domingo, 29 de dezembro de 2013

Informativo Semanal do Prof. Ernesto Germano Pares

Nota: durante a semana, participei de um debate sobre a crise econômica mundial. Algumas pessoas tentam separar, dizendo que vivemos (em 2013) uma nova crise. Eu defendo que é a mesma, iniciada em 2008 e que está se aprofundando. Para encerrar o ano, resolvi publicar no nosso Informativo um artigo que escrevi em 2008, quando a crise apareceu.
Que delícia de liberalismo!
(Ernesto Germano Parés – 22 de setembro de 2008)
“Cada pessoa,(...), deve ser primeira e principalmente deixada ao seu próprio cuidado (...)”. Esta defesa, expressa por Adam Smith em seu trabalho “Teoria dos Sentimentos Morais”, foi base para sua posterior teoria de uma “mão invisível” capaz de corrigir todos os problemas de um mercado absolutamente livre. Adam Smith posicionava-se contra qualquer forma de regulamentação por parte do Estado.
Tomando por base aqueles estudos, Friendrich von Hayek, o “pai” do neoliberalismo, escreveria em seu famoso livro que “Deveríamos permitir que as empresas privadas criassem, em regime de concorrência, suas próprias moedas e o público, representado pelo mercado, saberia acolher as boas e rejeitar as más. Os bancos centrais simplesmente desapareceriam, assim como os sistemas monetário e financeiro mundiais.”
Muito bonito, no papel. Desde a década de 1980 estamos ouvindo este discurso de que o Estado deve se retirar da economia e de que é melhor para a sociedade deixar que o próprio mercado regule suas atividades e leis. Margareth Thatcher, levando ao ponto máximo esta defesa da liberdade do mercado diante das instituições sociais, chegou a afirmar que “não existe sociedade, porque eu não vejo sociedade... eu vejo indivíduos!”
Mas todas estas “certezas” parecem estar desaparecendo em fumaça depois da “segunda-feira negra” (15 de setembro), quando o Banco Central dos EUA e o próprio governo foram obrigados a intervir no mercado para evitar uma crise que alguns analistas já comparam com a de 1929. Ouvido pela BBC, o professor de ciências políticas da Universidade de Princeton, Benjamin Barber, declarou que “Deixaram a Lehman Brothers quebrar, mas se outras forem levadas junto o governo intervirá e isto significa que meus impostos serão usados para salvar banqueiros que tomaram decisões arriscadas e equivocadas”. A crise foi tão séria que levou o próprio candidato republicano, um liberal de “carteirinha”, a declarar que, caso vença as eleições, iniciará imediatamente uma reforma para regular o mercado de capitais nos primeiros 100 dias de governo! Dito por um liberal, isto nos parece uma capitulação definitiva.
Mas as medidas não podiam esperar tanto. Na segunda-feira (15), o Banco Central estadunidense (FED) anunciou que convocara uma reunião e havia assegurado um “consórcio” de bancos privados que fariam uma “injeção” de emergência, no valor de 70 bilhões de dólares, no mercado internacional. Como diz o ditado: “amigos, amigos; negócios à parte”. É claro que os 10 grandes bancos (Bank of America, Barclays, Citibank, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, JP Morgan, Merril Lynch, Morgan Stanley e UBS) não iriam disponibilizar 7 milhões de dólares, cada um, sem a devida segurança.
O próximo passo, então, seria dar esta segurança aos bancos privados. E isto foi feito com – adivinhem - o dinheiro público, é claro! O mesmo FED acertou com os seis grandes bancos centrais (Banco Central do Japão, Banco Central Europeu, Banco Central do Reino Unido, Banco Central do Canadá e Banco Central da Suíça, além do próprio FED) uma mega operação para injetar novos dólares no mercado e garantir o investimento dos bancos privados. Não se sabe o total desta operação. Apenas que o próprio FED estaria injetando 180 bilhões e outros dois bancos centrais (o europeu e o inglês) entrariam com mais 80 bilhões cada um.
Para cobrir uma parte do “salvamento” e garantir que os bancos privados não sairiam sem algum lucro no final desta ciranda, o Tesouro dos EUA injetou mais 40 bilhões de dólares diretamente nos cofres do FED, na quarta-feira (17).
Nada disto deveria causar surpresa. Não foi a primeira e não será a última vez que o Estado – quer dizer, o dinheiro público – é levado a salvar empresas privadas. Só para lembrarmos os casos mais recentes, o governo Nixon lançou mão do orçamento público para salvar um dos ícones da indústria militar estadunidense, a Lockheed Aircraft; o “democrata” Jimmy Carter também usou o Tesouro para salvamento da Chrysler e do banco Farm Credit; mais recentemente, o próprio W. Bush conseguiu do Congresso uma ajuda de 15 bilhões de dólares para evitar a quebra das empresas aéreas depois do 11-S.
Com tanta intervenção assim, o que estaria pensando o príncipe dos liberais, Milton Friedman, se vivo estivesse? Logo Friedman, que em seus principais trabalhos afirmava que as causas da Grande Depressão foi o excesso de intervenção governamental, não sua falta, com dizia Keynes.
Mas os donos do capital não estão muito preocupados com as teorias, liberais ou não. Querem apenas a certeza de que manterão seus ganhos, com ou sem ajuda do Estado. Continuam berrando: “deixem-nos lucrar livremente, mas se estivermos em perigo venham nos ajudar!”
(Este artigo prossegue...)
Que delícia de liberalismo! (2)
(Ernesto Germano Parés – 24 de setembro de 2008)
“Congresso dos EUA exige punição e ameaça pacote”
(Manchete do O Globo, 24/09/08)
“FBI investiga Fannie Mae, Freddie Mac, Lehman e AIG, diz CNN”
(Manchete do Jornal do Brasil, 24/09/08)
E os demais jornais que consultei hoje não diferem muito. O discurso liberal começa a “colar” e a mídia amestrada vai começar a “buscar um culpado”, tudo dentro da mais pura ideologia liberal que coloca as pessoas (idéias) acima dos fenômenos (sistema). Em outras palavras, vão fazer todo um teatro para encontrar culpados entre os administradores e diretores dos bancos e financeiras que quebram, mas jamais admitirão que o problema não está nas pessoas e sim no próprio sistema que cria as crises e não consegue superá-las sem lançar todo o peso dos erros nos ombros dos trabalhadores.
O pragmatismo, como forma mais “apropriada” de idealismo, surgiu nos anos 70 do século XIX e teve papel importante no desenvolvimento do capitalismo e sua forma imperialista nos EUA. Os pragmatistas consideram que atingir a verdade é a meta central e principal da filosofia, mas, para atingir este objetivo, lançam mão de outros conceitos do que seja “verdade”.
William James, considerado um dos expoentes do pragmatismo, resolveu o problema fazendo uma nova interpretação do sentido da palavra verdade e levando-a a um conceito de “utilidade”. Ou seja, para James, “verdade é tudo aquilo que é útil para o ser humano”, no sentido de propiciar um êxito ou uma vantagem.
John Dewey, na mesma linha e trabalhando com este conceito de utilidade, chega à conclusão que todas as teorias científicas, todos os princípios morais, todas as instituições sociais têm como principal (senão única) função levar o indivíduo a atingir seus objetivos pessoais.
Aqui temos a origem daquelas manchetes que me assustaram, ontem. Passaremos a ver, a partir de hoje, uma série inesgotável de artigos e noticiários que se desdobrarão para provar que o problema da crise estadunidense não foi do próprio sistema, mas das pessoas “inescrupulosas” que tinham cargos dentro do sistema.
E os reais problemas continuarão sendo jogados para baixo do tapete, estarão sendo escondidos do grande público, pois o sistema não pode ser colocado em dúvida ou, como dizem os estadunidenses, “o show tem que continuar”.
Olhando novamente para as matérias nos nossos “grandes” jornais vamos reparar uma série de discursos dos congressistas estadunidenses dando a impressão de que estão muito preocupados com o uso do “dinheiro público”. De uma hora para outra, passaram a se preocupar com o “dinheiro do contribuinte” e acham que deve haver mais regulamentação no seu uso. O fato de faltarem apenas seis semanas para as eleições gerais (presidente e congressistas), nos EUA, é apenas coincidência, com certeza!
E a crise? Esta é pergunta que muitos fazem.
Bem, vejamos o que se passa de fato. A conta corrente dos EUA (todas as transações do país com o exterior) registrou, no segundo trimestre de 2008, um déficit de 183,1 bilhões de dólares. Somados aos 175,6 bilhões de dólares de déficit no primeiro trimestre teremos... 358,7 bilhões de dólares de déficit na primeira metade do ano. Um “buraco” para ninguém botar defeitos, não é?
