quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Jornalistas afetados pela sociedade do espetáculo

ÉTICA JORNALÍSTICA > OPERÁRIOS DA NOTÍCIA

Jornalistas afetados pela sociedade do espetáculo

Por Ronaldo Leges em 21/11/2017 na edição 967
Trabalhar na imprensa “nanica” não é das coisas mais fáceis. Trabalhar na imprensa de modo geral não é fácil, nunca foi, mas quem está na dita: “grande imprensa”, às vezes, sente o deslumbramento proveniente dos holofotes e esquece que o jornalismo historicamente é uma profissão de proletários.
Certa vez, o blogueiro e professor de jornalismo da PUC, Leonardo Sakamoto, disse que, em tempos de passaralhos, jornalistas só se lembram de que pertencem à classe trabalhadora quando são mandados embora, tamanha é a desconexão entre profissão e sentimento organizacional. Talvez, ele esteja certo.
Em diversas coberturas para o jornalismo de bairro, área que costumo atuar com frequência e em outras editorias também, já topei com colegas de diversos meios, principalmente canais de TV que não se comportam como jornalistas, escavadores da notícia como deveriam ser.
Quase sempre, profissionais da TV se limitam a executar uma peça tragicômica diante dos olhos de todos, mas que apenas alguns possuem bom senso para entender.
O vídeo exige aparato cênico, é um mise en scene com direito à maquiagem, figurino e papéis, tudo deve estar em seu lugar em uma elaboração meticulosa. Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.
Longe de querer traçar um modelo de conduta para colegas, mas sim analisar criticamente o fazer jornalístico, que em sua gênese e receita não mudam de acordo com os meios, mas entender que é necessário se fazer jornalismo com a mesma responsabilidade e seriedade em todas as suas plataformas.
Portanto, sem devaneios ou estrelismos, o jornalista é aquele que intermedeia a notícia, reporta o que acontece e como acontece para o público.
Não é necessário ter vivido os tempos áureos do jornalismo dos anos 50 ou 60 para entender que esta é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta. Jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz.
Capa do livro “A Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord (1967). (Crédito: A Sociedade do Espetáculo/Divulgação)
Embora tal expressão possa soar demasiadamente antiga para se referir a jornalistas, esses deveriam voltar a se enxergar como trabalhadores da notícia, pois somente essa consciência os fará fugir da armadilha que enclausura muitos em um personagem que não lhes cabem, o de celebridades da mídia.
Quando o filósofo francês Guy Debord fez menção ao o que chamou de “A Sociedade do Espetáculo”, dizia que tudo no sistema capitalista se tornaria espetáculo, dentre essas coisas estaria o jornalismo e o excesso imagético também. E nesse aspecto ele acertou formidavelmente, pois o que vemos diariamente pela tela da TV é o sinal mais honesto dessa profecia: entretenimento engessado disfarçado de informação conduzido por protagonistas afetados.
Um retorno ao real sentido do que é a profissão é urgente, não que o passado tenha sido perfeito, mas porque é lá que reside a essência da atividade. E não há nada de romântico nessa argumentação, afinal, assumir ou acusar alguém de romantismo por dizer isto é admitir a derrota do verdadeiro papel da imprensa e de quem depende dela. Trocando em miúdos, fica o pensamento de Sigmund Freud, “a razão pode falar baixo, mas nunca se cala”.
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Ronaldo Lages é jornalista, atua no jornalismo de bairro e é colaborador da Agência Mural de Jornalismo das Periferias, Portal Fórum e Megafonia.

Reconstrução da Síria vai custar US$ 250 bilhões, diz enviado especial das Nações Unidas

Reconstrução da Síria vai custar US$ 250 bilhões, diz enviado especial das Nações Unidas


Valor foi declarado pelo enviado especial da ONU, Staffan de Mistura; guerra civil na região já dura seis anos
A reconstrução da Síria custará pelo menos US$ 250 bilhões, disse nesta segunda-feira (28/11) Staffan de Mistura, enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas para o país. Ele informou aos Estados-membros do Conselho de Segurança da ONU que a guerra dos últimos seis anos obrigou metade da população síria a fugir das suas casas.
De Mistura disse acreditar que chegou o momento da verdade para o diálogo, falando dos preparativos para a oitava rodada das conversas de paz entre as partes do conflito que devem começar esta terça-feira (29/11) em Genebra, com participação de uma delegação do governo da Síria e representantes da oposição.
A ação de "várias partes e as várias mudanças de agenda" estiveram entre os obstáculos para se obter um acordo nos últimos anos, disse o enviado especial da ONU. Segundo ele, continua real "o perigo de fragmentação da integridade territorial, da soberania e da independência" da Síria.
De Mistura falou ainda da atuação Estado Islâmico do Iraque do Iraque e do Levante (EI),  grupo terrorista que considerou o "maior e o mais rico da história. Os integrantes do EI vieram de mais de 100 países, praticando o uso da força contra civis numa escala horrível", argumentou.

