quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

AS PRIORIDADES DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

MORO CRITICA PESQUISAS QUE MOSTRAM DESAPROVAÇÃO À POSSE DE ARMAS

O linchamento virtual de uma eleitora de Bolsonaro agredida: somos melhores que isso

O linchamento virtual de uma eleitora de Bolsonaro agredida: somos melhores que isso. Por Nathalí

 
Uma mulher ajuda a eleger um misógino típico para a presidência de seu país. Essa mulher é vítima e algoz de si mesma. Pouco tempo depois, quando a tensão política ainda impera, ela é agredida pelo companheiro – a cada dia são doze mil mulheres agredidas só no Brasil. Ela posta uma selfie com as marcas da violência e denuncia o agressor nas redes. Seguidores anti-bolsonaristas aproveitam para achincalhá-la nos comentários:
“Isso deveria acontecer pra todas as mulheres que votaram no COISO. Deram embasamento pra isso!” “Reclamar que apanhou do macho é coisa de comunista, taokey?! Faz arminha com a mão e fica quietinha!” “Use esse evento para repensar a natureza de suas opções políticas”.
Esse não é o anti-fascismo que eu aprendi, e essa não é a esquerda com a qual me alinho. Embora seja cada vez mais difícil, gosto de crer que somos melhores do que isso: minha militância não é uma queda de braço ou uma briga de egos.
Além do mais, é um engano terrível, embora corriqueiro, pensar que a equidade de gêneros é uma pauta de esquerda: esta é uma pauta de todas e todos, porque a cultura patriarcal também atinge a todas e todos.
Violência de gênero não tem partido político: há machismo à esquerda, à direita e no centro. Há machismo em todos nichos, em todas as classes sociais, em todas as orientações políticas e ideológicas, em todas as religiões e em toda a sociedade: a cultura patriarcal é parte da constituição do mundo, e isso não é uma opinião, é um fato.
A orientação política da vítima não a retira da condição de vítima. , e lutar contra a violência de gênero desde que não tenha sido praticada contra uma eleitora de Bolsonaro é flexibilizar as próprias convicções em um nível patético, além de descaracterizar o que deveria ser uma das marcas da esquerda: a capacidade de se colocar no lugar do outro.
É difícil conceber que pessoas (mulheres, especialmente) que se dizem pautadas na empatia tenham lotado uma postagem de denúncia de agressão contra uma mulher com comentários de ódio, no maior estilo fascistóide.
Essa reação odiosa, é, no entanto, sintomática: sobrepor a soberba à empatia é um dos grandes problemas da esquerda que assistiu boquiaberta à eleição de um fascista. Na sociedade do espetáculo, boa parte da esquerda lacração tem em si tanta vontade de dar lição de moral nos outros que, em nome disso, fecha os olhos para as próprias pautas.
“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”, diria Paulo Freire, curiosamente um dos grandes autores dessa esquerda que tem se perdido na própria soberba. Qual a distância entre apoiar a uma violência e efetivamente praticá-la?
Que fique registrado, para o que quer que seja, que não compactuo com nenhum tipo de violência contra a mulher, ainda que a mulher em questão seja uma eleitora de Bolsonaro – ou de Trump, ou de Maduro, ou do próprio diabo em pessoa (perdoem a redundância).
Antes de eleitora de Bolsonaro, Thalia Gonçalves é uma mulher como eu, gerada por uma cultura que a convenceu de que apoiar seus opressores seria a melhor forma de se proteger deles e existir dignamente – e quem sou eu para julgar a escolha de uma mulher quando à melhor forma de existir dignamente?
Como Thalia, muitas outras aprenderão pela dor – sobretudo agora que mais agressores terão acesso mais fácil a armas de fogo, em um país onde quase metade dos feminicídios se dão por projéteis. Muitas pagarão por seu voto equivocado com a própria vida, e nem por isso poderão ser consideradas completamente responsáveis por seu fiasco: vítimas e cúmplices, como todo mundo.”
A esquerda na qual luto e o feminismo com o qual compactuo acolheriam quantas Thalias se arrependessem de suas escolhas, e ainda que não se arrependessem, lamentariam profunda e sinceramente qualquer violência de gênero.
Esse acolhimento não é unânime, como temos visto, mas certamente não estou sozinha na minha insistente – quase cirandeira – empatia.
Mulheres Bolsonaristas arrependidas: nós estamos aqui para vocês.