Ao longo do domínio neoliberal e sua ideologia, as grandes empresas estadunidenses começaram a procurar o lucro fora de suas fronteiras. Ford, GM e muitas outras mudaram suas fábricas para países “em desenvolvimento” onde encontravam mão-de-obra mais barata e facilidades oferecidas pelos governos através de imposições feitas pelo FMI. O lucro crescia exponencialmente, como mostram os balanços publicados, e se aproveitavam ainda de uma nova forma “gerencial” que terceirizava serviços em busca de mais lucros. A “reengenharia” da produção e as “fábricas enxutas” tornavam-se a norma.
A economia interna dos EUA ficou basicamente limitada ao setor de serviços (aí incluindo turismo). E o grande problema é que passavam a importar o que antes produziam.
Mas este modelo precisava gerar novos capitais. Se o capital produtivo estava fora do país, então seria necessário gerar “capital pelo próprio capital”. E aqui temos uma das raízes dos atuais problemas: a especulação no mercado financeiro! Seja na forma das hipotecas imobiliárias, as primeiras a explodir, ou dos fundos de investimentos e seguros que agora desmoronam. A chamada “bolha” não surgiu por acaso ou pela vontade de alguns péssimos administradores. Surgiu porque o sistema assim exigia, para sobreviver.
Vejamos, a respeito, o que escrevia o filósofo renano:
“Além disso, os retornos serão tanto mais incertos quanto mais a transação original for condicionada pela especulação de alta ou de baixa dos preços do mercado. Mas, está claro que, com o desenvolvimento da produtividade do trabalho e portanto da produção em grande escala, 1) os mercados se expandem e se distanciam do local de produção; 2) por isso, os créditos devem prolongar-se, e portanto, 3) o fator especulação deve dominar cada vez mais as transações. (...) O crédito aí é portanto indispensável; crédito que tem o montante aumentado, com o aumento crescente da magnitude do valor da produção, e a duração distendida com o afastamento cada vez maior dos mercados. Há aí efeitos recíprocos.” (K. Marx – O Capital, Livro 3/Vol.5 – Capítulo XXX, “Capital-dinheiro e capital real I”)
Aprovado ou não pelo Congresso estadunidense, o “pacote” que Bush propõe ao lançar mão de 700 bilhões de dólares dos contribuintes para salvar o sistema financeiro dos EUA (e do mundo) não resolverá o problema. Para se tornar produtivo, o capital depende do Trabalho, não de auto-geração ou de novas intervenções do Estado, por sinal tão combatido pelos liberais como ineficiente.
(Este artigo continua...)
Que delícia de liberalismo! (3)
(Ernesto Germano Parés – 26 de setembro de 2008)
“Plano de socorro ao mercado é alinhavado no Congresso”. A manchete, remetendo à crise estadunidense e à proposta de “salvamento” que está sendo elaborada pelo governo Bush, está no jornal Diário do Comércio e Indústria de hoje. Os outros jornais vão pela mesma linha.
Ontem os jornais falavam da quase ameaça feita por Bush no caso do pacote não ser aprovado. Pela primeira vez ele parece estar preocupado com “os trabalhadores que podem perder seus empregos” e com a “possibilidade de uma recessão no país”, coisas que já estão ocorrendo desde meados de 2007. E hoje os jornais dizem que não houve acordo sobre o “plano de salvação” na reunião com os dois candidatos presidenciais (John McCain e Barack Obama).
Mais uma vez, nossos jornais continuam tratando a crise com superficialidade e preferindo desconhecer o principal problema por trás do momento atual das finanças estadunidenses: sua total incapacidade de superar a crise sem a ajuda externa. Em outras palavras: os EUA não têm como resolver o seu problema se não receber ajuda, rapidamente. Vejamos alguns fatos que não estão sendo lembrados ou que estão sendo escondidos.
Como já lembramos em artigo anterior, os EUA acusaram um déficit de 358,7 bilhões de dólares em sua balança comercial, só na primeira metade do ano! Façamos as contas: o governo Bush fala em um “pacote” de ajuda para o sistema bancário no valor de 700 bilhões de dólares ou, peguem as maquininhas, exatamente o total do déficit comercial esperado para o ano. De onde poderá sair este dinheiro que já não existe?
Para se ter uma idéia do tamanho do buraco, basta imaginar que 700 bilhões de dólares divididos pela população dos EUA daria cerca de 2 mil dólares para cada homem, mulher e criança!
Vejamos um outro dado importante: os EUA têm a maior dívida externa do planeta e, há muito tempo, só sobrevive com o fluxo de capital externo que já supera a fantástica cifra de 1 trilhão de dólares, segundo o Wall Street Journal. Os principais investidores no mercado estadunidense, comprando letras do Tesouro Americano, são, pela ordem, China, Japão e Rússia!
Bem, aqui encontramos o primeiro nó a ser desatado. Em um artigo publicado no jornal The Financial Times (28/08/08), os jornalistas Saskia Scholtes e James Politi destacavam a importância dos investimentos chineses nos EUA e que o Banco da China era um dos principais acionistas das empresas Fannie Mae e Freddie Mac. Pouco antes deste artigo, o jornal The Privateer trazia uma declaração do senhor Yu Yongding, conselheiro do banco central da China (Banco do Povo da China) dizendo que “se o governo dos EUA permitir a quebra da Fannie e da Freddie e os investidores estrangeiros não forem convenientemente compensados as conseqüências serão catastróficas...”.[i]
Qual o problema? Os EUA não são “a nação mais rica do planeta”? Bem... vejamos algumas informações disponíveis na internet, na página oficial do FED (o banco central de lá). No final do ano passado, o FED tinha cerca de 800 bilhões de dólares em seus cofres; há cerca de duas semanas este valor havia caído para 480 bilhões; depois do “salvamento” dos bancos de investimento (200 bilhões) e da AIG (mais 85 bilhões), tem hoje menos de 200 bilhões em caixa. As informações são confirmadas pela empresa RGE Monitor e a pergunta que se faz é: de onde vai tirar os 700 bilhões que Bush está prometendo?
Vale lembrar um outro problema que nem todos estão citando. Se acompanharmos o “ranking” da revista “Fortune”, que anualmente publica a lista das 500 maiores empresas do planeta, vamos reparar que o sistema bancário estadunidense vem perdendo espaço muito rapidamente. Comparando a lista deste ano com a que foi publicada em 2007 vamos reparar a queda do Citigroup (14º para 17º lugar), do Bank of America (21º para 28º) e do Merrill Lynch (do 70º para o 100º lugar!).
Bush agora se declara preocupado com os empregos que serão perdidos pelos trabalhadores e apela para o Congresso aprovar o tal pacote. Em 2001, a quebra da Enron – gigante da área de energia – deixou na rua 12.000 funcionários e uma dívida de 40 bilhões de dólares. O que é pior, um sistema de fundos de pensão desacreditado, pois o dinheiro que seria dos seus funcionários foi aplicado pelos seus gestores, irresponsável e inescrupulosamente, em ações da própria empresa. Também naquela oportunidade não se questionou o sistema financeiro estadunidense que permite tanta especulação e falcatrua.
Ainda pode ser pior? Sim, há crises ainda submersas e que começam a despertar a preocupação dos bancos estadunidenses. A economia dos EUA vive do crédito, não só governamental, mas dos próprios cidadãos. Para se ter uma idéia, segundo informações do sistema financeiro, cada cidadão possui, em média, 4,2 cartões de crédito, com uma dívida (média) de 2.607 dólares. Cada família deve, em média, 8.565 dólares, valor que supera em muito as dívidas das hipotecas que acabam de explodir!
Em 1980 Ronald Reagan foi eleito 40º presidente dos EUA. Durante 28 anos ouvimos hinos e odes ao liberalismo! Mais de um quarto de século para nos convencerem de que o mercado é um deus supremo e que o Estado é ineficiente, incapaz e só atrapalha. Em duas semanas essas crenças estão desmoronando. Será o fim?
(Este artigo continua...)
Que delícia de liberalismo (4)
(Ernesto Germano Parés – 29 de setembro de 2008)
