segunda-feira, 30 de maio de 2016

A revolta das mulheres do campo

A revolta das mulheres do campo

'Agora temos que enfrentar o golpe, discutir o país como nação soberana. O terreno está muito fértil para o debate.'


Najar Tubino
José Cruz / Agência Brasil
Uma Agenda Democrática para o Brasil geral é um ciclo de debates iniciado no ano passado pelas fundações Friedrich Ebert (FES) e Perseu Abramo (FPA) e na quarta edição teve como tema “Mulheres na Agenda Rural” com a participação de Andrea Butto, da UFRPE, Miriam Nobre, da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e Rosangela Piovezani, do Movimento das Mulheres Camponesas e Via Campesina. Foi um debate simples e apaixonado, onde foram descritas três denúncias graves com adolescentes no interior do Brasil. O professor Olimpio, da Universidade do ABC que realizou um trabalho com as quebradeiras de coco em Carolina (MA) relatou o seguinte:
 
“- Em Carolina um empresário que é responsável por 70% dos empregos urbanos pressionava as famílias para levarem as filhas de 14, 15 anos para serem abusadas. Quem não concordasse ou saia do município ou perdia o emprego. Quem denunciasse corria o risco de morrer. Tudo isso com a conivência dos políticos e demais autoridades do município”.
 
Abusos das adolescentes Kalungas em Goiás
 
Selma Galdino, da secretaria nacional da CONAQ e do PT, falou sobre o caso dos Kalungas, quilombolas de Cavalcanti (GO), onde 93% da população é negra:

 
“- Os abusos de menores de 9 a 14 anos já foram denunciados pela Rede Record. Nós estivemos lá, realizando uma oficina, em março desse ano. As famílias não têm luz elétrica e recebem apenas uma cesta básica. A gente perguntou para os familiares das vítimas – entre 9 e 14 anos – porque continuavam comprando nos lugares, onde os proprietários eram os responsáveis pelos abusos. Elas diziam o seguinte: Onde vamos comprar? Os homens brancos detêm o comércio – açougue, a padaria, o gás. O dentista, que foi denunciado ainda fez uma ironia dizendo que a garota abusada, agora com 11 anos, não é mais bonitinha”.
 
O Ministério Público de Goiás acompanhou o caso, mas o governador Marconi Perillo, do PSDB interferiu e mandou os promotores não se meterem em Cavalcanti. Por fim, Rosangela Pirovani, que morou 23 anos em Roraima contou o pavor que tinha quando precisava entrar em uma estrada vicinal com suas quatro filhas.
 
“- Na década de 1980, Roraima sofreu com uma invasão de garimpeiros – 46% da área do estado é território indígena. Era comum, nesta época, os que detinham renda comprarem as gurias. Isso, mesmo nos tempos ditos modernos, ainda continua ocorrendo nas grandes obras”.
 
Abusos das adolescentes indígenas no Amazonas
 
Ane Carolina, descendente de indígenas do Amazonas e da Secretaria Nacional do PT também relatou os casos que ocorrem cotidianamente no seu estado:
 
“- A questão da violência contra as mulheres é crucial pra nós. Eu fiz uma viagem recentemente pelo interior do Amazonas e tive em diversas aldeias. Muitas meninas de 13, 14 anos queriam voltar comigo no barco, porque se casariam com homens que eram proprietários de terras. Por isso, a terra para os indígenas é uma questão de vida e em função dessa luta milhares de indígenas já foram exterminados no Brasil”.
 
A questão, como disse Rosangela Piovezani, é que ninguém sabe o que acontece nos rincões mais escondidos desse país, nos guetos, como definiu. O IBGE registra em suas pesquisas que 308 milhões de hectares no país tem ocupação desconhecida.
 
