quarta-feira, 7 de setembro de 2016

No Congresso, a escavadeira mostra seu poder

Congresso

No Congresso, a escavadeira mostra seu poder

ONGs criticam as propostas para agilizar os licenciamentos ambientais
por Miguel Martins — publicado 29/04/2016 14h14, última modificação 30/04/2016 10h01
Arquivo Pessoal
Mariana
Irregularidades no licenciamento da barragem foram determinantes para a tragédia
Instalada em novembro do ano passado, poucos dias após o rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco no município de Mariana, em Minas Gerais, a comissão parlamentar que acompanha os desdobramentos do maior desastre ambiental da história do País segue o curso moroso dos trabalhos legislativos, esquecidos em meio ao processo de impeachment de Dilma Rousseff. 
A lentidão nos trabalhos da comissão contrasta com a celeridade na tramitação de uma proposta para agilizar a concessão de licenças ambientais. Apresentado em setembro de 2015 pelo peemedebista Romero Jucá, um dos principais entusiastas doimpeachment, o texto está pronto para ser votado no plenário no Senado.
O projeto prevê a criação de um licenciamento ambiental especial para obras estratégicas de infraestrutura, ao estabelecer prazos exíguos para os estudos de campo dos órgãos de fiscalização ambiental. A proposta faz parte do pacote da Agenda Brasil, idealizada por Renan Calheiros, presidente do Senado, para retomar o crescimento econômico.
Ironicamente, a investigação do Ministério Público de Minas Gerais sobre o desastre de Mariana aponta que a pressa no licenciamento da obra da barragem foi decisiva para a tragédia. A Samarco não teria, segundo o MP, apresentado detalhes técnicos importantes para obter a licença prévia em 2007. À época, os dados foram considerados suficientes pela Fundação Estadual do Meio Ambiente. Ainda assim, a palavra de ordem no Congresso é “desburocratizar”.
O projeto de Jucá estabelece um período de 230 dias, pouco mais de sete meses, para a concessão do licenciamento especial. Atualmente, os empreendimentos no País levam dois anos em média para serem aprovados. Segundo a proposta do PMDB, os órgãos licenciadores estaduais e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente deverão analisar em até 60 dias os documentos entregues por empreendedores. Depois, terão mais dois meses para pedir novos esclarecimentos e deliberarem sobre a licença.
Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), uma das ONGs que integram o Conselho Nacional do Meio Ambiente, afirma que o prazo de dois meses para a análise do pedido de licenciamento não se adapta ao “tempo natural”. “Em locais de grande biodiversidade, é preciso acompanhar todas as estações do ano, pois as espécies se reproduzem de forma sazonal”, explica.
“Não se pode inverter e criar um sistema de gestão a partir da lógica econômica, de resultado, investimento e retorno rápidos.” Segundo Bocuhy, a atual capacidade de fiscalização da área ambiental no País é limitada e a proposta no Senado não prevê aumento da capacitação do Ibama e dos órgãos estaduais. “Se a rigidez na concessão do licenciamento ambiental diminuir, casos como o de Mariana vão se tornar mais frequentes.” 
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Carlos Bocuhy teme novos desastres. (Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil)
A proposta do PMDB não prevê a obrigatoriedade de consultas às populações potencialmente afetadas por um empreendimento.
No lugar das audiências, foi proposta a criação de um programa de comunicação ambiental para prestar esclarecimentos à sociedade, coordenado pelo próprio empreendedor e com duração mínima de 30 dias. A mudança preocupa os ambientalistas. “A consulta pública seria conduzida e concluída pelo empreendedor, uma verdadeira autorregulamentação das audiências”, afirma Bocuhy.
O Ministério Público Federal, com apoio do Proam e de outras ONGs de meio ambiente, tem realizado uma série de audiências públicas para debater as mudanças propostas.
O promotor de Justiça Fernando Barreto Júnior, presidente da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente, afirma que qualquer projeto capaz de causar restrições ao acesso da sociedade às informações e de dificultar a participação popular será objeto de impugnação. “Há uma significativa redução da publicidade nos processos de licenciamento ambiental, o que contraria não só a Constituição, como toda a legislação vigente que assegura a transparência dos dados ambientais.”
Além da proposta que tramita no Senado, o Conama, ligado ao Ministério do Meio Ambiente, criou um grupo de trabalho para tentar agilizar a concessão de licenciamentos no País. A minuta da proposta apresentada ao conselho pela Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente prevê a criação de um licenciamento ambiental unificado, com o objetivo de avaliar em apenas uma etapa os empreendimentos que tenham menor potencial de impacto. Atualmente, a aprovação ambiental de uma obra é realizada em três fases: a licença prévia, a de instalação e a de operação.
Contrariados, o Proam e outras quatros ONGs que compõem o Conama decidiram deixar o grupo de trabalho por não concordarem com a celeridade imposta nas discussões e pela falta de critérios sobre quais empreendimentos estariam aptos a obter a licença em uma única fase de avaliação.
Assessores da área ambiental do governo concordam que a minuta carece de complementação, especialmente em relação aos critérios. Eles afirmam, porém, que a modalidade simplificada de licenciamento tem sido adotada pelos órgãos estaduais. O governo não pretende ainda limitar a realização de audiências públicas, um dos pontos mais criticados no projeto do Senado.
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Agenda Brasil. Jucá, autor da proposta no Senado. (Douglas Magno/ AFP)
Segundo Bocuhy, a crise econômica vivida pelo País acaba por transformar o licenciamento ambiental na “Geni” do processo de retomada do crescimento. O caos político pode ter efeitos ainda mais nocivos. “O PT atende aos interesses econômicos, mas ao menos sabe trabalhar com a sociedade e dialogar. Se o PMDB chegar ao poder, passará como um trator sobre a área ambiental.” 
*Reportagem publicada originalmente na edição 897 de CartaCapital, com o título "O poder da escavadeira"

