terça-feira, 6 de outubro de 2020

Manifesto dos diretores brasileiros do Festival 'É Tudo Verdade'

 Antifascismo

Manifesto dos diretores brasileiros do Festival 'É Tudo Verdade'

Manifesto dos diretores brasileiros do Festival 'É Tudo Verdade'

 
06/10/2020 14:43

(Reprodução/Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Reprodução/Arte/Carta Maior)

 
Na noite de domingo último, depois do anúncio do vencedor brasileiro da 25a. edição do Festival É Tudo Verdade, um dos mais antigos e importantes certames cinematográficos do Brasil, foi lido e começou a ser divulgado um duro Manifesto dos 21 diretores que participaram dessa competição, com o repúdio veemente das vergonhosas ações políticas na área da Cultura que vêm sendo articuladas, há mais de um ano, pelo atual governo autoritário, de extrema direita de Jair Bolsonaro.

No conjunto de ações truculentas do governo que amordaça a Cultura brasileira, censurando e descartando seus representantes máximos e, sobretudo, históricos; aparelhando as instituições e agências da área com a nomeação escandalosa de figuras ridículas ou ignorantes sem qualquer expressão na vida cultural do país além da sua especialidade em telenovelas, e limitadas pelo baixo nível cultural e intelectual, destacou-se logo no começo da administração atual a extinção do Ministério da Cultura (MinC) e sua inadmissível substituição por uma secretaria submetida a um Ministério do Turismo!

A devastação continuou com o aparelhamento da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, responsável por emitir pareceres sobre solicitações de artistas que buscam financiamento para seus projetos por meio da Lei de Incentivo à Cultura conhecida como Lei Rouanet. Entre outros atos que visam ao esfacelamento da Cultura no país, seguiu-se o desmonte maligno da Cinemateca Brasileira fundada há 80 anos, responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira, com um acervo de cerca de 250 mil rolos de filmes e mais de um milhão de documentos relacionados ao cinema nacional. Seus funcionários foram demitidos.

Um dos crimes recentes contra um dos mais populares dispositivos culturais do Rio de Janeiro, centro de referência no ensino da produção cinematográfica brasileira, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro, patrimônio histórico e cultural do país, foi despejada há dois meses do imóvel que ocupava há mais de 20 anos para ceder o prédio ao proprietário, a ECT, ou seja, aos Correios, que estão sendo privatizados.

''Uma situação gravíssima'', denuncia o Manifesto dos diretores de cinema brasileiros repelindo todas as sórdidas manobras na investida que visa recriar um Brasil retrógrado, anacrônico, com valores conservadores rejeitados em todos os países democráticos modernos do mundo civilizado.

E o mais grave: a tentativa de reconstruir um país que passará a formar das novas gerações de jovens, adultos boçais, ignorantes, grosseiros na sua proverbial cafajestice e indiferentes à cultura. Como prega o modelo neofascista que vem do Palácio do Planalto de Brasília.

O Manifesto

''Manifestamos nosso total desacordo com os rumos da política cultural do país. O governo de extrema direita do Jair Bolsonaro age desde o início para atacar e silenciar os brasileiros que fazem cultura e arte como seus inimigos”, afirmam os diretores. ''A atividade audiovisual está paralisada desde março, com a suspensão de todos os recursos públicos para a produção de filmes e séries. Isso tem provocado uma taxa crescente de desemprego.''

''São muitas as empresas que estão falindo, cineastas passando necessidade e a ameaça de paralisia total do setor. Isso sem falar da cinemateca brasileira, com seu acervo histórico que corre o risco de total destruição”, dizem ainda no Manifesto contra Bolsonaro.

''Eles têm medo de nós. A situação é gravíssima. Por isso convidamos as realizadoras e realizadores do audiovisual a se voltarem, mais uma vez, para a realidade. E, acima de tudo, não se intimidarem. É preciso cada vez mais buscar novas formas de produzir e registrar a nossa memória. E nunca parar e nem silenciar. Um país sem imagens de si mesmo é como alguém que não sabe o que é. É um país com alzheimer”.

"É preciso cada vez mais buscar novas formas de produzir e registrar a nossa memória. Um país sem imagens de si mesmo é como alguém que não sabe o que é”, afirma o grupo de 21 diretores no Manifesto.

O fundador e diretor do É Tudo Verdade, Amir Labaki, destaca: ''É devastador o impacto sobre a vida e as finanças dos profissionais, entidades e empresas diretamente envolvidas no setor. O Brasil tem mais de quatro milhões de confirmados com coronavírus e nenhum final à vista para a mais aguda emergência sanitária do século.''

