domingo, 28 de outubro de 2018

DISCURSO DE ÓDIO Como surgiu o "antipetismo", e do que ele se alimenta?

DISCURSO DE ÓDIO

Como surgiu o "antipetismo", e do que ele se alimenta?

Especialistas analisam que o discurso contra corrupção concentra-se no PT, mas o problema é endêmico do sistema político

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
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Mulher encena "execução" de homem com fantasia alusiva ao ex-presidente Lula / Foto: Heuler Andrey / AFP
O voto contra o Partido dos Trabalhadores foi a principal motivação de muitos eleitores que optaram pelo candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno das eleições presidenciais, em 7 de outubro. Foi, também, o principal sentimento entre os apoiadores do candidato militar que foram às ruas de São Paulo (SP) no último domingo (21). Para 98% das pessoas que estavam no ato na Avenida Paulista, o PT "é o partido mais corrupto" e "afundou a economia". 
A pesquisa é do Monitor do Debate Político no Meio Digital, em parceria com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. E mesmo que o partido não conste a lista dos que têm mais lideranças comprometidas em escândalos de corrupção, o dado mostra como o candidato do PSL conseguiu atrair um grande eleitorado capitalizando o discurso de ódio contra o PT.
A socióloga e jornalista Maria Eduarda da Mota Rocha, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que o sentimento antipetista encontrou espaço em um movimento de recusa do sistema político. Ela pondera também que o processo de rejeição às instituições e a crise de representatividade dos representantes políticos ocorre em todo o mundo.
"Há, por um lado, um grande processo de desqualificação da política, que atinge os poderes instituídos. E o PT está no poder há um certo tempo. Então, ele fatalmente é alvo desse sentimento de recusa da política que a gente está vivendo. Esse é um fenômeno global, que tem levado à ascensão da extrema direita em muitos lugares do mundo", pontua.
Mas, segundo a professora, esse processo se intensifica no Brasil por causa do "evidente desprezo pela democracia" que historicamente foi cultivado no país. 
"A elite brasileira tem um forte desprezo pela democracia. A vinculação da elite brasileira com a democracia sempre foi casuística e conjuntural. Tanto que em 1964 ela abriu mão [da democracia] e agora também está abrindo", afirma.
O professor do departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) Ricardo Musse aponta que o sentimento contra o partido foi forjado historicamente. Ele afirma que o discurso foi utilizado em todas as eleições presidenciais em que Lula concorreu — contra Collor, em 1989, e contra Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998. 
Para ele, o antipetismo — que foi atenuado em 2002, por conta do desgaste político do PSDB — entra em uma nova fase assim que o partido assume o poder. Desta vez, o discurso é vinculado à sensação de corrupção institucionalizada, a partir da exposição midiática do caso do Mensalão, a partir de 2005.
"Esse quadro se intensificou ainda mais a partir de 2012, com o julgamento do mensalão. Foi uma exposição midiática muito intensa que começou associar o PT de forma muito intensa à corrupção", afirma. "Esse processo inicial foi intensificado em 2014 com o início da Operação Lava Jato. O propósito inicial da operação, expresso no documento que Sérgio Moro escreveu, era mesmo 'destruir o sistema político'. Mas o primeiro passo foi enfraquecer e tentar tirar do poder o partido que era hegemônico na sociedade, o PT."
O professor lembra que o tema da corrupção, no entanto, sempre foi a principal bandeira para desarticular governos progressistas no país. Mas ele pontua que a corrupção, no entanto, não explica a crise econômica.
Já a professora Maria Eduarda Rocha analisa que o sentimento de corrupção se alia a uma campanha de desqualificação do Estado e, em contrapartida, de valorização do discurso neoliberal. 
"A gente precisa enfrentar essa dimensão do privatismo da cultura brasileira. Quando a gente fala do privatismo neoliberal, a gente costuma associar esse discurso a entrega das empresas estatais às mãos privadas. Essa é uma dimensão trágica que a gente vai ver ser reforçada caso Bolsonaro seja eleito", afirma a professora.
"Mas existe uma outra dimensão do privado, que se articula a essa, que é muito mais cotidiana. Há toda uma narrativa de desqualificação do público que acabou sendo comprada pelas pessoas porque historicamente o Estado aparecia para as pessoas, como uma figura repressora. É muito novo, no Brasil, o Estado aparece como figura garantidora de direitos." 
Enquanto os holofotes se viram para o PT, quem lidera em número de parlamentares investigados no Supremo Tribunal Federal (STF) é o PP. Dos 46 deputados em exercício em 2017, pelo menos 27 integrantes respondiam a ações penais ou inquéritos. 
Já na lista de políticos investigados por suspeita de envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras, a maioria também pertencia à sigla. Bolsonaro esteve filiado na legenda entre 2005 a 2016.
Edição: Diego Sartorato

