quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Quem são os neonazistas brasileiros?

Quem são os neonazistas brasileiros?

COTIDIANO
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Número de pessoas interessadas no neonazismo cresce mais que a população brasileira, afirma antropóloga
Por Lu Sudré
Caros Amigos
"Devemos assegurar a existência de nosso povo e um futuro para as crianças brancas". As 14 palavras de David Lane, influente líder do neonazismo, ecoaram no mundo todo após serem ditas por supremacistas brancos em Charlottesville, cidade do Estado norte-americano de Virgínia, no dia 12 de agosto. As tochas de fogo que marcaram a história da Ku Klux Klan estavam nas ruas como há muito tempo não se via. Tais palavras podem estar mais próximas do que se imagina.
Segundo a antropóloga Adriana Dias, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que mapeia a atuação dos principais grupos neonazistas do País na internet desde 2002, existem mais de quatro mil sites neonazistas em domínio brasileiro.
"Aqui no Brasil temos o que eles chamam de 'células' ou 'braços' de grupos neonazistas americanos, mas também de grupos do Leste Europeu, da Ucrânia e da Rússia. Eles são heterogêneos, alguns são mais violentos e ciberativistas, enquanto outros não", afirma Dias em entrevista à Caros Amigos. "Os sites neonazistas tem uma característica muito específica, que é a profundidade. Quanto mais se caminha dentro dos sites, cheios de hiperlinks e diretórios, mais violentos eles ficam".
Os grupos neonazistas Combate 88, White Power São Paulo, White Power Sul, War (White Arian Resistance), Front 88,  Kombat Rac, Impacto Hooligan e Azov, lideram a lista dos mais extremistas e atuam principalmente na região sul e sudeste do País, com crescimento recente na região centro-oeste. Além da negação do Holocausto, o ódio aos nordestinos e a homofobia estão entre as principais bandeiras destes grupos.
"Existem pessoas que já foram levadas para treinamentos no Leste Europeu, na Ucrânia e na Rússia. Estes são grupos bastante ideológicos. Alguns fazem a iniciação com violência, ou seja, agridem um nordestino, um gay, um judeu ou um negro pra entrar no grupo. Por vezes, a iniciação é sair em bando pra matar. A violência é absurda, o racismo é visceral", destaca a pesquisadora.
Indignada com a apologia criminosa das informações que encontrava nos sites em meados dos anos 2000, Dias fez uma denúncia junto ao Ministério Público e, por conta de ações judiciais movidas por ela e outros militantes, três sites brasileiros foram retirados do ar desde 2004: White Power SP, Loja ZyklonB e Valhalla88.
Onde eles estão?
Os grupos neonazistas se articulam em fóruns de debates online e na rede social VK,de origem russa, equivalente ao Facebook. Graças ao seu conhecimento como programadora, Adriana conseguiu vasculhar fóruns de compartilhamento de conteúdo por palavras chaves e constatou que aproximadamente 250 mil pessoas baixaram materiais neonazistas no Brasil. 
Para que um Internet Protocol (IP) entre na estatística da pesquisadora, é necessário que tenha feito o download de no mínimo 1GB de documentos. Com base no monitoramento dos últimos anos, o número de pessoas que fazem esses downloads cresce 8% ao ano,  porcentagem maior do que o crescimento da população brasileira que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), é de 0,8%.
"De 10 a 20% dessas pessoas participam efetivamente de células ou de bandas de grupos anticomunistas, que também têm neonazistas", explica Adriana que já foi a campo e encontrou neonazistas em Santa Catarina, sul do País. "É um movimento muito diverso e heterogêneo. Você tem desde empresários que financiam o movimento até um garoto simples de escola pública que vai ser influenciado para que ele entenda que é especial porque é branco e portador da raça ariana."
A falta de uma lei na legislação brasileira que tipifique o crime de ódio é um dos entraves para enquadrar os neonazistas para além da internet, cujas ações seguem sem identificação e notificadas apenas como homicídio. 
De acordo com a antropóloga, há ainda diferenciações estratégicas entre os grupos neonazistas brasileiros para angariar novos adeptos. Os discursos têm alvos e focos específicos. "Há grupos de classe média e classe alta. Há um discurso que fala: 'o negro ou o imigrante está ocupando seu lugar na universidade, no emprego' Do outro lado, há um outro discurso mais intelectualizado, voltado para questão ideológica, 'teórica da raça', que retoma a suástica", enfatiza Dias.
A reportagem entrou em contato com a Delegacia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância da Polícia Civil (Decradi) para mais informações sobre o monitoramento destes grupos mas não obteve respostas até o fechamento desta matéria.
“Unite the Right"
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Com o lema "Unir a direita", o ato em Charlottesville foi motivado pela retirada de estátuas em homenagem a militares confederados, que, durante a Guerra Civil estadunidense (1861-1865) representaram os estados do sul do país - chamados Estados Confederados - na busca pela independência para impedir a abolição da escravidão.
