quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

06/12/2016 - Clipping Internacional

06/12/2016 10:46 - Copyleft

06/12/2016 - Clipping Internacional

O presidente do Senado brasileiro foi tirado de suas funções pela justiça. Renan Calheiros foi acusado na semana passada de desvio de dinheiro público.


Carta Maior
Reprodução
BRASIL
 
The Guardian, Inglaterra
Presidente do Senado brasileiro deposto sobre acusações de desvios de recursos. Renan Calheiros, aliado chave do presidente Michel Temer, se tornou o último político a cair em meio à ampliação da investigação sobre corrupção.
https://www.theguardian.com/world/2016/dec/06/brazil-senate-president-ousted-embezzlement-renan-calheiros
 
El País, Espanha





Violência policial no Brasil. Crônica de uma impunidade patrocinada. O episódio da absolvição dos policiais do Carandiru
http://internacional.elpais.com/internacional/2016/12/05/actualidad/1480967434_368689.html
 
Pagina 12, Argentina
Um homem de Temer alijado do poder. A Justiça determinou que Renan Calheiros deixe a presidência do Senado. A decisão adotada por um juiz do STF gera um forte impacto no convulsionado cenário político brasileiro: em substituição a Calheiros assume Jorge Vianna do mesmo PT da destituída presidenta Dilma Rousseff. Por Eric Nepomuceno
https://www.pagina12.com.ar/7157-un-hombre-de-temer-alejado-del-poder
 
Diário de Notícias, Portugal
Michel Temer sobrevive às ruas  mas teme delações e a economia. Contestação visa Renan Calheiros, líder do Senado, ontem afastado. Seguem-se outras sete possíveis demissões de ministros
http://www.dn.pt/mundo/interior/michel-temer-sobrevive-as-ruas-mas-teme-delacoes-e-a-economia-5536259.html
 
Le Monde, França
O presidente do Senado brasileiro foi tirado de suas funções pela justiça. Renan Calheiros foi acusado na semana passada de desvio de dinheiro público. Ele tem outros onze processos de corrupção.
http://www.lemonde.fr/ameriques/article/2016/12/05/le-president-du-senat-bresilien-a-ete-demis-de-ses-fonctions-par-la-justice_5043874_3222.html
 
The Wall Street Journal, EUA
Renan Calheiros destituído da presidência do Senado por juiz do STF. O cargo vai para um rival político que se opõe às reformas do presidente Temer.
http://www.wsj.com/articles/renan-calheiros-ordered-removed-from-senate-presidency-by-brazil-supreme-court-judge-1480978526
 
The New York Times, EUA
STF afasta o líder do Senado em meio a caso de corrupção. A decisão de remover Calheiros ocorre em meio a tensões crescentes entre o Congresso e o Judiciário sobre investigações de corrupção
http://www.nytimes.com/2016/12/05/world/americas/brazil-corruption-renan-calheiros.html?ref=americas
 
RFI, França
STF suspende Renan Calheiros da presidência do Senado. O juiz Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu nesta segunda-feira (5) do cargo o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). A medida foi tomada a pedido do partido Rede Sustentabilidade, após o pemedebista virar réu por peculato.


Créditos da foto: Reprodução

A crise institucional entre judiciário e legislativo

07/12/2016 11:56 - Copyleft

A crise institucional entre judiciário e legislativo

A decisão que determinou o afastamento e o revide do Senado em não acatá-la é sintoma de que uma crise acelera o desmoronamento da democracia no Brasil.


Rodrigo Lentz
Jane de Araújo
Depois que o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio de Melo, afastou por decisão liminar o Presidente-Réu do Senado, Renan Calheiros, impossível não se remeter a sua palestra proferida em agosto do ano passado na Escola Superior de Guerra. Assim como no fundamento da decisão que derrubou Renan, o argumento central foi a “Segurança Jurídica” e foi ministrada para a turma do Curso de Altos Estudos em Política e Estratégica (CAEPE) daquele ano dedicada ao estudo dos “destinos do Brasil”. 
 
