quarta-feira, 2 de agosto de 2017

DEFESA DOS INVISÍVEIS TRABALHADORES ANÔNIMOS

Defesa dos invisíveis trabalhadores anônimos

Leonardo Boff*

Por mais ameaças que pesem sobre a Casa Comum, a Terra, atacada em todas as frentes pelo tipo de cultura que desenvolvemos nos últimos dois séculos, explorando ilimitadamente seus bens e serviços limitados, mais diretamente para a acumulação material de poucos – apesar disso tudo - ela continua generosamente nos ofertando beleza de frutos, flores, plantas, animais e vasta biodiversidade.

A mim impressiona as pequeninas flores vermelhas e amarelas de três vasos que pendem de uma das minhas janelas. Elas, ridentes, estão sorrindo para o universo. Isso me remete à frase do místico poeta alemão Angelus Silesius que diz: “a flor é sem porquê, ela floresce por florescer, não se preocupa se a olham ou não, ela simplesmente floresce, por florescer”.

Sabemos que somente 5% da vida é visível. O restante é invisível, composto de micro-organismos, bactérias, vírus e fungos. Já escrevi isso aqui e o repito nas palavras de um dos maiores biólogos vivos, Edward O. Wilson: "em um só grama de terra, ou seja, menos de um punhado, vivem cerca de 10 bilhões de bactérias, pertencentes a até 6 mil espécies diferentes" (A criação: como salvar a vida na Terra, 2008, p.26). Se assim é com apenas um punhado de chão, imaginemos os quintilhões de quintilhões de micro-organismos que habitam no subsolo de toda a Terra. Por isso tem razão James Lovelock e seu grupo ao afirmar que a Terra é um super-organismo vivo. Não no sentido de um imenso animal, mas de um sistema que se autorregula e que articula o físico, o químico e o ecológico de forma tão inteligente e sutil que sempre produz e reproduz vida. Chamou-a de Gaia, nome grego para designar a Terra viva.

Nada é supérfluo na natureza. Com certo sentido de humor escreveu o Papa Francisco em sua encíclica “Sobre o Cuidado da Casa Comum” referindo-se a São Francisco. Este pedia aos frades “que no convento, se deixasse sempre, numa parte do horto, um lugar para as ervas silvestres”, porque do jeito delas também louvam o seu Criador.

Devemos cuidar destes trabalhadores anônimos que garantem a fertilidade dos solos e são responsáveis pela inimaginável diversidade dos seres, dos frutos diferentes, da variedade de flores, da diversidade das plantas e também da existência dos seres humanos, em seus diferentes modos de ser o que são. Com os bilhões de litros de agrotóxicos (só no Brasil se lançam ao solo cerca de 760 bilhões de litros) os ameaçamos e matamos. A humanidade é a primeira espécie na história da vida que já tem 3,8 bilhões de anos, a se tornar uma força geofísica letal. Ela é o meteoro rasante, capaz de criar as condições, por sua falta de cuidado e pela máquina de morte que criou, de exterminar a vida visível e a nossa civilização. Há quem diga que com isso foi inaugurada uma nova era geológica, o antropoceno. Mas esses micro-organismos ficam indiferentes. Um naturalista Jacob Monod aventa a ideia de que, pelo fracasso de nossa espécie, um outro ser, capaz de suportar o espírito, irá surgir, quem sabe mais amante da vida. Consideremos estes fatos: os pequeninos organismos vivos e visíveis como as formigas totalizam cerca de 10 mil trilhões e pesam o equivalente ao peso de toda população humana de 7,5 bilhões de pessoas. Os insetos, aos bilhões, são responsáveis pela polinização das flores que, posteriormente, darão frutos.

Quem poderia imaginar que uma simples ervinha silvestre de Madagascar fornecesse alcaloides que curam a maioria dos casos de leucemia infantil aguda? Ou que um obscuro fungo da Noruega fornecesse uma substância que permite realizar o transplante de órgãos? Mais surpreendente ainda: a partir da saliva de sanguessugas foi desenvolvido um solvente que evita a coagulação do sangue em cirurgias?