Dois séculos depois, grupos de neo-confederados ao lado de neonazistas, de representantes da Ku Klux Klan (KKK), de grupos anticomunistas, identitários e outros grupos de extrema-direita como o Alt-Right (Direita Alternativa), gritaram palavras de ordem como "Vocês não vão nos substituir", em referência aos imigrantes; "Vidas Brancas Importam", em contraposição ao movimento negro Black Lives Matter, e "Morte aos Antifas", abreviação de "antifascistas".
Dias explica que existem mais de 11 grupos nos Estados Unidos que passaram pelo que ela chama de "processo de nazificação". O mesmo ocorre com os neonazistas do Brasil. "Começa-se com um grupo antigay, por exemplo, ou anti-imigrante. Esse grupo se nazifica quando passa pela experiência da negação do Holocausto até chegar no grupo neonazi-hitlerista. É um processo contínuo", frisa a antropóloga. De todos esse grupos, apenas a KKK não tem células brasileiras.
Para a pesquisadora, o ato em Charlottesville  é muito representativo pois juntou de Ku Klux Klan até movimentos neo-confederados. "Todos se juntaram para falar do orgulho branco, da supremacia branca. Para dizer que judeus, negros e gays não vão tomar esse lugar que eles imaginam ser deles. Eles acham que esse lugar está ameaçado por este 'outro', argumento que eles constróem com falácias para alimentar o ódio."
As 14 palavras de David Lane, citadas no início da matéria e definidas por Adriana Dias como o slogan mais dito pelos neonazistas, também compõem o símbolo 14/88. O número 8 corresponde ao ”H”, oitava letra do alfabeto. Dessa forma, 88 significa HH,"Heil Hitler". Este número também é usado como referência ao ensaio 88 preceitos, escrito por David Lane, e ao trecho de 88 palavras do livro Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler.
O casamento interracial e a adoção de crianças negras por casais brancos estão entre os pontos que o líder neonazista elenca como responsáveis por um suposto extermínio do povo branco em curso no mundo. "Eles usam a história da vítima para forjar a própria história. Falam de uma 'diáspora branca' e impulsionam uma narrativa de ódio", complementa Adriana Dias.
Lideranças da extrema-direita
Após o ato de supremacistas brancos nos EUA, um homem de 20 anos jogou o carro que dirigia contra um grupo que protestava contra os grupos racistas, matando uma mulher e deixando pelo menos 19 feridos.  A ausência de um posicionamento imediato de Donald Trump contra os neonazistas fez com que o republicano se tornasse alvo de críticas internacionais. Apenas dois dias depois da manifestação, Trump classificou os grupos como "repugnantes".
Na visão de Adriana Dias, a ascensão de figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro impulsionam o crescimento do neonazismo. "O fato do Trump não ter se pronunciado de imediato contra os neonazistas foi um dos piores acontecimentos do século 21. Eles comemoraram muito nos fóruns e nos grupos online. Mesmo quando ele se manifestou depois, alguns se sentiram traídos, outros disseram que os judeus o obrigaram a fazer isso. A não-manifestação de imediato deu muita força pro movimento", analisa.
"O Bolsonaro é um tremendo neonazista. Há inclusive uma base do movimento neonazi que faz campanha e propaganda para o Bolsonaro", revela a pesquisadora. No início de 2016, grupos neonazistas e neofascistas participaram de um ato no vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, em São Paulo, para prestar apoio a Bolsonaro e defendê-lo das críticas que recebe frequentemente de setores dos direitos humanos. "Eles gostam de se colocar a serviço do ódio. Para eles é o sentimento mais importante que o ser humano pode ter, mas o que eles consideram ser humano é o homem branco, hétero e sem deficiência (física)", resume Dias.
A estudiosa opina que a atual conjuntura política brasileira de intolerância e polarização tende a piorar em 2018 com o crescimento de grupos neonazistas. "Se tiver um estopim que reúna as extremas direitas brasileiras, podemos ter Charlottesville aqui. Os neoconservadores brasileiros não tiveram a menor vergonha de se unir ao pior da extrema direita para o impeachment da Dilma. Também acho os neonazistas não terão nenhuma vergonha de irem para as ruas caso algo simbólico aconteça. Infelizmente estamos em um momento terrível", lamenta. "Esse crescimento da extrema direita cria uma narrativa social na qual a direita vai beber. O ódio vai ser algo ainda mais enlouquecedor."
"Músicas para brancos"
"Já chega de tolerar essa raça nojenta/ Esse povo parasita que ninguém aguenta /A hora é essa e não dá mais pra esperar/ Sinagogas vão explodir e kipás irão pro ar".
Esses são alguns do versos da banda neonazista Stuka, que ao lado de outras bandas de rock, como a Banda Locomotiva, Bandeira de Combate e Brigada NS, entre outras, propagandeiam o neonazismo no País.
