segunda-feira, 1 de julho de 2019

Acordo Mercosul: o balão furado que a mídia não mostra

01 DE JULHO DE 2019, 18H27

Acordo Mercosul: o balão furado que a mídia não mostra

João Vicente Goulart: “Basta, brasileiros, de sermos bombardeados por essa mídia esconde-esconde, que não mostra a verdadeira consequência de um acordo firmado às pressas e sem conhecimento dos parlamentos que representam os povos que integram o Mercosul”
Fotos: Reprodução
Olhando neste sábado (29) a maioria das manchetes dos grandes jornalões brasileiros, assim como a programação dos maiores noticiários, como JN, GloboNews, Jornal da Band etc, deparei-me com as forçadas, grandes e espalhafatosas chamadas, do “maior acordo” que o Brasil, através de Bolsonaro-Macri, havia realizado com a União Europeia.
Para os mais desavisados reforçava, ainda, as realizações de um governo totalmente desmoralizado, no que se refere à política externa e comércio entre blocos de países, já construídos em torno de interesses comerciais comuns.
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Senão vejamos a incoerência de atitudes do vai e volta das políticas públicas deste séquito de ministros, dispostos ao puxa-saquismo ideológico e entreguista, que presenciamos nesses seis meses de desastre para o povo brasileiro.
Quem não se lembra, no início do governo, das palavras do Beato Salú, nosso chanceler, que creditou ao marxismo internacional a questão do aquecimento climático mundial. Ou do nosso “Superentreguista ao mercado”, nosso banqueiro Paulo Guedes, que pediu que o Mercosul fosse esquecido, pois nossas relações comerciais neste governo seriam de construção apenas na bilateralidade das relações políticas?
E agora nos vendem a ideia de que este “magnífico” acordo construído por Bolsonaro com o Mercosul será o grande trunfo econômico para o Brasil?
É o que disseram e fizeram antes, esculhambando as relações com vizinhos da América Latina, como a última visita de Bolsonaro, apoiando Macri, que afundou a economia argentina, gerando a volta do país ao Fundo Monetário Internacional, e ainda por cima dizendo que não queria uma outra Cuba no hemisfério sul da América Latina, não farão diferenças agora?
Realmente um gênio em política externa, seguindo os conselhos do Beato Salú, o ministro Ernesto Araújo, nos coloca hoje numa saia justa com “los Hermanos” argentinos.
Estão nos vendendo este acordo como milagroso e não olham para o umbigo dos países membros do MERCOSUL.
Vejamos, então, algumas complicações que não nos informam, como se fôssemos bestas quadradas a serviço da grande mídia que nos bombardeia para elogiar a política econômica de Guedes.
O Acordo, como sabemos, tinha várias etapas e estas foram seguidas conforme o cronograma estabelecido anos atrás. Mas o que não nos falam é que tem que ser aprovado por todos os parlamentos participantes dos blocos comerciais, e convenhamos, as desfeitas realizadas pelas burradas da política externa feriram nossas relações com vizinhos, e muito.
A Argentina fechou seu período de inscrição de chapas partidárias para as eleições de outubro, as quais os argentinos elegerão seus novos dirigentes, presidente, vice-presidente, senadores e deputados. E será que o nosso Bolsonaro, Beato Salú, Guedes e Cia. sabem quais são as últimas variações de pesquisa de intenção de voto naquele país?
O justicialismo (peronistas), com Alberto Fernadez-Cristina Kirtchner, para presidente e vice, respectivamente, estão variando com 20% acima das intenções de voto sobre Macri. E tende a aumentar com a aceitação de Sergio Massa integrar a chapa principal para deputado pela província de Buenos Aires, renunciando à terceira via somando-se a corrente “TODOS”, para ser o futuro presidente da Câmara de Deputados do Congresso Argentino.
E diante disso, vejamos o que diz o provável futuro presidente sobre o acordo do Mercosul, no jornal “EL Clarín”, de Buenos Aires.
