terça-feira, 7 de março de 2017

MINHA ABSOLVIÇÃO

MINHA ABSOLVIÇÃO

lavajato
742
O juiz Sérgio Moro, nessa última quinta-feira, finalmente exarou a sentença relativa ao processo no qual eu era réu, oriundo do 27º episódio da Operação Lava Jato, denominado “Operação Carbono 14”.
Diz a decisão, a meu respeito:
“Breno Altman é apontado por três pessoas como envolvido no crime, Marcos Valério de Souza, Alberto Youssef e Ronan Maria Pinto. Mas são todos depoimentos problemáticos, provenientes de pessoas envolvidas em crimes. Diferentemente dos demais, não há nos documentos qualquer elemento que o relacione às operações, nem os valores passaram por sua empresa, nem há uma vinculação necessária entre ele e a gestão financeira do Partido dos Trabalhadores. Por falta suficiente de prova, deve ser absolvido.”
Após quase um ano sob investigação e processo, o magistrado responsável pela 13a Vara Federal do Paraná reconhece minha inocência.
No mar de irregularidades e abusos que inunda a vida político-judiciária do país, minha absolvição é uma pequena e modesta vitória daqueles que têm compromisso com a Constituição, a democracia e o Estado de Direito.
Mas esse momento de alegria não anula a gravidade dos fatos que o antecederam e a preservação do ambiente de perseguição política que dita a conduta de muitos atores do sistema judicial.
Lembremos que esse processo foi iniciado com o Ministério Público Federal anunciando que o objetivo central das investigações era comprovar o vínculo entre atos de corrupção e o assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel.
Durante dias, promotores e veículos de informação expuseram os réus à execração pública, vinculando-os a uma sórdida hipótese que mesclava sangue e lama.
Com a decretação de prisões preventivas e conduções coercitivas, alimentou-se um espetáculo midiático cujo único propósito era celebrar mais uma bala de prata contra o Partido dos Trabalhadores.
Após um ano, a denúncia do MPF simplesmente desapareceu com qualquer referência ao homicídio do ex-prefeito e à extorsão que estaria sendo praticada contra dirigentes petistas para esconder sua alegada relação com o delito de morte.
A peça acusatória final se resumiu a 36 páginas, das quais apenas seis linhas dedicadas a mim, pedindo a condenação dos réus por lavagem de dinheiro, sem qualquer preocupação em apresentar provas de dolo ou ir além de testemunhas com duvidosa credibilidade, como reconhece o próprio juiz.
Caso não prevalecesse o aparelhamento da Justiça como trincheira ideológica, caberia honradamente ao próprio MPF tomar as devidas cautelas antes de lançar cidadãos ao Coliseu da opinião pública, agindo com menos açodamento e mais zelo pelos direitos constitucionais.
Mesmo declarado inocente, paguei uma pena severa e irreparável por crime jamais cometido. O espetáculo processual atingiu frontalmente minha imagem e levou à ruptura dos contratos publicitários do site que dirijo, eliminando postos de trabalho e golpeando um dos veículos de maior prestigio da imprensa independente.
Como jornalista, tampouco posso ficar indiferente às injustiças que se mantêm, como a condenação sem provas contra Delúbio Soares, reforçando suspeitas de quem acusa a Operação Lava Jato por ser centralmente orientada para abalar e destruir o principal partido da esquerda brasileira.
Por fim, agradeço o incrível trabalho de meus advogados, bem como a solidariedade inquebrantável de meus familiares, amigos e companheiros.
Espero que minha absolvição sirva, de alguma maneira, como motivo de ânimo aos que lutam, nas ruas e nas instituições, contra a escalada antidemocrática que machuca nosso país.