A morte de Konibu e o crime de genocídio de Romero Jucá

Questão Indígena

A morte de Konibu e o crime de genocídio de Romero Jucá

Enquanto era presidente da Funai, Jucá entregou as terras dos índios Akuntsu a seus algozes, diz sertanista
por Felipe Milanez — publicado 02/06/2016 19h27, última modificação 02/06/2016 20h17
Felipe Milanez
Konibu
Parte do sofrimento de Konibu deve-se a um ato de Jucá na presidência da Funai: a destinação da terra onde os indígenas viviam para fazendeiros
Na última quinta-feira, 26 de maio, faleceu em Rondônia o indígena Konibu, o velho líder e xamã do povo Akuntsu. Sobrevivente de um genocídio, ele já estava bastante debilitado por um câncer e problemas cardíacos, e tinha em torno de 85 anos., Morreu em paz, deitado na rede dentro da maloca onde viva, auxiliado por agentes de saúde e pelo sertanista da Funai, Altair Algayer.
Se a morte foi tranquila, no entanto, Konibu sofreu muito em vida. E parte desse sofrimento se deve a um ato político deRomero Jucá enquanto era presidente da Funai: a destinação da terra onde os indígenas vivam para fazendeiros.
Os Akuntsu, seus vizinhos Kanoê e o “Índio do Buraco” são remanescentes de três povos que sofreram um genocídio de 1985 até os últimos ataques documentados em 1995.
O ex-ministro do Planejamento teve participação direta nesse processo enquanto era presidente da Funai (1986-1988): foi ele quem desinterditou a área e a destinou a fazendeiros que cometeram os crimes.
Diário Oficial com resolução de Romero Jucá em 1986
Resolução de Romero Jucá em 1986, publicada no Diário Oficial
Por isso, a morte de Konibu e a tragédia de seu povo trouxeram à tona uma grave questão atual, com Jucá e as articulações políticas contra os direitos indígenas: o governo interino ameaça rever a demarcação das terras indígenas feitas no governo Dilma, exatamente o que Jucá fez em 1986 com os Akuntsu e que levou ao genocídio.
Em manifestação recente, a ONU denunciou que estes retrocessos podem implicar em “riscos de etnocídios”. A análise do caso dos Akuntsu revela exatamente o que aconteceu nos anos 1980, e pode novamente se repetir. Retirar o status de proteção de uma área ocupada por indígenas e destiná-la a ruralistas pode levar a um genocídio, como o caso dos Akuntsu, o qual Konibu e seu povo foram vítimas.
O caso a participação de Jucá no processo de genocídio dos Akuntsu não foi reportado no relatório da Comissão Nacional da Verdade, mas consta no livro Memórias Sertanistas: Cem Anos de Indigenismo no Brasil (Sesc, 2015). A questão da participação de Romero Jucá no genocídio, ao desinterditar a área, também foi omitida da notícia veiculada pela assessoria da Funai na semana passada, ao divulgar a morte de Konibu.
O genocídio Akuntsu
Em 1985, o sertanista da Funai Marcelo dos Santos trabalhava no sul de Rondônia com os Nambiquara, e foi a campo verificar a presença indígena em uma área demandada pela Fazenda Guaratira, que negociava créditos do Banco da Amazônia e pediam à Funai uma “certidão negativa da presença indígena”.
Ao visitar a fazenda, Santos foi informado por trabalhadores de que teria ocorrido um massacre em uma fazenda vizinha: “Olha, não pode falar, não, porque este lugar aqui é muito perigoso. Mas eu vou avisar para você. Aqui, nessa fazenda, vocês não vão encontrar índio, não. Mas se vocês forem lá na Fazenda Yvypytã, ‘aconteceu’ alguma coisa. Teve uma confusão lá, porque acuaram os índios e eles correram” (Memórias Sertanisas, página 332).
A Yvypytã era de propriedade de Antonio José Rossi Junqueira Vilela, acusado de comandar um massacre de garimpeiros dentro dessa mesma fazenda, em 1983 (Inquérito Policial 114/83, na delegacia de Vilhena)
Ao ser informado da denúncia, Santos foi junto de um grupo de índios Nambikwara e do documentarista Vincent Carelli procurar vestígios e encontrou uma pequena aldeia com quatro casas destruídas e cápsulas de revolver. Essas cenas aparecem no filmeCorumbiara, de Vincent Carelli, que está disponível na internet.

