A democracia brasileira precisa fazer um auto exame: como foi que deixou Jair Bolsonaro ir tão longe?
Em novembro, na Universidade Brown, nos EUA, Fernando Henrique Cardoso falou que não se pode descartar a possibilidade de o Brasil repetir a experiência italiana, que depois da Operação Mãos Limpas elegeu um Silvio Berlusconi.
O mesmo ocorreria aqui como saldo da Lava Jato. Sem citar o nome de Bolsonaro, fez um alerta.
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“Eu não quero entrar em detalhes, mas há pessoas da direita que são pessoas perigosas”, declarou.
“Um dos candidatos propôs me matar quando eu estava na Presidência. Na época, eu não prestei atenção. Mas hoje eu tenho medo, porque agora ele tem poder, ainda não, ele tem a possibilidade do poder.”
Ele se referia à célebre entrevista de Bolsonaro de 1999, em que JB afirmava, entrou outras barbaridades, que o voto não mudaria o Brasil.
“Você só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando 30 mil, e começando por FHC”, afirma.
“Essa pessoa está comprometida com a Constituição, com o respeito das leis, com os direitos humanos?”, questiona Fernando Henrique.
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O crime de ameaça é previsto no artigo 147 do Código Penal. Por que ele não foi processado então?
Bolsonaro está há 27 anos na Câmara. Em três décadas, aprovou dois projetos.
Seu voto pelo impeachment homenageou um torturador de uma ditadura, o coronel Ustra — democraticamente.
Seu legado, além de colocar na política seus filhos Huguinho e Zezinho, mais alguns familiares,é o ódio criminoso.
Nesta quinta, dia 29, num almoço com apoiadores em Curitiba, ele falou que “da próxima vez quero ver 200 pessoas armadas aqui dentro”.
Um dia antes, num comício, pegou a cabeça de um pixuleco de Lula e simulou que estava apontando uma arma para a cabeça dele.
Era uma homenagem ao atentando à caravana de Lula.
Como viemos parar aqui?
O crescimento de Bolso é resultado direto do golpe e da mídia mono obsessiva.
O extremismo de uma direita indigente eclodiu nas ruas com os protestos financiados pelos tucanos, que bancaram os milicianos do MBL, entre outros.
O ambiente de radicalização foi cultivado e estimulado por Aécio Neves, o desaparecido Carlos Sampaio e demais jagunços de terno, enquanto conspiravam com Temer e Cunha.
O discurso demagógico contra a corrupção, o PT, a esquerda, o bolivarianismo, o Lula, o sítio, o comunismo, a Dilma, o pedalinho, a organização criminosa — ia dar no quê?
Num Churchill? Num De Gaulle? Num Ulysses Guimarães?
A antipolítica ia resultar no quê?
Caímos num senhor boquirroto, limítrofe, violento, demagogo, despreparado, santarrão, com reais chances de subir a rampa do Planalto.
O script estava desenhado.
Enquanto batiam num partido e numa ideia, a cadela do fascismo engravidava até dar à luz.
Bolsonaro é uma excrescência parida por uma democracia disfuncional — que terá que se defender dele sob pena de desaparecer.
Durante a passagem do ex-presidente Lula e sua caravana pelo Sul, manifestantes atiraram ovos e pedras para demonstrarem seu descontentamento (decerto porque desconhecem a maneira democrática de demonstrar descontentamento com políticos, o voto).
A senadora Ana Amélia Lemos, do Partido Progressista, cumprimentou publicamente seus correligionários por “colocarem pra correr” os seguidores de Lula – nada mais progressista do que incitar a violência.
Ela, que, para os desavisados, parece uma inofensiva senhorinha, disse que os gaúchos devem “levantar o relho e levantar o rebenque”. “Nós sempre os respeitamos”, falou, depois de incitar uma multidão a atirar ovos em um adversário político.
Aparentemente, o conceito de respeito da senadora – e de seus correligionários – é um tanto quanto deturpado.
Depois da repercussão – até seus colegas do Senado retaliaram-na pela falta de decoro – , fez a boa e velha mea culpa dizendo que havia sido mal interpretada.
Esta é, aliás, a pior maneira de se desculpar. Em vez de simplesmente dizer “desculpa, pessoal, falei merda”, diz-se “não fiz nada de mais, o problema está na interpretação de vocês.”
As desculpas mal colocadas, inclusive, de nada adiantaram – porque, afinal, o recado já fora dado. Os criminosos decidiram ir um pouco mais longe. Em vez de ovos, atiraram projéteis.
