quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os juros, a dívida e o caos

01/11/2016 11:16 - Copyleft

Os juros, a dívida e o caos

A hegemonia do capital financeiro se consolidou tranquila: desde 1998, o Estado sugou o valor de R$4 trilhões dos recursos da União para pagamento de juros


Paulo Kliass*
Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
O governo Temer e os meios de comunicação estão promovendo uma enorme amplificação de tudo daquilo que o financismo sempre procurou incutir no interior da sociedade. Falo aqui do verdadeiro catastrofismo criado em torno da suposta falência iminente do Estado brasileiro, caso não sejam adotadas as inúmeras medidas do garrote fiscal apresentadas pela equipe de Henrique Meirelles.
 
O todo-poderoso comandante da turma da economia não desiste jamais e mantém sua conhecida insistência monocórdica no tema do ajuste redutor de direitos. É bem verdade que a lista das maldades propostas é tão longa quanto perigosa: reforma da previdência, reforma trabalhista, privatização das empresas que ainda permanecem como estatais, redução das despesas orçamentárias de natureza social, entre tantas outras.
 
Consumado o golpeachment, tem início uma estratégia para promover o desmonte do Estado. Tudo começa por meio da votação da conhecida Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241 na Câmara dos Deputados e que foi renumerada para PEC 55 em sua tramitação que começa agora pelas instâncias do Senado Federal. O principal argumento em favor da medida refere-se a um suposto desequilíbrio estrutural existente nas contas públicas, que seria causado pelo excesso de gastos derivados dos compromissos obrigatórios para com as políticas sociais. E dá-lhe manipulação safada de gráficos e planilhas para demonstrar que o caos estará bem ali - logo, logo - nos aguardando na próxima esquina.
 
Dívida pública federal supera R$ 3 trilhões.





 
Como nenhum dirigente político empoderado ousou questionar a vigência do conceito de superávit primário ao longo dos últimos 13 anos, o fato é que permanece firme e forte a lógica viesada de se promover o ajuste apenas pela ótica das despesas primárias, ou seja, pela via da redução daquelas classificadas como não-financeiras. Com isso, os únicos responsáveis pelo desequilíbrio estrutural nas contas públicas seriam os gastos com previdência social, saúde, educação, assistência social, esportes, agricultura, investimentos, pessoal, ciência, tecnologia e inovação, etc, etc.
 
O problema é que a realidade insiste em oferecer um contraponto e exerce seu papel de agente contestador das teses irracionais e criminosas do neoliberalismo. E como os números que refletem esse movimento da economia são apurados pela própria administração pública, o governo não tem mesmo como fugir às suas próprias estatísticas. Ele pode se calar, mas basta um clique na web para conseguirmos as informações. Então, vamos lá.
 
Acaba de ser divulgado o “Relatório Mensal da Dívida Pública Federal” para o mês de setembro. De acordo com esse boletim elaborado pela própria Secretaria do Tesouro Nacional, subordinada ao Ministério da Fazenda, o estoque total da dívida pública do governo federal acabou de ultrapassar a marca simbólica dos R$ 3 trilhões. Em tese, esse fato não mereceria maiores destaques, uma vez que é bastante compreensível que os Estados nacionais lancem mão desse tipo de instrumento para cumprir com seus objetivos de política econômica.
 
No entanto, o que chama a atenção dos analistas são o ritmo e as condições em que tem ocorrido a evolução recente da nossa dívida. Por exemplo, em apenas um único mês, o valor total subiu mais de 3%, elevando-se de R$ 2,96 tri para R$ 3,05 tri. Nenhum outro tipo de indicador macroeconômico apresentou tal crescimento entre agosto e setembro desse ano. Caso se foque em uma abordagem ainda mais alongada, preocupa bastante também o comportamento da dívida durante os últimos 12 meses. Em apenas um ano, o estoque total se ampliou do equivalente a 11,4%.
 
Armadilha da dívida: juros.
 
