domingo, 2 de dezembro de 2018

MAIS UMA: A lambança do STF no julgamento sobre o indulto

A lambança do STF no julgamento sobre o indulto

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Em dois dias, o Supremo Tribunal Federal praticamente terminou de julgar o decreto de indulto de 2017. Votos muitos longos atrasaram o resultado. Terminou, provisoriamente, com maioria absoluta já formada, faltando dizer se a cautelar da ministra Carmen Lúcia – os acréscimos do ministro Roberto Barroso – se sustentam ou não. Houve um pedido de vista do ministro Fux. E, ao final, outro pedido de “vista institucional”, feito pelo presidente.
Com o devido respeito que a Corte merece, é bizarro discutir se uma cautelar, cujo mérito foi derrotado, cai ou não cai. Por qual a razão, motivo ou circunstância a cautelar se manteria, se o decreto foi considerado constitucional? Aliás, supondo, ad argumentandum tantum, que a cautelar se mantenha, cabe a pergunta: até quando? Até o dia seguinte? Até o ano que vem? Mas, se o decreto é constitucional e a cautelar disse que era inconstitucional, por qual razão a cautelar se manteria? É como se alguém estivesse preso por prisão cautelar e o Plenário julgasse procedente o pedido de habeas corpus… e ainda assim a prisão cautelar se mantivesse.
No mais, embora tardiamente — afinal, a liminar da ministra Carmen deveria ter sido apreciada pelo Plenário no prazo fixado na Lei 9.868 —, o STF, com seus seis votos já bem demarcados pela improcedência da ADI, houve-se bem, explicitando os limites do indulto e o caráter soberano, nessa matéria, que tem o presidente da República. Certo ou errado, it is the law, como diria o médico em House of Cards ao se negar a furar a fila de transplantes de fígado. Claro que o presidente não pode tudo; há limites materiais constantes na própria Constituição. Mas o STF não pode se substituir ao presidente.
Além dessa lição acerca dos limites do Judiciário, duas outras lições podem ser tiradas. Primeiro, a urgente necessidade de dar um basta à concessão de cautelares sem a imediata submissão ao Plenário. É ilegal e inconstitucional que cautelares se mantenham de forma monocrática.
A segunda lição é a de como é bizarro tentar fazer pressão sobre o Supremo Tribunal a partir de dados capciosos. Campanhas por vídeo tipo “o indulto será o caos!”, “o indulto é o dilúvio jurídico!”, “o indulto acabará com a Lava-Jato!” e quejandos, não fazem bem à democracia. Nesse sentido, o ministro Gilmar pegou bem o bicho pelas aspas, em seu voto:
“Contudo, há questões importantes que são ignoradas ou distorcidas. Primeiramente, a tabela divulgada [por setores do MP] considera o tempo de pena que estaria cumprido ao final deste ano de 2018, caso em que poderiam ser impactados por eventual novo decreto de indulto natalino a ser concedido neste ano, supondo que o presidente fizesse um decalque deste decreto anterior. Presume-se, em exercício de futurologia, a aplicação de indulto ainda inexistente com critérios ainda não definidos a condenados que ainda não cumpriram os estimados lapsos temporais das penas mencionadas. Portanto, os termos do indulto de 2017, discutidos neste momento, não têm qualquer impacto, nos termos divulgados. Por outro lado, […] que dos 21 condenados elencados 14 são delatores que foram beneficiados, […] que já estavam livres do cárcere […] em acordos de colaboração premiada […], ademais, percebe-se, que grande maioria já teria cumprido ¼, ou até 1/3 da pena, de modo que o indulto seria aplicável mesmo se consideradas as frações de decretos anteriores, sugeridos pelo relator em seu voto”.
Enfim, a questão que resta é: qual é o dia em que procuradores como Dallagnol entenderão que o Direito se aplica mediante o devido processo legal, e que não se combate o crime arranhando direitos fundamentais? E que não se deve pressionar o STF desse modo? Será tão difícil entender isso? Aliás, procuradores não deveriam falar sobre processos em que não são protagonistas. Parece que a Lomin veda isso, pois não? Veja-se a frase de efeito de Dallagnol: a decisão do STF é a maior da história da “lava jato”. Ou indulto será a ruína da “lava jato” (o voto do ministro Gilmar enfrentou bem isso). E o voto do ministro Alexandre de Morais, também.
Tem gente que recorre à religião até mesmo quando se fala de Direito. Para facilitar a compreensão daqueles que se recusam a compreender, também o farei. Para ver se me entendem. Cai como uma luva.
Em Gênesis, Abraão discute com Deus o destino de Sodoma. Quantos justos lá haveriam? Cinquenta? Vinte? Dez? Quando se percebe que não havia nem mesmo cinco justos em Sodoma, Abraão, em vez de pedir perdão, com os olhos voltados aos céus, pergunta ao Pai: “Não agirá com justiça o Juiz de toda a Terra?”
Amós Oz — escritor israelense, fundador de um movimento pacifista em favor da solução de dois Estados — faz uma leitura muito bonita dessa passagem e do significado subjacente ao “atrevimento” de Abraão:
“Em outras palavras: você é realmente o juiz de toda a Terra, mas não está acima da lei. Você é realmente o legislador, mas não está acima da lei. Você é o senhor de todo o universo, mas não está acima da lei.”
Oz segue: “Não sabemos de nenhum raio que tenha fulminado Abraão como castigo por insolência ou ofensa aos céus”. Por que Deus não o fulminou? Simples: porque ninguém está acima da lei.
Quantos injustos serão beneficiados pelo indulto? Cinquenta? Dez? Vinte e cinco? Nenhum? Todos? Não sei. E não importa. Porque não é essa a questão. O Direito existe justamente para substituir esse tipo de raciocínio que dá margem a todo tipo de subjetivismo, que dá margem ao império dos homens substituindo-se ao império da lei.
Repito: o presidente não pode tudo, mas seu limite não é o STF enquanto STF; seu limite é o mesmo da corte: o Direito. O Direito que interdita.
Você é realmente o ministro, o procurador, o agente público… Ora, é preciso ter claro que todos têm uma função constitucional essencial à democracia e suas atribuições são parte daquilo que nos faz democratas.
Mas você (procurador, juiz, ministro, presidente, deputado), não está acima da lei. Ninguém está. Portanto, vamos obedecer a Constituição. E não ficar de nariz torcido, reclamando pelas redes sociais. E nem inventando números. Goste-se ou não, o Direito continua.
A “lava jato” continua. O indulto não é a ruína. O Sol nascerá amanhã. E os alarmistas que fiquem tranquilos: Deus prometeu que não mandaria outro dilúvio! E palavra de Deus é lei.
Do ConJur