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Orgulhosa, senadora?
Em um país sério, isso seria tratado como um atentado político incitado por uma pessoa pública – a senadora Ana Amélia, com ou sem mea culpa – contra seu adversário.
As palavras da senadora deveriam ser tratadas com a gravidade que carregam em qualquer circunstância, mas sobretudo em um país que mata vereadoras esquerdistas a tiros, sobretudo em um país em que se tenta prender um político, sem provas, para evitar que ele se candidate à Presidência – porque, todos sabem, se ele concorrer, não há adversário no Brasil que o derrote – em um país em que um ministro morre em um bizarro e ainda não solucionado acidente (?) de avião.
Além de irresponsáveis, suas palavras são violentas e perigosas em um país em que a esquerda é cada vez mais marginalizada e a violência há muito não é eminente: é real.
Quem cobrará de Ana Amélia Lemos seu discurso irresponsável, antidemocrático e antiético?
Bastará, para ela, pedir desculpas e negar o óbvio? E sua responsabilidade enquanto pessoa pública?
O que garante a integridade física do ex-presidente, caso não consigam tirá-lo do páreo à força e quem poderá negar que discursos como este reforçam os crimes políticos em um país que já descamba para a barbárie?
Eles matam uma vereadora de esquerda com nove tiros, eles têm um deputado que explana discursos homofóbicos e ovaciona um torturador em plenário, eles atentam contra a vida de um político a tiros, em praça pública, por incitação de uma senadora em ato público… e depois nós é que defendemos bandidos.
A criação, a queda e a salvação. A Europa, a África e a América do Sul. A modernidade e as suas contradições. A religião e as suas relações com as pessoas seculares. A política e a moral. Na Semana Santa, Bergoglio dialoga de modo abrangente com o fundador do jornal La Repubblica, Eugenio Scalfari. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Esta é a semana da Paixão, segundo a história cristã, que atinge seu auge com a Última Ceia, a traição de Judas, a prisão de Jesus, o colóquio com Pilatos e, depois, a crucificação, a morte e o som pleno dos sinos em todas as igrejas do mundo onde se festeja o “ressurrexit”. Assim se concluiu a história de três anos de pregação do filho de Maria e de José da tribo de Davi, que, em três anos, fundou uma religião que, de algum modo, continua a religião judaica da Bíblia, mas com novos princípios que, naqueles três anos, lançaram a semente de uma revolução religiosa, mas também social e política no bem e no mal, no pecado e no perdão, nos delitos e na misericórdia.
Na terça-feira, 27, à tarde, encontrei-me com o Papa Francisco, a seu convite, no andar térreo do Palácio de Santa Marta, no Vaticano, onde o papa vive e recebe os amigos. Eu tenho o privilégio de ser seu amigo. Encontramo-nos cinco vezes: em uma delas, eu estava com toda a minha família. Nas outras quatro, falamos sobre tudo. Um não crente e do papa, bispo de Roma no sólio de Pedro, e inspirado principalmente pelas cartas de Paulo, que transformou o cristianismo em uma religião destinada a ser a mais seguida, junto com a muçulmana, com a qual Francisco buscou e ainda busca a fraternidade em nome de um Deus Único no qual todas as religiões devem se inspirar.
Muitas vezes nós nos telefonamos, o papa e eu, para trocar notícias um sobre o outro, mas, às vezes, nos encontramos de novo juntos e conversamos longamente. Sobre religião e sobre política.
Esta, eu dizia, é a semana chamada da “Paixão”. Jesus e os seus 12 apóstolos chegam a Jerusalém acolhidos por uma multidão festiva, a mesma que, depois do interrogatório com Pilatos, será chamada a dizer quem merece ser libertado entre Cristo e Barrabás, que já está nas galeras romanas de Jerusalém.
Jesus ainda não foi preso e decide dirigir-se ao jardim chamado de Getsêmani, seguido pelos apóstolos, ele os para e lhes diz que esperem por ele. Avança naquele jardim, onde, em certo ponto, está completamente sozinho, volta-se para o Pai e diz: “Se quiseres e puderes, não me faças beber este cálice amargo, mas, se não quiseres, beberei até o fim”. Ele não recebe resposta algum e compreende que o Pai não o salvará.
Enquanto isso, guiados por Judas, chegam os guardas e os legionários enviados pelos sumos sacerdotes que pegam Jesus e o levam ao tribunal. De lá, depois de ter ouvido também o parecer dos máximos sacerdotes de Jerusalém, a sentença da crucificação é definitiva e ocorre, como sabemos, na colina do Gólgota.