Ele diz textualmente, “não fica claro quais seriam os benefícios concretos para o nosso país. Mas o que fica, sim, bem claro são os prejuízos para nossa indústria e o trabalho argentino”, disse ele, horas depois das comemorações dos dirigentes Macristas.
E ainda completou: “um acordo assim não gera nada para festejar, senão muitos motivos para preocuparmos”.
Estas palavras no jornal “El Clarín” foram uma crítica contundente, nada improvisada, que trouxe na página do referido diário uma foto do presidente Mauricio Macri e o mandatário brasileiro, Jair Bolsonaro.
Uma outra pré-candidata à presidência do país, pelo partido socialista (Nuevo Movimiento al Socialismo) argentino, Manuela Castañeira, e que se agrupa em um segundo turno, se houver, ao peronismo, mostrou-se profundamente contrariada ao responder rispidamente ao ministro da fazenda argentino, Nicolás Dujovne, quem, como igual  a mídia brasileira, havia classificado o acordo do MERCOSUL, com um grande “feito histórico” e com um “enorme potencial” para aumentar os investimentos e fomentar o crescimento econômico, ao dizer que esse procedimento era um engano à opinião pública.
Ironizando o ministro Dujovne, disse que “realmente é um acordo histórico. Sim, é histórico pela entrega e abertura ao livre comércio, ao livre mercado, que já destruiu postos de trabalho em nosso país. Rechaçamos este acordo entreguista”, afirmou com veemência.
O Partido Justicialista argentino não aprovará o que nossos grandes meios de comunicação estão a nos impregnar como o grande acordo do MERCOSUL. O partido distribuiu um texto claro e afirmativo, que caso vitorioso nas eleições argentinas de outubro, não deixará passar o acordo sem uma profunda e patriótica análise em defesa da nacionalidade argentina.
Em um texto anunciado este sábado (29), o partido peronista deixa claro esta posição: “O Partido Justicialista lamenta o anunciado pré-acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Trata-se de uma negociação que se desenvolveu, por parte do Mercosul, com o maior dos hermetismos, opacidade, sem dar nenhum tipo de informação ou participação aos setores produtivos afetados, e pior, nem sequer aos parlamentos de cada um dos países membros”.
“Como partido político de oposição e integrante da ‘Frente de Todos’, lembramos ao governo de Macri que desta vez não vai iludir a cuidadosa revisão parlamentaria que se produzirá com o novo parlamento argentino, em defesa do ‘Povo Argentino’, feito este acordo irresponsavelmente pelos funcionários e de costas para todos, pois defenderemos sem concessões os trabalhadores e a produção argentina”.
Não bastasse esta forte oposição dos parlamentares argentinos ao “grande e histórico acordo”, existe a forte oposição também dos produtores europeus, que têm sua produção primaria fortemente subsidiada.
O principal sindicato agrícola da União Europeia, o COPA COCEGA, já criticou essa política do acordo com “standard duplo, e dupla vara para medir”, que aumenta a “distância entre o que se pede aos agricultores europeus e o que se tolera aos produtores do MERCOSUL”, com normas sanitárias diferentes e escala ambiental distintas.
Basta, brasileiros, de sermos bombardeados por essa mídia esconde-esconde, que não mostra a verdadeira consequência de um acordo firmado às pressas e sem conhecimento dos parlamentos que representam os povos que integram o MERCOSUL. Chega de fanfarronadas e exaltações da política econômica do Guedes e Bolsonaro, inflando ânimos que não se cumprirão, apenas para turbinar força para a cassação dos diretos de nosso povo, através de slogans propagandísticos como esses que estão na mídia: “grande acordo do Mercosul, agora só falta a reforma da Previdência para o Brasil explodir no desenvolvimento. ”
Parem de mentir, pois esse balão está murcho!!!
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Reinaldo Azevedo: manifestações fracas refletem os estragos feitos por revelações ​ SÓ TINHA MILICOS E FAMILIARES

Reinaldo Azevedo: manifestações fracas refletem os estragos feitos por revelações

