quarta-feira, 6 de abril de 2016

Sindicato dos Jornalistas protesta contra condução coercitiva do jornalista Breno Altman em nota


Sindicato dos Jornalistas protesta contra condução coercitiva do jornalista Breno Altman em nota

Entidade alerta contra escalada de ilegalidades da Operação Lava Jato: 'Não podemos tolerar esse tipo de procedimento, em plena democracia', defende
O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo divulgou na segunda-feira (04/04) uma nota de repúdio à condução coercitiva do jornalista Breno Altman, diretor editorial de Opera Mundi, para prestar depoimento sobre a Operação Lava Jato. "Não podemos tolerar esse tipo de procedimento, em plena democracia!", defende a diretoria da entidade.
O Sindicato afirmou ainda que a ação da Polícia Federal contra Altman "multiplica os motivos para uma ampla mobilização contra o crescimento do autoritarismo no país e contra a violação às garantias constitucionais [realizadas pelo órgão]".
Veja nota na íntegra.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo protesta com veemência contra a arbitrária condução coercitiva do jornalista Breno Altman à Polícia Federal, para prestar depoimento no âmbito da 27ª fase da Operação Lava Jato. A condução coercitiva é prevista legalmente quando um depoente se nega a se apresentar à Justiça. Altman não havia recebido qualquer convocação para depor quando sua família foi surpreendida na última sexta-feira, 1º de abril, às 6h, com agentes da Polícia Federal (PF) batendo à porta.
Diretor editorial do site Opera Mundi, Altman estava em Brasília. Assim que foi informado do ocorrido, prontificou-se a dar o depoimento, tomado sem problemas na sede da PF no Distrito Federal na mesma manhã. O interrogatório causa estranheza. Altman estaria sendo ouvido pois teve seu nome citado pelo publicitário Marcos Valério, em depoimento de 2012, como participante em reunião que teria discutido um empréstimo ao empresário Ronan Maria Pinto. Altman afirma que nada tem a ver com o assunto, nunca esteve no hotel Pullman, local da suposta reunião, e que as câmeras internas do local solicitadas no inquérito provam isso de forma muito simples.
Para os jornalistas, porém, a questão toma um aspecto alarmante ao se saber que, na casa de Altman, em São Paulo, a PF aprendeu um computador de mesa, vários discos rígidos e cadernetas com anotações profissionais – sem qualquer fundamento legal, sem o mandado de busca e apreensão prever a retirada do desktop e sem o despacho do juiz Sergio Moro ter explicitamente autorizado essa operação de apreensão na residência do intimado.
Com essa atitude, a força tarefa da Lava Jato viola a garantia constitucional do sigilo de fonte, essencial para a atividade jornalística. A Constituição Federal, em seu artigo 5º, parágrafo XIV, registra: “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”. A Polícia Federal não pode devassar as anotações e registros de um jornalista profissional. A ação da Lava Jato é um atentado contra o exercício do jornalismo e contra os jornalistas profissionais, e deve servir de alerta para toda a categoria.
No caso de Altman, sem que haja qualquer acusação contra ele, a Justiça apreende seus instrumentos de trabalho, incluindo o computador em que estava uma reportagem pronta feita por ele durante meses, bem como o HD que continha a sua cópia de segurança. Não podemos tolerar esse tipo de procedimento, em plena democracia!
A diretoria do SJSP já se manifestou contra os métodos da Operação Lava Jato que, em nome de combater a corrupção, atropela garantias constitucionais, como a neutralidade da Justiça, o direito ao processo legal e a presunção de inocência. Agora, às demais violações da Lava Jato soma-se o desrespeito ao sigilo de fonte. Para os jornalistas de São Paulo e do Brasil, multiplicam-se os motivos para uma ampla mobilização contra o crescimento do autoritarismo no país e contra a violação às garantias constitucionais.
Desde já, nos colocamos à disposição do jornalista Breno Altman para protestar contra essa violência junto aos órgãos de Estado, para exigir a imediata devolução de seus arquivos e de seus instrumentos de trabalho, bem como para auxiliar na adoção das medidas legais cabíveis.
Diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo

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Poder

FHC, seu filho e os negócios em família

Sócio de uma offshore no Panamá e ligado a suspeitos de corrupção, Paulo Henrique Cardoso prosperou à sombra do pai
por Lúcio de Castro — publicado 05/04/2016 06h22
 
 
 