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Tudo isso, pergunto ao Papa Francisco, deriva da expulsão de Adão e Eva do Paraíso terrestre, de seu exílio sobre a terra, onde vivemos desde então? Então, a criação não é aquela esplendidamente pintada por Michelangelo no teto da Capela Sistina, mas ocorre quando Deus vê que Adão e Eva tinham cedido às seduções de um diabo serpente e romperam a única proibição que lhes havia sido posta. A verdadeira criação, portanto, está na sua expulsão do Paraíso terrestre, é essa a criação?
Francisco ouve essa minha pergunta e depois me responde de modo completamente diferente do que se costuma contar. “A criação – ele me diz – não se cumpre desse modo descrito. O Criador, isto é, o Deus no alto dos céus, criou o universo interno e, acima de tudo, a energia, que é o instrumento com o qual nosso Senhor criou a terra, as montanhas, o mar, as estrelas, as galáxias e as naturezas vivas e até mesmo as partículas e os átomos e as diversas espécies que a natureza divina trouxe à vida. Cada espécie dura milhares ou talvez bilhões de anos, mas depois desaparece. A energia fez explodir o universo que se modifica de tempos em tempos. Novas espécies substituem aquelas que desapareceram, e é o Deus criador quem regula essa alternância.”
Santidade, no nosso encontro anterior, o senhor me disse que a nossa espécie desaparecerá em certo ponto, e Deus, sempre a partir de sua semente criativa, criará outras espécies. O senhor nunca me falou sobre almas que morreram no pecado e vão para o inferno para descontá-lo eternamente. O senhor, em vez disso, me falou sobre almas boas e admitidas à contemplação de Deus. Mas e as almas más? Onde são punidas?
Não são punidas. Aquelas que se arrependem obtêm o perdão de Deus e vão entre as fileiras das almas que o contemplam, mas aquelas que não se arrependem e, portanto, não podem ser perdoadas, desaparecem. Não existe um inferno, existe o desaparecimento das almas pecadoras.
Santidade, o senhor, papa ou bispo de Roma – como prefere se chamar – também se ocupa de política?
O senhor se refere a política religiosa?
Santidade, a política é política, ocupa-se do gênero humano. Para um papa, ela sempre tem um caráter religioso, mas não apenas. Aliás, o senhor sempre me disse que, em uma Igreja que busca se encontrar com a modernidade – e o senhor assumiu essa tarefa – como o Concílio Vaticano II prescreveu, a política é, ao mesmo tempo, religiosa e secular. O senhor, desde quando segue com atenção os seus deveres, reconhece a modernidade como uma meta a ser alcançada. De onde parte esse esclarecimento?
Historicamente, eu diria que a modernidade parte de um ponto de vista ateu e cultural de Michel de Montaigne. Uma leitura quase necessária. O início do Iluminismo é Montaigne. Depois, continua até Kant, através de uma série de passagens que, naturalmente, não param nele. Mas a fronteira da modernidade, que eu levo em consideração, não cabe a mim investigá-la, no entanto, é bom conhecê-la. O representante da cristandade deve prestar atenção em outros problemas.
Por exemplo, a educação dos jovens. Em certos casos, eles procuram trabalhar e fazem-no bem, mas trabalhar não é suficiente, o trabalho deve ser encorajado, mas, junto com ele, há outro sentimento igualmente necessário e talvez até mais importante: o sentimento de amor pelo próximo, pela própria família, pela própria cidade. Insisto sobretudo no amor pelo próximo. A Igreja se estende a uma santidade civil e cristã no sentido mais amplo. A religião, para mim, é de grande importância, mas estou ciente de que é possível ter o senso religioso em casa, mesmo sem praticá-lo. Ou se pratica uma religião, mas apenas nos seus rituais, e não com o coração e com a alma.
Se tivesse que dizer onde hoje a religiosidade é mais forte, eu indicaria as massas de povos da América do Sul, das planícies da América do Norte, da Oceania e da faixa da África de leste a oeste. A África é um continente agitado e conturbado, deve ser muito ajudado. É de lá que partiram as massas de escravos com seu fardo de sofrimento.
E a Europa, Santidade?
