segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A PEC 241 e as suas principais falácias

A PEC 241 e as suas principais falácias

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 13/10/2016 11h09
Um guia didático para entender, enfim, a PEC do limite de gastos, e nove erros embutidos no discurso de seus defensores
Lula Marques / AGPT
PEC 241
Ato contra a PEC 241 na Câmara: a emenda não garante crescimento
Falácia 1: A PEC 241 reduz os gastos com educação, saúde, salário mínimo, infraestrutura etc.
Correção 1: Ela não reduz gastos de imediato, mas limita o aumento no futuro. Deste modo, não resolve nada em curto prazo e não terá grandes efeitos sobre a crise econômica, apesar de garantir expectativas de solvência.
Como o PIB voltará a crescer em algum momento, com o limite de gastos, o Estado se contrairá necessariamente, e isso independe dos fatos e das políticas que se queira adotar.
Não se sabe quantas pessoas nascerão, quantas ficarão doentes etc. Com o aumento da expectativa de vida, certamente haverá aumento populacional e, portanto, mais gastos serão necessários. A despesa per capta com educação, que já é pequena, ficará muito menor.
A PEC engessará as políticas públicas, desacelerará o progresso socioeconômico, pois reduzirá gastos sociais e investimentos.
O Brasil precisa reformar as instituições e as políticas que pressionam o gasto, e não passar uma régua rígida sobre eles de forma açodada, que não resolverá os graves problemas do País.
Haverá descumprimento da regra da PEC ou desarrumação ainda maior das instituições e políticas para se adequarem a ela sem propostas avançadas e sem um contexto social propício. 
Falácia 2: Foram as despesas primárias que geraram o déficit fiscal.
Correção 2: Os juros nominais pagos devem girar em torno de 418 bilhões este ano. Apesar de o governo Temer vir se esforçando para aumentar o déficit fiscal, fazendo jantares milionários para convencer políticos a votarem a favor da PEC, ele não deve chegar a metade do gasto com juros.  
Se o objetivo do governo fosse reduzir despesas, não estaria aumentando o déficit de forma estrondosa mês a mês. A previsão no governo Dilma era de 97 bilhões reais e passou a 170,5 bilhões de reais com 1 mês de governo Temer, sendo que, até agosto, já haviam sido gastos 172 bilhões de reais, restando ainda 4 meses para o fechamento do ano.
O gasto de 2016 passará dos 200 bilhões de reais por conta de altos investimentos feitos para obter o impeachment e as reformas que se tenta agora realizar sem suficiente debate, como é o caso da PEC 241. 
Não há qualquer dúvida sobre ser esse o grande desequilíbrio brasileiro e uma distorção enorme em relação aos demais países.
Apenas se pode crer que a PEC é encomendada por rentistas, grandes instituições financeiras e empresários muito ricos, que fazem um lobby forte, com uso das práticas já conhecidas no Brasil.
Depois dos juros, a segunda maior despesa é com a Previdência, que precisa realmente ser reformada e não está contemplada pela PEC.
A questão sempre é: qual reforma? Não se fala numa reforma estrutural, que abarque também o péssimo financiamento da Previdência. O governo atual nem cogita de fazer os mais ricos pagarem mais, apesar de estar completamente provado que eles pagam pouquíssimos tributos no Brasil.  
Falácia 3: As despesas explodiram por conta do governo do PT.
Correção 3: As despesas primárias tiveram crescimento mais ou menos constante nos últimos 15 anos, ou seja, desde o governo FHC, mas explodiu este ano quando Temer assumiu.
As despesas cresceram de forma real na média de 4,2% ao ano nos últimos 15 anos, mas o governo Temer, que usa números distorcidos, por exemplo, pelas desonerações fiscais e pelo desfazimento das pedaladas fiscais, que não são efetivamente despesas, alega que o número seria 6,2%. 
Falácia 4: O aumento constante de despesas gerou o déficit fiscal de agora.
Correção 4: Déficits são gerados por despesas superarem as receitas. Se as despesas aumentaram de forma constante, o problema maior está do outro lado, ou seja, as receitas caíram muito por conta da grave crise econômica, que derrubou a arrecadação tributária.
