terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A política exterior e a posição do Brasil no mundo


A política exterior e a posição do Brasil no mundo

 

 
11/12/2018 11:56
(Reprodução)
Créditos da foto: (Reprodução)
 
“A geografia é a política das Nações”.
Napoleão (1769-1821)

“O Brasil está fadado a ser, por tempo indefinido, um satélite dos Estados Unidos.”
Raul Fernandes, Ministro das Relações Exteriores – 26/08/1954 a 12/11/1955


1 - A política exterior e a posição do Brasil no mundo se transformaram radicalmente desde a posse de Michel Temer, resultado de golpe de Estado político/midiático/judicial em 2016.

2. - A julgar pelas manifestações do presidente eleito, de familiares e de seus ministros indicados, essa mudança de política e de posição deverá se acentuar na gestão do Presidente Jair Bolsonaro, a partir de 2019, devido à sua visão do mundo e da sociedade brasileira.

3. - A justificativa para aquela mudança radical se baseava em críticas à política exterior do PT, em especial do Governo Lula:

a. - seria ideológica e privilegiaria as relações com governos de “esquerda”, não democráticos;

b. - negligenciaria as relações com os países ocidentais desenvolvidos;

c. - envolveria o Brasil, com prejuízo para sua imagem, em temas nos quais não teria interesse direto nem poder suficiente para influir;

d. - não daria atenção suficiente aos interesses comerciais e econômicos do Brasil;

e. - contrariaria importantes interesses norte-americanos na América do Sul;

f. - não criaria um ambiente receptivo aos capitais multinacionais.

4. - A política exterior do Governo de Dilma Rousseff, acusada de exibir semelhantes características, foi afetada pela mudança no cenário internacional e pelo desenrolar da crise política interna, a partir das manifestações de 2013 e, em especial, após sua reeleição, e pela visão da Presidente acerca das prioridades de seu governo. Algumas iniciativas, como a inclusão da Venezuela no Mercosul, a criação do Banco dos BRICS, o programa Ciência sem Fronteiras e o Mais Médicos despertaram reação e, na área militar, o programa de fortalecimento das indústrias de defesa foi de grande importância.

5. - O confronto aqui feito é entre a política exterior definida pelo Presidente Lula, e executada pelo Chanceler Celso Amorim, com a assistência do Professor Marco Aurélio Garcia e do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, e a política exterior do período Temer, a partir de 2016.

6. - A política exterior de Temer, em grande medida, retoma a política do Marechal Castelo Branco, do Presidente Fernando Collor e do Presidente Fernando Henrique, com as circunstâncias de cada período, mas com a mesma orientação geral comum de alinhamento com a política norte-americana.

* * *

7. - As características do Brasil, de natureza permanente, são:

a. - extraordinárias disparidades internas;

b. - notáveis vulnerabilidades externas de natureza política, econômica, tecnológica, militar e ideológica;

c. - grande potencial de desenvolvimento;

d. - localização na América do Sul, com notáveis disparidades em relação aos vizinhos; extensas fronteiras terrestres; longo litoral no Atlântico Sul, em frente a 23 Estados da África  Ocidental;

e. - localização na zona estratégica mais importante para os Estados Unidos da América, maior potência política, militar, econômica, tecnológica e ideológica atual, que exerce uma política imperial.

8. - Assim, caso a definição e execução da política externa não se fundamente nessas características e, ao contrário, vier a se construir sobre idéias pré-concebidas ou que ignoram tais características, ela dificilmente terá êxito.

9. - As disparidades internas podem ser sintetizadas nos índices de concentração de riqueza e renda, como revela a distância entre os brasileiros que ganham mais de 320 mil reais por mês, em número de 6.200, e os 53 milhões de brasileiros que recebem o Bolsa Família. As demais disparidades são decorrentes e relacionadas em suas causas e efeitos. Essas disparidades nos diferenciam radicalmente dos países desenvolvidos e nos aproximam dos países subdesenvolvidos, na situação real e na busca de soluções.

10. - A vulnerabilidade política decorre de o Brasil não ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e estar, todavia, obrigado a cumprir suas decisões; a militar, da ausência de poder dissuasório; a econômica, do desequilíbrio estrutural no balanço de contas correntes; a tecnológica, da baixa capacidade de gerar novas tecnologias; a ideológica, da forte penetração externa cultural e de informação.