A Europa deve se fortalecer, política e moralmente. Aqui também há muitos pobres e muitos imigrantes. Dissemos que queremos conhecer a modernidade também nas suas quedas. A Europa é um continente que, durante séculos, travou guerras, revoluções, rivalidades e ódio, até mesmo na Igreja. Mas também foi uma terra onde a religiosidade atingiu o seu máximo, e, justamente por isso, eu assumi o nome de Francisco: este é um dos grandes exemplos da Igreja que deve ser compreendido e imitado.
O senhor, Santidade, deve se lembrar que eu, muitas vezes, quando escrevo sobre o senhor, chamo-o de revolucionário.
Sim, eu sei, e é uma palavra que me honra no sentido em que o senhor a diz. O senhor, pelo que eu sei, faz aniversário em poucos dias. Desejo-lhe muitas felicidades, e nos vemos novamente em breve.
*****
Ele me acompanhou até o portão, nós nos abraçamos na frente de dois guardas suíços enrijecidos em sua posição e, depois, ele esperou que o carro partisse, lançando-me um beijo com os dedos, ao qual respondi do mesmo modo.
Voltando para casa, vieram à minha mente inconscientemente as frases de Salvini, Berlusconi, Renzi e Di Maio e tive uma sensação de profunda tristeza. No sábado, terei que me ocupar deles, mas o dobrar dos sinos me fará pensar no homem Jesus de Nazaré. Um homem e não mais do que um homem. Existe alguém, na sociedade dos nossos tempos, que pensa nele e se assemelha a ele. A política, infelizmente, se reduz ao caso. Sinto saudades dos tempos de Platão. Se fôssemos como ele… Mas, infelizmente, não há esperança.
O clima político conturbado vivido pelo país nos últimos meses, particularmente no mês de março de 2016, fez com que no dia de ontem (18.3.16) centenas de milhares de pessoas fossem às ruas se manifestar em defesa de um governo legítimo – porque eleito democraticamente – e em defesa do regime democrático, que na atual conjuntura política se encontra seriamente ameaçado.
Neste cenário, talvez não se tenha dado maior atenção a um chamamento das “células eletrônicas golpistas”[2] que será analisado neste documento, dado a sua gravidade para a convivência pacifica em um regime democrático.
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Em qualquer sociedade minimamente civilizada, onde a imprensa é imparcial, o poder judiciário não tem partido político, e alguns governantes sejam republicanos e sem vocações golpistas, esse tipo de manifestação não seria tolerada, estimulada e, até mesmo, não serviria de instrumento de manobra para articulações políticas golpistas.
Neste sentido, é importante registrar aquilo que já estava claro durante e logo após o resultado das eleições presidenciais de 2014, mas que sequencialmente foi negado por essas “células eletrônicas golpistas”: a conformação de um movimento político conservador atrelado a determinados interesses político-partidários, cujas articulações foram escancaradas no mês de março de 2016, ao mesmo tempo em que seus traços se mostraram impregnados da marca fascista[3].
Antes de analisarmos o conteúdo da manifestação desses autodenominados representantes do povo brasileiro, é importante revisitar alguns fatos que marcam a trajetória dessas células eletrônicas. Em primeiro lugar, elas continuam afirmando que são apartidárias. Todavia, é do conhecimento geral que todas essas organizações não somente foram formadas durante o processo eleitoral de 2014, como participaram ativamente da campanha do candidato derrotado do PSDB nas eleições presidenciais daquele ano. Não por acaso que a primeira manifestação contra o governo Dilma II realizada no dia 15.03.2015[4] teve sua organização inicial exatamente no Instituto FHC no dia 27.02.2015. Logo após as primeiras manifestações pelo impeachment as lideranças dessas células foram recebidas com festa pela bancada tucana na Câmara Federal, com seus agregados golpistas.
Em segundo lugar, essas células eletrônicas golpistas[5] pegaram carona numa outra discussão que estava em curso na mesma época – o combate à corrupção – e fizeram dela sua arma de luta. Mas certamente esse não é o objetivo maior, uma vez que ideologicamente elas querem “respostas do livre mercado aos problemas do país”. Por aí é possível entender o ódio visceral ao governo Dilma e ao Partido dos Trabalhadores (PT). Isso me permite afirmar que o discurso do “combate à corrupção” não passa de uma grande farsa, uma vez que o objetivo maior é a “tomada do poder”, como deixam claro no manifesto por eles denominado de “histórico” [6].