Com as evidências da presença indígena, Santos negou a certidão e pediu a interdição da área. A Funai enviou o sertanista Sydney Possuelo para comprovar as alegações, e o então Presidente da Funai Apoena Meireles assinou a Portaria nº 2.030/E/1986, publicada em 11 de abril de 1986, interditando 63.900 hectares, com base no levantamento de Santos, com o nome de “Área Indígena Omere”.
“Eu desenhei o mapa da interdição com os poucos conhecimentos que eu tinha na época que eu estava lá dentro da área. Mas não tinha andado no mato para saber porque os pistoleiros não permitiam e nos ameaçavam”, relata Marcelo dos Santos em entrevista.
A interdição envolvia três fazendas na época, e os sertanistas podiam entrar na área para investigar os crimes, o que intimidava os fazendeiros a desmatarem e, possivelmente, praticarem novos ataques.
Ficavam também suspensos os financiamentos e por isso a Yvypytã entrou com uma ação judicial e conseguiu uma liminar para desinterditar a área. Em recurso da Funai ao Tribunal Regional Federal, o ministro Lauro Leitão cassou a liminar para manter a área sob interdição, ante “manifesta a possibilidade de grave lesão”, a “iminente possibilidade do aniquilamento físico da população tribal remanescente”, em decisão datada de 21 de maio de 1986.
Com isso, permanecia válida a portaria da Funai, protegida também por uma decisão judicial de segunda instância. Acontece que nesse mesmo mês de maio de 1986 Romero Jucá assumiu a presidência da Funai.
Não foram poucos os crimes cometidos por Jucá enquanto esteve na presidência da Funai, como escreveram recentemente Pádua Fernandes, em artigo no seu blog, e João Fellet, naBBC, e a participação no genocídio dos Akuntsu vem a se somar a uma série de violência contra os povos indígenas.
Em 12 dezembro de 1986, Romero Jucá revogou a portaria assinada por Apoena Meireles e assinou uma “nova” portaria com o número 1.813 para “desinterditar” a área e revogar a portaria 2030/E, assinada pelo seu antecessor, Apoena Meireles. Ou seja: fez um novo ato administrativo, já que judicialmente a terra estava garantida aos índios, para transferir a posse aos fazendeiros. Há um temor dos povos indígenas que uma estratégia parecida seja utilizada pelo governo interino de Temer.
A decorrência desse ato de Jucá resultou em novas invasões no território indígena, o desmatamento da área, novos ataques aos Akuntsu, aos Kanoe e, sobretudo, também ao “índio do Buraco”, um outro povo indígena que tem agora apenas um único sobrevivente. Sertanistas da Funai, e Marcelo dos Santos especificamente, passaram a ser proibidos de entrar na área. A participação de Jucá nesse processo de genocídio não foi incluída no relatório da Comissão Nacional da Verdade, que apresenta os envolvimentos de Jucá na invasão de garimpeiros na TI Yanomami.
O contato e o convívio com os sobreviventes
Apenas nos anos 1990, quando Sydney Possuelo assume a presidência da Funai em 1991, que Santos consegue autorização para voltar a investigar o genocídio do rio Omere, em Corumbiara. Nesse período, Altair Algayer, que migrou com sua família do sul para Rondônia, se junta à equipe da Funai.
Altair Algayer e Konibu
Altair Algayer, da Funai, cheira rapé na companhia de Konibu
Em 1995, um mês depois do massacre de camponeses em Corumbiara, Santos, Algayer e Carelli encontram dois irmãos Kanoe, Purá e Tiramantu, em uma pequena clareira que viram numa imagem de satélite e, em campo, descobriram ser a aldeia dos Kanoe. As imagens de Vincent Carelli foram parar no Fantástico e serviram para a Funai publicar uma nova interdição da área e reiniciar o processo de demarcação.