11. - O enorme potencial brasileiro de desenvolvimento decorre da extensão de terras e da fertilidade (corrigida) do solo e, quanto ao subsolo, da significativa gama de recursos minerais, inclusive o pré-sal; do gigantesco mercado potencial interno; da capacidade produtiva instalada e da capacidade de atração e geração de capital.

12. - O número de Estados vizinhos de fronteira, na região e na África Ocidental; as disparidades de dimensão e de potencial em relação a eles; a origem e evolução histórica distinta; os ressentimentos, fruto de conflitos do passado entre os Estados na região, tornam a posição do Brasil muito delicada em suas relações bilaterais e regionais.

13. - A localização geográfica do Brasil na principal zona estratégica para os Estados Unidos, suas dimensões e potencial e a política americana de impedir ou dificultar a emergência de potências regionais que possam rivalizar com sua influência tornam necessárias firmeza, prudência e perseverança na execução da política externa.

* * *

14. - Devido às características do Brasil os objetivos da política exterior devem ser:

a. - manter as melhores relações com todos os Estados vizinhos da América do Sul;

b. - criar e fortalecer gradualmente um sistema de segurança político/militar na América do Sul e no Atlântico Sul;

c. - criar e fortalecer um sistema dissuasório de defesa nacional;

d. - estabelecer laços e programas de cooperação política e econômica com grandes Estados, como os Estados Unidos, a China, a Rússia, a Índia, a França e a Alemanha;

e. - contribuir, ativa e imparcialmente, para a solução de crises internacionais;

f. - participar ativamente de conferências internacionais sobre temas universais, como meio ambiente, pobreza, raça, gênero, etc.

g. - cooperar com países subdesenvolvidos em projetos de desenvolvimento, sem impor “condicionalidades” políticas ou econômicas;

h. - diversificar, quanto a produtos, destinos e origens, seu comércio internacional;

i. - abrir novos territórios para a ação das empresas brasileiras;

j. - promover a revisão dos sistemas de decisão dos organismos econômicos internacionais para obter condições de melhor participação do Brasil;

k. - conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

15. - Foi por não se orientar por estes objetivos e por buscar um alinhamento unilateral, sem reciprocidade, com a política exterior americana que a política exterior de Temer não obtém resultados positivos e a imagem e a posição do Brasil se encontram afetadas negativamente.

***

16. - No governo do Presidente Lula, o Brasil seguiu à risca os princípios de não-intervenção e de respeito à autodeterminação, inscritos na Carta da ONU e na Constituição de 1988. Assim, foi possível manter, ao mesmo tempo, excelentes relações com a Colômbia e a Venezuela; com o Peru e o Equador; com Bolívia, Peru e Chile; com a Argentina e o Uruguai; apesar das divergências de posição e de crises entre esses países em diversos momentos.

17. - No período de Michel Temer, o Brasil se juntou aos países da Aliança do Pacífico e aos países do Grupo de Lima contra a Venezuela, infringindo os princípios de autodeterminação e de não intervenção, gerando desconfianças e ressentimentos, no esforço de agradar aos Estados Unidos em sua campanha para derrubar o governo da Venezuela.

18. - Sob a condução de Lula, o Brasil procurou criar um sistema de segurança político/militar na América do Sul, que foi a UNASUL, e seu Conselho de Defesa, foro exclusivo sul americano para resolver divergências entre os Estados da região e promover a cooperação em geral, mas em especial na área de defesa, como o projeto do avião de transporte KC 390.

19. - No governo de Temer, o Brasil veio a se retirar da UNASUL, e passou a privilegiar a OEA, organização onde a influência americana é extraordinária; promoveu a venda da Embraer à Boeing e assistiu ao esvaziamento do Centro de Estudos de Defesa, da UNASUL, em Quinto.

20. - Com o Presidente Lula, o Brasil procurou criar um sistema de dissuasão, com o programa de transferência de tecnologia e construção do submarino nuclear com a França e a aquisição e produção, no Brasil, de caças Gripen suecos. Os programas militares estratégicos tiveram aumento significativo de recursos orçamentários.

21. - Na gestão de Michel Temer, foram reduzidos os recursos para os programas estratégicos militares (cibernética, espacial, nuclear) e houve a condenação, sem provas, do Almirante Othon Pinheiro da Silva, responsável pelo programa nuclear, a 43 anos de prisão.

