segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

"Super-Moro": as origens de um juiz acima da lei ACIMA E FORA

LAVA JATO

"Super-Moro": as origens de um juiz acima da lei

Apoio da grande mídia e de páginas de fake news legitimou arbitrariedades cometidas pelo juiz na Lava Jato

Brasi de Fato | São Paulo (SP)
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A Lava Jato praticamente ganhou o rosto do juiz Sérgio Moro como marca / Marcelo Camargo / Agência Brasil
Há dezenas de páginas nas redes sociais homenageando o juiz de primeira instância da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba, Sérgio Moro. Ao pesquisá-las, a primeira que aparece, com 1,6 milhão de curtidas e postagens constantes contra o Partido dos Trabalhadores (PT), leva apenas o nome do juiz, podendo ser confundida com uma página oficial. A segunda é "Juiz Sérgio Moro — O Brasil está com você", com 1,5 milhão de seguidores, que se define como uma página de "causa". A terceira é sobre um psicólogo canino que também se chama Sérgio Moro.
A repercussão das páginas de apoio a Moro é maior do que a de alguns presidenciáveis. Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo, não chega a 1 milhão de seguidores. É, talvez, a segunda vez na história brasileira em que um juiz ganha tanta fama. Antes de Moro, apenas Joaquim Barbosa havia adquirido um acervo de fãs, ainda que muito menor, e ambos foram cogitados como candidatos à Presidência.
Vale apontar que boa parte dessas páginas de apoio se sustentam por meio do compartilhamento de fake news. "Juiz Sérgio Moro — O Brasil está com você" é do mesmo grupo que administra a página "Folha Política", uma dos principais propagadores de fake news das redes brasileiras, de acordo com o "Projeto M", do portal Manchetômetro, que analisa a veracidade dos conteúdos jornalísticos sobre política no país.
De acordo com a análise de muitos juristas, o juiz utiliza desse apoio virtual para sua promoção pessoal, e, mais grave, para a formação da opinião pública sobre o principal e maior caso sob responsabilidade do juiz: a Operação Lava Jato. Inclusive, sua própria esposa, a advogada Rosângela Wolff Moro, chegou a criar uma página pessoal do casal, que teve como nome o trocadilho "Eu Moro com ele". A página foi amplamente repercutida, chegando a ter quase 1 milhão de seguidores e, de acordo com o casal, tinha como objetivo "retribuir o carinho e apoio do povo brasileiro" ao juiz.
No dia 30 de novembro de 2017, logo após a explosão das declarações do ex-advogado da Odebrecht Tacla Duran, que denunciou diversos crimes nas investigações da Operação Lava Jato, a página foi apagada, sob a justificativa de que já tinha "cumprido seu papel". Para além da página de Rosângela, Moro não possui outras contas próprias nas redes sociais.
Personalidade do ano
A Lava Jato não apenas teve grande parte de seus julgamentos em primeira instância sob a comarca do juiz, mas praticamente ganhou seu rosto como marca. Para o advogado da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (Renap), Patrick Mariano Gomes, esse processo serviu para legitimar uma série de ilegalidades jurídicas cometidas durante a Operação.
"O que justificava e sustentava a figura do juiz Sérgio Moro era a mídia, um se retroalimentava do outro. Funcionava assim: o juiz praticava ilegalidades, mas a mídia o exaltava, não só como uma grande personalidade jurídica, mas também como um grande personagem nacional. Então ele era incitado a falar sobre cultura, sobre shows, virou uma personalidade, porque interessava ao sistema político um personagem como esse", afirmou.
Mesmo sob os holofotes da grande mídia e das redes sociais, Moro construiu uma imagem supostamente discreta. Poucas informações sobre ele foram mapeadas em perfis jornalísticos nos últimos anos, e a vida pessoal do juiz, que nasceu em Maringá (PR) em 1972, e estudou Direito na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e na Universidade Federal do Paraná (UFPR) — onde hoje leciona direito processual penal — é blindada.
Para especialistas, no entanto, não há nada de recatado em relação a Moro. O juiz já recebeu diversos prêmios e homenagens, inéditos para um magistrado brasileiro. Foi citado como uma das pessoas mais influentes e uma das maiores lideranças do mundo pelas revistas internacionais FortuneTime. Esta última o caracterizou como "Super-Moro" logo na primeira linha do texto. O juiz também recebeu o prêmio Brasileiros do Ano pela Revista Istoé em dezembro de 2017 — ocasião em que foi definido como "herói brasileiro" em um discurso do prefeito de São Paulo João Doria (PSDB).
De acordo com Ricardo Costa de Oliveira, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que produziu um artigo acadêmico sobre o perfil social dos personagens da Lava Jato e suas relações com as estruturas de poder no país, a construção da imagem de Moro está relacionada às conexões que o juiz possui com a elite.
"Todas as conexões de Moro são com o campo político da direita no Brasil, com meios empresariais e da grande mídia. Há a tentativa de construção ideológica do juiz como um símbolo da luta contra a corrupção, quando ele sempre representou setores da elite, um homem branco, de família inserida na elite estatal, casado com uma mulher de uma das principais famílias do poder no Paraná. Além do mais, há essa produção ideológica na grande mídia, que também é oligárquica familiar, já que ele recebe prêmios e tem sua imagem projetada na Rede Globo e outras emissoras", explicou.
Super-Moro