Um mês depois do contato com os Kanoe, os sertanistas foram guiados por eles até os Akuntsu. E, no ano seguinte, encontraram vestígios de um novo ataque ao povo do “índio do Buraco”, descobrindo em meio a um desmatamento feito durante o período de chuvas, o que não é comum, casas queimadas, capsulas de revolver, e diversos vestígios materiais de uma pequena aldeia. Isto prova que o ataque aos indígenas, ao menos desde o massacre relatado por trabalhadores da fazenda em 1985, foi constante até 1996.
Durante esse processo de contato com os indígenas, a Funai contou com apoio de uma rede de colaboradores e movimento social, como o cinegrafista Vincent Carelli e sua esposa, a antropóloga Virgínia Valadão, indigenistas da Opan, como Inês Hargreaves, e da Kanindé, como Pedro Rodrigues, Rogério Vargas, Ivaneide Cardoso, e indigenistas do CIMI. A Terra Indígena Rio Omerê foi homologada em 2006.
Morte de Konibu
Os Akuntsu eram sete indígenas em 1995. Konibu, o mais velho, com uma esposa e três filhas, e uma senhora mais velha, chamada Ururu e um filho adotivo, Pupak. Uma das filhas morreu em 2000 quando uma árvore caiu sobre a casa da família. Em 2009, faleceu Ururu.
Após uma epidemia de doenças respiratórias, idas e vindas em hospitais, e uma profunda depressão sobre os índios, Ururu deitou-se na rede e se deixou morrer, sem se alimentar por uma semana. Escrevi sobre esta triste morte na revista RollingStone, e pode ser lido aqui. Algayer acompanhou todos os momentos, e ajudou os indígenas a preparar o funeral.
Os Akatsu
Os Akatsu, com Konibu ao fundo
Novamente, com Konibu, Algayer também assistiu de perto os últimos momentos. Ele diz que as duas filhas e a viúva estão “desamparadas, desorientadas”, assim como Pupak, filho adotivo de Ururu, que continua bastante impactado. “Desde a morte da Ururu, ele ficou muito abatido, sozinho. Acompanhava o Konibu no dia a dia, ajudando na caça. Mas está bastante isolado e solitário”.
O mais sofrido, conta ele, é a parte espiritual. “O konibu era o último xamã, e elas não sabem fazer os trabalhos rituais. Isso cria uma angústia muito profunda, muita tristeza. Elas temem que o espírito dele não esteja bem. Elas não têm mais segurança espiritual, e nem física. É muito triste.”
No dia do funeral, o três remanescentes Kanoe, o indígena Purá, sua irmã Txinamanty, mãe de Bakwa, já estava na base. Txinamanty é xamã, assim como era Konibu, mas são de povos diferentes e possuem e cosmovisões distintas.
“No outro dia da morte, a gente percebeu que ela passou a noite inteira cheirando rapé. Ela fez um ritual sozinha na aldeia dela. E uns dias antes da morte ela vinha e fazia rituais de cura para ajudar o Konibu, que estava em uma situação difícil, na rede.”
Konibu estava na rede praticamente sem conseguir se mexer e convalescendo desde janeiro. Nos últimos dias, ele precisava de ajuda para se levantar e para sentar. “Não tinha mais força”, relata Algayer.
A tragédia de um fim do genocídio é um drama existencial profundo e perturbador, que Algayer enfrenta com um humanismo extraordinário.
Conforme depoimento de Marcelo dos Santos, às paginas 314 do livro Memórias Sertanistas: “Saiu o Apoena e entrou o Romero Jucá. A primeira providência do Romero Jucá: me proibir de entrar na área. Fui proibido de sair dos Nambikwara e entrar na área do igarapé Omerê. E, junto com a minha proibição, ele desinterditou a área.”
E relata: “Foi a primeira manifestação da Justiça sobre o caso. Assim mesmo, o senhor Romero Jucá entregou as terras dos índios isolados aos algozes.”
Em um artigo que assino junto do antropólogo Glenn Shepard, na revista Tipiti, discute essa trágica situação de povos remanescentes de genocídios recentes, as contradições da Funai com relação as demarcações, e a dedicação e o humanismos dos sertanistas, como de Altair Algayer. O texto pode ser acessado aqui.