É importante registrar que a mera existência da dívida pública, por si só, não se caracteriza como um problema. Não há porque demonizar esse importante mecanismo de política pública, muito utilizado para fins de política fiscal na grande maioria dos países do mundo contemporâneo. Além disso, vale a ressalva de que não se pode comparar a criação de dívida por parte de um Estado nacional com a imagem de uma dona de casa indo falar com o gerente do banco para fazer um empréstimo. Ou mesmo de uma empresa que se dirige a uma instituição financeira para obter um aumento de crédito. Esse tipo de analogia simplória e falsificadora conta apenas com as dificuldades da maioria das pessoas em apreender o fenômeno econômico. Nada mais deseducador e irresponsável do que esse tipo de fala, ainda por cima vindo da boca de autoridades da própria área econômica.
 
Um país exerce sua soberania plena quando lança títulos da dívida pública emitidos por suas instituições estatais. Sejam eles papéis denominados em moeda nacional ou em moeda estrangeira, o fato é que eles carregam consigo a credibilidade do próprio Estado como lastro de cumprimento de sua obrigação, além das cláusulas previstas para cálculo de rentabilidade e correção dos valores. Como já disse uma vez Delfim Netto, à época como super ministro da economia da ditadura militar, “dívida se não se paga, dívida se rola”. Ao contrário dos indivíduos ou empresas, o Estado pode lançar novos títulos para manter a rolagem do estoque de dívida. Afinal, ninguém imagina que um determinado país vá mesmo zerar seu nível de endividamento.
 
O aspecto mais relevante de todo esse debate, portanto, refere-se aos elementos que compõem a chamada “armadilha da dívida”. Isso significa olhar com mais atenção para fatores como o prazo dos títulos e, principalmente, as taxas de juros envolvidos nas respectivas operações. E aqui reside de fato o verdadeiro caminho para o caos: nessa subserviência cega, surda e muda frente à dominância do financeiro.
 
A catástrofe atende pelo nome de financeirização. Simples assim! Nada de problemas estruturais com as contas relativas a sistemas de políticas públicas essenciais, tais como Regime Geral de Previdência Social (RGPS), Sistema Único de Saúde (SUS), Plano Nacional de Educação (PNE), Benefício de Prestação Continuada (BPC – idosos e deficientes) ou Bolsa Família. Esses contam suas fontes de financiamento e podem desempenhar a contento com suas obrigações constitucionais, desde que a economia não esteja passando por um ciclo recessivo como a atual. Nessas condições, as receitas tributárias caem e as necessidades de financiamento ficam a descoberto. Mas são dificuldades conjunturais e não impossibilidades estruturais.
 
Superávit primário: R$ 4 trilhões de juros.
 
O regime de contabilidade orçamentária que mais drena recursos da maioria da população em benefício de uns poucos é aquele que eu costumo chamar de Regime Geral de Juros da Dívida (RGJD). Ao longo do ano passado essa conta chegou a apresentar um déficit equivalente a R$ 540 bilhões! Uma loucura! Trata-se de valores assegurados para promover a transferência de recursos da União para o pagamento de juros da dívida pública. Atualmente, o valor acumulado nos últimos 12 meses apresenta um saldo deficitário de R$ 390 bi. Mas o governo e a imprensa dominada pelo financismo insistem em propagandear que os maiores culpados pela suposta falência do Estado brasileiro seriam os aposentados e os pensionistas do INSS, que recebem a fortuna de um salário mínimo mensal em sua grande maioria.
 
Não, definitivamente não! A nossa previdência social não tem nada a ver com o caos tão anunciado. O principal responsável pelas dificuldades enfrentadas atualmente na área fiscal chama-se superávit primário. Essa armadilha embutida deliberadamente na articulação da política econômica é o verdadeiro “agente da catástrofe”, se é para utilizarmos as mesmas imagens que querem nos impingir. A busca insana por saldos positivos nas contas não-financeiras do governo tem comprimido de forma sistemática as despesas públicas nas áreas sociais e nos investimentos.
 