Publicado em 1 julho, 2019 8:22 am
Manifestação na Paulista (Foto: Pedro Pligher)
Da coluna de Reinaldo Azevedo no UOL:
Será que o MBL e o Vem Pra Rua espantaram manifestantes? Isso seria uma burrice. Sem eles, a coisa teria sido ainda mais bisonha. Seria uma estupidez imaginar que um crente da seita morista decidisse algo assim: “Ah, se esses dois movimentos vão, eu não vou”.
A timidez da manifestação, obviamente, tem outra raiz: nem eles conseguiram convencer muita gente que votou contra o PT a sair às ruas para um ato de culto à personalidade. E, se quiserem dobrar a aposta, colherão resultado ainda pior: proporão outra manifestação e será ainda mais modesta. Se o fizeram, só estarão convidando a multidão de insatisfeitos com o governo — que, obviamente, serão coordenados por grupos de esquerda — a ocupar novos espaços.
A verdade inescapável é que as revelações feitas pelo site The Intercept Brasil — em parceria com outros veículos de comunicação — já estão provocando um prejuízo gigantesco à imagem de Sérgio Moro, caracterizado como Superman apenas entre extremistas que perderam qualquer senso de ridículo. E novas revelações, até onde se sabe, vêm por aí.
(…)

A fuga do STF

A fuga do STF, por Assis Ribeiro

A narrativa brasileira de se encontrar o grande vilão para os desmandos da corrupção tem se mostrado tão falsa quanto a história dos italianos Sacco e Vanzetti cujo julgamento tentou ser um marco para conter a turba que procurava um culpado para o caos americano.

A fuga do STF

por Assis Ribeiro

em seu blog
Alguns analistas afirmaram que a decisão do STF de não conceder a liberdade a Lula foi correta pois:
“Seria mais um elemento de insegurança a pairar sobre a já incerta relação do cidadão brasileiro com a lei.”
É como a transposição de uma das maiores injustiças da história americana, o julgamento de Sacco e Vanzetti, quase um século depois para o Brasil. O julgamento foi crivado de erros e ilegalidades para atender a comoção da sociedade.
A justiça pode sobrepujar a realidade dos fatos e das leis para atender interesses?
A narrativa brasileira de se encontrar o grande vilão para os desmandos da corrupção tem se mostrado tão falsa quanto a história dos italianos Sacco e Vanzetti cujo julgamento tentou ser um marco para conter a turba que procurava um culpado para o caos americano.
Em 1920, os Estados Unidos vivam grandes dificuldades sociais e econômicas, com desemprego, miséria e criminalidade.
Naquele ano, que antecede o grande “crash” americano, no dia 15 de abril, houve um assalto em uma fábrica de calçados em Massachussets com dois mortos. Era a oportunidade para o Estado americano tentar botar uma aparente ordem na casa. A polícia mediatamente prendeu dois homens que estavam armados (costume entre os cidadãos). Os presos, além de estarem armados, eram operários, estrangeiros e esquerdistas. O estereótipo perfeito para conter a classe média moralista americana.
No caso do Brasil, atacar a corrupção colocando-a no colo de um partido de esquerda e atribuindo ao seu líder maior o “grande chefe da quadrilha”, como Dallagnol e Moro fizeram era tudo o que a classe média moralista brasileira desejava.
A imprensa americana, a reboque do establishment,  imediatamente passou a divulgar a prisão dos “bandidos italianos” e as suas condições de esquerdistas como prova da tendência à criminalidade e capacidade de delinquir.
No caso do Brasil, a grande imprensa se fartou de conceder holofotes e aplausos à dupla Moro/ Dallagnol. Nenhuma das denúncias da defesa de Lula sobre os excessos praticados pela dupla serviu – como é da obrigação da mídia – promover a investigação, a busca do esclarecimento dos fatos.
Nos Estados Unidos, depois da sentença confirmada por várias instâncias, o verdadeiro criminoso se apresentou à polícia confessando o roubo e os assassinatos. Mesmo assim, a justiça americana a reboque da lateralidade social e étnica e forte necessidade da catarse da sociedade não considerou os novos fatos e rejeitou o pedido a defesa por um novo julgamento.
Aqui no Brasil, os novos acontecimentos que corroboram com as denúncias das irregularidades processuais do juiz Moro feitas pelos advogados de Lula e agora  trazidos ao público pela Folha de São Paulo, revista Veja, The Intercept e BandNews das conversas imorais, que ferem a ética e as leis, entre Moro e os Procuradores da “força tarefa” da Lava-Jato.
Como também havia pressão para reconhecer as evidências da inocência de Sacco e Vanzetti, e evitar o cumprimento da sentença contra os dois italianos, o próprio governador de Massachusetts, atendendo ao pedido de clemência de um dos condenados, nomeou uma comissão especial de advogados, liderada por um juiz, para voltar a estudar o processo. Esta comissão confirmou a sentença de morte. A suprema corte e o presidente dos Estados Unidos recusaram o indulto. A farsa estava concluída.
Aqui no Brasil, no caso Lula, o TRF-4 , o STJ e o STF tem agido para encobrir as irregularidades do processo de Moro.