Takumã Kuikuro, um indígena em Brasília no dia do golpe IMPERDÍVEL! SÓ DISSE VERDADES!

Takumã Kuikuro, um indígena em Brasília no dia do golpe

Cineasta do povo Kuikuro acompanha processo de impeachment: 'Essa política agressiva e autoritária traz medo para a gente"
por Felipe Milanez — publicado 07/09/2016 04h53, última modificação 07/09/2016 12h43
Takumã Kuikuro é um premiado cineasta indígena, do povo Kuikuro, e vive na aldeia Ipatse, no Parque Indígena do Xingu. Ele fez um primeiro curso de audiovisual com o projeto da organização Vídeo nas Aldeias, e posteriormente estudou cinema na Escola de Cinema Darcy Ribeiro.
Entre outros trabalhos, dirigiu o curta metragem Karioka (2014), que acompanha a saga de sua família no Rio de Janeiro enquanto estudou na Darcy Ribeiro, mostrando o cotidiano de sua mulher, Kisuagu Regina KuiKuro, e o filhos Kelly Kaitsu, Ahuseti Larissa e Mayupi Bernardo KuiKuro. Dirigiu também com Leonardo Sette e o antropólogo Carlos Fausto o filmeAs Hiper Mulheres (2011). Seu último filme,Londres como uma aldeia (2015) tem circulado em festivais em todo o mundo.
Takumã esteve em Brasília durante a semana em que a presidenta Dilma foi deposta pelo Congresso, e por telefone transmitiu o seguinte depoimento, em forma de crônica, dos dias em que esteve na capital do Brasil.
Para ele o atual Congresso é uma “Casa das Doenças” que não representa aqueles que estão sendo atacados no Brasil. As disputas pela presidência da Funai estão focadas mais nos interesses individuais de pessoas que querem o poder, e serão, de qualquer maneira, controladas por esses deputados. Ele teme pelo futuro: “Essa política agressiva e autoritária traz medo para a gente.”
Abaixo, o depoimento de Takumã Kuikuro: 
O clima de enterro e a Casa dos Feiticeiros
Quando eu cheguei em Brasília, semana passada, eu estava desanimado, e a cidade estava desanimada. É como acontece na aldeia quando alguém falece: a aldeia fica triste. Brasília estava em um clima de luto. Foi isso que eu vi quando cheguei. E logo depois que os homens derrubaram os poderes das mulheres com o golpe.
Nesse clima de enterro, quando eu vi o Congresso Nacional pensei assim: aqui é a Casa dos Feiticeiros. Uma “Casa da Doença”, um lugar que hoje traz doença para qualquer povo indígena do Brasil. A “Casa dos Políticos” parece uma “Casa das Doenças”. Não representa mesmo a diversidade nossa, nem as pessoas que estão mais fragilizadas, que estão sendo atacadas. Ali representa é a doença que se espalha por esses feiticeiros políticos que só defendem seus interesses.
Eu fui para Brasília para tirar um visto no consulado americano para poder ir aos Estados Unidos, e na verdade eu não estava sabendo disso tudo o que estava sendo armado.
E foi uma surpresa para mim o que aconteceu, porque nas últimas semanas eu estive trabalhando em uma série de TV sobre cineastas indígenas, visitando outras aldeias no Xingu e nos Xavantes, e quando eu chegava na minha aldeia Ipatse eu tinha que cuidar da roça, que fazemos nessa época do ano.
Andei bem desligado das notícias, sem acompanhar TV nem internet nesse último tempo. Por acaso, eu estava em Brasília nessa semana fatídica para a democracia brasileira. Foi uma coincidência eu estar lá no dia 31 de agosto, quando os senadores votaram para derrubar a Dilma. E fui tentar entender o que está a acontecendo no Brasil nesses dias que fiquei na capital.