O final de semana seguinte ao 11 de setembro, depois da crise estadunidense chegar ao ponto de estalar sem que fosse mais possível que a imprensa continuasse tratando como uma coisa menor, foi marcado por uma importante reunião. Segundo os jornais, os dois “gerentes” da crise – Ben Bernanke (FED) e Henry Poulson (secretário do Tesouro) – convocaram para uma reunião no escritório do FED, em Nova Iorque, os principais patrões do sistema financeiro dos EUA. Ainda segundo os jornais, nesta reunião foram tomadas importantes decisões. Nossa atenção, agora deve voltar-se para o primeiro ponto discutido e deliberado pelos presentes: abandonar a Lehman Brothers à sua própria sorte e permitir que a empresa que havia conquistado o maior prestígio financeiro do país, depois de 158 anos de atividades, com seus 25 mil empregados, naufragasse cinematograficamente.
Aqui eu gostaria de fazer um breve intervalo neste tema e lembrar um autor que marcou minha adolescência: Nelson Rodrigues. Teatrólogo e cronista esportivo, um assumido direitista que apoiou o golpe militar de 1964, mas foi também uma as mais brilhantes cabeças da nossa imprensa, criou imagens e personagens que ainda povoam minha lembrança. Uma das suas expressões, imortais, foi o “idiota da objetividade”. Nelson criou esta expressão para se referir aos jornalistas da sua época que ele achava frios, insensíveis e presos apenas a textos pré-programados. Ele criticava os jornalistas e “analistas” que reduziam tudo ao lógico, ao formal, ao que estava nos “scripts”. Um dia chegou a escrever que “Se o copy-desk já existisse naquele tempo, os Dez Mandamentos teriam sido reduzidos a cinco”.
Pois é. Algumas pessoas, jornalistas e analistas, estão reduzindo o debate sobre a atual crise estadunidense a isto: o que está no script pronto que recebemos das grandes agências.
Volto, então, ao que estava escrevendo no início deste artigo. Para a reunião de Bernanke e Poulson com os magnatas do sistema financeiro estadunidense, o que poderia significar o emprego de 25 mil pessoas? Uma gota?
Resolvi pesquisar melhor este ângulo do problema e, consultando os jornais de lá, encontrei o que tanto me preocupava. Apenas no mês de agosto, o que precedeu o “big-bang” financeiro, 84 mil trabalhadores perderam o emprego no país! Considerando os oito primeiros meses do ano, 605 mil pessoas ficaram desempregadas. Nos últimos doze meses (encerrados em agosto) mais de 2 milhões de cidadãos estavam amargando o que chamamos de “olho da rua”! Uma cifra preocupante para um país que se pretende locomotiva da economia mundial, não é?
Pois é. Em agosto, quando a crise ainda não tinha oficialmente estourado, os índices econômicos mostravam uma difícil situação para os trabalhadores da “grande nação do norte”: a produção industrial havia caído ao menor índice dos últimos três anos e as fábricas, minas e serviços públicos estavam produzindo 1,1% a menos. A produção automobilística, sempre a vitrine do capitalismo “made in USA”, havia despencado 12% no mês, maior queda em uma década!
No início do ano, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou um alerta dizendo que a crise que se anunciava nos mercados mundiais e a desaceleração na economia estavam ameaçando o emprego de, pelo menos, 5 milhões de pessoas no mundo. Faltando ainda três longos meses para 2008 chegar ao fim, esse número já está em muito superado. A Comissão Européia, principal organismo da União Européia, estima em mais de 16 milhões de desempregados só no bloco. Por enquanto, a taxa de desemprego está mantida em 6,8% em média nos 27 países, mas a expectativa é de que seja maior nos próximos meses.
Por mais de 20 anos ouvimos o mesmo discurso de que o Estado deve se retirar da economia. Durante todo este tempo vimos os vários governos neoliberais (Reagan, Thatcher, Kohl, Menem FHC, Pinochet e demais comparsas) desmantelando, item a item, os mecanismos reguladores da economia e as empresas públicas e estatais. Removeram praticamente todas as barreiras e limites para a sanha do “deus” mercado que deveria reinar livremente. Todos, ou quase todos, os obstáculos ao “deixar fazer, deixar passar” foram diligentemente removidos.
Porém, apesar deste discurso de que o Estado não deveria dar apoio nem servir para distribuir os bens da sociedade ou se preocupar com os trabalhadores que perdem seus empregos, os pensadores liberais defendiam (e defendem) que o Estado deve ser suficientemente forte para impedir o avanço dos sindicatos e das organizações sociais. Os sindicatos são vistos como uma das principais causas das crises porque, ao reivindicar salários (aumentos excessivos, como eles dizem) corroem a base da acumulação do capital e limitam o crescimento da economia. Milton Friedman chega a defender o que chamou de “uma boa legislação” contra os sindicatos porque estes interferem no funcionamento livre do mercado de trabalho.
E, neste ponto, volto aos “idiotas da objetividade” criados por Nelson Rodrigues. Eles não enxergam o que está além das sínteses que recebem das grandes agências noticiosas. Reproduzem em seus pensamentos o simplismo dos que reduziram os dez mandamentos a apenas cinco. Continuam limitando o debate a uma questão de intervenção ou não dos bancos centrais, se houve ou não especulação do mercado imobiliário ou se todo o problema é das hipotecas podres. E vão morrer agarrados a este discurso, porque outro não sobrou para eles.
Mas, uma coisa deve ficar bem clara neste momento: ao contrário do que os defensores do projeto neoliberal “ainda” tentam dizer, a crise não é uma questão apenas do mercado financeiro. Está também em perigo a economia real, aquela do nosso dia-a-dia, nacional e internacionalmente. As instituições e estruturas produtivas estão sendo violentamente atingidas pela crise.
(Este artigo continua)
Que delícia de liberalismo. (5)
(Ernesto Germano Parés – 02 de outubro de 2008)
Estou agora lembrando a matéria que li no final de semana. Entrevistada pela BBC, uma mulher estadunidense contava suas dificuldades por ter que morar dentro de um carro, em um estacionamento privativo para mulheres, depois de perder sua casa. Curiosamente, Bonnee (é o nome dela) diz que antes da crise estalar trabalhava como corretora de imóveis. Mas os novos clientes foram rareando, seu salário sendo reduzido e ela própria acabou perdendo sua casa por não conseguir pagar as dívidas de hipotecas. A matéria completa, bastante interessante, está na matéria "Crise leva pessoas a morar em carros nos EUA".[ii]
Outra entrevistada, na mesma matéria, diz que "Nós estamos em uma terrível confusão econômica. Acho que ainda não vimos nem metade do que vai acontecer com este país". E esta chega bem perto da verdade, porque sua declaração que soa como desabafo contradiz o discurso oficial de que tudo se resume a uma questão financeira ou de "subprime". Ela tem razão de falar em "confusão econômica", mas, talvez por desconhecer alguns conceitos, não conseguiu dar o nome certo: crise do sistema capitalista.
O que está passando despercebido para muitos?
No período entre as duas grandes guerras, em particular depois da grande crise de 1929, o sistema capitalista temeu por sua sorte e lançou mão das receitas de J. M. Keynes para corrigir as distorções criadas pela disputa acirrada entre capitalistas. O Estado passa a ser o regulador da economia e o chamado "bem estar social" passa a ser a alternativa contra as muitas revoltas dos trabalhadores e dos explorados. Com o correr do tempo, alcançado um equilíbrio e criados os instrumentos para que a concorrência intercapitalista não levasse a novas guerras, os patrões do mundo passam a reivindicar o controle total da economia. E tem início o reinado de Hayek e seus "miquinhos amestrados" da Mont-Pèlerin, com o discurso da liberdade econômica, a desregulação e o fim dos direitos sociais.
No caso que agora nos interessa - a economia dos EUA - vale lembrar que o desmonte da economia keynesiana, decretando a desregulamentação dos mercados, começou no governo Reagan e chegou ao seu ponto máximo durante o governo Clinton. A principal barreira contra as especulações e as cirandas financeiras, a lei Glass-Steagall Act, foi revogada em 1998. Daí para frente reinaram o livre mercado e a livre iniciativa, paixões de Hayek. E o governo Bush (filho) não fez por menos, tratou de ampliar a liberdade do mercado financeiro, em particular as atividades que já estavam livres de regulamentação.
Mas, voltando ao centro do problema, o que significa a atual crise capitalista? Qual a sua profundidade e desdobramento?
Aqui eu assumo a discordância com alguns textos que tenho lido ultimamente. Em primeiro lugar, como já disse, discordo daqueles que tentam limitar a questão ao terreno financeiro, pois a situação atual vai muito além do que se discute sobre Wall Street. Mas também discordo de algumas análises que li e que tentam mostrar esta crise como o fim do sistema capitalista e a derrocada final do Império. Não, meus caros, os "coveiros" ainda não fizeram seu trabalho e o capital ainda tem fôlego para superar as dificuldades. E aqui reside o nosso desafio!
