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Foto: ISTOCKPHOTO |
Se o critério for o tamanho do patrimônio líquido, a minoria mais rica não passa de 0,2% da humanidade em vez de 1% Professor de universidade da Austrália analisa em livro o comportamento dos ricos a partir de 1 milhão de dólares, segundo a propriedade de ações, títulos do governo e imóveis |
“---Quem são os 1% mais rico e o que eles querem?”, perguntou Tom Mills, pesquisador da University of Bath e co-editor do New Left Project, a Tim DiMuzio, professor de Relações Internacionais e políticas públicas na Universidade de Wollongong, na Austrália. A pergunta remete ao título de um livro recém publicado por DiMuzio, intitulado “O 1% e o resto de nós: uma economia política da propriedade dominante”, uma tentativa de “examinar as vidas insulares dos super-ricos globais, o sistema socioeconômico que dirigem e seu impulso inquieto de dominar a sociedade e a natureza”, nas palavras do entrevistador. O problema, respondeu DiMuzio, é que a maioria das pessoas tem ideias diferentes sobre o que constitui riqueza e quem podem ser os "ricos". Em seu trabalho, o professor examina como os bancos de investimento e outras instituições financeiras concebem o 1%. Sua definição para esse universo diminuto e ultrapoderoso é ‘indivíduos de alto patrimônio líquido’, que têm pelo menos 1 milhão de dólares investidos em ativos geradores de renda, como ações de empresas, títulos do governo e imóveis. No último relatório World Wealth da Capgemini e RBC Wealth Management, havia 13,7 milhões de indivíduos de alto patrimônio líquido. Como porcentagem da população global, de cerca de 7 bilhões, isso significa que eles constituem 0,2% da humanidade ou 0,7% dos adultos. “Na realidade, essa classe do que eu chamo de proprietários dominantes é muito menor do que o movimento Occupy Wall Street percebeu, se recorrermos à definição de indivíduos de alto patrimônio usada por instituições financeiras, e houver poucas razões para não fazê-lo”, sublinha DiMuzio. Há muito poucas evidências, diz, sobre a psicologia dos detentores de patrimônio líquido elevado. “Há algumas características reunidas em pesquisas, a exemplo de The New Elite, de Jim Taylor e outros autores, mas os dados são difíceis de avaliar, pois as pessoas sempre podem mentir. Portanto, embora não seja possível realmente “entrar na cabeça” do 1% como um todo, o que podemos fazer é examinar suas práticas e a lógica que estão seguindo.” Uma prática que certamente existe, diz, é o consumo competitivo por status. “Eu uso o exemplo de "inveja do iate" no livro, em que bilionários pretendem superar uns aos outros em tamanho de iate e futilidades, todos os anos. Mas temos que lembrar que a maioria dos indivíduos de alto patrimônio líquido está na categoria de 1 milhão a 5 milhões de dólares, portanto eles estão longe de consumir no nível de indivíduos com patrimônio líquido ultra-alto --- aqueles com pelo menos 30 milhões de dólares em ativos de investimento ou mais. O que o grupo inferior da hierarquia parece estar fazendo também é competir por status, mas faz isso contraindo mais dívidas para mantê-lo.” O professor concebe, de modo peculiar, cabe assinalar, o capitalismo como modo de poder e não como modo de produção. “Nesta conceituação”, diz, “estamos examinando principalmente como o poder é organizado e como ele cria e recria uma determinada ordem hierárquica. Na verdade, há muito mais a dizer sobre isso. O que nos preocupa na estrutura de capital como poder é a propriedade, a capitalização de ativos geradores de renda e como as maiores entidades capitalizadas, que são os governos e as corporações, moldam e remodelam a reprodução social em benefício dos proprietários.” Eles fazem isso, sublinha DiMuzio, frequentemente sabotando direta ou indiretamente o potencial criativo da sociedade. Uma questão pertinente e que cabe indagar, é como DiMuzio terá tratado, no livro a ser lançado, a questão da propriedade de patentes e similares, ativos dos mais relevantes e além disso, forma de riqueza em ascensão enquanto proporção da riqueza geral dos capitalistas e ainda uma fonte significativa de rentismo. |
Foto: ISTOCKPHOTO |