O juiz não costuma negar o título de herói, e a página "Eu Moro com ele" frequentemente compartilhava fotos de crianças segurando cartazes que relacionavam o juiz aos super-heróis dos quadrinhos, dos quais ele próprio também é fã. Em um discurso realizado em 2015, durante um Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Moro chegou a mencionar uma famosa citação da Marvel, uma das maiores editoras de histórias em quadrinhos de super-heróis, relacionando seu poder ao do personagem Homem-Aranha. "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", afirmou, arrancando risos da plateia.
No mesmo ano, durante uma palestra do evento Exame Fórum, Moro utilizou outra conhecida citação do universo dos quadrinhos, dessa vez do Batman, para definir a importância da Operação Lava Jato. "A noite é sempre mais escura antes do amanhecer", afirmou.
Coincidência ou não, a imagem do juiz é frequentemente atrelada à de Batman, em montagens online e cartazes de manifestações. O interesse no personagem, conhecido por fazer justiça com as próprias mãos, pode ser considerado um sintoma da visão do Direito compartilhada por Moro e colocada em prática pela Lava Jato. De acordo com Patrick Gomes, a Operação, considerada a maior da história brasileira, é baseada em uma série de arbitrariedades e ilegalidades, mas continua sendo defendida pela mídia como uma cruzada contra a corrupção.
"Não é tarefa dele condenar alguém, mas você pode ver que não é raro o discurso de que o Judiciário tem que combater a corrupção, quando, na verdade, ele não tem que combater nada, tem que julgar, porque a polícia investiga, o MP denuncia, e, se o juiz for combater, quem vai julgar? Então o papel do juiz foi completamente transfigurado", denunciou o advogado.
Juiz condenador
Além dos personagens dos quadrinhos, Moro tem outras referências polêmicas de entendimento de Justiça. Uma de suas principais inspirações é a mega-operação italiana "Mãos Limpas", que nos anos 1990 desvendou um enorme esquema de corrupção no país, emitindo quase 3 mil mandados de prisão contra parlamentares e empresários.
Moro já escreveu uma tese acadêmica sobre a operação e praticamente transpôs sua estrutura jurídica para a Lava Jato. Na sentença que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no chamado processo do triplex, Moro defendeu o uso das delações premiadas fazendo referências ao juiz italiano Piercamillo Davigo, que participou da "Mãos Limpas". A operação italiana é amplamente criticada por juristas do mundo todo pelos seus excessos e também utilizou da ferramenta das Delações Premiadas e dependeu do espetáculo midiático para "condenar" suspeitos antes do julgamento.
Para Patrick Gomes, desde que começaram a ser utilizados no país, os institutos de negociação que estão por trás da ferramenta da delação premiada estão sendo usados sem nenhuma forma de regulamentação.
"A delação, por ser negocial, dá margem a muita arbitrariedade. Você vê que os procuradores da Lava Jato negociam coisas que não poderiam negociar. Hoje, o empresariado que fez delação está em Nova York ou cumprindo prisão domiciliar. Esse é o problema dos institutos negociais, porque, no capitalismo, eles acabam reproduzindo o modo de atuação do capital: quem tem mais dinheiro escapa, quem não tem fica para trás", explicou.
De acordo com o advogado, a utilização indiscriminada de delações é prática comum do direito estadunidense, no qual Moro também se inspira. O juiz cursou o programa para instrução de advogados na Universidade de Harvard, nos EUA, e, em 2009, como foi vazado pelo site Wikileaks, chegou a participar de treinamentos do Departamento de Estado Norte-Americano para juristas brasileiros, um dos pontos mais polêmicos e questionáveis de seu currículo.
"Moro faz parte de uma geração de juízes, de uma faixa de idade de 40 anos, que meio que se encantou com uma visão do direito norte-americano. Talvez influenciado por séries de TV norte-americanas, acabou bebendo dessa fonte. O problema é o transplante de institutos norte-americanos no direito brasileiro sem nenhuma adaptação e crítica em relação ao nosso sistema. Nos EUA, se você divulgar a conversa de um presidente da república [como Moro fez com a ex-presidenta Dilma Rousseff], você é preso, por exemplo", critica.
Jurisdição universal
Um dos principais excessos praticados por Moro é a forma como grande parte dos julgamentos das mais de 40 fases da Operação Lava Jato caem na sua comarca, mesmo que os casos não tenham sido cometidos em Curitiba. O fenômeno, conhecido como "jurisdição universal", fere a Constituição Federal brasileira e é uma das principais linhas da defesa de Lula, uma vez que o caso do triplex aconteceu no Guarujá, litoral de São Paulo. Além do uso da jurisdição universal, o papel do juiz se torna difuso, se misturando às atribuições de investigadores de polícia e dos promotores do Ministério Público (MP), tornando Moro um "líder" supremo de uma investigação de proporções gigantescas.
Além dos prêmios recebidos nestes quatro anos de Operação, o juiz Sérgio Moro, agora ultra-especializado em crimes de "colarinho branco", já percorreu mais de 13 cidades de nove estados brasileiros, e outras seis no exterior, para realizar mais de 50 palestras sobre sua atuação. Na cidade de Coimbra, em Portugal, uma palestra com o juiz chegou a ter ingressos vendidos por R$ 8,5 mil.
Por fim, é irônico ressaltar que qualquer uma dessas manifestações do juiz - palestras, prêmios, páginas virtuais de apoio a ele -, não é, tampouco, constitucional. O artigo 36 da Lei Orgânica da Magistratura (Loman) proíbe os juízes brasileiros de manifestarem, por meio de qualquer meio de comunicação, sua opinião sobre processos pendentes de julgamento. Em seu artigo sobre a operação "Mãos Limpas", entretanto, Moro prova que pouco se importa com isso ou com o princípio de imparcialidade que rege a magistratura. No texto, ele destaca que "a opinião pública, como ilustra o exemplo italiano, é essencial para o êxito da ação judicial".
Edição: Nina Fideles

