segunda-feira, 29 de maio de 2017

Passo a passo: como a Lava Jato ameaça a Constituição Federal

ESPECIAL LAVA JATO

Passo a passo: como a Lava Jato ameaça a Constituição Federal

Especialista analisa os abusos e as possíveis violações à legislação brasileira

Brasil de Fato | Curitiba (PR)
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Procurador-geral da República, Rodrigo Janot foi criticado esta semana por “vazar” conversas entre Reinaldo Azevedo e Andrea Neves / Agência Brasil
Desde o início da operação Lava Jato, em março de 2014, juristas e pesquisadores do campo do Direito têm alertado para os abusos cometidos no processo investigação, produção de provas e julgamento.
A polêmica mais recente envolve grampos telefônicos entre um jornalista e uma fonte – o colunista político Reinaldo Azevedo e Andrea Neves, irmã do ex-governador de Minas Gerais e senador Aécio Neves (PSDB).
Para entender cada uma dessas críticas e conhecer os artigos da Constituição Federal de 1988 que estão sob ameaça, conversamos com Cláudia Maria Barbosa, pós-doutora pela York University, no Canadá, e professora titular de Direito Constitucional na PUC-PR.
Cláudia Maria Barbosa explica que o modus operandi da Lava Jato ameaça, particularmente, o artigo 5º da Constituição, e exemplifica os casos de violação a quatro incisos:
Inciso III
Assegura que não haverá tortura ou tratamento desumano e degradante na condução do processo. A prisão preventiva por tempo indeterminado, sem a formalização de uma acusação, é um método de tortura psicológica e foi caracterizada como crime pela Convenção Interamericana para Prevenir e Proibir a tortura (1995).
José Dirceu foi preso em agosto de 2015 sem sequer ter acesso aos termos da acusação (Wilson Dias/Agência Brasil)

Inciso XII
Prevê a inviolabilidade do sigilo da correspondência e das comunicações. Exemplo de violação: Divulgação dos telefonemas do ex-presidente Lula e da então presidenta Dilma Rousseff, autorizada por Sérgio Moro em março de 2016.
Dilma Rousseff sofreu golpe poucos meses após a divulgação dos áudios (Yara Aquino/Agência Brasil)
Inciso LVI
Proíbe a utilização de provas ilícitas e a apreensão de documentos sem a devida autorização judicial. Exemplo de violação: Computadores e documentos foram apreendidos sem justificativa no Instituto Lula em março de 2016.
Ex-presidente Lula pediu várias vezes a devolução do material apreendido pela Polícia (Valter Campanato/Agência Brasil)
Inciso LXVI
Garante que a prisão será utilizada apenas excepcionalmente. Segundo a especialista, a prisão se tornou “moeda de troca” entre o acusado e as autoridades. Exemplo de violação: Doleiro Alberto Youssef foi preso preventivamente em 2014, fez acordo de delação e pôde deixar a prisão.
Condenado a 121 anos e 11 meses de prisão, Youssef foi “perdoado” após delatar (Arquivo - Agência Brasil)
Segundo a professora Cláudia Maria Barbosa, as ameaças e violações cometidas pela força-tarefa da Lava Jato e pelo juiz Sérgio Moro não se limitam à Constituição Federal de 1988, mas também ferem documentos assinados internacionalmente. O direito de ser julgado por um juiz imparcial, por exemplo, está previsto no artigo 10º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e no artigo 8º do Pacto de São José da Costa Rica.
“O estado democrático de direito consagrado na Constituição não é apenas um conceito retórico”, ressalta Cláudia. “Ele está expresso em diversos dispositivos constitucionais que adotam uma posição garantista em relação aos direitos fundamentais e o máximo respeito ao chamado devido processo legal. Qualquer ameaça ou restrição a direitos deve ser restritivamente analisada, de maneira a que o indivíduo possa estar protegido do abuso de qualquer autoridade, inclusive a judiciária”, finaliza.
Em entrevista recente ao Brasil de Fato Paraná, o juiz Alexandre Morais da Rosa, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), também criticou o uso de conduções coercitivas na Lava Jato – casos em que o acusado é levado, mesmo contra a vontade, a prestar depoimento diante de autoridades. “É sempre um mecanismo autoritário”, ressaltou. “O acusado tem o direito de não produzir prova contra si mesmo, por disposição internacional e constitucional”.
O problema das delações
A professora Cláudia Maria Barbosa considera que “a Lava Jato transforma em regra aquilo que deveria ser exceção, na medida em que prioriza mecanismos processuais que se voltam à restrição da liberdade de locomoção, da proteção e sigilo das comunicações, do direitos a ser julgado por um juiz imparcial, entre outros”.
A maior parte das violações à Constituição se dá a partir da utilização da delação premiada como método prioritário de obtenção de provas ou indícios para acusação. “A delação tem previsão legal, mas não expressa previsão constitucional. Como medida restritiva, deve ser usada apenas nos estritos limites expostos pela lei. Nesse sentido, seu uso ‘corrente’ pela Lava Jato já poderia, por si só, configurar abuso de autoridade”.
Na Lava Jato, ainda de acordo com a interpretação da professora, a delação não é espontânea, como prevê a lei, mas provocada mediante uma ameaça de tortura psicológica. “A delação existe, mas o uso que a Lava Jato faz dela a torna um procedimento ilegal (porque infringe a lei) e inconstitucional (porque agride, por exemplo, a dignidade humana e configura-se como ato de tortura”.
Edição: Brasil de Fato Paraná

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sexta-feira, 26 de maio de 2017

