terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Meios comunitários argentinos ocuparam canal de TV do Grupo Clarín contra censura na grade de televisão a cabo


Meios comunitários argentinos ocuparam canal de TV do Grupo Clarín contra censura na grade de televisão a cabo

 

 
18/12/2018 10:50
 
 
Comunicadores populares ligados a canais de televisão comunitários de Buenos Aires protagonizaram nesta segunda-feira (17/12) um protesto nas instalações do Canal 13 (emissora de televisão pertencente ao Grupo Clarín).

O objetivo da mobilização foi defender a inclusão dos canais Barricada TV e PAREStv na grade de programação do serviço de televisão a cabo Cablevisión (outra empresa do mesmo grupo), maior provedor do país, que não permite a inclusão dos mesmos em sua oferta de canais, embora estes contem com todas as licença e habilitações do Estado para tanto. Essa censura significa um incumprimento da lei, e a empresa alega razões comerciais para tal atitude, mas sem cifras comprováveis que sustentem seu argumento de que o canal não desperta o interesse dos clientes.

“Nosso ato teve como objetivo visibilizar essa problemática, para que o acesso à transmissão não tenha que passar por essas barreiras e nenhum outro tipo de discriminação. Estamos cansados dos cortes nos fundos de comércio para o setor comunitário e também da censura aos nossos sinais nas grades de programação das grandes empresas”, explicou Natalia Vinelli, jornalista e fundadora do canal Barricada TV. Segundo ela, “nós estamos aqui buscando um esclarecimento público ao qual temos direito: saber por que a Cablevisión impede que estejamos na grade quando está obrigada por lei a nos incluir, uma vez que cumprimos com todos os requisitos”.

Durante a jornada, os manifestantes ocuparam pacificamente as instalações do canal, e contaram com o apoio de outras entidades e movimentos sociais. A pedido dos próprios trabalhadores dos canais comunitários, o ativista Juan Grabois esteve presente, junto com outros militantes da sua organização, a CTEP (Confederação dos Trabalhadores da Economia Popular), e foi um dos mais atuantes durante o protesto.

Grabois é um dos líderes sociais mais combativos da Argentina e conhecido por sua oposição ao governo de Mauricio Macri e sua postura crítica ao Grupo Clarín – e também por sua amizade com o Papa Francisco, para quem já atuou como enviado especial, como na ocasião em que enviou um terço abençoado pelo sumo pontífice como presente ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, quando este já se encontrava preso em Curitiba.

O protesto forma parte de um conflito maior, que já se instalou nos tribunais. Os canais Barricada TV e PAREStv entraram na Justiça contra as empresas Cablevisión e Telecentro, por violação do direito de liberdade de expressão e do direito das audiências à informação. A medida cautelar está sendo analisada pelo 9º Juizado Federal, sob a responsabilidade do juiz Pablo Cayssials.

Com a negativa em retransmitir os canais comunitários, as empresas silenciam vozes, desconhecem conflitos e deixam de lado as realidades que tampouco têm espaço nos meios comerciais, eliminando completamente as expressões do setor alternativo da comunicação.

A resposta repressiva ao protesto não tardou em aparecer. Ainda durante a tarde, a presença policial, devidamente solicitada pela alta direção do conglomerado empresarial, atuou contra a manifestação pacífica. Porém, não houve maiores incidentes nem pessoas presas ou feridas, e a saída dos manifestantes do edifício ocupado se deu de forma tranquila – apesar da negativa das autoridades em emitir publicamente uma posição oficial a respeito da demanda de inclusão dos canais na grade de programação, algo que foi pedido pelos comunicadores.

Antes de deixar o local, as organizações sociais entregaram aos recepcionistas do canal um documento com todas as suas exigências a respeito do caso. Ainda assim, a jornalista Natalia Vanelli denunciou que “o Grupo Clarín protocolou na Justiça uma ata de contravenção contra Juan Grabois, por apropriação e uso indevido do espaço público. É um absurdo, porque a mobilização, que durou somente duas horas, não ocorreu dentro de nenhum estúdio do canal, e sim na entrada do edifício e no estacionamento, que é um espaço privatizado para uso próprio do canal, quando deveria ser um espaço público”.

A denúncia de Vanelli faz referência ao fato de que o estacionamento e o hall de entrada do edifício onde se encontra a sede do Canal 13 são parte de uma polêmica pela privatização de um espaço público que o Grupo Clarín vem mantendo desde a última ditadura argentina (1976-1983), e que foi renovada durante a gestão de Maurício Macri como prefeito de Buenos Aires.