22. - No governo de Lula, o Brasil manteve excelentes relações com os Estados Unidos e com seus Presidentes, se aproximou da China e da Rússia, colaborou ativamente para criar o BRICS, formou o IBAS com a Índia e África do Sul; aproximou-se da França, com o projeto do submarino nuclear e a ação conjunta na iniciativa Campanha contra a Fome; e com a Alemanha, o Japão e a Índia formou o G-4 para articular a reforma da Carta da ONU e permitir seu futuro ingresso no Conselho de Segurança, como membro permanente.

23. - Com Michel Temer, o Brasil passou a ter uma política não apenas exterior, mas uma política geral de governo de atender a reivindicações dos Estados Unidos, como a mudança do regime do pré-sal e as licitações de áreas do pré-sal, a redução da Petrobrás a uma pequena empresa, não integrada, com o auxílio do Judiciário, da Operação Lava Jato; de acesso à base de Alcântara e de abertura de todos os setores da economia ao capital estrangeiro.

24. - No Governo do Presidente Lula, o Brasil procurou, em articulação com a França e a Alemanha, impedir a invasão do Iraque em 2003; contribuir para a paz na Palestina, ao reconhecer o Estado palestino e ao manter boas relações com Israel e, com a Turquia, negociou com o Irã a aceitação das condições ocidentais relativas a seu programa nuclear.

25. - Com Temer, o Brasil tornou uma posição tímida e distante em relação às crises da Síria e do Irã.

26. - Com o Presidente Lula, o Brasil participou ativamente das conferências mundiais organizadas pelas Nações Unidas e suas Agências, tais como a de diversidade cultural (Unesco), e do clima e promoveu importantes e inéditas conferências, como as reuniões de países árabes/América do Sul e África/América do Sul; contribuiu para a ação do G-20 financeiro e lançou a Iniciativa Mundial contra a Fome.

27. - No governo de Michel Temer, o Brasil passou a participar de forma discreta de conferências mundiais, e de reuniões importantes inclusive as reuniões do G-20 financeiro, com um perfil diplomático baixo e sem apresentar propostas importantes.

28. - Com Lula, o Brasil fortaleceu o Mercosul, articulou a expansão do Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM), a inclusão da Venezuela e da Bolívia no Mercosul e instalou vários projetos de cooperação na África, como as unidades da Embrapa em Gana e da Fiocruz, em Moçambique.

29. - Temer não prestigiou o Mercosul, agiu para suspender a Venezuela do Mercosul, contribuiu para enfraquecer o bloco, não procurou fortalecer a cooperação com a Argentina, mesmo com o seu Governo simpático ao Brasil, nem com a África, onde esteve apenas em Cabo Verde, para a Conferência dos Países de Língua Portuguesa, e na África do Sul, para a Cúpula do BRICS. 

30. - O Governo do Presidente Lula procurou a diversificação do comércio exterior brasileiro, promovendo as exportações de produtos industriais, em especial para a América Latina e para a África e o comércio do Brasil com os países desenvolvidos atingiu níveis mais elevados.

31. - Na gestão Temer, não houve preocupação maior com a perda de participação percentual das manufaturas no total das exportações, com o acentuado processo de desindustrialização, resultado de uma política cambial de valorização do real e controle da inflação.

32. - No Governo Lula, houve um esforço significativo de apoiar a internacionalização das grandes empresas de capital brasileiro, em competição com megaempresas multinacionais de engenharia de construção, não somente na África e América Latina, mas inclusive nos Estados Unidos e na Europa.

33. - Com Temer, houve uma sujeição do Executivo ao arbítrio da Operação Lava Jato que não somente procurou, por meios inclusive ilegais, lutar contra a corrupção, mas em especial com o objetivo político de desmoralizar os partidos e, em especial, o Partido dos Trabalhadores e o Presidente Lula, o que ficou comprovado com a aceitação do juiz Sérgio Moro para ocupar o Ministério da Justiça no futuro governo Bolsonaro. A atitude de Temer permitiu a destruição e desorganização de grandes empresas brasileiras, o que não ocorreu em outros países, onde os empresários culpados são punidos e as empresas preservadas.