 
Marcos Alves/Ag. O Globo
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Os negócios da família do ex-presidenteFernando Henrique Cardoso vão muito além das contas no exterior do patriarca investigadas pela Polícia Federal. Incluem também transações do filho Paulo Henrique com a Odebrecht, as offshore no Panamá e no Reino Unido, além de uma sociedade com o ex-braço direito do presidente argentinoMauricio Macri que se suicidou em meio a um escândalo de corrupção.
Paulo Henrique Cardoso manteve durante uma década negócios com a Braskem, uma sociedade entre a Odebrecht e a Petrobras, por meio da World Wide Partnership Importação e Exportação, empresa de comércio de produtos petroquímicos.
Embora PHC só conste como sócio da WWP a partir de 26 de outubro de 2004, dois anos depois do término do segundo mandato presidencial do pai, a WWP foi aberta em 31 de março de 1999, no auge do processo de abertura do setor no País que resultou na liderança da Odebrecht na indústria petroquímica. 
A WWP assinou uma parceria com a Braskem para produzir resinas especiais de PVC no ano em que Paulo Henrique aparece oficialmente no quadro societário da companhia.
PHC tem também uma offshore no Panamá. Criada em 19 de novembro de 2011, a empresa tem os mesmos sócios e o mesmo nome da matriz paulista. Além disso, em sociedade com o pai abriu outra companhia, desta vez no Reino Unido, a Ibiuna LLP, datada de 30 de março de 2009. Ibiuna é uma referência à cidade no interior paulista onde fica a fazenda na qual o ex-presidente descansava durante o mandato.
FHC assinou em novembro de 1995 a emenda constitucional que acabou com o monopólio da Petrobras. No mesmo ano, a Odebrecht fundou a OPP Petroquímica. Em janeiro de 1998, FHC criou a Agência Nacional do Petróleo e entregou a presidência ao genro David Zylbersztajn. Um ano depois, nasce a WWP. No período, 27 empresas do ramo petroquímico foram privatizadas, com amplo financiamento do BNDES, o banco estatal de fomento.
Documento1
Em 2002, a Odebrecht reuniu todas as empresas petroquímicas que havia adquirido sob o chapéu da Braskem. A Petrobras se tornaria sócia minoritária do empreendimento (a estatal anunciou a intenção de deixar o negócio neste ano). Em 2010, a Braskem deu início a um processo de internacionalização. No ano seguinte, a WWP abriu a offshore no Panamá.
Segundo documentos obtidos na Junta Comercial do Panamá, os sócios de PHC naoffshore são Luiz Eduardo Ematne e Stephen Timothy Fitzpatrick. Ematne aparece como fundador da matriz brasileira em 31 de março de 1999. Em 24 de janeiro de 2001, o norte-americano Fitzpatrick ingressa na sociedade.
Ematne afirma não se lembrar de detalhes da WWP. Em uma conversa rápida por telefone, falou vagamente sobre a sociedade: “Não me lembro de quando ele (PHC) entra. Uns 8, 9, 10 anos. A empresa tem 12, 14 anos. Foi aberta há pouco tempo no Panamá, 2, 3 anos. É da área de tecnologia, distribuidora de resina. Existe empresa no Japão que comprou nossa tecnologia. Por isso abrimos empresa no Panamá. Constituída legalmente. Mas o Paulo já saiu na de lá também. O volume de vendas é nada”.
O empresário alegou estar em trânsito e sugeriu outra conversa mais tarde. Novamente procurado, mudou de ideia e foi taxativo: “Não vou mais falar. Não tenho obrigação de falar. Meu advogado me disse que não devo falar nada”. 
O escritório panamenho Sucre, Arias e Reyes foi responsável pelo suporte na constituição da WWP no país. Na offshore, PHC aparece não só como sócio, mas tesoureiro. Consta seu endereço residencial em São Conrado, no Rio de Janeiro. O Sucre, Arias e Reyes é conhecido pela assistência na abertura de empresas de fachada para lavagem de dinheiro naquele paraíso fiscal.
Em 2005, em um dos mais rumorosos escândalos a envolver o Cartel de Cali, da Colômbia, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos apontou que as corporações usadas como lavanderia eram constituídas essencialmente por três bancas panamenhas, entre elas a Sucre, Arias e Reyes.
Em sua propaganda, o escritório ressalta a “agilidade para constituição das offshore que vão manejar contas bancárias, adquirir imóveis e proteger ativos”. Com os préstimos da Sucre, Arias e Reyes, a WWP teve seu registro assentado às 10h48 de 18 de novembro de 2011 e entrou no sistema de informática da repartição pública no dia seguinte.
Documento2
No ano passado, a Polícia Federal identificou uma comunicação entre o Instituto FHC e a Braskem para acertar o pagamento de uma doação da petroquímica. De acordo com o e-mail que consta em laudo da PF, a secretária do Instituto FHC e um representante da Braskem combinaram a forma do desembolso. “Gostaria que você verificasse com a Braskem qual a melhor maneira para fazer a doação... Acho que a Braskem/Odebrecht já fez doações para a Fundação iFCH.”
A reportagem identificou a participação de PHC em nove empresas, três em sociedade com FHC. Uma delas é a offshore na Inglaterra, a Ibiuna LLP. No Brasil, pai e filho são sócios na Goytacazes Participações e na Córrego da Ponte, antiga parceria entre o ex-presidente e o ex-ministro Sérgio Motta.
Outras três são de “consultorias empresariais”: a Analiti(K), a Intrabase e a Corporate Idea, esta última criada juntamente com a irmã Luciana em 8 de agosto de 1997, quando o pai ainda estava no primeiro mandado. 
Na Analiti(K), aberta em 23 de setembro de 2005, PHC teve como sócio um dos mais polêmicos personagens da recente história argentina, que cometeu suicídio em meio a uma série de denúncias de corrupção.
Apesar de estrangeiro, Gregorio Centurión tinha um CPF brasileiro. Amigo desde os bancos escolares de Mauricio Macri, comandou e foi o marqueteiro do atual presidente desde o mandato de deputado federal.
Centurión cuidou da comunicação de Macri na campanha à prefeitura de Buenos Aires e virou secretário de Comunicação Social da capital. Era o coração do chamado núcleo duro do “macrismo”. Antes disso, desempenhou funções vitais nas empresas da família. 
No poder, Centurión dispensou as licitações para contratar empresas prestadoras de serviço entre os anos de 2009 e 2010. Ancorado na Lei nº 2.095 de Buenos Aires, contratava diretamente os fornecedores. Privilegiou grupos de comunicação ao pagar mais pelos anúncios para quem tinha dez vezes menos audiência.
Aplicou em ritmo frenético a estratégia de privilegiar empresas amigas enquanto a verba destinada à secretaria multiplicava-se a cada ano. O esquema funcionou até a deputada Rocio Sánchez Andía apresentar uma denúncia contra ele e outros dois secretários.
Em 25 de novembro de 2010, enquanto Macri estava em lua de mel por conta de um terceiro casamento, o juiz Gustavo Pierreti autorizou uma operação policial nas dependências da prefeitura. Os domínios de Centurión foram os principais alvos e dezenas de documentos acabaram apreendidos. 

