quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Coletiva da Lava Jato é marcada por conteúdo político

Coletiva da Lava Jato é marcada por conteúdo político

Denúncia da força-tarefa, marcada pelo uso de power points, aposta em "evidências" para justificar investigações contra o ex-presidente Lula
por René Ruschel — publicado 15/09/2016 09h27, última modificação 15/09/2016 09h30
Marcelo Camargo/Agência Brasil
De Curitiba
O Ministério Público Federal denunciou formalmente nesta quarta-feira 14, em Curitiba, o ex-presidente Lula, sua esposa Marisa Letícia, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, além do empresário Léo Pinheiro, da OAS, dois executivos da empreiteira e dois investigados.
Por mais duas horas, os procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato fizeram uma exposição para tentar mostrar que Lula era o “maestro de uma orquestra criminosa”.
Em nenhum momento, porém, foram presentadas provas que justificassem a denúncia contra o ex-presidente. A palavra mais usada foi “evidências”.
O curioso, no entanto, é que boa parte dos grandes jornais e da mídia televisiva não se ateve a algumas questões que suscitam, no mínimo, controvérsia e preocupação.
Após a exposição, durante a entrevista coletiva, o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa, foi questionado se, com a identificação do “comandante do petrolão”, seria possível afirmar que a Lava Jato está chegando ao fim.
Dallagnol reconheceu que “a identificação do comandante significa que a operação chegou ao ápice, ao topo da pirâmide, o que impede de avançar verticalmente para cima, mas não impede a expansão horizontal”.
Ora, Lula não é mais a maior autoridade do País. Apenas um ex-presidente sem qualquer cargo ou função política oficial. As delações premiadas, tão incentivadas pela Lava Jato, são pródigas em denúncias que envolvem, inclusive, o agora presidente Michel Temer (PMDB-SP).
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) engrossa o rol de outras tantas. Temer não pode ser investigado por atos anteriores a sua chegada ao Planalto, mas Aécio só pode ser investigado pela Procuradoria-Geral da República. Ainda assim, o trabalho do Ministério Público Federal no Paraná foi fundamental para subsidiar a atuação da PGR contra políticos.
Por acaso todas essas “evidências” cairiam no ostracismo e “o avanço vertical” seria apenas em busca das “sardinhas e não mais dos tubarões”?
Outra questão abordada é o porquê de Lula, apesar de ser considerado o “comandante em chefe de uma quadrilha” não ter sido denunciado por chefiar um esquema de corrupção e sim por “corrupção e lavagem de dinheiro ”. O procurador-chefe fez questão de afirmar que “não estamos acusando Lula por liderar uma organização criminosa, mas outras pessoas sim”.
Dallagnol justificou que essa apuração tramita perante o Supremo Tribunal Federal, e não em primeira instância e, assim, a acusação caberia ao procurador-geral da República,Rodrigo Janot -- não sem antes antecipar que: “eu tenho absoluta confiança de que, no momento apropriado, irão formalizar seus juízos a respeito desses fatos”.
Mas se não o acusam e não há provas que o incriminem, como é possível tachar Lula de “comandante de uma quadrilha”?
A última questão foi saber quais provas ou evidências demonstravam que os supostos recursos canalizados para o ex-presidente vieram, de fato, dos três maiores contratos da OAS com a Petrobras. O procurador Roberson Pozzobon não soube justificar.
Sem entrar em detalhes, Pozzobon afirmou que havia um caixa geral (“não uma conta oficial, mas uma espécie de conta virtual”) em que eram aportados recursos de todos os contratos com a Petrobras e, “nesse caixa, a OAS representava um percentual muito alto”.
A coletiva, que se transformou num festival de power points, teve todo o conteúdo políticopara desqualificar o ex-presidente Lula. Em nenhum momento, porém, os procuradores apresentaram qualquer prova para incriminá-lo. Era preciso mostrar o troféu, afinal, a “operação chegou ao ápice”. Será que a Lava Jato está com seus dias contados?