Se as despesas fossem menores, o déficit poderia não existir ou seria menor. Deve-se atacar as despesas maiores, sendo absurdo culpar gastos sociais, aumentos de salário mínimo e investimentos em infraestrutura, cujos valores, mesmo que somados, são menores do que os gastos com juros. 
Ao mesmo tempo, é preciso reorganizar a tributação, para que o poder de renda do mais pobre seja aumentado, gerando imediatamente aumento da demanda agregada, que está baixíssima. É preciso tributar mais os ricos e menos os pobres, o que beneficiará indiretamente os ricos, que venderão mais.
É assim que se monta um ecossistema econômico saudável que beneficie a todos. A visão “curto prazista” da elite brasileira prejudica a ela mesma.
Falácia 5: O descontrole nos gastos levou à crise econômica.
Correção 5: Um conjunto complexo de causas gerou a crise brasileira, sendo a quantidade de gastos, provavelmente, a menos importante. O problema é a qualidade.
A maioria dos países ainda não se recuperou totalmente da crise de 2007-2009, e isso é bem analisado no livro, festejado hoje no mundo, Rethinking Capitalism: Economics and Policy for Sustainable and Inclusive Growth, editado por Michael Jacobs e Mariana Mazzucato.
Segundo os textos desse livro, inclusive de Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, o conhecimento da Ciência Econômica tradicional foi insuficiente para permitir que os economistas previssem a crise, assim como vem sendo insuficiente para que eles consigam recuperar os seus países.
Uma das principais críticas é direcionada à austeridade fiscal, sobretudo àquela que ataca gastos sociais e investimentos, exatamente o caso da regra da PEC, uma péssima medida, dentre as várias possíveis. 
Falácia 6: Sem a regra da PEC 241, as despesas não pararão de crescer.
Correção 6: Para as despesas pararem de crescer, é preciso reduzir os juros e reformar a previdência. A regra da PEC não é necessária e não é adequada, pois há medidas melhores do que ela, como, por exemplo, o estabelecimento de um limite vinculado à taxa média do PIB de longo prazo, algo já proposto em texto publicado aqui na CartaCapital.
Além de desnecessária e inadequada, a PEC causará mais custos do que benefícios, de modo que ela não passa em nenhum dos critérios de validade da política pública. 
Falácia 7: Sem a PEC, o déficit fiscal vai aumentar e a economia não se recuperará.
Correção 7: A redução de despesas independe da aprovação da PEC. Além disso, o endividamento privado é atualmente mais grave do que o endividamento público, como lembra o economista Felipe Rezende.
O problema do Brasil é que a desarrumação institucional (política, tributária, previdenciária, administrativa etc.) trava a economia, endividando o setor privado e fazendo despencar a arrecadação. Com receitas menores, gera-se o déficit fiscal.
Com uma redução gradual dos juros em conjunto com o fim da isenção dos dividendos, a reforma da tabela progressiva do Imposto de Renda para os mais ricos e a criação de um Imposto sobre o Valor Agregado (IVA) para substituir PIS, Cofins, IPI, ICMS, ISS e contribuição previdenciária sobre a receita da empresa, seria gerado superávit ao mesmo tempo em que se corrigiria falhas graves da economia brasileira.
Falácia 8: A redução dos juros depende da aprovação da PEC 241.
Correção 8: Não há relação. Os juros reais brasileiros são enormes e a demanda agregada está muito baixa. O investimento em títulos da dívida pública brasileira é um baita investimento e não seria a redução gradual de juros até chegar em 2% dentro de 1 ano o que tiraria muito dinheiro do Brasil.
Por sinal, o País precisa de mais capital produtivo, e não capital rentista, que nada produz e apenas quer ganhar com juros altos.
Falácia 9: A recuperação da economia depende da PEC 241.
Correção 9: A recuperação depende de corrigir os graves desequilíbrios brasileiros. É uma bobagem acreditar que, após a PEC, eles serão corrigidos para que a regra seja descumprida.  
Esses graves desequilíbrios exigem reformas profundas, que requerem muito conhecimento, debate e algum tempo. A PEC não terá qualquer efeito positivo sobre demanda e oferta, mas apenas sobre as expectativas dos rentistas.