A proposta da ESCOLA SEM PARTIDO: sem liberdade, sem inteligência, sem diálogo, sem ciência, sem.....

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Resultado de eleição fraudulenta do princípio ao fim

Pesquisa mostra que formadores de opinião da AL rejeitam Bolsonaro

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A imagem de Bolsonaro entre “formadores de opinião” da América Latina está longe de ser animadora. Pesquisa da Ipsos Latino-Americana que detalhou o prestígio dos presidentes de cada país do continente mostra que o brasileiro recém-eleito tem, na média continental, 74% de votos desfavoráveis contra 25% favoráveis.
Por país, a rejeição a Bolsonaro vai desde 55% no Brasil e 60% no Equador a 92% no México e 100% na Colômbia. A Ipsos ouviu 147 desses “formadores” em 15 países.

Desperdício de dinheiro com quem atua contra o Brasil e seu povo.

Brasil torra com o Poder Judiciário cerca de 2% do PIB

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O Judiciário quadruplicou o gasto com pessoal em pouco mais de duas décadas, em termos reais – já descontada a variação da inflação. Comparado com Executivo e Legislativo, foi o Poder que mais expandiu as despesas com a folha de pagamento de 1995 a 2017, último ano com dados consolidados. Especialistas em administração pública ouvidos pelo Estado acreditam que essa tendência deve se manter, já que o presidente Michel Temer sancionou na semana passada o reajuste de 16,38% para o Judiciário e o Ministério Público.
Em 20 anos, o País e a demanda por serviços cresceram, e mais servidores foram contratados – parte deles para ocupar as vagas dos que se aposentaram. No caso do Judiciário, contudo, houve um descompasso entre o crescimento do número de funcionários e o dos gastos com pessoal. Em 2015, em comparação com 1995, a despesa com a folha salarial era 120% maior do que seria caso tivesse apenas acompanhado o aumento no número de servidores.
A comparação se dá em termos reais, ou seja, os servidores tiveram ganhos acima da inflação no período. Não foi possível fazer os cálculos em relação a 2017, porque o Boletim Estatístico Pessoal do Ministério do Planejamento, que detalhava o número de servidores dos três Poderes, deixou de ser publicado.
O Ministério Público da União, que não tem status de Poder, apresenta a relação mais estreita entre a expansão de pessoal e o crescimento dos gastos com folha de pagamento. No final de 2015, gastava 28% a mais do que se somente bancasse as novas contratações. Porém, no histórico da evolução de gastos com pessoal, o MP da União registrou aumento de despesas maior até do que o Judiciário: mais de 347%, em termos reais, de 1995 a 2017.
Na avaliação de estudiosos da administração pública, há dois motivos principais para explicar a maior expansão dos gastos do Judiciário: o crescimento da estrutura do Poder e a alta capacidade de pressão dos magistrados. O reajuste no contracheque dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) foi negociado diretamente pelo presidente da Corte, Dias Toffoli.
“Essas (categorias – Judiciário e MP) têm poder de pressão porque estão próximas à tomada de decisão”, disse o professor da FGV Sérgio Luiz Moraes Pinto. Segundo ele, historicamente, os funcionários do Judiciário e do Ministério Público da União já recebem salários mais altos.
Conforme a edição mais recente da publicação Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com dados de 2016, a despesa média do Judiciário com magistrados é de R$ 48,5 mil, e com servidores, de R$ 15,2 mil. Enquanto isso, no Executivo, a remuneração média mensal é de R$ 11,2 mil para ativos e R$ 9 mil para inativos, segundo o documento elaborado pelo Ministério do Planejamento para o governo de transição do presidente eleito, Jair Bolsonaro.
O documento do Planejamento atribui ainda o tamanho da despesa da União com pessoal ao que classifica como elevados rendimentos de servidores federais. “Os altos níveis de gastos são impulsionados pelos altos salários dos servidores públicos, e não pelo número excessivo de servidores. Isso se verifica principalmente na esfera federal, onde os salários são significativamente mais altos que aqueles pagos a servidores dos governos subnacionais, ou a trabalhadores em funções semelhantes no setor privado.”
Gil Castello Branco, da ONG Contas Abertas, vê dois problemas nesse cenário. O primeiro é a disparidade entre salários da União. “Deveria haver uma harmonia maior entre os Poderes.” O segundo é a indexação dos salários ao teto constitucional. “O problema não é 11 ministros da Corte Suprema receberem R$ 40 mil, o problema são as indexações”, disse, citando como exemplo o fato de um policial federal poder alcançar a mesma remuneração que recebem os integrantes da Corte.
Entidades representativas de juízes e procuradores federais atribuem a ampliação das despesas com pessoal nos últimos 20 anos a uma maior estruturação das instituições que, diferentemente do Executivo, eram bem menores.
Segundo o presidente da Associação de Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Fernando Mendes, no período da redemocratização havia apenas cerca de 50 juízes federais no País. Hoje, conforme Mendes, são mais de 2 mil espalhados por capitais e pelo interior do País.
“Se a Justiça for vista como custo, realmente teve um aumento. Mas o aumento da estrutura também trouxe um lado positivo na arrecadação”, disse.
A máquina pública cresceu e, no caso do Judiciário e do Ministério Público da União, se estruturou melhor nas últimas décadas. Até 1995, haviam sido implantadas 23 unidades do MP Federal em municípios e 33 nas capitais. O número saltou para 221 municípios após a sanção de legislação de 1993 que definiu a organização, as atribuições e o estatuto do Ministério Público da União. “A instituição passou por um grande processo de interiorização, com a construção e instalação de procuradorias para atender a municípios em todo País”, diz nota da Procuradoria-Geral da República.
Em duas décadas, o número de funcionários do MP da União aumentou 217%. Foi, de longe, o setor que mais cresceu proporcionalmente. O Judiciário, que fica na segunda colocação, aparece bem abaixo, com expansão de 67%.
Para José Robalinho, presidente da Associação Nacional de Procuradores da República (ANPR), há um número maior de carreiras qualificadas no MPU e no Judiciário. “O Executivo é muito maior, você mistura as carreiras de elite com nível médio, aí a média é menor”, disse. “Tenho certeza que, se você olhar as carreiras-chave deles, Tesouro, Receita, AGU, e falo isso com tranquilidade, tenho certeza que tiveram reajustes maiores que a magistratura e o MP.”

Isso não interessa ao judiciário brasileiro.

