sexta-feira, 22 de julho de 2016

Como foram os ataques golpistas na Turquia

Como foram os ataques golpistas na Turquia

Gravações difundidas pelos diários The Daily Mail e Mirror mostram várias explosões que se produziram em locais próximos ao palácio presidencial de Ancara


Com informações de RT.com e outros meios
Reprodução
 
A tentativa de golpe de Estado na Turquia deixou muitas imagens de forte impacto, mas poucas tão assombrosas como as que veremos nestes vídeos.
 
Um deles mostra como um homem tenta deter o avanço dos tanques golpistas com seu próprio corpo, emulando a histórica cena da Praça da Paz Celestial, em 1989. Não consegue, os tanques passam literalmente por cima dele.
 
As imagens mostram como o primeiro tanque interrompe a marcha quando percebe que há um homem no caminho, mas logo retoma o avanço poucos segundos depois. Quando esse se retira vemos que o homem se mostra aparentemente ileso, e decide enfrentar um segundo tanque. Nesse momento, ele se atira diretamente debaixo do veículo, e o carro de combate também passa por cima dele. Dessa vez, o homem já não se levanta, embora seja possível ver que se move, enquanto uma multidão nervosa o rodeia e tenta ajudá-lo.
 






 
Este homem não é o único que enfrentou com valentia os tanques golpistas, arriscando sua própria vida. Outros cidadãos fizeram o mesmo, deixando imagens inesquecíveis para a História.
 
Gravações difundidas pelos diários The Daily Mail e Mirror mostram várias explosões que se produziram em locais próximos ao palácio presidencial de Ancara, a capital da Turquia, após a tentativa de golpe de Estado, em cena que se associa com outro golpe de Estado – ocorrido no Chile, em 1973, quando as forças armadas também bombardearam o Palácio de La Moneda, onde estava o presidente eleito Salvador Allende. Os vídeos foram registrados na manhã seguinte, quando um helicóptero militar atacou o edifício governamental.
 

 
Algumas testemunhas indicaram que essa aeronave do Exército turco atacou as colunas de tanques que rodeavam o palácio presidencial, nos arredores da cidade. Ao parecer, ao menos cinco pessoas foram mortas devido como consequência dessa ofensiva, que também gerou um enorme coluna de fumaça. Nos vídeos, se pode observar o caos e o medo causado entre a multidão. 
 
Na noite de 15 de julho, uma facção da Forças Armadas da Turquia tentou derrubar o governo de Recep Tayyip Erdogan. Tanques, caças e helicópteros atacaram Ancara e Istambul, enquanto a emissora de televisão estatal e o acesso às redes sociais ficaram suspendidos, e todos os voos foram cancelados. 
 
Na Internet, circulam alguns outros vídeos sobre o ocorrido. Num deles, se observa o momento exato em que os militares golpistas tomam de assalto um hotel no balneário de Marmaris, onde o presidente turco se encontrava passando férias. A ação foi uma das que marcou o início da sublevação dos militares, na última sexta-feira.
 
No vídeo, publicado pela agência Anadolu, se escuta claramente um feroz fogo cruzado nas proximidades do hotel, e ruídos durante o ataque ao edifício, que foi bombardeado pelos golpistas quando Erdogan já havia abandonado o local. Também se pode distinguir a presença de um helicóptero utilizado pelas forças golpistas.
 
Na mesma noite do golpe, milhares de turcos foram às ruas de Ancara e Istambul para enfrentar os militares sublevados. Embora tenha fracassado, o golpe de Estado cobrou a vida de ao menos 290 pessoas e deixou 1,4 mil feridos. Os cerca de 6 mil implicados na intentona golpista foram detidos. Entre eles, oficiais de alta e média patente.
 
Tradução: Victor Farinelli


Créditos da foto: Reprodução

Petróleo, interesses americanos e o golpe na Turquia

Petróleo, interesses americanos e o golpe na Turquia

A perspectiva do petróleo é ignorada pela mídia nacional e nós da América Latina não podemos ficar assistindo como as outras nações são invadidas.


Diego Fernando Machado Garcia
wikimedia commons
Os recentes acontecimentos envolvendo uma suposta tentativa de golpe na Turquia não podem ser vistos isoladamente.  É preciso ter em conta todo o relevante quadro circunstancial e histórico, inclusive na relação com o último ataque na França. Fatos como esse estão sempre revestidos de uma série complexa e plural de movimentações e interesses.
 