É bem verdade que os momentos de crescimento econômico mais geral, proporcionado em especial pelo boom das commodities, também propiciaram uma folga relativa nas contas da União e o modelo permitiu uma acomodação geral no interior da sociedade brasileira, sempre na base do “todos ganham”. Porém, à medida que as dificuldades no setor externo começaram a apresentar sua fatura, o sistema exigia medidas de rearranjo interno que os governos Lula e Dilma não ousaram adotar.
 
Assim o fato é que a hegemonia do capital financeiro se consolidou tranquila e inabalável. Entre 1998 e os tempos atuais, o Estado sugou o valor de R$ 4 trilhões dos recursos da União para pagamento de juros. Achou o valor alto demais? Pois é isso mesmo: R$ 4 trilhões a valores atuais que deixaram de ser utilizados em políticas prioritárias e foram transferidos a um conjunto de atividades tão essenciais e geradoras de emprego, como é o caso da especulação rentista e financeira.
 
Superar o caos e o pesadelo do financismo.
 
E o governo ainda vem nos vender a ilusão de que a PEC da redução das despesas está aí para oferecer credibilidade e responsabilidade à gestão fiscal, para que o nível de endividamento púbico possa ser reduzido. Pois a grande falácia reside justamente nessa mentira. Durante esse mesmo período em que o superávit primário imperou soberano, o estoque da própria dívida pública federal cresceu de forma absurda. Ela saiu de um valor próximo a R$ 1,8 tri a valores corrigidos e chegou aos atuais R$ 4 tri de estoque de setembro de 2016. 
 
Isso significa que todo esforço realizado pelo Brasil para honrar os compromissos financeiros com a banca e gerar mais de R$ 4 trilhões de saldos sucessivos de superávit primário ao longo de 1 anos de nada serviu. Pagamos esses juros todos e o total do estoque da dívida ainda mais do que dobrou ao longo do mesmo período. Ou seja, tudo nos leva a crer que a mesma espoliação deverá ocorrer ao longo dos próximos 20 anos, prazo previsto para a vigência do novo Regime Fiscal definido na PEC 55.
 
Esse sim é o verdadeiro caos que continua a nos ameaçar uma vez mais. É urgente que todos nos despertemos e nos livremos do pesadelo do financismo.
 
 
 
* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.


Créditos da foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

01/11/2016 - Clipping Internacional

01/11/2016 10:06 - Copyleft

01/11/2016 - Clipping Internacional

'Erdogan está a fazer o seu próprio golpe de estado'. Novo decreto governamental fechou boa parte da imprensa curda e despediu mais de 10 mil funcionários.


Carta Maior
reprodução
Página 12, Argentina
 
“Isto está dirigido e beira o ridículo”. A ex-presidente Cristina Kirchner declarou no processo de Ercolini. Ela apresentou por escrito e não respondeu perguntas. Mas considerou “absurdo” utilizar-se da figura da “associação ilícita” para falar de uma relação entre o Presidente e seus ministros. 
http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-313161-2016-11-01.html
 
El País, Espanha
Quando trabalhar no McDonalds ou Walmart não te dá um teto. Com emprego mas sem moradia. Há trabalhadores nos Estados Unidos que terminam seu turno, recolhem seus trastes e vão dormir em um albergue para indigentes.





http://internacional.elpais.com/internacional/2016/10/31/estados_unidos/1477872430_055994.html
 
The New York Times, EUA
A manobra do diretor do FBI, revelando investigação por vir sobre e-mails que ainda não estão determinados serem de Hillary Clinton, relembra as décadas de Edgar Hoover à frente do FBI, seja isso válido ou não. Diferentemente, entretanto, James Conley, ao contrário de Hoover, agiu publicamente e não operou secretamente como esse último. Hoover foi o último diretor do FBI acusado de tentar influenciar uma eleição presidencial.
http://www.nytimes.com/2016/11/01/us/politics/james-comey-fbi-emails.html?hp&action=click&pgtype=Homepage&clickSource=story-heading&module=first-column-region&region=top-news&WT.nav=top-news&_r=0
 