Na capital da Lava Jato, Marcha da Diversidade teve muito mais gente do que ato em apoio a Moro e Deltan

Na capital da Lava Jato, Marcha da Diversidade teve muito mais gente do que ato em apoio a Moro e Deltan; fotos
Fotos: Eduardo Matysiak
POLÍTICA

Na capital da Lava Jato, Marcha da Diversidade teve muito mais gente do que ato em apoio a Moro e Deltan; fotos


30/06/2019 - 20h42

por Conceição Lemes
Curitiba é a capital brasileira da Lava Jato.
Na tarde deste domingo (30/06), o centro da cidade abrigou dois eventos díspares, no mesmo horário..
Na Boca Maldita, o ato em apoio à Operação Lava Jato, ao ex-juiz e atual ministro Sergio Moro e ao procurador Deltan Dallagnol & cia.
Na rua ao lado, a Marcha da Diversidade.
O fotojonalista Eduardo Matysiak registrou as duas manifestações.
“A Marcha da Diversidade tinha muito mais gente”, afirma. “A estimativa é que 7 mil  participaram”.
Fotos: Eduardo Matysiak
“Juana Profunda, sempre agitando a cena, brilhou”, frisa Matsyak.
Agitadora cultural, Juana é símbolo da luta LGBTI no Paraná.
Abaixo, uma foto dela.
Eduardo Matysiak
Já o ato pró-Lava Jato fez feio em todos os sentidos.
A foto do morador dormindo na Boca Maldita no meio dos manifestantes chamou-me a atenção de imediato, claro. Corta o coração. Dói demais.
— Como eles reagiram ao morador de rua?, perguntei a  Matysiak.
–Ignoravam.
— O que achou da manifestação propriamente?
— Um circo de horrores. As fotos que fiz dão a dimensão. 
Fotos: Eduardo Matysiak
Matysiak é um jovem fotojornalista muito talentoso. Tem fotos publicadas em veículos da  grande imprensa tradicional, assim como em blogs e sites da mídia alternativa.
Tem só 24 anos. Começou a fotografar as 14.
Em artigo publicado no início de junho no portal RSN, Guarapuava, onde ele começou,  a jornalista Cristina Esteche afirmou: O olhar de Eduardo Matysiak vai além da câmera.
Cristina tem razão.
Em tempo: o outdoor abaixo, limpinho é claro, foi instalado na avenida Paraná, atrás da vigília Lula Livre, perto da Polícia Federal, onde o ex-presidente Lula é preso político há quase 1 ano e 3 meses.
Pela provocação barata, chinfrim, ganhou adornos de tintas e ovos. 

domingo, 30 de junho de 2019

Uma farsa chamada Lava Jato (parte III): o cinismo do canalha e a luta contra a pós-verdade

PolíticaUma farsa chamada Lava Jato (parte III): o cinismo do canalha e a luta contra a pós-verdade

 

 
21/06/2019 12:53
 
 
No último dia 19, o Ministro da Justiça e Segurança Pública esteve presente na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a fim de esclarecer os vazamentos de diálogos, entre ele, quando era juiz, e os procuradores do Ministério Público Federal (MPF), na Operação Lava Jato.