Foto: ONU News

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Comboio recuou
Ele destacou a preocupação das Nações Unidas com a violência ocorrida nas últimas semanas na parte oriental da região síria de Ghoutha, após um comboio de várias agências da ONU e da Cruz Vermelha da Síria não ter conseguido entrar na localidade de Nashabieh. Estima-se que 400 mil pessoas vivam nessa área rural de Damasco.
Os confrontos obrigaram o comboio a recuar com alimentos, artigos de saúde e de nutrição para mais de 7 mil necessitados da região. De Mistura disse que a decisão foi tomada após a ocorrência de bombardeios e explosões, apesar de terem sido dadas garantias de passagem segura antes do deslocamento do comboio.

O desembarque “pró-forma” do PSDB e o jogo de traíras

O desembarque “pró-forma” do PSDB e o jogo de traíras

O iminente encontro entre Michel Temer e Geraldo Alckmin para tratar da encenação de um desembarque do PSDB do Governo – encenação porque, além de cargos, o comando do partido se mantém decidido a sustentar o único projeto deste governo, a reforma da previdência – lembra os versos  de Gita, a inesquecível música de Raul Seixas e Paulo Coelho: “eu estou em você, mas você não está em mim”.
E olhe que no caso tucano-temerista algo do PSDB continuará no Governo, ao que tudo indica, além do furor privatizante e anti-trabalhador dos tucanos. O desapegadíssimo Aloysio Nunes Ferreira anuncia para quem quiser ouvir que seguirá ministro das Relações Exteriores.
Alckmin terá de lidar com o complicadíssimo “front” interno do PSDB: Aécio e seu desgaste público; João Doria e sua ambição sem limites e as “viúvas do Huck”, que sonhavam em atropelar a máquina partidária e fazer um governo – favas contadas, para eles – no brilho dos salões.
A simbiose PSDB- Temer seguirá e, a rigor, não se pode dizer que haja alguma diferença substancial entre o “Ponte para o Futuro”, com que a dupla Michel Temer – Moreira Franco dourou a pílula do desmonte dos direitos trabalhistas e do patrimônio nacional e o “remake” do ‘choque de capitalismo’ que o tucanato acaba de desenterrar da candidatura Covas de 1989.
Como se o Brasil, logo em seguida com Collor e depois com Fernando Henrique já não tivesse levado um choque de altíssima voltagem privatizante.
Na ribalta da falsa política, aquela que se move em torno de vaidades e ambições, os jornais falam numa aliança de Rodrigo Maia com o “centrão”, para fazer de Henrique Meirelles candidato a presidente.  Passa pela cabeça de alguém que ele possa ser eleitoralmente viável?
Óbvio que não, é jogo para negociar posições. Esta é a política brasileira: um jogo de dissimulações e traição.

Pobre país rico.