Temer financiou relator da PEC 241, a do congelamento de gastos

Temer financiou relator da PEC 241, a do congelamento de gastos

por André Barrocal — publicado 24/10/2016 12h11
Deputado Darcísio Perondi recebeu 100 mil reais do presidente na eleição de 2014. Doação tornou Temer "ficha suja"
Marcelo Camargo / Agência Brasil
Darcísio Perondi e Michel Temer
Darcísio Perondi tem muito a retribuir a Temer
O deputado gaúcho Darcísio Perondi (PMDB) é relator na Câmara da PEC 241, a proposta do governo de congelar por 20 anos os investimentos públicos em saúde, educação e assistência social, entre outros. Deu parecer favorável ao texto, que deve ser votado de novo pelos deputados nesta terça-feira 25, e até incluiu o salário mínimo na mira da limitação. Uma atuação digna de recompensar a fé financeira de Michel Temer em sua candidatura na eleição de 2014. 
Naquela campanha, Perondi recebeu 100 mil reais de Temer, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Metade doada pelo presidente na condição de pessoa física, um cheque em 30 de setembro de 2014. E metade – um cheque de 2 de outubro – doada por Temer por meio de uma empresa que ele tinha criado com a finalidade exclusiva de ajudar os amigos na eleição. 
Por trás das duas contribuições financeiras a Perondi, há histórias curiosas. 
A doação do Temer “pessoa física” colaborou para o presidente ser hoje um político “ficha suja”, proibido de candidatar-se. O título foi-lhe concedido em junho passado pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), após um julgamento em maio terminar por condená-lo .
Além dos 50 mil a Perondi, o Temer “pessoa física” dera a mesma quantia a outro candidato a deputado federal pelo PMDB gaúcho, Alceu Moreira, igualmente eleito. O total de 100 mil reais representou 11,9% da renda que o presidente declarou ter tido em 2013. Pela lei eleitoral vigente naquela campanha, os brasileiros podiam doar no máximo 10% da renda declarada do ano anterior. 
Por ter excedido o limite, Temer foi acusado pelo Ministério Público Eleitoral e sentenciado pelo TRE-SP a pagar multa e a ficar inelegível por oito anos. 
A condição de “ficha suja” ainda pode ser revogada. O presidente do TRE-SP, Mário Devienne Ferraz, reuniu-se com Temer no Palácio do Planalto no mesmo dia em que os deputados votavam em plenário, pela primeira vez, na segunda-feira 10, o relatório de Perondi sobre o congelamento das verbas sociais.
Já a doação feita a Perondi pelo Temer “pessoa jurídica” foi na verdade um repasse de recursos obtidos pelo presidente com uma família de suas relações, os Borges Torrealba. 
A família tem desde 1998 uma concessão pública para operar um terminal no Porto de Santos, por meio de uma empresa chamada Libra. Temer até hoje exerce influência política no porto. Via apadrinhados, garantiu em setembro de 2015 a renovação da concessão de Libra por 20 anos, apesar de a empresa ter uma dívida bilionária com o Porto.
Na eleição de 2014, os Borges Torrealba depositaram 1 milhão de reais em uma conta de campanha de Temer, que naquela eleição concorria a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff. Um ótimo investimento, a julgar pela renovação da concessão um ano depois.
Financiar campanhas no Brasil é um investimento de retorno garantido...