Fonte: Carta Capital

"Provem corrupção que eu irei a pé para ser preso"

"Provem corrupção que eu irei a pé para ser preso"

Em pronunciamento, Lula rebate denúncia da Lava Jato e afirma que País vive "momento em que a lógica não é o processo, mas a manchete"
por Redação — publicado 15/09/2016 14h48, última modificação 15/09/2016 16h03
Nelson Almeida / AFP
Lula
Lula durante pronunciamento nesta quinta-feira 15
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu nesta quinta-feira 15 a denúncia de corrupção e lavagem de dinheiro feita contra ele pela força-tarefa da Operação Lava Jatono dia anterior. Em pronunciamento em um hotel de São Paulo, Lula lembrou o passado humilde, a história política, reafirmou sua inocência e afirmou que a ação contra ele tem o objetivo "acabar"com a sua vida política.
Lula falou em um hotel no centro de São Paulo, onde o PT reuniu seu conselho político. O ex-presidente entrou no auditório sorrindo e cumprimentando seus companheiros. Aparentando calma, fez piadas com Vágner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores, e com o presidente do PT, Rui Falcão.
Ao seu redor estavam ainda senadores e deputados petistas; o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto,Guilherme Boulos; Gilmar Mauro, do MST; Renato Rabelo, presidente do PCdoB; entre outros.
Lula se disse "indignado" com as acusações dos procuradores da Lava Jato e criticou a"pirotecnia" da entrevista coletiva do Ministério Público Federal na quarta-feira 14. 

“Eu não vou fazer um show de pirotecnia, não quero me comportar como um cara perseguido ou como se estivesse reivindicando algum favor. Esta é uma declaração de um cidadão indignado. Não de um político, é um cidadão indignado com as coisas que aconteceram e estão acontecendo no Brasil”, declarou. 
"Descobri que tanto os meus acusadores quanto uma parte da imprensa estão mais enrascados do que pensam que eu estava", disse Lula sobre as denúncias. O ex-presidente afirmou que foi construída uma mentira, "como se fosse um enredo de uma novela". 
"E está chegando o fim do prazo, afinal, já cassaram o Cunha, elegeram o Temer indiretamente com o golpe e cassaram a Dilma. Agora precisam concluir a novela e dizer quem é o bandido e quem é o mocinho. "O fecho é acabar com a vida política do Lula. Não existe outra explicação para a pirotecnia de ontem", disse.
Inocência
O ex-presidente Lula
Lula emocionou-se três vezes ao longo do pronunciamento
Lula se emocionou por três vezes, a primeira delas ao afirmar sua inocência. Lula disse que ninguém respeita as leis e acredita nas instituições mais do que ele e que prestaria quantos depoimentos "forem necessários". "Eu conquistei o direito de andar de cabeça erguida nesse país", afirmou Lula. "Provem uma corrupção minha, que eu irei a pé para ser preso", disse.
Referindo-se ao processo do Mensalão, Lula afirmou que tentaram fazer, em 2005, o que fizeram durante o processo de impeachment. “O tratamento de uma parcela da mídia brasileira e do poder Judiciário agiu do mesmo jeito. Faz pouco tempo, quem viveu aquele período sabe , que o objetivo em 2005 era tirar o Lula”.
"Não tenho a vocação do Getúlio para me dar um tiro, nem a do Jango para sair do Brasil. Se quiserem me tirar, vão ter que disputar comigo na urna", afirmou, comparando-se com outras figuras políticas como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek (“talvez a única pessoa vítima de mais inquéritos do que eu”) e João Goulart.
Fazendo alusões à Tiradentes e à Inconfidência Mineira, Lula disse que tentar desgastar sua imagem e suas ideias é “bobagem”. Também citou os movimentos de ocupações de escolas em São Paulo e os recentes protestos contra Michel Temer e a favor de novas eleições. 

"Não se preocupem com o Lula. Isso é bobagem. Essa meninada que proibiu o (governador) Geraldo Alckmin de fechar escola em São Paulo, essa meninada que está indo pra rua reivindicar democracia e mais educação, essa meninada é um Lula de 71 anos multiplicado por milhões de Lulas jovens nesse país", pediu. 
Afirmou que seus inimigos pensam que, se tirarem o Lula, está resolvido. “Pelo contrário, vocês vão ter problema com o golpe que deram, com o que querem tirar do povo trabalhador, de tentar entregar nosso patrimônio às multinacionais, nosso pré-sal, nossa Petrobrás”, criticou. “Assim, não precisa governar, é só colocar um vendedor”.
Lembrando que construiu sua vida, ao longo de 71 anos, "comendo o pão que o diabo amassou", Lula disse que não tem tempo de parar. "O país que eu sonho está longe de ser construído. Subimos apenas um degrau, que estão tentando tirar da gente. 
Vestido com uma camisa pólo vermelha com a estrela do Partido dos Trabalhadores, o ex-presidente pediu para que os petistas tenham "orgulho".
"Hoje eu vim com a camisa do PT, como se fosse de time de futebol. Daqui pra frente, cada petista desse país tem que começar a andar de camisa vermelha. Quem não gostar do PT, coloca de outra cor, mas aos 36 anos de vida esse partido precisa ter orgulho, porque ninguém fez mais do que a gente na história desse país", disse ele, beijando a camisa. 
Ação contra os procuradores
O ex-presidente Lula
Lula ao lado de Rui Falcão, do presidente da CUT Vagner Freitas e outros políticos do PT
A defesa de Lula informou que vai denunciar procuradores da Lava Jato ao Conselho Nacional do Ministério Público por "graves desvios funcionais". Em seu discurso, o ex-presidente também citou as acusações feitas pelos procuradores da Operação Lava Jato, pediu para "procurarem de procurar casca onde não tem" e criticou a criminalização da política.
Falando com "as pessoas sérias do MPF", disse que estava à disposição. "O Lula não é maior do que a lei. Quando eu transgredir a lei, me punam, mas quando eu não transgredir, por favor, procurem outro para arranjar problema." 
Ao final de sua fala, em várias partes crítica à atuação da imprensa, Lula pediu isonomia no destaque dado ao depoimento de hoje. "Espero que eu tenha o mesmo destaque dos meus acusadores ontem. Só peço igualdade e oportunidade para que as pessoas possam ouvir".