02 DE DEZEMBRO DE 2018, 08H54

Fraude com CPF de idosos garantiram disparos em massa de WhatsApp na campanha, diz jornal

Segundo relato de um ex-funcionário, “as empresas cadastraram celulares com nomes, CPFs e datas de nascimento de pessoas que ignoravam o uso de seus dados".
O “Caixa 2 do Bolsonaro”, como ficou conhecida a denúncia de que empresários financiavam o disparo em massa de mensagens de WhatsApp, utilizou de CPF de idosos para o registro de chips. Reportagem da Folha de S. Paulo mostra que uma rede de empresas que ofereceram os serviços durante as eleições recorreu à fraude para viabilizar o disparo em massa.
Entre as agências envolvidas no esquema está a Yacows. Especializada em marketing digital, ela prestou serviços a vários políticos e foi subcontratada pela AM4, produtora que trabalhou para a campanha do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).
Segundo relato de um ex-funcionário à Folha, “as empresas cadastraram celulares com nomes, CPFs e datas de nascimento de pessoas que ignoravam o uso de seus dados. Ele enviou à reportagem uma relação de 10 mil nomes de pessoas nascidas de 1932 a 1953 (de 65 a 86 anos) que, afirma, era distribuída pela Yacows aos operadores de disparos de mensagens”.
De acordo com a reportagem, a lei exige o cadastro de CPFs existentes para liberar o uso de um chip. “Como o WhatsApp trava números que enviam grande volume de mensagens para barrar spam, as agências precisavam de chips suficientes para substituir os que fossem bloqueados e manter a operação.”
Leia aqui a reportagem assinada pelos jornalistas Artur Rodrigues e Patrícia Campos Mello.

Viva o México! Viva AMLO!