34. - O Brasil, no período de 2003 a 2010, procurou articular com outros países a revisão dos mecanismos de decisão do FMI e do Banco Mundial, através da redistribuição de quotas e de poder de voto nessas organizações, as quais, aliás, o Brasil apoiou durante a crise financeira, inclusive com um empréstimo de US$ 10 bilhões ao Fundo Monetário.

35. - A luta política pela revisão do sistema de votos não teve continuidade no Governo Temer, inclusive devido à oposição americana e seu desejo de alinhamento incondicional com os interesses americanos.

36. - O objetivo brasileiro, de longa data, de obter um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, foi fortalecido no período Lula, com a criação do G-4 em que o Brasil, em estreita coordenação com o Japão, a Alemanha e a Índia, articulou politicamente junto aos demais membros da ONU a reforma dos artigos da Carta.

37. - O Presidente Michel Temer não atribuiu importância a este objetivo histórico e central da política exterior brasileira.

***

38. - As declarações do Presidente eleito Jair Bolsonaro, do Deputado Eduardo Bolsonaro, do Embaixador Ernesto Araújo, Ministro, indicado, das Relações Exteriores, e de outros ministros-indicados, revelam certo desconhecimento e uma visão especial da complexidade da política internacional e das circunstâncias permanentes que devem orientar a política exterior brasileira.

39. - A probabilidade de se agravar a situação de ineficácia da política exterior e de desprestígio do Brasil no mundo pode ser, assim, muito elevada.

40. - A realidade, talvez, venha a se impor.

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5 de dezembro de 2018

Samuel Pinheiro Guimarães
Secretário Geral do Itamaraty (2003-2009)
Ministro de Assuntos Estratégicos (2009-2010)

Juiz vê cinismo de Moro ante possível lavagem de dinheiro envolvendo Bolsonaro


DENÚNCIAS

Juiz vê cinismo de Moro ante possível lavagem de dinheiro envolvendo Bolsonaro

Para magistrado, denúncias do Coaf configuram crime, enfraquecem o eleito e "encarecem" relação com Congresso. Ele critica ainda manifestação do futuro ministro da Justiça: "É cínico. Deveria pedir exoneração"
por Cláudia Motta, da RBA publicado 10/12/2018 17h02
VALTER CAMPANATO/ABR E LULA MARQUES
Bolsomoro
Denúncias comprometem retórica de ética e moral inabalável
São Paulo – Para o juiz aposentado Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira, não foi surpresa a denúncia surgida de relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) em torno da família Bolsonaro. O órgão, subordinado ao Ministério da Fazenda, apontou movimentação financeira suspeita de um ex-assessor do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL/RJ), o policial militar Fabrício José Carlos Queiroz. “A família Bolsonaro foi toda construída dentro da estrutura do Estado”, afirma.
“Toda aquela retórica de anticorrupção nunca existiu. Imagine um parlamentar com 30 anos de legislatura no estado do Rio de Janeiro e todos esses episódios lá e nada disso ele tinha conhecimento? Claro que tinha. Agora está provado e não só sabia como dele se utilizou”, ressalta.
Segundo Oliveira, da forma como está construído o sistema político, todos os partidos utilizaram um caminho que não é formalmente correto. “Ele seria diferente de quê, esse homem puro veio de onde, do Rio de Janeiro? Família Bolsonaro pura, do Rio de Janeiro? Como é possível? Seria um aborto da natureza”, ironiza.
Sobre o R$ 1,2 milhão movimentado pelo assessor e os valores transferidos para a conta de Michelle Bolsonaro, futura primeira-dama, o ex-juiz acredita que a família não vai ter como justificar. “Um ex-soldado PM, com remuneração de 8 mil contos, como é que vai movimentar isso. Eu, como juiz de direito, passo anos pra ter essa quantia na minha conta”, compara. “As justificativas apresentadas até agora são fraquíssimas, acho até que vão optar em ficar em silêncio porque não vão ter como corrigir o que está lá. Não tem como.”
As consequências da denúncia para o presidente eleito, Jair Bolsonaro, são muito graves, na opinião de Oliveira. “Vai tomar posse já enfraquecido e, se precisar do Congresso para a governabilidade, vai ficar mais caro ainda o apoio, não só para implementar as ideias macabras dele, como para se manter no poder. Qualquer movimento que implique numa fragilidade de apoiamento político, pode levar a uma cassação.”
Para o advogado, Bolsonaro vai tomar posse precisando mais do que nunca do Congresso. E acha, ainda, que o ex-capitão perde força para escolha dos presidentes (da Câmara dos Deputados e do Senado). “Estavam batendo forte na pessoa do senador Renan Calheiros, por exemplo, na disputa à presidência do Senado. Flavio Bolsonaro, que vai tomar posse como senador, que tinha no seu gabinete esse PM lotado e nomeado por ele, dizia que Renan não seria nunca (o presidente do Senado) porque afinal de contas era um homem cheios de processos, com corrupção. E agora, Flavio?”
Nada disso, no entanto, é um acaso, na opinião de Marcelo Tadeu. “Aparecer isso agora é uma resposta, um aviso que está sendo dado à família Bolsonaro. Ou ele se alinha e se ajusta ou dança”, avalia. “Essa é a opinião de quem foi magistrado por 25 anos e já foi candidato a deputado federal, no microssistema político de Alagoas. Bolsonaro entra com a corda no pescoço e o Congresso pode puxar a qualquer momento.”