''Mas se o vírus persegue a vida a cultura nos humaniza,'' diz Labaki.

Os vinte e um diretores que assinaram o documento: Aurélio de Michiles, Bernardo Vorobow, Bruno Moreschi, Carlos Adriano, Carol Benjamin, Clarice Saliby, Cláudio Moraes, Diógenes Muniz, Guga Millet, João Jardim, Jorge Bodanzky, Marcelo Machado, Mari Moraga, Mariana Lacerda, Paschoal Samora, Rafael Veríssimo, Roberto Berliner, Rubens Rewald, Silvio Tendler, Tali Yankelevich, Toni Venturi.



Como criar um ambiente favorável para despertar e ajudar seu filho a manter o gosto pela escrita

 


SEGUNDA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO DE 2020

Como criar um ambiente favorável para despertar e ajudar seu filho a manter o gosto pela escrita

 

Para qualquer lugar que se olhe é possível perceber: vivemos em um mundo letrado. Nomes de lojas, indicações no trânsito, anúncios, destinos de ônibus, embalagens de produtos, na caixa do brinquedo, no videogame, as letras estão por toda a parte, dentro e fora de casa. E por isso, o contato das crianças com a escrita acontece muito antes de isso ser trabalhado formalmente na escola.

São os pais, portanto, os primeiros a terem a oportunidade de apresentar esse maravilhoso universo a seus filhos e ajudar a tornar a escrita, mais do que algo prático, em um prazer. Não se trata, no entanto, de assumir a missão de ensinar o filho a escrever. Apenas criar (e manter) uma boa base para o trabalho que a escola fará depois. 

“Tão importante quanto um ambiente que seja favorável e estimule a curiosidade é o respeito ao ritmo da criança. Não é saudável a ansiedade em ver o filho escrevendo precocemente, pois isso gera uma pressão que poderá levar a um desinteresse mais para frente”, comenta Sonia Maria Sellin Bordin, fonoaudióloga doutorada pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). 

Mesmo após o período de alfabetização, há muito o que fazer em casa. “É preciso trazer a escrita para a rotina e envolver a criança em situações nas quais ela é utilizada”, defende Silmara Carina Munhoz, doutora em psicologia e professora da Faculdade de Educação da UnB (Universidade de Brasília). As duas especialistas apresentam dicas de como despertar e ajudar seu filho a manter o gosto pela escrita. 

Repensar a própria relação com a escrita 

Para que o estímulo seja efetivo ele deve vir de alguém que tenha real envolvimento com a escrita. “É preciso deixar de encarar a escrita como um bicho-papão, enfrentar seus próprios medos e limites. Caso contrário é como alguém que não gosta de brócolis querer convencer o filho de que brócolis é gostoso”, afirma Silmara Carina Munhoz, doutora em psicologia e professora da Faculdade de Educação da UnB (Universidade de Brasília). “Quem tem dificuldades ou receios pode aproveitar o momento para vencê-los junto com a criança e criar novos hábitos relacionados ao ato de escrever” 

Saber que tudo começa com a leitura 

Quem lê bastante escreve bem. Seguir as recomendações de como incentivar o gosto pela leitura é também estimular a escrita Criar um ambiente no qual regras são seguidas Para escrever é necessário seguir regras. “Não posso escolher qualquer letra para escrever a palavra casa. É preciso seguir a convenção estabelecida e isso é mais facilmente compreendido por quem está acostumado com regras”, diz Sonia Maria Sellin Bordin, fonoaudióloga doutorada pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). 

O ideal, então, é envolver a criança na dinâmica familiar, indicando que ela, assim com os demais membros da família, possui deveres. “Para os pequenos pode ser algo simples como colocar o travesseiro no armário. O importante é que haja algo e isso vá se ampliando conforme as condições de cada faixa etária”, explica. 

Usar a escrita rotineiramente 

Manter papel e lápis ao alcance de todos da casa e não perder a oportunidade de usá-los nunca. “Chegou tarde em casa e o filho já estava dormindo? Deixe um bilhete dizendo que você passou no quarto dele para dar um beijo de boa noite”, exemplifica Silmara Carina Munhoz, doutora em psicologia e professora da Faculdade de Educação da UnB (Universidade de Brasília). Outro bom momento é a hora de fazer 
a lista de compras do supermercado, que pode ser escrita de forma conjunta, até mesmo pelos menorzinhos (que podem “anotar” desenhando ou rabiscando que é preciso comprar sua bolacha favorita). 