Obrador negocia para levar ao México médicos saídos do Brasil

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O novo presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, está prestes a fechar um acordo para receber pelo menos 3 mil médicos cubanos que vinham trabalhando no Brasil. A negociação entre o primeiro representante da esquerda a chegar à presidência mexicana e o regime cubano começou em setembro, segundo apurou o Estado. Cuba anunciou que retiraria seus médicos do Brasil no dia 14.
As tratativas foram mantidas em sigilo, até agora. Obrador tem um plano de austeridade que pretende reduzir o salário de servidores públicos, entre eles os médicos. Os cubanos que passaram pelo Brasil, portanto, ajudariam a cobrir cortes nos gastos públicos. “É austeridade, não vingança”, repetiu Obrador como um slogan durante sua campanha.
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Lázaro Cárdenas Batel, o novo coordenador de assessores da presidência mexicana, tem sido o elo entre os representantes do regime cubano, presidido por Miguel Díaz-Canel, e colaboradores dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. O objetivo: uma adaptação mexicana do Mais Médicos, um programa que envolveu cerca de 15 mil especialistas cubanos designados para 1,6 mil municípios em algumas das áreas de mais difícil acesso do Brasil.
Cárdenas Batel é o herdeiro de uma dinastia identificada com as causas de esquerda no México. Tanto ele quanto seu pai, Cuauhtémoc Cárdenas Solórzano, mantêm sólida amizade com os membros do PT.
A relação entre Cárdenas e Lula e seus colaboradores mais próximos ultrapassa a diplomacia, diz Jesús Vázquez Martínez, colaborador de Cuauhtemoc Cárdenas quando ele foi governador de Michoacán (sul do México), na década de 80, e prefeito da Cidade do México, entre 1997 e 1999. “Ele sempre manteve a vocação para defender as causas da esquerda. Sua relação com Lula começou há pelo menos 15 anos”, explica.
Cuauhtémoc Cárdenas visitou Lula na prisão há três meses e disse várias vezes em público que o ex-presidente brasileiro é vítima de uma “injustiça”. Lula está preso acusado de corrupção, como parte da Operação Lava Jato, que teve desdobramentos em vários países latino-americanos.
Vázquez Martínez lembra que Lula e o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil Celso Amorim até foram à região de Michoacán em 2003, em uma rara visita de um presidente e membros-chave de seu gabinete a um Estado mexicano. Amorim foi precisamente quem manteve conversações com Lázaro Cárdenas Batel, o coordenador de assessores de Obrador para selar o acordo entre Cuba e México.
Cárdenas Batel mantém relação próxima com Cuba. Os laços ficaram em destaque quando ele foi eleito governador de Michoacán em 2002. “Estudei no Instituto Superior de Arte de Havana, minha mulher é cubana e, obviamente, tenho uma relação fraterna e próxima com esse país. Minha relação com Cuba não é a relação do governo ou de qualquer autoridade de Michoacán com Cuba”, disse há 14 anos aquele que é agora um dos colaboradores mais próximos da presidência de Obrador.
Mais de 400 funcionários cubanos atuaram como assessores de Cárdenas Batel do governo michoacano durante seu mandato – assim como o pai, ele comandou o Estado. Cinquenta professores cubanos ocupavam cargos na Secretaria de Educação local para um programa de alfabetização implementado apenas para esse fim. Ele conseguiu que outros fossem recebidos em programas semelhantes em Oaxaca, Veracruz e Tabasco.