Reunidas no blog Música para Brancos, as bandas cantam letras de teor anticomunista, regadas de antissemitismo e racismo. A música São Paulo Pátria, por exemplo, da Banda Locomotiva, chama os nordestinos de "peso morto" e pregam o separatismo. A Brigada NS destila o mais puro ódio contra pessoas de etnia africana em versos como "Ainda és primitivo, é só um animal" e outros ainda piores.
Após anos pesquisando o neonazismo, Adriana acredita que a saída para impedir o crescimento desses grupos é a criação imediata de uma legislação que tipifique o crime de ódio e um longo e profundo processo educativo. "O que me questiono é: Há interesse em parar? O atual governo e a direita brasileira querem fazer esse trabalho?", questiona a antropóloga.

A Coreia Popular e o eurocentrismo racista da modernidade

A Coreia Popular e o eurocentrismo racista da modernidade

YURI MARTINS FONTES
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A Coreia Popular e o eurocentrismo racista da modernidade
Por Yuri Martins Fontes
A Coreia Popular – vulgarmente chamada pela mídia ocidental de Coreia do Norte – é uma nação soberana intensamente fustigada pela superpotência imperialista há cerca de meio século. Não é intenção aqui discutir se seu modelo socioeconômico é uma forma “pós-capitalista de acumulação estatal de capital”, ou um “socialismo burocrático”, ou ainda uma “ditadura familiar” ou “do povo”; e nem debater se os gestos “supostamente” autoritários de seu governo são conjunturalmente necessários ou frutos de uma tirania pessoal insana (digo "supostamente" porque, em realidade, as "evidências" apresentadas pelo Ocidente são, como se sabe, bem pouco confiáveis, e ainda, neste caso, têm pouco fundamento empírico, dado o “fechamento” do país). Mas decerto, o que se sabe é que se trata de um modelo não-capitalista neoliberal, que foge do alinhamento com as grandes potências mundiais de maneira geral – inclusive mantendo-se a uma distância regulamentar da parceira China.
O que se quer colocar aqui como reflexão é tanto a forma como a mídia global capitalista vem julgando e condenando as decisões soberanas desta nação (segundo interessados e mesquinhos parâmetros eurocêntricos), como ainda o modo como tais parâmetros afetam também uma parte da consciência social-reformista – pessoas muitas vezes engajadas em causas humanistas, mas cuja mente ainda colonizada (por nossa pobre formação educacional e midiática) reproduz graves preconceitos.
Leia mais:
A atual situação de escassez material coreana é um reflexo da necessidade de se armar, desde sua Revolução Socialista, para proteger sua soberania. Após a vitória na Segunda Guerra contra os invasores imperiais-fascistas japoneses (aliados dos nazistas), a Coreia se dilacera em uma guerra civil, sendo invadida pelos Estados Unidos em 1950; a China de Mao Tsé-Tung, contudo, apoia as tropas socialistas, equilibrando o conflito; a guerra termina com a divisão do país em 1953 – após a morte de 5 milhões de coreanos no total, além de 1 milhão de chineses. Nesta guerra, como em várias outras (caso do Vietnã), os EUA se utilizaram de armas químicas (como o sufocante napalm e outras bombas incendiárias), assassinando cerca de 20% da população norte-coreana, segundo estima o comandante da força aérea Curtis LeMay (em matéria publicada no portal da – conservadora – CNN-España). E apenas para ilustrar a discrepância entre a “periculosidade” estadunidense e as demais, vale aqui uma digressão para citar que desde meados do século XX, os Estados Unidos – ora “guardiães da paz” e da luta contra o “terrorismo” em nome de seu deus – exterminaram desde a Segunda Guerra cerca de 20 milhões de seres humanos, em dezenas de nações atacadas, conforme o estudo publicado no portal Global Research: “US has killed more than 20 million people in 37 'victim nations' since World War II”). Ademais, diz este estudo, segundo denúncias de John H. Kim, veterano de guerra dos EUA e membro do Comitê Coreano de Veteranos pela Paz, o exército de seu país é diretamente responsável pelo assassinato de 3 milhões de civis na Guerra da Coreia, despejando sobre o território 650 mil toneladas de bombas, sendo 43 mil toneladas do combustível asfixiante napalm.
Passada a Guerra, nos anos 1970, a Coreia Popular se distancia dos modelos socialistas predominantes (soviético e chinês), adotando a ideologia juche – que consiste em uma leitura nacional do marxismo, a qual prevê a “autossuficiência” econômica e a “soberania política”.