A permissão para usar o espaço do estacionamento, localizado no Centro da capital argentina, foi entregue pela primeira vez em 1978, durante os primeiros anos do regime ditatorial apoiado pelo Grupo Clarín. Naquele então, o prefeito Osvaldo Cacciatore autorizou o uso exclusivo do espaço por parte do canal (que na época era estatal), de forma gratuita. Porém, o acordo tinha validade até setembro de 2006. Desde então, as administrações de Mauricio Macri e de seu sucessor e aliado na Prefeitura, Horacio Rodríguez Larreta, vêm prorrogando a concessão do espaço, já não de forma gratuita, mas sob valores considerados abaixo dos parâmetros de mercado.

É importante destacar que a Barricada TV possui licença de televisão digital aberta, obtida por concurso público, para utilizar o canal 32.1, com uma área de cobertura dentro da Cidade Autônoma de Buenos Aires e também na Grande Buenos Aires. O canal está habilitado pelo Enacom (Entidade Nacional de Comunicações, espécie de Anatel argentina) e cumpre com todas as exigências da lei para operar corretamente. Situação idêntica à da PAREStv, canal comunitário da cidade de Luján, no interior da Província de Buenos Aires, que conseguiu ingressar na grade de programação do da empresa Telered. Ambos os meios pertencem à CONTA (Coordenadora Nacional de Televisoras Alternativas).

*Com informações do portal El Destaque

Entidades da sociedade civil repudiam nomeação de réu em três ações no STF por desvios de recursos públicos para diretor da Anvisa

Entidades da sociedade civil repudiam nomeação de réu em três ações no STF por desvios de recursos públicos para diretor da Anvisa
Para as organizações da civil, André Moura não preenche os requisitos para o cargo: reputação ilibada e elevado conceito no campo da especialidade
DENÚNCIAS

Entidades da sociedade civil repudiam nomeação de réu em três ações no STF por desvios de recursos públicos para diretor da Anvisa


18/12/2018 - 15h15

Comitê Gestor da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, via whatsapp
Ao Excelentíssimo Senhor Senador.
Assunto: Notificação de repúdio à nomeação de André Moura ao cargo de diretor da Anvisa
Prezado Senhor,
Organizações da sociedade civil, como Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), ACT Promoção da Saúde e Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), integrantes da Aliança para a Alimentação Adequada e Saudável, rejeitam a indicação do nome de André Moura para ocupar vaga de diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Como noticiado na imprensa, André Moura é réu em três ações penais no Supremo Tribunal Federal por desvio de recursos públicos, dois deles relacionados à Operação Lava Jato [1].
O indicado tem formação na área de administração, é deputado federal pelo PSC/SE desde 2011 [2] e ocupa a liderança do governo no Congresso desde março de 2017 [3].
Candidato ao Senado Federal derrotado nas eleições de 2018, sua indicação parece ser um prêmio de consolação pelo apoio incondicional dado ao longo do governo Temer.
O artigo 5º da lei 9.986/2000, de gestão de recursos humanos nas agências reguladoras, dispõe que os membros da Diretoria devem ter reputação ilibada, formação universitária e elevado conceito no campo de especialidade dos cargos para os quais serão nomeados.
As organizações entendem que os requisitos de reputação ilibada e elevado conceito no campo da especialidade que o cargo exige não são cumpridos pelo atual indicado.
Em 15/02/2018, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a condenação de Moura por desvios na Prefeitura de Pirambu (SE) e formação de quadrilha [4].
Reportagens revelam que Moura foi condenado em primeira instância a pagar multa de R$1,4 milhão ao patrimônio público pelo desvio de recursos da prefeitura para o Olímpico Pirambu Futebol Clube, chamado “Time do Mourão” [5].
Sem nenhuma experiência na área da saúde pública, Moura nomeou aliados políticos e pessoais para cargos estratégicos na Fundação Nacional do Índio (Funai), na Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) segundo o jornal O Globo [6].
Entre as indicações políticas realizadas por Moura na Dataprev, estatal responsável por oferecer soluções de tecnologia ao governo e por processar o pagamento das aposentadorias, estão o presidente e um diretor; três advogados na assessoria da presidência; um primo e uma ex-dona de salão de beleza; e ainda o irmão do secretário-executivo da Secretaria de Governo da Presidência.
Dado o relevante papel da Anvisa para garantia e defesa da saúde pública no Brasil, nós, organizações da Aliança, acreditamos ser inegociável a defesa técnica, ética e da boa governança da agência e esperamos que a indicação à diretoria seja rejeitada.
A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável reúne organizações da sociedade civil de interesse público, profissionais, pesquisadores e movimentos sociais com o objetivo de desenvolver e fortalecer ações coletivas que contribuam para a realização do Direito Humano à Alimentação Adequada, por meio do avanço em políticas públicas que garantam segurança alimentar e nutricional, e soberania alimentar no Brasil.
Comitê Gestor da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável
1. https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/novo-lider-do-governo-e-suspeito-de-tentativa-de-homicidio
2. http://www2.camara.leg.br/deputados/pesquisa/layouts_deputados_biografia?pk=160543
3. https://oglobo.globo.com/brasil/andre-moura-sera-novo-lider-do-governo-no-congresso-21012656
4. https://oglobo.globo.com/brasil/lider-do-governo-no-congresso-andre-moura-psc-se-monta-rede-de-indicados-22 889656
5. https://oglobo.globo.com/brasil/lider-do-governo-condenado-por-desvio-de-14-milhao-time-do-mourao-1-2165551