Como se depreende, todos os seres possuem primeiramente um valor em si mesmos, pelo simples fato de terem surgido ao longo dos milhões de anos de evolução e em seguida poderem ser generosamente úteis para o seu irmão ou irmã, o ser humano? As espécies ditas “daninhas” mas que, na realidade, são silvestres, enriquecem o solo, limpam as águas, polinizam a maioria das plantas com flores. Sem eles a nossa vida estaria sujeita a doenças e seria mais breve. Essa legião de micro-organismos e minúsculos invertebrados, especialmente os vermes nematoides que constituem quatro quintos de todos os seres vivos da Terra, como nos afirmam os biólogos, não estão à toa e sem cumprir a sua função no processo cosmogênico. Nós precisamos deles para sobreviver. Eles não precisam de nós.

São Francisco pisava de mansinho sobre o solo com medo de matar algum bichinho. Nós andamos atropelando, sem consciência de que, escondidos no subsolo, estão membros da comunidade de vida.

* Leonardo Boff é colunista do JB online e escritor


Até quê ponto um "deputado" pode se rebaixar?

“Doeu um pouco, mas eu lembrava do Temer, passava a dor”, diz deputado que tatuou o nome do chefe



Postado em 31 de julho de 2017 às 12:56 pm

O deputado Wladimir Costa contou à Folha como foi fazer a tatuagem com o nome de Temer.
“Doeu um pouco, mas eu lembrava do Temer, passava a dor”, falou.
Ele vai fazer mais uma na costa depois da votação da denúncia contra o chefe, com os dizeres “Temer, o maior estadista do Brasil”.
Pensa num desenho de Marcela Temer. “Um exemplo de mulher brasileira, mulher guerreira”, afirma.

“Vai doer um pouquinho, mas toma umas cachaça e fica anestesiado. Aqui no Pará tem cachaça de jambu, que anestesia tudo”.

Moro é pouco para Lula


sábado, 29 de julho de 2017

Moro é pouco para Lula


Por Marcos Coimbra, na revista CartaCapital:



Enquanto não forem divulgadas as primeiras pesquisas feitas depois da condenação de Lula, é impossível dizer como ficaram as intenções de voto para a eleição presidencial do ano que vem. Podemos, no máximo, conjecturar.

De acordo com o que estávamos vendo nos últimos meses, o mais provável é que, no fundamental, tenham mudado pouco: quem se dizia propenso a votar no ex-presidente deve manter a opção. O que significa que o favoritismo de Lula deve permanecer.

Em breve, teremos novos levantamentos, mas os primeiros talvez não sejam definitivos. É bem possível que o cenário só volte a se estabilizar em alguns dias ou mesmo semanas. A notícia foi dada de modo a produzir agitação e muitas pessoas podem ter ficado inseguras, o que tenderia a deixá-las indecisas ou a fazer com que preferissem não externar sua opinião. Quando a poeira assentar é que conseguiremos avaliar os efeitos do ocorrido.

Não sabemos, portanto, se Lula mantém os níveis de intenção de voto que tinha até outro dia, se perdeu tamanho ou se cresceu. As três hipóteses são plausíveis, embora a de manutenção dos patamares anteriores seja a mais forte.

A razão para isso é simples: no dia 12 de julho, quando Sergio Moro formulou sua condenação, nada de realmente novo aconteceu. Ou havia alguém que supusesse que a sentença do juiz curitibano seria outra?

É possível que existam pessoas que acreditavam que Moro, nos dias que antecederam a decisão, dedicava-se a estudar com cuidado e imparcialidade as manifestações do Ministério Público e da defesa. Que tenha proferido seu voto após longa meditação, sopesando os fatos provados à luz da Lei e do Direito.

Pessoas assim, tão desavisadas, podem existir, mas são raras. Na sociedade, quem tinha opinião a respeito do assunto não duvidava de que Moro condenaria Lula ao final do processo, pois já o havia condenado há tempo. Para aqueles que se interessam por questões políticas, era uma história com final previsível, a crônica de uma condenação antecipada.

Eram quase que unicamente os antipetistas que viam a atuação de Moro como justa, aplaudindo-o porque o percebiam como um aliado e porque fazia o que queriam. Do outro lado, os eleitores de Lula sabiam que iria fazer o que sempre deixou claro que faria, desde quando começou a atuar na política nacional. Apenas os mal informados chegaram ao dia 12 sem conhecer o desfecho.

A mídia corporativa reservou à notícia o tratamento dispensado às “grandes novidades”, em especial a revista Veja e a Rede Globo, com suas “edições extraordinárias”. Tentaram apresentar a decisão de Moro como um “fato novo”, mas não conseguiram ocultar que a condenação de Lula estava pronta antes de o processo sequer começar.