“- É um país desconhecido, quem manda é o fazendeiro, o grileiro, o pistoleiro. Nós não conseguimos enfrentar isso. Era o nosso sonho, nos últimos anos com os governos Lula e Dilma, conseguir fazer isso. Saber o que acontece nos rincões, reverter isso como patrimônio público e para o bem viver das comunidades”.
 
O problema maior: acesso à terra
 
Segundo o INCRA, que só tem 49% das propriedades rurais brasileiras cadastradas os grandes proprietários – e empresas – detêm 52% da área, as médias propriedades 21% e a agricultura famílias 27%. Ou seja, os pequenos têm 113,2 milhões de hectares e os grandes e ricos 216 milhões de hectares. A pesquisadora Andrea Butto enfatizou os avançou ocorridos nos últimos 13 anos, quando uma agenda democratizante foi sendo instalada no campo. As mulheres começaram a ter acesso aos serviços públicos – previdência, identificação, CPF – e várias políticas públicas começaram a ser implantadas pelo MDA e pelo MDS. Foi um processo de construção, onde a organização das mulheres do campo teve um papel fundamental, casos das Marchas das Margaridas, Marcha das Mulheres da Via Campesina, Marcha das Mulheres no Polo da Borborema. Foi o reconhecimento dos direitos econômicos das trabalhadoras rurais, como consequência de um processo de construção da autonomia das mulheres, como enfatiza Andrea Butto:
 
“- A constituição de políticas públicas pelo MDA, garantindo autonomia econômica para as mulheres – promoção da cidadania, direito a terra e integração territorial. Mulheres como agentes econômicos, beneficiadas diretamente pelas políticas públicas. Além da gestão participativa na execução da política pública. Mais a garantia da soberania e segurança alimentar tudo isso repercutiu nas mulheres do campo.”
 
Crescimento maior da renda entre as mulheres do campo
 
No campo, a estratégia de diminuição da pobreza, resultado das políticas públicas implantadas pelos governos Lula e Dilma, se sobressai. Houve um crescimento de 74% da renda rural, a remuneração pelo trabalho, no caso das mulheres. Mais que dobrou a renda das mulheres brasileiras no período 2003-2013. No nordeste o percentual foi de 51% de aumento, sendo que nas áreas urbanas o crescimento foi de 45%. No campo da soberania alimentar, depois da garantia do consumo de mais alimentos, ocorre agora um novo problema, ainda com os dados de Andrea Butto. É a questão da má qualidade da alimentação, com a introdução de alimentos ultraprocessados causando problemas de obesidade e de doenças crônicas na população pobre – sem contar a contaminação por agrotóxicos. O percentual de mulheres obesas, nas populações adulta e idosa é de 24%. Nos homens, na mesma faixa etária é de 16%. Em relação às doenças crônicas: 44,5% das mulheres e 33,4% nos homens.
 
É preciso registrar também: nas áreas rurais 75% da população não tem rede de esgoto. Somente 1% tem acesso à creche na área rural. E apenas 3% das terras estão em nome de mulheres. E, um avanço, ainda nos tempos dos governos progressistas, que foi a criação do PRONAF Mulher, não se consolidou na prática. Porque os bancos, mesmo os públicos, tratam os agricultores familiares e trabalhadores e trabalhadoras rurais como clientes sem garantia para os empréstimos.    
 
A realidade do golpe
 
A certa altura o debate chega a realidade do golpe. Rosangela Piovezani resume a questão:
 
“- Agora temos que enfrentar o golpe, discutir o país como nação soberana. O terreno está muito fértil para o debate. Nós não tivemos a capacidade de mobilizar a população para construir as mudanças necessárias. Não colocamos o povo como protagonista. A crise que estamos vivendo coloca tudo em cheque: movimentos, partidos, instituições. Não dá para negociar mais com esse sistema político. Com bandido não se negocia, isso ocorre nas duas câmeras do parlamento. Temos que construir um governo paralelo e lutar por uma Constituinte”.
 
O debate ocorreu no dia 23 de maio, na Fundação Perseu Abramo, em São Paulo.