Paraguai: "Esquerda Volver"

Paraguai: “Esquerda Volver”

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Os paraguaios, assim como nós, passarão por um novo processo eleitoral em 2018. Tanto lá como cá, a possibilidade da esquerda retomar o poder executivo do país é consideravelmente grande
Por Walter Fernandez
lugo
Fernando Lugo foi eleito presidente dos paraguaios em 2008 em uma ampla coalizão de oposição, chamada Aliança Patriótica pela Mudança- APM, que tinha em sua composição desde movimentos sociais da cidade e do campo e partidos de esquerda, até o Partido Liberal, de cunho conservador. Ao ser eleito, com mais 40 % dos votos, Lugo passou enfrentar uma dura oposição parlamentar no legislativo, além de ter que enfrentar a mídia extremamente conservadora de seu país. Na sua sombra, Federico Franco, vice-presidente e fruto do acordo com os liberiais (que já em 2009 romperam e isolaram a esquerda no parlamento), não parecia, em nenhum momento, estar disposto de acompanhar presidente em qualquer momento de dificuldade.
Inúmeras foram as dificuldades e os desgastes acumulados. Lugo passou por traições de enorme parte de seus aliados, enfrentou um linfoma que o abateu fortemente em 2010, tentativas de denúncias de conspiração, além de inúmeras ameaças de morte, numa das democracias mais instáveis do continente. Num dos “golpes institucionais modernos” mais sujos vistos até hoje, em 36 horas, o parlamento golpista destituiu um presidente democraticamente eleito, sem direito a ampla defesa, usando como artificio de desculpa, com uma desfaçatez absurda, o conflito de Curuguaty, um massacre que vitimou mais de dez camponeses e foi usado para alimentar os interesses dos latifundiários em derrubar o presidente.
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Apesar de todos estes percalços, seu governo foi o que mais investiu em programas sociais, elevando os gastos públicos com projetos de distribuição de renda e diminuição da pobreza. Enfrentou com altivez a questão de Itaipu, tentando a todo custo, corrigir as injustiças históricas que envolviam a partilha da hidrelétrica. A vida dos paraguaios melhorou e essa intervenção direta nas condições materiais da vida do povo credenciam Lugo como o único presidente que pensou nos pobres, nos trabalhadores e nos camponeses do país.
As últimas pesquisas o colocam com ampla maioria nas intenções de voto, fato que desespera setores oligárquicos da sociedade. O governista Partido Colorado (aquele mesmo do sanguinário General Strossner) ensaia uma tentativa de golpe preventivo contra o ex-bispo, buscando uma manobra constitucional para impedir sua candidatura. Novamente, a direita e os setores reacionários da sociedade mostram o medo que tem das urnas. Medo este compartilhado pelos mesmos setores em diversos países latino-americanos. Resta a esquerda, especificamente a Frente Guasú, reorganizar suas forças, dialogar com os setores da sociedade que elegeram Lugo em 2008 e ampliar ainda mais suas relações com os movimentos sociais do campo e da cidade. Derrotar Horácio Cartes (atual presidente) e o Partido Colorado abre um novo ciclo de desenvolvimento para o país vizinho. No Paraguai, é preciso retomar a esperança, é preciso volver à esquerda.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Documentário Observar e Absorver

https://www.youtube.com/watch?v=I7arqW5luKc

UM MORTO QUE CAMINHA

um morto que caminha
Paulo Nogueira


Cabe às ruas fazer o morto se recolher ao cemitério.

Cadê o povo nas ruas pedindo a saída de Temer?

Sem gente — muita gente — nas ruas, o ‘Fora Temer’ vai ser igual ao ‘Não Vai Ter Golpe: o triunfo da esperança sobre a experiência, para usar a grande sentença do frasista francês La Rochefoucald.

Paulo Henrique Amorim postou isso hoje no Twitter, e ele não poderia estar mais certo.

O Carnaval trouxe esperança de que as ruas enxotariam Temer. Que aquela esperança não se transforme em ilusão ou, pior, desilusão.

Um bom exemplo de continuidade nos protestos é o que Guilherme Boulos e o MTST vêm fazendo na Paulista.

Mas esta é uma gota quando o necessário é uma tempestade.

As redes sociais, é verdade, continuam em efervescência nas manifestações contra o governo.
Mas é preciso mais que isso.

O protesto virtual é muito, mas sem as ruas vira quase nada.

Com a bunda na cadeira não se derruba um presidente, ainda que ele esteja quase caindo sozinho.