Moral inabalável?

Agora advogando em Maceió (AL), Recife (PE) e Brasília (DF), Oliveira diz ter “certeza” de que é muito constrangedor para Sergio Moro fazer parte de um governo como esse. “Para quem alardeou para o povo brasileiro que se tratava de um juiz de uma atuação do ponto de vista moral e ético inabalável, está provado que não é”, afirma.
Ele ressalta que o ex-juiz da Lava Jato, e futuro Ministro da Justiça e Segurança de Bolsonaro, decidiu servir a um governo “com problemas mais graves ainda do que aquele que ele tanto perseguiu, que foi o Lula”. E compara: “No caso de Lula é 'parece', 'seria', 'teria'”, diz, em relação às acusações que levaram o ex-presidente à condenação. "Com Bolsonaro não é ‘teria’, mas ‘tem’, não é ‘faria’, é ‘fez’, não é ‘se corromperia’, mas ‘se corrompeu’".
Para o juiz aposentado, Moro deveria ter vergonha e pedir exoneração se quisesse manter a história dele. “Ou a falsa história ou o verniz de verdade. Porque agora ele vai se desmoralizar por completo. Esse juiz Sergio Moro nunca me enganou.”
Nesta segunda-feira (10), após quatro dias das denúncias originadas no relatório do Coaf – que inclusive ficará subordinado à sua pasta, Moro afirmou que os fatos precisam ser “esclarecidos” e que seria “inapropriado”, como futuro ministro da Justiça, comentar. 
“Ele (Moro) só comentava casos do Lula. Minha visão é de que se trata de um magistrado, ou ex-magistrado, que tem o cinismo como ponto de apresentação em sua personalidade. Ele é cínico demais!”, afirma Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira.
Moro teria dito ainda a uma emissora de rádio: “Sobre o relatório do Coaf sobre movimentação financeira atípica do sr. Queiroz, o sr. presidente eleito já esclareceu a parte que lhe cabe no episódio. O restante dos fatos deve ser esclarecido pelas demais pessoas envolvidas, especialmente o ex-assessor, ou por apuração”.

Organizações denunciarão o governo do Brasil à OIT por violação de direitos sindicais

Antifascismo

Organizações denunciarão o governo do Brasil à OIT por violação de direitos sindicais

Centrais, federações e o escritório sub-regional da Internacional de Serviços Públicos acusam o Estado brasileiro de descumprir a Convenção 151 do organismo, que garante, entre outras coisas, o direito à negociação coletiva no setor público. Documento será protocolado na próxima quarta-feira, 12, em Brasília (DF)

 
11/12/2018 12:56
(CROZET/POUTEAU/OIT)
Créditos da foto: (CROZET/POUTEAU/OIT)
 
Centrais e federações sindicais, juntamente com o escritório sub-regional da Internacional de Serviços Públicos (ISP) para o Brasil, denunciarão o Estado brasileiro à Organização Internacional do Trabalho (OIT) pelo não cumprimento da Convenção 151 desse organismo, que garante, entre outras coisas, o direito à negociação coletiva no setor público. Embora ratificada pelo país, tal norma vem sendo sistematicamente descumprida, dizem os denunciantes.