Rádio-Disney
Uma estranha operação com a Disney

Os delitos de administração infiel em prejuízo da gestão pública, malversação de verbas, negociações incompatíveis e descumprimento dos deveres do funcionário público ganharam musculatura com as apreensões e o sócio de PHC entrou em depressão. Antes disso, Centurión estivera envolvido em escândalo de escutas ilegais. 
Na noite de 19 de dezembro, o principal auxiliar de Macri disparou um tiro de escopeta contra a própria cabeça. Em 9 de junho de 2011, segundo o Diário Oficial do Estado de São Paulo de 26 do mesmo mês, os sócios da consultoria Analiti(K) se reuniram, em mesa presidida por PHC, para promover a “dissolução parcial da Sociedade e consequente redução do capital social, tendo em vista o falecimento do sócio Gregorio Centurión, ocorrido em 19 de dezembro de 2010”. 
Em 2009, no auge dos negócios do parceiro Centurión com as rádios portenhas, PHC abriu a Rádio Holding Participações, uma “holding de instituições não financeiras”. Entre os sócios aparecem a americana ABC Ventura Corp, além de Jobelino Vitoriano Locateli e José Tavares de Lucena, representante no quadro societário de diversas empresas no País.
Em geral, afirmam especialistas, representantes como Locateli e Lucena servem para resguardar a identidade de quem não deseja aparecer diretamente em uma sociedade, normalmente estrangeiros.
Entre as sociedades representadas por Locateli está a Sport World Group, sócia da Traffic Sports World, que tem entre seus sócios o empresário J. Hawilla, em prisão domiciliar nos Estados Unidos por participação no escândalo da Fifa.
A Rádio Holdings chegou a ser mencionada no Congresso Nacional em 2011, por controlar a Itapema, então retransmissora da Rádio Disney, acusada de ser a verdadeira proprietária do canal, algo vedado pela lei, que só permite a participação de estrangeiros no capital de meios de comunicação até o limite de 30%.
Em fevereiro de 2012, FHC criou a Goytacazes Participações, com finalidade de “outras sociedades de participações”, em parceria com a filha Luciana. PHC ingressou no quadro societário em janeiro do ano seguinte.
Evolução
A reportagem ouviu o Instituto FHC sobre as relações da WWP com a Braskem. “São empresas privadas legalmente constituídas e declaradas. Paulo Henrique não faz mais parte da WWP.” A reportagem informou para a assessoria do iFHC que, pelas bases de dados consultadas, tanto da Receita Federal quanto na Junta Comercial de São Paulo, a saída de PHC não constava até a presente data. O mesmo vale para o equivalente à Junta Comercial do Panamá.
Sobre a parceria com a empresa de Paulo Henrique Cardoso, a Braskem, por meio da assessoria de imprensa, enviou a seguinte nota para a consulta da reportagem: “A Braskem assinou acordo com a WWP em 2004, detentora exclusiva de tecnologia para a fabricação de resinas especiais de PVC. Por meio desse acordo, a Braskem produziu e distribuiu essas resinas voltadas para a aplicação de especialidades vinílicas até 2013, quando as relações comerciais foram encerradas. Como empresa privada, a Braskem seleciona suas tecnologias com foco em sua estratégia empresarial. Atualmente, a empresa possui pelo menos três dezenas de acordos assinados para uso de tecnologia de terceiros. O contrato assinado com a WWP representou menos de 0,01% do faturamento da companhia”.
Apenas para efeito de estimativa aproximada, tomando o ano de 2014, último a constar no site da Braskem com resultados financeiros ali publicados, a receita bruta no ano foi de 54,1 bilhões de reais e a receita líquida de 47,3 bilhões de reais. 
Outras questões foram enviadas para PHC. Como a razão por só constar na WWP em 2004, após o governo do pai. E se confirmava a existência e participação da WWP no Panamá. Em caso de comprovação, a razão da empresa e se estava registrada na Receita Federal. 
Através do iFHC, Paulo Henrique Cardoso limitou-se a dizer que “não faz parte mais da WWP e que a Ibiuna já foi encerrada. São negócios privados, todos devidamente declarados à Receita Federal”, ignorando o questionamento sobre a offshore do Panamá.
A reportagem perguntou também sobre Gregorio Centurión, se PHC conhecia as denúncias de corrupção do sócio. PHC ignorou as indagações sobre corrupção do ex-sócio. “Trata-se de empresa privada, com atuação regular e com todas as informações registradas na Junta Comercial de São Paulo.” 
Documento4
Indagado pela reportagem sobre a existência da Ibiuna, empresa no exterior em sociedade com o filho PHC, o ex-presidente FHC afirmou, através da assessoria de imprensa do Instituto FHC que “a empresa citada foi efetivamente aberta em Londres, para recebimento de proventos de palestras. Sempre foi devidamente declarada no Imposto de Renda. Foi encerrada em 2013. O saldo equivalente a 5,5 mil reais foi repatriado ao Brasil via Banco Central.” 
Diante da resposta sobre o motivo da abertura da empresa, a reportagem pediu se era possível saber a data, contratantes e valores das palestras entre 2009 e 2013. A assessoria respondeu que “O iFHC é uma Fundação: está submetido à Curadoria de Fundações do Ministério Público de São Paulo, que audita as suas contas. A praxe sobre as palestras que o presidente faz, privadamente, é a de que quem as contrata divulga ou não os dados”. 
A reportagem perguntou para PHC a razão para constar da sociedade com o pai na Ibiuna LLP, inscrita na Inglaterra, já que a empresa foi aberta para “recebimento de proventos de palestras” de FHC, sem resposta.
A Receita Federal não responde sobre casos específicos de registros de empresa. De acordo com a Receita Federal, “todas as pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil, inclusive as equiparadas pela legislação do Imposto sobre a Renda, estão obrigadas a inscrever no CNPJ cada um de seus estabelecimentos localizados no Brasil ou no exterior, antes do início de suas atividades”.
Segundo o órgão, “em relação à Pessoa Jurídica que possui filial, sucursal, controlada ou coligada no exterior, a informação sobre as participações e os resultados apurados por essas participações no exterior são informados à Receita Federal por meio da Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ). A sanção pelo não cumprimento da obrigação relacionada à DIPJ é prevista legalmente”.  
*Reportagem publicada originalmente na edição 895 de CartaCapital, com o título "Negócios de família"