Robespierre disse que não se faz uma revolução sem pisar na grama.

Também não se muda nada à base somente de posts no Twitter e no Facebook.

O governo Temer é um morto que caminha.

Cabe às ruas fazer o morto se recolher ao cemitério.

Ruas, ruas e ainda ruas. Essa é a receita vital, insubstituível para o Brasil se livrar de uma das mais tenebrosas ações de sua plutocracia ao longo de toda a história: a invenção de Temer como presidente — o decorativo, incapaz, traiçoeiro Temer.


domingo, 5 de março de 2017

Advogado brasileiro e outros 12 são ameaçados de morte por processos da ditadura uruguaia

 2/mar/2017, 9h16min

Advogado brasileiro e outros 12 são ameaçados de morte por processos da ditadura aiaurugu

 2/mar/2017, 9h16min

Advogado brasileiro e outros 12 são ameaçados de morte por processos da ditadura uruguaia

Jair é uma das 13 pessoas ameaças de morte pelo Comando, caso processos contra militares no Uruguai sigam | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Fernanda Canofre
Jair Krischke abriu a caixa de entrada de seus e-mails na semana passada para encontrar uma notícia com a qual já havia se desacostumado: estava ameaçado de morte. Não foi a primeira vez, mas era algo que pensou haver deixado para trás, nos anos em que combatia diretamente as ditaduras militares de Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, como advogado de direitos humanos. A nova ameaça veio na forma de um comunicado, onde o nome de Jair aparece junto aos de outras 12 pessoas que também trabalham em processos contra militares responsáveis por mortes, desaparecimentos e violações durante a ditadura no Uruguai.
Além de Jair, a lista do grupo que se identifica como Comando Barneix cita o ministro da Defesa do Uruguai, Jorge Menéndez, a diretora do Instituto de Direitos Humanos do Uruguai, Mirtha Guianze, e Hebe Martínez Burlé, responsável por levar à Justiça o caso que condenou o ditador Juan María Bordaberry. O comunicado foi recebido em dois e-mails diferentes pelo procurador Jorge Díaz, outro nome na lista, e depois publicado no jornal uruguaio Brecha.
“A gravidade que eu vejo é como ameaça ao nosso trabalho como defensores dos direitos humanos. Não é por outra coisa. Isso é grave. E na medida que a gente permite, eles crescem”, analisa Jair Krischke, em uma entrevista na mesma sala de onde conduz os trabalhos do Movimento de Justiça e Direitos Humanos há décadas em Porto Alegre. “Não é brincadeira, porque esses caras não brincam, eles são muito atrevidos. Eu tenho que tomar precauções e organizar ações para responsabilizá-los. Eles se sentem impunes”.
O nome do grupo é uma homenagem ao general Pedro Barneix. Em 2015, depois de três anos respondendo a processo por homicídio político, Barneix não compareceu a uma intimação para depoimento e a juíza ordenou que a polícia fosse procurá-lo. Quando o policial o encontrou, em casa, Barneix disse que precisava ir até o quarto para trocar os sapatos. Assim que subiu as escadas, o general pegou sua arma e se matou com um tiro na cabeça. Menos de um ano antes, em dezembro de 2014, quando o presidente eleito Tabaré Vázquez anunciou que manteria o ministro de defesa do governo de José Pepe Mujica, Eleuterio Fernández Huidobro, militantes do grupo Plenaria Memoria y Justicia organizaram um escracho em frente à casa de Barneix. “Passam os governos, a impunidade fica”, diziam eles.
Barneix respondia pela morte de Aldo “Chiquito” Perrini, assassinado no quartel de Colonia del Sacramento, onde ele era responsável pela repressão. Perrini não era militante, nem tinha vínculo com nenhum grupo político. Sua única atividade de esquerda foi um voto que deu ao Frente Amplio. Vendedor de sorvetes, pai de três filhos, aos 34 anos foi levado ao quartel pelos militares e submetido a sessões de tortura. Não resistiu.