Marco Aurélio, que executou a espinhosa tarefa de se opor ao impedimento da presidenta Dilma Rousseff para uma plateia de civis e militares, estava lá mais do que Ministro: foi “estagiário” (termo usado internamente) da ESG em 1983, isto é, “falando aos senhores como ex-integrante – o que muito, mas muito mesmo, me honra – da Escola Superior de Guerra”. E, note-se, como as conjunturas dão voltas. O argumento central sobre a segurança jurídica era justamente para preservar as bases constitucionais da República, as “cláusulas permanentes”, dentre elas a separação e harmonia entre os poderes. 
 
Qualquer pessoa atenta poderia aí pescar uma imediata contradição do Ministro, que simplesmente afastou sozinho o presidente de um outro poder, o Legislativo, segundo na atual linha sucessória de outro poder, o Executivo. Ocorre que na lógica interna do judiciário, especialmente “na última trincheira da cidadania: o Supremo Tribunal Federal”, na analogia militar do Ministro, a contraofensiva do Senado em criminalizar o abuso de autoridade judicial representou uma afronta direta e clara ao princípio da harmonia entre os poderes. 
 
Como ótimo estagiário que foi, Marco Aurélio sabe que os poderes verdadeiros da nação são outros: Militar, Econômico, Psicossocial, Ciência e Tecnologia e Político. Sabe que uma crise entre as elites do poder econômico se alastrou para uma crise entre a elite do poder político e que, agora, se transformou numa crise institucional no poder político. O retruco do Senado Federal em desobedecer sua decisão consolida essa crise institucional. Quase a totalidade da mesa diretora desafiou o ministro e emparedou o plenário do Supremo, que tem maioria inclinada a reagir fora dos parâmetros políticos mais usuais daqueles ministros com esse perfil (Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes). 





 
Portanto, estamos vivendo uma crise institucional dentro do poder político nacional e a decisão de Marco Aurélio é uma resposta de boa parte do poder Judiciário. Tanto a uma grave ofensa a “harmonia entre os poderes”, nas lentes togadas, quanto a uma outra crise, isto é, a crise do poder psicossocial. Marco Aurélio, na sua palestra aos confrades da ESG, sustentou sua defesa da segurança jurídica apontando um grave deslize constitucional: nossa constituição tem mais de 90 emendas, apesar de sequer possuir 30 anos. A do Japão, do alto de seus quase 70 anos, possui nenhum recomendo. Nosso problema, segue o Ministro, são os homens: “Digo aos senhores que vivemos tempos estranhos, em que há abandono a princípios, perda de parâmetros, inversão de valores (...) isso não é bom em termos culturais, não leva a dias melhores. Conduz à insegurança, maior quando verificamos que o sistema não fecha.”. Qualquer semelhança com os discursos dos membros da força tarefa da Lava-Jato, os juízes federais que se reuniram no STF quarta passada, a campanha política dos conglomerados de imprensa, as consignas dos manifestantes que desfilaram no domingo, não são meras coincidência.       
 
É exatamente convicto dessa “crise moral” que o Poder Judiciário e a imprensa, enquanto coordenadora do poder psicossocial, tem assumido a dianteira do poder político, especialmente após a cartada final do Impedimento, com provável respaldo do poder militar. Ninguém violaria o sigilo presidencial de um Comandante em Chefe das Forças Armadas sem respaldo de seus comandantes. Começo a me convencer que está em curso uma movimentação, mais ou menos coordenada e pouco coesa, entre alguns poderes nacionais – especialmente militar, político, econômico e psicossocial. Como disse Marco Aurélio na ESG em agosto de 2015, “o País precisa, na verdade, de um banho de ética, de compenetração, de seriedade de propósitos. O Judiciário é a última trincheira do cidadão. Que o Judiciário não falte à nacionalidade. Por último, que cada qual faça a sua parte”.
 