Assim que eu cheguei lá, me avisaram que estava tendo a última defesa da Dilma, que era a última votação no Congresso para ela ficar ou para ela sair. Eu vi lá que o que aconteceu era como se fosse algo pré-determinado, de alguma coisa ainda maior que vai acontecer e que vai cair em cima da gente. Eu senti isso lá em Brasília.
Fiquei essa semana toda, e estava lá por acaso. Queria perceber melhor o que estava acontecendo. Mas foi difícil de entender andando por lá e conversando com as pessoas que encontrei. É um momento muito difícil, e muito complicado.
Sobre esse negócio da política, o que eu consegui perceber é que aqueles que estão lá no poder querem mudar tudo. Primeiro, queriam a Dilma afastada. Depois, os homens, principalmente só os homens que querem estar em cima das mulheres, eles querem mudar tudo. Isso eu também percebi lá. Até a Constituição de 1988, eles querem mudar. Não sei porque eles querem mudar tudo: tirando a presidenta, eles querem mudar a lei.
Parece que estava acontecendo uma guerra em Brasília essa semana, ou preparando alguma coisa que vai atacar o Brasil. Alguém que vai atacar os povos indígenas. Na verdade, ninguém lá falava de povos indígenas, ninguém lá estava defendendo os povos indígenas, querem acabar mesmo. E nisso, na verdade, não era uma “guerra”, porque era um lado só que parecia muito mais forte, o que atacava.
Sobre o ataque aos povos indígenas, me chamou a atenção que mesmo que algum antropólogo ou indigenista assuma como presidente da Funai, não vai ter saída.
A luta de antigamente, como era de Rondon, ou mesmo do sertanista Orlando Villas Bôas, eles lutavam mesmo para defender os povos indígenas. Mas hoje em dia ninguém luta mais como eles, todo mundo gira com propina mesmo, com outros interesses diretos.
Essa disputa pela presidência da Funai que eu vi lá em Brasília estava assim, sem ninguém falar de uma verdadeira luta, só pensando nos seus interesses.
E também na Funai, não se pode negar, são os deputados é que estão mandando. Mesmo que, aparentemente, alguém entre na Funai para estar do lado dos indígenas, no meio dessa guerra que eu vi em Brasília, os deputados não vão gostar e não vão deixar. Percebi que essa guerra é mesmo violenta, uma coisa muito triste ver isso acontecendo. Não vai ser apenas alguém dizer que entra na Funai para lutar com os indígenas; isso não vai acontecer, a coisa está muito pior.
Depois que eu ouvi na TV o discurso do Michel Temer, vi que ele não falou nada de povos indígenas. Na verdade, ninguém lá falou nada de povos indígenas. Isso é um medo para a gente, pois é como se fosse uma doença que vai atacar os povos indígenas e que estivesse começando a se espalhar.
Eu percebi nesse impeachment que vão atacar os povos indígenas. Quem fez isso, não gosta dos indígenas. E não só de indígenas, não gosta é de muita gente que esta sofrendo. A gente tem que ficar ligado com isso porque essa política contrária é muito forte, e muito agressiva.
Tenho esperanças de que não irá acontecer coisas ainda pior contra os indígenas e as pessoas que estão sofrendo mais nesse momento, como os quilombolas, os negros e as negras, as mulheres.
Espero que não aconteça nada pior. Não só contra os indígenas, mas outras pessoas que também estão sendo atacadas. Essa política agressiva e autoritária traz medo para a gente.