Em terceiro lugar, esse movimento fica mais claro ainda quando recuperamos o arco de alianças que essas células eletrônicas golpistas formaram para atingir o objetivo acima mencionado. E aqui as coisas começam a ficar bem mais claras, uma vez que o primeiro aliado fundamental dos “combatentes da corrupção” foi nada menos que um dos políticos mais corruptos do momento: o presidente da Câmara dos Deputados. A partir daí os interesses mútuos se somaram e passa a ganhar maior fôlego o processo de impeachment da atual Presidente da República.
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Mas devemos registrar que a “farsa do combate à corrupção” teve mais um aliado poderoso em seus desdobramentos nessas alianças extremamente perigosas para a manutenção do Estado Democrático de Direito: a entrada em cena com maior força da imprensa conservadora, sob a liderança da Rede Globo e da Revista Veja. Tais meios de comunicação, mesmo que muitos deles sejam concessões públicas, passaram a atuar como verdadeiros partidos políticos em oposição ao atual governo. Tudo isso em nome da “liberdade de imprensa”.
As frentes do cerco político conservador ao atual governo se ampliaram ainda mais quando políticos de diversos partidos, sob o comando do corrupto Presidente da Câmara, passaram a dominar a agenda do Congresso Nacional. A partir daí a música que se houve desde então é de uma nota só: impeachment!
Finalmente, e não menos importante neste processo, é a presença de segmentos expressivos do poder judiciário neste arco de alianças que estão conduzindo o país a passos largos em direção ao regime político fascista. Neste caso, registre-se o envolvimento de um juiz de primeira instância e de procuradores do Ministério Público Federal, bem como juízes de outras esferas do poder judiciário. Todos se dizem apolíticos e que estão atuando apenas em prol do país visando combater à corrupção. Chama atenção o fato de que o juiz que conduz a “Operação Lava Jato” o tempo todo fica se justificando que não tem nenhum vínculo partidário. Mas algumas de suas aparências públicas deixam dúvidas, como é o caso de seu recente encontro com o candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, por acaso cidade que atualmente é governada pelo partido que ele adora grampear.
Em síntese, me parece que tudo o que foi relatado até aqui já seria o suficiente para que qualquer leigo fosse capaz de entender a grande farsa que se montou no país, pois tudo se justifica como sendo ações em prol do combate à corrupção. Mas tem mais: não comentei praticamente nada neste artigo sobre uma questão mais profunda relacionada às conexões internacionais desse movimento[7]. Neste caso, seria interessante se a PF e o MPF parassem de tocar a música de uma nota só e abrissem uma investigação sobre financiamentos externos que envolvem as atuais “células eletrônicas golpistas”.
Após esses breves esclarecimentos, que no meu entender são essenciais para se ter maior clareza sobre a conjuntura política atual, voltemos ao conteúdo da manifestação do dia 18.3.2016, dada a gravidade que esse ato representa para a continuidade do Estado Democrático de Direito. Vejamos alguns pontos essenciais, de acordo com a narrativa dessas próprias organizações.
Quando essas “células eletrônicas golpistas” exteriorizaram quais são seus aliados prioritários, destacaram três segmentos: a imprensa isenta (sic), todo o poder judiciário, e o corajoso Governador Alckmin (PSDB-SP). No ponto relativo à imprensa, o que eles denominam de imprensa isenta são exatamente os meios de comunicação anteriormente mencionados que estão totalmente envolvidos com o golpe político, não tendo nada de isenção. Talvez essa seja uma retribuição ao fato de que um órgão da denominada “imprensa isenta” – o jornal Folha de São Paulo – transformou um dos líderes do MBL em seu colunista, dado seu grande conhecimento sobre o país.
Sobre a aliança com o Governador de São Paulo, não há nenhuma novidade de que ele seja a referência política desses golpistas. Afinal, mesmo se dizendo apartidários, eles o convidaram para fazer parte das manifestações realizadas no último dia 13.3.16. Além disso, caso o caminho do golpe não atinja seu objetivo, estará construída uma ponte entre eles para as eleições presidenciais de 2018.
Finalmente, a afirmação sobre o poder judiciário é quase que uma confissão de que eles também articulam o golpe com setores deste poder público. E isso também não é nenhuma novidade, até mesmo porque membros desse poder detém cadeira cativa na militância de um dos movimentos que assina a nota, como é o caso do juiz Itagiba Catta Pretta Neto, de Brasília, autodeclarado eleitor de Aécio (PSDB) e autor da primeira liminar contrária à posse de Lula como Ministro da Casa Civil[8]. Mas quero acreditar que não seja função do poder judiciário banir este ou aquele partido político, independentemente das preferências políticas de cada um de seus membros.