As “manifestações de toda a ordem”, que Marco Aurélio usou para justificar o perigo na demora da decisão, não se tratam das vozes de domingo, como quis crer Lenio Streck no seu argumento correto contra o ativismo, mas insuficiente para entender decisões judicias. 
 
Por fim, vale lembrar que o dispositivo constitucional que serviu para derrubar Renan vem com a Constituição de 1988, feita na despedida da guerra fria, como desfecho de uma transição lenta, gradual e segura. Assegura, pois, um poder de veto político ao Judiciário e a Imprensa bastando apenas a transformação em réu e, podendo-se, após a conjuntura mudar (tipo, expirar o mandato?), absolver no mérito. Um freio interno às elites do poder, tramitação segura de circulação do volante do Estado. 
 
Posso estar redondamente errado. A decisão de Marco Aurélio foi motivada por ego, honrando sua tradição contra majoritária no STF, que o pleno a derrubará. A imprensa, apenas fiscaliza o poder de forma neutra e imparcial. As Forças Armadas, não monitoram a política e apenas estão preocupados com a Amazônia. Banqueiros, empresários e especuladores, então, não atrelam seus lucros à configuração da política. E os juízes e promotores apenas reclamam privilégios. Mas talvez, quem sabe, depois de um golpe de estado, seja a hora da esquerda começar a pensar nessa hipótese.
 
* Advogado e Consultor em Direitos Humanos. Doutorando em Democracia e Sociedade pela Universidade de Brasília no Programa de Ciência Política (IPOL-UNB), membro do Grupo de Pesquisa Democracia e Desigualdades do IPOL-UNB e Grupo de Estudos sobre a internacionalização do Direito e da Justiça de Transição sediado na USP. Correio eletrônico: [email protected]

 
** A palestra do Ministro Marco Aurélio de Melo foi transcrita na Revista da Escola Superior de Guerra, vol. 30, n.61, jun-dez de 2015
 
*** Para maior reflexão, sugiro leitura de texto que publiquei intitulado “A participação de setores da sociedade civil na Ditadura Civil-Militar brasileira” no volume 7 do livro “O direito achado na rua: introdução crítica à justiça de transição na América Latina”. 


Créditos da foto: Jane de Araújo




O que a desobediência de Renan e as bombas da igreja no Rio têm em comum?

07/12/2016 12:06 - Copyleft

O que a desobediência de Renan e as bombas da igreja no Rio têm em comum?

Quando se joga fora as regras que construímos para viver em mínima harmonia, isso abre uma ferida. Que não se fecha facilmente. Que infecciona.


Leonardo Sakamoto, no UOL
Tomaz Silva / Agência Brasil
Policiais militares invadiram a Igreja de São José, no Centro do Rio de Janeiro, e a utilizaram como base para lançar bombas em manifestantes que protestavam contra o pacote anticrise do governo carioca, que pretende cortar direitos de servidores.
 
Ao mesmo tempo, a mesa diretora do Senado Federal desobedeceu a decisão liminar do ministro Marco Aurélio Mello, afirmando que Renan Calheiros segue na Presidência da Casa até que o pleno do Supremo Tribunal Federal julgue seu afastamento.
 
O comentário é de Leonardo Sakamoto, jornalista e cientista político, publicado por portal Uol, 06-12-2016.
 
Apesar de acontecerem em duas cidades diferentes e envolverem, de um lado, a elite política e judicial do país, e, do outro, servidores públicos, fardados ou não, os dois fatos derivam da mesma matriz: o baixo nível de respeito às instituições.





 
Não estou entrando no mérito se os policiais estavam acuados ou não. Isso não justifica a invasão de um templo religioso. Da mesma forma, não estou entrando no mérito da liminar do ministro do Supremo – que vem sendo duramente criticada por juristas pelo individualismo institucional. Isso não justifica o descumprimento de uma ordem judicial do STF.
 