PT é o partido com mais governadores. PSL surge no mapa eleitoral


ELEIÇÕES 2018

PT é o partido com mais governadores. PSL surge no mapa eleitoral

Petistas têm quatro vitórias, todas no Nordeste. Partido do presidente eleito venceu em três estados neste domingo. Tucanos também conseguem três triunfos, inclusive no maior colégio eleitoral
por Redação RBA publicado 28/10/2018 20h51
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governadores
Vitoriosa no Rio Grande do Norte com quase 58%, Fátima foi a única mulher eleita governadora
São Paulo – Finda a eleição nas 27 unidades da federação, o PT, mesmo derrotado no plano federal, é o partido com maior número de governos estaduais. Foram quatro, todos na região Nordeste – além de sair vitoriosa nas outras cinco candidaturas que apoiou na região.
A última vitória veio neste domingo (28), com o triunfo no Rio Grande do Norte, que tem a senadora Fátima Bezerra como única mulher eleita governadora. Professora de origem, ela tem 63 anos e é filiada ao partido praticamente desde o início, em 1981.
O PSL do presidente eleito aparece no mapa eleitoral com três estados, dois na região Norte (Rondônia e Roraima) e um no Sul (Santa Catarina). O PSDB venceu também em três, todos hoje, incluindo o maior colégio eleitoral, São Paulo, além de Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. 
O MDB, que havia vencido em Alagoas no primeiro turno, ganhou hoje no Distrito Federal, com um estreante (Ibaneis), e no Pará, com um "veterano" (Helder, filho do cacique Jader Barbalho). Terminou também com três.
No primeiro turno, o PSB venceu em três estados: Espírito Santo, Paraíba e Pernambuco, todos com reeleição. Na mesma situação, o PT voltou a ganhar na Bahia, no Ceará e no Piauí.
O PSC levou o segundo maior colégio, Rio de Janeiro. E venceu também no Amazonas. O Novo ficou com o terceiro maior colégio, Minas Gerais.
Também no dia 7, o DEM conseguiu dois governos estaduais, ambos na região Centro-Oeste: Goiás e Mato Grosso. O PSD venceu há três semanas no Paraná e hoje em Sergipe.
Ainda com um cada, ficaram PCdoB (Maranhão), PDT (Amapá), PHS (Tocantins) e PP (Acre).

VÍDEO: Policiais agridem manifestantes anti-Bolsonaro em Salvador JÁ COMEÇOU?

VÍDEO: Policiais agridem manifestantes anti-Bolsonaro em Salvador

 

O vexame do discurso do novo presidente

O vexame do discurso do novo presidente. Por Milton Hatoum

 
Bolsonaro discursa (Foto: Reprodução/Band News)
Publicado originalmente na fanpage do autor no Facebook
POR MILTON HATOUM, escritor
Foi um vexame o primeiro discurso do novo presidente. Antes da fala, o eleito e seus assessores, orando de mãos dadas e olhos fechados, pareciam membros de uma seita religiosa fundamentalista, e não dirigentes políticos de um Estado laico.
O discurso, de uma vulgaridade gritante (na forma e no conteúdo), antecipa um estilo de governar.
Não menos vulgares são os assessores e bajuladores que cercam o capitão. Ao ver e ouvir as cenas patéticas da reza e da fala, me lembrei das frases de um conto de Tchekhov:
“Estou cercado de vulgaridades por todos os lados […] Gente enfadonha, vazia… Não há nada mais medonho, mais ultrajante, mais deprimente do que a vulgaridade. Fugir daqui, fugir hoje mesmo, senão vou ficar louco!”
Mas não é preciso fugir. Vou ficar aqui, lendo, escrevendo, dando palestras sobre literatura, questionando democraticamente essa figura sinistra e o que ela representa.
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Tchekhov: “O professor de letras” (In: “O assassinato e outras histórias”, trad. Rubens Figueiredo, ed. Cosac & Naify, 2002)