Fonte: Carta Capital

Para jurista, denúncia contra Lula é uma “ação política de exceção”

Entrevista - Pedro Estevam Serrano

Para jurista, denúncia contra Lula é uma “ação política de exceção”

Segundo professor da PUC de São Paulo, é grave acusar o ex-presidente de chefiar uma organização criminosa sem que a denúncia lhe impute tal crime
por Sergio Lirio — publicado 15/09/2016 11h23, última modificação 15/09/2016 11h27
Ricardo Stuckert / Instituto Lula
Lula
Lula foi alvo de ação política, diz Serrano
Professor de Direito Constitucional da PUC de São Paulo e colunista do site de CartaCapital, o advogado Pedro Serrano classifica de “ação política de exceção” a acusação de que o ex-presidente Lula é o líder supremo de uma propinocracia. “Lula foi chamado de chefe de organização criminosa, mas a denúncia não lhe imputa o crime de integrar tal organização. É grave”. Para Serrano, no Estado democrático de Direito nenhum cidadão pode ser tratado como inimigo.
CartaCapitalO que o senhor achou dadenúncia da força-tarefa da Lava Jato contra o ex-presidente Lula?
Pedro Serrano: A entrevista dos procuradores tem pontos muito graves. Um deles chama muito a atenção. O ex-presidente foi acusado de ser o líder supremo de uma organização criminosa. Isso não deveria ocorrer antes de qualquer condenação e com amplo direito de defesa. Nenhum agente público, mesmo um agente acusador, não pode ir a público fazer essa afirmação sem que o processo tenha chegado ao fim. Os procuradores teriam de ser mais sensatos e contidos na hora de se expressar. É dever deles garantir a imagem pública, a honra e outros direitos fundamentais de um investigado ou réu. Mas neste caso foi ainda pior...
CC: Por quê?
PS: O ex-presidente foi chamado de chefe de organização criminosa sem que a denúncia lhe impute o crime de participação em organização criminosa. Nem havia essa acusação entre aquelas elencadas. Portanto, trata-se de uma afirmação político-partidária do representante do Ministério Público. A atuação político-partidária não ocorre apenas quando eu expresso uma opinião a favor do partido ou ideologia com a qual simpatizo. Ela acontece também quando ataco um partido ou ideologia com a qual antipatizo.
CC: E isso é permitido?
PS: Fora do exercício profissional, sim. Mas não era o caso ontem. Os integrantes do Ministério Público estavam em pleno exercício do dever funcional. É muito grave. A honra do ex-presidente foi atingida. A imagem política também. E de uma forma motivada, pois, repito, ele não foi denunciado por integrar uma organização criminosa. O mais adequado seria o Ministério Público pedir publicamente desculpas ao Lula. 
CC: Na posse da ministra Carmen Lúcia na presidência do STF, o procurador-geral, Rodrigo Janot, fez um discurso duro contra os críticos da Lava Jato. Disse, entre outras, que a força-tarefa age com isenção. O espetáculo de ontem desmente essa tese?
PS: Os procuradores são relativamente jovens, estão submetidos a intensa pressão e podem cometer erros. O Janot tem agora uma grande oportunidade de demonstrar essa isenção. Bastaria vir a público pedir desculpas em nome do Ministério Público. Não precisa desqualificar a denúncia como um todo, mas pedir desculpas pelo fato de se ter imputado uma conduta ilegal a um cidadão sem a correspondente denúncia do suposto crime. Se não fizer isso, ficará claro o viés político dessa investigação.
CC: O senhor diria que ontem foi apresentada uma peça de natureza política?
PS: Creio que sim. Um investigador no Estado democrático de direito só pode formar convicção com base em provas, não em hipóteses. Ontem deu-se a impressão de uma ação política. E pior, uma ação política de exceção que suspende os direitos constitucionais do ex-presidente. Tratam o Lula não como cidadão, mas como inimigo. É correto que ele não tenha nenhum privilégio perante a lei, mas não se pode tratar ninguém como inimigo do Estado. É um princípio elementar da civilização.