Para amigos, poucos meses antes de sua morte, Barneix dizia que sabia que seria preso e “estava preparado”. Durante o primeiro governo de Tabaré Vázquez, o torturador que nunca foi punido ainda conseguiu ser nomeado como responsável por investigar o destino de pessoas que desapareceram durante a ditadura. A mesma na qual ele foi um dos membros destacadas da Inteligência. Se tivesse sido condenado pela morte de Perrini, sua pena poderia ter ficado entre 15 e 30 anos em regime fechado.
O comunicado do Comando avisa: “O suicídio do general Pedro Barneix não ficará impune, não aceitaremos mais nenhum suicídio por processos injustos. Por cada suicídio de agora em diante, mataremos três pessoas dessa lista aleatoriamente”.
Segundo Krischke, embora investigações estejam em curso, suspeita é de que grupo seja ligado a Logia de Tenientes de Artigas | Foto: Guilherme Santos/Sul21
O grupo
Os e-mails com a lista de ameaças de morte foram enviados pelo servidor Tor, que triangula o sinal em vários países e dificulta o rastreamento de quem os enviou. O caso está agora nas mãos da juíza Julia Staricco, que já começou a tomar depoimentos para identificar os autores por trás do comunicado.
Jair diz que suspeita de alguns nomes. “Não há muita novidade no Uruguai. São os mesmos de sempre, porque nunca acontece nada com eles”, diz ter ouvido de um amigo uruguaio logo após a divulgação do documento. “Os mesmos de sempre” seriam os militares da Legião de Tenentes de Artigas, antiga Logia de Tenientes de Artigas.
Antes da ditadura e durante ela, Logia de Artigas era o grupo encarregado da repressão aos Movimento de Libertação Tupamaros e a militantes de esquerda nos anos 1970. Apesar dos integrantes serem figuras públicas conhecidas, a Logia sempre conseguiu se manter secreta. A primeira manifestação pública de sua existência veio em 2005, já com o nome de Legião, quando uma coroa de flores com o nome do grupo foi colocada no velório de um de seus fundadores, Julio Tanco.
“São uns caras que continuam existindo e estão sempre circulando. Todos os generais e coronéis golpistas [são do grupo] e estão por aí”, diz Jair.
Em 2014, o jornal El País do Uruguai apontava em uma reportagem que os “tenentes de Artigas estavam ganhando terreno”. Na época, cerca de 100 coronéis do grupo, estavam com chances de ascensão dentro das Forças Armadas. Por ironia, a subida na carreira dependia de nomeações políticas do governo de Mujica, um dos ex-líderes tupamaros, preso durante 13 anos pela ditadura. 
Nos anos 1990, homens ligados à Logia estiveram por trás de dois atentados a bomba ocorridos em Montevidéu. Um deles contra o escritório de advocacia do então presidente uruguaio, Julio María Sanguinetti, e outro no carro de Hugo Cores, na época deputado do Frente Amplio e ex-integrante do Partido por la Vitoria del Pueblo (PVP), uma das organizações que denunciava a repressão no exterior.
Roubo de informações sobre restos de desaparecidos e retomada de tribunais de honra estariam por trás da carta | Foto: Guilherme Santos/Sul21
O motivo
Para Jair Krischke, o principal motivo que fez o grupo se rearticular – ainda mais com referência a um militar que se suicidou enquanto era processado – foi a restituição dos chamados “tribunais de honra”, anunciados pelo ministro da Defesa, em janeiro. Os tribunais de honra, uma invenção espanhola, servem para julgar apenas oficiais. Um militar que é condenado em um deles perde patente e todos os seus direitos. Huidobro, o ministro da Defesa anterior, que faleceu em 2016, havia terminado com essas cortes.
“O restabelecimento dos tribunais é uma questão chave. Porque a grande maioria dessas pessoas já têm uma certa idade. E se perder patente e pensão?”, analisa ele.
Há ainda outros fatores. O comunicado do Comando Barneix veio à tona perto de se completar um ano de um roubo ocorrido no laboratório da equipe de Antropologia Forense da Universidade da República. Numa manhã de segunda-feira, em 28 de março do ano passado, pessoas sem acesso autorizado levaram material de arquivo e análise do local. O laboratório é o responsável por trabalhar com o material de escavações em busca de identificação de restos mortais de desaparecidos políticos do período da ditadura, em um convênio com o governo uruguaio.