Dentro do território turco, assim como em toda aquela delicada região, há diversos conflitos e investidas externas. Ainda assim, os interesses geoeconômicos e militares americanos parecem envolvidos. Há muito tempo os curdos, que se espalham também por Síria, Irã e Iraque, fronteiriços da Turquia, engrossam o rol de problemas na região.
 
Uma das perspectivas implícitas é a questão geopolítica do quadro em questão, pois a Turquia faz parte de uma região nevrálgica no mundo, fonte de históricos embates étnicos, religiosos, políticos, econômicos e militares. Um ponto relevante nesse sentido é a sua localização: na ligação entre o tenso Oriente Médio e a Europa e próximo à Rússia.
 
Os turcos fazem parte da OTAN, com proximidade aos americanos, portanto, e seus eternos “aliados” ingleses e franceses. Nesse sentido, cabe recordar o que a grande mídia não explicita: o projeto de um gasoduto Rússia-Turquia, que atravessará o Mar Negro, envolvendo a gigante russa Gazprom. O gasoduto não tem a aprovação dos EUA. Obama teria  exigido do presidente turco que ele se retirasse do projeto. Há pouco, Rússia e Turquia anunciaram novas conversações. Oito dias depois disso, em 2015, houve aquele ataque a um caça russo, derrubado na Turquia, o que levou a suspensão do acordo.





 
A única base militar da Rússia pelo mundo afora fica precisamente na Síria tradicional, compradora de armas russas. Os russos dispõe do porto de Tartus e acesso ao de Latakia, cujo projeto era converter em base naval.  Rússia, Estados Unidos, Inglaterra, França e também Israel têm fortes interesses nas jazidas de gás sírio e em um gasoduto, crítico para a Europa, que, para funcionar, depende da boa vontade síria. Sem esquecer de todo volume de petróleo na região. Atente-se para o fato de Rússia e Irã, dois sabidos desafetos históricos dos americanos e de potências europeias, terem as maiores reservas de gás do mundo.
 
A Total, francesa, e a British Petroleum (BP), estão desde 1990 explorando o gás das águas sírias, em disputa com Líbano e Síria. Já a França tem encontrado pretextos convenientes para insurgir militarmente na região como fez na Líbia, com motivação no petróleo,  justificado pelo “combate ao terrorismo’’. Israel, por sua vez, conseguiu deter as operações da BP, sob protestos do governo Tony Blair, a partir da vitória eleitoral do Hamas em 2006 (que passaria a controlar uma parte do litoral de Gaza onde há gás). Enquanto isso a França também continua vendendo armas à Arábia Saudita em parceria com os EUA, que derrama bilhões aos sauditas pelas circunstâncias como a ‘’caça’’ a Assad na Síria, mesmo sabendo de seus nexos com o Estado Islâmico, que, por sua vez, tem ligações com a Turquia.
 
Como lembra Armanian (2014): Os imensos campos de petróleo e gás de todo o Oriente Médio mediterrâneo são uma tentação para os Estados Unidos e para a União Europeia (UE). Depois do fracasso do Ocidente no projeto do gasoduto “Nabucco” – que diversificaria o fornecimento energético da UE com a importação de gás desde o mar Cáspio ao Mediterrâneo, evitando a Rússia – a UE considera mais viável o “Arab Gas Pipeline” (gasoduto árabe) com a participação da Síria, Jordânia e Líbano, que conectaria o gasoduto que se estenderia do norte da África à Turquia, pelo Mediterrâneo.  
 
E não menos importante, a intensão em desmontar a Rússia enquanto EUA e as potências europeias, com destaque para França e Inglaterra, ainda lucram vendendo armas. A Rússia faz parte, junto com o Brasil, do Brics, instituição que rivaliza com as políticas de austeridade do FMI e do Banco Mundial, patrocinadas por Estados Unidos e União Europeia. Isto significa uma ruptura com o paradigma do "Consenso de Washington", que criou um nefasto mecanismo de aprisionamento dos países endividados. Em uma crise cambial ou em um contexto de instabilidade, um país solicita empréstimos para saldar os compromissos externos. O FMI empresta, mas exige privatizações, cortes de gastos públicos, redução dos direitos trabalhistas e arrocho salarial, a fim de garantir o pagamento da dívida. Assim, todo o "superávit primário" é direcionado ao pagamento da dívida, mesmo que isto signifique fome, miséria, desemprego e desindustrialização.
 
Assim, os BRICS constroem os alicerces de um novo ordenamento geopolítico que a imprensa brasileira, sucursal dos interesses estadunidenses, se recusa a noticiar para não desagradar seus patrões. A Venezuela sofre por possuir a maior reserva de petróleo do mundo e não estar alinhada aos estadunidenses e europeus. Criam pretextos para invadir países e roubar seus recursos.
 