Lula: inocente ou culpado?


Lula: inocente ou culpado?

Separar o joio do trigo: acusações, provas, ilações, lógica e ódio. Um olhar para cada uma das acusações da Lava jato
por Guilherme Mello — publicado 15/09/2016 16h37, última modificação 15/09/2016 18h59
Nelson Almeida / AFP
Lula em pronunciamento sobre Lava Jato
Lula, ao se contrapor à denúncia da Lava Jato: pirotecnia
O ex-presidente Lula tem sido alvo de uma série de acusações, amplamente difundidas na imprensa e oriundas de autoridades do Judiciário. Em todos os casos, há um questionamento acerca das relações que Lula manteve com as grandes empreiteiras brasileiras após sua saída da Presidência da República.
As acusações visam a demonstrar que Lula recebe propina sob diversas formas com o objetivo de beneficiar as empreiteiras, se tornando um homem rico ao praticar atos de corrupção. Tirando aqueles que, por qualquer motivo, já têm sua opinião formada previamente, a questão que fica na cabeça de muitas pessoas é: será Lula inocente ou culpado das acusações?
Para tentar responder esta questão, em primeiro lugar vale listar as principais acusações feitas até hoje contra o ex-presidente. A primeira diz respeito à suposta compra de um apartamento no Guarujá, que teria sido reformado pela OAS com o intuito de beneficiar Lula e sua família. Os acusadores suspeitam que Lula é de fato o dono do apartamento e que a reforma foi uma forma de pagamento de propina.
A segunda acusação diz respeito a um sítio em Atibaia, que pertence a amigos da família de Lula e foi reformado pelo pecuarista Bumlai (inicialmente), tendo as obras sido assumidas pelas empreiteiras OAS e Odebrecht posteriormente. Neste caso, as duas acusações se repetem: os acusadores acreditam que Lula é de fato o dono do sítio e que a reforma foi uma maneira de pagar suborno que as empreitaras encontraram.
Por fim, a terceira acusação diz respeito à atuação do Instituto Lula e da empresa de Palestras do ex-presidente, a LILS, que teria recebido cifras milionárias das empresas investigadas na Lava-Jato. Os acusadores acreditam que as doações e pagamentos de palestras feitas as empresas de Lula são fruto de propinas, derivadas de contratos fraudados das empreiteiras com a Petrobras, conseguidos graças ao apoio do ex-presidente.
Em todas estas acusações, existe uma questão moral e uma questão legal. Moralmente, pode ser argumentado que um ex-presidente não deveria aceitar nenhum tipo de benefício de empresas, uma vez que é uma figura pública e que isso poderia levantar suspeitas de favorecimento.
Porém, do ponto de vista legal, as acusações precisam demonstrar de forma concreta que os eventuais benefícios recebidos por Lula teriam origem em uma “troca de favores”. É preciso comprovar que o ex-presidente teria irregularmente beneficiado as empreiteiras através de seu poder e influência.
Esta questão, diferentemente da discussão moral, não abre muito espaço para interpretações: ou as evidências existem e são cabais, ou não existem e não há provas, apenas ilações. Pois então vejamos se, nas três acusações, há algo de comprovadamente ilegal relacionado ao ex-presidente.
No primeiro caso, do apartamento no Guarujá, a primeira grande dificuldade da acusação é provar que Lula seria, de fato, dono do apartamento. Isso porque ele nunca pagou nem assinou contrato de compra deste apartamento, sendo apenas um “cotista” da construção original da Bancoop (que foi devidamente declarado em seu imposto de renda).
Como poderia Lula ser dono de algo que não comprou e não pagou? A hipótese da utilização de terceiros ou empresas para adquirir o bem está longe de ser comprovada, não havendo nenhuma evidência até o momento de que isso teria de fato ocorrido.
Mas o fato de a empreiteira OAS ter reformado o apartamento para a família de Lula, sob orientação da esposa de Lula, não comprovaria a posse do apartamento? Legalmente, não. A reforma do apartamento foi realizada pela OAS como proprietária do imóvel, na esperança de vendê-lo para um ex-presidente da República, fato que certamente valorizaria o edifício.
Os custos da reforma poderiam ser acrescidos no ato da eventual venda do apartamento, que, no entanto, não ocorreu. Sendo assim, do ponto de vista legal, parece frágil a acusação de que Lula seria dono e beneficiário do apartamento do Guarujá, que, além disso, nunca frequentou.
O segundo caso é similar ao primeiro, mas com duas agravantes: Lula e sua família frequentam o sítio de Atibaia e as obras foram realizadas pelas empreiteiras de maneira injustificada (diferente da primeira acusação, em que a reforma pode se justificar pela expectativa de venda e valorização do imóvel).