Leonardo Boff: Onde está o poder hoje no mundo

24/10/2016 12:34 - Copyleft

Leonardo Boff: Onde está o poder hoje no mundo

O deslocamento do poder dos Estados-nações para o lado do poder de uns poucos conglomerados financeiros deve preocupar todos os cidadãos do mundo.


Leonardo Boff
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Há um fato que deve preocupar todos os cidadãos do mundo: o deslocamento do poder dos Estados-nações para o lado do poder de uns poucos conglomerados financeiros que atuam a nível planetário, cujo poder é maior que qualquer Estado tomado individualmente. Estes de fato detém o poder real em todas as suas ramificações: financeira, politica, tecnológica, comercial, mediática e militar.
 
Este fato vem sendo estudado e acompanhado por um dos nossos melhores economistas, professor da pós-graduação de PUC-SP com larga experiência internacional: Ladislau Dowbor. Dois estudos de sua autoria resumem vasta literatura sobre o tema:”A rede do poder corporativo mundial”de 4/01/2012 (http:/www.dowbor.org/wp) e o mais recente de setembro de 2016: http://dowbor.org/2016/09/ladislau-dowbor-o-caótico-poder-dos-gigantes-financeiros-novembro-2015-16p.html//: “Governança corporativa: o caótico poder dos gigantes financeiros.” 
 
É difícil resumir a mole de informações que se apresentam assustadoras. Dowbor sintetiza:
 
“O poder mundial realmente existente está em grande parte na mão de gigantes que ninguém elegeu, e sobre os quais há cada vez menos controle. São trilhões de dólares em mãos de grupos privados que têm como campo de ação o planeta, enquanto as capacidades de regulação mundial mal engatinham. Pesquisas recentes mostram que 147 grupos controlam 40% do sistema corporativo mundial, sendo 75% deles bancos. Cada um dos 29 gigantes financeiros gera em média 1,8 trilhão de dólares, mais do que o PIB do Brasil, oitava potência econômica mundial. O poder hoje se deslocou radicalmente”(cf. Governança corporative op.cit)





 
Além da literaura específica, Dowbor se remete aos dados de duas grandes instituições que se debruçam sistematicamente sobre os mecanismos dos gigantes corporativos: o Instituto Federal Suiço de Pesquisa Tecnológica (que rivaliza com o famoso MIT dos USA) e o banco Credit Suisse, exatamente aquele que administra as grandes fortunas mundiais e que, portanto, sabe das coisas.
 
Os dados aí arrolados por estas fontes são espantosos: 1% mais rico controla mais da metade da riqueza mundial. 62 famílias têm um patrimônio igual à metade mais pobre da população da Terra. 16 grupos controlam quase a totalidade do comércio de commodities (grãos, minerais, energia, solos, água). Pelo fato de os alimentos todos obedecerem às leis do mercado, seus preços sobem e descem à mercê da especulação, tolhendo a vastas populações pobres o direito de terem acesso à alimentação suficiente e saudável.
 
Os 29 gigantes planetários, 75% são bancos a começar pelo Bank of America e terminando com o Deutsche Bank, são tidos como  “sistemicamente importantes”, pois sua eventual falência (não esqueçamos o maior deles, o norteamericano Lehamn Brothers que faliu) levaria todo o sistema ao abismo ou próximo a ele, com consequências funestas para a inteira humanidade. O mais grave é que não existe nenhuma regulação para o seu funcionamento, nem pode haver, porquando as regulações são sempre nacionais e eles atual planetariamente. Não existe ainda uma governança mundial que cuide não só das finanças mas do destino social e ecológico da vida e do próprio sistema-Terra.
 
Nossos conceitos se evaporam quando, nos recorda Dowbor, se lê na capa do Economist que o faturamento da empresa Black Rock é de 14 trilhões de dólares sendo que o PIB dos USA é de 15 trilhões e do pobre Brasil mal alcança 1,6 trilhões de dólares. Estes gigantes planetários manejam cerca de 50 trilhões de dólares, o equivalente à totalidade da dívida pública do planeta.
 