A queixa será protocolada na próxima quarta-feira, 12 de dezembro, às 15 horas, na sede da representação da OIT no Brasil, em Brasília (DF). Logo após, será realizada uma reunião com o diretor do organismo no país, Martin Hahn. Antes, às 10 horas, ocorrerá a assinatura do documento pelas entidades, além de uma reunião preparatória.

O documento, que acusa o Estado brasileiro, representado por seu governo, é assinado pelas seguintes entidades:

Internacional de Serviços Públicos (ISP)
Central Única dos Trabalhadores (CUT)
Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST)
União Geral dos Trabalhadores (UGT)
Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Empresas de Crédito (CONTEC)
Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB)
Intersindical
Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (CONDSEF)
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Seguridade Social da CUT (CNTSS)
Federação de Sindicatos dos Trabalhadores em Universidades Brasileiras (FASUBRA Sindical)
Federação Nacional dos Urbanitários (FNU)

No ato de protocolo da queixa, a ISP será representada pela secretária sub-regional da ISP para o Brasil, Denise Motta Dau, e por Juneia Martins Batista e João Domingos Gomes dos Santos, membros do Comitê Executivo Mundial dessa federação sindical internacional.

Apesar de ratificada, país não aplica a Convenção

Aprovada pela OIT em 1978, a Convenção nº 151, “Direito de Sindicalização e Relações de Trabalho na Administração Pública”, trata das relações de trabalho, da liberdade sindical e da negociação coletiva no setor público.

Em 2010, foi aprovada pelo Congresso Nacional brasileiro, e um ano depois, em 15 de junho de 2011, entrou em vigor no plano jurídico externo. Internamente, passou a vigorar em 6 de março de 2013.



Apesar da ratificação e da vigência, o Brasil não aplica a norma, sob o argumento de que, para isso, é necessária lei específica que regulamente a negociação coletiva dos servidores públicos no ordenamento jurídico interno. Nem mesmo requerimentos enviados pelo Comitê de Peritos da OIT em 2013 e 2014 solicitando o desenvolvimento de legislação para reconhecer e regulamentar o direito de negociação coletiva para servidoras e servidores públicos no âmbito federal, que também poderia orientar as autoridades estaduais e municipais, foram suficientes para que esse direito passasse a ser garantido pelo Estado brasileiro.

De acordo com a queixa que será protocolada na OIT, no Brasil as reuniões entre governos e organizações sindicais acontecem sem grandes avanços, apenas para cumprir ritos formais. No fim das contas, os Executivos impõem obstáculos para justificar o não atendimento das reivindicações das trabalhadoras e trabalhadores públicos, como necessidade de autorização de órgão superior e limitações da Lei de Responsabilidade Fiscal.

O documento aponta, ainda, que, geralmente, “os governos impõem unilateralmente as condições de trabalho, permanecendo inertes em relação a diálogos e negociação efetiva”. Mesmo após ter suas propostas recusadas, envia-as ao respectivo Legislativo, obrigando os servidores e servidoras a deflagrarem greves.

Além disso, as entidades signatárias da queixa à OIT lembram que, em 2017, o Congresso Nacional aprovou o Projeto de Lei 3.831/2015, que estabelece normas gerais para a negociação coletiva na administração pública. Enviado para a sanção, a proposta foi vetada integralmente pelo presidente Michel Temer em dezembro do mesmo ano, apesar do grau avançado de concertação social e legislativa em torno do texto. O veto foi mantido pela Câmara dos Deputados em abril de 2018, arquivando-o definitivamente.

O documento que será protocolado no dia 12 chama a atenção para o fato de que, após a incorporação da Convenção 151 ao ordenamento jurídico brasileiro, a negociação coletiva dos servidores públicos encontra respaldo constitucional expresso, pois o artigo 5º, parágrafo 2º, da Constituição prevê que “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”.

Destaca também que o próprio texto da Convenção não condiciona o fomento e garantia da negociação coletiva no serviço público à regulamentação legislativa. No Brasil, diz a queixa, há alguns exemplos de negociação, tanto no âmbito nacional quanto municipal – algumas das experiências, inclusive, ocorridas muito tempo antes da ratificação da Convenção pelo país.

“Houve, no passado, adoção de medidas estatais concretas voltadas à promoção da negociação coletiva, independentemente de sua eficácia (...) O que se verifica na atualidade, porém, é uma articulação institucional para restringir a liberdade sindical no setor público, seja pelas restrições ao exercício do direito de greve, seja pela limitação à negociação coletiva que culminou com o veto do PL nº 3.831/2015. Isso é o que se denuncia nesta Queixa.”, diz o texto.