Do ponto de vista legal, no entanto, parece claro novamente que a posse do sítio não é de Lula. O contrato de compra do sítio e as verbas para tal transação estão devidamente registradas em cartório, declaradas nos impostos de renda e assinadas pelos empresários Fernando Bittar e Jonas Suassuna. O número dos cheques e a origem do dinheiro podem ser devidamente comprovados, fragilizando em demasia o argumento de que Lula seria o real dono da propriedade.
Resta a agravante das reformas de ampliação do sítio, que teriam sido supostamente financiadas e realizadas pelas empreiteiras OAS e Odebrecht. Neste caso, há de se admitir que existem indícios fortes de benefício injustificado para os proprietários do sítio e, indiretamente, para Lula e sua família.
O que cabe questionar, no entanto, é se tais benefícios podem ser diretamente ligados a algum ato criminoso de Lula, ou se foram apenas “agrados” dos grandes empresários ao ex-presidente. Cabe recordar que Lula é uma figura com trânsito internacional e que promove sobremaneira o Brasil e suas empresas no exterior, fato de grande interesse destes empresários.
Um “agrado” pode ser moralmente indevido, mas não é necessariamente um crime. “Agrados” são corriqueiros no mundo dos negócios, como uma forma de manter o cliente satisfeito, de cair nas boas graças de uma personalidade importante, ou mesmo de manter as boas relações com uma pessoa ou grupo desejado.
O policial que ganha o café fiado na padaria, o cliente fiel que recebe um desconto especial pela preferência ou o parceiro comercial que oferta um vinho ou um jantar especial ao final de um grande projeto: Todos “agrados”, alguns talvez moralmente condenáveis, mas nenhum deles ilegal.
Sendo assim, é fundamental aos acusadores estabelecer o nexo criminoso, ou seja, estabelecer qual benefício ilícito direto Lula teria feito para receber os “agrados” das empreiteiras. Apenas desta forma seria possível caracterizar o “agrado” como uma atitude de fato ilegal, passando-se da ilação para a comprovação do crime.
Falar abstratamente em “contratos” é insuficiente como prova para condenar Lula, sendo necessário apontar (com provas) exatamente quais contratos e de que maneira o ex-presidente teria operado para beneficiar ilegalmente as empresas.
Esta comprovação, no entanto, ainda não deu o ar da graça nos processos, segundo as informações disponíveis sobre eles. Até o momento, não há evidência material ou testemunhal de que Lula teria agido irregularmente para beneficiar as empreiteiras investigadas na Lava-Jato.
Por fim, a acusação de que as verbas para o Instituto Lula e a LILS teriam origem em propina claramente são fruto de ilação, ao menos até o momento. Na prática, é praxe no mundo todo que ex-presidentes tenham suas atividades financiadas por grandes empresas.
Para ficarmos no exemplo brasileiro, o Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), muito antes do surgimento do Instituto Lula, já dependia pesadamente do financiamento das grandes empreiteiras nacionais, seja por meio de doações, seja por meio do pagamento de palestras.
Da mesma forma, os presidentes americanos e de vários outros países do mundo têm suas fundações financiadas por grandes empresários nacionais e internacionais, sendo esta uma prática usual do mundo político e corporativo. Apesar desta observação de ordem prática, o fato pode ser considerado por muitos imoral, o que não necessariamente afeta a legalidade destas relações.
Aparentemente, nenhuma acusação possui (até o momento) elementos probatórios que transformem Lula em um insuspeito criminoso. Ilações sempre podem ser feitas, mas são insuficientes para fundamentar juridicamente acusações tão graves quanto as que estão sendo feitas.
Com os elementos atuais, Lula pode ser considerado por alguns “moralmente” culpado de se relacionar estreitamente com empreiteiras, mas parece ser “legalmente” inocente das acusações de crime que lhe imputam.
Talvez a questão que poucos se façam e que mais demonstre a fragilidade das acusações contra Lula seja a seguinte: por que seria preciso pagar propinas milionárias aos diretores da Petrobras, se com pequenos agrados seria possível “subornar” o presidente da República?
Para além da falta de provas, o que assusta nas ilações feitas pelos acusadores de Lula é a falta de lógica. Parece que a razão se perdeu em meio ao embate político, fazendo com que o ódio abrisse os olhos de justiça: lamentavelmente, os olhos que deveriam estar devidamente vendados só enxergam Lula.
*Guilherme Melo é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON-UNICAMP). O texto foi originalmente publicado no site BrasilDebate

