sábado, 11 de abril de 2020

Barbárie “à brasileira”, por Michel Zaidan Filho

Barbárie “à brasileira”, por Michel Zaidan Filho

A ideia do campo de concentração é uma grande alegoria social adequada aos tempos “de cólera” em que vivemos: os espaços de sociabilidade foram reservados para poucos
Jair Bolsonaro - Foto: Reprodução
  
Por Michel Zaidan Filho(1)*
“Hoje, só se pode alimentar a esperança em nome dos desesperançados”. (Walter Benjamim).
O apresentador de uma conhecida emissora de TV brasileira, cujo dono é judeu, sugeriu que fossem criados campos de concentração no país, para internação das pessoas contaminadas pelo coronavírus. 
Não é a primeira vez que se fala nesse tipo de providência entre nós. Em Pernambuco, a família Lundgren (Casas Paulistas), durante a Segunda Guerra Mundial, manteve campos de concentração para minorias judaicas no estado (2).  E a escritora Rachel de Queiroz alude à existência de “currais”, onde os flagelados da grande seca de 1915 eram confinados (3).
A proposta é sintomática da patologia social e política que tomou conta de parte da população brasileira, nas últimas eleições presidenciais. A ideia de um espaço concentracionário na sociedade moderna (panóptico) não é nova. Surgiu de um autor utilitarista inglês, Jeremy Bentham, e foi apropriada por um filósofo contemporâneo chamado Michel Foucault, numa obra intitulada “Vigiar e Punir”. Segundo eles, as sociedades modernas são dominadas por uma lógica concentracionária e uma modalidade onimoda de poder (Big Brother) presente nas escolas, nas fábricas, nos hospitais, nas prisões etc. Paradoxalmente, teria sido graças a essa lógica, que teria nascido o “indivíduo disciplinar”, o cidadão moderno (4). 
A questão que se coloca é como transpor essa teoria para a sociedade brasileira. Existe ou não uma sociedade disciplinar, panóptica, concentracionária, semelhante à europeia ou norte-americana? – Sobre este ponto, as opiniões se dividem: uns, como o professor Luciano Oliveira, duvida muito dessa hipótese; e ele nem precisa recorrer à famosa tese da malandragem no Brasil. Estudioso da sociologia jurídica entre nós, acostumou-se a pesquisar as formas “alternativas” de prestação da justiça entre nós (veja o seu livro: “Sua excelência, o comissário”) (5). Outros abraçaram simplesmente a tese foucaultiana e transpuseram – sem mais – a ideia de que a sociedade é um enorme cárcere sem grades, onde a pessoa introjeta a autoridade em si, tornando-se sua própria polícia. Essa tribo é grande e são muitos os historiadores e cientistas sociais que se agarram a ela.
Na verdade, a sociedade brasileira parece um hibrido institucional composto da malandragem pragmática e da lógica concentracionária. Embora possa se dizer que a ideia da concentração social tenha avançado muito no Brasil, a par de uma modalidade de biopolítica ou necropolítica voltada para a eliminação dos mais fracos, a tese antropológica da malandragem persiste, sobretudo na elite social (6).
Quando se afirma que a tese do espaço concentracionário avança, ente nós, é no sentido de que ela assumiu recentemente  traços neofascistas que se manifestam não só nessa cultura misógina, homofóbica e racista entre religiosos das igrejas pentecostais e neopentecostais, mas acima de tudo no formato das políticas públicas adotadas pelo atual governo, inspiradas na suposição de que “os pobres e miseráveis já não têm lugar nenhum na história e na sociedade” (Oliveira) e, portanto, devem ser eliminados (7). Ou seja, não há porque se incomodar mais com eles e “gastar” recursos públicos com esses.
Reorientar a política social e fiscal no sentido de remunerar os investimentos especulativos e rentistas do grande capital apátrida e seus associados no país. Como disse o chefe do executivo, que as famílias cuidem de seus idosos, doentes e miseráveis. Essa não é mais a função prioritária do Estado de “direito democrático”. Daí a caçar e prender os recalcitrantes que teimam em contaminar o resto da população sadia e consumidora, é só um pequeno salto.
A ideia do campo de concentração é uma grande alegoria social adequada aos tempos “de cólera” em que vivemos: os espaços de sociabilidade foram reservados para poucos. O contingente humano excedente deve ser eliminado, já que não pode ir para as câmaras de gás. É a revivescência do antigo “darwinismo social”, a tese da seleção natural e da sobrevivência dos mais aptos, posta em prática por um tipo de neoliberalismo de tinturas nazistas, abençoado pelas igrejas que veem no verdugo um emissário de Deus.
Notas de rodapé:
1 – O autor tem abordado esse tema em palestras, ensaios e artigos. Entre eles, “Neoliberalismo e Estado”, palestra proferida na semana das Ciências Sociais, na UFRPE, em 2019. “O capitalismo como pandemia mundial”, portal eletrônico de notícias Brasil 247. Fica aqui o registro de importantes contribuições como a do ensaio do professor Luciano Oliveira: “Neofascismo, Neomiséria”. “Política Hoje”. Recife, editora Bagaço, 2000, Pierre Dardot e Christian Laval. “A nova razão mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal”. São Paulo, Boitempo, 2016. As últimas obras de M. Foucault que tratam da biopolítica e do biopoder: “Em defesa da sociedade”. São Paulo, Martins Fontes, 2002 e “O nascimento da biopolítica”. São Paulo, Martins Fontes, 2008.
2 – Cf. a dissertação de Mestrado em Ciência Política, de Susan Lewis. “Campos de Concentração em Pernambuco”. Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1995.
3  – Cf. “O Quinze”,  Queiroz Rachel de Rio, José Olympio.
4 – Cf. FOUCAULT, Michel. “Vigiar e Punir”. Petrópolis, Vozes, 1997.
5 – Cf. OLIVEIRA. Luciano. e outros estudos. “Sua excelência, o comissário”. Recife, Massangana, 1987.
6 – Cf.  A tese da dialética da malandragem tem uma ilustre filiação: Antonio Candido de Melo e Souza e Roberto Schwarz. Roberto DaMatta e Roberto Goto. A reelaboração da tese é de Roberto Gotto. “A malandragem pragmática”. Também celebrada na Opera e livro de Chico Buarque de Holanda, “A ópera do Malandro”, uma adaptação da obra de B. Brecht. “A Ópera dos três vinténs”.
7 – Cf. “Sua Excelência, o Comissário”.
Referências Bibliográficas
1 –  DARDOT, Pierre. LAVAL, Christian. A nova razão mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo, Boitempo, 2016.
2 –  DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil. Rio de Janeiro: editora Rocco.
3 – FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petropolis, Vozes, 1997.
4 – _______. Em defesa da sociedade. São Paulo, Martins Fontes, 2002.
5 – _______. Em defesa da sociedade. São Paulo, Martins Fontes, 2002
6 – LEWIS,Susan. ” Campos de Concentração em Pernambuco”. Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1995.
7 – QUEIROZ, Raquel de. O Quinze,  Queiroz Rachel de Rio, José Olympio.
8 – OLIVEIRA, Luciano. “Neofascismo, Neomiseria”. In: Política Hoje. Recife, editora Bagaço, 2000.
9 – _______. Sua Excelência, o Comissário. Recife: Editora Massangana. 1985.
10 – ZAIDAN, Michel. “Neoliberalismo e Estado”, palestra proferida na semana das Ciências Sociais, na UFRPE, em 2019.
11 – _____. “O capitalismo como pandemia mundial”, portal eletrônico de notícias Brasil 247. Março/2020
*Michel Zaidan Filho é filósofo, mestre em História e doutor em História Social.