Invadiram a sofrida Líbia por conta de gás e do petróleo, o mesmo com a Síria. A Venezuela está na mira e quem sabe à frente o Brasil e a Argentina.
 
Essa é a perspectiva ignorada pela mídia nacional e nós da América Latina não podemos ficar assistindo como as outras nações são invadidas e pilhadas, ou vamos acordar um dia com a IV Frota dos EUA e OTAN bem à frente de nossas costas preparados para invadir e roubar o petróleo (sob algum novo pretexto, o narcotráfico, por exemplo), o gás, a Amazônia e a água que pertence ao povo sul-americano.
 
REFERÊNCIA
ARMANIAN, Nazanín. Jihadistas na Casa Branca e os gasodutos da Eurásia. Carta maior. Disponível em: http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FInternacional%2FJihadistas-na-Casa-Branca-e-os-gasodutos-da-Eurasia-%2F6%2F31731&page=3
Diego Fernando Machado Garcia  – Bacharel em Ciências Contábeis, Pós-Graduando em Controladoria e Gestão Tributária, Colunista no site Recurso Verbal e Editor no site Eu Racional.
 


Créditos da foto: wikimedia commons


Fonte: Carta Maior

Estados Unidos rumo ao inferno


Estados Unidos rumo ao inferno

O discurso de Trump se tornou a expressão oficial do Partido Republicano. A nação enfrenta uma ameaça fascista que poderia tomar o poder em novembro.


David Brooks, para o La Jornada, do México
reprodução
 
A festa do demônio acontecerá nesta semana, e terá sede em Cleveland, onde se congregarão alguns dos representantes mais extremos da política do ódio, os mais anti mulher, anti gay, anti imigrantes, anti direitos civis. Ou seja, será um anti festejo do pior que o país tem para oferecer. A festa terá como anfitrião e homenageado aquele que é mais fascista entre as figuras conhecidas da historia moderna do país.
 
A Convenção Nacional Republicana, tanto dentro quanto fora da arena, será um carnaval grotesco recheado do sentimento que direita tem cultivado nos Estados Unidos – e que os liberais, de certa forma, têm permitido –, durante as últimas três décadas. Será um circo perverso, protagonizado pelos elefantes – o símbolo dos republicanos.
 
A palavra “fascismo” antes se aplicava de forma um tanto descuidada, e quase sempre se referia a fenômenos históricos em outros países. Mas agora está aqui, no Brasil. Até mesmo os comentaristas e analistas do establishment utilizam a palavra com F para descrever o fenômeno conhecido como Donald Trump.
 





O empresário disse, na semana passada, que concorda com a ideia de que está na hora de declarar uma guerra mundial contra as forças terroristas. Reiterou que os imigrantes e refugiados poderiam ser um cavalo de Troia, e propôs uma revisão da situação de cada muçulmano que vive no país, como resposta à tragédia de Niza. Além disso, insistiu em sua ideia de construir um muro na fronteira com o México e promover a expulsão massiva de indocumentados. Com isso, ele segue cultivando a histeria que nasce de um setor estadunidense bastante assustado pelo que acontece no mundo.
 
Trump apoia explicitamente o uso da tortura contra os suspeitos de terrorismo, a vigilância das mesquitas e as operações massivas para prender e interrogar estadunidenses e imigrantes que cultivem alguma “fé suspeita”, entre outras propostas que violam as normas legais do país e o direito internacional. E agora, ele está a ponto de ser coroado por um dos dois grandes partidos nacionais. Os que não esqueceram as características claramente fascistas do lema “Deus, pátria e ordem” (e algumas versões que não aparecem necessariamente nessa ordem) entenderão o que significa o fato de Trump apresentar como seu candidato à vice-presidência o cristão fundamentalista Mike Pence, quem proclamou a seguinte definição: “somos os candidatos da lei e da ordem, somos o partido da lei e da ordem”.
 
Seu discurso se tornará a expressão oficial de uma das maiores instituições políticas do país esta semana. Ou seja, a nação enfrenta uma ameaça fascista que poderia tomar o poder em novembro.
 
“Chamá-lo de fascista de qualquer tipo seria usar uma etiqueta histórica adequada… a essência do fascismo é não ter uma só forma estabelecida… sua forma de nacionalismo… naturalmente toma as cores e práticas de cada nação que infecta”, descreve Adam Gopnick, em artigo para a revista The New Yorker, em edição desta semana. Ele agrega que na Itália foi diferente, que na Espanha e na Alemanha, ou nas expressões que teve em outros países, também havia características bastante peculiares. Não é surpreendente que a cara estadunidense do fascismo tomasse as formas de uma celebridade de televisão, já que faz parte, de alguma forma, da cena simbólica e das recreações nostálgicas dos esplendores romanos.
 