Fonte: Carta Capital

"Impeachment é única forma de cobrar responsabilidade de ministro do STF"


"Impeachment é única forma de cobrar responsabilidade de ministro do STF"

Autor de pedido de impedimento contra Gilmar Mendes, o jurista Fábio Konder Comparato considera inaceitável o “partidarismo" do magistrado
por Rodrigo Martins — publicado 15/09/2016 10h18, última modificação 15/09/2016 10h46
Júlia Leite
Comparato
"Na verdade, Gilmar Mendes não apenas está o lado do PSDB ou da oposição, está claramente do lado do grupo oligárquico que comanda o País", diz o jurista Fábio Konder Comparato
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral e ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, tornou-se alvo de dois pedidos de impeachment protocolados no Senado, na terça-feira 13.
Ambas as peças acusam o magistrado de adotar uma conduta partidária e parcial nos julgamentos das cortes. Em uma frente, um grupo de operadores do Direito, entre eles o ex-procurador-geral da República Claudio Fonteles, sustenta que as atitudes Mendes configuram crime de responsabilidade. 
Em outra peça, preparada por outro grupo de juristas, o ministro é acusado de ser “extremamente leniente com relação a casosde interesse do PSDB e de seus filiados, tanto quanto extremamente rigoroso no julgamento de casos de interesse do Partido dos Trabalhadores e de seus filiados, não escondendo sua simpatia por aqueles e sua ojeriza por estes". 
Signatário desse pedido, o jurista Fábio Konder Comparato, professor emérito da Faculdade de Direito da USP, afirma que Mendes desrespeitou diversas vezes o Código de Ética da Magistratura, mas seus atos não estão sujeitos ao controle do Conselho Nacional de Justiça. “O impeachment é a única forma de cobrar a responsabilidade de um ministro do STF”. Confira a entrevista:
CartaCapital: Quais fatos demonstram o partidarismo de Mendes? 
Fábio Konder Comparato: Em relação ao PSDB, destaco dois fatos. O primeiro ocorreu na véspera da eleição presidencial de 2010. O candidato José Serra, do PSDB, estava em uma reunião com sindicalistas e alguém lembrou de uma lei que foi promulgada pelo governo do ex-presidente Lula, a exigir dois documentos para que o eleitor pudesse votar. Ou seja, não só o seu titulo de eleitor, mas também outro documento com foto. Isto significa que uma multidão de eventuais eleitores de Lula não poderiam votar e o PT, apesar da contradição, uma vez que o Lula sancionou a lei, entrou com uma ação no STF. 
Gilmar Mendes
Mendes: Sempre em busca dos holofotes (Tânia Rêgo/ABr)
Justamente naquele dia, em que José Serra estava em reunião com sindicalistas, alguém lembrou este fato e sugeriu que ele telefonasse para Mendes. O ministro respondeu aquele chamado e um assessor de Serra trouxe a ele o celular. Tudo isso foi relatado com minucias pelo jornal Folha de S. Paulo. 
 Ao atender, Serra disse: “bom dia, meu presidente” [à época, Mendes presidia o STF]. E logo depois pediu ao ministro que pedisse vista dos autos naquele dia, pois dessa forma não haveria possibilidade de julgar a ação do PT antes da eleição. E foi o que ele fez. 
O segundo é o envolvimento de Aécio Neves na Lava Jato. Vinte e quatro horas após a abertura do inquérito, Mendes determinou o retorno da peça à Procuradoria Geral da Republica, ou seja, ele deu por encerrada a sua atuação nesse caso. 
CC: E o que demonstra a ojeriza de Mendes ao PT?
FKC: Tenho também dois exemplos da antipatia, para dizer o mínimo, do ministro Gilmar Mendes em relação ao PT. No caso do “mensalão”, antes mesmo de proferir o seu julgamento, Gilmar declarou perante os meios de comunicação de massa que os integrantes do partido que eram denunciados naquele caso eram bandidos. O Código de Ética da Magistratura proíbe que o juiz se manifeste em meios de comunicação sobre um processo ainda não julgado, sobretudo de maneira tão contundente a uma das partes. Ou seja, demonstrou a sua parcialidade. 
O segundo caso ocorreu na nomeação de Lula como ministro da Casa-Civil do governo de Dilma Rousseff. Após partidos da oposição entraram com uma ação, Gilmar Mendes, em um julgamento antecipado, anulou essa nomeação e remeteu os autos para Curitiba, onde imperava, e continua a imperar, o juiz Sergio Moro. Ocorre que Sua Excelência, o ministro Gilmar Mendes, não tem muita coerência nos seus julgamentos. 