Das 13 pessoas que estão na lista de ameaças do Barneix, apenas uma não participou da jornada de debates sobre a Operação Condor, que ocorreu no ano passado em Montevidéu: o jurista francês Louis Joinet. No final dos anos 1970, quando a tortura de presos endureceu no Uruguai, Joinet trabalhou como apoiador do Secretariado Internacional pela Anistia Uruguaia, grupo criado para denunciar a situação dos presos no exterior.
Depois que o caso já era público, Jair Krischke recebeu um documento da Embaixada brasileira em Montevidéu comunicando-o formalmente sobre as ameaças. O documento não especificava, no entanto, medidas que estariam sendo tomadas para apurar o caso.
Na última segunda-feira, Krischke e os uruguaios que aparecem na carta entraram com pedido na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização de Estados Americanos (CIDH/OEA) solicitando uma audiência para tratar do caso. A perspectiva é que ela ocorra em maio, quando a CIDH terá uma sessão extraordinária em Buenos Aires. Os uruguaios adicionaram ainda à denúncia reclamações pela demora do Estado uruguaio no julgamento de 308 processos da época da ditadura e o não-cumprimento integral da sentença pelo caso de sequestro de Macarena Gelman. Macarena, neta do poeta Juan Gelman, foi sequestrada quando criança e perdeu os pais. Atualmente, ela é deputada do Frente Amplio.
Nesta quarta (1º), a Comissão lançou uma nota condenando as ameaças. “As ameaças e os ataques contra os operadores da justiça tendem a aumentar quando estão em questão casos de grande relevância nacional e que tratam de graves violações aos direitos humanos (…) Nesse sentido, a CIDH condena as ameaças no Uruguai e urge que o Estado adote medidas a fim de proteger os operadores da Justiça”, diz o texto.
Para Krischke, mais que isso, cobrar respostas do Estado na época atual é ainda mais urgente. “Há um espaço e isso é tão cruel… Na semana passada, dei uma entrevista para uma TV sobre as condições dos presídios aqui no Rio Grande do Sul. Precisa ver o e-mail que um cara me mandou. Dizendo que alguém precisava ir na minha casa, me bater. É um ânimo que vai tomando conta das pessoas”, lamenta ele. Logo depois ele acrescenta. “Mas, desistir, nunca”.
Jair é uma das 13 pessoas ameaças de morte pelo Comando, caso processos contra militares no Uruguai sigam | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Fernanda Canofre
Jair Krischke abriu a caixa de entrada de seus e-mails na semana passada para encontrar uma notícia com a qual já havia se desacostumado: estava ameaçado de morte. Não foi a primeira vez, mas era algo que pensou haver deixado para trás, nos anos em que combatia diretamente as ditaduras militares de Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, como advogado de direitos humanos. A nova ameaça veio na forma de um comunicado, onde o nome de Jair aparece junto aos de outras 12 pessoas que também trabalham em processos contra militares responsáveis por mortes, desaparecimentos e violações durante a ditadura no Uruguai.
Além de Jair, a lista do grupo que se identifica como Comando Barneix cita o ministro da Defesa do Uruguai, Jorge Menéndez, a diretora do Instituto de Direitos Humanos do Uruguai, Mirtha Guianze, e Hebe Martínez Burlé, responsável por levar à Justiça o caso que condenou o ditador Juan María Bordaberry. O comunicado foi recebido em dois e-mails diferentes pelo procurador Jorge Díaz, outro nome na lista, e depois publicado no jornal uruguaio Brecha.
“A gravidade que eu vejo é como ameaça ao nosso trabalho como defensores dos direitos humanos. Não é por outra coisa. Isso é grave. E na medida que a gente permite, eles crescem”, analisa Jair Krischke, em uma entrevista na mesma sala de onde conduz os trabalhos do Movimento de Justiça e Direitos Humanos há décadas em Porto Alegre. “Não é brincadeira, porque esses caras não brincam, eles são muito atrevidos. Eu tenho que tomar precauções e organizar ações para responsabilizá-los. Eles se sentem impunes”.