O novo trem da alegria:JUDICIÁRIO RECRIA AUXÍLIO-MORADIA, APÓS RECEBER AUMENTO DE 16%

Gleisi: Se “é horrível ser patrão no Brasil”, imagina ser trabalhador sob Bolsonaro

Gleisi: Se “é horrível ser patrão no Brasil”, imagina ser trabalhador sob Bolsonaro
Foto Alessandro Dantas
POLÍTICA

Gleisi: Se “é horrível ser patrão no Brasil”, imagina ser trabalhador sob Bolsonaro


18/12/2018 - 13h46

Gleisi: Bolsonaro quer reimplantar a escravidão no Brasil
Na medida em que se aproxima o início formal do governo Bolsonaro – já que Michel Temer se conformou com seu papel decorativo e apenas obedece ao sucessor – o Brasil vai conhecendo os verdadeiros objetivos do futuro do governo, que foram ocultados na campanha eleitoral.
Um desses objetivos é o retorno das relações de trabalho aos tempos da exploração máxima.
Semana passada, diante do que há de mais atrasado na Câmara dos Deputados, Bolsonaro anunciou que seu projeto é “aproximar o mercado de trabalho cada vez mais da informalidade”, porque os direitos que pretende revogar “estão congelados” pelo Artigo 7o da Constituição Federal. Pediu paciência aos seus pares inimigos dos trabalhadores, pois não desistirá de mudar a Constituição.
O Artigo 7o é o que transformou em cláusulas pétreas o direito ao salário mínimo crescente, ao décimo-terceiro, às férias remuneradas, à aposentadoria, à jornada de 8 horas/dia e 44 semanais, ao FGTS, ao seguro-desemprego, ao salário- educação, à não-retenção dos salários por qualquer motivo, ao adicional por horas-extras e por trabalho noturno, às licenças maternidade e paternidade, entre outros direitos que distinguem o trabalho digno do trabalho análogo ao de escravo.
É de se imaginar quantos milhões de votos Jair Bolsonaro teria perdido se tivesse tido a honestidade de avisar aos eleitores, durante a campanha, que isso é parte de seu projeto para o país.
Mas ele fugiu dos debates, foi poupado de sabatinas pela mídia e resumiu seu discurso a atacar o PT, além de espalhar mentiras sobre nós no submundo da internet, com tecnologia e caixa dois que veio até de outros países.
Parte da demolição dos direitos dos trabalhadores – conquistados, recorde-se, com a luta de gerações e o sacrifício de incontáveis mártires – começou já no governo Temer, que implantou a terceirização e o trabalho intermitente, além de sufocar os sindicatos e dificultar o acesso à Justiça do Trabalho, que já teve reduzida em um terço a demanda com as regras que favorecem os patrões.
É para driblar a Constituição, na maior cara de pau, que ele propõe a tal “aproximação com a informalidade”, ou seja: contratar fora da lei.
Os trabalhadores brasileiros já estão vivendo este pesadelo. Em 2017, pela primeira vez desde que o IBGE passou a diferenciar empregos com carteira dos empregos sem carteira, dos bicos, biscates, autônomos e domésticos sem registro, o número de trabalhadores formais foi menor dos que os chamados informais.
Numa força de trabalho de cerca de 90 milhões de pessoas, apenas 33 milhões têm a carteira assinada, enquanto 34,3 milhões trabalham por conta própria, fazendo bicos, como autônomos, domésticos sem registro e, pasme, mais de 11 milhões trabalham sem carteira em empresas privadas.
É uma tendência que vem se agravando na medida em que a economia permanece estagnada e aumenta o poder de chantagem dos empregadores sobre os empregados.
E é bom lembrar: segundo o IBGE, o rendimento do trabalho informal é 44% inferior ao rendimento do trabalho com carteira assinada. Está claro a quem interessa a tal informalidade e o tipo de chantagem com que ela é imposta.
Até uma carteira de trabalho “verde-amarela”, em que o trabalhador abre mão de tudo para ser contratado, eles pretendem introduzir no Brasil.
Jair Bolsonaro já extinguiu o Ministério do Trabalho, responsável pela fiscalização desses abusos. Entregou o registro e fiscalização dos sindicatos ao Ministério da Repressão de Sérgio Moro.
E, no mesmo encontro com seus asseclas do Congresso, pregou o fim do Ministério Público do Trabalho, o braço da procuradoria que combate o trabalho análogo à escravidão e atua onde os sindicatos de trabalhadores não têm força para agir.
Diante desse quadro de retrocessos, não apenas trabalhistas, mas civilizatórios, é impossível não registrar que os governos Lula e Dilma criaram 20 milhões de empregos com carteira assinada em 12 anos, reduzindo significativamente a informalidade herdada dos governos neoliberais e valorizaram o salário mínimo impulsionando a economia e equilibrando as contas da Previdência.
Lula provou que com mais direitos e mais empregos o país cresce.
Por isso o impediram de ser candidato: para implantar na plenitude a cultura da chibata nas relações trabalhistas.
Além de destruir o Ministério do Trabalho, uma conquista dos anos 1930, o plano de Bolsonaro e dos poderosos é fazer o Brasil retornar 130 anos na história, aos temos anteriores à Lei Áurea.
Porque, como pensa Bolsonaro, traduzindo as nossas elites retrógadas, “é horrível ser patrão no Brasil”, quando se tem de tratar trabalhadores como cidadãos.
Gleisi Hoffmann é senadora (PT-PR) e presidenta nacional do PT
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Nassif: Mangabeira esclarece de vez os erros que tiraram a presidência de Ciro, racharam as esquerdas e levaram à eleição de Bolsonaro
POLÍTICA