O processo de impeachment (ou golpe ou granola, não importa o nome que você queira dar ao ocorrido) esgarçou instituições para se consumar e passou por cima de muita coisa. Era preciso retirar Dilma de lá e, para isso, tudo foi possível – de abraçar um notório corrupto que transformou a Câmara dos Deputados em seu playground particular até aceitar uma acusação frágil, baseada naquilo que todos os governos fizeram antes dela, ao invés de esperar pelos desdobramentos da Lava Jato.
 
Que seu governo estava ruim, isso é inegável – até ela deve concordar com isso. Mas a partir do momento que você joga fora as regras que construímos por um longo tempo para viver em mínima harmonia, reescrevendo-as diante de suas necessidades particulares e imediatas ou da opinião de seu grupo, isso abre uma ferida. Que não se fecha facilmente. Que infecciona.
 
Temos agora um conflito deflagrado entre o Poder Legislativo e o Poder Judiciário, mais Ministério Público. E Michel Temer não deve ter sucesso na mediação dessa situação porque não tem legitimidade para tanto. Sua legitimidade é o apoio dos patos amarelos que o ajudaram a chegar lá e esperam que ele entregue a fatura na forma da redução do tamanho do Estado.
 
Aliás, uma coisa é a reforma da Previdência surrar a dignidade de trabalhadores braçais dos mais baixos estamentos sociais ao impor uma idade mínima de 65 anos para a aposentadoria impactando a quem, não raro, começou a trabalhar antes dos 14. Outra coisa é a ''classe baixa com poder de consumo'' (que o governo Lula rebatizou despudoradamente de classe média baixa) se ligar que terá que trabalhar por, pelo menos, 49 anos para poder ter uma aposentadoria integral. Se a ficha desse povo cair de verdade, a legitimidade de Temer valerá menos que uma nota de três reais.
 
Mas a perda de respeito às instituições também já desceu ao nível da rua. Eu que não sou religioso, muito pelo contrário, fiquei consternado ao ver a polícia militar do Rio invadindo um local sagrado para milhões de pessoas e, a partir dali, lançar bombas em manifestantes. Isso não é sociopatia por parte de alguns policiais, mas sim sintoma dessa perda de respeito a instituições.
 
A imprensa, que já foi melhor ranqueada entre as instituições de respeito do país também anda em baixa. Jornalistas apanham sistematicamente da polícia e de manifestantes. Parte da sociedade não entende um ataque a um jornalista como um ataque à liberdade de expressão, um pilar da democracia, como na verdade é. Vê isso como uma manifestação do descontentamento ao estado das coisas. Incendiada por conteúdos superficiais distribuídos principalmente pelas redes sociais e não acostumada ao debate público de ideias, à aceitação da diferença de opinião e à empatia pelo outro, parte para a ignorância.
 
Isso sem contar que, em um ambiente de equilíbrio institucional e de bom funcionamento da democracia, não consigo imaginar um ministro de Estado gravando um presidente da República para se proteger de ataques do próprio governo e denunciar desvios de função. Muito menos um outro ministro de Estado usar seu cargo para tentar liberar um embargo de um prédio, no qual ele tem um apartamento de luxo, imposto pelo órgão de patrimônio histórico.
 
Iniciado, o processo de derretimento das instituições e do respeito da população a elas não pode ser freado do dia para a noite.
 
Demanda nova pactuação política e social, aliada a muito suor em articulações para a construção de consensos.
 
Ou seja, a dúvida que fica é se a reação em cadeia não é inevitável e nos levará inexoravelmente para o buraco.
 
A impressão, por enquanto, é que todo mundo representa a si mesmo e aos interesses do seu grupo, corporativo, econômico, político. O bem do país? Foda-se.
 
Leia-se por ''buraco'' a eleição, por vias democráticas, de uma figura antidemocrática em 2018 ou a busca por soluções autoritárias por parte de uma população cansada do clima de ''vale tudo'' e de ''ninguém e de ninguém''.
 
Eu diria ''Que Deus nos ajude''. Mas ele deve estar ocupado com o povo de farda que invadiu sua casa.