Conforme observa o historiador da USP, Lincoln Secco, em seu recente e fora-de-linha artigo “Coreia Popular e o seu direito a existir” (Boitempo / Portal Vermelho), o isolamento político norte-coreano acabou obrigando o país a investir na Defesa grande parcela de seu orçamento – o que conformaria em algumas décadas o arsenal poderoso que hoje, segundo a mídia hegemônica, “ameaça o mundo”. Porém, sem suas “forças armadas descomunais” – prossegue o professor – “a Coreia Popular há muito teria sucumbido”, e como é óbvio em um “país armado até os dentes”, não se poderia esperar que lá houvesse “a mais pura democracia”; se é obviamente louvável que – como defende Marx – os governos de modo geral gradualmente “fossem varridos” e que as comunidades dispusessem para si dos “trilhões de dólares já gastos no mundo com a violência” (de inúmeras guerras provocadas por disputas capitalistas), o que está em jogo hoje é antes “uma progressiva propaganda” do governo estadunidense para destruir mais uma nação opositora – como já se viu nas recentes “histórias” do arsenal químico de Saddam Hussein, ou mais recentemente de Bashar Al-Assad. Há realmente “um grande perigo” de guerra nuclear, e os “loucos” podem mesmo provocá-la, mas eles estão antes em Washington, que em Pyongyang – pondera Lincoln.
De fato, se o arsenal coreano é motivo de real preocupação, ao que se sabe, até hoje, este país jamais ameaçou invadir ou bombardear alguma outra nação – exceto em resposta às recorrentes ameaças dos Estados Unidos contra si. E ao se tocar nesse tema, não nos esqueçamos que os Estados Unidos, muito pelo contrário, não só usou bombas atômicas (e inclusive de modo desnecessário, para arrasar a já rendida nação e esmigalhar a moral japonesa que restava, mandando ao mundo sua mensagem de “a superpotência”), como também armaram seus aliados israelitas-sionistas com essas temíveis armas nucleares, sempre em prol de fomentar seus interesses geopolíticos e econômicos (no caso, controlando de perto territórios petroleiros, além de satisfazer os interesses da alta-burguesia financista ianque-sionista, em grande parte parlamentar).
Assim, se for verdadeiro o “discurso” massivamente construído há décadas pelas agências informativas centrais do capitalismo (que pautam as manchetes do mundo: France-Presse, EFE, Reuters, Associated Press) – e acatado sem crítica pela subalterna grande imprensa acéfala brasileira –, “narrativa” que descreve o líder norte-coreano como um “insano” que ameaça a “paz mundial” (leia-se, “pax ianque”), ainda neste caso não se pode deixar de levar em consideração nesta análise que a Coreia Popular, “ditadura perversa” ou não, está quieta em seu canto. E isto, enquanto os EUA armam a monarquia tão “respeitadora de direitos humanos” – petrolífera, corrupta, teológico-machista e absolutista – da Arábia Saudita (vide o recente acordo armamentístico milionário de Trump, que inclui os modernos mísseis Thaad), gesto que se segue à destruição de algumas das principais nações laicas e opositoras “não-alinhadas” (Líbia e Síria); isso, enquanto os EUA aprovam e ratificam, através de vetos, as barbáries ao estilo de “apartheid” cometidas pelo superpoderoso Estado nuclear de Israel contra o povo palestino e seus vizinhos árabes; isso, enquanto os EUA e a UE promovem a xenofobia e o fascismo com culpabilizações e leis anti-imigração para controlar o tsunami populacional motivado pelas desagregações nacionais generalizadas que eles mesmos provocaram com seus “golpes laranjas” (pró-neoliberais) no Oriente-Médio e África e Europa.
Contaminação eurocêntrica de mentes progressistas
Se a grande mídia burguesa – que como demonstra Walter Benjamin, foi um dos principais instrumentos da consolidação do capitalismo – acusa a Coreia Popular de promover o “terror” (como acusa de “terroristas” a todos seus opositores, sejam socialistas farianos, zapatistas ou desarmados sem-terra, ou sejam fundamentalistas do Talibã – por eles formados – ou mesmo “anarco-hackers” que apenas expõem publicamente suas maracutaias), esta imprensa o faz de modo inteiramente coerente: pois aos inimigos deve-se caluniar, fustigar, provocar, agredir – esta é a “arte da guerra”.
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Todavia, o que parece absurdo é que mesmo parte da (frágil) imprensa progressista, reformista ou socialista, procede da mesma maneira: divulgando a pequena e acuada Coreia como o "grande perigo do mundo" e fazendo vistas grossas ao fato de que não há porta-aviões norte-coreanos próximos ao litoral estadunidense – mas exatamente o contrário. A infeliz matéria da jornalista francesa Martine Bulard – publicada na versão brasileira do tradicional periódico centro-esquerdista Le Monde Diplomatique –, intitulada “Coreia do Norte: uma viagem vigiada”, é exemplo disso; sob o pretexto de uma “exótica” crônica, reproduz discursos e valores da mídia neoliberal, segundo uma visão eurocêntrica que é – sem eufemismos – descarada.