Dentro de algum tempo, a atual crise estará superada (como outras) e o capital voltará a reinar em busca de cada vez mais lucros. Muito provavelmente - quase certo, eu diria - as imensas dívidas que agora estão sendo contraídas com o dinheiro público para salvar o sistema voltarão sob nova forma e explodirão nos orçamentos dos muitos países que agora tiram do Tesouro para socorrer seus sistemas financeiros (ver as "ajudas" já feitas). E isto vai cobrar mais cortes nos investimentos públicos, novamente ouviremos discursos sobre empresas e serviços a serem privatizados e mais encolherão os atendimentos à população. O discurso de "moralidade" que agora fazem os congressistas estadunidenses logo será esquecido, como aconteceu em outras oportunidades. A globalização voltará a ser endeusada e a "liberdade do mercado" a ser defendida com o mesmo fanatismo de antes, talvez apenas com um ou dois ajustes que evitem novos excessos especulativos.
Fico imaginando que o sistema não perderá mais esta oportunidade de lucro. Afinal, como diz o ditado tão respeitado no país que hoje é centro da crise, "o espetáculo tem que continuar". E imediatamente penso nesta imensa máquina de divulgar o "sonho americano": o cinema.
Imaginem a cena a seguir: dois belos e jovens atores hollywoodianos, desses muito badalados nas revistas semanais, vivendo o papel de um casal que perde suas economias e o lar por culpa de algum banqueiro inescrupuloso (é claro que isto não existe, é apenas uma ficção de Hollywood). Mas, confiantes no futuro do país da "liberdade" enfrentam as muitas dificuldades, trabalhando em difíceis situações e passando privações, mas lutando sozinhos. Nem de longe eles pensam em buscar outros com o mesmo problema para unir esforços. Não, isto nunca! Confiantes, lutarão "contra tudo e contra todos", sós, como convém no país que prega o individualismo como um bem maior! E o filme terminará com um novo lar, feliz, glorificando o sistema que dá oportunidades aos que disputam um espaço neste belo mundo de consumo! Claro que tudo isto terá uma bela trilha musical de fundo, muitos efeitos especiais e cenas cuidadosamente estudadas com a bandeira estadunidense na fachada da casa. Algum grande diretor voltará às manchetes e milhões de dólares serão gastos na superprodução! E, é claro, a película terá lançamento mundial muito badalado, com direito a primeira página nos jornais e espaço de destaque no JN da Globo, com o casal "maravilhoso" como exemplo a ser seguido.
The end? Não, este artigo terá mais um capítulo... desculpem. 
Que delícia de liberalismo (Final)
(Ernesto Germano Parés – 07 de outubro de 2008)
Os jornais de ontem (e de hoje) valorizam bastante o "agravamento da crise", o contágio violento da economia européia, em particular a situação alemã, e problemas nas bolsas asiáticas. As matérias, com muitas opiniões de "especialistas", procuram mostrar a necessidade de mudanças profundas no sistema financeiro internacional e de uma reforma nos organismos responsáveis pelo equilíbrio econômico no planeta. Mas esquecem que são os mesmos que, há tão somente alguns meses passados, enalteciam a desregulamentação e os novos acordos de livre mercado e livre circulação de capitais.
Mas não é disso que pretendo falar no artigo final desta série. Minha intenção é voltarmos a um ponto que já comentamos antes e que volta agora com mais clareza: a mídia continua insistindo em mostrar esta crise como uma questão meramente financeira e de má gestão por parte dos dirigentes dos grandes bancos. Há uma preocupação em dizer que "se os homens fossem honestos nada disto teria ocorrido"! E o pior é que vemos muita gente repetindo o mesmo discurso, sem atinar para o sistema que cria as condições para que isto tudo ocorra.
Não quero cansar os que me acompanham, mas é preciso fazer uma rápida viagem pelo mundo neoliberal para vermos o que está ocorrendo.
O ideário neoliberal fez sua “entrada” no cenário durante o governo do assassino de Pinochet, no Chile, e pouco depois vimos os primeiros resultados durante o colapso da dívida externa latino-americana. Para quem esqueceu (ou nem conheceu), em 1982 explode a moratória mexicana, logo seguida da brasileira. A situação alarmou o projeto liberal a tal ponto que os donos do poder convocaram imediatamente um encontro que ficou conhecido como o Consenso de Washington que terminou com uma extensa lista de "obrigações" para os países em desenvolvimento. Receita que seria devidamente ministrada e acompanhada pelo FMI. Quem esqueceu?
Tudo parecia correr melhor e os anos 1980 deveriam ser o marco neoliberal. Ronald Reagan, o “maestro” do projeto nos EUA, chegou a dizer que “O Estado não é solução, é o problema”. Mas a quebra das bolsas, em 1987, e o colapso do mercado imobiliário, em 1989, já antecipavam a situação atual e alertavam para o risco da impunidade dada ao capital que se move pelo mundo. Mas os “magos e intelectuais” do sistema continuavam a defender a desregulamentação como remédio para as crises. Em 1990, apesar de todos os discursos, vem a quebra da bolsa de Tóquio (quem esqueceu?) e nos anos seguintes – 1992 e 1993 – os ataques especulativos sobre moedas européias.
O final da década de 1990 foi marcado pela grande crise asiática (1997) que jogou por terra a imagem de sucesso dos “tigres”, tão cara ao neoliberalismo. Tailândia, Malásia e Coréia, “alunos exemplares” do modelo, precisaram recorrer a alternativas de choque e controle de suas moedas para não falirem.
A lição não foi suficiente e, em 1998, é a vez de a Rússia (depois da sua comemorada volta ao mundo capitalista) decretar moratória e, em agosto, o mercado asiático voltar a quebrar. E a década chega ao fim com a crise brasileira que levou o governo FHC a penhorar junto ao FMI todas as empresas estatais e comprometer-se com a aceleração das privatizações (a “carta de intenções” é um documento disponível na internet).
Mas não pretendemos, aqui, ficar alongando muito este histórico de crises. Apenas registrar que, quanto mais os dirigentes neoliberais reduziam o Estado e desregulamentavam a economia para atender aos seus interesses, mais as crises financeiras iam comprovando que o capital é a verdadeira doença que corrói a sociedade. Quanto mais “livre”, menos produz! O mundo liberal deu ao capital a pretensão de “geração espontânea”, reproduzir-se por si mesmo, sem gerar riquezas sociais.
Aquele filósofo renano já escreveu, em sua décima - primeira tese, que “aos filósofos foi dado compreender o mundo, a nós cabe reformá-lo”. Partindo da mesma idéia, com a licença de Marx, dizemos que os economistas estão felizes e satisfazem-se tentando compreender a crise, a nós cabe transformá-la em um instrumento de denúncia contra este sistema.
Há exatos 90 anos, Rosa Luxemburgo entendeu perfeitamente o recado da décima primeira tese e não se limitou a pequenos discursos. Sem vacilar, legou-nos um alerta: socialismo ou barbárie.
E é exatamente neste ponto em que estamos. O liberalismo vem mostrando sua incapacidade de resolver os problemas da sociedade, se é que algum dia teve esta intenção, e levando-nos para abismos cada vez mais profundos. Ainda tem capacidade de recuperação? Uma vez que sua preocupação não é com a sociedade, somos levados a responder que sim, certamente que ainda poderá sobreviver a esta crise e, em algum tempo, criar as condições para que os investidores, sacerdotes da religião do capital, possam auferir novos lucros.
Voltaremos a ter uma total desregulamentação? Talvez não. Muito provavelmente, nos próximos anos teremos um modelo híbrido, onde o mercado voltará a ter suas liberdades tão defendidas, mas o capital especulativo terá certos limites para não colocar em risco as muralhas do sistema. A possível eleição de Obama deve nos presentear com um novo keynesianismo.
Que delícia de liberalismo, foi o título que encontrei para esta série de artigos. Apenas para mostrar que a atual crise não está determinando o fim do modelo, mas apenas permitindo novas adaptações. O discurso de “deixar fazer” parece um pouco distante, mas que o Estado que eles dizem ser desnecessário continua servindo aos interesses do capital, não temos dúvidas!
Voltaremos...