The Independent, Inglaterra
Um em cada três super-ricos estão sob investigação pela receita federal da Inglaterra sobre impostos. Mas apenas um deles foi condenado nos últimos cinco anos.
http://www.independent.co.uk/news/uk/politics/super-rich-high-net-worth-hmrc-taxes-formal-enquiry-1-in-3-a7389131.html
 
Esquerda.net, Portugal
“Erdogan está a fazer o seu próprio golpe de estado”. Novo decreto governamental fechou boa parte da imprensa curda e despediu mais de 10 mil funcionários. Autarca de Diyarbakir foi novamente presa e a cidade ficou sem internet. HDP promete resistir ao poder absoluto do presidente turco.
http://www.esquerda.net/artigo/erdogan-esta-fazer-o-seu-proprio-golpe-de-estado/45212
 
El Telegrafo, Equador
4 pontos foram estabelecidos na agenda de diálogos na Venezuela. Dia 11 de novembro será o próximo encontro. O Vaticano, a Unasur e uma delegação internacional auspiciam as negociações entre governo e oposição.
http://www.eltelegrafo.com.ec/noticias/mundo/9/4-puntos-fijan-la-agenda-de-dialogos-en-venezuela
 
The Guardian, Inglaterra
Ucrânia em choque ao se tornar público a riqueza da elite política do país. Novo sistema na declaração de riqueza mostram funcionários possuindo “ovos Fabergé”, coleção de armas e muito dinheiro em casa.
https://www.theguardian.com/world/2016/oct/31/ukraine-stunned-vast-cash-reserves-political-elite-made-public
 
O Ocidente convoca figuras chave na Líbia para um acordo diante do crescente caos econômico. Líderes se encontram em Londres com a necessidade urgente de quebrar o impasse entre o primeiro ministro apoiado pelas Nações Unidas e o dirigente do Banco Central
https://www.theguardian.com/world/2016/oct/31/west-urges-key-figures-libya-compromise-economic-chaos-looms
 
BRASIL
 
The Guardian, Inglaterra
A vitória de Marcelo Crivella assinala a queda do Partido dos Trabalhadores de Dilma Rousseff e o desprezo dos eleitores por todo o sistema político. Um bispo evangélico foi eleito prefeito do Rio de Janeiro, assim como candidatos de direita pelo Brasil inteiro fortaleceram sua influência às custas de um PT dizimado.
https://www.theguardian.com/world/2016/oct/31/evangelical-bishops-mayoral-win-in-rio-shows-rise-of-brazils-religious-right
 
Diário de Notícias, Portugal
E o Rio elegeu mesmo um bispo da IURD para prefeito. Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, é engenheiro civil, cantor gospel, ex-missionário em África e senador. Foi ministro de Dilma, agora apoia Temer. Com fama de conciliador, tem, porém, um passado radical.
http://www.dn.pt/mundo/interior/e-o-rio-elegeu-mesmo-um-bispo-da-iurd-para-prefeito-5473694.html
 
RFI, França
PT não vive derrota, mas o fim de um ciclo, diz analista. No Brasil, nas eleições municipais de domingo (30), o Partido dos Trabalhadores elegeu 265 prefeitos, uma forte queda em relação aos 630 que tinha anteriormente. Nas capitais, o PT ficou apenas com Rio Branco, no Acre. Um cenário que deve levar o partido a uma reflexão profunda sobre suas bases e seu futuro. A RFI Brasil ouviu analistas políticos e um militante sobre o tema.
http://m.br.rfi.fr/brasil/20161031-pt-nao-vive-derrota-mas-sim-o-fim-de-um-ciclo-diz-analista
 