O importante é conhecer o seu propósito e sua lógica: visam simplesmente o lucro ilimitado Uma empresa de alimentos compra uma mineradora sem qualquer expertise no ramo,  apenas porque dá lucro. Não há nenhum sentido humanitário como, por exemplo, tirar uma pequeníssima parcela dos lucros para um fundo contra a fome ou a diminuição da mortalidade infantil. Para eles, isso é tarefa do Estado e não para os acionistas que só querem lucros e mais lucros.
 
Por estas razões entendemos  iracúndia sagrada do Papa Francisco contra um sistema que apenas quer a acumulação à custa da pobreza das grandes maiorias e da degradação da natureza.Uma economia, diz ele “que tem como centro o deus dinheiro e não a pessoa: eis o terrorismo fundamental contra toda a humanidade” (no avião regressando da Polônia em setembro). Chama-o em sua encíclica ecológica  de um sistema anti-vida e com tendência sucida (n.55).
 
Esse sistema é homicida, biocida, ecocida e geocida. Como pode tanta desumanidade prosperar sobre a face da Terra e ainda dizer: There is no Alternative”(TINA)? A vida é sagrada. E quando sistematicamente agredida, chega o dia em que ela se vingará, destruindo aquele que a quer destruir. Esse sistema está buscando o seu próprio fim  trágico. Oxalá a espécie humana sobreviva.
 
 
Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra – proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record 2010.


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Carandiru e a cultura da impunidade no Brasil

21/10/2016 16:46 - Copyleft

Carandiru e a cultura da impunidade no Brasil

Documento solicita a abertura de um inquérito sobre a conduta do desembargador que anulou a condenação dos 74 policiais envolvidos no Massacre do Carandiru


Tatiana Carlotti
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Vinte e cinco entidades de direitos humanos e mais de trinta personalidades apresentaram, na última terça-feira (18.10.2016), uma reclamação disciplinar contra o desembargador Ivan Sartori, do Tribunal de Justiça de São Paulo.
 
O documento (leia a íntegra), encaminhado à ministra Carmem Lúcia, presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), solicita a abertura de um inquérito sobre a conduta do desembargador, durante o julgamento que anulou a condenação dos 74 policiais militares envolvidos no Massacre do Carandiru.
 
Em 2 de outubro de 1992, o episódio levou à morte 111 pessoas nas dependências da Casa de Detenção de São Paulo. Duas décadas depois, ninguém foi preso. O governo de Luiz Antônio Fleury Filho (1991-1995) sequer foi responsabilizado. 
 
Em 27 de setembro de 2016, atendendo a um recurso dos policiais, a 4ª. Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça anulou o veredicto de outros juris, que condenaram esses policiais. Sartori foi o relator desse julgamento. Além dele, participaram da decisão os desembargadores Camilo Léllis e Edison Brandão. 





 
Apesar do relator defender a absolvição dos policiais, eles deverão ser submetidos a um novo julgamento, no 2° Tribunal do Júri da Capital (TJ-SP, 27.09.2016). 
 
Legítima defesa?
 
Segundo Sartori, os policiais agiram em legítima defesa: “não houve massacre, houve legítima defesa e cumprimento do processo pela PM”. No texto da reclamação disciplinar, a decisão é considerada “absurda”, dada as provas apresentadas pelas “vítimas, funcionários e técnicos periciais”. 
 
“A legítima defesa não pode ser aplicada para justificar atrocidades como a do Massacre do Carandiru, assim como o Holocausto não pode ser naturalizado como sendo o cumprimento do dever legal instituído pelo Estado nazista”, diz o documento.
 
Segundo Jessica Morris, diretora do Conectas Direitos Humanos, o argumento vai “contra todas as provas contundentes de que esses 111 presos foram na realidade executados”, entre elas, “tiros pelas costas, homens desarmados, muitos deles ainda em suas camas”. 
 