Logo na chamada, a autora afirma ansiosa que tardou quase dois anos pra conseguir um “visto” de viagem ao misterioso país asiático e reclama do policiamento – embora nada mencione sobre o estado de encurralamento nacional ali vivido; ou sobre os vistos jamais emitidos para a maior parte da população mundial absolutamente proibida de entrar no centro capitalista europeu e estadunidense por falta de dólares no banco que validem seu passaporte; ou sobre os vistos franceses negados aos cidadãos de países africanos colonizados pela França e que tiveram suas economias tradicionais destroçadas em nome da “liberdade, igualdade e fraternidade” (lema que nas entrelinhas da história se pôde ler que era válido somente aos franceses e aos demais patrões do globo); ou ainda sobre o conhecido policiamento “diferenciado” que os franceses impõem aos imigrantes e mesmo aos franceses – filhos e netos de imigrantes – moradores das periferias, em que a famosa polidez francesa passa ao longe (inclusive com casos de policiais homens revistando e destratando mulheres, como a mim pessoalmente relatado em 2013 por uma das vítimas).
Mas prossigamos: na sequência, a jornalista europeia acusa a “contradição” dos mercados informais coreanos e do discreto contrabando na fronteira chinesa, além da pobreza que ela vê em variadas partes do país (apesar do excessivo “controle” sobre o viajante); contudo, ela nada menciona sobre os embargos econômicos sofridos pelo país, e muito menos sobre a exploração colonial de séculos promovida pelas nações europeias para a construção de seu próprio estado de bem-estar social (que ora rui); nem sobre as câmeras de vigilância (“controle social”) que cobrem cada metro quadrado das metrópoles europeias, ou do “excessivo” armamento de guerra usado pelo batalhão do exército francês que cotidianamente também “controla” as visitações de pontos turísticos.
Diante de todos estes “fatos” – e afinal, em cada olha há uma escolha – a francesa conclui sagazmente que há uma distância entre a imagem nacional propagada pelo governo (de “prosperidade” nacional) e a humilde realidade nacional – e neste ponto caberia a ela quem sabe a leitura da própria história europeia, no capítulo referente aos discursos chauvinistas de consolidação dos Estados-nação.
Quanta perspicácia da autora! Mais perspicaz ainda seria ela se resolvesse investigar um pouco sobre o “paradigma moderno eurocêntrico” que destrói há séculos as formas produtivas tradicionais por todo o planeta; ou se tivesse a curiosidade de sair de sua redação, na chique urbe gaulesa, aquecida com boa calefação fruto do desmatamento, e caminhasse a pé pela periferia – e caso esteja pela "Cidade-luz", não precisará caminhar muito para perceber a desigualdade: ali mesmo da cêntrica Place de la République ou nas margens gélidas do Rio Sena já se vê a miséria de inúmeros sem-teto parisienses (da gema, não estrangeiros!) com suas barracas de lona, ou a meros dois quilômetros do Centro ela pode conferir o povo se arranjando mediante contrabandos e contravenções pelas ruas, a fugir como gazelas das gentis autoridades; ou ainda, a jornalista poderia se informar sobre as dignas e não menos “austeras” formas de trabalho assalariado impostas na e pela união UE-EUA ao mundo (ou o que dele ainda resta diante da crise estrutural do trabalho), e sobre os enormes contingentes de pessoas “democraticamente” lançadas às margens do sistema, desprezadas como párias pelo novo capitalismo automatizado mundo afora – e quem sabe aí ela vislumbrasse que a situação do camponês que ela viu “trabalhando com as próprias mãos” talvez não corresponda à mais horrível miséria atualmente existente no mundo, ou que ao menos as diferenças são mais tênues do que ela nos quis fazer supor em seu texto.
A jornalista, enfim, independente de suas críticas terem ou não razão – e ela infelizmente não é um ponto fora da curva –, acaba por mostrar apenas uma face tendenciosa da realidade abjeta desta modernidade construída sob o poder ocidental, abstendo-se comodamente de qualquer crítica à visão eurocêntrica que desmantelou e segue a arruinar o que resta de humano no homem, bem como os recursos naturais de que se necessita para viver.
O erro essencial de tal perspectiva racista – que endeusa determinados valores em detrimento de outros, e que enreda (este é o ponto que se quer focar) mesmo mentes lúcidas na armadilha de avaliações repletas de preconceito étnico-cultural (por vezes xenófobas) – consiste em apenas se acusar as consequências do fato, sem serem minimamente capazes de abranger suas causas: o modelo bronco de “desenvolvimento” aos moldes da cultura moderna eurocêntrica, pautado pela ideia suicida (hoje, comprovadamente estúpida, insustentável) de “crescimento econômico infinito”.
O modelo de “progresso” ocidental
Não creio que seja possível aqui, nestes breves comentários, uma conclusão acerca de tão complexas questões, no sentido de se apontar para possíveis soluções; mas cabe sim uma constatação que por mais dura e triste que seja, parece bastante sólida e atualmente irrefutável: as únicas nações realmente soberanas no mundo são potências nucleares, ou ao menos, potências econômicas conjunturalmente desarmadas (Alemanha e Japão pós-Segunda Guerra) mas aliadas incondicionais dos EUA e em vias de se rearmar.