Do dia 12 em diante, repetiram o script. Os “grandes jornais” publicaram editoriais e comentários que poderiam estar escritos há meses (e que talvez já estivessem de fato prontos). De novidade genuína, apenas alguns toques cômicos, como o apelo do jornal Folha de S.Paulo para que a Justiça de segunda instância confirme logo a condenação de Lula, atendendo “ao interesse de todos” (como se “todos” compartilhassem a preferência da família Frias).

No mesmo tom burlesco, houve políticos que encenaram uma reação à “novidade”. Marina Silva, por exemplo, reuniu-se com aliados para dizer-se candidata ao Planalto em razão do “grande vácuo” criado pela condenação de Lula. Aparentemente, era ela a única pessoa, no sistema político, que desconhecia as intenções de Moro e que aguardava seu pronunciamento para decidir o caminho que seguiria.

Os cidadãos comuns, que dispensam essas hipocrisias, não se surpreenderam com o veredicto. Gostando deles ou não, sabiam o que ocorria em Curitiba: que lá havia um juiz que não julgava, procuradores que atuavam ignorando sua função pública, policiais que não investigavam a todos com o mesmo empenho. Cada um, a seu modo, buscando atingir o ex-presidente.

A condenação de Lula por Moro já estava no cálculo da grande maioria da opinião pública. Quem afirmava estar inclinado a votar em seu nome não imaginava uma absolvição. Quem o rejeitava não passou a desgostar mais por causa do ato de Moro. A maioria dos indecisos, que costumam se resolver por fatores extrapolíticos, é dificilmente afetada à distância em que estamos do pleito.

Vai ser preciso mais do que uma sentença de Moro para atingir a imagem de Lula. Para destruí-lo, a aliança antipetista terá de empregar armas de calibre muito mais grosso.

A evolução da bicicleta

PROCUREM O CONCORRENTE, POR FAVOR!

PROCUREM O CONCORRENTE, POR FAVOR!



Um amigo, recém-retornado ao Brasil depois de muitos anos trabalhando no exterior, resolveu abrir, outro dia, com parte de suas economias, uma conta na agência Styllus do Banco do Brasil do Setor Sudoeste, em Brasília, e não conseguiu.

A justificativa, citada pela atendente - que não quis nem saber sequer quanto ele tinha para depositar e aplicar, foi "tout court", "superlotação", como se tratasse não de uma agência bancária top de linha, mas de uma vulgar - e desumana - cela de prisão.

A verdadeira razão da recusa?

A apressada e repentina decisão do governo Temer, tomada a toque de caixa, com menos de seis meses de governo e sem discussão com a sociedade, de fechar ou transformar em postos de atendimento centenas de agências do BB, apesar de o Banco do Brasil não ter tido um centavo de prejuízo nos ultimos 15 anos e dos seus funcionários já estarem atendendo, em média, mais de 400 contas por cabeça quando a medida entrou em vigor.

Orientado, em nova agência, a tentar abrir sua conta pela internet, ele tentou várias vezes, mas também não conseguiu, embora o governo tenha feito paradoxalmente há alguns meses campanhas na televisão sobre apps do banco, em seu esforço de tentar molhar a pata de veículos que - com seus próprios interesses em vista e decepcionados com a baixíssima popularidade de Temer - agora mordem a sua mão.

Conversando com outro funcionário, na porta do estabelecimento, foi lhe explicado, diretamente e sem subterfúgios, que, com a desculpa de "modernizar" o banco, se está sabotando deliberadamente o Banco do Brasil - como se fez no governo FHC - com a intenção de privatizá-lo, de forma fatiada, a médio prazo. 

Na verdade, esse é um movimento que já começou, com a venda de ações do Banco do Brasil do Fundo Soberano, que fará cair a participação do governo para apenas 50,7% do total.

Enquanto isso, entrega-se, diminuindo a qualidade do atendimento ao consumidor, parcelas cada vez maiores do seu público e de seu mercado aos bancos privados, corrigindo o "crime" perpretado por Lula e Dilma, de terem fortalecido - da Caixa Econômica federal ao BNDES - o papel dos bancos públicos e aumentado o percentual de sua participação no mercado financeiro e na economia nacionais. 