Quatro questões mais demolidoras da defesa da presidenta Dilma

Brasil

5 de abril de 2016 - 17h02 

Quatro questões mais demolidoras da defesa da presidenta Dilma

A pressão das ruas e a reação dos artistas e intelectuais deram o tom para a defesa da presidenta Dilma Rousseff feita na comissão do impeachment nesta segunda-feira (4). O advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, desmontou a tese golpista e ainda apontou os motivos da abertura: foi por vingança do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), porque o governo não impediu a instalação do processo que investiga o peemedebista no Conselho de Ética.

Por Dayane Santos


Lula Marques
  
Ainda que a polarização política tenha contaminado as instituições, a história recente do país, marcada pela ditadura militar, torturas, perseguições e assassinatos, nos ensinou que a democracia é o melhor caminho. Esse consciente popular, somado à reação firme e organizada das forças progressistas, criou uma trincheira poderosa em defesa da democracia.

Os grandes meios de comunicação, que diuturnamente atuaram para dizer que, mesmo sem crime de responsabilidade, impeachment era legal, e não um golpe, saem mais uma vez derrotados.

Cardozo evidenciou que se o pedido aceito por Cunha fosse aprovado seria uma clara violação constitucional. “Onde está o ilícito? Onde está a má fé?”, questionou o ministro.

Primeiro

O primeiro ponto apontado por Cardozo foi as chamadas “pedaladas fiscais”, que os golpistas de plantão argumentam que foi uma prática irregular de crédito. Além de demonstrar que se tratam de despesas de programas sociais, Cardozo ressaltou que elas foram realizadas por meio de uma conta suprimento na Caixa Econômica, com resultados variáveis conforme os gastos mensais. 

A presidenta Dilma, durante entrega de casas do programa Minha Casa Minha Vida, na semana passada, também havia detalhado essa questão, apontando que quando as despesas eram maiores que os depósitos, o Tesouro pagava juros. Quando eram menores, a Caixa pagava. No caso das despesas de 2015, os gastos com programas sociais geravam juros positivos para o Tesouro. 

“Empréstimo é empréstimo, subvenção é subvenção. Quando eu contrato alguém e não faço o pagamento, eu não estou tomando dinheiro emprestado. É como quando tenho um empregado e não pago o salário. Isso significa que estou em atraso com o pagamento, posso estar inadimplente, mas empréstimo dele para você não há. Porque empréstimo exige repasse e o não pagamento não é empréstimo”, afirmou.

Segundo

O segundo ponto demolido pela defesa da presidenta diz respeito aos decretos assinados por ela que liberam créditos extraordinários sem consentimento do Congresso. Cardozo destacou que esses créditos não alteraram a meta fiscal e que existe “farta jurisprudência” dessa prática feita por outros governos também.

