segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O significado da carta de Temer. Por Paulo Nogueira

O significado da carta de Temer. Por Paulo Nogueira



Postado em 08 dez 2015
Falsa vítima
Falsa vítima
A carta de Temer a Dilma é uma coisa que depõe contra ele mesmo, embora o alvo seja ela.
Algumas pessoas lembraram a carta de Getúlio aos brasileiros, antes de se matar, e aí você vê dois extremos. A carta de GV o engrandeceu para a posteridade, e a de Temer é um documento que mostra quanto minúsculo ele é.
Um sujeito que conspira, trai, envenena, alimenta os inimigos de Dilma, esse sujeito se coloca como vítima.
Os grandes sábios da humanidade recomendaram, sempre, que diante da miséria humana você deve rir, e não chorar. Em seus Ensaios, Montaigne defendeu o riso magistralmente diante do choro em situações de canalhice e patifaria.
Por isso, riamos todos do gesto de Temer.
Ele diz que foi sempre tratado como um vice decorativo.
A questão é: por que ele aceitou ser vice depois de quatro anos alegadamente tratado como, bem, como um vice?
Fosse altivo, fosse digno, teria dito o que escreveu na carta na hora certa a Dilma. Quer dizer, antes de ser oficialmente designado companheiro de chapa de Dilma.
Ninguém o obrigou a ser vice pela segunda vez. Ele agiu voluntariamente. Da primeira vez, poderia alegar, depois de algum tempo, que não imaginava que Dilma fosse o que ele disse que é na carta.
Mas e na segunda?
Considere um casamento renovável. Você casa e depois tem a oportunidade de renovar ou não o casamento. Você renova. E logo depois aponta os defeitos incríveis que, se reais, deveriam ter feito você não renovar.
Mas não.
Temer alegremente se reuniu de novo a Dilma, e desembarca apropriadamente quando enxerga a possibilidade de ser presidente.
De volta a Getúlio, este atirou no próprio coração, em nome de uma causa – a do povo contra a plutocracia. GV adiou o golpe dos plutocratas por dez anos.
Com sua carta, Temer atirou no coração de Dilma – e da democracia.
A autovitimização de Temer passará para o museu das infâmias nacionais. Um político a vida toda inexpressivo vira enfim manchete pela vileza e não por ter revelado no crepúsculo da carreira uma grandeza que ninguém percebeu.
Onde isso vai dar?
Seria uma tragédia tudo terminar com o triunfo dos golpistas. Seria a vitória de Eduardo Cunha. É dele o rosto, é dele a alma dos conspiradores.
Eduardo Cunha não é manipulado por Aécio, FHC, Serra, Temer – ou quem seja. Ele manobra a todos eles, em busca da impunidade para sua corrupção descarada, compulsiva e continuada.
São dois os lados que se enfrentam, a carta de Temer deixou claro.
Um é o lado de Eduardo Cunha e cúmplices.
O outro é o lado não de Dilma — mas da democracia.
A democracia perdeu em 1954, perdeu em 1964. Nas duas vezes, com custos formidáveis para o povo. Sangue jorrou, e o câncer nacional — a desigualdade — se espalhou.
Não é possível que a democracia perca de novo em 2015. Porque perdemos todos nós.
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Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

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