sábado, 25 de janeiro de 2020

Witzel e gringos miram a sua cabecinha

Sábado, 25 de janeiro de 2020
Witzel e gringos miram a sua cabecinha

Carnaval passado a gente te avisou que era melhor sair de máscara – especialmente se você estivesse no Rio. E nesse carnaval não vai ser diferente.

O mesmo Wilson Witzel que aposta em “atirar na cabecinha” de criminosos e encerrou 2019 com mais de 1.800 mortos pela polícia nas costas, agora negocia com o governo inglês a instalação de um sistema de vigilância e reconhecimento facial no estado.

O Black Mirror carioca está cada vez mais perto de sair do papel.

Consegui com o pessoal do Unearthed, a unidade de jornalismo investigativo do Greenpeace, a ata secreta da reunião entre Witzel e o ministro para o Comércio Exterior britânico, Conor Burns, em agosto. Na conversa, muitos afagos a suposta preocupação do governador de reduzir a violência no estado e um governo inglês ávido por “ajudar”.

Durante a reunião, que aconteceu em 19 de agosto, Burns disse a Witzel que “o Reino Unido está pronto para trabalhar em conjunto em uma variedade de assuntos, incluindo segurança (notável expertise em reconhecimento facial)”. Afirmação, segundo o relatório dos ingleses, recebida com animação pelo governador.

Reconhecimento facial vem dando – bem – errado. A final da Champions League em 2017 na própria Inglaterra é um bom exemplo. O sistema de vigilância usado pela polícia britânica identificou 2.470 possíveis criminosos no meio da multidão – mas só 173 foram corretamente identificados, um índice de erros de 92%. Essa é a “notável expertise” que a polícia britânica bradou ao governador. Agora imagina essa situação em um estado que pena até para abastecer os tanques de gasolina das viaturas policiais.

O sistema prometido por Witzel no carnaval segue em fase de testes no Rio com algumas poucas câmeras instaladas na capital desde julho, mas já deu tempo do governo passar vergonha. Ainda em julho uma mulher foi presa em Copacabana, confundida com uma suposta foragida da justiça – detalhe: a pessoa que a polícia buscava já estava detida em um presídio do Rio desde 2015.

Além da ata da reunião, tivemos acesso ao briefing que o ministro Burns recebeu sobre o governador fluminense. Algumas omissões chamam a atenção. Apesar de Witzel já ter sido denunciado à ONU pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio por sua "agenda genocida" – que inclui o maior número de mortos pela polícia desde que esse indicador passou a ser registrado no estado, exatos 1.810 em um ano –, o briefing prévio à visita feitos pelos ingleses mereceu apenas um tópico de alerta sobre o governador, lembrando justamente a denúncia às Nações Unidas.

O texto preferiu ressaltar suas ambições presidenciais – Witzel e Bolsonaro passaram a se estranhar desde que o ex-juiz deixou claro que é candidato em 2021 –, e elogiar o desejo já manifesto do governador de atrair mais investimentos estrangeiros para o estado. Aparentemente desinformados sobre a pindaíba carioca, os ingleses ainda citam os royalties do petróleo e o “peso de Witzel” (acredito que se referiam ao seu suposto poder, e não a já não tão esguia silhueta de WW), como um dos governadores de um “dos três maiores estados do país, ao lado de São Paulo e Minas Gerais”.

O ministro de Boris Johnson ainda elogiou, segundo a ata, a agenda de reformas em curso no estado por conta do Regime de Recuperação Fiscal dizendo que ela, pasmem, o recorda a política implantada por Margaret Thatcher. Não sei a Inglaterra, mas no Rio o fundo do poço segue próximo e o estado já acumula uma dívida de R$ 118 bilhões com a União.

Nada como um governador preocupado em atirar nas nossas cabecinhas e garantir que ninguém passe despercebido na multidão.
 

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ECONOMIA Antes de Davos, Paulo Guedes foi ao ‘comitê central’ do neoliberalismo FOI RECEBER ORDENS DE SEUS PATRÕES!

Antes de Davos, Paulo Guedes foi ao ‘comitê central’ do neoliberalismo

O ministro da Economia Paulo Guedes (Foto: Carl de Souza/AFP)
O MINISTRO DA ECONOMIA PAULO GUEDES (FOTO: CARL DE SOUZA/AFP)

Ministro participou de jantar nos EUA com a Sociedade Mont Pelerin, patrocinadora do discurso pró-ricos desde 1947