Créditos da foto: José Cruz / Agência Brasil

Tarso Genro: Os assassinos estavam no Comitê Central


Tarso Genro: Os assassinos estavam no Comitê Central

No golpismo brasileiro, o tiro que quer assassinar o mandato de Dilma, vem do âmago do Governo, do seu núcleo mais comprometido com todos os seus erros.


Tarso Genro
Lula Marques / Agência PT























Enquanto o articulista da Folha Contardo Calligaris, diz que "a política brasileira está muito difícil para a ficção" (UOL 25.05),  o líder do "Movimento Brasil Livre"  declara (Clic-RBS 25.05) que a máquina dos partidos "foi utilizada" para financiar os "movimentos pró-impeachment" , informação tratada pela Folha como uma grande novidade. Vou argumentar em sentido contrário. Ficção e realidade se entrecruzam de forma permanente, na nossa esfera política e esta  -por sua vez-   é facilmente acessada pela ficção.  Assim como a ficção se expressa, por maneirismos jornalísticos muito específicos, quase todos os dias na mídia tradicional,  a ficção propriamente literária, com o tempo, acessa e inspira-se em situações iguais ou análogas às que vivemos hoje e ilumina o passado através da grade literatura. Lembro-me de "Doctor Faustus" de Thomas Mann, "Os Thibault" de Roger Martin-dGard" ou "As vinhas da Ira", de Steinbeck.   Quando Faulkner, por exemplo,  publicou "Enquanto agonizo", em 1930, ele já tinha acúmulo suficiente, para dar voz aos pobres do Sul dos Estados Unidos e dizer , na voz de Cash: "...é melhor construir um galinheiro bem-feito do que construir um tribunal malfeito, e se forem bem ou mal construidos não importa, porque não é um ou outro, que vai fazer um homem se sentir bem ou mal". Um dia os nossos grandes escritores levarão para o plano da arte os nossos atuais galinheiros e Tribunais, com as suas grandezas e misérias.

 

A imagem da política nacional passada pela grande imprensa, no que refere ao processo de impedimento da Presidenta Dilma -com as exceções de praxe- foi um péssimo jornalismo. Ele ainda  vai inspirar uma grande ficção literária, quem sabe para um Raduan Nassar, um Luis Antonio Assis Brasil ou um Antonio Callado redivivo . Esta inspiração poderá partir do comportamento desta imprensa que, insistindo na "espontaneidade", "despartidarização" e "autenticidade" -tanto das jornadas de 2013, como dos atuais movimentos pró-impeachment-  promoveu um vasto painel de ficções. Seus relatos dos movimentos de rua, como se eles fossem sinceramente dirigidos por líderes avessos à corrupção, foi um feito ficcional extraordinário.  Neste processo, a maior parte da grande mídia "fazia de conta" que não sabia,  que o que estava sendo armado era a vitória do capitalismo rentista, com a radicalização do "ajuste".  Ela estava comsciente, contudo, que quem poderia  fazer isso, sob pressão, seria uma Confederação de Investigados e Denunciados: a redução dos gastos públicos com a educação e com o Sistema Único de Saúde, bem como o gradativo sumiço dos demais "gastos supérfluos" -relacionados com as políticas de coesão social em andamento- era o objetivo maldito. E ele só poderia ser cumprido por desesperados ou ameaçados. É o que estava e está em jogo, na cena política brasileira, o que indica que  não está difícil para a ficção literária, pois esta vem sempre mais tarde e o presente retratado pela mídia,  já é a ficção ao vivo e também matéria bruta da ficção como literatura, que certamente os grandes escritores construirão mais tarde..