“A simples alteração do crédito não significa ofensa a nenhuma meta fiscal estabelecida, ou seja, não há nenhuma ilegalidade a ser imputada à presidenta da República”, afirmou. O ministro acentuou que “todos os governos praticam isso”, porque os tribunais de contas aceitam a prática e desafiou prefeitos e governadores a alegarem o contrário.

Sendo didático, Cardozo citou como exemplo uma lista de compras para a feira em que se decide, durante a compra, alterar a lista de produtos que serão adquiridos – sem modificar o saldo final. Segundo ele, essa alteração acontece em qualquer governo e sempre foi autorizada pelo TCU e, no caso de Dilma, só eram assinadas depois de aprovadas por duas dezenas de técnicos de várias assessorias. 

Terceiro

Demolida a tese técnica, Cardozo derrubou a tese política. Destacou que a diferença entre o sistema presidencialista, adotado no Brasil, e o parlamentarista é que, no parlamentarismo, o governo pode ser destituído por decisão do Parlamento, enquanto no regime presidencialista há garantias de estabilidade ao presidente da República, que exerce tanto a chefia de Estado quanto a de governo.

“Os regimes parlamentaristas ou mistos têm mecanismos de controle primário entre Executivo e Legislativo. Há prerrogativa do chefe de Estado de dissolver o parlamento. E o Parlamento pode destituir o governo. No presidencialismo, há uma fusão entre quem é chefe de Estado e chefe de governo, que é o presidente. Por isso a ordem constitucional, ao contrário do que ocorre no sistema parlamentarista, dá uma série de garantias e estabilidades ao presidente”, disse Cardozo, enfatizando que não se afasta “politicamente um presidente eleito”.

Cardozo afirmou que um processo de impeachment precisa apontar crime de responsabilidade pelo presidente e este deve ser com dolo, ou seja, com intenção de cometer crime. Caso contrário, trata-se de um “golpe de Estado”. 

“Se esses pressupostos não forem atendidos, se não houver ato imputado ao presidente, se não for justificado, a tentativa de impeachment é golpe de Estado, sim. O mundo atual não tem assistido mais a golpes militares. Por isso, se buscam discursos retóricos para se justificar a violência. Golpe com ruptura da Constituição ofende o Estado Democrático de Direito [...] que será mal visto internacionalmente, trará insegurança jurídica e incertezas institucionais”, disse.

E acrescentou: “O impeachment que rasgue a Constituição traz duas graves consequências: a primeira é a ruptura com a institucionalidade; a segunda é fazer nascer um novo governo sem legitimidade. Pouco importa os homens que vierem a assumir, se são probos ou não, mas se a Constituição foi rasgada, não há legitimidade para o governo”.

Quarto e derradeiro
O quarto, e talvez o mais importante, ponto da defesa apresentado por Cardozo foram os motivos que levaram o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a aceitar o pedido de impeachment. 

“Conforme fartamente documentado pela imprensa, a decisão do presidente Eduardo Cunha não visou o cumprimento da Constituição. Os fatos ficaram claros. A sua excelência senhor Eduardo Cunha usou da sua competência para fazer uma vingança e retaliação à chefe do Executivo porque esta se recusava a garantir no Conselho de Ética os votos que seu partido poderia lhe dar para que não fosse processado”, salientou.

Cardozo enfatizou que os fatos demonstram que o Brasil está “a mercê de um chantagista” e que a presidenta recusou-se a ceder às chantagens, por isso tem o seu mandato atacado.

“Dilma se recusou a fazer gestões junto aos deputados do PT. Um governo que se curva a esse tipo de situações não tem legitimidade para governar”, concluiu.



Do Portal Vermelho

terça-feira, 5 de abril de 2016

O irmão Obama Leitura imperdível!



O irmão Obama

Não precisamos que o império nos entregue nada de presente. Nossos esforços serão legais e pacíficos, porque é nosso compromisso com a paz e a fraternidade de todos os seres humanos que vivemos neste planeta
Fidel Castro Ruz

Os reis da Espanha trouxeram-nos os conquistadores e donos, cujas pegadas ficaram gravadas nos terrenos circulares atribuídos aos buscadores de ouro na areia dos rios, uma forma abusiva e vergonhosa de exploração cujos sinais ainda hoje podem ser advertidos, do ar, em muitos lugares do país.

O turismo hoje, em boa parte, consiste em mostrar as delícias das paisagens e degustar os alimentos requintados de nossos mares, e sempre que sejam compartilhados com o capital privado das megacorporações estrangeiras, cujos ganhos se não atingem os bilhões de dólares não são dignos de atenção alguma.

Já que fui obrigado a mencionar o tema devo acrescentar, principalmente para os jovens, que poucas pessoas percebem a importância de tal condição neste momento singular da história humana. Não direi que o tempo tenha sido perdido, mas não vacilo em afirmar que não estamos suficientemente informados, nem vocês nem nós, dos conhecimentos e da consciência que deveríamos ter para enfrentar as realidades que nos desafiam. O primeiro a ser levado em conta é que nossas vidas são uma fração histórica de segundos, a qual é preciso compartilhar, ainda, com as necessidades vitais de todo ser humano. Uma das características deste é a tendência à sobrevalorização do seu papel, questão que contrasta, por outro lado, com o número extraordinário de pessoas que encarnam os sonhos mais elevados.