Gopnick explica: “o que todas as formas de fascismo têm em comum é a glorificação da nação: a exageração de suas humilhações, a violência prometida contra seus inimigos, tanto os caseiros quanto os forasteiros, o culto ao poder onde seja que apareça e para quem o possui, o desdém para com o império da lei e da razão, o emprego desavergonhado de mentiras repetidas como estratégia retórica, uma promessa de vingança para aqueles que se sentem marginados pela história. E adverte: aqueles que acreditam que as instituições fundamentais do governo estadunidense estão imunizados contra isso falham, e não entendem a História. Todas as vezes que os Estados Unidos viu um líder como Trump chegar ao poder, as salvaguardas formais colapsaram.
 
Esta ameaça ao país também é, em parte, uma sentença às forças liberais do país, que deixaram a porta aberta para este fenômeno, sobretudo o Partido Democrata e sua cúpula, as quais, junto com a cúpula republicana, impulsaram o consenso neoliberal durante três décadas. Por agora, a candidata democrata e sua campanha não oferecem uma alternativa real e aceitável para um amplo setor, sobretudo os brancos, desamparados, assustados e raivosos, que pensa que alguém está roubando não só o seu sonho americano, senão o seu país. Por isso é tão atrativa a mensagem de “voltar a fazer a América grande” – lema da campanha de Donald Trump.
 
Mas vale destacar também que o circo em Cleveland não representa todo o país. Existe uma maioria que rejeita o que Trump representa. Ele é visto de forma desfavorável por mais de 60% do país, segundo a média das pesquisas difundidas no país. Contudo, não é nada reconfortante saber que 35,5% da população o vê de maneira favorável.
 
Também vale a pena lembrar que o fenômeno de Bernie Sanders é igualmente surpreendente e significativo, e revelou que milhões de estadunidenses apoiam o discurso do autoproclamado socialista democrático, por uma revolução política em favor das grandes maiorias e contra o consenso neoliberal. Isso também é parte da cara dos Estados Unidos de hoje e – por ter sido o mais apoiado pelos jovens – um bom presságio para o futuro, e um contraste com a ameaça ultrarreacionária que desfilará esta semana em Cleveland.
 
Cornel West, filósofo, político e intelectual afro estadunidense, escreveu recentemente que os eleitores estão presos a uma conjuntura que os obriga a optar entre a catástrofe neofascista de Trump e o desastre neoliberal de Hillary Clinton. Ele agrega que “o império estadunidense está vivendo um profundo declínio espiritual e cultural, o que gera um certo desespero. Mas acredita que os movimentos de jovens, como o Black Lives Matter e outros, mostram um despertar moral e espiritual, e nos oferecem uma esperança democrática. Não se trata de ter esperança, e sim de ser a esperança.
 
Esta semana, ao avançar rumo ao inferno, se verá que nas ruas de Cleveland também haverá convites à esperança por outro caminho.
 
Tradução: Victor Farinelli


Créditos da foto: reprodução




A fraude jornalística da Folha é ainda pior: surgem novas evidências


A fraude jornalística da Folha é ainda pior: surgem novas evidências

É indiscutível que a Folha enganou seus leitores sobre questões políticas cruciais e escondeu provas apenas publicadas após serem pegos em flagrante.


Glenn Greenwald e Erick Dau - The Intercept
reprodução
 


    • Dados de pesquisa ocultados pela Folha mostram que a grande maioria dos eleitores quer a renúncia de Temer, o que contradiz categoricamente a matéria da Folha

 


    • 62% dos brasileiros querem a renúncia de Dilma e Temer, e a realização de novas eleições: ao contrário dos 3% inicialmente mencionados pela Folha

 


    • Dados cruciais da pesquisa foram publicados e, em seguida, retirados do ar pelo datafolha: encontrados por portal brasileiro

 


    • Resposta do Diretor Executivo da Folha de São Paulo de que os dados ocultados não eram “jornalisticamente relevantes” não resiste a análise



NA QUARTA-FEIRA (20), a Intercept publicou um artigo documentando a incrível “fraude jornalística” cometida pelo maior jornal do país, Folha de São Paulo, contendo uma interpretação extremamente distorcida das respostas dos eleitores à pesquisa sobre a crise política atual. Mais especificamente, aFolha – em uma manchete que chocou grande parte do país – alegava que 50% dos brasileiros desejavam que o presidente interino, e extremamente impopular, Michel Temer, concluísse o mandato de Dilma e continuasse como presidente até 2018, enquanto apenas 3% do eleitorado era favorável a novas eleições, e apenas 4% desejava que Dilma e Temer renunciassem. Isso estava em flagrante desacordo com pesquisas anteriores que mostravam expressivas maiorias em oposição a Temer e favoráveis a novas eleições. Conforme escrevemos, os dados da pesquisa – somente publicados dois dias depois pelo instituto de pesquisa da Folha – estavam longe de confirmar tais alegações.