 

Em 1981 Manuel Vàsquez Montalban publicou uma grande novela  -"Asesinato en el Comite Central"- apenas seis anos depois da morte do general Francisco Franco. Ali, Montalban abriu um debate, em parte sobre a a transição espanhola, mas sobretudo a respeito da falência da esquerda comunista em dirigir aquele processo, pela sua escassa compreensão do problema da integração europeia. Na sua ficção literária, o comunista Montalban relata o assassinato -numa reunião do Comitê Central-  do Secretário Geral do Partido, Santiago Carrillo, que se fizera defensor do "eurocomunismo", teoria que apontava a falência da União Soviética, como experiência socialista universal. A crítica de Carrillo centrava-se, tanto na questão democrática, como na questão da organização da produção. Mas pairou, no livro de Montalban,  uma dúvida atroz: o assassinato de Carrillo (que no livro tem o nome de Fernando Garrido),  teria sido encomendado pela CIA, interessada em fazer fracassar uma transição democrática mais "pela esquerda", ou pela KGB, interessada em não permitir prosperar um "dissenso comunista" renovador?  Quais as forças externas que interferiram na transição espanhola, não se sabe com segurança até hoje. Como não se sabe, nos anos de chumbo da Itália, quem orientou a mão dos fascistas que fizeram explodir, com dezenas de mortos, a Estação Férrea de Bolonha.

 

Um livro do falecido Professor Reneé Dreifuss publicado em 1981, fruto de uma extensa pesquisa documental e bibliográfica  ("1964  a Conquista do Estado"), mostrou que naquele ano não ocorreu no Brasil uma simples quartelada , mas uma profunda mudança no padrão de acumulação, obedecendo a uma lógica de dominação imperial, por parte dos EEUU. A obra do grande professor Dreifuss mostrou, ainda, que o golpe militar teve uma expressiva participação de setores da sociedade civil anticomunista, com seus interesses empresariais associados a este novo padrão de desenvolvimento, integrado e submisso à geopolítica americana. Diferentemente do que ocorreu naquela época, cujo revestimento central da política golpista era se opor comunismo soviético, as mobilizações contra o Governo eleito da Presidenta Dilma, trouxeram às ruas um contingentes de pessoas, cujas motivações tem diversas origens. Seja porque ela manejou mal a economia, porque o Governo não correspondeu as suas expectativas eleitorais, ou por puro ódio colonial-escravista, contra as políticas sociais dos Governos do PT. 

 

Ficou claro, porém,  nesta última semana,  que a central do golpismo institucional  passou longe dos militares e foi formado pelo oligopólio da mídia, articulado com setores do Ministério Público, dos Juízes e  das lideranças políticas do rentismo "liberal", que  unificaram esta diversidade. E o fizeram -pautados pela mídia- a partir da raiva  contra tudo que foge aos seus padrões de civilidade elitista, ao mesmo tempo permissiva e fascista, "liberal" e reacionária, amoral e fisiológica: de Alexandre Frota a Bolsonaro, de Fernando Henrique a Aécio, de Pauderney a Jucá. Mas não pensemos que as instituições do Estado Democrático de Direito estão falidas e que a nossa democracia não tem saída, pois isso é o que nos querem  fazer crer a grande mídia e o nosso percentual de fascistas de turno. A questão é mais complexa, não é somente nacional, nem é fruto de uma crise contingente do capitalismo global, mas de um novo ciclo em que ele pretende se renovar. A crise é o pulmão capitalismo, dizia um barbudo subversivo, e através dela ele respira e se renova.

 

O que se diz aqui, não é que o PT seja uma comunidade de anjos ou que indivíduos dos nossos Governos não tenham cometido ilegalidades ou crimes, tanto nos Governos de Lula, como de Dilma, como de resto sempre ocorreu em todos os Governos que nos precederam, inclusive em maior grau. Nem se defende que a "lava-jato" tenha sido instituída para "aniquilar o PT", como querem fazer crer alguns formuladores do nosso campo político-partidário, ou que somos vítimas, exclusivamente, dos nossos "acertos". O que sustento é que a estratégia política de longo curso, da direita liberal-rentista,  teve sucesso: hegemonizou uma maioria na sociedade e pôs boa parte dos aparatos institucionais do Estado a seu serviço. Montou uma Frente Política sem qualquer programa visível e uniu os corruptos e fisiológicos de todas as origens, bem como convenceu a maior parte da cidadania -através de um trabalho meticuloso feito pela grande mídia-  que estavam "atacando a corrupção". 