Em mil dias de governo Bolsonaro o gás de cozinha subiu 73%, a gasolina 57%, o óleo diesel 45% e a inflação, 15% Motoristas por aplicativos, caminhoneiros e alimentação em domicílio sofreram os impactos mais fortes, mostram levantamentos do Ineep e do Dieese/Fup |
Em mil dias de governo Bolsonaro, o preço do gás de cozinha subiu 73%, o da gasolina 57% e o do óleo diesel 45%, muito acima da inflação do período, de 15%, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2021, o preço do gás de cozinha nas refinarias da Petrobras aumentou 40%. As contas são do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), com base em dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP). Os números refletem os reajustes da política de preço de paridade de importação (PPI), adotada pela administração da Petrobrás, e que acompanha a variação dos preços internacionais do petróleo, a cotação do dólar e os custos de importação. No mesmo período, a cotação do petróleo no mercado internacional subiu 31%. O peso dos derivados de petróleo pressionou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), de 1,14% em setembro. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além da energia elétrica, influenciaram o indicador as altas da gasolina, do óleo diesel e do gás de cozinha. “A inflação”, destaca Deyvid Bacelar, coordenador-geral da FUP, “voltou com força total no país, atingindo a todos, sobretudo os mais pobres. É mais uma prova do fracasso deste governo e do equívoco da política de preço de paridade de importação, adotada pela gestão da Petrobrás para reajuste dos combustíveis”. Enquanto essa política não mudar, diz Bacelar, a inflação continuará a disparar, deteriorando ainda mais o poder de compra dos trabalhadores. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, subseção FUP (Dieese/FUP), apurou as altas em 12 meses dos itens com maior peso para algumas categorias de trabalhadores e no orçamento doméstico. O óleo diesel, com variação de 34,55%, impacta com força o custo do trabalho dos caminhoneiros. No caso dos trabalhadores por aplicativo, as elevações com maior peso, no mesmo período, são as da gasolina, em 39,05%, do etanol, em 56,62% e do gás veicular, em 37,14%. Os aumentos com maiores efeitos no custo e manutenção domésticos foram os de alimentação e bebidas, em 13,36%, gás de botijão, em 32,93% e da energia elétrica, em 25,26%. Segundo o economista do Dieese/FUP, Cloviomar Cararine, somando-se as variações de energia elétrica e alimentação, constata-se que a inflação mudou de grau e subiu para o patamar dos dois dígitos anuais. Acrescente-se que a política de preços de derivados, a chamada PPI, de alinhamento automático à variação da cotação internacional do petróleo, à cotação do dólar e aos custos de importação, não é a única possível de se praticar, como pretendem fazer crer o governo e a Petrobras. No caso do Brasil, no período Lula e Dilma os preços dos derivados eram ajustados em ciclos longos, levando em conta as expectativas de variações futuras da taxa de câmbio, do preço do petróleo, dos preços dos derivados e do mercado interno brasileiro. Neste período, os acionistas tiveram os maiores lucros da história da Petrobras e o valor de mercado da empresa atingiu seus picos históricos. Isso foi possível porque a Petrobras, em desmantelamento acelerado desde as gestões de Aldemir Bendine na presidência da companhia e de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, tinha uma integração vertical, isto é, controlava a exploração, o refino, o transporte e a distribuição. A integração vertical permitia proteção de longo prazo em relação às flutuações cíclicas dos preços do petróleo, uma vez que as margens de refino e os preços dos derivados, apesar de acompanharem os preços do óleo cru no longo prazo, não variam com a mesma intensidade nos mercados com grandes refinadores e com produção doméstica relevante. As empresas integradas internacionalmente têm mais lucro e maior sustentabilidade de longo prazo. Essa possibilidade de proteção de longo prazo em relação às flutuações cíclicas dos preços do petróleo foi extinta, entretanto, com a privatização de refinarias, da distribuidora BR, dos gasodutos e da Gaspetro e a condição para recompor aquele arranjo é a encampação dos ativos do Estado vendidos em processos com muitas irregularidades, segundo amplamente noticiado. |