Eleições municipais marcam derrocada da esquerda no Brasil, diz imprensa francesa. A imprensa francesa desta segunda-feira (31) repercutiu o resultado do segundo turno das eleições municipais no Brasil. O principal destaque, do ponto de vista dos franceses, foi a eleição de um evangélico, Marcelo Crivella, para a prefeitura do Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa do samba e do Carnaval.
http://m.br.rfi.fr/brasil/20161031-eleicao-de-crivella-marca-derrocada-da-esquerda-diz-imprensa-francesa
Eleição de Crivella simboliza guinada conservadora no país. O resultado das eleições municipais no Brasil revelou o crescimento da direita no poder. O PRB, ligado à igreja Universal, elegeu não somente o bispo Marcello Crivella no Rio de Janeiro, mas outros milhares de prefeitos no país, o que representa um aumento de 31%.
http://m.br.rfi.fr/brasil/20161031-linha-direta-repercussao-do-segundo-turno-das-eleicoes-municipais
 
Huffington Post Brasil, EUA
Nova política no Brasil? Dos 8 novos prefeitos de “primeira viagem” eleitos nas capitais, 5 pertencem a clãs políticos.
http://www.brasilpost.com.br/2016/10/31/prefeitos-clas-politicos-_n_12735368.html?utm_hp_ref=brazil
 
 


Créditos da foto: reprodução




O QUE FAZER COM OS FILHOS DA ESPERANÇA?

o que fazer com os filhos da esperança?


O golpe rebaixou por decreto o horizonte da geração nascida nos anos 2000, os filhos do pré-sal, filhos de uma certeza subversiva.
Saul Leblon

A emissão conservadora se espoja no revés progressista, como se a urna de 2016 fosse a prefiguração automática de 2018.

Desse ângulo da arquibancada ideológica o tucano Geraldo Alckmin é aclamado ‘o’ presidenciável campeão.

Credencia-o, diz a ‘crônica uniformizada’, o espraiamento do PSDB no país, mas sobretudo no estado onde o partido já é governo há um quarto de século.

Ter São Paulo é um trampolim eleitoral respeitável.

Mas o mesmo tucano já bateu a cabeça na piscina seca de votos quando saltou daí para o Brasil, em 2006.

Os tempos são outros.

O mensalão em vigor quando Lula derrotou Alckmin com 60,8% dos votos – quase 20 milhões de eleitores a mais que os do tucano - era um treino de juniores perto da arremetida atual por terra, mar e ar comandada por Sergio Moro & Cia.

A salmoura à qual o PT foi empurrado, apimentada com a perda de 60% das prefeituras de 2012, não é adoçável sob nenhum ângulo.

Mas a crise econômica agora também mudou de calibre.

O arrocho e a agenda ideológica do golpe, pouco pragmática diante de uma economia que afunda um pouco mais a cada dia, começa a  incomodar até o empresariado produtivo.

O conjunto não autoriza a assinatura da extinção eleitoral que a torcida organizada das redações endereça às forças progressistas e à sua principal liderança.

Houvesse tanta certeza, de fato, a caçada a Lula poderia ser suspensa.

A verdade é que questões essenciais do futuro escapam à angulação estreita dos camarotes áulicos.

Todo o sistema partidário brasileiro foi destruído para que o golpe de Estado ancorado na criminalização da política e de suas lideranças, sobretudo as do PT, fosse bem-sucedido.

A aliança da escória com a mídia e o judiciário foi eficaz nisso.

Deixou um cenário de terra arrasada que agora engolfa os próprios ‘vencedores’.

Guardadas as diferenças que separam a grandiosidade literária, da mediocridade elitista, seu triunfo se assemelha ao de Santiago, o pescador de ‘O velho e o Mar’, na novela clássica de Hemingway.

Depois de fisgar um enorme peixe-espada – alguns pesam mais de 500 kg - teve o barco arrastado pela presa para o alto mar, onde tubarões devoram seu troféu.

Santiago retornou à terra atado a uma vitória reduzida a um gigantesco amontoado de ossos.