Juíza determina prisão de mulher de 52 anos pelo furto uma mochila e quatro cadernos RETRATO DO JUDICIÁRIO

Juíza determina prisão de mulher de 52 anos pelo furto uma mochila e quatro cadernos





Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018

Juíza determina prisão de mulher de 52 anos pelo furto uma mochila e quatro cadernos

* Matéria atualizada às 16:27 para corrigir a informação para quatro cadernos.
Em meio à crise humanitária em curso nas audiências de custódia em todo país, multiplicam-se casos de abusos por parte de magistrados e magistradas que determinam a prisão em larga escala, aumentando ainda mais a população carcerária no país, bem como desvirtuando o propósito do modelo de audiência – que é aplicado em toda América Latina – e que visa o desafogamento do cárcere, bem como a diminuição de prisões injustas. Em São Paulo, após a gestão das audiências de custódia ficar a cargo da magistrada Patrícia Álvares Cruz, conhecida mundialmente por ter enviado uma mulher à prisão por um ano pelo furto de um frasco de shampoo, os casos de extremado rigor são narrados todos os dias.
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Nessa última quinta feira, 16, por exemplo, a Juíza de Direito Gabriela Marques da Silva Cruz determinou a prisão de uma mulher de 52 anos acusada de ter furtado uma mochila e quatro cadernos. Segundo depoimento de quem acompanhou o caso, os policiais viram L. P. dos S. na posse do material, pararam-na e percorreram loja por loja com ela até encontrar uma que havia dado diferença no estoque. Assim que identificaram, a ré foi levada à Delegacia, onde a fiança foi estabelecida em R$ 300,00. A acusada, em claro sinal de miséria econômica, não teve condições de arcar com o valor e dormiu na carceragem.
No dia seguinte, foi levada à audiência de custódia no Fórum da Barra Funda. O curioso é que o próprio representante do Ministério Público, diante da evidente desnecessidade e ilegalidade da prisão, pediu a soltura da ré. Apesar disso, a magistrada decretou a prisão de ofício, isto é sem ninguém ter pedido, pois para ela a ré havia tido outra passagem por furto no passado. A decisão espantou a todos pelo seu rigor, incluindo aqueles que estão vivendo o cotidiano de decretações de prisão nas audiências de custódia em São Paulo.
Entretanto, não é a única decisão de destaque negativo de Gabriela Marques da Silva Cruz na semana. A magistrada, indicada e colocada no cargo por Patrícia Álvares Cruz, determinou a prisão de dois jovens, sendo um deles de 27 anos e primário, pelo suposto tráfico de duas gramas de cocaína e uma de maconha. Ante a acusação de tráfico, Gabriela também enviou à prisão um homem de 53 anos que estava com 28g de maconha.
Outra juíza das audiências de custódia de SP, Helena Furtado de Albuquerque Cavalcanti, determinou a prisão por 9g de cocaína e 1,3g de maconha de R. M. T. e A. A. P., primários e de 53 e 35 anos, respectivamente. Não bastasse a quantidade irrisória de entorpecente, Helena colocou no despacho que eles haviam cometido tráfico e associação para o tráfico, cujas penas somadas, podem chegar a 8 anos de prisão.
São diversos casos. Defensores Públicos e Advogados destacam também que mulheres têm sido enviadas à prisão pela acusação de tráfico, ao invés de prisão domiciliar, como era a prática, bem como orientação dos tribunais superiores.