Se a Coreia Popular não seguisse este que é exatamente o “modelo de progresso ocidental”, certamente já teria sido destruída militar e culturalmente – tal qual a Coreia capitalista e o Japão, países que abandonaram suas tradições em prol de uma desastrada “adaptação” da cultura ocidental, gerando um amálgama naife, artificial, individualista ao extremo, e que em última análise os autoexclui, posto que eles não têm o fenótipo “ocidental” no qual se pautam (veja-se o modo como o cinema mercadológico hollywood ridiculariza com frequência a “modernidade” desses povos).
A lógica seguida pela Coreia Popular é, portanto, a mesmíssima lógica que lhe foi ensinada pelo hegemônico paradigma moderno ocidental – que domina armas e mentes há séculos. A lógica produtiva moderna, focada na exploração de massas humanas cada vez maiores e mais precárias, sempre se deu mediante a representatividade das armas. Se o dólar não-lastreado dos Estados Unidos pôde se tornar a moeda do mundo, isso não se deu pela grande amizade e confiança que os demais países do globo depositam nesta nação, mas devido à força de suas armas. Se Israel, manda e desmanda na política do Meio-Oriente e massacra a conta-gotas a Palestina – em especial no grande campo de concentração que é Gaza hoje –, enquanto zomba de “decisões” e “ultimatos” da ONU, é porque detém armas poderosíssimas que lhes foram passadas em meados do século pelos EUA, inclusive armas atômicas (jamais declaradas, nem "investigadas”, ao contrário daquelas iranianas e coreanas). E aliás, se a ONU há muito deixou de ter qualquer poder decisório efetivo, passando a ser apenas um parlamento moral anódino e desprezado, isso ocorre justamente porque essa desmoralizada organização não conta com um comando armado – ao contrário da OTAN (esta sim, com imensos “poderes” e promovendo guerras pelos quatro cantos do mundo).
Os tempos modernos, desde seus primórdios de há 5 séculos –  quando o europeu inicia a pilhagem de recursos (e saberes tradicionais) americanos – foram constituídos sob uma ideia de "progresso" intrinsecamente ligada à tecnologia, à revelia do desenvolvimento humano. Embora para a periferia do capitalismo (colonias, etc), a modernidade jamais tenha tido um viés "progressista", para a Europa em si, o iluminismo incentivou períodos de aparente progresso (movimento anti-absolutista), o que porém, logo despertaria a fúria da reação: e assim se constituiria no século XIX a sociologia positivista, para controlar as populações revoltosas – chamada no princípio de "física social", já que teve como diretrizes a metodologia empírica restrita das ciências naturais, com suas consequentes técnicas, sempre tendo em vista a instrumentalização da repressão social. A modernidade, com sua "razão instrumental", teve no começo o lema de "dominar a natureza" (Francis Bacon), ideia que acabou logicamente se estendendo ao domínio também da “natureza” do próprio homem – para manter caladas as enormes massas alijadas pela Revolução Industrial de seus meios produtivos e organização laboral.
No século XX, a modernidade, sempre em nome do progresso e da razão (aos moldes eurocêntricos, obviamente), promoveria algumas das piores atrocidades irracionais já cometidas pelo homem: a primeira e a segunda guerras mundiais, e a nuclearização da guerra fria.
A Coreia é somente uma parte integrante deste movimento – que põe nas armas seu requerimento de paz. Trata-se de um movimento autodestrutivo, que cabe ser freado com urgência – mas freado como um todo, e não apenas segundo os interesses dos mais fortes, pois que quanto maior o desequilíbrio de forças, maiores as chances de abusos e catástrofe. Para o bem de todos, os Estados Unidos parecem ainda ter consciência disso, como mostra seu secretário de Defesa, James Mattis (em coletiva de imprensa no Pentágono, 20 de maio): “Como vocês sabem, se optamos pela solução militar [na Coreia Popular], isto seria uma tragédia em escala inacreditável”.
Yuri Martins Fontes é doutor em História Contemporânea (USP/CNRS), com formação em Filosofia e Engenharia; exerce atividades como pesquisador e jornalista, além de coordenar os projetos de educação popular do Núcleo Práxis-USP.

Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo

Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo

YURI MARTINS FONTES
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Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo
Por Yuri Martins Fontes
A partir do final dos anos 1960, quando os imensos lucros que aqueceram o capitalismo por duas décadas (advindos da destruição promovida pela II Guerra) começam a dar sinais de arrefecimento, o tão louvado “Estado do bem-estar social” inicia sua queda – e daí o motivo central das manifestações que chacoalhariam o mundo já em 1968. Desde então, a opção por reformas sociais seria paulatinamente riscada do leque de discursos pretensamente “éticos” ou de “humanização” do capitalismo, com que as mentes patronais tentaram por algum tempo convencer ao mundo – e a si mesmas e a seus filhos – de que a mesquinhez de suas práticas não era assim tão degenerada, e que em se “trabalhando firme” (o outro trabalhando firme, obviamente) se vence qualquer “crise”.