Promover jogos e atividades com escrita 

Sua filha é fã de um ator ou grupo musical? Que tal, juntas, procurar fotos e informações e escrever um perfil dele? O menino torce para um time de futebol? Chame-o para fazer como você um cartaz do time, com as principais conquistas e jogadores famosos. Ou seja, a sugestão é aproveitar os assuntos de interesse para produções escritas. 
“Mas é importante que isso não se torne uma obrigação. E é para ser feito a quatro ou mais mãos, de forma prazerosa. Não pode ser uma tarefa que a mãe passa para o filho fazer sozinho e que irá cobrar depois”, ressalta Sonia Maria Sellin Bordin, fonoaudióloga doutorada pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). 

Valorizar a produção 

“As primeiras tentativas da criança serão rabiscos. Ela fará um garrancho e irá dizer que desenhou a mãe, o pai, a avó. É preciso reconhecer este grande passo que é entender que um símbolo pode representar algo e não desestimular dizendo que aquilo não é o desenho de uma pessoa”, diz Silmara Carina Munhoz, 

Isso vale para todos os momentos da escrita. Receber um bilhete e logo apontar que há erros como a falta de uma letra em uma palavra ou que, por exemplo, “casa” não é escrito com “z”, só irá reduzir a espontaneidade da criança. 

Ao contrário, é preciso adotar pequenos gestos, como guardar um desenho ou um bilhete da criança, ou acompanhar o que o filho escreve em blogs ou nas redes sociais e interessar-me pela poesia que ele criou. “Isto mostra que você valoriza esta forma de comunicação”, comenta a doutora em psicologia e professora da Faculdade de Educação da UnB. É importante também que os pais também produzam e compartilhem suas criações. 

Preocupar-se com a caligrafia na medida certa 

Não é preciso exigir do seu filho excessos de capricho na letra. O importante é que seja possível entender o que ele quis escrever. Caso a letra prejudique o entendimento, vale chamar a atenção. “Um modo bastante prático é deixar um bilhete com um assunto de interesse de seu filho com trechos impossíveis de ler por causa da letra. Ele perceberá como isso atrapalha a comunicação”, sugere Sonia Maria Sellin Bordin, fonoaudióloga doutorada pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). 
Uma saída pode ser os famosos cadernos de caligrafia. Mas o ideal é debater o assunto com o professor para buscar a melhor solução. 

Não abandonar o processo 

O envolvimento da família com a escrita não pode ser encerrado só porque já se percebe que a criança ou o jovem já tem total autonomia no escrever. Os bons hábitos e atividades devem ser mantidos e ainda ampliados, tornandose algo natural na rotina. 

“É um erro comum. Pais deixam de ler histórias assim que seus filhos aprendem a ler, privando a criança daquele momento que ela tanto gostava, o que só desestimula”, comenta doutora em psicologia e professora da Faculdade de Educação da UnB (Universidade de Brasília) 

Fonte: http://www.dihitt.com.br 

Edição: Filipe de Souza

Texto publicado: JORNAL GAZETA VALEPARAIBANA

Poder Judiciário arquiva ação contra Paulo Guedes por supostos desvios em fundos de pensão PASSANDO PANO!

 

Poder Judiciário arquiva ação contra Paulo Guedes por supostos desvios em fundos de pensão

O ministro da Economia, Paulo Guedes

247 - O Tribunal Regional Federal da 1º Região (TRF-1) arquivou a investigação do Ministério Público Federal (MPF) contra o ministro da Economia, Paulo Guedes, na Operação Greenfield. Ele era investigado por fraude em gestão de investimentos de recursos de fundos de pensão que ele controlava antes de entrar no governo.

Investigações similares envolvendo vários dirigentes de fundos de pensão ligados ao PT tiveram desfecho diferente, punindo os acusados. Guedes, no entanto, teve melhor sorte com a decisão sobre seu caso, que foi definido por unanimidade nesta terça-feira, 6. 

Em agosto, o desembargador Ney Bello concedeu uma liminar suspendendo o inquérito. Sua posição foi acompanhada pelo restante dos desembargadores.

Segundo as investigações da força-tarefa, Guedes se associou a executivos para praticar fraudes em negócios com fundos de pensão de estatais. O ministro é investigado ainda por suposta emissão e negociação de títulos sem lastros ou garantias ao negociar, obter e investir recursos de sete fundos.

JORNADA INTERNACIONAL DE LUTAS ANTI-IMPERIALISTA

  

JORNADA INTERNACIONAL DE LUTAS ANTI-IMPERIALISTA

 

Ato Político-cultural Che e a luta Anti-imperialista

 

NÃO PERCA! Com a participação de movimentos, organizações populares, artistas e personalidades internacionais, as redes do MST e parceiros receberão o Ato Político-cultural Che e a luta Anti-imperialista.