No caso de Lula, a injustiça é flagrante

Política

24 de janeiro

No caso de Lula, a injustiça é flagrante

por Guilherme Boulos — publicado 22/01/2018 00h16, última modificação 19/01/2018 10h32
O TRF4 pode condená-lo, mas Lula, não resta dúvida, será absolvido pelo tribunal da História. A injustiça é flagrante
Ricardo Stuckert
Lula
Não cabe hesitação: no dia 24, o lugar de todos que acreditam na democracia será nas ruas, em Porto Alegre, São Paulo e em todo o País
Na quarta-feira 24, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região julgará o recurso apresentado pelo ex-presidente Lula após a condenação em primeira instância pelo juiz Sergio Moro. Será um momento crucial da vida política brasileira. Os desembargadores estarão diante de uma encruzilhada: sustentar a farsa judicial de Moro ou constatar a absoluta falta de provas e, assim, reverter a decisão.
A ação do Ministério Público Federal, comandada pelo fanático Deltan Dallagnol, e posteriormente a sentença de Moro contra Lula foram evidentemente políticas.
Além de não haver uma única prova material, o processo foi acompanhado de medidas flagrantemente ilegais como a condução coercitiva do ex-presidente sem intimação prévia e o vazamento de grampos entre ele e a presidenta Dilma Rousseff.
Os agentes que deveriam assegurar a lei terminaram por violá-la. Em vez de se portar como juiz, Moro atuou todo o tempo na ação como promotor. Algum dia saberemos, provavelmente, suas reais motivações.
O casuísmo do Poder Judiciário nesse episódio é notório: o principal objetivo da condenação é retirar Lula das eleições. Os próprios prazos de tramitação do processo desrespeitaram todos os ritos, furando filas para que o julgamento pudesse coincidir com a inviabilização eleitoral.
O Brasil inteiro sabe disso, comentaristas de jornais e televisão nem sequer têm a preocupação de preservar algum decoro na farsa. São tempos de golpe. Golpe que destituiu Dilma Rousseff, impôs uma agenda sem precedentes de retrocessos sociais ao povo brasileiro e entrou, enfim, em seu terceiro ato: impedir, no tapetão, o primeiro colocado em todas as pesquisas realizadas de concorrer à Presidência da República.
Mais uma vez a história se repete como farsa. Em 1964, a ditadura cassou o mandato do então senador Juscelino Kubitschek e suspendeu seus direitos políticos por dez anos, acusando-o de possuir ilegalmente um apartamento luxuoso em Ipanema.
Posteriormente, a Justiça comum mandou arquivar o processo por completa falta de provas. Mas o linchamento na mídia de JK convenceu parte da população de que o apartamento era dele. Mais uma vez um apartamento, mais uma vez sem provas. Mudam os nomes e os tempos, permanece o método.
A casa-grande sempre jogou baixo e nunca soube perder. Vale-se de todos os recursos, da instrumentalização do combate à corrupção para interesses escusos – de Carlos Lacerda aos udenistas de hoje – ao adestramento do Judiciário e da mídia para dar verniz de legitimidade aos golpes mais escancarados.
Essa turma não tem projeto nacional ou compromisso com qualquer princípio. Não deixa de ser emblemático que tenha se voltado contra Lula. O ex-presidente não pode ser acusado de radical. Em seus governos, como ele próprio reconheceu inúmeras vezes, os abastados não deixaram de ganhar. No entanto, querem mais, querem tudo. E vão até as últimas consequências.
A maior parte da elite brasileira é profundamente antidemocrática. É “povofóbica”. Que fique a lição histórica de que não há conciliação possível. Ou teremos força e ousadia para virar o tabuleiro ou então ficaremos reféns do eterno retorno dos golpes no Brasil.