Ninguém, contudo, é bom ou é mau por si próprio. Nenhum de nós está desenhado para o papel que deve assumir na sociedade revolucionária. Em parte, nós os cubanos, tivemos o privilégio de contar com o exemplo de José Martí. Pergunto, inclusive, se ele devia ter morrido ou não em Dos Rios, quando disse “para mim está na hora”, e avançou contra as forças espanholas entrincheiradas em uma sólida linha de defesa. Não queria retornar para os Estados Unidos e não haveria quem o fizesse retornar. Alguém tirou algumas folhas do seu diário. Quem arcou com essa pérfida culpa, que foi, sem dúvida, obra de algum intrigante inescrupuloso? Soube-se que existiam diferenças entre os chefes, porém jamais houve indisciplinas. “Quem tente apropriar-se de Cuba colherá o pó do seu solo alagado em sangue, se antes não perece na luta”, declarou o glorioso líder negro AntonioMaceo. Reconhece-se, igualmente, que Máximo Gómez foi o chefe militar mais disciplinado e discreto de nossa história.

Olhando de outro ângulo, como a gente não vai ficar admirada da indignação de Bonifacio Byrne quando, da distante embarcação que o trazia de retorno a Cuba, ao divisar outra bandeira junto da estrela solitária, declarou: “Minha bandeira é aquela que jamais tem sido mercenária...” para acrescentar imediatamente uma das frases mais belas que jamais escutei: “Se desfeita em miúdos pedaços chega a estar minha bandeira algum dia... nosso mortos, erguendo os braços, ainda saberão defendê-la...” Tampouco esquecerei as palavras ardentes de Camilo Cienfuegos naquela noite, quando a várias dezenas de metros de nós, bazucas e metralhadoras de origem norte-americana nas mãos de agentes contrarrevolucionários apontavam para nós.

Obama tinha nascido em 1961, como ele próprio explicou. Mais de meio século decorreria desde aquele momento.

Contudo, vejamos como pensa nosso ilustre visitante:

“Vim aqui para deixar atrás os últimos sinais da guerra fria nas Américas. Vim aqui estendendo a mão de amizade ao povo cubano”. E imediatamente um dilúvio de conceitos, inteiramente novos para a maioria de nós:

“Ambos vivemos em um novo mundo que foi colonizado pelos europeus”. Prosseguiu o presidente norte-americano. “Cuba, tal como os Estados Unidos, foi constituída por escravos trazidos da África; tal como os Estados Unidos, o povo cubano tem herança de escravos e de donos de escravos”.

As populações nativas não existem para nada na mente de Obama. Tampouco disse que a discriminação racial foi varrida pela Revolução; que a aposentadoria e o salário de todos os cubanos foram decretados por esta antes que o senhor Obama completasse dez anos. O odioso costume burguês de contratar esbirros para que os cidadãos negros fossem expulsos de centros de lazer foi varrido pela Revolução Cubana. Esta ficaria gravada na história pela batalha que travou em Angola contra o apartheid, pondo fim à presença de armas nucleares em um continente de mais de um bilhão de habitantes. Esse não era o objetivo de nossa solidariedade, mas sim o de ajudar aos povos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e outros da dominação colonial fascista de Portugal.

Em 1961, apenas um ano e três meses depois do triunfo da Revolução, uma força mercenária com canhões e infantaria blindada e com aviões foi treinada e acompanhada de navios de guerra e porta-aviões dos Estados Unidos e atacou de surpresa nosso país. Nada poderá justificar aquele aleivoso ataque que custou ao nosso país centenas de vidas, entre mortos e feridos. Da brigada de assalto pró-ianque, em nenhuma parte consta que tivesse podido ser evacuado nenhum mercenário. Aviões ianques de combate foram apresentados nas Nações Unidas como aparelhos cubanos revoltados.

É bem conhecida a experiência militar e o poderio desse país. Na África pensaram igualmente que Cuba Revolucionária seria igualmente posta fora de combate. O ataque pelo Sul de Angola por parte das brigadas motorizadas da África do Sul racista levou-as até as proximidades de Luanda, a capital desse país. Aí se iniciou a luta que se prolongaria não menos de 15 anos. Nem sequer falaria disto, a menos que tivesse o dever elementar de contestar o discurso de Obama no Grande Teatro de Havana Alicia Alonso.

Tampouco tentarei dar detalhes, a não ser que ali foi escrita uma página de honra na luta pela libertação do ser humano. De certa forma eu desejava que a conduta de Obama fosse correta. Sua origem humilde e sua inteligência natural eram evidentes. Mandela ficou preso a vida toda e se tinha convertido em um gigante da luta pela dignidade humana. Um dia chegou às minhas mãos uma cópia do livro no qual se conta uma parte da vida de Mandela e - surpresa! - o prólogo tinha sido escrito por Barack Obama. Folhei-o rapidamente. Era incrível o tamanho da minúscula letra de Mandela precisando dados. Vale a pena ter conhecido homens como aquele.