AGENDA


// Reunião preparatória e assinatura da denúncia //

Quando: 10 horas
Local: Escritório de Advocacia LBS - Instituto Lavoro. SHIS, QI, 11, Conjunto 10, Casa 24, Lago Sul, Brasília - Distrito Federal

// Protocolo da denúncia na OIT e reunião com diretor da organização no Brasil, Martin Hahn //

Quando: 
15 horas
Local: Organização Internacional do Trabalho (OIT). Setor de Embaixadas Norte, Lote 35, Brasília - Distrito Federal

Carta de Buenos Aires: ¿Cuánto puede resistir la paz social en Argentina?


Carta de Buenos Aires: ¿Cuánto puede resistir la paz social en Argentina?

 

 
11/12/2018 14:10
 
 
Una de las repetidas preguntas que le formulan a los sociólogos que piensan la realidad argentina y que se sienten comprometidas con ella, es cuánto puede resistir la paz social en tiempos que el tejido social es agredido cotidianamente con la llamada austeridad que no es más que la reducción de accesos a bienes simbólicos y materiales para los sectores menos privilegiados, y el incremento de la riqueza y la renta para los grupos más concentrados.

Aquellos que son rigurosos –y no se encargan de vender humo como consultores proféticos—solo logran explicar que el mundo social es de una complejidad tal que sólo puede darse un estallido cuando se combinan varias dimensiones al mismo tiempo: descontento, capacidad de movilización históricamente aprendida, autovaloración positiva acerca del efecto de la acción social colectiva y –sobre todo— referencias (presentes o ausentes, encarnadas en dirigentes o en actores políticos ya desaparecidos, pero vigentes en la memoria social disponible).

Una semana antes del 17 de octubre nadie presagiaba el estallido. En noviembre de 2001 el malestar no se había combinado aun con el deseo desesperado que auguraba el fin de un ciclo político argentino. Dado que no se puede presagiar incendios (y solo estar atentos a su irrupción para quedarse al costado de la historia) ni olas electorales, sí sabemos –en términos sociológicos—que no ha habido nunca irrupción de lo nuevo que no haya estado prologado por  el murmullo opositor, el activismo de la sociedad civil, el murmullo opositor y el trabajo militante.

Toda  fuerza social organizada debe comprender que existen reglas eficaces para arrinconar el discurso del poder hegemónico (en este caso del neoliberalismo) y simultáneamente para  dotar de autonomía a los socios estratégicos que buscan socavar los pilares de un proyecto social que busca básicamente darle continuidad a prerrogativas y limitar la democratización de la vida, en todas sus aspectos.

El núcleo central de la batalla política es la lucha por el sentido. Y ese enfrentamiento tiene dos pilares: por un lado la creencia en las propias fuerzas, la autoestima esperanzada, la ajenidad del derrotismo, la sensación de ser parte de un camino cuyas encrucijadas no conocemos, pero que cualesquiera son éstas, nos encontrarán plantados en la misma brecha, en idéntico sendero de continuidad vital. Dos pilares: el positivo (la creencia en que nuestra pelea tiene trascendencia) y el negativo, basado en el cuestionamiento sistemático y lúcido de las herramientas simbólicas y los discursos de los poderosos.

La positividad  exige superar la inferiorización que se busca imponer para debilitar al subalterno: siempre se ha querido animalizar, etiquetar, estigmatizar, despreciar lo popular (choriplaneros, grasas, negros de mierda, etc.) con el objetivo de imponer una jerarquía que permita la admiración del sometido al dominante. Gran parte de la tarea cultural que permite la continuidad del estatus-quo se basa en acomplejar al sometido, en inmovilizarlo bajo la creencia imputada de su nimiedad, de su impotencia.

Superar, desconectarse de esa atribución, confiar en la propia red social de lucha y plantar bandera en igualdad de humanidad contra quienes se pretenden superiores es uno de los ejes básicos de una disputa imprescindible. La alegría es parte consustancial de ese enfrentamiento: como bien afirmó Jauretche décadas atrás, un pueblo triste es fácilmente dominable. Por el contrario, un colectivo alegre, empoderado, consciente de su poderío, optimista del destino posible de sus demandas orgánicas es menos manipulable. La esperanza –como lo sugirió Marc Bloch antes de la Segunda Guerra Mundial–  es el principio de creencia que aúna las diferencias. Se nos hace imprescindible “creer” apostar a algo mejor para que seamos capaces de articularnos y de construir una fe social organizada.