As perguntas que ficam agora são as seguintes:

Quantos clientes do Banco do Brasil, ou potenciais clientes, como esse, se passaram, nos últimos meses - irritados com a queda de qualidade do atendimento - para bancos particulares, ou pior, para bancos particulares estrangeiros - como o Santander, que em plena pressão pela Reforma da Previdência, acaba de ter 338 milhões de reais em multa perdoados pelo CARF - desde que começou, no BB, essa pilantragem chamada genericamente de "restruturação"?

A quem interessa arrebentar com os nossos bancos públicos - a Caixa e o BNDES também estão sob insuportável pressão - indiscutíveis e estratégicos instrumentos para o desenvolvimento nacional? 

Por que os sindicatos não entram - ou não entraram - na justiça para contestar essas medidas?

Por que o extremamente bem sucedido Ministro da Fazenda de um governo sem voto, que ganhou de fontes privadas mais de 200 milhões de reais em "consultoria" nos últimos quatro anos - de um país de uma justiça absurda, no qual tem gente que está se arriscando a ser preso e ter seus direitos políticos cassados por ser "dono" de um apto do qual não possui escritura, cujas chaves nunca recebeu - não tenta aplicar, para mostrar confiança na nação - pelo menos uma parte dessa "merreca" no Banco do Brasil?


Texto original : MAURO SANTAYANA

“Comunistas" em Harvard ?


“Comunistas" em Harvard ?

Suplicy encontrou aliados.


abs Weber

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·        Em Harvard, Zuckerberg defendeu a ideia de renda mínima garantida pelo Estado. O dono do Face não está sozinho nessa cruzada social (Foto: Paul Morotta/Getty Images) ZUCKERBERG  EM HARVARD, ELE DEFENDEU A IDEIA DE RENDA MÍNIMA GARANTIDA PELO ESTADO. O DONO DO FACE NÃO ESTÁ SOZINHO NESSA CRUZADA SOCIAL (FOTO: PAUL MOROTTA/GETTY IMAGES)