[i] Citado por Alfredo Jalife-Rahme, no artigo “EEUU: la mayor nacionalización bancaria de la historia”, publicado no La Jornada, 16/09/08

[ii] http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/09/080930_semteto_eua_cq.shtml

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Os 35 melhores filmes para pessoas inteligentes

Diário Liberdade lista os 35 melhores filmes da esquerda na história

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*Dica do Emir Sader, em sua página no Facebook.
Por António Santos para o Diário Liberdade
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Cinema e socialismo foram colegas de escola no princípio do século XX. Às vezes juntos, cresceram, apaixonaram-se, magoaram-se, desiludiram-se e continuaram a aprender.
Esta lista, inevitavelmente incompleta e truncada de injustiças, resgata da História do Cinema as melhores e mais belas encarnações dos ideais da esquerda.
35º Capitalismo, uma História de Amor (Capitalism, a Love Story)
País: Estados Unidos da América
Ano: 2009
Realizador: Michael Moore
Esta história de amor é o retrato da crise do capitalismo a partir do seu próprio berço. De Michael Moore, também poderíamos incluir Sicko ou Bowling for Columbine, mas Capitalismo corresponde ao zénite da evolução ideológica do realizador norte-americano, não acabasse o filme ao som da Internacional. Mas sobretudo, o documentário perfaz a lista pelos relatos dramáticos dos trabalhadores que pagam na pele o preço do amor dos EUA pelo capitalismo.
34º As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1940
Realizador: John Ford
O clássico de Steinbeck encontra uma justa homenagem nesta adaptação de John Ford. As Vinhas da Ira conta a história de uma família de camponeses que, expulsa pelos latifundiários das terras onde viviam e trabalhavam, é forçada a uma longa viagem rumo à Califórnia em busca de trabalho. Pelo caminho, encontram a fome e a discriminação, mas também a solidariedade, a consciência de classe e a dignidade.
33º Sambizanga
País: Angola
Ano: 1973
Realizador: Sarah Maldoror
Sambizanga arruma com o mito do “brando colonialismo português” numa clara e inequívoca afirmação da estética e cultura africanas. Domingos, militante do MPLA, é sequestrado pela PIDE e torturado durante vários dias. Entretanto, a sua família procura-o desesperadamente entre o desespero do povo angolano. Filmado no Congo com guerrilheiros do MPLA e do PAIGC na maioria dos papéis e baseado na obra de José Luandino Vieira, Sambizanga é um dos mais poderosos filmes anti-coloniais de todo o continente africano.
32º Clube de Combate (Fight Club)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1999
Realizador: David Fincher
Quando o capitalismo não nos mata de fome, mata-nos de aborrecimento. O Narrador, magnificamente interpretado por Edward Norton, consome-se entre catálogos IKEA e a voragem da rotina. Alienado do seu próprio trabalho, da sociedade e de si próprio, conhece Tyler Durden um perigoso maníaco que pretender explodir o mundo financeiro.
Muita tinta já correu sobre o Clube de Combate, que tal como o livro homónimo, já foi acusado de proto-fascista, sexista e niilista. Mas como dizia Saramago, todas as histórias se podem contar de outra maneira.
31º Doutor Estranhoamor (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1964
Realizador: Stanley Kubrick
Poucas etiquetas políticas cabem na lapela de Kubrick mas Doutor Estranhoamor é em si mesmo, um manifesto político. Rodada no auge da guerra fria, quando a sombra de um holocausto nuclear pairava sobre as cabeças de toda a humanidade, esta sátira expõe ao ridículo a lógica anti-comunista da América do senador McCarthy. Curiosamente, 50 anos mais tarde, os EUA estão de novo no centro de uma escalada de provocações nucleares. A única diferença, é que ainda não acusaram os coreanos de querer envenenar o abastecimento de água dos EUA.
30º Machuca
País: Chile
Ano: 2004
Realizador: Andrés Wood
Chile, 1973. Dois rapazes são unidos pela amizade e separados pelas classes sociais. Este é um filme sobre a adolescência, com toda a esperança e violência que ela comporta e, por isso mesmo, a melhor lente sobre a História recente do Chile. Mas Machuca é muito mais do que uma rara janela para a experiência socialista de Allende e uma crítica à podridão da burguesia que engendrou Pinochet. É por direito, um dos melhores filmes chilenos alguma vez produzidos.
29º Inside Job – A Verdade da Crise (Inside Job)
País: Estados Unidos da América
Ano: 2010
Realizador: Charles Ferguson
Inside Job – A Verdade da Crise, obra prima de Ferguson, é um documentário que todos deveríamos ver. Num momento em que os desejos e caprichos do Deus-Mercado são cada vez mais descritos como insondáveis e ininteligíveis pelos comuns mortais, este filme explica as origens da crise capitalista que hoje vivemos de uma forma brilhante. Ferguson entrevista os maiores responsáveis directos pela crise, encosta-os à parede e faz o nosso sangue ferver.
28º A Batalha do Chile (La Batalla de Chile)
País: Chile
Ano: 1978-1980
Realizador: Patricio Guzmán
A Batalha do Chile é justamente considerado o melhor documentário latino-americano de todos os tempos. Justamente. No total, são quatro horas e meia de História com H grande, centrada na luta dos trabalhadores, nas conquistas da sua revolução e na resistência ao fascismo. Mas nenhuma das três partes que compõem A Batalha do Chile são filmes de arquivo: tudo foi filmado no momento e no local. O operador de câmara Jorge Müller Silva foi sequestrado pela polícia de Pinochet durante as filmagens e é um dos 3000 chilenos que continuam desaparecidos.
27º Norma Rae
País: Estados Unidos da América
Ano: 1979
Realizador: Martin Ritt
Tal como todos na sua família e nesta pequena cidade da Carolina do Norte, Norma Rae (uma impecável Sally Field) trabalha na fábrica de algodão. Recebe o salário mínimo e parece condenada a aceitar todas as condições que o patrão lhe impõe. Até que um dia, chega Reuben Warshowsky (Ron Leibman), um sindicalista decidido a organizar os trabalhadores da fábrica. Baseado em factos reais, Norma Rae é uma homenagem despretensiosa à operária americana como ela é e à luta que tem em comum com os trabalhadores do mundo.
26º Cinco Dias, Cinco Noites
País: Portugal
Ano: 1996
Realizador: José Fonseca e Costa
José Fonseca e Costa consagrou-se neste filme como um dos mais competentes realizadores portugueses. Cinco Dias, Cinco Noites é uma espantosa e fidedigna viagem ao Portugal dos anos 40. Conta a viagem de um preso político evadido que procura cruzar a fronteira com a ajuda de um intratável “passador”. A antipatia entre os dois homens dá lugar a uma bela amizade nesta excelente adaptação ao cinema do romance homónimo de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal.
25º O Fim de São Petersburgo (Конец Санкт-Петербурга)
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1927
Realizador: Vsevolod Pudovkin
Um camponês desempregado chega a São Petersburgo à procura de trabalho. Sem querer, acaba por denunciar um velho amigo à polícia, que o envia para a frente de batalha da I Guerra Mundial. O Fim de São Petersburgo é poesia celuloide em estado puro, 80 minutos de beleza intensa e golpes poderosos. É o irmão gémeo do famoso Outubro de Eisenstein mas ao contrário deste, que se centra nas massas, Pudovkin dedica-se ao indivíduo e à sua importância na revolução, sem nunca no entanto o demitir da sociedade, da sua classe e do seu partido.
24º Os Edukadores (Die Fetten Jahre sind Vorbe)
País: Alemanha e Áustria
Ano: 2004
Realizador: Hans Weingartner
Uma estudante universitária tem um pequeno acidente de carro. Até aqui tudo bem. Acontece que não tinha seguro. Menos bem. E a isto acresce que o tipo do carro da frente, não é nem mais nem menos que um dos maiores bilionários do país e que os danos provocados valem dezenas de milhares de euros. Condenada em tribunal a pagá-los por inteiro, a jovem é forçada a deixar os estudos e a aceitar empregos precários por salários de miséria. Mas quando não se tem nada, também não se tem nada a perder. Os Edukadores correspondem o terror dos capitalistas na mesma medida. Como? A) Entrar furtivamente nas mansões dos ricos B) Criar pirâmides com toda a mobília e alterar toda a configuração da casa. C) Deixar uma nota: “Os vossos dias de abastança acabaram”.
23º Os Santos Inocentes (Los Santos Inocentes)
País: Espanha
Ano: 1984
Realizador: Mario Camus
Ver Os Santos Inocentes é como entrar num museu cheio de Goyas. As cenas lúgubres, cinzentas e magistralmente bem compostas podem-nos fazer duvidar do século em que o filme tem lugar, mas esta família espanhola sobrevive sem água nem electricidade nos vizinhos anos 60. O arcaísmo do latifúndio como ele é: um sistema medieval onde os caprichos dos senhores valem mais que a vida dos camponese.; Mas até nesta enorme prisão a céu aberto que reduz mulheres e homens a cães de caça (literalmente), todas as criaturas têm um limite.
22º Queimada
País: Itália
Ano: 1969
Realizador: Gillo Pontecorvo
Um provocador inglês enviado à ilha fictícia de Queimada para incitar uma revolta de escravos contra o colonialismo português. Os ingleses servem-se dos sentimentos independentistas dos escravos para se apropriarem eles próprios do comércio do açúcar, mas a revolta dos escravos ganha pernas próprias e prova-se difícil de controlar. Marlon Brando é irrepreensível no papel de William Walker, um cínico mercenário inglês que compreende demasiado bem a lógica do lucro e a desumanidade do colonialismo para lhes ser indiferente.
21º Matewan
País: Estados Unidos da América
Ano: 1987
Realizador: John Sayles
Este filme é uma refrescante surpresa de Hollywood, que com um elenco salpicado de estrelas (Chris Cooper, James Earl Jones, Mary McDonnell, etc.) e numa linguagem típica dos blockbusters, narra a Batalha de Matewan, na Virgína Ocidental, com acuidade histórica e destemido comprometimento político. O argumento centra-se na chegada de Joe Kenehan, sindicalista e comunista à pequena comunidade mineira de Matewan, onde se dará uma batalha de classes pela dignidade contra o racismo, o capitalismo e a exploração do homem pelo homem.
20º Também a Chuva (También la Lluvia)
País: Espanha, México, Bolívia e França
Ano: 2010
Realizador: Icíar Bollaín
Um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos, cheio de subtilezas e resultado da colaboração de pesos pesados da sétima arte como o guionista Paul Laverty e os actores Gael García Bernal e Luis Tosar. Com apurada sensibilidade, Icíar Bollaín apresenta-nos uma equipa de rodagem espanhola que ruma à Bolívia para, ao mais baixo preço, filmar um documentário sobre a chegada de Cristóvão Colombo à América. Paulatinamente, o guião do documentário, que narra a história do genocídio e resistência dos indígenas, inspira e reflecte uma luta de vida ou morte contra a privatização da água, em que os índigenas contratados como extras se decidem a ser, de uma vez por todas, protagonistas da sua própria História. Uma bela história, sobre um povo ajoelhado que aprende a caminhar.
19º Os Diários de Motocicleta (Diarios de motocicleta)
País: Argentina, Chile, EUA, Peru, França. Alemanha e Reino Unido
Ano: 1969
Realizador: Walter Salles
Baseado nos diários do Guerilheiro Heroico, este filme biográfico consegue a proeza rara de contar a travessia trans-americana do jovem Ernesto de acordo com a máxima do mesmo: duramente, mas sem perder a ternura. Produção internacional de uma rara beleza, Os Diários de Motocicleta mostram uma América explorada e ajoelhada, mas igualmente o profundo amor dos comunistas à humanidade, ao ponto de morrer por ela e também de nos fazer chorar.
18º A Greve (Стачка)
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1925
Realizador: Sergei M. Eisenstein
A primeira longa-metragem de Eisenstein faz os filmes mudos coevos parecerem anémicos. A Greve é uma obra de arte tão original como arriscada, que define já a finura de Eisenstein e, por corolário lógico, a genética do cinema moderno. Ao contrário de muitos outros filmes mudos da época, os actores não precisam de exagerar as expressões faciais para compensar com histrionismo a incapacidade de falar. Eisentein consegue tudo por todos os meios. Através de colagens, ângulos de câmara loucos, rápidas sequências entrecortadas e efeitos especiais, ficamos a conhecer a miséria dos operários russos, as suas reivindicações, a sua corajosa luta e, por fim, a sua brutal supressão.
17º A Melhor Juventude (La meglio gioventù)
País: Itália
Ano: 2003
Realizador: Marco Tullio Giordana
Seis horas de filme não é brincadeira. Mas em A Melhor Juventude não há nem um minuto em excesso e o resultado final prima pelo brilhante exercício de economia. É que Giordanna está a contar-nos a história de um grupo de amigos ao longo de 50 anos e qualquer grupo de amigos a sério tem muito que contar. As actuações são brilhantes e o argumento é tocante. Mas o que mais sobressai, é a honestidade com que se aborda a história recente de Itália, das lutas dos estudantes universitários às Brigadas Vermelhas até à diluição dos ideais socialistas. Um filme que todos deveriam conhecer.
16º Che
País: Espanha, França, EUA
Ano: 2008
Realizador: Steven Soderbergh
O Che dizia que numa revolução, se for verdadeira, ou se triunfa ou se morre. As duas partes deste filme revelam a crueza da guerra revolucionária, para lá de quaisquer fantasias esquerdistas. Benicio del Toro converte-se em Guevara com tanta arte que nada nas suas palavras, nos seus trejeitos ou mesmo na sua aparência física o denuncia. Che é uma sublime e original lição de humanidade, que salpica com generosidade e comunismo os mais ínfimos detalhes de uma guerra tão sangrenta e brutal como cada vez mais necessária.
15º Estado de Sítio (État de Siège)
País: França e Itália
Ano: 1972
Realizador: Costa-Gavras
Costa-Gavras foi um dos realizadores mais politicamente comprometidos do século passado. E também um dos melhores. Em Estado de Sítio, o génio grego explora as brutais consequências do imperialismo norte-americano nos regimes sul-americanos. Com Yves Montand e Renato Salvatori nos papéis principais, o filme segue o grupo de guerrilha urbana durante o sequestro e interrogatório de um dirigente da CIA. Baseado no sequestro de Dan Mitrioni pelos Tupamaros uruguaios, Estado de Sítio foi apedrejado pelos críticos de cinema dos EUA que o acusaram de propagandear mentiras sobre o envolvimento dos EUA na promoção de ditaduras na América do Sul. Um ano mais tarde, a CIA oferecia o Chile para abate a Pinochet.
14º Brisa de Mudança (The Wind that Shakes the Barley)
País: Irlanda, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, França, Bélgica e Suíça
Ano: 2006
Realizador: Ken Loach
Da Irlanda à Colômbia, passando pelo País Basco ou pelo Vietname, há um sentimento que predispõe povos pacíficos a se levantarem em armas para matarem os seus irmãos. É do antiquíssimo sentimento de humilhação que trata este filme. É pesado, triste e duro de se ver, mas indispensável para quem pretender compreender a luta dos irlandeses pela liberdade. Com trabalhos de fotografia e direcção de primeira classe, Ken Loach traz-nos aos anos vinte do século XX irlandês, para conhecer o trágico percurso de dois irmãos no IRA.