Nassif: Mangabeira esclarece de vez os erros que tiraram a presidência de Ciro, racharam as esquerdas e levaram à eleição de Bolsonaro


18/12/2018 - 12h33

Mangabeira e os erros que tiraram a presidência de Ciro
As duas entrevistas de Roberto Mangabeira Unger – ao Valor (clique aqui) e à  Folha (clique aqui)– esclarecem de vez as razões objetivas que levaram ao racha das esquerdas e à eleição de Jair Bolsonaro.
Mangabeira confirma o relato de Fernando Haddad, de que foi oferecido a Ciro o papel posteriormente desempenhado pelo próprio Haddad, de ser o vice-presidente na chapa de Lula e assumir a candidatura quando Lula fosse impedido.
Teria sido a fórmula ideal. Ciro seria imediatamente catapultado para a liderança e com sua retórica eficiente teria condições de vencer Bolsonaro no 2º turno.
Ciro esbarrou mais uma vez em seu grande defeito político.
É bom para as grandes estratégias e péssimo para as definições táticas, prisioneiro de um temperamento forte, com uma autossuficiência deletéria, não se enquadrando nos limites dos pactos partidários.
Quando a estratégia é bem-sucedida, entra em alpha e considera que tem a força. E não consegue identificar os limites políticos para entrar na etapa seguinte.
Sua visão era a de que o período Lula estava definitivamente encerrado e caberia a ele, Ciro, inaugurar o novo tempo, sem depender do lulismo.
Como Mangabeira deixa claro, Ciro confundiu posições táticas com estratégicas.
No plano estratégico, era mais que hora do lulismo ceder espaço a uma nova etapa, diluindo o protagonismo excessivo do PT, principal combustível do pacto político mídia-Judiciário, e trabalhando as novas classes que surgiam – e que Mangabeira corretamente identifica como o novo empreendedorismo.
Ora, esse movimento era claro para o próprio Lula. Quando tentou a aproximação com Eduardo Campos, sabia a dificuldade para o PT superar a matriz original e abrir espaço para o novo tempo.
No plano tático, no entanto, abrir mão do cacife eleitoral de Lula foi um gesto de arrogância mortal.
Não adiantou Haddad alertar Ciro, que estava minimizando não apenas a influência de Lula, mas 70 anos de tradição trabalhista no Brasil.
Como pretendia montar uma frente deixando de lado o principal ator político das oposições nas últimas décadas?
Sua visão estratégica foi bem-sucedida. Desenvolveu o discurso mais eficiente de oposição à direita racional, de Geraldo Alckmin, e, depois, à direita insana de Jair Bolsonaro, um discurso denso, com propostas racionais e criativas, e uma retórica de guerra adequada para desmontar a agressividade vazia de Bolsonaro.
Na frente tática, esboroou-se.
Depois que perdeu as eleições, a ira posterior de Ciro contra o PT, foi apenas uma tentativa psicológica de enfrentar a ideia insuportável de que foi ele próprio que jogou fora a presidência por um gesto mal pensado.
Nenhum de seus argumentos se sustenta:
1. A alegação de que não queria comprometer seu projeto de país com o do PT.
Como bem lembra Mangabeira, uma coisa é aliança tática, visando ganhar as eleições e impedir o mal maior. Outra coisa, o projeto de governo, que é atribuição exclusiva do presidente da República. Ele seria o líder inconteste do projeto.
2.A alegação de que o PT não era aliado confiável.
Como assim? Alianças se formam em torno de propostas, conceitos e campos de interesse.
Havia um amplo campo de interesses comuns para consolidar alianças com os partidos de esquerda, incluindo o PT, assim como um amplo arco de partidos de oposição, de centro-direita, para contrabalançar.