 

A transmissão ao vivo acontecerá na próxima quinta-feira (8/10), ás 16h, marcando a Jornada Internacional de Lutas Anti-imperialista que teve início nesta segunda-feira (1) e se estende até o dia 10 com atividades em todo Brasil.

 

ACOMPANHE nas redes do MST!

Respeito ao ser humano deve ser pilar fundamental da segurança pública, diz coronel

 

ENTREVISTA

Respeito ao ser humano deve ser pilar fundamental da segurança pública, diz coronel

Para Luís Fernando de Almeida, desarmamento da população é essencial para diminuição dos índices de violência

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
 

Ouça o áudio:

00:26
03:51
Download
Almeida é coronel da reserva da Polícia Militar de Sergipe e tem larga experiência na resolução de conflitos agrários a partir do diálogo - Foto: Arquivo Pessoal

A forma com que Luís Fernando de Almeida, coronel da reserva da Polícia Militar do Sergipe (PM-SE), construiu sua trajetória profissional o diferencia de seus pares. Na contramão do discurso punitivista, Almeida acredita que o diálogo, a defesa dos direitos humanos e o respeito à Constituição são imprescindíveis quando se trata da atuação e desenvolvimento de políticas na área da Segurança Pública.

Em entrevista ao Brasil de Fato, ele conta que o fato de ser negro e sentir o racismo na pele, e principalmente a atuação em conflitos agrários, foram elementos cruciais para sua formação.

A primeira experiência com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) foi marcante. Em 1995, Almeida foi convocado para atender um conflito por terras na Fazenda Santa Clara, no município de Capela, em Sergipe, que havia sido ocupada. Ao invés de convocar um aparato policial, Almeida foi ao local conhecer e entender a realidade daquelas famílias.

“Ouvimos barbaridades, coisas terríveis, daquelas pessoas que moravam lá há tantos anos. Para se ter uma ideia, o local onde eles dormiam era chamado de senzala e o capataz da fazenda era chamado de capitão do mato. Isso em 1995", lembra Almeida. Hoje, as terras da Fazenda Santa Clara são um assentamento. 

Ele conta que, a partir daquele momento, começou a negociar as desocupações envolvendo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e  buscando alternativas para as famílias. "Envolvendo o estado, o município, Judiciário, o Ministério Público. Fizemos uma trajetória sem confronto durante vários anos”, ressalta o coronel.

A postura se repetiu em dezenas de outros conflitos o que permitiu, segundo ele, a construção de uma relação respeitosa entre o movimento e órgãos de Segurança Pública do estado.

:: "Quanto menos armas, menos violência", diz coronel da PM :: 

Para coronel Almeida, frente aos alarmantes índices de violência, a diminuição de mortes da população e dos oficiais é um dos principais desafios da Segurança Pública atualmente.

Segundo a edição mais recente do Atlas da Violência, houve quase 58 mil homicídios no Brasil em 2018. Desses, 30.873 eram jovens - o que configura uma taxa de 60,4 mortes a cada 100 mil jovens.

 

Espero que a sociedade possa, cada vez mais, se organizar para evitar essa proliferação da violência por todo país

 

A juventude masculina brasileira, por sua vez, representa 55,6% das mortes entre 15 e 19 anos, 52,3% daqueles entre 20 e 24 anos e 43,7% dos que estão entre 25 e 29 anos

O acesso às armas, facilitado pelo governo Bolsonaro e uma das principais bandeiras do presidente e de sua família, também é destacado pelo coronel como algo extremamente preocupante. segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 71,1% dos homicídios registrados em 2018, o agressor usou uma arma de fogo para cometer o crime. 

“Se houver aumento de armamento, aumento de população armada, vai haver mais violência, isso é lógico. Um maior número de armas, de acidentes com armas, de homicídios, de vítimas de arma de fogo. Não tem como fazer uma equação diferente dessa. Espero que a sociedade possa, cada vez mais, se organizar para evitar essa proliferação da violência por todo país”, defende o coronel.

Para Almeida, que também atuou como secretário municipal de Defesa Social de Aracaju, “o princípio norteador da Segurança Pública, um pilar que é básico, é o respeito às leis. O respeito à Constituição e às garantias individuais nelas contidas. O respeito ao ser humano, a não discriminação por origem e por raça”.