Crise estrutural do capitalismo
A crise que então apenas principiava, contudo, se mostraria não mais meramente “cíclica”, mas “estrutural”, e isto segundo um aspecto “interno” e outro “externo” – ainda que não se possa deixar de atentar à inter-relação de ambos os fatores.
Do lado “interno”, ocorre que com a automação exponencial dos processos fabris (em especial nas últimas décadas do século XX), o trabalhador assalariado passaria a ser cada vez menos requerido pelo sistema produtivo, levando o capitalismo a um paradoxo, ou seja: no processo concorrencial, o capitalista tende a diminuir seus postos de emprego, o que, todavia, leva a que ele logicamente tenha menos gente a ser explorada (menos trabalhadores para produzir “valor”, o qual constituirá seu lucro). Este fato pode ser facilmente percebido, desde o ângulo mais concreto da dinâmica social, pois é patente que, na medida em que populações imensas são marginalizadas, o capitalista perde público capaz de comprar suas mercadorias, situação que por conseguinte leva à queda da taxa de lucro (“tendência” aliás já aventada por Marx, há um século e meio).
Do lado “externo”, contribui à crise estrutural, a face econômica do problema socioambiental – parte do desequilíbrio gritante do metabolismo entre o homem e a natureza, ou seja: o rápido esgotamento dos recursos materiais necessários à produção, cujos aspectos mais visíveis são a escassez energética e das próprias matérias-primas usadas na confecção de produtos (com o agravante do desperdício irracional da obsolescência programada), além da diminuta oferta de água que se aproxima de seu limite (problema tanto para a produção, como para a própria sobrevivência), e do avanço das fronteiras capitalistas (tática que adia a queda do lucro, mas que atinge assim as últimas terras agrícolas e florestas, acirrando o problema climático e as lutas de classes à medida que piora o martírio da fome no mundo “moderno”, denotando o fracasso talvez mais “fundamental” dessa tão propagada ilusão que é o atual modelo “progresso”).
Guerra de baixa intensidade
Com o início deste cenário de crise, os Estados Unidos passariam a intensificar a promoção de guerras pelo mundo (e assim a “destruição criadora”, de acordo com a lógica capitalista voltada não à utilidade dos produtos, mas a seu preço) – conflitos naturalmente centrados em nações não-alinhadas ou opositoras, segundo a perspectiva da Guerra Fria.
Segundo variados pesquisadores, dentre os quais Francisco Pineda (“¿Qué es la guerra de baja intensidad?”), o conflito de “baixa intensidade” – embate prolongado visando o desgaste gradual do inimigo – ganha protagonismo na derrota estadunidense contra o Vietnã entre os anos 1960 e 1970 (embora caiba notar que o embargo contra Cuba já fora um simbólico início desta prática, desde 1960). A este evento histórico se seguiriam uma série de levantes populares triunfantes em várias nações da periferia do capitalismo, casos de: Laos, Camboja, Moçambique, Angola, Etiópia, Iêmem (do Sul), Granada e Nicarágua.
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Em 1981, com Ronald Reagan na presidência, os EUA se dedicariam decididamente aos embates periféricos, passando a aplicar esse novo modelo de conflito contra insurgências anticoloniais, bem como em “operações de manutenção da paz” (ou sem eufemismos, manutenção de governos sob o jugo do Ocidente capitalista). Sua função essencial é a de minar o máximo possível as possibilidades de reformas e a aprovação popular de um governo revolucionário ou mesmo daquele que simplesmente se oponha em alguma medida aos desígnios da política imperialista (caso dos reformistas do século XXI dos quais aqui trataremos).
Essa doutrina tem lugar quando a “guerra convencional” – a ação militar aberta – não pode ser praticada convenientemente, seja por motivo de grande aprovação popular de um determinado governo, seja pelo desgaste que uma intervenção armada possa causar na chamada “opinião pública internacional” (note-se que o conceito de “opinião pública” é restrito quase sempre à “opinião” europeia de classe média, em geral os autodeclarados “humanistas” ou “democratas” dedicados ao que consideram “direitos humanos”). É aí que entra a sutil tática da “baixa intensidade”, que passaria a ser o modus operandi essencial da OTAN, a partir da derrota da União Soviética.
Na análise do quebequense Jules Dufour (vide Mondialization), geógrafo e presidente da Associação Canadense para as Nações Unidas, no fim do século XX, os membros da OTAN foram os principais semeadores do terror pelo Planeta, diretamente ou por procuração, em uma constante e cuidadosa defesa de seus interesses geoestratégicos e comerciais. Assim, a guerra de baixa intensidade viria a tomar o protagonismo geopolítico, com suas ações mais lentas de “decomposição institucional e social”, ocupando o lugar das guerras entre Estados que passam a um segundo plano. Em sua atualização para o século XXI, para satisfazer os escrúpulos cada vez maiores da “opinião pública”, a OTAN passaria a tomar algumas precauções, de modo que, segundo o professor, a construção e massiva difusão da imagem do país “alvo” como se tratando de um “Estado vilão” viria a ser o cerne e princípio de cada intervenção.