Um político habilidoso deitaria e rolaria em um quadro desses. Seria um quadro confuso apenas para políticos com dificuldades para dialogar.
3.As acusações de que foi esfaqueado pelas costas, com o acordo do PT com o PSB não se sustentam.
Queria o quê?
Que depois de esnobado por Ciro Gomes, o PT abrisse mão de alianças estratégicas, para não melindrar o adversário?
E porque foi possível uma aliança, conduzida por Lula, que interferiu nas eleições de Pernambuco e Minas Gerais?
E por que estados como a Bahia e o Maranhão que, em circunstâncias normais estariam com Ciro, mantiveram-se fiéis ao candidato do PT?
Por conta do prestígio político de Lula, que Ciro minimizou.
Esses embates ajudaram a realçar  a posição desprendida de Haddad que, em todos os momentos, colocou os interesses do país acima de seus interesses pessoais: quando apoiou a indicação de Ciro; e, depois, quando encarou o desafio de conduzir uma campanha presidencial perigosa.
A nova etapa da política
Mangabeira tem uma virtude e uma fraqueza nas utopias que desenha para o país.
As virtudes são uma visão de futuro aprofundada, um desenho sintético do que seria uma civilização tropical moderna.
No governo Lula, ele exercitava o papel de espécie de grilo falante, identificando em cada Ministério propostas esquecidas, que se enquadravam nesse desenho, dando-lhe publicidade.
A fraqueza, fruto de seu distanciamento do dia-a-dia do país, é não acompanhar de perto o que ocorreu nesses anos todos.
Foi assim quando assumiu a Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo Dilma, incumbindo-se da tal Pátria Educadora, sem noção algum dos avanços e das ideias modernizantes que sacudiam o setor.
Com seu estilo de dar plena liberdade às iniciativas dos seus Ministros, os dois governos Lula foram laboratórios riquíssimos de experiências que poderiam ter marcado a etapa seguinte de desenvolvimento.
Muitas das propostas levantadas, agora, por Mangabeira, já tinham sido iniciadas no governo Lula, inclusive as políticas de fortalecimento das pequenas e microempresas com o MEI (Microempreendedor Individual), os movimentos da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e das fundações de amparo à pesquisa em torno das startups.
As movimentações iniciais do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) na gestão Carlos Lessa, de fortalecimento de arranjos produtivos locais.
Dentro dessa linha, o fortalecimento da Apex (Agência de Promoção das Inovações) definindo planejamentos sofisticados para o comércio exterior, e da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), como futuro fórum de discussão de políticas industriais, desenvolvendo diagnósticos e amarrando nas estratégias do BNDES e da Finep.
Toda essa dinâmica, em relação aos novos tempos da economia e das políticas sociais, foi interrompida pelo estilo excessivamente centralizador de Dilma Rousseff, pela nova lógica do BNDES e seus campeões nacionais, e pelo início da crise econômica.
Em 2014, o CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) fez um levantamento precioso das propostas existentes nas universidades, centros de pesquisa e governo para os diversos temas de políticas públicas. Mas o tempo político de Dilma já havia se esgotado.
O grande desafio do PT será alargar os horizontes do partido, e se abrir para as novas ideias, já testadas com sucesso no governo Lula, e para as novas militâncias.