Pobre país rico. Por Nílson Lage

Não há como dizer de outra forma: o Brasil é muito rico – uma das poucas nações capazes, em tese, de sobreviver sem mudar radicalmente caso não houvesse outra no mundo. Tem alimentos, terras e água em abundância; petróleo, urânio, ventos, luz; território habitável e tecnologia em padrão médio; estrutura industrial básica, uma salada mista de minérios e reservas monetárias que cobrem as contas externas.
No entanto, por alguma alquimia contábil e muita conversa fiada, o povo foi convencido de que o Brasil é pobre. Sua história é um stop-and-go: cresceu com o Barão de Mauá, atolou-se em dívidas e numa guerra cruenta e cara contra o Paraguai ; desenvolveu o perfil de um império constitucional com monarquia benevolente, tombou com o golpe da República e o longo período de pedantismo e estagnação institucional republicana; impulsionado pelos tenentes e por humanistas brilhantes, tentou tornar-se, de fato, independente, mas tropeçou em um conflito de valores que se arrastou entre os golpes de 1964 ao de 2016, com direito a consulados neoliberais e trabalhistas – estes a versão local da social-democracia. Ao que parece, está na pior.
Para dar uma pista de porque isso acontece, transcrevo alguns parágrafos de um texto que escrevi há 35 anos sobre as guerras que marcaram a história dos países da bacia do Prata, ao longo do Século XIX:
“A participação inglesa no processo de independência dos países latino-americanos — quer através de ajuda militar direta (sobretudo naval), quer em medidas de apoio político e econômico — teve dois objetivos entrelaçados: (a) promover a criação de estados nacionais, desmontando os impérios decadentes de Portugal e Espanha; e (b) impedir que esses estados conjugassem uma independência real com os meios de dar-lhe consequência. No atendimento des­ses objetivos, a Inglaterra estimulou e conteve, segundo seus interesses, con­flitos entre as jovens nações. Para sustentar-se em longo prazo, cuidou de ocupar os espaços econômicos, aliando-se aos setores do comércio e aos latifundiários acostumados, em cada uma das antigas colônias, a produzir para exportação em suas plantations; socorreu-os com seus préstimos e dinheiro.
A hegemonia inglesa contribuiu, assim, decididamente, para fixar no poder elites que eternizariam a es­trutura da economia colonial em estados formalmente soberanos. Esse equívoco de origem trouxe esta parte da América – ao Prata, em nosso caso – a uma configuração trágica que se perpetuou além do apogeu do imperialismo britânico: é que as elites assim consolidadas, as oligarquias, sabem que sua permanência no poder depende de alianças externas, da limitação de soberania diante de potências hegemônicas. Buscam essas potências, convidam-nas a partilhar do controle da economia do país, deslumbram-se diante de sua eficiência — fato que explica a situação de nossos países, hoje, e nos permite compreender também o que se passa em quase toda a África e em algumas nações asiáticas.
Chama-se a esse fenômeno neocolonialismo, com suas duas faces: a do vassalo servil, no entanto poderoso internamente, e a do império que o utiliza, sem deixar de desprezá-lo.”

Minha Casa, Minha Vida fez 3/4 das habitações em dez anos. E acabou…

Minha Casa, Minha Vida fez 3/4 das habitações em dez anos. E acabou…

“Entre 2008 e agosto de 2017, foram lançadas 6,3 milhões de unidades [habitacionais] no Brasil” , anunciou ontem um estudo realizado pela Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) e pela  Fundação Instituto de Pesquisas (Fipe), da USP.  Destas unidades, nada menos que 4,9 milhões, ou 77,8% , foram do Programa Minha Casa Minha Vida.
Oi seja: de cada dez moradias feitas no Brasil, oito foram do programa habitacional dos governos Lula e Dilma.
Ou eram, porque o Minha Casa, Minha Vida está virtualmente paralisado, com o nível de investimento praticamente “zerado”
Quer dizer que o país que fazia 630 mil moradias por ano e chegou a fazer um milhão de lares em 2013, agora se contenta em fazer 300 mil.
Os recursos para o Minha Casa, Minha Vida caíram de R$ 13 bilhões, em 2015, para R$ 7,6 bi este ano e, em 2018, para apenas R$ 5 bilhões. Isso no Orçamento, sendo menor, provavelmente, o desembolso efetivo.
Portanto, para cada três famílias que alcançavam um imóvel, duas não alcançam mais.
E para onde irão estes “sem casa” que teimam em existir? Para a rua, para o morro, para o charco…
Para o mesmo lugar onde foram os milhões de empregos que essa atividade gerava.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

FGV aponta governo Flávio Dino como o mais transparente do país O GOVERNO DA PARAÍBA ESTÁ MUITO LONGE DISSO.

28 de novembro de 2017 - 14h01 

FGV aponta governo Flávio Dino como o mais transparente do país

Karlos Geromy
Flávio Dino e o secretário de Transparência e Controle, Rodrigo Lago (direita)Flávio Dino e o secretário de Transparência e Controle, Rodrigo Lago (direita)

"Ao assumir o cargo em janeiro de 2015, Dino criou a Secretaria de Transparência e Controle, aprovou a regulamentação da lei federal de AI [Acesso à Informação] e inaugurou um portal da transparência", afirma o relatório "Da opacidade à transparência? Avaliando os cinco anos de Lei de Acesso no Brasil".