“A decisão corrobora graves violações de direitos humanos, reforça a impunidade dos crimes cometidos pelo Estado e, também, legitima a violência que pauta a atuação das polícias aqui no Brasil”, aponta. 
 
Jessica foi uma das participantes da coletiva de imprensa sobre a representação disciplinar, ocorrida na última terça-feira (18.10.2016), no Sindicato dos Jornalistas. 
 
Abusos, falta de isonomia e imparcialidade
 
Na mesa, coordenada pelo ex-ministro Paulo Sérgio Pinheiro (Direitos Humanos), também estavam os advogados André Alcântara e João Paulo Godoy que citaram vários exemplos de “abusos, falta de isonomia e imparcialidade” cometidos pelo desembargador.
 
Entre eles, a reprodução da fala dos policiais em suas defesas em várias páginas do voto de Sartori. Segundo Alcântara, isso demonstra “uma escolha nítida do desembargador em privilegiar a PM. Tanto que ele chega a dizer que o Carandiru teve a vítima 112, que foi a instituição militar”.
 
Alcântara destacou, inclusive, a importância da reclamação disciplinar para denunciar as limitações e a atuação política do sistema judiciário brasileiro, que segue aplicando a “lógica de impunidade para alguns setores sociais” e a “da punidade e da criminalização” para os setores mais pobres e desfavorecidos.
 
Destacando a lentidão na tramitação do processo, ele considerou o desembargador como “uma das figuras dentro do Judiciário que usa o Judiciário como força política para reprimir os pobres e absolver os exterminadores dos pobres”. 
 
“Nós entendemos que o Judiciário é um ator político importante na sociedade e ele deve estar do lado da vida, da pessoa humana. Queremos que o CNJ atue nessa situação para evitar que isso se expanda. Não é só em São Paulo que as coisas são assim”, complementou.
 
Quebra de decoro
 
Explicando que a representação não discute o mérito da ação judicial e das apelações, mas foca-se na conduta do desembargador, o advogado Fábio Godoy disse que, em relação à jurisprudência do CNJ, “existem precedentes que afastam magistrados dependendo da conduta deles”. 
 
Ele avaliou, por exemplo, o comportamento do desembargador em entrevistas e nas redes sociais, sempre defendendo PMs e atacando as entidades de direitos humanos e a imprensa. Sartori chegou ao ponto de sugerir que imprensa e entidades estão envolvidas com o crime organizado.
 
“Existe uma previsão legal, ele não pode fazer o que fez, imputando crimes a figuras essenciais para o sistema de Justiça: como a imprensa para dar publicidade a tudo o que acontece e as entidades de direitos humanos”, destacou o advogado.
 
Além disso, em decisões anteriores, o próprio Sartori teria defendido que “uma sentença de júri só poderia ser revogada quando as evidências dos autos são manifestamente contrárias à decisão”, o que demonstra uma mudança “repentina de posicionamento”, ponderou Godoy.
 
Afastamento e aposentadoria compulsória
 
Por meio dessa reclamação disciplinar, entidades e militantes de direitos humanos solicitam ao CNJ a instalação de um processo legal administrativo disciplinar contra Sartori. 
 
Em caso de dúvida, pedem que seja aberta uma sindicância para apurar a conduta do magistrado e, “tão logo”, se abra esse processo. Também solicitam o afastamento do desembargador de suas atividades:
 
“A parcialidade do desembargador, descumprindo seu dever profissional, pode ainda influenciar nas decisões dos demais desembargadores na absolvição dos policiais militares no massacre do Carandiru ou trazer consequências para a tramitação adequada que uma grave violação de direitos humanos requer”, afirma o documento.
 
Eles também pedem a aposentadoria compulsória de Sartori: 
 
“Diante da violação dos princípios da Administração Pública (impessoalidade, moralidade e eficiência) e dos deveres do magistrado, não resta opção a não ser promover a apuração da conduta e a consequente responsabilização do desembargador”.
 