O nome do grupo é uma homenagem ao general Pedro Barneix. Em 2015, depois de três anos respondendo a processo por homicídio político, Barneix não compareceu a uma intimação para depoimento e a juíza ordenou que a polícia fosse procurá-lo. Quando o policial o encontrou, em casa, Barneix disse que precisava ir até o quarto para trocar os sapatos. Assim que subiu as escadas, o general pegou sua arma e se matou com um tiro na cabeça. Menos de um ano antes, em dezembro de 2014, quando o presidente eleito Tabaré Vázquez anunciou que manteria o ministro de defesa do governo de José Pepe Mujica, Eleuterio Fernández Huidobro, militantes do grupo Plenaria Memoria y Justicia organizaram um escracho em frente à casa de Barneix. “Passam os governos, a impunidade fica”, diziam eles.
Barneix respondia pela morte de Aldo “Chiquito” Perrini, assassinado no quartel de Colonia del Sacramento, onde ele era responsável pela repressão. Perrini não era militante, nem tinha vínculo com nenhum grupo político. Sua única atividade de esquerda foi um voto que deu ao Frente Amplio. Vendedor de sorvetes, pai de três filhos, aos 34 anos foi levado ao quartel pelos militares e submetido a sessões de tortura. Não resistiu.
Para amigos, poucos meses antes de sua morte, Barneix dizia que sabia que seria preso e “estava preparado”. Durante o primeiro governo de Tabaré Vázquez, o torturador que nunca foi punido ainda conseguiu ser nomeado como responsável por investigar o destino de pessoas que desapareceram durante a ditadura. A mesma na qual ele foi um dos membros destacadas da Inteligência. Se tivesse sido condenado pela morte de Perrini, sua pena poderia ter ficado entre 15 e 30 anos em regime fechado.
O comunicado do Comando avisa: “O suicídio do general Pedro Barneix não ficará impune, não aceitaremos mais nenhum suicídio por processos injustos. Por cada suicídio de agora em diante, mataremos três pessoas dessa lista aleatoriamente”.
Segundo Krischke, embora investigações estejam em curso, suspeita é de que grupo seja ligado a Logia de Tenientes de Artigas | Foto: Guilherme Santos/Sul21
O grupo
Os e-mails com a lista de ameaças de morte foram enviados pelo servidor Tor, que triangula o sinal em vários países e dificulta o rastreamento de quem os enviou. O caso está agora nas mãos da juíza Julia Staricco, que já começou a tomar depoimentos para identificar os autores por trás do comunicado.
Jair diz que suspeita de alguns nomes. “Não há muita novidade no Uruguai. São os mesmos de sempre, porque nunca acontece nada com eles”, diz ter ouvido de um amigo uruguaio logo após a divulgação do documento. “Os mesmos de sempre” seriam os militares da Legião de Tenentes de Artigas, antiga Logia de Tenientes de Artigas.
Antes da ditadura e durante ela, Logia de Artigas era o grupo encarregado da repressão aos Movimento de Libertação Tupamaros e a militantes de esquerda nos anos 1970. Apesar dos integrantes serem figuras públicas conhecidas, a Logia sempre conseguiu se manter secreta. A primeira manifestação pública de sua existência veio em 2005, já com o nome de Legião, quando uma coroa de flores com o nome do grupo foi colocada no velório de um de seus fundadores, Julio Tanco.
“São uns caras que continuam existindo e estão sempre circulando. Todos os generais e coronéis golpistas [são do grupo] e estão por aí”, diz Jair.
Em 2014, o jornal El País do Uruguai apontava em uma reportagem que os “tenentes de Artigas estavam ganhando terreno”. Na época, cerca de 100 coronéis do grupo, estavam com chances de ascensão dentro das Forças Armadas. Por ironia, a subida na carreira dependia de nomeações políticas do governo de Mujica, um dos ex-líderes tupamaros, preso durante 13 anos pela ditadura. 