No fim de 2002, quando terminava o mandato de Fernando Henrique Cardoso, o presidente conseguiu aprovar no Congresso uma lei dando imunidade aos ex-presidentes da República. Evidentemente, ele não pensava em si próprio, mas em outros ex-presidentes (risos).  Pois bem, entraram com uma ação de inconstitucionalidade contra essa lei. E no STF houve dois votos favoráveis a ela. Um deles era de Gilmar Mendes.
CC: O senhor falou em antecipação de juízo. Isso não ocorreu, também, no julgamento daquela ação direta de inconstitucionalidade sobre o financiamento empresarial de campanha?
FKC: Sim. Não citei isso antes porque não se trata de uma ação favorável ao PT. Contudo, enquanto segurava os autos com pedido de vista durante um ano e meio, Mendes declarou que o PT era o partido que mais se havia beneficiado desses financiamentos empresariais de campanha.
Devo dizer que Sua Excelência, o ministro do STF, não cumpre nem mesmo o regimento interno do tribunal, porque, nos casos de pedido de vista, o ministro deve devolver os autos para julgamento até a segunda sessão ordinária seguinte. Obviamente, o ministro esqueceu-se de que tinha esses autos consigo e permaneceu com eles durante um ano e meio. 
CC: Por conta dessa predileção pelo PSDB e antipatia pelo PT, o ministro Gilmar Mendes não deveria se declarar impedido para julgar casos como a posse de Lula na Casa-Civil ou o inquérito de Aécio Neves na Lava-Jato. 
FKC: Na verdade, Gilmar Mendes não apenas está o lado do PSDB ou de outros partidos da oposição, ele está claramente do lado do grupo oligárquico que comanda toda vida política e econômica brasileira desde o descobrimento. E nós temos uma oligarquia especial. Não é apenas, como dizem os marxistas, "os potentados econômicos-privados que mandam neste País". Também não é apenas, como dizem os weberianos, a exemplo do saudoso amigo Raimundo Faoro, os agentes estatais. 
São ambos! 
Desde o século XVI, os proprietários de terras, os senhores de engenho se uniram aos grandes administradores nomeados pela metrópole. Essa união permaneceu até hoje. Teoricamente, o senhor ministro deveria se considerar suspeito. Na prática, isso não vai acontecer. Quem iria se opor a ele? Seriam os demais membros do STF, o que evidentemente não vai acontecer. Os ministros do STF são propriamente irresponsáveis, não respondem pelos seus atos, declarações e votos perante ninguém. 
CC: O STF não está submetido a nenhum tipo de controle? 
FKC: Absolutamente. Para dizer a verdade, eu próprio experimentei isso. Como advogado, ingressei em 2008 com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), no qual pedia para o STF reconhecer, perante a Constituição e os tratados internacionais de direitos humanos, que a lei brasileira não poderia anistiar aqueles que cometeram crime de terrorismo de Estado, como ocorreu na ditadura. 
Em abril de 2010, o STF julgou improcedente essa ação, contra apenas dois votos. Desse acórdão publicado, o Conselho Federal da OAB entrou com embargos de declaração, recurso utilizado para esclarecer omissões do julgamento.
A principal e escandalosa omissão foi a seguinte: a Lei de Anistia declara que estavam anistiados todos os crimes políticos cometidos até 15 de setembro de 1979. Ocorre que, no direito penal, os crimes de sequestro e de ocultação de cadáver, são considerados crimes continuados, em andamento até se descobrir onde está o cadáver. A Comissão Nacional da Verdade apurou que havia mais de 200 casos assim. 
Pedimos ao STF que explicasse essa omissão. O regimento interno do STF diz que, após a apresentação desse embargo de declaração, o ministro relator deve levá-lo a julgamento na primeira sessão ordinária seguinte. Não se sabe por que razão a primeira sessão ordinária seguinte até hoje não ocorreu, passados mais de cinco anos.
CC: E o Conselho Nacional de Justiça nada fez?
FKC: Não. Entrei com uma reclamação no CNJ e, em junho passado, a corregedora nacional de Justiça, ministra Nancy Andrighi, mandou arquivar a reclamação. Em 2005, o STF julgou que nenhum ministro da Corte estaria sujeito a jurisdição do CNJ. Agora só resta a denuncia dessa grave violação à Corte Interamericana de Direitos Humanos. 