Depois da publicação de nosso artigo, foram encontrados ainda mais indícios – através de um trabalho colaborativo incrível de verdadeiros detetives da era digital – que revelam a gravidade da abordagem da Folha, incluindo a descoberta de um legítimo “smoking gun” comprovando que a situação eramuito pior do que achávamos quando publicamos nosso artigo ontem. É importante não deixar o aspecto estatístico e metodológico encubra a importância desse episódio:
Semanas antes da conclusão do conflito político mais virulento dos úlitmos anos – a votação final do impeachment de Dilma no Senado Federal –  aFolha, maior e mais importante jornal do país, não apenas distorceu, masefetivamente escondeu, dados cruciais da pesquisa que negam em gênero, número e grau a matéria original. Esses dados demonstram que a grande maioria dos brasileiros desejam a renúncia de Michel Temer, e não que o “presidente interino” permaneça no cargo, como informado pelo jornal. Colocado de forma simples, esse é um dos casos de irresponsabilidade jornalística mais graves que se pode imaginar.
A desconstrução completa da matéria da Folha começou quando Brad Brooks, Correspondente Chefe da Reuters no Brasil, observou uma enorme discrepância: enquanto a Folha anunciava em sua capa queapenas 3% dos brasileiros queriam novas eleições e que 50% queria a permanência de Temer, o instituto de pesquisa do jornal, Datafolha, havia publicado um comunicado à imprensa com os dados da pesquisa anunciando que 60% dos brasileiros queriam novas eleições. Observe essa impressionante contradição:


Como isso é possível? Nós entramos em contato com o Datafolha imediatamente para esclarecer a dúvida, mas como grande parte dos veículos de comunicação já havia lido nosso artigo e o assunto havia se tornado uma controvérsia nacional, o instituto se recusou a se manifestar. Eles simplesmente não queriam nos explicar a natureza da discrepância.
Mas essa revelação levou a outro mistério: nos dados e perguntas complementares publicados pelo Datafolha, não havia nenhuma informação mostrando que 60% dos brasileiros eram favoráveis a novas eleições, como dizia um dos enunciados da pesquisa do instituto. Parecia evidente que o Datafolha havia publicado apenas algumas das perguntas feitas aos entrevistados. Apesar das perguntas estarem numeradas, o documento contava apenas com as perguntas 7-10, 12-13 e 21. Isso não é necessariamente incomum ou incorreto (jornais tendem a omitir perguntas sobre tópicos menos relevantes ao publicar uma reportagem), mas era estranho que nenhuma das perguntas publicadas pelo Datafolha confirmasse ou tivesse relação com a afirmação do enunciado da pesquisa. De onde, então, saiu essa informação – 60% – que contradiz a reportagem de primeira página da Folha?
A resposta veio através do excelente esforço investigativo de Fernando Brito do site Tijolaço. Primeiro, a equipe do site observou que o endereço URL do documento do Datafolha com os dados e perguntas complementares à pesquisa que foi publicado na segunda-feira – documento citado em nosso artigo original mostrando que a manchete da Folha era falsa – terminava em “v2”, ou seja, era a segunda versão do documento publicado pelo Datafolha. A equipe procurou a versão original, mas não foi possível encontrá-la no sitedo instituto. Eles começaram a tentar adivinhar o endereço URL da versão original, até que acertaram. Embora a versão original tivesse sido retirada do ar pelo Datafolha, ainda se encontrava nos servidores do instituto, e ao acertar o endereço URL correto o Tijolaço teve acesso ao documento.
O que foi encontrado na versão original do documento – aparentemente retirada do ar de forma discreta pelo Datafolha – é de tirar o fôlego. Ficou comprovado que a matéria da Folha era uma fraude jornalística completa. A pergunta 14, encontrada na versão original, dizia:

“Uma situação em que poderia haver novas eleições presidenciais no Brasil seria em caso de renúncia de Dilma Rousseff e Michel Temer a seus cargos. Você é a favor ou contra Michel Temer e Dilma Rousseff renunciarem para a convocação de novas eleições para a Presidência da República ainda neste ano?”