Tal método pode ser assim resumidamente descrito, segundo suas características mais usuais e intensidade:
i) dimensão golpista inicial (econômico-cultural e legal interna): ação inicialmente sociopsicológica, a partir de intensa campanha reacionária da mídia corporativa tradicionalmente aliada a interesses externos, seguida de pontuais agressões econômicas (sanções, sonegações de produtos, paralisações patronais), em que se reitera (e assim, aprofunda) cotidianamente a condição de “crise socioeconômica” do país, justificando à opinião pública interna as ações de perseguição e golpe institucional (legitimadas pelos poderes estruturalmente corruptos parlamentar e judiciário); neste processo, se destaca a ênfase publicitária dada às “atitudes desumanas” e “antidemocráticas” do governo reformista (que reage), o que se dá com o apoio dos chamados “think tanks”, organizações multinacionais que patrocinam a difusão de ideologias neoliberais e fascistas, frequentemente por meio de grupos de jovens lideranças populistas conservadoras (veja-se o caso do Instituto Millenium, ou do arrivista capo do “Movimento Brasil Livre”, “jornalista” da Folha de S.P.); tal prática de intensidade ainda leve é a que vem ocorrendo no Brasil, com seu “golpe-de-novo-tipo” (de que nos fala o professor Paulo Arantes, em entrevista à Revista Mouro, 2017), viabilizado em uma conjuntura de crise econômica mundial, mediante acusações de “corrupção” eleitoral (em última instância referentes ao incontornável caixa-dois, sem o qual não se chega ao poder no capitalismo), um novo modelo de golpe “ativo” ou mesmo “preventivo” também presente na Argentina, Peru, Honduras, Paraguai e em tantos outros países da América cujos governantes centro-reformistas, com o agravamento da crise, passariam a ser perseguidos midiática, parlamentar e judicialmente pelas elites não dispostas a dividir os prejuízos sistêmicos com as populações marginalizadas;
ii) dimensão golpista intensificada (inclui a esfera geopolítica e, discretamente, a militar): acusações de que o país oponente não respeita os direitos humanos, ou que cometeu “crimes de guerra” ou mesmo “contra a humanidade”, com consequente apoio à composição (muitas vezes no estrangeiro) de governos ou lideranças paralelos (alinhados e reconhecidos formalmente como legítimos), e pressão para a aprovação em instâncias como a ONU, e em caso da impossibilidade (por veto), da própria OTAN, de sanções amplas ou autorizações de embargos econômicos desestabilizadores, e de ações militares iniciais (criação de zonas de exclusividade aérea, bombardeios – sem corpo a corpo – por drones, apoio logístico e de inteligência a atentados e violência civil, etc.); é o que se vê atualmente acontecer na Venezuela, por exemplo;
iii) dimensão de intervenção externa suavizada (em que mais abertamente atua a esfera militar): políticas de patrocínio para a organização e o armamento das oposições ao governo inimigo, com apoio, caso seja necessário e possível, de ataques militares pontuais que facilitem a ação de seus mercenários (caso do apoio estadunidense aos Talibãs contra a URSS, ou ao Estado Islâmico contra a Síria, ou mesmo de várias das revoltas “alinhadas” ao Império e por ele promovidas, que foram sofisticamente incluídas nas chamadas “primaveras árabes”, caso da Líbia).
Com a recente prisão do nacionalista Ollanta Humala no Peru, a perseguição policialesca que vem sofrendo Cristina Kirchner, e a condenação sem provas de Lula pelo juiz tucano de baixa instância – após anos de intensa campanha midiática e de uma espetacularização sem-vergonha do nosso desavergonhado “judiciário” nacional (e isto apesar das tão tênues reformas levadas a cabo pelo lulismo) –, o modelo de guerra de baixa intensidade na América Latina ganha visibilidade e contornos particulares, que diferem daqueles em geral usados contra nações africanas ou asiáticas, nas quais os conflitos étnicos e religiosos são mais facilmente aproveitáveis pelo imperialismo.
No próximo artigo veremos como desde o intento de golpe contra Chaves em 2002, a América Latina, com seus governos reformistas neodesenvolvimentistas, que afloraram no início do século, após a “década perdida” neoliberal, vem sofrendo sistematicamente com a guerra de baixa intensidade – aqui normalmente sob o adorno “democrático” que com criatividade formatou essa aberração legal dita “golpe-de-novo-tipo” –, o que se agravaria em 2008, quando vem à tona, para quem queira ver, a crise exposta do capitalismo.