CC: Recentemente, ao tomar conhecimento de uma suposta menção ao ministro Dias Toffoli nas investigações da Lava Jato, Gilmar Mendes demonstrou indignação com o vazamento de informações sigilosas da operação. Disse ser preciso “colocar freios” na atuação dos procuradores e que “o cemitério estava cheio desses heróis”. O curioso é que o ministro guardou profundo silencio em relação a todos os outros vazamentos da Lava Jato, sobretudo aqueles que atingiram a cúpula do PT. 
FKC: A minha impressão é que ele ficou indignado porque acusaram seu amigo íntimo do STF, o ministro Toffoli. 
CC: Esse é o único motivo? 
FC: Estou apenas formulando uma hipótese, digamos assim, benévola, porque eu não quero entrar a fundo neste assunto. 
CC: Qual é a conduta que se espera dos magistrados da Suprema Corte? Que mecanismos de controle sobre a atuação deles seriam apropriados?
FC: Um ministro de Corte Suprema deve ter comportamento exemplar, sobretudo no que diz respeito ao Código de Ética da magistratura, pois ele traz princípios que devem ser estritamente observados, como a independência, a imparcialidade, a transparência. Infelizmente, a aplicação destes princípios aos ministros do Supremo é impossível, uma vez que eles não se consideram sujeitos a controle algum. 
Em 2013, apresentei à deputada Luiza Erundina uma minuta de Proposta de Emenda Constitucional, que ela apresentou à Câmara dos Deputados. Propus a transformação do STF em um tribunal constitucional, que tivesse por competência exclusivamente o exame das questões em respeito à Constituição.
Todo o resto ficaria aos cuidados do Superior Tribunal de Justiça, inclusive habeas corpus e mandados de segurança, coisa que nenhuma coisa Suprema Corte no mundo inteiro decide. Também propus o aumento do numero de ministros de 11 em 15, e que a indicação deles deixasse de ficar concentrada exclusivamente no presidente da República. 
O número de lobbys organizados para conseguir uma nomeação dessas é impressionante. Dizem que, na ultima nomeação para o STF, havia 200 lobbys atuando junto a Presidência da República. Por isso, propus que a indicação dos possíveis ministros fosse feita pelas três organizações representativas das grandes atividades do Judiciário. Ou seja, os juízes, os membros do Ministério Público e os advogados. A corte constitucional passaria a ter esta composição tríplice. Ou seja, um terço magistrados, um terço membro dos ministérios públicos e um terço advogados. 
E quem seria o órgão que nomearia os ministros? O Congresso Nacional. Dirão que o Parlamento está longe de ser isento, sobretudo depois do episódio grotesco de impeachment. Acontece o seguinte: o Congresso é composto de centenas de membros.
Obviamente, é muito difícil organizar um lobby que possa influenciar centenas de pessoas. Então, dos males o menor. Essa PEC desagradou os ministros do Supremo e não tem a menor chance de avançar porque a Presidência da República, é claro, é contra. E o Congresso está muito contente de fazer a sua ligação intima com a Presidência. É o talpresidencialismo de coalizão, como se diz. 
CC: O senhor acredita que o Senado, essa mesma Casa Legislativa que julgou Dilma, vai levar a diante este pedido de impeachment? 
FC: O impeachment é a única forma de cobrar a responsabilidade de um ministro do STF. Bem sei que o instituto está cada vez mais desacreditado. Na Inglaterra, não se usa mais. Nos Estados Unidos, desde a aprovação da Constituição, não foi bem recebido por inúmeras personalidades. A começar por Thomas Jefferson, para quem o impeachment, em relação aos ministros da Suprema Corte, não é nem um espantalho.
Por que, então, entramos com este pedido de impeachment? É para por também em questão a responsabilidade pública do Congresso, especificamente do Senado Federal, na defesa dos interesses nacionais. Compete aos órgãos de comunicação de massa, se eles tiverem um pingo de responsabilidade, mostrar como nós não estamos naquele Estado de Direito de que falam os juristas e os teóricos da Ciência Política. 
O impeachment é a única forma de cobrar a responsabilidade de um ministro do STF