Os dados não publicados pelo Datafolha mostram que 62% dos brasileiros são favoráveis à renúncia de Dilma e Temer, e à realização de novas eleições, enquanto 30% são contrários a essa solução. Isso significa que, ao contrário da afirmação da Folha de que apenas 3% querem novas eleições e 50% dos brasileiros querem a permanência de Temer como presidente até 2018 – ao menos 62% dos brasileiros, uma ampla maioria, querem a renúncia imediata de Temer.


A situação é ainda pior para a Folha (e Temer): a porcentagem de eleitores que deseja a renúncia imediata de Temer é certamente muito maior do que esses 62%. A pergunta colocada pelo Datafolha era se os entrevistados eram favoráveis à renúncia de Temer /e Dilma/. Muitos dos que responderam “não” – conforme demonstrado pelos detalhes dos dados – são apoiadores do PT e/ou querem Lula como presidente em 2018, o que significa responderam que “não” porque querem que Dilma retorne, e não porque querem a permanência de Temer. Portanto – conforme concluído pelo Ibope em abril – apenas uma minoria dos eleitores querem Temer como presidente: exatamente o oposto da “informação” publicada pela Folha.
Essa não foi a única informação ausente que o Tijolaço descobriu quando encontrou a primeira versão dos dados publicados. Como explicam de maneira detalhada, havia dois parágrafos inteiros escritos pelo DataFolha resumindo os dados das respostas que também foram removidos da segunda versão publicada, inclusive a seguinte frase: “a maioria (62%) declarou ser a favor de uma nova votação para o cargo de presidente”
A equipe também descobriu uma pergunta não revelada – a pergunta 11 – que é provavelmente a mais favorável a Dilma e foi completamente omitida pela Folha. O DataFolha perguntou:

“Na sua opinião, o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff está seguindo a regras democráticas e a Constituição ou está desrespeitando as regras democráticas e a Constituição?”


Apenas 49% disseram que o impeachment cumpre as regras democráticas e respeita a Constituição, enquanto 37% disseram que não. Como a Folha pode omitir este dado tão surpreendente e importante quando, supostamente, quer descrever a visão dos eleitores sobre o impeachment?


Ontem, a Folha publicou uma “notícia” sobre o que chamou de “controvérsia” provocada por nosso artigo. O jornal se esquiva e, em muitos casos ignora a maioria destas questões importantes.
O artigo confirma que, ao contrário de sua afirmação anterior de que apenas 3% dos brasileiros querem novas eleições, “a porcentagem de favoráveis a novas eleições, no entanto, sobe para 62% nas respostas estimuladas, ou seja, quando o instituto pergunta explicitamente”. E incluiu as duas perguntas que havia mantido em segredo: uma demonstrando que a maioria quer a saída de Temer, e outra mostrando uma expressiva minoria que vê o impeachment como uma violação da democracia (a Folha deixou de mencionar que estes novos dados, na verdade, haviam sido publicados anteriormente pelo Tijolaço).

 


No entanto, o jornal insistiu que não havia nada de errado em esconder esses dados. Publicaram uma citação do próprio editor executivo, Sérgio Dávila, argumentando que é “prerrogativa da Redação escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa”. Dávila insistiu que “o resultado da questão sobre a dupla renúncia de Dilma e Temer não nos pareceu especialmente noticioso, por praticamente repetir a tendência de pesquisa anterior e pela mudança no atual cenário político, em que essa possibilidade não é mais levada em conta.”
Não se pode subestimar a desonestidade dessa resposta e quanto o editor executivo da Folha conta com a ingenuidade de seus leitores. O maior absurdo da reportagem da Folha foi dizer que o país deseja a permanência de Temer como presidente até 2018 e apenas uma pequena porcentagem quer novas eleições. Mas, ao mesmo tempo em que publicava isso, a Folhatinha em mãos os dados que provam que essas afirmações eram 100% falsas, mostrando que, na realidade, o oposto era verdadeiro. A grande maioria dos brasileiros querem que Temer saia do poder, e não que o interino permaneça como presidente. E uma expressiva maioria, não uma parcela ínfima, quer novas eleições.
Nenhuma das desculpas de Dávila resiste sequer ao menor questionamento. Se é jornalisticamente irrelevante saber a porcentagem de brasileiros favoráveis a novas eleições, por que aFolha encomendou a pergunta? Se essa pergunta sobre novas eleições é irrelevante, por que esse dado foi não apenas incluído, mas proeminentemente destacado pelo Datafolha no título do relatório original? Por que, se esse dado é irrelevante, o Datafolha o publicou originalmente e depois o retirou do ar em nova versão que excluía essa informação? E como esse dado pode ser considerado jornalisticamente irrelevante pela Folha quando ele contradiz diretamente as afirmações alardeadas na capa do jornal e, em seguida, reproduzidas pelos maiores jornais do país?
Outros meios de comunicação também consideraram esses dados relevantes. Ontem à noite, a edição brasileira do El País publicou um artigo de destaque com a manchete: “62% apoiam novas eleições, diz dado que Datafolha publica agora”. O El País aborda o ocorrido tanto como um escândalo jornalístico, quanto político, descrevendo como a Folha escondeu esses dados até serem encontrados em consequência de nosso artigo. O jornal também publicou outra matéria citando especialistas que corroboraram as posições de nossos entrevistados, criticando veementemente aFolha pelo uso impróprio dos dados da pesquisa.