Fonte: Fórum

Noam Chomsky: a campanha de Bernie Sanders não falhou. Energizou milhões e mudou a política dos EUA

Pelo Mundo

Noam Chomsky: a campanha de Bernie Sanders não falhou. Energizou milhões e mudou a política dos EUA

 

 
10/04/2020 13:39
 
 
Trecho da entrevista de Noam Chomsky para o Democracy Now!

Amy Goodman: Na quarta-feira, pouco antes de Bernie Sanders anunciar, mas parecia que ele estava prestes a sair da corrida presidencial, perguntei ao dissidente político, linguista e autor Noam Chomsky sobre sua avaliação da campanha de Bernie Sanders nesta época da pandemia de coronavírus.

Noam Chomsky: Se Trump for reeleito, será um desastre indescritível. Isso significa que as políticas dos últimos quatro anos, que foram extremamente destrutivas para a população americana e para o mundo, continuarão e provavelmente serão aceleradas. O que isso vai significar para a saúde já é ruim o suficiente. Acabei de mencionar os números da Lancet. Vai piorar. O que isso significa para o meio ambiente ou a ameaça da guerra nuclear, sobre a qual ninguém está falando, mas é extremamente sério, é indescritível.

Suponha que Biden seja eleito. Eu anteciparia que seria essencialmente uma continuação de Obama - nada de muito grande, mas pelo menos não totalmente destrutivo, e oportunidades para um público organizado de mudar o que está sendo feito, impor pressões.

É comum dizer agora que a campanha de Sanders falhou. Eu acho que é um erro. Eu acho que foi um sucesso extraordinário, mudou completamente a arena do debate e discussão. Questões impensáveis há alguns anos agora estão no meio das atenções.

O pior crime que ele cometeu, aos olhos do establishment, não é a política que ele está propondo; é o fato de ele ter conseguido inspirar movimentos populares, que já vinham se desenvolvendo - Occupy, Black Lives Matter, muitos outros - e transformá-los em um movimento ativista, que não aparece apenas a cada dois anos para pressionar um líder e depois vá para casa, mas aplica pressão constante, ativismo constante e assim por diante. Isso poderia afetar uma administração de Biden.

Amy Goodman: Esse é o ativista, intelectual público, linguista de renome mundial, Noam Chomsky. Vamos passar a hora com ele na sexta-feira no Democracy Now!



*Publicado originalmente em 'Democracy Now!' | Tradução e legendagem de César Locatelli para o Democracy Now! Brasil

Carreata bolsonarista para Paulista, trava ambulâncias e chama Doria de comunista INSANIDADE TOTAL!



Carreata bolsonarista para Paulista, trava ambulâncias e chama Doria de comunista

247 - Apoiadores de Jair Bolsonaro participaram de uma carreata pelas ruas da cidade de São Paulo na tarde deste sábado, 11, para protestar contra as medidas de isolamento social adotadas pelo governador João Doria contra o avanço da pandemia de coronavírus. 
Com bandeiras do Brasil, e algumas dos Estados Unidos, os bolsonaristas pararam o trânsito na avenida Paulista, atrapalhando inclusive o tráfego de ambulâncias. 
De dentro dos seus carros os manifestantes, vários deles usando máscaras cirúrgicas, imitavam armas com as mãos, gritavam "fora Doria" e bordões contra o comunismo como "nossa bandeira jamais será vermelha".




Conversa

Bolsonaro e seus eleitores são assassinos! Pararam 3 ambulâncias na avenida Paulista em plena pandemia, no Estado mais atingido do Brasil! manda a polícia lá! #BolsonaroAssassino

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Bolsonaro e seus eleitores são assassinos! Pararam 3 ambulâncias na avenida Paulista em plena pandemia, no Estado mais atingido do Brasil! manda a polícia lá! #BolsonaroAssassino

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