 

Formaram, assim, aquela grande Federação de Investigados e Denunciados, boa parte deles origináriosdos nossos Governos, para se apropriar do Estado Brasileiro sem votos, o que por si só não revela uma debilidade estrutural do nosso estatuto democrático, pois o que vem daí é o "ajuste" mais severo das últimas décadas, não o fim da democracia política, tal qual a conhecemos. O "ajuste", todavia,  é capaz de reorganizar estrutura de classes da sociedade, através de  uma acomodação conservadora, pois -vide a Espanha, França e Portugal- os ajustes também formam, na sociedade civil, as suas próprias bases estáveis, se a esquerda não tiver condições de ampliar a sua liderança para formar maiorias eleitorais. As lutas "sociais"  podem mitigar as reformas mais duras, mas um outro ajuste de corte democrático, onde "quem tem mais paga mais", só pode ser viabilizado a partir dos movimentos sociais, por maiorias políticas que tenham reflexos nos resultados eleitorais. Creio que este deve ser o ponto de partida de uma  estratégia de esquerda, para o período que nos aguarda.

 

As caracterizações políticas do "centro", da "esquerda" e da "direita", não tem as mesmas propriedades em distintos períodos históricos. Para dar dois exemplos bem flagrantes, lembremo-nos que o PT chega ao Governo como partido de "esquerda", pela via democrática e vai rapidamente ao "centro", para poder governar, encontrando ali situado o PMDB. Este se torna nosso aliado, por um longo período de Governo, para que pudéssemos avançar em políticas sociais e educacionais que mudaram as condições sociais e econômicas de mais de 50 milhões de brasileiros. Hoje, porém, o PMDB é o eixo em torno do qual a direita "liberal" e a extrema direita, se reorganizam para fazer o "ajuste" exigido pelos credores da nossa dívida pública, cujos sacrifícios vão recair sobre os mais pobres e os remediados. 

 

Neste sentido, o PMDB não só não mudou, como é falso dizer que ele traiu, pois a estratégia de enfrentamento da crise mundial, com um ajuste que onere internamente os mais ricos, nunca foi um compromisso deste Partido e nem o PT conseguiu formulá-la claramente.  Creio que isso é suficiente para mostrar que o PT só pode se regenerar, como partido democrático de esquerda no interior de uma outra Frente Política, que não vise somente chegar ao Governo, mas, que possa chegar novamente nele com maioria social e parlamentar,  para aplicar um novo programa de avanços no emprego, na democracia, no crescimento da economia. A falsa luta contra a corrupção, não o rentismo,  foi o que conseguiu dar unidade à frente política do golpismo, por isso agora o "ajuste" passa ser motivo de dissenso, tanto no interior do próprio aparato estatal, como na própria base do Governo Temer, além de sê-lo na sociedade.

 

Uma estratégia democrática de mudanças sociais e econômicas, requer uma tática política democrática coerente com os fins da estratégia desenhada. Opino que, hoje, o que é capaz de definir as propriedades dos campos políticos, tidos como de "esquerda" e "direita", é a posição dos sujeitos políticos organizados, sobre quatro questões chaves: o enfrentamento com o "ajuste" liberal-rentista, que será inócuo se não apresentarmos qual o nosso "ajuste" e quais a suas consequências imediatas na vida do nosso povo; a proposta de uma reforma política, que será inócua se não deixar clara a proibição do financiamento dos partidos pelas empresas (fonte principal da corrupção) e não barrar os micro partidos de "negócios"; uma reforma para democratizar os meios de comunicação e permitir a livre circulação da opinião, que será inócua se não tiver a possibilidade de resgatar a comunicação para as suas finalidades, já proclamadas na Constituição de 88;  e, finalmente -independentemente de continuarmos na luta para bloquear o "impeachment"-  um amplo acordo para a relegitimação do Poder Político no país, seja por um  referendo para novas eleições, seja por uma PEC que convoque eleições gerais, no menor prazo possível. Este "amplo acordo" será inócuo, se não resgatar, para o nosso lado, inclusive lideranças que transitaram em apoio ao "impeachment", mas que se revelam hoje contra o "ajuste" liberal-rentista e já se sentem enganados pela cantilena da falsa luta contra a corrupção, promovida pela Rede Globo.