Entre o rubor e argumentos frágeis, ele chegou a afirmar sobre a possibilidade da sua saída, caso seja confirmada irregularidade. Deixou de responder às indagações do senador Humberto Costa, líder do Partido dos Trabalhadores (PT) no Senado, a principal delas, se a Operação Lava Jato era um projeto político, do qual o Ministro teria se beneficiado. Por vezes, com o olhar insone e arquejante, o responsável pela pasta da Justiça e Segurança Pública além de não elucidar os questionamentos propostos pelos senadores, recorreu à dissimulação e ataques ao The Intercept. Sua principal tese é a suposta existência de hackers ­que invadiram os celulares dele e dos procuradores do MPF. Nesse ínterim, ele foi apoiado por senadores aliados ao governo, os quais afirmaram que os vazamentos divulgados por Glenn Greenwald fazem parte de uma campanha de ciberterrorismo contra o Ministro.

Sob a perspectiva psicanalítica, demonstramos no segundo artigo dessa série (https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Uma-farsa-chamada-Lava-Jato-parte-II-leitura-psicanalitica-do-termo-canalha/4/44305), que Sérgio Moro se localiza no lugar psicológico do canalha. Entretanto, esta posição não surge solitária no psiquismo do sujeito. O canalha pode também ser cínico, termo proveniente do latim e que significa cão. O cinismo foi um movimento filosófico fundado por Antístenes (440 a.C. – 365 a.C.), discípulo de Sócrates. Entretanto, em Diógenes de Sínope (404 a.C. – 323 a.C.), essa corrente teve seu ícone. A filosofia cínica se fundamentava, entre outras bases, sobre o agir sem qualquer pudor como um dos caminhos para a felicidade. Conforme Diógenes, o homem teria muito a aprender com o cão, haja vista o mamífero carnívoro da família dos canídeos ser altamente adaptável, vivendo em qualquer local, se alimentando do que está disponível e reconhecendo rapidamente o que – ou a quem – amar ou desconfiar. Essa ideia que a filosofia cínica possui em torno do cão evidencia o caráter do cinismo enquanto pensamento que prega garantir a sobrevivência, independente dos métodos utilizados para tal. Sobrevivência, inclusive, como ato político.

No capitalismo da Revolução 4.0, as fake news tornaram-se instrumento imprescindível para garantir a ascensão e sobrevivência política de grupos conservadores. Disseminar mentiras pelas redes sociais proporciona domínio sobre a formação de opiniões, levando milhões de pessoas a acreditar no teor das postagens falsas. Essa tática vem pautando a realidade histórico-social brasileira, e, como expressa o psicanalista argentino Ricardo Goldenberg, em No círculo cínico ou Caro Lacan, por que negar a psicanálise aos canalhas? (2002), tirar proveito de todas as situações se tornou o Zeitgeist – palavra alemã que indica a atmosfera intelecto-cultural em um determinado tempo histórico –, graças ao modus operandi do capitalismo moderno. Mais: se tornou a maneira de estabelecer vínculos sociais, a partir da manipulação da realidade, através do cinismo. Para Goldenberg, o cínico se relaciona com o inconsciente de forma tal que este só possui valência para os outros. Logo, ser cínico é ver a si próprio como ser soberano frente aos ditames da civilização. É não reconhecer nas instituições a presença do superego que regula os marcos civilizatórios. É, em última análise, a partir da criação e uso de pós-verdades, tribalizar a civilização, impondo retorno à seus estágios mais infantis.