Por tudo isso, a luta contra a condenação de Lula significa ser consequente na luta contra o golpe. Combater a perseguição e defender o direito de Lula ser candidato é defender a democracia. Não sabemos ainda qual será o julgamento do TRF4, embora haja sinais de cartas marcadas.
Independentemente da decisão da quarta 24, não restam dúvidas de que Lula será absolvido no tribunal da História. A injustiça é flagrante. Quem está hoje no banco dos réus, se seguir a farsa, sairá como mártir. E seus acusadores terão a merecida infâmia.
Como disse Charles de Gaulle, o futuro dura muito tempo. Por isso, esta é a hora de nos mobilizarmos com todas as forças contra esse absurdo. Não cabe hesitação: no dia 24, o lugar de todos que acreditam na democracia será nas ruas, em Porto Alegre, São Paulo e em todo o País
Fonte: Carta Capital

Cármem Lúcia, o direito das leis e a lei moral

Cármem Lúcia, o direito das leis e a lei moral

Como era de se esperar, a presidente do STF não quis “manchar sua mideografia” e suspendeu a posse da filha de Roberto Jefferson no Ministério do Trabalho. Cristiane Brasil segue no limbo, em mais uma tentativa de que Temer possa se livrar da Cristiane Brasil  sem que se despejem sobre ele os “instintos mais primitivos” do pai.
Já se disse aqui que, embora a moça seja uma dose para elefante, tem a massa de uma pluma se comparado a Moreira Franco, a quem o mesmo Supremo reconheceu que poderia ser ministro, pois é assim que a Constituição prevê, no seu artigo 84, exigindo apenas,três artigos adiante, que tenha mais de 21 anos e esteja em gozo de seus direitos políticos.
Portanto, o que Gilmar Mendes considerou obstrução da Justiça no caso de Lula era, juridicamente, o mesmo que Celso de Mello achou absolutamente normal, no caso de Moreira e mesmo, até, do que Cármem Lúcia considerou imoral nesta madrugada.
Quando a crônica futura escrever como o país despencou para um regime de arbítrio judicial, muitos não acreditarão que em menos de dois anos uma corte suprema dançasse tanto ao sabor das conveniências político-midiáticas.
E que as decisões que tomam juízes no Brasil passaram a considerar a lei única, de um só mandamento: todo poder emana da mídia e em seu nome será exercido.
Não pense que é diferente do que nos reserva a quarta-feira. Um juiz guindado à condição de jurisdição nacional, a partir de um corrupto de “estimação” que cultivou  por anos, ofereceu o que a mídia queria e isso foi realimentado por ela.
“Mandar para Curitiba” virou o sinônimo de mandar à forca, num juízo onde a sentença é conhecida antes mesmo do processo.
E qual juiz, mesmo envergando a toga do Supremo, há de discordar? Faziam, decerto, objeções inócuas, ao tempo de Teori Zavascki – como foi no caso da gravação ilegal de Dilma Rousseff, objeção que resultou em nada, é claro.
A sombra do Duce dos Pinhais cobriu toda o Judiciário e nos faz regredir, sob aplausos de muitos que não pensam e vários que não percebem que fazem o mesmo no seu julgamento mental, ao direito da moral, em lugar do direito das leis.
É uma versão bem piorada da “lei moral”  do filósofo Emmanuel Kant, mas que encontrou, afinal, juízes que pensam, como está escrito na lápide do pensador alemão,  que” há um Deus sobre mim e um Deus dentro de mim“.
O de cima, claro, pensa como o que há dentro deles, e se o Deus de cima discordar, que apresente recurso em cinco dias úteis.