 

Na novela de Montalban, o tiro que assassinaria Carrillo veio de dentro do próprio Comitê Central, revelando a existência de um enigma sobre a transição espanhola, bem como a incompetência do seu Partido Comunista, para entender o que estava acontecendo na Europa. No golpismo brasileiro, o tiro que quer assassinar o mandato da Presidenta Dilma, também vem de dentro do "Comitê Central": vem do âmago do Governo, do seu núcleo mais comprometido com todos os seus erros, do seu cerne político mais forte no Parlamento. Esta é a notável realidade, que a mídia nacional transformou numa cruzada fictícia contra a corrupção, que sai da crise, até agora, mais forte. E mais unida, pois quando os partidos mais influentes do país -sem separação de responsabilidades-  são atingidos sem que se fixem politicamente as responsabilidades individuais, a tendência é o povo dizer que "se vayan todos". E ficam, no fim do túnel, os vampiros do ajuste, com seus dentes afiados, celebrando o homem abstrato do mercado e levando ao desespero as pessoas concretas que trabalham.


Créditos da foto: Lula Marques / Agência PT

Anatomia do golpe: as pegadas americanas



Anatomia do golpe: as pegadas americanas

Tereza Cruvinel

“O golpe em curso no Brasil é sofisticada operação político-financeira-jurídico-midiática, tipo guerra híbrida. E será muito difícil deslindá-la", diz o jornalista Pepe Escobar. E mais difícil fica na medida em que surgem contradições entre seus próprios artífices. A enxurrada de conversas que Sergio Machado, ex-presidente da TRANSPETRO e um dos operadores do Petrolão, teve e gravou com cardeais do PMDB, induz à ilusória percepção de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi apenas um golpe tupiniquim, armado pela elite política carcomida para deter a Lava-Jato e lograr a impunidade. O procedimento “legal” que garantiu a troca de Dilma por Temer, para que ela faça o que está fazendo, foi peça de operação maior e mais poderosa desencadeada ainda em 2013 para atender a interesses internos e internacionais. E nela ficaram pegadas da ação norte-americana.

Interesses internos: remover Dilma, criminalizar o PT, inviabilizar Lula como candidato a 2018 e implantar uma política econômica ultraliberal, encerrando o ciclo inclusivo e distributivista. Interesses externos: alterar a regra do pré-sal e inverter a política externa multilateralista que resultou nos BRICS, na integração sul-americana e em outros alinhamentos Sul-Sul.

As gravações de Machado desmoralizam o processo e seus agentes e complicam a evolução do governo Temer, mas nem por isso o inteiro teor da trama pode ser reduzido à confissão de Romero Jucá, de que uma reunião de caciques do PMDB, PSDB, DEM e partidos conservadores menores, em reuniões noturnas, decidiram que era hora de afastar Dilma para se salvarem. E daí vieram a votação de 17 de abril na Câmara, a farsa da comissão especial e a votação do dia 11 de maio no Senado.