Desde 2005, quando da Ação Penal 470, o Mensalão, a tese de que a corrupção é monopólio de somente um único partido político, teve início. Durante anos, as mídias corporativas nacionais criaram uma realidade artificial, a partir da manipulação das informações, a fim de apontar o Partido dos Trabalhadores (PT) como inventor de toda e qualquer ilicitude. Esse cenário, aliado a crise econômica global de 2008, constitui-se como um dos fatores mais importantes para a deslegitimação das instituições sociais no Brasil. Nessa perspectiva, vivemos o tempo do embuste, do engano fabricado para que o público, emburrecido, seja conduzido a acreditar nos apelos à emoção e não em eventos concretos. Seguindo por essa trilha, a verdade deixou de ser importante. Na realidade, qualquer mentira pode ser içada ao status de verdade: para isso, basta apelar às convicções pessoais – muitas vezes construídas artificialmente, a partir do cinismo, da massificação cultural e da busca de satisfação pulsional sem qualquer limite – e o resultado será uma veracidade erigida sobre o selo da falsidade.

O Ministro da Justiça e Segurança Pública aposta nessa conjuntura para lograr êxito. Deixou isso claro quando afirmou que não houve qualquer irregularidade na condução da Lava Jato, apesar de as divulgações realizadas pelo The Intercept não deixarem espaço para dúvidas sobre seu comportamento totalmente ilegal, quando era, de direito, juiz, mas, atuava de fato – e fora de qualquer ordenamento jurídico –, como promotor e advogado de acusação. Atacou Glenn Greenwald – ganhador do prêmio Pulitzer de 2014, pelo seu brilhante trabalho como jornalista investigativo, denunciando a espionagem perpetrada pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, em que a então presidenta Dilma Rousseff foi alvo – sem qualquer argumentação tangível. Entretanto, o chefe da pasta de Justiça e Segurança Pública não negou o conteúdo das conversas. Pelo contrário, ele assumiu uma narrativa de legitimação da afronta que praticou contra o Estado Democrático de Direito, se colocando em posição superior às leis que deveriam fazer parte das suas normas de conduta. A narrativa mentirosa de invasão dos celulares dos procuradores e do próprio Ministro, quando era juiz, por parte de hackers, atenta contra a verdade e distorce os fatos – o Telegram, aplicativo em que as conversas aconteceram, já informou que não houve invasão dos celulares do Ministro quando esse era juiz na Operação Lava Jato, tampouco dos celulares de qualquer dos procuradores –, e, por isso mesmo, pode ser exitosa, se constituindo como perigo para a abertura de qualquer apuração dos fatos. Ora, como poderia uma investigação sobre as ações do Ministro ir adiante, se é ele que comanda a Polícia Federal?

A luta contra a pós-verdade instrumentalizada pela narrativa do cínico Ministro, necessita, então, passar por duas instâncias: a continuidade das divulgações das conversas e a sequência das manifestações de rua. Os diálogos continuam sendo divulgados e já revelaram fato de notável relevância: apesar de o Ministro refutar a tese de interferência no andamento dos processos quando era juiz, novas conversas vazadas pelo The Intercept, divulgadas na última quarta, 19, pelo jornalista Reinaldo Azevedo, comprovam que a crítica dele quanto a atuação de uma procuradora, acarretou na alteração da escala do MPF. A procuradora foi substituída quando da audiência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que demonstra inequivocamente a interferência do então magistrado na condução do processo.

Ante essa trama que ameaça os destinos da Nação, as hostes progressistas precisam unificar suas pautas e buscar o diálogo com as ruas. As manifestações de 15 e 30 de maio e 14 de junho precisam ter prosseguimento. Nelas, a sociedade foi convidada a refletir sobre os perigos que o país vive quanto ao fim da educação pública e ao estrangulamento da Previdência. Novos protestos precisam ocorrer, desta feita convidando a sociedade a pensar sobre o perigo que o sistema judicial corre nas mãos de um ser cínico e inescrupuloso, o qual cometeu diversas modalidades de prevaricação.

Armando Januário dos Santos. Sexólogo. Psicanalista em formação. Concluinte da graduação em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br