Fonte: Carta Capital

O constrangedor 7 de Setembro de Michel Temer

O constrangedor 7 de Setembro de Michel Temer

O impopular presidente evita carro aberto em desfile frio, mas não escapa dos gritos de 'Fora Temer' e 'golpista'. Na web, já sofre mais do que Dilma
por André Barrocal — publicado 07/09/2016 14h32, última modificação 07/09/2016 15h59
Beto Barata/PR
O presidente Michel Temer no 7 de setembro
Michel Temer no desfile de 7 de setembro em Brasília: recepcionado com vaias
O primeiro Dia da Independência de Michel Temer no poder lembrou a abertura da Olimpíada. O presidente seguiu um protocolo de exposição mínima durante a parada militar em Brasília, uma tentativa de fugir das vistas e das vaias públicas. Não deu certo, como também falhara no Maracanã.
Gritos de “Fora Temer” e “golpista” ecoaram no início e no fim do desfile, disparados por um grupo pequeno e situado em um local específico na Esplanada dos Ministérios, palco de um ato “chocho”, na descrição de um veterano servidor da Presidência, com pouca gente e calor humano.
Sinais claros de como está dura a vida do peemedebista, a ostentar índices de aprovação dignos de Dilma Rousseff. Com um agravante: nas redes sociais da internet, ele desperta hoje mais rejeição do que aquela direcionada à petista no auge de protestos a favor do impeachment em 2015.
As primeiras vaias a Temer surgiram assim que ele desceu, pontualmente às 9h, em frente à área reservada às autoridades para o desfile na Esplanada. Ele decidira ir ao local em um carro fechado, sem acenar ao público, ao contrário do que os presidentes costumam fazer no 7 de Setembro. Também resolvera não passar as tropas em revista, algo que o obrigaria a estar a céu aberto.
Duas precauções que colaboraram para Temer ficar exposto por menos tempo aos olhos da plateia.
Ao descer do carro, o presidente foi recepcionado pelo governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, e pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann, enquanto um grupo de jovens e adolescentes começou a gritar “Fora Temer” e “golpista”.
Era um grupo pequeno, aparentemente não ultrapassava 20 pessoas, em sua maioria jovens. Estava a cerca de 30 ou 40 metros do peemedebista, em uma arquibancada de metal montada para o desfile e destinada a receber convidados de funcionários da Presidência.
De óculos escuros, barbicha ruiva e camiseta da banda de heavy metal Sepultura, Lucas Piovesan Bertho, de 20 anos, era um dos que vaiaram. “Sou contra o Temer no poder porque ele chegou lá com uma 'pernada' e quer fazer coisas que não foram vencedoras na eleição de 2014”, disse.
Bertho estuda na Universidade de São Paulo (USP) e contou ter ido a Brasília com cerca de 90 alunos para uma espécie de aula de campo relativa a uma das disciplinas do seu curso. Segundo ele, foi o professor responsável pela disciplina, Marcelo Nerling, quem conseguiu convites para o desfile.
Alguns dos universitários usavam adesivos com a inscrição “#foratemer” pouco antes de o presidente chegar. Enquanto conversavam com um repórter de um jornal de Brasília, foram obrigados a retirá-los, por ordem de seguranças presidenciais, segundo os quais eram permitidas apenas manifestações sonoras. Visuais, não.
Mais cedo, outros seguranças haviam impedido que um outro jornalista da imprensa brasiliense entrevistasse pessoas sentadas na arquibancada da turma anti-Temer.
Segundo assessores presidenciais, a única orientação dada aos seguranças no tocante ao trato com o público era proibir que fossem abertos cartazes ou faixas, sob o argumento de que isso poderia atrapalhar a visão do público.