À montanha desordenada de ossos políticos da qual faz parte o golpismo (mesmo poupado por Moro & mídia) agrega-se agora o esqueleto de outra ruína igualmente inseparável de sua existência: a devastação econômica do país.

A escala épica da demolição não frequentou os palanques dos pleitos municipais, mas dominará o debate no escrutínio de 2018.

Não é um vaticínio agourento.

É a dinâmica visível em um declínio desprovido de freios, uma vez que  suprimi-los foi a razão de ser do golpe.

Entregue aos impulsos do mercado - sem ‘o intervencionismo lulodilmista’ – o Brasil resta como o vertedouro do rio submetido às enxurradas que escavam sua precipitação ao abismo.

As enxurradas e afluentes do golpe são os seus compromissos com os mercados e o dinheiro grosso.

Em nome deles a nação está sendo tangida a uma reconversão tardia ao neoliberalismo.

Em um mundo no qual a seita dos livres mercados vive sua deriva crepuscular, preconiza-se manter a sociedade brasileira em estado vegetativo por vinte anos.

Objetivo: reduzir gastos para evitar a tributação justa da riqueza, indispensável à vigência dos direitos sociais da Carta de 1988.

Daí deriva o resto.

A PEC detalha os redemoinhos e afogamentos intrínsecos à des-emancipação social impulsionada pelo caudal golpista.

Sem ilusões, porém: não será um jorro pacífico.

A rebelião dos secundaristas do Paraná é o primeiro pedral da série incalculável na qual esbarrará a torrente regressiva.

Não se trata de um acidente aleatório.

O pioneirismo estudantil reúne variáveis que ajudam a entender por que a ‘guinada conservadora’ de hoje não pode ser projetada para o Brasil de amanhã.

Em primeiro lugar, há o problema da truculência da forma.

Concebidas a toque de caixa por quem tem pouco tempo para se viabilizar, as investidas do ‘ajuste’ são transmitidas à sociedade no idioma dos sentenciamentos inapeláveis

Como soavam os atos institucionais da ditadura, em 1964.

O fato de serem sancionados por uma escória parlamentar não muda a percepção antidemocrática que acendeu o pavio da rebelião secundarista.

Mas não explica a sua octanagem.

A expansão fulminante e a convicção contagiante condensada na intervenção viral da estudante Ana Júlia levam a uma segunda constatação.

Parênteses: não há despropósito em se repensar o modelo do ensino secundário.

Ao contrário. Há pertinência e urgência nisso.

Currículos anacrônicos, extensos, embalsamados em inércia e desinteresse explicam uma parte da elevada evasão escolar que atinge 10% dos alunos na rede pública.

Dos que persistem, 10% apenas, segundo pesquisas, concluem a maratona com aproveitamento razoável.

Para o indecoroso desperdício concorrem variáveis externas aos currículos, igualmente negligenciadas pelos seus formuladores.

O ciclo médio sobrepõe uma das etapas mais delicadas da aprendizagem a um dos momentos mais sensíveis na vida de qualquer geração.

Em meio a uma travessia biológica açulada por inquietações típicas da adolescência dá-se uma espécie de hora da verdade da vida escolar.

Inconsistências e inquietações trazidas da alfabetização, do lar, do país e do espírito tem no ensino secundário seu estuário catalítico.

No Brasil, um em cada três alunos nessa fase cursa uma série defasada em relação à idade.

Some-se a isso a mudança de paradigma escolar.

No ensino secundário, o aluno passa a contar com um número excessivo de matérias (de 15 a 19), ministradas por diferentes professores, com pouca ou nenhuma relação direta com a efervescência adolescente.

Ao desencanto agrega-se frequentemente, no caso dos estudantes da rede pública, a pressão familiar pelo ingresso no mercado de trabalho.

É sobre esse turbilhão hormonal e social que irrompe o golpe de Estado de 31 de agosto.