"O estado obteve 2,2 pontos na primeira edição da Escala Brasil Transparente da CGU no primeiro semestre de 2015 e conquistou a pontuação máxima de dez pontos na segunda edição da avaliação no mesmo ano", ressalta o documento, que aponta ainda que o número de pedidos de acesso à informação recebidos no Maranhão subiu de 339, em 2015, para 1.159, em 2016 – mais do que o triplo.

O relatório compara a gestão de Flávio Dino aos 50 anos da "dinastia" Sarney que comandou o Maranhão. Segundo os pesquisadores Gregory Michener, Evelyn Contreras e Irene Niskier, o atual governo maranhense demonstrou interesse em "'abrir as portas e deixar a luz entrar em uma das mais retrógradas administrações estaduais do Brasil e dar visibilidade ao que o governo do estado havia se tornado".

"Dino, como todos os políticos comprometidos com as leis de transparência, teve suas razões para dedicar-se a esta lei. Talvez a mais importante delas seja o fato de que o governador assumiu um Estado dominado há décadas pela dinastia política da família Sarney, do PMDB, que há muito tem sido associada a acusações de corrupção e má administração", pontua o documento.

Em entrevista ao Portal Vermelho, Rodrigo Lago, secretário de Transparência e Controle do Maranhão, reforça que transparência era uma bandeira de governo de Flávio Dino.

"Esse não era tema nem pauta de campanha de governo em 2014. As pessoas não cobram isso no plano de governo. A maioria cobra pelas obras, mas esquecem que a transparência nos gastos é essencial para garantir a obra", enfatizou Lago.

"Há vários elementos que levaram o Maranhão a chegar a essa posição, mas principalmente a vontade política, pois no Brasil só se trabalha com a pauta transparência quando é cobrado. Ninguém trabalha espontaneamente como o Flávio Dino fez, incluindo no seu programa de governo", salientou.

Ele conta que o Maranhão vivia uma espécie de escuridão nas contas públicas. "Saímos do período paleolítico para o topo", compara Lago, enfatizando que ao disponibilizar os dados, o governo aumenta a munição dos opositores.

Segundo ele, quando Flávio Dino assumiu o governo, 60% dos gastos públicos não estavam disponíveis para controle da população, ou seja, dos cerca de R$ 10 bilhões do orçamento estadual na época, R$ 6 bilhões eram gastos à margem dos olhos da população.

Com a criação da Secretaria de Transparência e Controle, em 2015, o governo uniu em um único órgão as funções de auditoria governamental, corregedoria, transparência e a ouvidoria.

Rodrigo Lago conta que na gestão anterior, o controle administrativo das contas era feito apenas pela Controladoria-Geral do Estado, cuja única missão era fazer auditoria governamental. "Mesmo para essa missão tinha um quadro de servidores bem reduzido, com 34 auditores. Nomeamos novos auditores concursados, dobrando a capacidade de fiscalização, tiramos todos os filtros indevidos e apresentamos à Assembleia a Lei de Acesso à Informação Estadual [Decreto 10.217/2015], inclusive com alguns pontos mais transparentes do que a lei federal", relatou o secretário.

De acordo com Rodrigo, a Secretaria segue o modelo de organização da Controladoria-Geral da União, mais agregou outros mecanismos de controle e fiscalização, como o Controle Social, permitindo que qualquer cidadão tenha instrumentos para controlar as finanças do Estado.

A secretaria tem realizado audiências públicas, reunindo autoridades e técnicos dos órgãos de controle interno e externo do Maranhão, como Tribunais de Contas, Ministério Público para apresentar e discutir junto à população temas como controle interno, atuação das ouvidorias, prevenção e combate à corrupção, transparência na gestão pública, entre outros, capacitando a população sobre os instrumentos disponibilizados pela administração pública.

"O objetivo é fomentar a cultura da transparência", destaca o secretário.
 