“Eram programas feitos sob medida pelo governo cubano”, garante um dos colaboradores do governo de Cárdenas Batel, em Michoacán. Mesmo sob críticas, os cubanos ocuparam cargos em saúde, educação e arte, todos sob a influência do herdeiro da dinastia Cárdenas. “Essas colaborações até agora foram em Estados mexicanos, mas nunca haviam sido consideradas uma política federal.”
Mas a conjuntura produzida em apenas três meses e os cenários políticos no México e no Brasil permitiram que as habilidades diplomáticas de Cárdenas Batel saíssem em resgate do Mais Médicos, um programa que o regime cubano mantém em 67 países, mas poucos tão importantes quanto Venezuela e, até poucos dias, o Brasil. O jornalista de Michoacán Jesús Lemus disse que a mulher de Cárdenas Batel, Mayra Coffigny, tem sido “um fator fundamental” para fortalecer os laços entre o regime de Castro e do governo de seu marido. Coffigny nunca escondeu sua simpatia e admiração por Fidel Castro.
Os médicos cubanos que participarem de missões no México devem receber um quarto de seu salário. O restante ficará com o regime cubano. Obrador disse que o esquema atual de saúde pública no México é “insuficiente” e prometeu que sob seu governo, os mexicanos terão acesso a um sistema semelhante ao do “Canadá, Dinamarca, Inglaterra e países nórdicos”.
Os caminhos para um sistema de saúde como os exemplos citados pelo novo presidente mexicano parecem difíceis. Os números do México em relação à saúde são alarmantes: mais da metade dos mexicanos não tem acesso a nenhum tipo de seguridade social, as reclamações entre os médicos contratados pelo Estado se estendem por todo o país e se agravaram depois que o ex-presidente Enrique Peña Nieto anunciou um corte no setor de saúde, que gerou uma onda de protestos em 2016.
As reclamações declinaram, mas não desapareceram. E os problemas crescem. Há poucos dias, o Sindicato dos Trabalhadores da Saúde em Chiapas, Estado onde oito em cada dez habitantes vivem na pobreza, completou um mês em greve por falta de pagamento e escassez de medicamentos e suprimentos médicos.
A evidente contradição entre a mensagem de austeridade de Obrador, que se movimenta em um VW Jetta 2013 valendo menos do que US$ 5 mil e se recusou a viver na residência oficial de Los Pinos por considerá-la “luxuosa”, e a falta urgente de recursos públicos para pagar os serviços mais básicos no México tem sido questionada com frequência.
Em resposta, vários colaboradores de Obrador insistiram repetidas vezes, em público, em particular, nas redes sociais e na frente dos microfones que o governo dele resolverá a falta de médicos nas áreas mais negligenciadas do país, mas até agora ninguém tinha explicado como isso seria feito. Agora se sabe que uma das soluções, segundo membros de seu próprio gabinete, aponta para Havana. Um programa do tamanho de Mais Médicos não tem precedentes no México.
Lançado em julho de 2013 pela então presidente Dilma Rousseff (PT), na esteira dos protestos por melhores serviços públicos, em junho do mesmo ano, o Mais Médicos teve a participação majoritária de cubanos, até o dia 14 de novembro.
O governo cubano decidiu então encerrar a parceria, intermediada pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), depois de o presidente eleito, Jair Bolsonaro, dizer publicamente que pretendia alterar termos do acordo, entre eles os repasses feitos a Havana pelo convênio.
Também estaria prevista a aplicação de uma prova de avaliação. Desde o rompimento, o programa, que atende principalmente cidades do interior do Brasil com pouco acesso à saúde pública, abriu vagas para suprir a saída de cerca de 8 mil cubanos.