13º Apocalyspe Now
País: Estados Unidos da América
Ano: 1979
Realizador: Francis Ford Coppola
Um dos clássicos do cinema americano e provavelmente a melhor adaptação ao cinema de qualquer livro. Baseado no Coração das Trevas de Joseph Conrad, Apocalypse Now substitui o colonialismo belga no Congo pelo imperialismo norte-americano no Vietname, denunciando a monstruosidade da guerra e a desumanização dos soldados. Fotografado com a mestria de Coppola, Apocalypse Now é uma poderosa metáfora sobre a natureza humana e o mais competente dos ensaios cinematográficos sobre a guerra.
12º Outubro (Октябрь (Десять дней, которые потрясли мир))
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1927
Realizador: Sergei M. Eisenstein
Estreado no quadro das comemorações do 10º aniversário da Revolução de Outubro, o filme Outubro é uma revolução em si próprio: a abordagem à teoria da montagem de Eisenstein desconstrói a formalidade narrativa do cinema convencional e introduz a edição e a pós-produção como meios de alcançar a dialética. Esteticamente tão arrojador como o período histórico que retrata, Outubro definiu para sempre o imaginário mundial da revolução socialista russa.

11º Eu Sou Cuba (Soy Cuba)
País: Cuba e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1964
Realizador: Mikhail Kalatozov
Eu sou Cuba é o impensável resultado da colaboração entre um poeta e um realizador soviéticos, e um escritor cubano, que contam a História de Cuba na primeira pessoa. Uma nação arrastada pelos rodapés de historiografias estrangeiras levanta-se do chão e consegue a verdadeira independência. Eu Sou Cuba é inacreditável, uma viagem sideral filmada num preto e branco belissimamente fotografado. Os ângulos de câmara são acrobáticos, os cortes são psicadélicos e a música é autenticamente cubana.