Assim que os jovens anti-Temer pararam as vaias, pessoas sentadas próximas a eles gritaram palavras de ordem de sentido oposto: “A nossa bandeira jamais será vermelha”, alusão à cor característica de militantes de esquerda, identificados com o “Fora Temer”.
Ali, naqueles mesmos degraus, uma jovem adepta do “Fora Temer” ergueu um cartaz rosa com a inscrição “O golpe é contra a diversidade”, referência ao caráter 100% branco e masculino do Ministério do peemedebista.
Curiosidade: um dos participantes do desfile foi o ginasta Arthur Nory, agora conhecido como Arthur Mariano, medalha de bronze na Olimpíada. Ele carregava uma tocha na mão, a simbolizar o “fogo da pátria”. Ele é terceiro-sargento da Aeronáutica, um dos vários medalhistas militares da Rio 2016. No início do ano, gravara um vídeo com dois colegas ginastas no qual zombavam de um quarto, que era negro.
O ginasta Arthur Nory
Medalhista olímpico, Arthur Nory é terceiro-sargento da Aeronáutica. Ele também ficou conhecido por um caso de racismo contra outro ginasta
A esquadrilha da fumaça a cruzar o céu azul de Brasília marcou o encerramento da parada, por volta das 11h. Temer desceu da tribuna de honra que havia ocupado e dirigiu-se ao carro, para voltar ao Palácio do Jaburu, quando sofreu novos constrangimentos por obra dos mesmos jovens de antes.
Ao “Fora Temer” e “golpista”, juntaram-se dois novos gritos: “golpistas, fascistas, não passarão!” e “golpistas, fascistas, não governarão!”. Uma pista de como será complicado o futuro de Temer, dono de índices de desaprovação superiores a 40% em 16 capitais brasileiras, segundo o Ibope.
A um cinegrafista da TV Globo, o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, que estava presente ao desfile, comentou os protestos. Segundo ele, manifestações são normais em uma democracia. E tentou minimizá-las, com certa dose de ironia: "Dezoito pessoas em 18 mil. A dimensão está boa..."
Nas redes sociais da internet, um termômetro do humor da população, Temer está em apuros maiores do que os enfrentados por Dilma Rousseff no ano passado, ponto de partida do impeachment. Ao menos, é a conclusão do professor Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo.
Malini pesquisou perfis no Facebook e no Twitter e constatou que, entre os dias 26 de agosto e 4 de setembro, houve mais de um milhão (1.041.013, para ser exato) de postagens do tipo #foratemer. Uma média de 100 mil por dia nesse período, a compreender o desfecho do impeachment no Senado e as primeiras manifestações de rua a pedir “Fora Temer”.
No ano passado, entre 8 e 16 de março, houve 483.797 postagens “Fora Dilma”, segundo Malini. Para ele, aquele período foi particularmente crítico para a petista, a abranger um panelaço contra ela durante um pronunciamento na TV pelo Dia da Mulher (8 de março) e um dos maiores protestos pró-impeachment (15 de março). Naquele momento, o “Fora Dilma” na internet atingiu média diária de 53 mil postagens, mais ou menos a metade do visto agora com Temer.
Para Malini, mestre em ciência da informação e doutor em comunicação e cultura, são duas as razões para Temer estar em situação pior. A primeira é que o impeachment teria gerado uma comoção popular maior do que atos anti-Dilma. “A outra é que a Olimpíada popularizou o 'Fora Temer' e logo em seguida vieram o impeachment e as manifestações. É um aluvião”, afirma.
Segundo ele, há ainda um agravante. A parcela de jovens envolvidos no “Fora Temer” seria maior do que a aquela do “Fora Dilma”. Idem para a dispersão deles pelo País. Os protestos nos dias posteriores à queda da petista mostraram, diz Malini, a atuação de movimentos sociais pequenos (de 5 mil a 20 mil pessoas), mas espalhados. “O governo tem de estar preocupado mesmo...”