:: O que está por trás da truculência da Polícia Militar? ::

Os problemas da segurança pública serão tema da próxima aula de um curso on-line promovido pelo Projeto Brasil Popular, que tem como propósito discutir as saídas para a crise brasileira. As atividades tiveram início em 25 de agosto e ocorrem todas as terças-feiras, às 19h. 

Confira a entrevista na íntegra

Brasil de Fato: Quais são os principais desafios na área da segurança pública que enfrentamos hoje?
 
Coronel Luís Fernando de Almeida:
 Os desafios são imensos. Começaria pela necessidade urgente de diminuição de mortes, tanto de pessoas nas comunidades mais carentes, principal local onde isso ocorre, como também de policiais. O retorno a uma política em que a legislação impere e os procedimentos gerem prisões para aqueles que infringirem a lei.

Concomitantemente, quem está infringindo a lei vai lidar com a polícia, que é responsável por combater e inibir essas práticas, e também terá a certeza que, ao ser presa, terá seus direitos garantidos, e, portanto, não tem porque enfrentar a polícia. O que leva uma disputa de guerra, que não é o que nós queremos.
 
Segundo a edição mais recente do Atlas da Violência, houve quase 58 mil homicídios no Brasil em 2018. Uma taxa de 27,8 mortes por 100 mil habitantes. O que esses dados revelam sobre o Brasil? Quais políticas públicas podem ser desenvolvidas para evitar que esses números cresçam?

O Brasil tem índices alarmantes de mortes no confronto policial, no confronto entre facções criminosas e um índice altíssimo de armas, armas de guerra. Tivemos mais mortes do que na Síria e esse é um dado muito triste. Mata-se muito nesse país.

A quantidade de armas é algo extremamente preocupante. Sabemos que há uma facilidade para o contrabando de armas no país e isso tem que ser combatido de forma muito séria, ao invés de aumentar o número de armamento existente.

Uma das políticas públicas que deveriam ser implementadas para que a gente diminuísse esses índices alarmantes que temos é uma política de desarmamento das pessoas que infringem a lei, das pessoas que estão envolvidas no crime organizado, uma fiscalização mais rígida em relação às fronteiras. 

Sabemos os lugares de onde vêm essas armas. Um trabalho maior de inteligência para que toda operação seja feita se for estritamente necessária para a prisão de pessoas que têm mandados judiciais.

E que essas prisões sejam efetuadas da melhor maneira possível, com pessoas extremamente preparadas para a ação, com o grau mais baixo de letalidade possível. Isso não se faz sem um trabalho muito forte de inteligência, muito coordenado. Se há um risco para a população civil, é melhor que não se faça esse tipo de operação.
 
Quais as principais vítimas desse cenário de violência e intolerância que se acentuou nos últimos anos?

O que as pesquisam e os dados nos mostram é que a população jovem, negra, masculina e periférica é a mais afetada. Houve redução no número de mortes de mulheres brancas, mas mulheres negras morrem mais. Sem dúvida alguma, é um retrato muito triste do país onde a população jovem e negra esteja sendo vítima dessas mortes, o que revela o preconceito.

O ano foi muito atribulado, inclusive com a saída de Moro e chegada de André Mendonça no ministério da Segurança Pública. Como avalia essas mudanças e o olhar do governo Bolsonaro para a área?

Essa questão da mudança do ministro da Justiça e Segurança Pública, para essa questão da violência localizada contra as populações mais pobres, ao meu ver, não faz grande diferença. Foi uma mudança com influências, questões e consequências políticas para o país como um todo. Mas a questão da violência é muito anterior, é arraigada. Por ser algo antigo, que piorou nos últimos anos, o enfrentamento é bem mais difícil. Não é esse tipo de mudança que vai transformar a situação.

A partir do que acontece hoje, como imagina os índices da área da Segurança Pública nos próximos anos?

Acredito que se houver o aumento de armamento, o aumento de população armada, vai haver mais violência, isso é lógico. Um maior número de armas, de acidentes com armas, de homicídios, de vítimas de arma de fogo. Não tem como fazer uma equação diferente dessa. Espero que a sociedade possa, cada vez mais, se organizar para evitar essa proliferação da violência por todo país.

A atuação violenta da polícia militar denunciada com muito mais frequência nos últimos anos. Como enxerga esse processo e quais são as origens dessa lógica tão presente na atuação da PM? 

As polícias militares são um recorte da sociedade. A sociedade brasileira, ao contrário do que alguns pregam, é uma sociedade violenta. O policial é um extrato dessa sociedade e que reflete mais violência se tiver uma formação pior, uma formação ruim, mas isso tem muito a ver com a índole de saber o que é certo e errado, e escolher o que é certo e o que é errado.