Nos anos 1990, homens ligados à Logia estiveram por trás de dois atentados a bomba ocorridos em Montevidéu. Um deles contra o escritório de advocacia do então presidente uruguaio, Julio María Sanguinetti, e outro no carro de Hugo Cores, na época deputado do Frente Amplio e ex-integrante do Partido por la Vitoria del Pueblo (PVP), uma das organizações que denunciava a repressão no exterior.
Roubo de informações sobre restos de desaparecidos e retomada de tribunais de honra estariam por trás da carta | Foto: Guilherme Santos/Sul21
O motivo
Para Jair Krischke, o principal motivo que fez o grupo se rearticular – ainda mais com referência a um militar que se suicidou enquanto era processado – foi a restituição dos chamados “tribunais de honra”, anunciados pelo ministro da Defesa, em janeiro. Os tribunais de honra, uma invenção espanhola, servem para julgar apenas oficiais. Um militar que é condenado em um deles perde patente e todos os seus direitos. Huidobro, o ministro da Defesa anterior, que faleceu em 2016, havia terminado com essas cortes.
“O restabelecimento dos tribunais é uma questão chave. Porque a grande maioria dessas pessoas já têm uma certa idade. E se perder patente e pensão?”, analisa ele.
Há ainda outros fatores. O comunicado do Comando Barneix veio à tona perto de se completar um ano de um roubo ocorrido no laboratório da equipe de Antropologia Forense da Universidade da República. Numa manhã de segunda-feira, em 28 de março do ano passado, pessoas sem acesso autorizado levaram material de arquivo e análise do local. O laboratório é o responsável por trabalhar com o material de escavações em busca de identificação de restos mortais de desaparecidos políticos do período da ditadura, em um convênio com o governo uruguaio.
Das 13 pessoas que estão na lista de ameaças do Barneix, apenas uma não participou da jornada de debates sobre a Operação Condor, que ocorreu no ano passado em Montevidéu: o jurista francês Louis Joinet. No final dos anos 1970, quando a tortura de presos endureceu no Uruguai, Joinet trabalhou como apoiador do Secretariado Internacional pela Anistia Uruguaia, grupo criado para denunciar a situação dos presos no exterior.
Depois que o caso já era público, Jair Krischke recebeu um documento da Embaixada brasileira em Montevidéu comunicando-o formalmente sobre as ameaças. O documento não especificava, no entanto, medidas que estariam sendo tomadas para apurar o caso.
Na última segunda-feira, Krischke e os uruguaios que aparecem na carta entraram com pedido na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização de Estados Americanos (CIDH/OEA) solicitando uma audiência para tratar do caso. A perspectiva é que ela ocorra em maio, quando a CIDH terá uma sessão extraordinária em Buenos Aires. Os uruguaios adicionaram ainda à denúncia reclamações pela demora do Estado uruguaio no julgamento de 308 processos da época da ditadura e o não-cumprimento integral da sentença pelo caso de sequestro de Macarena Gelman. Macarena, neta do poeta Juan Gelman, foi sequestrada quando criança e perdeu os pais. Atualmente, ela é deputada do Frente Amplio.
Nesta quarta (1º), a Comissão lançou uma nota condenando as ameaças. “As ameaças e os ataques contra os operadores da justiça tendem a aumentar quando estão em questão casos de grande relevância nacional e que tratam de graves violações aos direitos humanos (…) Nesse sentido, a CIDH condena as ameaças no Uruguai e urge que o Estado adote medidas a fim de proteger os operadores da Justiça”, diz o texto.
Para Krischke, mais que isso, cobrar respostas do Estado na época atual é ainda mais urgente. “Há um espaço e isso é tão cruel… Na semana passada, dei uma entrevista para uma TV sobre as condições dos presídios aqui no Rio Grande do Sul. Precisa ver o e-mail que um cara me mandou. Dizendo que alguém precisava ir na minha casa, me bater. É um ânimo que vai tomando conta das pessoas”, lamenta ele. Logo depois ele acrescenta. “Mas, desistir, nunca”.