Kennedy: Sentença de Moro dá margem a absolver Lula

Kennedy: Sentença de Moro dá margem a absolver Lula

Espécie em extinção entre os comentaristas políticos na grande imprensa, pelo equilíbrio, Kennedy Alencar diz hoje em seu comentário na CBN – reproduzido em seu blog – que, embora o TRF-4 costume confirmar as sentenças de Sérgio Moro, no julgamento de quarta-feira há “margem para absolvição” de Lula, porque, desta vez, os desembargadores “receberam uma bola quadrada” do juiz paranaense, com o que maioria dos juristas vê como vícios  formais: inversão do ônus da prova, divergência entre a denúncia formulada e a sentença dada e formação de juízo assentada na palavra de corréus, que não são obrigados a dizer a verdade.
Leiam abaixo, o texto do Kennedy, embora eu ache que falta um ingrediente de sentido inverso ao tempero  julgamento de Porto Alegre: é que os juízes decidem num clima de imposição do establishment que nem de longe parece mantê-los na esfera da técnica jurídica.

TRF-4 recebeu bola quadrada de Moro

Kennedy Alencar, em seu blog
Os três desembargadores que julgarão o recurso de Lula terão desafio inédito na Lava Jato, porque analisarão sentença extremamente contestada por boa parte dos juristas e advogados, algo diferente de outras condenações de Moro que chegaram a Porto Alegre.
Há margem jurídica para absolvição, o que não é o comum nas sentenças que saem de Curitiba e chegam a Porto Alegre. As sentenças de Moro normalmente chegam redondas a Porto Alegre e são confirmadas na sua grande maioria pelos três desembargadores da 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, sediado em Porto Alegre. Agora, os três desembargadores receberam uma bola quadrada.
Advogados criminalistas apontam fragilidades da sentença de Moro, como inversão do ônus da prova, condenação por fato que não consta da denúncia e incapacidade de provar a ligação entre a reforma no apartamento com três contratos da OAS com a Petrobras.
A decisão do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, se confirmada ou não, terá forte influência no rumo político do Brasil. Isso aumenta muito a responsabilidade dos desembargadores. Como há fragilidade jurídica na sentença, o correto seria a absolvição.
Quem quer uma condenação política e moral de Lula pode fazer isso nas urnas. Portanto, os desembargadores terão de fundamentar melhor as suas decisões, caso optem pela condenação. Diferentemente de casos em que delatores assumiram culpas e apresentaram provas, Lula contesta com argumentos jurídicos consistentes a condenação de Moro.