O tradicional discurso de formatura da universidade Harvard teve um teor político incomum este ano. Convidado a falar de suas experiências e valores aos graduandos de uma das mais importantes universidades de negócios do mundo, o bilionário Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, deixou de lado as fronteiras da tecnologia, das redes sociais e do empreendedorismo digital. Escolheu como tema central “a criação de propósito”. E defendeu como caminho uma alternativa ainda polêmica, mas que vem ganhando espaço no mundo: a de que os Estados garantam uma renda mínima a seus cidadãos, independentemente de classe socioeconômica, para que eles deem conta de despesas básicas como alimentação, moradia e saúde. Sim, aqui no Brasil a gente já ouviu um bocado sobre isso, assunto preferido e projeto de vida do ex-senador Eduardo Suplicy, do PT. Virou até folclore, mas, na prática, não saiu do papel: seu projeto de Renda Básica de Cidadania, transformado em lei em 2004, nunca foi regulamentado. Zuckerberg ainda não conversou com Suplicy, mas, na formatura de Harvard, já falou como ele: “Chegou a hora de nossa geração definir um novo contrato social. Deveríamos explorar ideias como a da renda básica universal para garantir que todos tenham segurança para testar novas ideias”.
A proposta de inclinação socialista na boca de um dos homens mais ricos do mundo pode soar estranha. Mas Zuckerberg não é doido, nem está sozinho. Ele faz parte de um grupo de lideranças do Vale do Silício que vêm ampliando a visibilidade de um movimento internacional em favor da renda básica universal, organizado em rede desde meados dos anos 80. Elon Musk, fundador da Tesla, a montadora de carros elétricos que recentemente ultrapassou a Ford em valor de mercado, declarou em fevereiro que o modelo é possivelmente a melhor solução para lidar com a crescente abundância de bens e a escassez de empregos geradas pelas novas tecnologias. Albert Wenger, sócio da Union Square Ventures, empresa de capital de risco com aplicações em companhias como Duolingo, SoundCloud e Kickstarter, escreveu um livro em que defende a ideia, chamado World After Capital (“Mundo pós-capital”, em uma tradução livre). E Sam Altman, presidente da Y Combinator, investidora de estrelas da nova economia como Airbnb, Reddit e Dropbox, não só é favorável ao modelo como está bancando, por meio da companhia que dirige, um experimento do tipo em Oakland, na Califórnia – o projeto começou este ano distribuindo entre US$ 1 mil e US$ 2 mil mensais a cem participantes, e deve crescer para mil participantes nos próximos meses.
O tema é antigo e tem atraído pensadores à direita e à esquerda do espectro político. Formas de renda básica universal são discutidas ao menos desde a Antiguidade. Entre seus defensores ao longo da história estão nomes como o do matemático e ativista político Antoine Caritat, marquês de Condorcet; o político britânico Thomas Paine, um dos signatários da independência dos Estados Unidos; e o pensador John Stuart Mill, autor de Princípios da Economia Política. Em décadas recentes, a ideia atraiu a atenção de economistas liberais como Milton Friedman e Paul Krugman. E por muito pouco não foi implantada pelo governo americano, na década de 70, sob o governo Nixon – com o escândalo de Watergate e a renúncia do presidente, o projeto acabou enterrado. Para muitos liberais, o modelo é atraente por abrir a possibilidade de simplificação dos sistemas de seguridade social e eliminar a burocracia relacionada a eles. Para a esquerda, é uma forma de reduzir desigualdades sociais geradas pelo capitalismo.
 Renda (Foto: d)
 A ONG GIVEDIRECTLY ESCOLHEU UM VILAREJO RURAL DO QUÊNIA PARA AVALIAR OS EFEITOS DA RENDA MÍNIMA SOBRE A POPULAÇÃO (FOTO: DIVULGAÇÃO/GIVEDIRECTLY)
UM MUNDO SEM EMPREGO
Mas existe um motivo bem mais inquietante pelo qual o tema se tornou recorrente nas declarações públicas dos bilionários do Vale do Silício. Com novos avanços da tecnologia, incluindo a Inteligência Artificial, são grandes as chances de que muitos postos de trabalho deixem de existir nos próprios anos. E não somente trabalhos de baixa qualificação, como dirigir um táxi. Estudo recente da consultoria McKinsey indica que 45% das atividades hoje remuneradas podem ser automatizadas com tecnologias já demonstradas. Na lista estão trabalhos feitos atualmente por executivos de finanças, médicos e CEOs. Só nos Estados Unidos, essas atividades rendem atualmente cerca de US$ 2 trilhões anuais em salários.
O estudo foi feito lá fora. Mas trata-se de uma realidade cada vez mais presente também no Brasil. Por aqui, há exemplos, como o da EDP, que ilustram a velocidade das transformações em curso. A companhia de energia de origem portuguesa já tem mapeados mais de 190 processos em sua operação no país que pretende robotizar nos próximos três anos. A promessa é a de que os funcionários que antes se dedicavam às tarefas automatizadas sejam realocados ou assumam funções estratégicas. Mas Miguel Setas, presidente da EDP no Brasil, admite que haverá dispensas.
Há no mundo uma intensa controvérsia sobre os efeitos da tecnologia na redução dos postos de trabalho. Uma corrente defende que para cada tarefa extinta surgem outras novas. As novas atividades, contudo, exigirão requalificação técnica, e muitas pessoas que não forem capazes de se adaptar ficarão sem emprego. Basta lembrar os estragos causados pelos luddistas na primeira Revolução Industrial ou, mais recentemente, os protestos de taxistas contra o Uber para imaginar o potencial de confusão que vem por aí. Ter uma renda básica impediria que essa parcela da população ficasse desamparada e pudesse se requalificar ou empreender. Também garantiria a manutenção de um mercado consumidor amplo para dar vazão ao aumento da produtividade. E neutralizaria efeitos sociais negativos das inovações, reduzindo o potencial de críticas aos seus principais beneficiários, as companhias de tecnologia.
Para Martin Ford, futurologista e autor do best-seller Rise of the Robots: Technology and the Threat of a Jobless Future (“Ascenção dos robôs: Tecnologia e a ameaça de um futuro sem emprego”), essa revolução das máquinas não é um cenário tão distante. Algo entre 15 e 20 anos. “Pode ser até mais cedo do que isso. Qualquer tipo de trabalho que seja repetitivo e previsível será automatizado. Pessoas com um nível de escolaridade menor são as que estão em maior perigo. Mas cada vez mais pessoas formadas serão impactadas também”, diz Ford. “A questão é: o que você vai fazer, então? Muitas pessoas estão percebendo que algum tipo de renda básica universal seja a melhor solução. E claro, você ouve isso de executivos do Vale do Silício porque são muito próximos da tecnologia e estão vendo o que está acontecendo. Estão preocupados, por isso estão dando atenção ao assunto.”