Não é uma questão apenas das policiais militares. É uma questão de toda a sociedade, de todo um aparato de Estado. Uma questão de impunidade, uma questão de política que dá proteção e encobre ações gerando uma sensação de impunidade. Algo muito mais complexo.

Mas é claro que uma mudança de mentalidade, uma mudança geral, poderia ajudar tanto no campo da formação como no campo da atuação. Entretanto, volto a dizer, é reflexo do que é a sociedade. Com todas as origens, com a visão preconceituosa, escravocrata. Isso está refletido nos dias de hoje e demandará tempo e muita vontade para que se mude.
 
Há exemplos e experiências nas áreas da Segurança Pública que devem ser seguidas em algum estado ou cidade do país? O Rio de Janeiro, por exemplo, pode ser considerado um exemplo do que não se fazer nessa área?

Temos exemplo de atuações das polícias, tanto civil quanto militar, em vários locais do país. Exemplos de políticas comunitárias ou de proximidade, como queira chamar, onde há uma maior interação entre os órgãos de Segurança Pública, os agentes e a população. Onde, através desse convívio diário, melhora o relacionamento, a atuação e o respeito de ambos os lados. 

Não quero estigmatizar o Rio de Janeiro. É uma cidade complexa, com problemas históricos de habitações e políticas públicas que não atendem a população. As pessoas que moram nas comunidades são pessoas, em sua grande maioria, de bem. Temos, pela ausência de Estado, o aproveitamento da criminalidade. Seja ela no campo do tráfico ou no campo das milícias onde essa população fica vulnerável.

Não é apenas o Rio de Janeiro, mas não podemos deixar de reconhecer que a violência no Rio é muito alta, muito latente, muito visível. E também entendermos que não é apenas uma questão dos números em si, mas também que, hoje em dia, tudo tem mais visibilidade.

Ao mesmo tempo que tomamos conhecimento porque cada pessoa tem uma câmera na mão para filmar os erros e desvios, esses crimes, temos também uma sensação de insegurança cada vez mais crescente, justamente com a publicização cada vez maior.

O que te levou a ser “um ponto fora da curva” e se aproximar dos direitos humanos? 

Não me vejo tanto como um ponto fora da curva. Mas acredito que um pouco da formação humana e trajetórias que minha carreira tomou foram responsáveis por uma visão mais aberta e mais ampla da questão humana. Formação familiar também. Pela minha mãe, pela minha família de forma geral. Meus primos, meus irmãos, o convívio diário. Ser negro é algo que ajuda. Sentir na pele essa questão do preconceito. 

E sem dúvida alguma, a atuação nos conflitos agrários, que de certa forma foi algo pioneiro. Começamos em 1995, entramos em na Fazenda Santa Clara, no município de Capela, em Sergipe, que estava ocupada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e lá ouvimos barbaridades, coisas terríveis, daquelas pessoas que moravam lá há tantos anos.

 

Não há saída para humanidade sem mais respeito, sem distribuição de renda. Sem mais humanidade. É o que a gente espera, o que a gente sonha e pelo que a gente luta

 

Para se ter uma ideia, o local onde eles dormiam era chamado de senzala e o capataz da fazenda era chamado de capitão do mato. Isso em 1995. A partir dali começamos a negociar as desocupações buscando algumas alternativas para as famílias, envolvendo o Incra, envolvendo o Estado, o município, Judiciário, o Ministério Público. Fizemos uma trajetória sem confronto durante vários anos.

Morreu uma pessoa na Fazenda Santa Clara, um ocupante, José Emídio, que foi assassinado pelo capataz. Desse assassinato, gerou-se uma reação dentro da Segurança Pública que melhorou muito mais nossa atuação na defesa dos movimentos, dos direitos das pessoas, principalmente as mais necessitadas. E uma relação muito boa entre a Segurança Oública, a Secretaria de Segurança, de um modo geral, e o movimento sem-terra no estado de Sergipe.

Na sua opinião, quais devem ser os principais pilares e objetivos da área da Segurança Pública?

Para mim, o primeiro princípio norteador da segurança pública e um pilar que é básico é o respeito às leis. Respeito à Constituição e às garantias individuais nelas contidas. O respeito ao ser humano, a não discriminação por origem, por cor, por raça, pela roupa que veste. Pelos costumes culturais, pela música que houve, pelo que gosta de dançar.Tem que ser respeitada a pluralidade que existe em nosso país. Isso já seria algo fantástico. Se a atuação fosse pautada nos direitos do cidadão.