Um longo caminho, entretanto, foi percorrido até que estes atos “legais” fossem consumados. Para ele contribuíram a Lava-Jato e suas estrelas, a FIESP com seu suporte a grupos pró-impeachment e o aliciamento de deputados, o mercado com seus jogos especulativos na bolsa e no câmbio para acirrar a crise, Eduardo Cunha e seus asseclas com as pautas bombas na Câmara. E também as obscuras, mas perceptíveis ações da NSA, Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, e da CIA, na pavimentação do caminho e na fermentação do clima propício ao desfecho. Os grampos contra Dilma, autoridades do governo e da Petrobras, os protestos contra o governo, o desmanche econômico e a dissolução da base parlamentar, tudo se entrecruzou entre 2013 e 2016.

Se os que aparecem agora nas conversas gravadas buscaram poder, impunidade e retrocesso ao país de poucos e para poucos, os agentes externos miraram o projeto de soberania nacional e o controle de recursos estratégicos, em particular o petróleo do Pré-Sal. Não por acaso, a aprovação do projeto Serra, que suprime a participação mínima obrigatória da Petrobras em 30%, na exploração de todos os campos licitados, entrou na agenda de prioridades legislativas do novo governo.

Muito já se falou da coincidente chegada ao Brasil, em agosto de 2013, de Liliana Ayalde como embaixadora dos Estados Unidos, depois de ter servido no Paraguai entre 2008 e 2011, saindo pouco antes do golpe parlamentar contra o ex-presidente Fernando Lugo. Num telegrama ao Departamento de Estado, em 2009, vazado por Wikileaks, ela disse: “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”. E num outro, mais tarde: “nossa influência aqui é muito maior que as nossas pegadas”.
O que nunca se falou foi que a própria presidente Dilma, tomando conhecimento dos encontros queAyalde vinha tendo com expoentes da oposição no Congresso, mandou um emissário avisá-la de que via com preocupação tais movimentos. Eles cessaram, pelo menos ostensivamente. Ayalde havia chegado pouco antes da Lava-Jato esquentar e no curso da crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos, detonada pela denúncia do Wikleaks de que a NSA havia grampeado Dilma, Petrobras e outros tantos. Segundo Edward , o ex-agente da NSA que denunciou a bibilhotagem, “em 2013 o Brasil foi o país mais espionado do mundo”. Em Brasília funcionou uma das 16 bases americanas de coleta de informações, uma das maiores.

A regra de exploração do pré-sal e a participação do Brasil nos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia. China e África do Sul), especialmente depois da criação, pelo bloco, de um banco de desenvolvimento com capital inicial de US 100 bilhões, encabeçaram as contrariedades americanas com o governo Dilma.

Recuemos um pouco. Em dezembro de 2012, as jornalistas Cátia Seabra e Juliana Rocha publicaram na Folha de São Paulo telegrama diplomático vazado por Wikileaks, relatando a promessa do candidato José Serra a uma executiva da Chevron, de que uma vez eleito mudaria o modelo de partilha da exploração do pré-sal fixado pelo governo Lula: a Petrobras como exploradora única, a participação obrigatória de 30% em cada campo de extração e o conteúdo nacional dos equipamentos. Estas regras, as petroleiras americanas nunca aceitaram. Elas querem um campo livre como o Iraque pós-Saddam. A Folha teve acesso a seis telegramas relatando o inconformismo delas com o modelo e até reclamando da “falta de senso de urgência do PSDB”. Serra perdeu para Dilma em 2010, mas como senador eleito em 2014, apresentou o projeto agora encampado pelo governo Temer.

No primeiro mandato, Dilma surfava em altos índices de popularidade até que, de repente, a pretexto de um aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus de São Paulo, estouraram as manifestações de junho de 2013. Iniciadas por um grupo com atuação legítima, o Movimento Passe Livre, elas ganham adesão espontânea da classe média (que o governo não compreendeu bem como anseio de participação) e passam a ser dominadas por grupos de direita que, pela primeira vez, davam as caras nas ruas. Alguns, usando máscaras. Outros, praticando o vandalismo. Muitos inocentes úteis entraram no jogo. Mais tarde é que se soube que pelo menos um dos grupos, o MBL, era financiado por uma organização de direita norte-americana da família Koch. E só recentemente um áudio revelou que o grupo (e certamente outros) receberam recursos também do PMDB, PSDB, DEM e Solidariedade.