10º Reds
País: Estados Unidos da América
Ano: 1981
Realizador: Warren Beatty
Esta mega-produção de Hollywood entra no décimo lugar da lista pela porta grande da sétima arte. Não sei o que neste filme é mais apaixonante: as inspiradoras actuações de Jack Nicholson, Diane Keaton, Maureen Stapleton e, sobretudo Warren Beatty no papel de John Reed (o jornalista americano que no calor da Revolução de Outubro escreveu “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo”)? Ou o brilhante guião que nos transporta aos loucos anos 20, às eternas discussões e contradições da esquerda e ao mais relevante acontecimento histórico do século XX? Ou as adoráveis entrevistas a uns improváveis e brilhantes velhinhos americanos?
9º Às Segundas ao Sol (Los Lunes al Sol)
País: Espanha
Ano: 2002
Realizador: Fernando León de Aranoa
Um monumento à classe operária como ela é e não como nós gostaríamos que ela fosse. A história dos operários navais de Vigo, na Galiza, a quem o capitalismo roubou o trabalho, a vida e a esperança mas nunca a dignidade. Um filme que só não fará chorar os ricos e os corações empedernidos que nos fala das pequenas misérias e prazeres do povo trabalhador: a operária de peixaria que não se consegue libertar do fedor; o imigrante de leste que conta aos amigos que na URSS era cosmonauta; o desempregado de meia-idade que se recusa a aceitar que ninguém lhe dá trabalho por ser velho demais; o antigo operário que lutou, fez greves e manifestações que perdeu e voltaria a fazer tudo outra vez; o cínico que traiu a sua classe por uns trocos. O retrato perfeito de quem sobrevive num eterno domingo.
8º Tempos Modernos (Modern Times)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1936
Realizador: Charlie Chaplin
A arte de Charlie Chaplin é agarrar um argumento sem nada de especial e num conjunto de cenas cómicas do mais simples que há e criar uma das obras primas do cinema: uma peça de arte de valor cinematográfico, artístico e histórico transcendente, que ressoa através do tempo e chega aos nossos com a mesma autoridade. O protagonista é um trabalhador que apenas quer levar uma vida honesta e ganhar para o pão, mas por alguma razão, tudo lhe corre mal e essa razão chama-se capitalismo.
7º Horizontes de Glória (Paths of Glory)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1957
Realizador: Stanley Kubrick
Horizontes de Glória é talvez a obra cinematográfica que melhor personifica os ideias anti-belicistas da esquerda. A película leva-nos às trincheiras fratricidas da I Guerra Mundial, onde seres humanos são jogados contra a lógica no campo de batalha pelos burocratas da morte. Quando um batalhão se recusa a avançar para uma morte certa, quatro soldados são escolhidos para ser fuzilados como bodes-expiatórios, pondo em marcha um debate marcante sobre o nacionalismo burguês, a autoridade e o valor da vida.

6º O Ódio (La Haine)
País: França
Ano: 1995
Realizador: Mathieu Kassovitz
O Ódio é um murro no estômago. Nesta Paris já não mora Amélie Poulain. Nesta França não há gente bonita a sonhar acordada entre os cafés dos anos sessenta, os jardins renascentistas e os apartamentos Haussmann. O Ódio é uma viagem com os excluídos da sociedade francesa, os que cheiram mal e não gostavam da escola. Não paternaliza nem idealiza, limita-se a seguir e a escutar os embaixadores da racaille, que cometem pequenos crimes, enfrentam os neonazis e o desprezo da sociedade, mantêm alguns dos diálogos mais autênticos do cinema francês e, contra todas as expectativas, sonham.

5º Harlan County, USA
País: Estados Unidos da América
Ano: 1976
Realizador: Barbara Kopple
Como cantam os mineiros no filme, “Dizem que em Harlan County / por lá não há neutrais. / Ou és um sindicalista / ou um arruaceiro para o J. H. Blair. / De que lado estás, rapaz? / De que lado estás?” Este documentário está para os anos setenta como Outubro de Eisenstein está para os anos 20: é um autentico manual de organização de greves e um indescritível testemunho da coragem dos mineiros americanos. Os protagonistas desta luta, especialmente as mulheres, são tão genuínos que reduzem as personagens de qualquer obra de ficção a meras caricaturas. Nunca ouvi falar de quem terminasse o filme com os olhos secos.
4º O Sal da Terra (The Salt of the Earth)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1954
Realizador: Herbert J. Biberman
“Como posso começar a minha história que não tem começo? O meu nome é Esperanza, Esperanza Quintero. Sou a mulher de um mineiro. Esta é a nossa casa. A casa não é nossa. Mas as flores… as flores são nossas. Esta é a minha aldeia. Quando eu era uma criança, chamava-se São Marcos. Os “anglos” mudaram o nome para Zinc Town. Zinc Town, Novo México. As nossas raízes neste lugar são profundas. Mais profundas que os pinheiros, mais profundas que a mina”. Assim começa O Sal da Terra, que esteve banido nos Estados Unidos até aos anos 60. Todos os envolvidos na sua produção foram adicionados à infame lista negra do cinema norte-americano; a protagonista foi deportada para o México e o argumentista passou mais de um ano na prisão. Porquê? Porque este filme é perigoso por ser simultaneamente tão belo e tão corajoso. A luta dos mineiros norte-americanos vista de uma perspectiva de classe em que as mulheres e os imigrantes são líderes e iguais.
3º A Batalha de Argel (La battaglia di Algeri)
País: Argélia e Itália
Ano: 1966
Realizador: Gillo Pontecorvo
A Batalha de Argel, banido em dezenas de países e censurado em quase todos. A magnum opus de Pontecorvo não se comociona com o falso humanismo burguês nem cede à vertigem infanto-militarista do esquerdismo. Num corte de direcção geniais e com actores tão hábeis que muitos espectadores acreditaram tratar-se de um documentário, mergulhamos numa das mais sangrentas revoluções da História e somos forçados a colocarmo-nos de um dos lados desta brutal barricada, opção que os oprimidos nunca tiveram. Nenhuma outra narrativa cinematográfica descreve de forma tão vívida e detalhada a revolta dos povos colonizados e as questões que A Batalha de Argel coloca são tão válidas para a Argélia dos anos 50 como para o Afeganistão dos nossos dias.
2º O Couraçado de Potemkin (Броненосец «Потёмкин»)
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1925
Realizador: Sergei M. Eisenstein
Aos 88 anos, este filme mudo ainda não perdeu o pio. Pelo contrário, O Couraçado de Potemkin é uma lufada de frescura e ousadia no sapal por onde hoje paira o cinema comercial. A obra-prima de Eisenstein, não é nem mais nem menos que a obra fundadora do cinema moderno, tão bela como inspiradora, tão transgressora formal e esteticamente como revolucionária politicamente. Eisenstein domina a celuloide como Miguel Ângelo domina a pedra ou Matisse domina a cor e consegue levar-nos a cada emoção, a cada surpresa, a cada momento de indignação e solidariedade com tanta subtileza que só nos apercebemos do caminho percorrido chegados ao fim da jornada. Esta é a história verídica dos marinheiros que se recusaram a comer carne podre, porque eram gente. Esta é a história da luta de vida ou morte que se seguiu pela dignidade dos trabalhadores de Odessa, porque também eram gente. Esta é a história do massacre policial que se seguiu e das vozes que não puderam estrangular, porque, como dizia Adriano Correia de Oliveira, ninguém pode vencer um povo que resiste.
1º 1900 (Novecento)
País: Itália, França e Alemanha Ocidental
Ano: 1976
Realizador: Bernardo Bertolucci
1900 é inigualável. Os campos da Emília-Romanha são a tela para a metáfora acabada do que foi o século XX, onde dois rapazes e duas classes sociais crescem e aprendem, separados por interesses inconciliáveis. Cada fotografia deste filme é um quadro repleto de beleza; todas as actuações, de Gérard Depardieu a Robert de Niro, são brilhantes; a música, de Ennio Morricone, é sublime. 1900 fala sobre a génese do fascismo, a vida dos que trabalham e a luta pelo socialismo na linguagem comum de toda a humanidade: o amor, o ódio, a compaixão e a solidariedade.


10 livros para conhecer o Brasil

17/05/2013 8:08 pm
Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil
Por Antonio Candido*, no blog da Boitempo 
Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.
Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.
Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora.
São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.
Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.
Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.
Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução:História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.
Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.
Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.
Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler tambémFormação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material.
Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) eO movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).
Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II.
A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras.
Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas.
Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) éCoronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930).
O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes,A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política.
Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.
No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.
* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000
Antonio Candido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Privatização rima com destruição. Sempre.


Suécia volta atrás e revê sistema de privatização do ensino

25/12/2013 12:04
Por Redação, com agências internacionais - de Estocolmo

Uma das maiores escolas suecas faliu e deixou os alunos desamparados
Uma das maiores escolas suecas faliu e deixou os alunos desamparados
Quando uma das maiores empresas privadas de educação da Suécia faliu, alguns meses atrás, deixou 11 mil alunos desamparados e fez com que o governo repensasse a reforma neoliberal da educação, feita nos moldes da privataria com o Estado financiando a entrega dos serviços públicos aos oligopólios capitalistas e assim causando graves prejuízos para os trabalhadores e a população.
No país de crescimento mais acelerado da desigualdade econômica entre todos os membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os aspectos básicos do mercado escolar desregulamentado estão agora sendo reconsiderados, levantando interrogações sobre o envolvimento do setor privado em outras áreas, como a de saúde.
Duas décadas após o início de seu experimento de livre mercado na educação, cerca de 25% dos alunos do ensino médio da Suécia frequentam agora escolas financiadas com recursos públicos, mas administradas pela iniciativa privada. Essa proporção é quase o dobro da média mundial. Quase metade desses alunos estudam em escolas parcial ou totalmente controladas por empresas que compram participações em outras empresas.
Na expectativa das eleições do ano que vem, políticos de todos os matizes estão questionando o papel dessas empresas, acusadas de privilegiar o lucro em detrimento da educação, com práticas como deixar alunos decidirem quando aprenderam o suficiente para passar e não manter registro de notas.
A Suécia substituiu um dos sistemas escolares mais rigidamente regulamentados do mundo por um dos mais desregulamentados, o que levou a escândalos como um caso de 2011 em que um pedófilo condenado pôde abrir várias escolas de forma absolutamente legal.
As escolas privadas introduziram muitas práticas antes exclusivas do mundo corporativo, como bônus por desempenho para funcionários e divulgação de anúncios no sistema de metrô de Estocolmo. Ao mesmo tempo, a concorrência pôs os professores sob pressão para dar notas mais altas e fazer marketing de suas escolas.
No início, disseram que a participação privada na educação se daria por meio de escolas geridas individualmente e em nível local. Poucos vislumbraram que haveria empresas e grandes corporações administrando centenas de unidades.
O fechamento de escolas e a piora dos resultados tiraram o brilho de um modelo de educação admirado e imitado em todo o mundo pelos mesmos privatistas e neoliberais que propagandeiam o mercado capitalista como uma espécie de solução milagrosa para todos problemas da sociedade, quando na verdade é o capitalismo quem gera todos os problemas e desigualdades sociais ao concentrar toda a riqueza, poder e oportunidades nas mãos de uma classe dominante privilegiada, as custas da miséria, exploração e exclusão de grande parte da humanidade e do empobrecimento crescente dos povos.