O DNA PUNITIVISTA DA PGR

O DNA PUNITIVISTA DA PGR

Não surpreenderam as alegações finais apresentadas ontem pela Procuradora-geral da República, Doutora Raquel Dodge, contra a Senadora Gleisi Hoffmann e o ex-Ministro Paulo Bernardo. Como na parábola do escorpião e da tartaruga, Sua Excelência não podia negar sua natureza. Afinal, para chegar lá, não contou com a indicação de um chefe de governo eleito e com contas a prestar à sociedade. Contou tão e só com eleição corporativa na qual, para constar de ilegítima e ilegal lista tríplice, teve que prometer rios e fundos a seus colegas, muitos dos quais não primam por sentimentos democráticos e fidelidade à constituição. A grande maioria do colégio eleitoral de Raquel Dodge aplaude o punitivismo tosco e redentor que fez a instituição descarrilhar e se alimenta da bronca antipetista disseminada pela mídia tupiniquim.

Não foi por outra razão que a Senhora Procuradora-geral da República escolheu para compor sua equipe criminal os procuradores da República José Alfredo, Raquel Branquinho e Alexandre Espinosa, todos eles do time de Antônio Fernando e Roberto Gurgel, que despontaram na elaboração da canhestra denúncia do Mensalão e em suas pornográficas alegações finais, ambas obras primas da ficção jurídica que talvez só encontrem par nas peças do processo Dreyfus, na França do final do século XIX.

A Doutora Raquel Dodge tem virtudes ausentes em seu antecessor. Não fica a tagarelar para a mídia. É comedida e assentada. Tem maior e melhor conhecimento técnico. Elabora mais. Não parece conspirar. Internamente, ninguém jamais teve dúvida sobre seu lado. Mas, por não saber se desvencilhar da marca genética de sua corporação, acaba por torná-la tão perniciosa quanto o ex-PGR para a democracia brasileira.

O Ministério Público Federal (MPF) se livrou do aventureirismo de Janot, mas está longe de se livrar da praga do punitivismo que foi plantado contra o PT e acabou por se alastrar por toda a política, para ceifar, por igual, guerreiros democráticos como Gleisi Hoffmann e atores reacionários e antipopulares, que têm no patrimonialismo e no clientelismo corruptos sua prática cotidiana.

Nisso o MPF não é diferente dos generais que reprimiram a sociedade brasileira por vinte e um anos. Também eles jogaram no mesmo saco pessoas que qualificavam de subversivas - os democratas - e os que rotulavam de degenerados ou corruptos. Decapitavam-nos por igual com uso de seus atos institucionais. E deixaram um triste legado para o processo de redemocratização, quando todos, anistiados também por igual, retornaram à vida pública podendo, sem distinção, se gabar de terem resistido à ditadura. Misturaram os heróis e mártires com os aproveitadores e canalhas que, por algum acaso mal calculado, tropeçaram na rede da repressão que haviam sustentado.

Nossa democracia pagou um preço alto por isso. Formou-se, ainda antes da Constituinte de 1987-1988, o centrão político infestado dos falsos resistentes da ditadura, que passou a chantagear todos os governos eleitos desde então. Plantaram, com essa anistia para os reacionários descomprometidos com a causa nacional, a semente o golpe de 2016.

Não tardará de a sociedade se conscientizar do estrago promovido pelos arroubos autoritários do MPF, que provocaram não só o maior terremoto político da jovem democracia pós-constituinte, mas destruíram um promissor projeto de inclusão social e, de lambuja, todo parque industrial da construção civil pesada, da engenharia naval, da produção petrolífera e da engenharia nuclear, sem falar da instalação do governo mais alheio à probidade da história do país. O problema, ao acordar desse pesadelo, será mais uma vez, como na anistia de 1979, distinguir entre os que lutaram contra o atraso e o golpismo dos que, aliados do golpe, foram igualmente apeados pelo MPF em sua fúria redentorista. Todos foram vítimas do arbítrio e do excesso de poder persecutório. Mas nem todos são bons para a reconstrução democrática.

Já passou da hora de acordarmos dessa letargia e de enfrentarmos esse processo de deformação de nosso esboço de Estado democrático de Direito. É urgente reavaliar o modo de o MPF trabalhar, com uso de ficções processuais e delações programadas, tendentes, apenas, a tornar hegemônica sua ideologia fascista de depuração moral e, com isso, realizar seu projeto de poder corporativo. A revisão constitucional do papel e dos poderes do ministério público é, do mesmo modo que a superação da ditadura militar, pressuposto para a recuperação das instituições democráticas e, quanto antes acontecer, menos dificuldade teremos para separar, na política, o joio do trigo, entre os vitimados pelo abuso de autoridade.

* Professor de Direito da UnB. Procurador da Justiça, ex-ministro da Justiça