Para além disso, na formação dos policiais, uma conscientização de que somos todos seres humanos. Que todos precisamos respeitar as seres humanos. Que há limite nos nossos direitos impostos pelos direitos dos outros.

E que não há saída para humanidade sem mais respeito, sem distribuição de renda. Sem mais humanidade. É o que a gente espera, o que a gente sonha e pelo que a gente luta. Um país e um mundo cada vez melhores, onde cada pessoa tenha direito à dignidade. Não é para ter miserabilidade, fome. Esse planeta pode sim sustentar todo seu povo. Alimentar, educar e dar moradia. A questão é que, infelizmente, o sistema que vivemos é o de acúmulo, o de "quanto mais, para mim, melhor e o outro que se dane". É o egoísmo. E o que colhemos é o que estamos vendo no mundo como um todo.

Edição: Leandro 

Fascismo Explicado (por quem entende) [DUBLADO]

 https://www.youtube.com/watch?v=uQGPllgkGME&feature=youtu.be

Brasil é laboratório de um capitalismo destrutivo e incapaz de controlar o mercado, afirma Jessé Souza

 

Brasil é laboratório de um capitalismo destrutivo e incapaz de controlar o mercado, afirma Jessé Souza

PRESIDENTE JAIR BOLSONARO. FOTO: SERGIO LIMA/AFP

PRESIDENTE JAIR BOLSONARO. FOTO: SERGIO LIMA/AFP

ouça este conteúdo
  
ok

‘Bolsonaro teve todo o tempo para se preparar e aprender com o exemplo alheio, mas preferiu não fazer nada’, diz sociólogo

Os movimentos negacionistas que despertam a atenção em meio à pandemia do novo coronavírus representam um novo fenômeno e têm participação direta da extrema-direita dos Estados Unidos. A opinião é do sociólogo Jessé Souza, autor de livros como “A Elite do Atraso”, “A Classe Média no Espelho” e, mais recentemente, “A Guerra Contra o Brasil”.

“O objetivo é a formação de um novo consenso social e político abertamente reacionário, por meio precisamente da propagação da mentira como arma de guerra”, afirma o sociólogo em entrevista exclusiva a CartaCapital.

PUBLICIDADE

No âmbito nacional, Jessé avalia que o presidente Jair Bolsonaro é o principal responsável por um processo de “naturalização” dos números de mortes causadas por Covid-19.

“Em situações extremas, a função apaziguadora e o comportamento racional do líder máximo são decisivos. Nada nem ninguém o substitui. Os governadores têm muito menos poder de ação”, afirmou.

O boletim mais recente sobre a Covid-19 no Brasil, divulgado na noite desta segunda-feira 5 pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), aponta que o País registra 146.675 mil mortes causadas pelo novo coronavírus desde o início da pandemia, além de 4.927.235 casos confirmados.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

 

CartaCapital: Negacionistas atuam em diversas frentes, em um momento de calamidade pública: negando a gravidade da Covid-19, retomando um movimento antivacina e duvidando até da devastação ambiental. Não é particularidade do Brasil, mas aqui esses movimentos vêm ganhando força. Como o senhor avalia esse fenômeno?

 

Jessé Souza: Sem dúvida é um fenômeno surpreendente e novo. Para mim se trata de um ataque da extrema-direita comandada pelos Estados Unidos com impactos globais, especialmente no Brasil. A extrema-direita americana, como mostrei no meu livro “A guerra contra o Brasil”, se inicia nos anos 70 do século passado e tem sua singularidade, antes de tudo, no fato de não mais ter o comunismo e a “esquerda” como os inimigos principais, mas sim o próprio consenso democrático construído à custa de muita luta e sofrimento nos últimos duzentos anos.

 

Criação de uma esfera pública argumentativa é mecanismo básico do processo de aprendizado coletivo de todas as sociedades modernas nos últimos 200 anos. E é precisamente isso que a extrema-direita americana, hoje em dia com Trump e Bannon como figuras públicas mais reconhecíveis, quer destruir

 

O que deve ser destruído é a própria noção de democracia e de seus corolários como direitos individuais, proteção da natureza, direitos de minorias e, antes de tudo, os direitos dos trabalhadores. O objetivo é a formação de um novo consenso social e político abertamente reacionário, por meio precisamente da propagação da mentira como arma de guerra e a subversão da noção de esfera pública argumentativa, baseada em argumentos racionais falseáveis por meio do debate público. A manipulação das redes sociais só pode ser compreendida dentro deste registro.