: SEU PROJETO DE Renda (Foto: d)RENDA BÁSICA DE CIDADANIA, TRANSFORMADO EM LEI EM 2004, JAMAIS FOI REGULAMENTADO (FOTO:MARCOS ALVES/AGÊNCIA O GLOBO)
EMPIRISMO SOCIAL
Em meio ao crescente debate, uma série de projetos de renda básica universal vêm sendo estudados e anunciados ao redor do mundo nos últimos anos. Na Suíça, uma proposta de adoção em escala nacional chegou a ir a consulta popular – onde foi rejeitada, em meados de 2016. Países como Holanda, Finlândia, Quênia e Canadá têm projetos em fase inicial de adoção. Cidades da Escócia e da Espanha discutem a ideia. Mas ainda há um longo caminho pela frente até que iniciativas do gênero sejam adotadas em escala nacional – se é que um dia serão. O número de pessoas contrárias à renda mínima universal ainda é muito maior que o de seus defensores – na Suíça, por exemplo, a ideia foi rejeitada por 77% dos eleitores.
Entre os motivos para isso estão principalmente questões de ordem moral e financeira, além da percepção de que exigiria mudanças culturais e políticas tão grandes que é simplesmente impossível que venha a ser adotada. Segundo os críticos morais, a entrega de dinheiro de forma regular e sem contrapartidas pode ter efeitos psicológicos nocivos sobre a população, como o desinteresse pela busca de trabalho e – dá para acreditar? – incentivo ao vício em drogas. A forma de financiamento, em um momento em que muitos países estão afogados em déficits fiscais, é outra preocupação.
Muitas questões permanecem de fato em aberto. O valor ideal dos pagamentos, a melhor forma de entrega do dinheiro e os efeitos macroeconômicos da adoção em larga escala da renda básica universal são pontos a serem discutidos, admitem seus defensores. Para eles, porém, a dificuldade de adoção é tão grande quanto a enfrentada no passado por ideias consideradas utópicas, como o fim da escravidão, a democracia e os direitos civis. E já há bons indícios de que os receios no campo moral sejam infundados. Um estudo assinado por Ioana Marinescu, professora assistente da Escola Harris de Políticas Públicas da Universidade de Chicago, por exemplo, mostrou que no Alasca, onde funciona o mais amplo e antigo projeto de renda básica universal do mundo, o abandono do trabalho foi irrelevante. Em contrapartida, houve redução no número de internações hospitalares e aumento do consumo e dos níveis de escolaridade da população.
O estudante americano Kevin Simmons, de 23 anos, é um exemplo dos efeitos do programa. Ainda bebê, mudou-se do estado de Washington com a família para o Alasca. Durante toda a vida, cerca de US$ 1,2 mil eram depositados anualmente na sua conta bancária sem que ele precisasse fazer nada. Quando terminou o ensino médio, usou o dinheiro para ajudar a pagar a faculdade. Hoje, cursa design de produto em Los Angeles. Simmons conta que muitas famílias não têm as mesmas condições que a dele e usam o dinheiro que recebem para contribuir no pagamento das contas de casa. Mas que nunca chegou a ver alguém depender exclusivamente dos recursos que vêm do fundo, criado em 1976 pelo governo com royalties do petróleo – o programa de renda básica, porém, só começaria a funcionar em 1982. O Alasca, coincidência ou não, é o estado menos desigual dos Estados Unidos.
Elon Musk vê no modelo de renda básica a melhor solução para lidar com a fartura de bens e a falta de emprego geradas pela tecnologia
Na África, outro experimento iniciado no ano passado tem mostrado resultados igualmente positivos, ainda que sobre aspectos diferentes. Ele foi criado para avaliar o impacto da renda mínima sobre a vida de populações inteiras no longo prazo. A ONG americana GiveDirectly, queridinha no Vale do Silício, recebe doações ao redor do mundo e, como o nome bem diz, dá diretamente aos moradores de vilarejos rurais pobres no Quênia – tão pobres que, em alguns deles, comer em público, “ostentar” a comida, é considerado falta de educação. Os pagamentos em dinheiro começaram a chegar a um vilarejo piloto em outubro do ano passado e têm sido usados pelos beneficiários para a construção de casas, compra de gado, redes de pesca ou, simplesmente, comida – o que não seria possível de outra forma. Cada beneficiário recebe cerca de US$ 22 por mês, uma fortuna para os padrões locais.
Hoje, no vilarejo piloto, aproximadamente cem pessoas recebem o dinheiro. No segundo semestre, a iniciativa completa será colocada em prática. Seis mil receberão dinheiro mensalmente durante 12 anos. Um segundo grupo, de 10 mil pessoas, receberá mensalmente por dois anos. E um terceiro, também de 10 mil pessoas, receberá o valor referente a dois anos, mas de uma vez só. A organização quer analisar os efeitos em cada uma das “amostras”. “Nosso principal objetivo é aprender”, diz Joe Huston, diretor financeiro da GiveDirectly. “Se você tem uma renda garantida, esse nível de segurança muda as suas escolhas? Universalidade, ou seja, dar o dinheiro para todos na população, e não só à parte mais vulnerável dela, é importante?”
O resultado desses e de outros programas em fase inicial de implantação servirão de base para o avanço da discussão nos próximos anos. Sejam eles positivos ou negativos. Como coloca o futurista Federico Pistono, autor do livro A Tale of Two Futures (“Um conto de dois futuros”), em sua leitura na plataforma de vídeos TED Talks, ainda não existem evidências suficientes, nem contra nem a favor da renda básica universal. Para ele, é preciso testá-la em populações maiores, realmente representativas, com grupos controle e levando em consideração as diferentes realidades de cada país, durante períodos de tempo mais amplos. “Precisamos de mais informações e de informações melhores”, afirma. “Mas, diante dos desafios, não há por que não tentar.”
Suplicy explica de outro jeito. “A maior vantagem de um programa de renda mínima é do ponto de vista da dignidade e da liberdade do ser humano”, ele diz. “É a moça que não consegue dar de comer em casa para suas crianças e acaba vendendo o seu corpo...  É o jovem que, pelas mesmas razões, resolve ser o ‘aviãozinho’ da quadrilha de narcotraficantes... Com o básico, essas pessoas vão ganhar o direito de dizer ‘não’.”