Jornalistas mexicanos investigaram fundador do CAM

Em entrevista à Pública, Témoris Grecko, um dos autores do livro sobre Jorge Serrano, conta por que ele foi processado por corrupção no México, onde nasceu a rede de sites armadilha que constrange mulheres que querem abortar
22 de Janeiro de 2018
Sites armadilha buscam atrair mulheres com gravidez indesejada dando a entender que conseguirão um aborto, mas, quando elas chegam lá, são arrastadas para palestras pró-vida, exibição de slides grotescos e sessões de terrorismo psicológico para não abortar. Assim atua o Centro de Ajuda à Mulher (CAM), que, criado no México, hoje presente em muitos países da América Latina, incluindo o Brasil (leia a reportagem), com apoio da Igreja Católica. Curiosamente, seu fundador, um famoso pró-vida mexicano, está envolvido em escândalos de corrupção e desvio de recursos públicos. Em entrevista por e-mail, o jornalista mexicano Témoris Grecko, que escreveu com o jornalista Salvador Frausto o livro El vocero de diosJorge Serrano Limón y la cruzada para dominar tu sexo, tu vida y tu país (“O porta-voz de deus. Jorge Serrano Limón e a cruzada para dominar seu sexo, sua vida e seu país”), conta quem é esse homem e como os CAMs nasceram e se multiplicaram à custa de empresários e políticos de extrema direita.
Arquivo pessoal
Os jornalistas mexicanos Témoris Grecko (foto) e Salvador Frausto esceveram o livro sobre o fundador do CAM
Vocês escreveram um livro sobre Jorge Serrano. Pode contar aos leitores brasileiros quem é esse homem? E o que os motivou a fazer essa investigação?
Jorge Serrano Limón foi um líder da ultradireita católica mexicana, mas há dez anos precisou sair dos holofotes em consequência dos escândalos de opinião pública em que se envolveu e dos graves problemas judiciais por mau uso de recursos públicos. Sua desaparição pública coincidiu com a publicação de nosso livro em 2008, e temos a suspeita de que alguém o fez entender – ou ele entendeu por si próprio – que suas atividades públicas eram totalmente contraproducentes e que o melhor para ele e para seu movimento era se calar.
Como ativista católico, Serrano Limón encabeçou manifestações contra exibições de artes plásticas e filmes e também contra a legislação que estabeleceu o direito de a mulher decidir sobre seu corpo e reprodução em 2007. Em geral, essas ações provocavam o repúdio das pessoas e até mesmo favoreciam os que ele queria censurar, como ocorreu no caso do filme O crime do padre Amaro [brasileiro], que se converteu em um grande sucesso de bilheteria.
Nós escrevemos o livro porque na época Serrano Limón estava muito ativo. E também porque nos pareceu que era um bom exemplo de como se formaram os líderes ultradireitistas de sua geração.
Como funciona o trabalho do CAM no México? Aqui no Brasil eles têm um site para atrair mulheres que estão com gravidez indesejada, que os procuram acreditando que farão um aborto, mas na verdade serão convencidas de forma muito dura a não abortar. O método é semelhante?
Sim, é semelhante. Isto é o que escrevemos no livro: “Até 1989, o Comité Nacional Provida havia se limitado a atuar como um grupo contestador. Mas a partir deste ano deu ao seu trabalho um caráter mais integral com uma oferta de serviço”. No livro escrevemos: “Um abortista em um debate perguntou [a Serrano Limón] ‘o que você está fazendo para as mulheres que querem ter um aborto?’, se lembra Rocío Gálvez (que era o diretor do Provida). Jorge continuou pensando e meditando e depois foi aos Estados Unidos e viu o que as clínicas fizeram lá e levaram para o México”. Com a ajuda da estadunidense Laura Nelson, inaugurou o primeiro Centro de Ajuda à Mulher (CAM) em 15 de agosto de 1989. “Nós o colocamos na Cidade do México”, explicou Serrano em entrevista a nós para o livro. “E começamos a evitar abortos, um e outro e outro, tiramos essa ideia da cabeça das mulheres e depois levamos o programa a Monterrey, Puebla, Veracruz, Guadalajara, e continua crescendo. Hoje [2008] temos 42 centros na República Mexicana”. O método para atrair as clientes nesses primeiros anos era colocar anúncios nos jornais em que lançavam um anzol: “Gravidez inesperada? Existe uma solução para sua gravidez! Garantido: Não deixamos você estéril nem furamos seu útero”, e ao lado o número telefônico do Provida. Serrano Limón descreve o que acontece depois: “Elas nos ligam: ‘Oi, quanto me cobram pelo aborto?’. ‘Não posso te dar informações pelo telefone, venha’. Chegam, lhes damos um questionário, se faz um procedimento e desistem de abortar”. O procedimento inclui práticas em que lhes explicam que o aborto é “um assassinato e um pecado mortal” e lhes mostram um filme com imagens impactantes.