Acerca do episódio da África do Sul devo assinalar outra experiência. Eu estava realmente interessado em conhecer mais detalhes sobre a forma em que os sul-africanos tinham adquirido as armas nucleares. Somente tinha a informação muito precisa de que não eram mais de 10 ou 12 bombas. Uma fonte certa seria o professor e pesquisador Pero Gleijeses, quem tinha redigido o texto de “Missões em conflito: Havana, Washington e África 1959-1976”; um trabalho excelente. Eu sabia que ele era a fonte mais segura do que tinha acontecido e assim o comuniquei a ele: respondeu-me que ele não tinha falado mais do assunto, porque no texto tinha respondido as perguntas do companheiro Jorge Risquet, quem tinha sido embaixador ou colaborador cubano em Angola, muito amigo dele. Localizei Risquet que, entre outras ocupações, estava acabando um curso ao que faltavam ainda várias semanas. Essa tarefa coincidiu com uma viagem bastante recente de Piero ao nosso país; eu tinha advertido a Piero que Risquet já tinha uma idade avançada e que sua saúde não era ótima. Poucos dias depois ocorreu o que eu estava temendo: Risquet piorou e faleceu. Quando Piero chegou não havia nada a fazer exceto promessas, mas eu já tinha conseguido informação acerca do relativo a essa arma e a ajuda que a África do Sul racista tinha recebido de Reagan e de Israel.

Não sei o que terá de dizer Obama sobre esta história. Desconheço o que ele sabia ou não, embora seja muito duvidoso que não soubesse absolutamente nada. Minha modesta sugestão é que reflita e não tente agora elaborar teorias sobre a política cubana.

Há uma questão importante:

Obama proferiu um discurso no qual lança mão das palavras mais adocicadas para expressar: “Já é hora de esquecer-nos do passado, deixemos o passado, olhemos para o futuro, olhemos juntos o futuro, um futuro de esperança. E não vai ser fácil, vai haver desafios e a esses vamos dar tempo; mas minha estadia aqui me dá mais esperanças acerca do que podemos fazer juntos como amigos, como família, como vizinhos, juntos”.

Supõe-se que cada um de nós corria o perigo de sofrer um infarto após escutar essas palavras do presidente dos Estados Unidos. Após um bloqueio desapiedado que já durou quase 60 anos, e aqueles que morreram nos ataques mercenários a navios e portos cubanos, um avião regular cheio de passageiros feito explodir em pleno voo, invasões mercenárias, múltiplos atos e violência e de força?

Ninguém acalente a ilusão de que o povo deste nobre e abnegado país renunciará à glória e aos direitos à riqueza espiritual que ganhou com o desenvolvimento da educação, da ciência e da cultura.

Advirto, ademais, que somos capazes de produzir os alimentos e as riquezas espirituais de que precisamos com o esforço e a inteligência de nosso povo. Não necessitamos que o império nos entregue de presente nada. Nossos esforços serão legais e pacíficos, porque é nosso compromisso com a paz e a fraternidade de todos os seres humanos que vivemos neste planeta.

Fidel Castro Ruz

www.cubaweb.granma.cu27 de março de 2016

Novo governo: nova política




Estão criadas agora as condições para que ela promova um rearranjo ministerial de profundidade e uma reorientação das diretrizes do programa de trabalho.

Paulo Kliass *


Existe uma lenda que circula pelos nossos tempos de que a língua chinesa apresentaria um mesmo ideograma para as palavras “crise” e “oportunidade”. Não interessa aqui entrar nessa polêmica informação e muito menos aprofundar na pesquisa etimológica a esse respeito. O fato é que tal curiosidade serve muito adequadamente para ilustrar a situação atual do Brasil. Como dizem os italianos, “se non è vero, è bentrovato”. Pode não ser verdade, mas cabe bem no caso.

A estratégia oportunista da maioria da direção do PMDB de se afastar do governo Dilma confirmou-se na reunião do Diretório Nacional em 29 de março. Ao aderir de corpo e alma à opção do golpismo, o principal partido da base aliada retorna ao seu verdadeiro leito original. Quando abraça a tese do impeachment da Presidenta sem a apresentação de uma única prova capaz de justificar tal medida extrema, os atuais dirigentes da agremiação - que por muito tempo foi dirigida pelo saudoso Ulysses Guimarães - expõem a sua verdadeira face.

O inusitado da circunstância se manifesta de diversas maneiras. Talvez a mais absurda delas seja o fato de se exigir a demissão imediata dos sete ministros e demais cargos de segundo e terceiro escalões, sem que haja qualquer menção ou referência ao posto de Vice Presidente da República ocupado por Michel Temer, justamente o dirigente máximo do peemedebismo. A histórica tradição de estar com vários pés em todas as canoas possíveis agora chega a um novo patamar: desembarcar de um governo com baixa de popularidade e realizar o antigo sonho de presidir o Brasil.

PMDB entre oportunismo e golpismo.