REAÇÃO A DECRETO Armar a população é inconstitucional e mergulhará o país num 'faroeste'


REAÇÃO A DECRETO

Armar a população é inconstitucional e mergulhará o país num 'faroeste'

Partidos anunciam medidas para sustar a medida de Bolsonaro no Congresso e ação no Supremo Tribunal Federal. Armas nas mãos de "cidadãos de bem" podem, por exemplo, ir para as mãos de criminosos
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 15/01/2019 19h05, última modificação 15/01/2019 19h35
REPRODUÇÃO
Armas
"Cidadãos de bem" poderão ter até quatro armas dentro de casa, de acordo com novo decreto
São Paulo – Deputados federais do campo progressista fizeram, na tarde de hoje (15), duras críticas ao decreto do presidente da República, Jair Bolsonaro, que facilita a posse de armas pela população. Em entrevista coletiva, o deputado Paulo Pimenta (RS), líder do PT na Câmara, alertou: "Isto mergulhará o país num caos, numa espécie de faroeste onde aqueles que têm dinheiro poderão adquirir grandes quantidades de armas e munição, e as pessoas de menor poder aquisitivo serão vítimas não só de grupos armados, mas também de grupos econômicos".
Ele afirmou que o decreto é construído com grande " carga de subjetividade" . O texto prevê, por exemplo, que cada pessoa terá direito de adquirir até quatro armas de fogo, abrindo a possibilidade para a aquisição de " quantidade superior a esse limite (...) se presentes outros fatos e circunstâncias que a justifiquem" . " Imagina uma casa com três adultos, com 12 armas. São pistolas, armas de grosso calibre, fuzis de repetição"
Durante a coletiva, Pimenta questionou se a liberação para a comercialização de armas no país tem real eficácia para que a população passe a ter a sensação de estar segura. " Como vamos nos sentir cada vez que nossos filhos saírem de casa?"  
O PT entrará com uma ação direta de inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF). O PT e o Psol apresentarão propostas de decretos legislativos para sustar os efeitos do texto de Bolsonaro. 
O deputado federal Ivan Valente (Psol-SP) considera viável a suspensão do decreto que será proposta pelos partidos. "Trata-se de uma violação constitucional. Eles flexibilizaram totalmente o Estatuto do Desarmamento, que é uma lei, através de um decreto." Para ele, a medida anunciada por Bolsonaro se deu " exorbitando o poder Executivo e violando as funções do Legislativo" .
O deputado Wadih Damous (PT-RJ), segundo o site do PT, afirmou que " o decreto é de duvidosa constitucionalidade e empurra o Brasil mais um degrau abaixo do processo civilizatório" . Acrescentou: " Bolsonaro vai transformar o País em um sangrento faroeste" .
Os parlamentares são unânimes em afirmar que o Estatuto do Desarmamento não poderia ter sido modificado por decreto, mas apenas por lei.
Ivan Valente observa que a reação ao decreto de Bolsonaro está sendo " bastante forte na sociedade civil e até na grande imprensa" . Em editorial publicado na tarde de hoje, o jornal O Globo anotou: "Difícil desmentir a relação entre mais armas e mais mortes" .
Na opinião de Valente, a intenção, com a flexibilização, é " substituir o papel do Estado na segurança pública" . Ele destaca também que " quanto mais armas em circulação, mais armas na mão dos delinquentes" . Ele cita estudo do Instituto Sou da Paz segundo o qual cada arma colocada em circulação pode dobrar o número de homicídios.
Também para Guaracy Mingardi, ex-secretário para Assuntos de Segurança Pública na gestão de Elói Pietá (PT) em Guarulhos, a liberação da posse, da maneira como prevê o decreto, significa colocar, no médio e longo prazo, mais armamento na mão de criminosos. " Eles se abastecem assim. Armas na mão dos chamados cidadãos de bem são roubadas e acabam na mão do criminoso."
Na opinião de Mingardi, um dos motivos para a queda dos homicídios em São Paulo foi que a campanha do desarmamento (a partir de 2004) retirou 105 mil armas das ruas. 
Além disso, em sua opinião, boa parte dos homicídios não tem nada a ver com o criminoso profissional, mas decorre de brigas de bar e trânsito, por exemplo. " Eu sempre digo: quanto mais frouxo o cara é, mais interesse ele tem em andar armado" , diz o ex-secretário.
No editorial, o jornal da família Marinho observou ainda: "O Estatuto do Desarmamento, ao entrar em vigor em 2004, estancou o ritmo de crescimento de homicídios — de 8,1% ao ano entre 1980 e 2003, para 2,2% de 2004 a 2014. Agora, resta ao Legislativo e a organismos da sociedade civil acompanharem a implementação do decreto" .
Em junho passado, o Atlas da Violência 2018, estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a partir de dados do Ministério da Saúde, mostrou que São Paulo registrou a maior queda na taxa homicídios, de 2006 a 2016, de 46,7%.

Direito?

No discurso em que defende a medida, Bolsonaro afirmou que ela "nada mais é do que restabelecer um direito deferido nas urnas por ocasião do Referendo de 2005, onde, infelizmente, o governo à época buscou maneira em decretos e portarias a negar-lhes esse direito".
Naquele ano, 63% dos eleitores rejeitaram, em referendo, a proibição do comércio de armas de fogo e munição no Brasil. "O povo decidiu por comprar armas e munições e nós não podemos negar o que o povo quis naquele momento", disse ainda o presidente.
"Qualquer pessoa que tenha noção básica sobre segurança pública, em qualquer lugar do mundo, sabe que isso não tem por objetivo atender ao justo sentimento da sociedade por paz, tranquilidade e segurança, mas atender o lobby da indústria de armas", declarou Paulo Pimenta.

ESPECIALISTAS EM SEGURANÇA DIZEM QUE BOLSONARO TRARÁ MORTES E FORÇA AO CRIME ORGANIZADO