Uno de los mecanismo utilizados por el poder oligárquico es hacernos sentir que no servimos para nada. Que lo nuestro es  antiguo, que es inservible, que es arcaico y que va contra la “modernidad”. Ese el punto de partida para anclar las luchas en el pasado, es decir en lo muerto. Ellos se presentan como el futuro, como el porvenir. Y nos obligan a ubicarnos en el vetusto sueño de un pretérito superado. Esa es parte de la lucha simbólica con la que no debemos ser atrapados: nunca hay que regalarles la alegría, el optimismo y el futuro a quienes expresan con claridad las fuerzas de un pasado que prenden hacer continuo mediante originales formas.

Esto implica –hoy— dejar de debatirles el pasado. Arrinconarlo en el presente y en el porvenir: ¿qué han hecho con su tiempo gubernamental? ¿Cuáles son los resultados constatables del macrismo? Dada su endeblez, el manual duranbarbista va a intentar oponer pasado (corrupción) a presente (límpido y republicano): no hay que aceptar la agenda del otro. Es imprescindible nombrar el presente y sus consecuencias a futuro.

El otro componente, diseminado cuidadosamente por el neoliberalismo, es el intento de aislar y de cortar los lazos solidarios convocando a los ciudadanos a sumarse a un aislamiento mediático, inserto en el debate de las noticias amarillas, de las reportes del corazón o de las páginas sangradas de los policiales. La meticulosidad para sembrar aislamiento, conformismo, adaptación y sensación de mundo incomprensible es una de las herramientas más útiles de la dominación: si se logra que nada sea jerarquizado, si se impone que es lo mismo el casamiento de una vedette que el debate sobre el aumento jubilatorio, la lobotomización logra su funcionalidad con el estatus-quo.

El camino para impedir ese esquema es contribuir a jerarquizar los temas mediante la convocatoria a al experiencia. Se debe partir de los sufrimientos y padecimientos del interlocutor. De su quehacer real cotidiano, para partir desde ahí hacia las necesarias jerarquizaciones. Y eso no se hace “juzgando” al confundido, sino acompañando mayéutica y pacientemente su razonamiento. La instalación cómoda de muchos actores sociales populares en la negación de la política es el producto de muchos fracasos previos. Se debe acompañar el proceso cognitivo si desafiar los lugares sacralizado de identidad que han ayudado a esos sectores a sobrevivir a tanta carencia.

El sistema –sobre todo a través de sus medios de desinformación— tratan de arrebatar certezas, de menoscabar la dignidad de los que resisten o se oponen, de buscar los grises y los errores (siempre disponibles, lógicamente por tratarse de construcciones humanas) en el trayecto vital de los que luchan. Tienen como objetivo hacerle creer al pueblo que las batallas previas, a través de las cuelas se han conquistado derechos, no tienen concatenación y que su efecto es nulo. Al cortar la relación entre el esfuerzo social y su resultado histórico victorioso se logra desanimar a las presentes y futuras generaciones que emprenden la militancia política como un ejercicio de esperanza compartida.

Argentina es hijo del 17 de octubre y el Cordobazo de la misma forma que Francia lo es de su Revolución francesa y de las barricadas de 1848, 1870 y del Mayo de 1968. Nada de lo que han conquistado los pueblos del mundo ha sido por concesión. Todo fue arrancado a los poderosos con lucha, persistencia, lucidez y entrega. Y en todos esos casos (más otros miles que muestran la cara más maravillosa de nuestra especie) fueron sociedades orgullosas de su propio capital esperanzador, las que alcanzaron algo superior a lo que inicialmente tenían. Hoy, como tantas otras veces, se nos llama a contar la autoestima para dar los debates y conquistar las voluntades mayoritarias que permitan superar este suplicio hambreador neoliberal, y un poder  concentrado (abatido en su interés de desvalorizar la lucha social) la que conquistó derechos.

Jorge Elbaum es sociólogo, doctor en Ciencias Económicas, analista senior del Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico (CLAE, www.estrategia.la). 

*Publicado originalmente em estrategia.la