Fica extremamente óbvio o que realmente aconteceu: a Folha de São Paulo fez alegações falsas sobre as questões políticas relevantes do país e, além disso, sabiam que eram falsas quando as publicou. A Folha tinha em mãos os dados que comprovam a falsidade das alegações, mas optou por efetivamente escondê-las de seus leitores. Ou melhor, alguém decidiu por tentar retirá-los da Internet.
O mais surpreendente é que todo esse esforço foi feito para negar o desejo de democracia: fazendo o país acreditar que a maioria dos brasileiros apoiam a figura política que tomou o poder de forma antidemocrática e que não há necessidade de realizarem-se novas eleições, quando a verdade é que a maioria do país quer a renúncia do “presidente interino” e a realização de novas eleições para escolha de um presidente legítimo.
Conforme dissemos ontem, é impossível estabelecer se a Folha agiu de forma proposital com o intuito de enganar seus leitores ou com extrema incompetência e negligência jornalísticas – embora as evidências sugerindo aquela possibilidade sejam mais abundantes hoje que ontem. Motivos à parte, é indiscutível que a Folha essencialmente enganou seus leitores no que diz respeito a questões políticas cruciais e escondeu provas fundamentais apenas publicadas após serem pegos em flagrante.
Traduzido por Inacio Vieira


Créditos da foto: reprodução

Fonte: Carta Maior




quinta-feira, 21 de julho de 2016

IMPEACHMENT DE DILMA É GOLPE DE ESTADO

impeachment de Dilma é golpe de Estado



O processo de impeachment movido contra a presidenta eleita, Dilma Rousseff, viola a Constituição do Brasil, a Convenção Interamericana dos Direitos Humanos e o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. E, por isso, deve ser declarado nulo em todos os seus efeitos e ser combatido pelas cidadãs e cidadãos do país.

Essa é a síntese da sentença anunciada nesta quarta-feira (20) pelo Tribunal Internacional pela Democracia, uma iniciativa da Via Campesina Internacional, da Frente Brasil Popular e da Frente Brasil Juristas pela Democracia. O veredito de valor simbólico será endereçado ao Senado e aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Por dois dias, o tribunal — formado por sete personalidades vindas do México, da França, da Itália, da Espanha, da Costa Rica e dos EUA — se debruçou sobre os aspectos jurídicos, econômicos, políticos, culturais, sociais e históricos do processo de impeachment contra Dilma.

Com o auxílio de testemunhas de defesa e de acusação, todas referências para o direito brasileiro, o júri analisou quatro perguntas essenciais sobre o processo de impeachment: 1. Viola a Constituição?; 2. Sem a ocorrência de crime de responsabilidade, caracteriza-se um golpe parlamentar?; 3. Foram violados os tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário?; e, 4. Impeachment deve ser declarado nulo?.

A todas as perguntas a resposta foi “sim”. “Decidiram os jurados declarar que o processo de impeachment contra Dilma Rousseff viola todos os princípios do processo democrático e da ordem constitucional brasileira”, afirmou o jurista Juarez Tavares, que presidiu os trabalhos do tribunal.

“Em democracias presidencialistas não se pode impedir um chefe de Estado por razões políticas. A aprovação ou desaprovação de um governo deve ser resolvida por eleições diretas, não por ato do Parlamento”, completou Tavares, que fez críticas também ao STF por ainda não ter entrado “profundamente” no processo.