A vocação fascista da nota apareça ainda em diversas outras passagens. Uma delas é a pretensão de banir da vida política aqueles contra os quais não se tem concordância. Ou seja, se discordo politicamente de um determinado segmento social ou partido político, minha arma de luta não é o diálogo civilizado com o oponente, mas o seu banimento.
Outro grito fascista é a ideia de que o espaço público é de domínio somente dos autores da nota, o que significaria que são donos desse espaço e, portanto, somente quem eles permitirem poderão se manifestar. Afinal, eles representam o bem e estão em constante guerra contra o mal. Aqui se explicita claramente o viés autoritário dessas células golpistas, mesmo que seu discurso para os desinformados seja o de combate à corrupção.
Por fim, a mensagem aponta o verdadeiro motivo desses agentes: expulsar a qualquer custo quem está no poder. E vão mais além: é preciso bani-los da vida pública. Só faltou dizer que é necessário também eliminá-los fisicamente. E assim se avançou para a “apoteose democrática”, nos termos do jornalismo imparcial das organizações Globo.
Concluo dizendo a estes fascistas: vocês não passarão!!!
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Nota publicada e assinada pelo Movimento Brasil Livre (MBL), Vem pra Rua e Revoltados On Line no dia 18.03.2016:
Orientações para brasileiros e brasileiras neste 18 de março histórico
Precisamos ter a capacidade de entender a realidade que vivemos neste momento histórico.
Todo poder judiciário quer banir em definitivo o PT e seus apaniguados no governo.
Toda a imprensa isenta está mostrando as atrocidades cometidas por esta gente.
E eles ainda querem ir às ruas com proteção policial, mas nós não vamos permitir.
Em São Paulo o corajoso governador Alckmin já decidiu que podemos sim comparecer à Avenida Paulista.
A orientação é para que todas as pessoas de bem compareçam aos locais públicos e não permitam que esses idólatras de corruptos façam dos espaços públicos seus feudos.
Vamos nos organizar para invadir Brasília e expulsá-los do poder.
O momento requer muita firmeza e coragem para bani-los da vida pública.
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[1] Professor do curso de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC. Coordenador geral do NECAT-UFSC e pesquisador do OPPA/CPDA/UFRRJ. E-mail: l.mattei@ufsc.br
[2] Esses grupos eletrônicos não podem ser classificados como movimentos sociais porque sua agenda de ação não obedece a um processo organizativo, muito embora recentemente estejam fortemente aliados e atrelados a alguns partidos políticos que explicitamente fazem oposição ao atual governo, em particular o PSDB. Para a “imprensa imparcial brasileira” são organizações sociais virtuais.
[3] O Fascismo é uma maneira de ação política nacionalista e autoritária que tem como principal forma de atuação a mobilização de segmentos sociais – geralmente desinformados – para combater ideias progressistas e com ideal democrático-socialista. Em sua lógica organizativa fazem devoção a algumas lideranças, além de cultivar a violência política, o ultranacionalismo e até mesmo o militarismo. Tudo isso em nome de um fim maior: recuperar o país. Registre-se que praticamente todos esses predicativos estão presentes nas ações dos movimentos que assinam o manifesto antes referido. Mesmo assim, para o jornal O Globo suas ações representam a “apoteose democrática”.
[4] Neste evento foram registradas inúmeras atitudes perfeitamente enquadráveis no comportamento fascista. Todos os demais atos somente vieram a potencializar e a confirmar ações políticas neste campo.
[5] Registre-se que a principal delas – O Movimento Brasil Livre (MBL) – foi fundada por alguns jovens liberais de diversos estados do Brasil, sendo que muitos deles tiveram formação no programa Koch Summer Fellow, mantido pelo Institute for Human Studies, cuja propriedade pertence às empresas dos irmãos Koch. Além do mais, é digno de registro também que os irmãos Koch são donos de grandes empresas privadas dos EUA, especialmente na área das corporações petroleiras. Por aí também dá para começar a entender as relações de alguns políticos brasileiros no sentido de flexibilizar as regras do programa Pré-Sal.
[6] O teor do referido documento será transcrito ao final deste artigo.
[7] Para maiores informações sobre este ponto específico sugiro verificar diversas matérias no blog de Luís Nassif.
[8] Nada a se estranhar que a segunda liminar contrária à posse tenha sido dada pela juíza Regina Coeli Formisano, amiga de Itagiba e crítica do governo atual.