O ministro da Economia, Paulo Guedes, representou o governo Bolsonaro no Fórum de Davos, encontro anual da elite planetária. Embarcou para a Suíça na Califórnia (Estados Unidos), onde compareceu a um jantar da Sociedade Mont Pelerin. Será por isso que se portou nos alpes suíços como um neoliberal “duro”, atitude que seus parceiros de crença tem aliviado um pouco, por causa da crescente concentração de renda?
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Pelerin é um monte na Suíça e foi lá que nasceu, em 1947, a sociedade visitada por Guedes. Entre os fundadores do grupo, está o finado economista americano Milton Friedman, mestre e ídolo dos Chicago Boys a la Guedes.
Essa sociedade é uma trupe de endinheirados, economistas, filósofos e políticos defensora dos ricos e do individualismo. Um programa humorístico da tevê alemã descreveu didaticamente, em 2018, o que ela é. Uma espécie de comitê central do neoliberalismo internacional.
Depois da II Guerra Mundial (1939-1945), o capitalismo estava ferido, atrelado ao fascismo e ao conflito. O socialismo soviético representava uma opção de justiça social e de alternativa de modelo econômico. Os ricos viam-se acuados no Ocidente por trabalhadores a cobrar melhores salários e mais direitos e por governos inclinados a atender essas demandas, via impostos.
Era preciso defender os ricos, mas sem dizê-lo abertamente. Melhor seria pregar que a riqueza é boa para todo mundo, que o mercado é virtuoso e o Estado, degenerado. A missão da Sociedade seria santificar o setor privado e amaldiçoar tudo que fosse público. Sim às privatizações e ao corte de gastos públicos, não aos impostos.
O plano exigia mudar a hegemonia ideológica e cultural em escala global. Não faltou dinheiro para esse lobby, afinal, eram todos ricos. E assim a Sociedade deu origem a uma rede de uns 500 think tanks espalhados pelo mundo, com economistas, pesquisadores e políticos dedicados a professar as virtudes do capitalismo neoliberal individualista e os pecados estatais.
No flyer comemorativo de seus 70 anos, em 2017, a Mont Pelerin listava alguns membros ilustres, sinal do peso de sua influência. Alan Greenspan, presidente do Banco Central americano de 1987 a 2006. Lars P Feld, consultor econômico da chanceler alemã, Angela Merkel, no poder desde 2005. O empresário Charles Koch, um dos principais financiadores da campanha de Donald Trump em 2016.
Criado em 2005 no Brasil tendo Paulo Guedes como um de seus fundadores, o think tank Instituto Millenium pode ser considerado integrante da rede Mont Pelerin. O ministro é um milionário, teria ainda hoje no governo “negócios ocultos”, segundo o deputado Paulo Ramos (PDT-RJ), que cobra do Ministério Público uma investigação a respeito.
O jantar de que Guedes participou na Califórnia fez parte do “encontro especial 2020” da Sociedade Mont Pelerin, realizado entre 15 e 17 de janeiro na Universidade de Stanford. Ele foi ciceroneado por um professor de história conservador da universidade, o escocês Niall Ferguson, uma pessoa com credenciais para integrar o governo Bolsonaro.
Certa vez, Ferguson quis desprezar a obra do falecido economista inglês John Maynard Keynes, a quem Milton Friedman via como inimigo, e tachou-o de “gay”. Em outra oportunidade, ajudou dois estudantes direitistas de Stanford a perseguir um aluno de esquerda, motivo de rebu no campus.
Outra do escocês: em 2018, ele organizou uma conferência com 30 historiadores. Todos homens e brancos. A historiadora gaúcha Ana Lucia Araújo, professora na Universidade de Washington, comentou no Twitter: “Conferência histórica para todos os homens. Isso vale para o Guiness book do século! Uma equipe de 30 historiadores brancos discutirá a história aplicada em Stanford. Que pena.”
Rejuvenescido por beber na fonte de inspiração de sua juventude antes de chegar a Davos, Guedes não deu bola no Fórum para um assunto que preocupa cada vez mais os ricos e as grandes empresas: a concentração de renda. E não é por bom coração que existe tal preocupação.
“Está ficando claro que a desigualdade ameaça o futuro e os negócios das corporações. Para estas, hoje é indispensável atenuar as desigualdades, pois precisam de consumidores e a melhor forma de alcançá-los é ampliando o mercado”, diz o economista Paulo Feldman, da USP. “Concentração de renda na mão de poucos significa em primeiro lugar diminuição do número de consumidores.”
A concentração de renda pelo mundo nunca foi tão grande, conforme o “Relatório Social Mundial 2020 das Nações Unidas: Desigualdade num Mundo que Muda Rapidamente”, lançado em Nova York dia 21 pela ONU. Uma herança que o economista brasileiro Alfredo Saad Filho, professor na Universidade de Londres, atribui a quatro décadas de hegemonia neoliberal.
A experiência inaugural do neoliberalismo foi no Chile, com a ditadura Pinochet surgida em 1973 após um golpe no presidente socialista Salvador Allende. Milton Friedman, o da Sociedade Mont Pelerin, era a bússola econômica pinochetista. Vários de seus Chicago Boys passaram por lá. Inclusive Guedes. O ministro foi pesquisador da Faculdade de Negócios da Universidade do Chile.
Diante de tudo isso, não é difícil entender por que a política econômica de Guedes e o governo Bolsonaro fazem o oposto daquilo que a ONU, em seu relatório social, recomenda contra as desigualdades e a concentração de renda.
O organismo defende acesso universal à educação de qualidade, investimento no mercado de trabalho e apoio a novas formas de representação sindical, para dar voz aos trabalhadores donos de empregos informais e precários. Aqui o governo segura a verba da educação, quer dar mais espaço a instituições privadas (que cobram mensalidade), sabota os sindicatos, incentiva o trabalho precário.
A ONU propõe mais proteção social, aposentadorias melhores. Aqui a reforma da Previdência dificulta o acesso dos brasileiros ao INSS.
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As Nações Unidas sugerem combater o preconceito e a discriminação de grupos já desfavorecidos. Aqui Bolsonaro ataca negros, mulheres, gays, indígenas.
A Sociedade Mont Pelerin só tem a agradecer a Paulo Guedes e ao ex-capitão.

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