Esta reportagem foi originalmente publicada na edição de julho de 2017 de Época NEGÓCIOS.

EM PLENA CRISE FISCAL, CARF ANULA COBRANÇA DE R$ 775 MILHÕES DO ITAÚ

Em plena crise fiscal, Carf anula cobrança de R$ 775 milhões do Itaú

No ajuste seletivo em curso no país, cortes de recursos penalizam a maioria da população, enquanto banqueiros saem ilesos. Em plena crise fiscal, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) anulou uma cobrança de R$ 775,867 milhões feita ao Itaú Unibanco S.A. pela Receita Federal, que ainda pode recorrer da decisão.

De acordo com matéria do Valor Econômico, a Receita Federal cobra IRPJ, CSLL, PIS e Cofins dos anos de 2010 a 2012 sobre valores que o Itaú Unibanco considerou como receita não tributável. Para o Fisco, a instituição omitiu esses valores.

Os recursos em questão são referentes aos juros sobre capital próprio – uma das formas de se distribuir o lucro entre os acionistas, titulares ou sócios de uma empresa – distribuídos à Itaú Unibanco Holding (controladora do Itaú Unibanco S.A.) pela Itaucard e pela Itaú Corretora de Valores.

O Itaú Unibanco argumentou que a Itaucard e a corretora seguiram previsão de distribuição estabelecida em seu estatuto. Apesar disso, a Receita Federal considerou que os juros sobre capital próprio deveriam ter sido distribuídos ao Itaú Unibanco S.A.

A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional questiona o fato de os juros sobre capital próprio estarem sendo distribuídos de forma desproporcional  entre a Itaú Unibanco Holding – que apesar de sócia minoritária tem recebido valores expressivos – e o Itaú Unibanco S.A – que é o sócio majoritário, mas tem recebido quase nada.

Apesar de a anulação da autuação ter sido unânime entre os conselheiros, o tema da desproporcionalidade dividiu opiniões. Para o conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, representante da Fazenda, “em hipótese nenhuma” pode haver distribuição de JCP desproporcional e esse tipo de distribuição de lucro deve der feita de acordo com a participação no capital social.

Para ele, contudo, a autuação tributa uma alegada omissão de receita que a empresa não recebeu, segundo o conselheiro. “Difícil tributar algo que deveria ter sido transferido. O problema está em quem creditou em desproporção ao capital social”, disse, segundo reportagem do Valor.

Em abril, o Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) decidiu que o Itaú não precisa pagar impostos no processo de fusão com o Unibanco. Isso significou uma derrota de R$ 25 bilhões para a Receita Federal. A cobrança era o processo com maior valor que tramitava no Conselho.