Os CAMs multiplicaram-se e tiveram êxito tal que ganharam não só apoio financeiro para ampliar, mas respaldo econômico pessoal para o próprio Serrano Limón, que assim pôde se dedicar de forma integral ao Provida. “Depois que fundei o de cá e o de Monterrey, um empresário me disse: ‘Ei, eu preciso de mais centros em Guadalajara’, e eu disse: ‘Não posso, porque tenho que vender casas, vou fazendo com o tempo que me sobra’. E ele disse: ‘Não, isso leva tempo integral, quanto você precisa para viver?”. Serrano era franco: ‘Eu preciso de 8 milhões de pesos’. E ele disse: ‘Eu dou para você’. Foi quando eu deixei os imóveis e comecei a me dedicar em tempo integral ao Provida”. Durante suas três décadas no comitê, diz Jorge Serrano Limón, “nunca” tirou dinheiro do grupo, mas “recebe apoio financeiro de quatro empresários”, dois de Monterrey, um de San Luis Potosí e um da Cidade do México. Não disse seus nomes: “Ah, prefiro não, conservo o anonimato, eles vêm me apoiando e quero evitar possíveis ataques contra eles”.
Arquivo pessoal
“El vocero de dios. Jorge Serrano Limón y la cruzada para dominar tu sexo, tu vida y tu país” Salvador Frausto y Témoris Grecko Grijalbo, México, 2008
Aqui, o CAM é diretamente ligado à Igreja Católica, liderado por padres e bispos e está nos programas da CNBB. No México funciona da mesma maneira?
Não depende da Igreja, mas do Provida, que é uma das organizações do entorno eclesiástico. O problema legal em que está envolvido Serrano Limón tem a ver com o financiamento dos CAMs com dinheiro público: em 2002, o presidente do Comitê de Orçamento da Câmara dos Deputados era Luis Pazos, um ultradireitista. O comitê tinha acordos que Pazos modificou ilegalmente para desviar 30 milhões de pesos de um programa de planejamento familiar e entregar ao Provida para os CAMs, apesar de os objetivos do Provida serem declaradamente opostos aos dos programas públicos, que promovem métodos contraceptivos. Esse desvio foi detectado por organizações civis e denunciado, mas o problema para Serrano Limón veio quando ele foi incapaz de comprovar o uso adequado desses fundos públicos. Por isso foi processado.
Pazos não foi questionado pelo juiz sobre a forma ilegal de repassar esses recursos ao Provida.
Pode contar como foram os escândalos de corrupção que envolveram Serrano e sua organização pró-vida? Ele chegou a ser preso duas vezes, pelo que entendi. Sabe como está o processo hoje?
Em 2005, o Ministério do Serviço Público ordenou que Serrano Limón devolvesse 25 milhões de pesos, que se recusou a pagar. E conseguiu recursos legais para evitar isso. Em 2012, um juiz federal condenou-o a quatro anos de prisão pelo mau uso de 2 milhões e 496 mil pesos para o CAM. Em fevereiro de 2016, Serrano Limón foi detido por dois dias por crime de peculato por 25 milhões de pesos (é o mesmo processo). De alguma maneira – provavelmente recebeu apoio de alguém com muito dinheiro –, ele conseguiu pagar fiança e atualmente enfrenta o processo em liberdade.
No México, a legislação sobre o aborto é regional, certo? Como anda a atuação dos grupos pró-vida? Pergunto porque no Brasil vivemos uma onda reacionária que ameaça os poucos direitos conquistados pelas mulheres…
Em 2007, a Cidade do México aprovou a descriminalização total do aborto, que garante que qualquer mulher do mundo possa praticar um aborto gratuitamente em hospitais públicos da cidade, nas primeiras 13 semanas de gravidez. Até então, em todo o país, as leis estatais permitiam o aborto em certos casos, como estupro, má-formação ou perigo de vida para a mãe. Mas a resposta da direita religiosa tem sido cancelar esse direito em mais da metade dos estados, que têm aprovado normas que protegem o direito à vida. Atualmente, na conjuntura das eleições presidenciais, as igrejas convergem em um movimento “pela família” que pretende aniquilar o direito ao aborto e ao casamento homossexual.
Fonte: Pública