A criação de uma esfera pública argumentativa é mecanismo básico do processo de aprendizado coletivo de todas as sociedades modernas nos últimos 200 anos. E é precisamente isso que a extrema-direita americana, hoje em dia com Trump e Bannon como figuras públicas mais reconhecíveis, quer destruir. Como em países como EUA e Brasil a população é saqueada, sem se dar conta disso, pelo rentismo sem peias e por dívidas públicas secretas e galopantes, há muito ódio e frustração sem direção sendo canalizados por discursos de ódio. É isso o que está destruindo a democracia em muitos lugares.

O objetivo é a construção de um capitalismo altamente destrutivo e desregulado, com um Estado enfraquecido e sem condições de controlar o mercado, possibilitando, por exemplo, o saque da natureza por indústrias sujas e poluentes que deixam de temer multas bilionárias por sua ação destrutiva. O Brasil é, obviamente, o laboratório de teste mais visível deste tipo de novo capitalismo.

 

CC: O Brasil ultrapassou as 146 mil mortes por Covid-19 e os dados diários continuam elevados. Ao mesmo tempo, porém, a impressão é de que muitas pessoas entraram em processo de ‘naturalização’, como se tivessem se habituado aos números. O que explica essa postura?

 

JS: Bem, eu acho que Bolsonaro pessoalmente tem a maior parcela de culpa desta situação. Ao contrário dos países que tomaram enorme cuidado com suas populações, o Brasil foi sabotado pelo próprio presidente da República, ou seja, pela figura política central que, precisamente em épocas de catástrofes, deve assumir a responsabilidade pelo cuidado, e envidar todos os esforços para evitar mortes inúteis.

Em situações extremas, a função apaziguadora e o comportamento racional do líder máximo são decisivos. Nada nem ninguém o substitui. Os governadores têm muito menos poder de ação. Infelizmente, Bolsonaro não é apenas o representante mais obtuso e irresponsável da extrema-direita reacionária mundial que descrevi acima. Ele é também um tipo psicológico patológico por sua virtual ausência de qualquer sensibilidade e empatia humana.

Destas 140 mil pessoas, 100 mil morreram pela inépcia e pela irresponsabilidade de Bolsonaro. Basta comparar o desempenho do governo brasileiro com o dos países que foram, inclusive, afetados pela pandemia muito antes do Brasil. Bolsonaro teve todo o tempo do mundo para se preparar e aprender com o exemplo alheio, mas preferiu não fazer nada.

 

CC: O presidente Jair Bolsonaro negou desde o início da gravidade da Covid-19, se contrapôs a medidas de isolamento social e defendeu o uso de um medicamento cuja eficácia não foi comprovada. Nesse contexto, o presidente vê a aprovação a seu governo crescer, entre outros fatores, pela popularidade do auxílio emergencial. Como o senhor avalia esse quadro?

 

JS: Ora, a maior parte da população brasileira é pobre por razões que ela desconhece. Esse desconhecimento abre enorme espaço à manipulação. A grande mídia fragmenta notícias e cria um mundo falso e enviesado. A religião evangélica, quando se organiza como partido político, pretende se aproveitar dessa ignorância construída e volitiva para fabricar um consenso reacionário e fundamentalista no País. Isso abre enorme espaço para um uso instrumental da pobreza da qual Bolsonaro é a expressão máxima.

A única defesa do pobre é seu pragmatismo: como a política é vista pelo pobre como corrupta e coisa de rico, o que importa é o que sobra para ele no final das contas. Enquanto este dinheirinho estiver entrando, haverá apoio a Bolsonaro, que foi falsamente identificado como o pai da ajuda emergencial. Daí vem a atual popularidade de Bolsonaro apesar de todos os erros e bobagens que cometeu.

 

CC: Os Estados Unidos passarão por eleições presidenciais em menos novembro. Até que ponto uma eventual derrota de Donald Trump para Joe Biden pode abalar a expansão da direita a nível internacional verificada nos últimos anos e impactar, inclusive, o Brasil e Jair Bolsonaro?

 

JS: Esta é uma questão de difícil resposta. O Partido Democrata é tão ou mais envolvido com práticas criminosas do “deep state” americano que o Partido Republicano. A submissão e o enfraquecimento do Brasil, como potência regional em potencial, é um programa político de ambos os partidos americanos. Nesse sentido, não vejo grande possibilidade de mudança. Talvez em relação ao apoio a Bolsonaro pessoalmente, que é uma figura caricata e ligada ao que há de pior no mundo, tenhamos um afastamento relativo de Biden por oposição ao “caso de amor” unilateral de Bolsonaro com Trump.