Não há barbárie que dure para sempre. Por Valter Pomar


Não há barbárie que dure para sempre. Por Valter Pomar

 
“Somos melhores do que isso”
POR VALTER POMAR
O TSE acaba de informar que o candidato da extrema direita ganhou as eleições presidenciais de 2018, com 10 milhões de votos de vantagem.
Nossa resposta é: resistiremos.
O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e mais de 140 milhões de eleitores.
O neofascista e ultraliberal não tem o apoio da maioria do povo brasileiro.
A votação em Haddad é um dos muitos indicadores de que, contra o neofascismo e o ultraliberalismo, haverá muita resistência.
Não devemos ter ilusões: a extrema direita já demonstrou estar disposta a implementar, mesmo que a ferro e fogo, seu programa ultraliberal e antidemocrático.
E um dos principais obstáculos para isso é e continuará sendo o conjunto das organizações da esquerda brasileira, com destaque para o PT, a CUT, o MST, a UNE e a Frente Brasil Popular.
Foram estas forças que vertebraram a luta contra o golpe e contra a extrema direita.
No curto prazo, caberá a estas organizações:
a/contribuir na resistência democrática e popular contra o neofascismo e o ultraliberalismo, mobilizando imediatamente contra o que tentará fazer Temer, no apagar das luzes de seu governo golpista;
b/reforçar as medidas em defesa dos direitos humanos, da vida e da integridade de seus militantes, atividades e sedes, impedindo que a violência combinada de grupos para-militares e a cumplicidade ativa ou passiva de setores do aparato judicial e de segurança destruam, intimidem e/ou desorganizem o funcionamento da esquerda brasileira;
c/formular uma estratégia e um modelo organizativo adequados ao novo momento histórico, articulando partidos e movimentos, bancadas parlamentares e governos liderados pelo PT e aliados, em uma frente democrática e popular em defesa das liberdades democráticas e dos direitos econômicos e sociais do povo;
d/retomar com toda energia a campanha Lula Livre.
No médio e longo prazos, o êxito da resistência, a derrota do neofascismo ultraliberal, a reconquista do governo federal, a luta por transformações democrático populares e socialistas, dependerão de que percebamos que não estamos em 1968, nem em 1987 ou 1995.
A estratégia adotada pela maior parte da esquerda brasileira, nos momentos citados, não é adequada para o momento que teve início na noite de 28 de outubro.
Um dos maiores desafios do PT será ajudar a construir e implementar uma linha política estratégica e uma conduta cotidiana à altura desta nova situação histórica.
As vitórias da extrema direita nos estados de SP, RJ e MG, bem como a força da centro-esquerda e do PT no Nordeste precisam ser objeto de análise detida.
Nossa linha política deve dar grande destaque à questão regional, que sobressai a cada eleição.
Nossa linha também deverá combinar, de maneira adequada, a luta em defesa das liberdades democráticas, com a defesa dos interesses econômicos e sociais das classes trabalhadoras, evitando tanto o economicismo quanto a defesa “em abstrato” da “democracia”.
E nossa linha inclui continuar defendendo e construindo o Partido dos Trabalhadores.
O Partido dos Trabalhadores foi construído em 1980, na luta contra a ditadura e a “transição conservadora”. Em 1989 quase ganhamos à presidência da República. Nos anos 1990 estivemos na linha de frente da oposição ao neoliberalismo. De 2002 a 2016 governamos o Brasil. Desde então, lutamos contra o golpe e lideramos o enfrentamento contra o neofascismo.
Essa trajetória nos converte, automaticamente, em inimigo principal do governo que tomará posse em janeiro de 2019.
Terão continuidade a perseguição midiática, o arbítrio judicial e as violências paramilitares. Tentarão invibializar nosso funcionamento, dividir nossas fileiras e, inclusive, cassar nossa legenda.
Só derrotaremos estas e outras agressões — a começar pela prisão política de Lula — se mantivermos uma linha política correta, o que inclui reconstruir os nossos vínculos com setores da classe trabalhadora que se distanciaram de nós.
Faz parte da defesa do PT o balanço de nossa campanha eleitoral.
Balanço dos acertos (entre os quais destacamos a defesa até o limite da candidatura de Lula), dos erros políticos (entre os quais destacamos o tempo gasto e as concessões feitas no sentido de atrair setores de “centro”, quando mais importante teria sido priorizar a desconstrução de Bolsonaro e a conquista do voto popular) e organizativos (onde se destaca o atraso com que se enfrentou o tema da comunicação nas chamadas redes sociais).
Ao fazer o balanço da campanha presidencial, articulado ao balanço das campanhas para governador, senado e proporcionais, devemos ser os primeiros a apontar nossos erros.
Entre eles, o de não termos conseguido impedir, nem reverter, a conquista de parcelas das classes trabalhadoras pelo discurso neofascista e ultraliberal.
Ao reconhecer erros, não nos furtaremos a desmascarar aqueles que criticam e pedem autocrítica do PT apenas para esconder a contribuição que deram, por ação ou omissão, para o crescimento político e eleitoral da extrema direita. Inclusive, em alguns casos, não tomando posição explícita na reta final do segundo turno.
A covardia destes contrasta com a valentia de milhares de “famosos” e milhões de “anônimos” que dedicaram tempo, suor e saliva para impedir a catástrofe.
A militância do PT ocupou seu lugar na primeira fila no combate contra o neofascismo ultraliberal.
O PT deve estar aberto para acolher a militância que despertou para a luta desde o golpe, bem como aquela que hoje está abrigada em outros espaços, como o MST e organizações próximas.
No caso do PCdoB, o PT deve abrir um diálogo que permita a este partido contornar os problemas criados pela cláusula de barreira.
Diálogo similar deve ser feito no terreno sindical e das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, na perspectiva de unificar ao máximo que for possível as forças da esquerda.
O candidato neofascista e ultraliberal ganhou na apuração dos votos, com o apoio da fraude, do arbítrio, da mentira, do abuso de poder econômico e da manipulação midiática.
O período que se inaugura será de imensos desafios e dificuldades. Sem subestimar as dificuldades do governo da extrema direita, tampouco devemos minimizar o tempo e o esforço que serão necessários para derrotá-lo.
Mas a vitória é possível, se ao lado de uma linha política correta, formos capazes de nos manter como expressão do povo consciente e que luta, da classe trabalhadora, dos movimentos populares e sindical, da cidadania democrática e da militância de esquerda. E se formos capazes de continuar construindo o Partido dos Trabalhadores.
Valter Pomar
20:00, 28/10

HADDAD SE APRESENTA COMO LÍDER DA OPOSIÇÃO A BOLSONARO