Aparentemente a ferida em Dilma foi pequena. Mas o pequeno filete de sangue atiçou os tubarões. Começava a corrida para devorá-la. A popularidade despencou, a situação econômica desandou, veio a campanha de 2014 e tudo o que se seguiu.

Mas nesta altura, a espionagem da NSA já havia acontecido, tendo talvez como motivação inicial a guerra do pré-sal. Escutando e gravando, encontraram outra coisa, o esquema de corrupção. E aqui entram os sinais de que as informações recolhidas foram decisivas para a decolagem da Lava-Jato. Foi logo depois do Junho de 2013 que as investigações avançaram. A partir da prisão do doleiro Alberto Youssef, numa operação que não tinha conexão com a Petrobras, o juiz federal Sergio Moro consegue levar para sua alçada em Curitiba as investigações sobre corrupção na empresa que tem sede no Rio, devendo ter ali o juiz natural do caso. Moro havia participado, em 2009, segundo informe diplomático também vazado por Wikileaks, de seminário de cooperação promovido pelo Departamento de Estado, o Projeto Pontes, destinado a treinar juízes, procuradores e policiais federais no combate à lavagem de dinheiro e contraterrorismo. Participaram também agentes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai. Teria também muitas conexões com procuradores norte-americanos.

Com a prisão de Youssef, a Lava-Jato deslancha como um foguete. Os primeiros presos já se defrontam com uma força tarefa que detinha um mundo de informações sobre o esquema na Petrobras. Executivos e sócios de empreiteiras rendiam-se às ofertas de delação premiada diante da evidência de que negar era inútil, só agravaria suas penas. O estilo espetaculoso das operações e bem-sucedida tática de comunicação dos procuradores e delegados federais semeou a indignação popular. Vazamentos seletivos adubaram o ódio ao PT como “cérebro” do esquema.

As coisas foram caminhando juntas, na Lava-Jato, na economia e na política. A partir do início do segundo mandato de Dilma, ganharam sincronia fina. Na Câmara, Eduardo Cunha massacrava o governo e a cada derrota o mercado reagia negativamente. A Lava-Jato, com a ajuda da mídia, envenenava corações e mentes contra o governo. Os movimentos de direita e pró-impeachment ganharam recursos e músculos para organizar as manifestações que culminaram na de 15 de março. A FIESP entrou de cabeça na conspiração e a Lava-Jato perdeu todo o pudor em exibir sua face política com a perseguição a Lula, a coerção para depor no Aeroporto de Congonhas e finalmente, quando ele vira ministro, a detonação da última chance que Dilma teria de rearticular a coalizão, com o vazamento da conversa entre os dois.

No percurso, Dilma e o PT cometeram muitos erros. Erros que não teriam sido fatais para outro governo, não para um que já estava jurado de morte. Mas este não é o assunto agora, nesta revisitação em busca da anatomia do golpe.

Em março, a ajuda externa já fizera sua parte, mas as pegadas ficaram pelo caminho. O governo já não conseguia respirar. Mas, pela lei das contradições, a Lava-Jato continuou assustando a classe política, sabedora de que poderia “não sobrar ninguém”. É quando os caciques se reúnem, como contou Jucá, e decidiram que era hora de tirar Dilma “para estancar a sangria”.

Desvendar a engrenagem que joga com o destino do Brasil desde 2013 é uma tentação frustrante. Faltam sempre algumas peças no xadrez. Mas é certo que, ainda que incompleta, a narrativa do golpe não é produto de mentes paranoicas. No futuro, os historiadores vão contar a história inteira de 2016, assim como já contaram tudo ou quase tudo sobre 1964.