas vésperas da votação do impeachment na Câmara dos Deputados. Por quê? Disputar um espaço para uma opinião contrária à linha editorial de um grande veículo não é uma forma interessante de ganhar visibilidade?
Eu acho que essa atitude é necessária. Os grandes jornais sempre contaram com uma espécie de compreensão e leniência dos intelectuais que, de um lado, queriam aparecer na mídia e, de outro, se prestavam ao papel de fazer o pequeno contraponto. Jornais como o Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo são 95% golpistas e ouvem 5% do outro lado, e você se presta ao álibi dele.  Muito antes de começar essa história do golpe eu já não escrevia mais para a chamada grande imprensa e muitas vezes recusei entrevistas de televisão. Depois da questão do golpe, acredito que aceitar as condições deles é absolutamente impossível.  
Temos saída para a construção de um discurso alternativo pela Internet?
A internet abriu uma possibilidade para nós de construir um discurso que vai bater de frente com o discurso da grande mídia. Mais do que brigar com eles, é importante brigar pela democratização radical da banda larga, pela alfabetização informacional da população inteira, porque aí é possível construir canais para que a própria população construa sua informação e encontre a informação a partir do lugar onde estão. Se acontecer isso, vai ser inevitável as pessoas se desconectarem da Globo, pois verão que ela [emissora] está sendo sacana com elas.

* Anderson Marcos dos Santos é Doutor em sociologia pela Unicamp, mestre em direito pela UFPR e professor de direito da Universidade Positivo.
Entrevista publicada originalmente no site Brasil de Fato