Na mais fiel tradição gorila latino-americana, uma de suas primeiras intervenções consiste em ‘comunicar’ a esse universo que o currículo escolar sofrerá uma mudança drástica.

Mais que o currículo.

O anúncio é captado corretamente como um redirecionamento do futuro.

Sobre o qual a sua opinião não conta.

Está aceso o pavio.

Negligenciado pela cumplicidade de método e meta dos noticiosos conservadores, o choque de expectativas atinge toda uma geração de jovens brasileiros.

Não qualquer geração.

Mas aqueles nascidos em um período específico de um Brasil abalroado em meio a um ciclo de mutação.

O de meninos e meninas que cresceram em uma década e meia durante a qual a prioridade do Estado foi igualar as oportunidades, independente da origem de berço e renda dos novos integrantes da nação.

Não é pouco mexer com isso.

O impacto dessa reversão de expectativas é tão ou mais importante para projetar 2018 que a derrota progressista nas eleições municipais de 2016.

Por uma razão muito forte.

O projeto mudancista de sociedade em direção a uma democracia social foi escrutinado e revalidado por quatro eleições presidenciais sucessivas.

A assertiva Ana Júlia nasceu, cresceu, aprendeu a ler e a pensar por conta própria, e a ter sonhos de cidadania, nesse curto, mas intenso percurso da história.

Abruptamente interrompido pelo golpe de Estado de 31 de agosto.

Ninguém em pleno domínio das faculdades mentais pode afirmar que esse consenso mais geral foi revogado do imaginário popular num pleito de prioridades fragmentadas, como o que acaba de acontecer entre 5.565 municípios.

Ainda que o ambiente de descrença na política e nos políticos tenha marcado os resultados em grandes capitais, permanece o fato incontornável: o golpe rebaixou por decreto o horizonte de futuro arraigado na vida de toda uma geração.

A geração nascida nos anos 2000.

Os filhos do pré-sal.

Filhos de uma certeza subversiva.

Aquela disseminada diuturnamente nos discursos de Lula e Dilma por quatorze anos seguidos

A mesma que FHC denomina de ‘voluntarismo populista’.

Ou seja, a esperança de que o Brasil construía um novo e promissor capítulo de sua história.

E de que nele os filhos do pré-sal seriam a geração da virada.

Mil escolas ocupadas é pouco perto da nitroglicerina que a reversão desse sonho em pesadelo condensa.

Seu teor de conflito é suficiente para implodir muito mais que as ligeirezas mecanicistas que extraem das urnas de 2016 o desfecho de 2018.

Há encadeamentos intrínsecos que não deveriam ser negligenciados por quem de direito.

A sublevação dos secundaristas não colide apenas com os planos educacionais do golpe.

Sua rota de colisão é mais extensa  e transformadora.

Envelopado em ‘boas’ intenções pedagógicas reserva-se à juventude – sobretudo aos filhos da classe média remediada e pobre -  um claro destino de segunda mão.

Não muito diferente do de hoje ainda.

Mas é pior que ser igual.

A reforma do golpe sepulta o compromisso do Estado nos últimos quinze anos de romper a inércia da desigualdade trazida do berço. 

Estados pobres, alunos pobres, cidades pobres, bairros pobres e periferias metropolitanas – ou seja, a ampla maioria - adaptarão suas escolas a uma especialização precoce de currículos, enxugando as ‘trilhas’ opcionais da reforma para adestrar secundaristas no papel de coadjuvante, ’técnico’, do enredo de sonhos de sua geração.

A condenação à mão de obra barata completar-se-á com o desmonte previsto da CLT, que reserva aos que chegarem ao mercado nos próximos anos, a condição de trabalhadores  terceirizados (projeto nesse sentido,  4330/04, já aprovado pela Câmara, libera a terceirização em qualquer setor e função, revogando a CLT que perderá espaço também com a prevalência do negociado sobre o legislado, já adotada pelo STF).

A frustração inflamável tem combustível para ir longe, portanto.