Fonte: Correio do Brasil

Vou bombardear sua casa/cidade e você deve gostar e agradecer.


Israel ameaça com novos ataques à Faixa de Gaza no Natal

25/12/2013 12:15
Por Redação, com agências internacionais - de Jerusalém e Gaza

Israel ataca Faixa de Gaza com bombardeio pesado
Israel ataca Faixa de Gaza com bombardeio pesado
Presidente do regime israelense, Shimon Peres advertiu aos moradores da Faixa de Gaza, nesta quarta-feira, que caso respondam aos ataques das tropas israelenses, impedirá a entrada de ajuda externa ao território. Além de ameaçar com o reforço do cerco de Gaza, Peres afirmou que se os moradores de Gaza reagirem aos ataques israelenses, aumentará 10 vezes esses ataques.
Em declarações dirigidas aos moradores do território palestino, Peres avisou que “estão brincando com fogo, nós mantemos nossa segurança a todo custo e sob qualquer circunstância”. Na véspera, dois palestinos, entre eles uma menina de três anos, perderam a vida e deixaram feridos nos ataques aéreos do regime israelense contra o sul de Gaza.
Estes incidentes tiveram lugar pouco depois que um israelense morreu por disparos efetuados desde a Faixa de Gaza, em represália pelo recente assassinato de vários palestinos em Gaza em mãos de efetivos do regime de Tel Aviv. Segundo os grupos de defesa dos direitos dos palestinos, mais de uma dezena de palestinos foram assassinados pelas forças israelenses na primeira metade de 2013 e cerca de 1.800, entre eles mulheres e crianças, foram detidos durante o mesmo período.
Por outra parte, o ministro israelense de assuntos militares, Moshe Yaalon, ordenou o fechamento da fronteira Karam Abu Salem, a única via pela qual é feito o abastecimento de produtos de primeira necessidade, como alimentos, combustível e medicamentos. O regime de Tel Aviv impôs desde 2007 um férreo cerco contra a Faixa de Gaza, impedindo que seus cidadãos exerçam seus principais direitos, entre eles o direito ao trabalho, à saúde, à educação e à liberdade de circulação.
O secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, condenou as incursões aéreas do regime de Israel contra a Faixa de Gaza. O Movimento de Resistência Islâmica Palestina (Hamas) em um comunicado, denunciou o ataque israelense e pediu à comunidade internacional que pressione o regime usurpador e o obrigue a cessar os ataques.

General francês e professor de torturas

General francês e professor de torturas

Comissão da Verdade de SP investiga participação do francês Paul Aussaresses em aulas de tortura e táticas de repressão

Thaís Barreto



A revelação de que a França, país que redigiu as Declarações dos Direitos do Homem e do Cidadão, também colaborou com a Ditadura brasileira, abre mais um capítulo para investigações na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. A audiência pública realizada nesta terça-feira (17/12) tratou da participação do general francês Paul Aussaresses no direcionamento de aulas de tortura e outras técnicas de repressão no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus (AM).

“A Escola foi fundada em 1964 para treinar policiais na selva. Em 1966 começaram a dar os cursos”, explicou o pesquisador Fermino Alves. O presidente da Comissão “Rubens Paiva”, Adriano Diogo, vai direcionar a investigação em parceria com a Comissão Nacional da Verdade (CNV) para identificar os nomes dos adidos militares e dos alunos que participaram das aulas e como isso se espalhou em outros países da América Latina, inclusive a ligação com a Operação Condor. O CIGS, onde funcionou a escola, chegou a ter outra nomenclatura a partir de outubro de 1970, era o Centro de Operações na Selva e Ações de Comandos (Cosac).

Aussaresses, ao lado do general Jacques Massu, participou intensivamente da repressão do movimento nacionalista argelino, na Batalha de Argel, ocorrida em janeiro de 1957. Essa experiência fez com que ele fosse convidado em 1961, pelo presidente John Kennedy, para ensinar ao Exército dos Estados Unidos sua experiência. Depois veio para o Brasil, onde fez contato direto com o então chefe do Sistema Nacional de Informação (SNI), o general João Batista Figueiredo e com Sérgio Paranhos Fleury, no auge da repressão. Paul introduziu no Brasil a terminologia “Esquadrões da morte” e acabou ficando conhecido como “a cara visível da tortura”, conforme assinalou Fermino.

A partir de uma reportagem publicada na primeira pagina do Le Monde Diplomatique, na França, ele ficou amplamente conhecido e os detalhes causaram grande impacto no país. “Uma mulher contou que foi torturada e era estuprada duas vezes ao dia por soldados franceses que a estupravam em grupo. É uma historia terrível, teve repercussão enorme e o Le Monde foi procurar os militares franceses que atuaram na época”, contou a jornalista brasileira Leneide Duarte-Plon que mora na França e está escrevendo um livro sobre Paul.

“Ele revelou em detalhes como foi feita a repressão em Argel. [Na época] disse que não tinha nem arrependimento, nem remorso e faria tudo de novo. Ele acreditava que a tortura pode ser necessária”, detalhou Leneide. Paul Aussaresses morreu no último (3/12) sem responder por seus crimes. Ao publicar um livro em 2001, ele e os editores acabaram processados por “apologia de crimes de guerra” mas a Justiça o absolveu, protegido pela Lei da Anistia, conforme explicou Leneide.

“Em 1973 veio para o Brasil como adido militar, um eufemismo para uma colaboração estreita de informações e controle dos nossos exilados na França”, contou a jornalista que o entrevistou longamente. A entrevista será publicada na íntegra no livro que será lançado em abril de 2014. “Ele disse que o general Figueiredo participou diretamente [das sessões] de tortura. Fiqueiredo e o delegado Fleury eram os responsáveis pelo Esquadrão da Morte”, destacou Leneide Duarte-Plon.

América latina: técnicas de tortura

Segundo Fermino Alves, nos anos 1970, o Brasil se tornou o principal exportador e instrutor de técnicas de tortura a países como Chile, Paraguai, Bolívia e Argentina. “Os Estados Unidos não foi o único professor do Brasil. O Exército francês também fez sua parte”, destacou Fermino. O livro intitulado “Services Spéciaux-Algérie 1955-1957” é um relato frio feito por Paul Aussaresses que rendeu a indignação até do presidente Jacques Chirac que conseguiu pelo menos que ele perdesse o título Légion d’Honneur  que o condecorava no exército francês.

O pesquisador Fermino Alves afirmou que é importante tentar buscar documentos que revelem o número de pessoas que participaram das aulas. “Não sabemos quantos oficiais foram formados. No site da escola de Manaus se diz que foram 400 estrangeiros treinados, mas eu acho que foram até mais. Só o Chile mandava de um a 12 oficiais por mês, ele conhece os futuros adidos militares que foram trabalhar nesses países do cone sul que participantes no plano da Operação Condor”, destacou.

“O que a escola tem a esconder? Já se passou tanto tempo e o Brasil precisa saber da sua história. Quem é que fez curso lá? Quais foram os instrutores? Por que essa escola foi direcionada para ser uma escola do terror?” questionou Fermino, sugerindo que a Comissão “Rubens Paiva” impulsionasse ao lado da CNV a busca dessas informações.  A jornalista Leneide Duarte-Plon vai lançar em abril de 2014 na Comissão “Rubens Paiva” um livro sobre o Frei Tito de Alencar, que se suicidou na França por não suportar as amargas lembranças das torturas que sofreu nas mãos de Fleury.



* Thaís Barreto é jornalista, assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”