Estima-se um prazo de 60 dias, para que o órgão se manifeste em relação ao pedido.
 
Barbárie
 
Várias entidades e militantes de direitos humanos participaram da coletiva de imprensa no Sindicato dos Jornalistas. Entre eles, José Luís Del Roio que lembrou várias violações de direitos humanos cometidos por policiais: “Se aceitarmos isso, vamos aceitar para sempre os 500 mortos de Maio”.
 
Ele também citou o caso das ossadas na vala de Perus, descobertas em 1990: “estamos aqui discutindo um caso de 24 anos, o da Vala de Perus tem 26 anos. Não chegamos nem perto de ter um DNA daqueles corpos. Não é possível que a gente não faça uma campanha forte, que a imprensa não reflita essa situação”.
 
“Nós vivemos em um país bárbaro. Não podemos ser uma grande nação – como devemos ser – se não limitarmos e extirparmos essa barbárie. Enquanto tivermos todo um aparato de justiça que comete sistematicamente violações, por motivos políticos ou por ódio de classe, não seremos uma grande nação”, complementou.
 
Clique aqui e assistam à integra a coletiva.
 


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O desafio do clima: Acordo de Paris entra em vigor em novembro

24/10/2016 12:29 - Copyleft

O desafio do clima: Acordo de Paris entra em vigor em novembro

A missão fundamental que deveria ser descarbonizar a economia mundial ficou reduzida a uma vaga referência.


Julio César Centeno *
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O Acordo de Paris, aprovado por delegações de 193 países, em dezembro de 2015 – cujas ratificações começaram a ser realizadas em abril deste ano, desde os encontros na sede central da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York –, devem entrar em vigor neste mês de novembro – nos próximos dias, portanto.
 
De acordo com a Secretaria do Convênio s Mudanças do Clima (UNFCCC, em sua sigla em inglês), o Acordo de Paris já foi ratificado por 74 países – segundo a mais recente atualização, em 5 de outubro de 2016 –, que juntos representam 59% do total de emissões globais de gases do efeito estufa. Segundo o estipulado no artigo 21, o Acordo de Paris deve se tornar efetivo 30 dias depois de confirmadas ao menos 55 ratificações de Estados-membros da convenção que aprovou o acordo, em dezembro, desde que eles envolvessem ao menos 55% das emissões totais de gases. Assim, o secretário geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-moon, anunciou a data oficial de ativação do acordo: 4 de novembro de 2016.
 
Entre os países que ratificaram o acordo, se encontram os principais emissores de gases: os Estados Unidos, os países que compõem a União Europeia, a China e a Índia. Na América Latina, o documento já foi ratificado por Argentina, Brasil, México, Bolívia, Peru, Cuba, Panamá, Belize, Guiana e Honduras.
 
Em setembro, durante seu último discurso como presidente na Assembleia Geral da ONU, Barack Obama disse que “se não atuamos com determinação para frear o aquecimento global, enfrentaremos sérios problemas, cidades que ficarão submersas, êxodos massivos, nações desabitadas, destruição de fontes de alimentos e conflitos provocados pela desesperança. Devemos saber superar a pobreza sem condenar nossos filhos a um planeta que não respeita a capacidade de regeneração dos seus recursos”.





 
O objetivo do Acordo de Paris é evitar que a temperatura média da superfície do planeta aumente mais de 2°C até o fim de deste século, num parâmetro de comparação com a temperatura média no fim da era pré-industrial. Isto significa, entre outros fatores, evitar que a concentração de gás carbônico na atmosfera supere as 450 partículas por milhão (ppm). Entretanto, o acordo não define nem a estratégia nem o caminho com o qual se deve buscar e alcançar tais objetivos.
 
Estudos realizados no final de 2015 mostravam que o aumento na temperatura superficial do planeta era de 1°C e a concentração de CO2 se encontrava em 400 ppm. As tendências atuais conduzem a um na temperatura superficial numa média entre 3,7°C e 4,8°C até o final deste século, numa comparação com a era pré-industrial. Estas tendências representam uma emergência sem precedentes na história da humanidade. Um aumento de 4°C não é registrada desde meados do período Mioceno, há 10 milhões de anos. Logo, as tendências atuais nos levariam o mundo a transformações que tornariam o planeta um ambiente hostil e desconhecido para a espécie humana, e esse seria o legado que deixaríamos aos nossos descendentes.
 
O Acordo de Paris é um apanhador de contribuições voluntárias, determinadas por cada país segundo a sua própria iniciativa, sem coordenação entre as partes, sem caráter vinculante, sem condições ou penalizações em caso de os compromissos não serem cumpridos. E mesmo se todas estas expressões voluntárias de colaboração fossem realizadas tal qual o estabelecido no acordo – o que parece ser pouco provável que aconteça –, a humanidade se veria a caminho de um aumento médio da temperatura entre 3°C e 3,5°C.
 
As limitações do Acordo de Paris ficaram evidentes no 17º ponto do documento de conclusão da conferência COP21: “a Conferência das Partes observa com preocupação que os níveis estimados das emissões de gases do efeito estufa, entre 2025 e 2030, já como resultado das contribuições a nível nacional previstas e determinadas pelo acordo, não são compatíveis com o cenário de 2°C como aumento máximo da média da temperatura, que era o objetivo inicial das negociações”.
 
A missão fundamental que deveria ser descarbonizar a economia mundial, necessidade que vem sendo bastante debatida nas reuniões preparatórias, ficou reduzida a uma vaga referência: “as partes se comprometem a manter as emissões de carbono abaixo do nível máximo estipulado, e a começar a trabalhar nesse sentido o antes possível”, para logo explicar que a finalidade é “alcançar um equilíbrio entre as emissões antropogênicas por parte das fontes e a absorção antropogênicas por parte dos mecanismos desenvolvidos para atenuar os efeitos até a segunda metade deste século”.
 
Para se obter o máximo de aumento médio de 2°C, com uma probabilidade de ao menos 66%, é necessário que as emissões acumuladas de todos os gases durante o período entre 1850-2100 se mantenham abaixo das 3.670 gigatoneladas de CO2. O máximo possível de emissões no período entre 2015 e 2100, para se alcançar esse objetivo, é de apenas 855 gigatoneladas de CO2, o que implica deixar ao menos dois terços das reservas de gás e petróleo debaixo da terra.
 
O objetivo dos 2°C como aumento máximo requer melhoras substantivas dos compromissos assumidos em Paris, particularmente por parte dos países que mais contribuíram com a gestação da ameaça climática que a humanidade enfrenta hoje. Os países industrializados, que reúnem 18% da população mundial, geraram 72% das emissões de CO2 acumuladas entre 1850 e 2014. Entretanto, o Acordo de Paris conseguiu evadir essas desproporcionadas responsabilidades históricas.
 
Países como a Venezuela devem analisar com calma as delicadas implicações da entrada em efeito do Acordo de Paris, cujo objetivo implícito é a superação de um desenvolvimento econômico dependente do consumo de petróleo e outros combustíveis fósseis em apenas algumas décadas. Outros países, como o Canadá, criaram impostos específicos às emissões de CO2 – no caso canadense, funcionará a partir de 2018, e cobrará 7,60 dólares por tonelada, com um aumento anual da mesma magnitude, até alcançar os US$ 38 em 2022. Assim, se estabelecerá, a curto prazo, um imposto equivalente a US$ 16 por barril de petróleo.
 
* Especialista venezuelano graduado pela Universidade de Nova York e com estudos de pós-graduação na Universidade de Berkeley. Diretor do Instituto Florestal Latino-Americano e Professor da Universidade dos Andes. Representante da Venezuela nas negociações internacionais sobre políticas climáticas e meio ambientais.
 
Tradução: Victor Farinelli


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