GOVERNAR É ATIRAR E DEMOLIR

Governar é atirar e demolir
Wladimir Safatle
A quarta-feira passada (24) entrará para a história do Brasil, entre outras coisas, por dois fatos. Dia 24 de maio de 2017 foi o primeiro dia, desde o fim da ditadura militar, em que o governo ordenou à polícia abrir fogo contra manifestantes em Brasília. Um manifestante foi encaminhado a um hospital por ferimento a bala.
Por coincidência, isto ocorreu no mesmo dia em que a Prefeitura de São Paulo, em uma reedição de políticas higienistas do século 19, ordenava a demolição de um prédio na Cracolândia para a "revitalização da área" e a valorização imobiliária da região. O detalhe macabro é que a demolição ocorreu com moradores dentro do prédio, com o resultado final de três feridos.
Esses são dois exemplos do que significa "governar" em um país como o Brasil.
"Governar" é gerir uma guerra civil na qual se mobilizam afetos de uma parte da população contra outra, isto a fim de que a elite que nos governa possa passar incólume e se perpetuar em suas práticas de pilhagem e uso privado do Estado. Governar é criar inimigos internos, como os "drogados" ou os "baderneiros", e insuflar uma parte da população contra eles.
Tomemos, por exemplo, o que vimos em Brasília.
Na última semana, o Brasil descobriu a estatura moral e criminal do senhor que ocupa atualmente a Presidência da República. Pego em flagrante de prevaricação, lobby, cumplicidade com organização criminosa, ele fez tudo o que criminosos de alta estirpe fazem: desqualificação das provas graças a "peritos" de plantão, chantagem ("sem mim, não haverá reformas") e, o mais clássico, a criação do caos como imagem da insegurança. Um caos cuja função é atemorizar setores da população que acabarão por aceitar a perpetuação desse governo contra a "baderna" que prometeria se instaurar.
Desde que começou a queda de Temer, a imprensa tem nos informado de suas reuniões periódicas com as Forças Armadas.
Para um governo acuado, nada melhor do que o medo e sua força de paralisia social, com um chamamento às Forças Armadas ao final. Mas faltava um fato, um atentado, um ataque terrorista, um ministério pegando fogo, um Plano Cohen, um Reichstag. E, vejam só, um ministério pegando fogo apareceu depois de a polícia praticar seu manual completo de barbarismos e provocações.
Mas e se um dia descobrirmos infiltração da "inteligência militar" nos atos de depredação na última quarta?
Pois não seria certamente a primeira vez que nossa polícia utilizaria suas já clássicas técnicas de infiltração e produção da desordem como tática para paralisar manifestações.
O dado novo é a presença cada vez mais ostensiva das Forças Armadas na vida nacional. Nenhum país joga as Forças Armadas para o centro dos embates sociais impunemente.
Mas uma casta política em decomposição é capaz de tudo.
Contudo o mais impressionante neste momento da história brasileira é como discursos normativos mostram rapidamente seu caráter farsesco.
Nos últimos anos ouvimos vários setores da população a clamar por moralidade na política. Agora, muitos deles usam de argumentos do tipo: "Mas a queda de Temer provocará instabilidade no grande programa de retomada do crescimento". No que eles demonstram que, no Brasil, você pode fazer toda forma de crime e degradação, desde que defenda os interesses econômicos hegemônicos.
Ou seja, muitos agem a partir da lógica: "Ele é um corrupto, mas é nosso corrupto". Como se o governo lutasse pelos interesses nacionais na economia enquanto enfia o pé na lama na política.
Haveria, no entanto, de se perguntar em que universo paralelo vivem os analistas econômicos que assim entendem. Ou melhor: há de se perguntar sobre quem eles esperam enganar. Pois, mesmo se alguma forma de crescimento houver depois das reformas anunciadas, ele será um crescimento em um horizonte de concentração medieval de renda, queda dos salários, intensificação dos regimes de trabalho, brutalização social e desigualdade.
Nenhum país precisa de um crescimento desses.
Na verdade, tal crescimento é outro nome para espoliação e exploração.
Esse é um crescimento que só repetirá o que vemos hoje: 3,6 milhões de pessoas voltando à pobreza enquanto o banco Itaú Unibanco tem lucro líquido de mais de R$ 6 bilhões só no primeiro trimestre de 2017.
Que tal então começarmos a nos perguntar: quem ganha com a permanência do que Temer representa?

TEMER VAI PROCESSAR OS MANIFESTANTES DE BRASÍLIA

Temer vai processar os manifestantes dE BRASÍLIA

Paulo Henrique Amorim


No site do Palácio do Planalto:

O governo federal determinou que a Advocacia Geral da União (AGU) faça uma perícia em todos os prédios para avaliar o tamanho do prejuízo deixado pela manifestação desta quarta-feira (24). Identificados os autores, eles serão processados para ressarcir os danos.

A informação foi dada pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann, na manhã desta quinta-feira (25).

“O presidente decidiu acionar a Advocacia Geral da União para que sejam feitas perícias nos imóveis de toda a Esplanada, onde ocorreram atos de vandalismo e barbárie, para que os responsáveis sejam levados à Justiça e venham a pagar pelos danos e responder criminalmente todos que realizaram aqueles atos abomináveis incompatíveis com o regime democrático”, disse.

O maior compromisso com o País é o trabalho.

O Brasil não parou.

Votamos matérias importantes no Congresso.

Na noite da quinta-feira, 25, o Michel Temer usou as redes sociais - talvez por medo de enfrentar panelaços - para dizer que as manifestações por Diretas Já em Brasília, na quarta-feira, ocorreram "com exageros" e que seu Governo (sic) tem rumo.

Tem tanto rumo que ele convocou as Forças Armadas - e menos de 24 depois desfez esse Golpe fajuto.

E ainda tem as perguntas do Cunha, com a diferença de que, desta vez, não há a mala da JBS para calar Eduardo.