Até o golpe de agosto, a geração de Ana Júlia  tinha na soberania brasileira sobre o pré-sal seu passaporte para a cidadania e o sonho.

Está órfã.

O fato de a Petrobras ter se  transformado no ciclo de vida desses adolescentes, na empresa estatal detentora da segunda maior reserva de óleo do mundo, credenciava-a como fiadora da esperança.

O salto da escola pública – e daí à universidade - estava condicionado à dotação de 10% do PIB à educação, como decidiu o Plano Nacional do setor (PNE), ancorado no fluxo da renda de longo prazo do pré-sal.

Em setembro de 2013, a presidente Dilma Rousseff assinaria a lei que destinava a maior parte dos royalties das reservas à educação.

A economia vivia tempos de otimismo e o petróleo era cotado internacionalmente a US$ 110 o barril.

Caiu à metade disso.

Em compensação, a produtividade dos poços surpreendeu.

Cresceu 56% em 2015; já representa mais de 40% da produção do país; pode atingir um milhão de barris/dia este ano.

A curva ascendente autoriza a previsão de se extrair dois milhões de barris do pré-sal até 2020, ou antes disso.

A lei assinada por Dilma determina que 75% dos royalties do petróleo e 50% do chamado Fundo Social do Pré-Sal sejam destinados à educação, como uma espécie de poupança deslocada de um recurso finito para outro permanente: a juventude brasileira.

Nada disso mais é certeza.

O golpe violou o regime de partilha.

Não apenas para ‘acelerar’ a exploração.

A Petrobras perdeu a jurisdição, a participação cativa e o poder fiscalizador sobre uma riqueza cobiçada por interesses predadores internacionais.

O conteúdo nacional obrigatório na aquisição de máquinas, navios e equipamentos para a exploração das reservas, desenhado para ser o impulso industrializante do país no século XXI, está em vias de ser revogado.

O conjunto é um violento tapa na cara da geração dos filhos do pré-sal.

Essa da qual Ana Júlia é a porta-voz precursora.

Quantos lutarão com a contundência que ela expressa?

Depende da organização política capaz de vocalizar os sonhos frustrados pelo moedor de carne golpista.

A formação do discernimento social brasileiro está asfixiada por uma implacável  máquina de supressão da autoestima nacional.

Tudo o que não é mercado é corrupção.

Tudo o que não é mercado é ineficiente.

Tudo o que não é mercado é populismo, custo fiscal e desperdício.

Esse é o martelete que ordena a narrativa do jornalismo aliado à escória e ao judiciário partidarizado a serviço do mercado.

O jogral não apenas dificulta a busca de soluções para a transição de ciclo de desenvolvimento vivida pelo país, como nega à sociedade competência para fazê-lo de forma coordenada e democrática.

‘Melhor entregar o destino aos mercados’.

Recusa-se  aos locais a competência até mesmo para discutir uma reforma do ensino médio,  que dirá gerir as maiores reservas de óleo descobertas no  planeta no século XXI?

Ou construir o passo seguinte do desenvolvimento brasileiro, sob o emblema da convergência da riqueza e do direito a um mesmo ponto de partida igual para todos.

Era esse o diferencial da geração de Ana Júlia.

Não é mais uma certeza.

Mas ainda pulsa como possibilidade na clareza contagiante da qual ela se faz portadora.

O ciclo de governos petistas colecionou erros graves no seu percurso.

Mas espetou essa dissonância incontornável no metabolismo da nação.

Ao trazer 60 milhões de brasileiros ao mercado e à cidadania esburacou de maneira formidável a estrada na qual o conservadorismo costumava engatar a ré e acelerar o retrocesso sem nem consultar o espelho retrovisor.

Talvez não seja mais possível fazê-lo assim.

Provar que não mesmo, no tempo curto que resta, é a tarefa que cumpre compartilhar com a geração de Ana Júlia.

Antes que fique escuro demais para tentar.