 No entanto, ao escancarar a crise de forma aberta e impiedosa, a conduta patrocinada pelo PMDB abre uma oportunidade excelente para que Dilma dê início, finalmente, ao seu mandato de forma mais autêntica. Apesar de todas as dificuldades que a demora em promover mudanças tem provocado, estão criadas agora as condições para que ela promova um rearranjo ministerial de profundidade e uma reorientação das diretrizes de seu programa de trabalho. Afinal, para um novo governo há que se identificar uma nova política.

A bem da verdade é preciso reconhecer que tais proposições não são nem tão novas assim. Basta recuperar os alfarrábios do programa apresentado pela candidata às eleições em outubro de 2014. Ali estão traçadas as linhas mestras de um projeto de desenvolvimento do País, combinando a busca do crescimento das atividades econômicas e a manutenção da diretriz de redução das desigualdades sociais.

Ocorre que a implementação da política de austericídio desde o início de 2015 até os dias de hoje comprometeu bastante a possibilidade de obtenção de resultados positivos no curto prazo. Ao contrário, em razão da insistência da Presidenta em seguir as recomendações da turma do financismo e seu ajuste fiscal a qualquer preço, estamos mergulhados em um ambiente marcado pela recessão e pelo desemprego. A manutenção da política monetária de juros estratosféricos corrói um volume absurdo de recursos orçamentários para pagar os juros da dívida e torna qualquer intenção de empréstimo altamente custosa para famílias e empresas.

Oportunidade para mudança.

A saída do PMDB e a afirmação de uma nova fase do governo de Dilma Rousseff só terá sentido se forem tomadas todas as medidas para viabilizar um programa mínimo de retomada do crescimento e do desenvolvimento. Isso significa escapar da armadilha do superávit primário e afirmar que o Estado deve ter um papel protagonista na saída da crise. A chantagem e as ameaças que o capital financeiro certamente vai patrocinar não devem amedrontar o novo governo. Há décadas a banca vem sendo aquinhoada com todas as benesses derivadas de uma política econômica voltada para atender aos interesses do financismo.

O simbolismo de R$ 540 bilhões de recursos do orçamento destinados ao longo dos últimos 12 meses para pagamento de juros da dívida pública é implacável. Manter tal injustiça enquanto todos os outros setores são chamados a contribuir com sua cota de sacrifício é inaceitável. Esse deveria ser o mote para a mudança. Reagrupar um conjunto amplo de forças políticas em torno de um programa de redução da dependência nefasta da financeirização, que atravessa nossa sociedade de alto a baixo.

A retomada da regularidade virtuosa das atividades da economia passa, em primeiro lugar, pela sinalização firme de que a taxa oficial de juros será reduzida para níveis próximos da inflação. Ou seja, assim como fizeram os países desenvolvidos, o governo estará sinalizando uma taxa SELIC real próxima de zero. Combinada a tal diretriz, é necessário que os bancos públicos federais implementem de forma imediata uma substancial redução de seus spreads nas operações de crédito. Com isso, a tão desejada “concorrência de mercado” obrigará os bancos privados a reduzirem também seus ganhos extraordinários. Caso contrário, perderão seus clientes migrarem para o Banco do Brasil e para a Caixa Econômica Federal.

Como justificar que as instituições financeiras sejam autorizadas pelo Banco Central a cobrar juros de 447% ao ano por operações com cartão de crédito das pessoas físicas? Ou então que cobrem uma média de quase 45% ao ano das empresas em operações simples como desconto de cheques ou duplicatas? Afinal, não nos esqueçamos de que elas captam recursos à base da SELIC a 14,25% anuais. A espoliação é escabrosa.

Reduzir juros e proteger o social.

O governo deve superar de forma urgente o esmagamento ideológico a quem vem sendo submetido e afirmar a necessidade de retomar o endividamento da União para seus programas de investimento, seja nas áreas sociais, seja nos setores de infraestrutura. Apesar dos arautos do liberalismo tupiniquim bradarem aos quatro ventos a respeito de uma iminente catástrofe fiscal, a realidade é que nossa relação dívida/PIB ainda está muito abaixo dos países considerados sérios e desenvolvidos. O Estado só criará as condições de aumento de suas receitas tributárias por meio da retomada das atividades da economia em geral.

A política de arrecadação de impostos deveria se pautar por uma sinalização clara de eliminação de facilidades injustificadas ao grande capital bem como pelo fortalecimento de medidas para redução dos elevados índices de sonegação e evasão fiscais. Por outro lado, existe bastante espaço para aplicação de impostos voltados à redução das desigualdades, promovendo maior taxação sobre riqueza e patrimônio.

No que se refere às ameaças na área social, é fundamental que seja assegurada à população a manutenção das linhas mestras como a política de valorização do salário mínimo, a política de benefícios da previdência social, a política de transferência de renda (Bolsa Família) e demais programas na área da saúde, educação e similares.

Enfim, a gravidade da situação não apresenta alternativa ao governo que não seja a de seguir lutando, como sugeria o slogan do “coração valente”. Lutando contra o golpismo e suas manifestações no recrudescimento do quadro social. Lutando para fazer valer o desejo das urnas nas eleições presidenciais e mudando a orientação da economia. O novo governo é a última chance para reconquistar o apoio popular e derrotar o golpe em seu próprio campo.

* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris