segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Leituras de um brasileiro - 'E agora José, de que lado você samba?'

13/07/2016 00:00 - Copyleft

Leituras de um brasileiro - 'E agora José, de que lado você samba?'

Separar poetas e prosadores de suas ideologias faria do estudo da Literatura uma disciplinada alienada e alienante de suas condições sociais de produção?


Antonio Vicente Seraphim Pietroforte
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De tempos em tempos, o mundo acadêmico das Letras é questionado a respeito das relações entre Literatura e ideologia. Estamos no século XXI... em Literatura, como lidar com isto: “Tia Nastácia era uma negra de estimação”, comentário de Monteiro Lobato; “Abolir a escravidão não é bom nem para o Brasil nem para os escravos, pois os escravos brasileiros vivem melhor que os operários da Inglaterra”, personagens de José de Alencar se justificam com argumentos assim; mulheres banais ou letais, como são as mulheres de Machado de Assis; homossexuais perversos, como aparecem em Aluísio de Azevedo e Adolfo Caminha; ... como resolver essas polêmicas sem condenar a Literatura? Não se trata mais de ser politicamente correto ou não – racismo, misoginia e machismo, homofobia, antissemitismo... os nazismos nunca se justificam – trata-se, antes de tudo, de definir o que é Literatura.
 
Há muitas concepções do termo “Literatura”; em um deles, Literatura é resistência às massificações do capitalismo e às opressões fascistas. Essa identificação entre literatura e ideologia política é bem antiga: sua formulação filosófica mais citada, o famoso ensaio “Lírica e sociedade”, de Teodoro Adorno, é de 1957; para nós, os brasileiros, Carlos Marighella (1911-1969), enquanto político e poeta, talvez tenha sido sua melhor epifania. Nessa concepção política de literatura – mais ética do que estética –, há ênfase nos conteúdos literários – os significados da obra –, uma vez que, desse ponto de vista, apenas esse aspecto das obras torna-se pertinente para a militância.
 
Isso faz do escritor arma de luta ideológica; espera-se dele que, para lutar, ele seja “bom” – “bom” enquanto pessoa, mas não “bom” necessariamente enquanto escritor –. Parece ingenuidade, mas essa ideologia literária é mais resistente do que parece. Ninguém perde tempo com poetas como Baldur von Schirach, um dos líderes da juventude hitlerista, todavia, não é raro encontrar explicações para o fascismo de Ezra Pound. Schirach é poeta medíocre, ninguém perde tempo com ele. Pound, porém, é um dos grandes nomes da poesia do século passado; parece que poucos se conformam com a ideia de que um grande poeta pode ser, eventualmente, um porco fascista. Nessa concepção de literatura, “Parque industrial”, de Patrícia Galvão, deveria ser o melhor romance feito no Brasil; o melhor poema brasileiro deveria ser “O operário em construção”, de Vinícius de Moraes.
 
Desse ponto de vista, parece difícil aceitar que um dos grandes escritores da nossa literatura infantil – quem inventou o Sítio do Pica-Pau Amarelo – tenha sido racista. Acusar José de Alencar de racismo também procede – na época de Alencar já havia a poesia negra de Luiz Gama, nunca houve desculpas para escravocratas –; além disso, para muitos, deve ser prazeroso vingar-se das leituras obrigatórias de “O Guarani” e “Senhora”, feitas na adolescência. Entretanto, Alencar não é misógino, as mulheres alencarianas são mais interessantes que a Capitu; Guimarães Rosa é bem mais racista do que José de Alencar, basta conferir contos como “Lélio e Lina”, “Lão-dalalão (dão-lalalão)”, “São Marcos” – neles há posturas mais ofensivas que os comentários escravocratas de “O tronco do ipê” –. Em meio aos patrulhamentos, muitas autoras brasileiras laureadas por feministas foram donas de casa; muitos poetas brasileiros, tão sensíveis, são machistas – “que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental” –; ... a lista dessas “impropriedades” pode não terminar nunca...




 
Em busca de soluções, a menção a Pound vem a calhar novamente. Octavio Paz, Augusto e Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e todos os que se interessam por Pound, interessam-se por sua poesia, não por seu fascismo; Augusto de Campos, quando fala de Dante Alighieri, fala do autor da “Vida Nova” e da “Divina Comédia”, não do monarquista; se Nero tivesse sido bom poeta, certamente seria matéria nos cursos de Estudos Clássicos. Ao que tudo indica, na Literatura, os fazeres literários vêm antes dos fazeres políticos.
 
Todavia, cabe indagar: separar poetas e prosadores de suas ideologias faria do estudo da Literatura uma disciplina alienada e alienante das condições sociais da produção dessa mesma Literatura? Em palavras mais diretas, esse ponto de vista faria, da Literatura, uma matéria burguesa? Estudar o fazer literário apenas enquanto forma literária seria uma concepção crítica de direita?
 
Se as formas literárias forem identificadas aos embelezamentos da palavra – o beletrismo –, acompanhados de esvaziamento do conteúdo, certamente que se trata de estudo bastante estéril. Todavia, as formas literárias podem ser utilizadas para desenvolver a inteligência e a criatividade; os estudos literários podem, sem se afastarem da História da Literatura, ser aproximados da Educação Artística. Em outras palavras, trata-se de ensinar, nas escolas, a fazer poesia e outras formas literárias em prosa, além de dissertações.
 
O soneto, por exemplo, pode ser definido formalmente, em linhas gerais, como poema de quatorze versos de dez sílabas, com acentuações tônicas e rimas predeterminadas, dispostos em dois quartetos e dois tercetos. Em meio a tantas coerções, o soneto pode parecer difícil de ser feito, entretanto, ninguém faz sonetos contando sílabas. Cada verso metrificado tem uma prosódia própria – uma certa “música” particular – por meio da qual o poeta se põe a compor. Os músicos conhecem esses procedimentos muito bem; percussionistas costumam memorizar divisões complicadas por meio de solfejos rítmicos – as talas indianas são aprendidas assim –. Basta memorizar essas fórmulas prosódicas para começar a compor sonetos, madrigais, versos livres, etc.  
 
Além do mais, o soneto tem suas histórias temáticas, dos sonetos renascentistas e barrocos aos sonetos experimentais da pós-modernidade. Na história temática do soneto, há muitos poetas célebres, entre eles: há os sonetos racistas de Gregório de Matos e os sonetos contra racistas de Luiz Gama; há os sonetos machistas de Vinícius de Moraes e os sonetos gays de Glauco Mattoso. 
 
Por tudo isso, aprender a fazer sonetos – ou outras formas literárias –, implica em aprender a metrificar, mas também implica em desenvolver visões críticas a propósito dos temas abordados pela Literatura. Desse modo, longe de transformar os estudos literários em matéria reacionária, o ensino das formas literárias como educação artística pode compensar, sem se desviar das questões temáticas, a ênfase dada na ética dos autores, que tanto os compromete como seres humanos.
 
Nos próximos encontros, pretendo desenvolver mais essas relações entre Literatura e ideologia; vamos discutir racismo, machismo e homofobia na Literatura.
Créditos da foto: Reprodução

Aquarius, a resistência censurada

12/09/2016 12:25 - Copyleft

Aquarius, a resistência censurada

O filme é uma manifestação política potente, um bálsamo para este momento de dor e de luto com o assassinato da democracia.


Jeferson Miola
reprodução
Aquarius é exuberante em significados. É impossível não ser tocado pela mensagem transmitida com sensibilidade e inteligência pelo diretor Kleber Mendonça Filho.
 
É uma obra que será eternizada, ainda que pareça datada neste momento medonho e triste da política brasileira. O substrato principal da história é a resistência de Clara, a personagem interpretada magnificamente por Sonia Braga.
 
O filme é um bálsamo para este momento de dor e de luto com o assassinato da democracia. É uma manifestação política potente – entendendo-se política não na sua empobrecida dimensão “profissional”, mas como dispositivo de auto-representação e expressão dos indivíduos no mundo, na cotidianidade.
 
Aquarius foi censurado pelo Ministério da Justiça do governo golpista. A classificação como impróprio para menores de 18 anos, depois revisada diante da enorme reação pública, foi uma clara censura a esta obra-prima do cinema brasileiro contemporâneo. O pretexto para a censura seriam as cenas de sexo explícito. Sabe-se que, na verdade, a censura foi uma punição à equipe do filme, que denunciou o golpe durante o festival de Cannes, em maio passado.




 
A censura é pornográfica, assim como pornográfico é o sistema retratado no filme, no qual a reprodução insaciável da ganância é o único sentido da vida.
 
No edifício Aquarius, Clara vive graciosamente, com simplicidade e alegria, com valores e princípios de vida, com a memória dos afetos, as lembranças dos prazeres eróticos e as músicas tocadas em discos de vinil que conformam uma atmosfera existencial muito particular.
 
Mas isso é um estorvo à especulação imobiliária. Clara resiste, e não cede ao poder irresistível da construtora influente, que compra e controla a mídia com anúncios milionários e domina o governo local com corrupção. Ela não cede à pulsão violenta do jovem boss que foi estudar business nos Estados Unidos para assumir o comando inescrupuloso dos negócios da família.
 
Ao lado deste conflito de interesses, Aquarius ambienta com uma boa dose de sensibilidade os conflitos e desafios familiares de uma mulher temperada na complexidade da vida. Sensual e bonita, ela mostra que a idade não é barreira para os prazeres e para os desejos. Do câncer mamário que a acometeu há cerca de 30 anos, a seqüela que enfrenta com altivez não é aquela gravada no próprio corpo, mas a do macho que projeta a mulher como um objeto sexual que deve estar livre de defeitos.
 
Aquarius, enfim, é um filme emocionante e comovente. Sonia Braga atua com uma magia e humanidade abrumadora, que torna o expectador um cúmplice privilegiado da sua vivência. Com seu desempenho, ela como que traga as pessoas para enfrentar o duro mundo real.
 
A censura é como um radar que intercepta a luz da rebeldia e da resistência irradiada pela arte, para então apagá-la. Os censores são como cães adestrados que tentam castrar a criatividade que resiste à desumanização e ao embrutecimento.
 
Por isso Aquarius foi censurado.
Créditos da foto: reprodução




STF: diga NÃO!


https://www.youtube.com/watch?v=p0W24pHrx3Q

Milhares vão à Avenida Paulista por "Fora Temer" e “Diretas Já”

Milhares vão à Avenida Paulista por "Fora Temer" e “Diretas Já”

A Avenida Paulista foi palco, pelo segundo fim de semana consecutivo, de um ato político contra o golpe de estado que afastou, de forma arbitrária, Dilma Rousseff da presidência. No começo da tarde deste domingo (11), centenas de manifestantes concentravam-se no Vão Livre do Masp, carregando bandeiras e cartazes reivindicando novas eleições e com palavras de ordem pelo "Fora Temer".
Laís Gouveia

Inciativa das Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, o protesto reuniu cerca de 60 mil manifestantes, entre lideranças políticas e partidárias, entidades dos movimentos sociais e independentes.

Durante a manifestação, ocorreu um ato político que contou com a presença da Senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), o Senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e do prefeito, candidato a reeleição na cidade de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), além de entidades dos movimentos de moradia, juventude, sindical, cultural e estudantil.

Na avaliação do coordenador do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), Guiherme Boulos, a luta contra o golpe se faz presente cotidianamente nas ruas."Esse ato é mais uma mobilização contra o governo golpista de Michel Temer, pelas Diretas Já e em defesa dos direitos dos Trabalhadores, nos últimos dias ocorreram manifestações quase diárias, demonstrando que há resistência, eles não irão aplicar o progama que querem e consumar o golpe no Brasil goela abaixo", afirma Boulos.

Retiradas de conquistas é combustível para luta

Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), considera que, quanto maior a perda de conquistas sociais, maior a mobilização nas ruas. "A Frente Brasil Popular, em sintonia com a Frente Povo sem Medo, vão dando uma resposta efetiva, manifestações ocorrem em todo país e eu acredito que esse caldo tende a engrossar, sobretudo a luz das medidas que o governo ilegítimo vem adotando, há de fato em curso uma agenda extremamente regressiva, que depõe contra qualquer expectativa de retomada do crescimento econômico".

"O governo faz a opção de apostar em medidas que irão colocar em cheque a Consolidação das Leis de Trabalho, por fim na Previdência Social e implementar uma agenda com vistas a institucionalização do trabalho precário com terceirização irrefreável, bem como a instituição do chamado Negociado sobre o Legislado, todas essas ações causarão um período de retrocesso sem precedentes ao país" alerta Adilson.

"Diretas já para derrubar golpistas"

O presidente do Partido dos Trabalhadores, Rui Falcão, comentou sobre a recente decisão da sigla em apoiar a bandeira das Diretas Já. "É uma palavra de ordem que unifica todo movimento popular, a esquerda, pois tendo o golpe se consumado é preciso derrubar o governo ilegítimo, e um caminho para isso é a convocação das eleições diretas", destaca Falcão.

Camila Lanes, presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) declara que, apesar de toda a repressão da polícia militar com os manifestantes, a luta continua. "Seguimos na luta para derrubar o golpe e reivindicar as diretas já, Michel Temer pode até convocar o exército para conter os protestos, vamos em frente em defesa da democracia", ressalta Camila,

Greve Geral

Edson Carneiro (Índio) , secretário geral da Intersindical, falou a respeito da proposta de greve geral das centrais sindicais, que são contrárias a alta taxa de desemprego e a precarização da Consolidação das Leis do Trabalho, "os bancários estão em greve, na semana que vem entram os Correios, Petroleiros, Químicos, Metalúrgicos e no próximo dia 22 estamos construindo um dia nacional de paralisação, mobilizando um calendário de greve geral, unificando todas as centrais, podendo barrar as reformas, os ataques às conquistas, derrubando o governo e retomando a democracia plena no país", conclui.

Logo após o ato político, o protesto o seguiu na Avenida Paulista sentido a Avenida Brigadeiro Luis Antonio. Em frente à Fiesp, manifestantes gritavam " Golpistas, golpistas", lembrando do apoio estratégico da federação no processo de impeachment.

A manifestação encerrou por volta das 20h, com os shows da cantora Tiê e do Grupo Teatro Mágico, no Parque do Ibirapuera.


CARTA ABERTA AO STF

CARTA ABERTA AO STF

JEFERSON MIOLA

Senhoras Juízas e senhores Juízes do Supremo Tribunal Federal:

Neste ano de 2016, a democracia e a segurança jurídica do país estão sendo gravemente atacadas.

O impeachment da Presidente do Brasil, iniciado naquela sessão da Câmara dos Deputados de 17 de abril que horrorizou o mundo, angaria crescente desconfiança na população brasileira e em toda a comunidade internacional.

O esforço retórico para caracterizar o impeachment como um processo regular à luz da nossa Constituição, unicamente porque observou a liturgia formal, não consegue, todavia, aplacar a desconfiança que assoma a consciência democrática brasileira e mundial.
O rito formal, em um processo jurídico-político como o impeachment, é um imperativo para o transcurso correto do julgamento. Mas somente isso não é suficiente.

A solenidade institucional; a mera observância da liturgia não garante, em si mesmo, que o julgamento seja legal e justo. Para que seja um julgamento justo e legal, é obrigatória a existência de fundamento jurídico indiscutível; o chamado crime de responsabilidade preceituado na Constituição de 1988.

Muito se questiona, no Brasil e no estrangeiro, por que a Presidente Dilma foi julgada e, mais importante: por que ela foi cassada? Em que pese a ampla divulgação das acusações contra a Presidente nos meios de comunicação, até mesmo as mentes medianamente informadas não conseguem entender a causa concreta para ter havido o impeachment.

Aliás, neste processo todo, mais que as eventuais acusações contra a Presidente, o que teve assimilação pública geral foi a revelação de que os ideólogos da tese para julgá-la não são funcionários públicos isentos e imparciais, mas militantes partidários engajados na causa oposicionista, que montaram o que a imprensa internacional caracteriza como uma farsa, para viabilizar um golpe de Estado jurídico-parlamentar acobertado pelos grupos de mídia.

A ética, a legalidade e a moralidade pública, neste caso, sucumbiram tragicamente à [cínica] razão política.

A inexistência de fundamentos jurídicos para a abertura do processo contra a Presidente Dilma, que finalmente evoluiu para sua cassação por uma maioria parlamentar do Senado no último dia 1º de setembro, é fator de forte contestação e indignação popular.

Por conta disso, o país vive um momento de grave crispação e que, tudo indica, deverá se acirrar ainda mais, à medida que o governo ilegítimo e usurpador impuser políticas que carecem da legitimidade que somente a soberania popular pode conferir.
O acirramento da conflitividade social causado pelo impeachment da Presidente Dilma sem causa, canaliza para o Supremo Tribunal Federal – última instância no país –, a esperança derradeira de que a justiça e a confiança possam ser restabelecidas.

Neste momento em que a democracia se defronta com a circunstância mais ameaçadora à sua sobrevivência desde o fim da ditadura civil-militar e o início da transição, em 1985, a preservação do Estado de Direito depende, mais que em qualquer outra ocasião da história, da capacidade do STF em restituir a integridade jurídica e institucional do sistema.

Por isso é imperativo que cada Juiz e cada Juíza da Suprema Corte do país se pronuncie para declarar se existiu, efetivamente, crime de responsabilidade que possa justificar a cassação do mandato da Presidente Dilma.

Para a preservação da nossa democracia e para a proteção da nossa Constituição, é necessário que o STF confirme, de maneira indiscutível, a existência de crime de responsabilidade que poderia ter consubstanciado o acolhimento do pedido de impeachment pela Câmara dos Deputados, assim como o definitivo julgamento no Senado Federal.

Se a Suprema Corte se esquivar dessa responsabilidade e lavar as mãos ante o que pode ser uma violência perpetrada contra o Estado de Direito, estará definitivamente contribuindo para a emergência de um regime de exceção, no qual a sociedade não mais é governada pelas normas, pelas regras, pelas Leis e pela Constituição, porque passa, perigosamente, a ser governada pelas vontades de eventuais maiorias que se agrupam para mudar as regras estabelecidas a qualquer tempo, de acordo com o seu jogo de interesses.
A democracia, mais que um princípio universal, é a arma sagrada do povo para se proteger de toda forma de tirania e de todas as imposturas autoritárias disfarçadas com o verniz da falsa normalidade institucional.

Por isso é fundamental que os senhores juízes e as senhoras juízas do STF respondam a essa pergunta objetiva: afinal, houve crime de responsabilidade para o impeachment da Presidente Dilma, ou tudo não passou de mero pretexto para a perpetração de um golpe de Estado?


Chile homenageia Allende em cerimônia para lembrar 43 anos do golpe de Pinochet


Chile homenageia Allende em cerimônia para lembrar 43 anos do golpe de Pinochet


"Quarenta e três anos se passaram desde que, neste mesmo palácio, foi apagada a chama da democracia para a instalação da ditadura, do terrorismo de Estado e da arbitrariedade no coração de nossa pátria", disse a presidente Bachelet
O Chile homenageou neste domingo (11/09) o ex-presidente Salvador Allende, vítima de um golpe de Estado há 43 anos comandado pelo general Augusto Pinochet, em cerimônias que pediam justiça contra os atos cometidos na ditadura. O principal ato aconteceu no Palácio de La Moneda, sede do governo – e que foi bombardeado pela Força Aérea durante o golpe.
Flores foram colocadas perto da estátua de Allende da Praça da Constituição, e as ruas foram tomadas por uma tradicional manifestação organizada por grupos de direitos humanos em direção ao cemitério geral de Santiago, onde estão os restos mortais do ex-presidente deposto pelos militares.
"Quarenta e três anos se passaram desde que, neste mesmo palácio, foi apagada a chama da democracia para a instalação da ditadura, do terrorismo de Estado e da arbitrariedade no coração de nossa pátria", disse a presidente do país, Michelle Bachelet, que discursou em cerimônia no Pátio dos Canhões para convidados, parlamentares e familiares de Allende. O ex-presidente Ricardo Lagos também compareceu ao local.
Antes de iniciar seu pronunciamento, Bachelet, acompanhada por Isabel Allende, presidente do Partido Socialista e filha do presidente morto, e outros membros da família depositaram flores no Salão Branco do Palácio de La Moneda, que recria o lugar onde Allende se suicidou.
Agência Efe

Mulher deixa flor na tumba de Salvador Allende em cemitério de Santiago
Memória

A presidente lembrou que milhões de chilenos nasceram depois do golpe de Estado e do restabelecimento da democracia em 1990. Por isso, disse ser importante que todas as gerações saibam o que ocorreu no país durante o período obscuro da ditadura. "Temos diante de nós a tarefa de dar à memória o lugar que ela merece. De dar à justiça a profundidade e o espaço que ela requer, de honrar nossos mortos, seus nomes e suas lutas", afirmou.

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(Reprodução)
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Bachelet aproveitou a oportunidade para dizer que seu governo deu "passos substantivos" nesta direção. Durante a cerimônia, ela anunciou o nome de quem comandará a Subsecretaria de Direitos Humanos, um órgão governamental criado em dezembro que agora entrará em funcionamento.

Já para Isabel Allende, ainda é preciso caminhar "muito mais" para fazer justiça e defendeu o fechamento de Peuco, uma prisão onde estão detidos vários ex-militares acusados de crimes contra a humanidade durante a administração de Pinochet. "Os violadores dos direitos humanos não devem ter tratamento especial porque são pessoas que cometeram as mais graves violações", disse a filha do ex-presidente chileno.
Isabel reafirmou no sábado (10/09) sua intenção de se candidatar à presidência do país em 2017 se contar com o apoio do Partido Socialista e das demais legendas que formam a Nova Maioria, coalizão de centro-esquerda que apoia o governo de Bachelet. Para isso, defendeu a realização de eleições primárias para o grupo ter apenas um único candidato. O adversário de Isabel na disputa interna pode ser Lagos, que na semana passada disse estar disposto a tentar um novo mandato.
Jorge Barahona / Flickr CC

Salvador Allende, presidente do Chile entre 1970 e 1973, foi destituído por um golpe militar
Anistia Internacional

A Anistia Internacional (AI) pediu que o governo do Chile mantenha a luta contra a impunidade e que todos os suspeitos de terem cometido abusos durante o regime militar sejam julgados. "Não é possível que até hoje siga vigente a Lei de Anistia, que o crime de tortura ainda não esteja tipificado. Que até hoje os crimes cometidos pelas forças de segurança sejam julgados pelos tribunais militares, e não civis", disse em comunicado a diretora-executiva da organização, Ana Piquer.

Além dos atos políticos em La Moneda, milhares de pessoas participaram da tradicional manifestação que percorre o centro de Santiago até o cemitério geral. Já perto do fim, grupos isolados de pessoas encapuzadas entraram em confronto com a polícia, que usou gás lacrimogêneo e jatos de água para dispersá-los.
(*) Com Efe

Duas caras

09/09/2016 16:13 - Copyleft

Duas caras

Por que Joe Biden, que exige celeridade da Venezuela na implementação de um referendo, não defende que os brasileiros possam escolher um novo governo?


Por Juan Manuel Karg *, para o Página/12
reproduçao
O vice-presidente estadunidense Joe Biden se precipitou ao reconhecer o governo de fato de Michel Temer. Ao mesmo tempo em que adotava essa postura com relação às mudanças no Brasil, ele expunha sua opinião sobre o referendo na Venezuela, exigindo de Nicolás Maduro que o realize ainda em 2016, como pede a oposição do país – algo que parece improvável, já que o extenso processo de reunir assinaturas para o solicitar o referendo se iniciou tarde, apenas em abril.
Mas o que disse Biden, em termos concretos? “Os Estados Unidos seguirão trabalhando conjuntamente com o presidente Temer”, foi o que admitiu ele, em sua declaração, na que qualificou o impeachment como “uma das maiores processos de mudança política” da región nos últimos tempos. É evidente a satisfação que o resultado produziu no Departamento de Estado norte-americano o fato de que um assíduo informante de sua embaixada em Brasília – como Temer foi catalogado por alguns cabos desclassificados pelo Wikileaks – seja agora o presidente do maior país da região. Situação que não chama a atenção, visto que os Estados Unidos também reconheceu os governos tampões de Roberto Micheletti em Honduras e de Federico Franco no Paraguai, após os dois golpes, consumados em 2009 e em 2012 respectivamente. Portanto, seguem com a triste tradição e confirmam o dito popular latino de que “não há dois sem três”.
Porém, outro dado ajuda a expor melhor as duas caras do discurso de Biden: as pesquisas conhecidas no Brasil mostram que uma porcentagem enorme da população – 6 de 10, segundo o instituto Vox Populi – quer que sejam convocadas novas eleições presidenciais, pois considera o governo de Temer ilegítimo – ainda mais depois de anunciar que aplicará o programa político derrotado nas eleições de 2014. Nas massivas mobilizações vistas nesta última semana, a consigna das ruas foi “diretas já”, reivindicando a histórica demanda planteada pelas organizações sociais contra a ditadura, no início dos Anos 80. Ou seja, a sociedade civil está pedindo que as urnas decidam o destino político do país, nem mais nem menos.
É bastante eloquente o fato de Biden, que exige celeridade da Venezuela na implementação de um referendo revogatório, instrumento que não existe em nenhum outro país da América Latina, não tenha pressa em defender que os brasileiros possam escolher um governo de acordo às suas preferências. A postura contraditória tem uma explicação concreta: os interesses norte-americanos na região. Os Estados Unidos necessita tirar o chavismo do poder na Venezuela, assim terminaria de derrubar o ciclo de governos populares, cujo símbolo era a tríade Buenos Aires-Brasília-Caracas, dos três presidentes (Kirchner, Lula e Chávez) que disseram “NÃO” à ALCA em 2005. O desabastecimento induzido é parte desse mesmo plano, similar ao orquestrado contra o governo de Salvador Allende, no Chile do início dos Anos 70. A saída de Maduro do poder, pela via que seja, seria a chave para logo avançar sobre a Bolívia – e algo desse afã já se viu no assassinato do vice-ministro Illanes – e sobre o Equador – que enfrenta problemas internos nas forças armadas.




Poderão os movimentos populares oferecer resistências e alternativas – nas urnas e nas ruas – à restauração conservadora que avança sobre a região? Que rol terão os ex-presidentes que hoje, sem funções executivas, ainda contam com uma intenção de voto importante, pensando nas próximas presidenciais? São perguntas cujas respostas podem modificar a correlação de forças a nível regional. Se do lado das esquerdas há incertezas, que serão resolvidas ao longo do tempo, do lado dos aliados de Biden, suas declarações não deixam dúvidas: os Estados Unidos têm um discurso duplo com relação ao que acontece em nossos países, mas um único objetivo, que é encerrar o ciclo de governos progressistas latino-americanos.
* Cientista político da Universidade de Buenos Aires. Investigador do Centro Cultural da Cooperação.

Tradução: Victor Farinelli


Créditos da foto: reproduçao