No primeiro dia do Tribunal Internacional da Democracia, os participantes já haviam apontado a ocorrência de um processo de impeachment contra Dilma que oculta um golpe parlamentar, misógino, elitista e midiático.

O segundo dia foi marcado pelos votos de cada jurado contra o golpe e a favor da democracia. Nas análises, prevaleceram a identificação de uma roupagem legal para o golpe, com a utilização instrumentos previstos na Constituição para manipular a vontade popular e fazer avançar uma agenda de supressão de direitos, associada à concentração de poder e renda nas mãos das elites.

“Claro que se trata de um artifício jurídico disfarçado de responsabilidade jurídica”, disse o bispo mexicano Raul Veras, candidato ao Prêmio Nobel da Paz em 2012 por seu trabalho a favor dos direitos humanos no México.

“Não se trata de algo isolado, é algo articulado, muito bem pensado e apoiado por um poder que parece ter seus tentáculos nos cinco continentes. O impeachment contra Dilma não está sendo usado como um instrumento jurídico, mas como meio de interromper um projeto político.”

"Me declaro aberta e manifestamente contra essa farsa. Porque o que aqui se passa afeta o mundo inteiro", disse.

Os dez jurados se revezaram na apresentação de votos que denunciaram também o papel dos veículos de comunicação dominantes em apoio ao golpe e para permitir uma narrativa legalista para um ataque à Constituição e à democracia brasileiras.

“A manipulação dos termos faz com que tudo o que é ilegal que se faz nas finanças seja considerado legítimo. Isso faz com que os sujeitos de direitos se transformem em objetos do direito”, afirmou o italiano Giovanni Tognoni, membro do Tribunal Permanente do Povo.

Retrocessos sociais

Professora catedrática em filosofia de direito na Universidade Carlos III em Madrid (Espanha) Maria José Farinas Dulce, que é também estudiosa da sociologia jurídica ibero-americana, apontou a democracia como um processo constituído de avanços e retrocessos.

Para ela, o atual momento é de retrocesso em direitos, especialmente os relacionados ao trabalho, que busca provocar “fraturas sociais e violação dos mecanismos de integração social”.

“Não sejamos inocentes para esquecer que, nos casos do Brasil e de outros países da Europa, é uma contrarrevolução neoliberal e conservadora, que rompe as bases sociais e integradoras”, avalia Maria Dulce. “Estamos em regressão democrática, em regressão constitucional, portanto, estamos em luta.

Azadeh N. Shahshahani, advogada de direitos humanos dos EUA, sustentou seu voto contra o processo de impeachment de Dilma nos episódios anteriores ocorridos no Paraguai (2012) e em Honduras (2009).

“O que está acontecendo aqui é uma conspiração contra a democracia”, afirmou Azedeh Shahshahani, jurista norte-americana.

“Aqueles que estão falando contra Dilma Rousseff são acusados de corrupção e devem ser punidos por isso. Se um presidente pode continuar ou não a presidir, não deveria depender de ter a maioria no Congresso. Esse processo está baseado em algo que só pode ser definido como: capitalista, misógino e fascista”.

Advogado e acadêmico mexicano, Jaime Cárdenas Garcia classificou o processo que está no Senado atualmente como uma “fraude à Constituição brasileira e à Convenção Interamericana de Direitos Humanos”.

“A burguesia não suporta o programa em favor do povo da coalização de esquerda”, completou Laurence Cohen, senadora francesa e com atuação em temas ligados aos direitos das mulheres.
Além dos jurados e do qualificado corpo de juristas brasileiros, o julgamento contou também com a presença do advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo; do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), e dos deputados federais Wadih Damous (PT-RJ) e Jandira Faghali (PCdoB-RJ).

“Está na nossa Constituição, não há crime sem lei anterior que o defina”, disse Lindbergh após o anúncio da sentença.

“Ninguém se elegeria com um programa radical desse, de retirada de direitos dos trabalhadores. De uma tacada só, quer acabar com o legado de Lula, Ulysses Guimarães e até de Getúlio Vargas, com a CLT. Esse tribunal joga um excelente papel para os senadores. Não jogamos a toalha, há um clima de constrangimento no Senado”, avaliou o senador, em uma crítica ao projeto do presidente interino, Michel Temer.

O deputado federal Wadih Damous (PT-RJ) considerou histórico o julgamento e disse que se o Senado não arquivar o processo, o STF terá que ser chamado. “Há uma vítima nesse processo de impeachment, e a vítima é a democracia”, afirmou o deputado. “Vamos ter que chamar o STF para este processo. O STF, que já autorizou extradição de Olga Benário, vai ter a oportunidade de limpar sua história.”