Créditos da foto: Tomaz Silva / Agência Brasil

Ministério Público é formado por elite masculina, branca e rica

07/12/2016 12:40 - Copyleft

Ministério Público é formado por elite masculina, branca e rica

Segundo estudo, MP não é uma instituição democrática sob o aspecto da participação popular e do ingresso de minorias e das camadas mais baixas da sociedade


Maurício Thuswohl, para a Rede Brasil Atual
reprodução
Rio de Janeiro – Uma das três instituições públicas mais confiáveis aos olhos da sociedade brasileira, segundo pesquisa divulgada este ano pela Fundação Getúlio Vargas, o Ministério Público viu aumentar seu prestígio desde o início da Operação Lava Jato. Identificados com o atual momento de apelo popular ao combate à corrupção no meio político e empresarial brasileiro, os promotores e procuradores que compõem o MP em nível federal e nos estados, no entanto, estão longe de formar uma instituição que possa ser considerada democrática sob os aspectos da participação popular e do ingresso das minorias e das camadas mais baixas da sociedade em suas fileiras.
 
Essa é uma das principais conclusões da pesquisa “Ministério Público: guardião da democracia brasileira?”, realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Cândido Mendes, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e divulgada hoje (6) no Rio de Janeiro. O estudo mostra que o representante médio do Ministério Público é homem, branco, com 43 anos de idade e com foco de atuação no combate à corrupção. O perfil coincide com os procuradores que compõem a força-tarefa da Lava Jato.
 
“Os membros do MP constituem um segmento fortemente elitizado da sociedade”, afirma a socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do CESeC e da pesquisa, ao lado da professora e pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da UFMG Ludmila Ribeiro e das consultoras Leonarda Mesumeci (professora do Instituto de Economia da UFRJ) e Thaís Duarte (pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro / Uerj).
 
A instituição, segundo a pesquisa, tem ainda uma excessiva representação masculina, com 70% de homens, e branca, já que 77% dos entrevistados se identificaram como tal. No entanto, o elemento que mais caracteriza a elitização do MP, segundo as pesquisadoras, é a origem social elevada da maioria de seus integrantes. Essa origem se mede pela alta escolaridade dos genitores dos promotores e procuradores, já que 60% dos pais e 47% das mães dos entrevistados têm curso superior. No restante da população brasileira com mais de 50 anos, esta proporção é de somente 9% para homens e 8,9% para mulheres.





 
Outro importante elemento identificado pela pesquisa que caracteriza a elitização na composição do Ministério Público é a dificuldade colocada para quem deseja ingressar na instituição. Além do nível elevado da prova, há a exigência de três anos de trabalho prévio na área jurídica: “Essas exigências funcionam como enormes barreiras para a entrada de pessoas de extratos sociais mais baixos no Ministério Público”, diz Julita.
 


PESQUISA UCAM/CESECperfil do mp

 

Opção por cargo estável pesa mais na escolha da carreira do que combate a criminalidade ou defesa dos mais pobres



 
Finalmente, uma olhada nos motivos que levaram os procuradores a querer ingressar no MP mostra que o sentimento difuso de “realização da justiça” aparece em primeiro lugar com 98% das citações, enquanto “atuar no combate à criminalidade” foi citada por 75%, aparecendo em terceiro lugar. Curiosamente, no segundo e quarto lugares aparecem “estabilidade no cargo”, com 92% de citações, e “boa remuneração”, com 74%. Em um honroso quinto lugar, aparece o desejo de “proteger a população de baixa renda”, citado por 64% dos entrevistados: “Esse resultado mostra que, aliado a um conceito de ‘fazer justiça’ que é comum às classes dominantes no Brasil e quase sempre é aplicado no pobre, preto e favelado, a boa qualidade de vida proporcionada pelo cargo é também elemento fundamental para os que buscam entrar no MP”, diz Ludmila Ribeiro.

 


 

Atribuições preteridas



 
Outro objetivo da pesquisa era verificar se, quase 30 anos depois da promulgação da Constituição Federal de 1988, o Ministério Público, na prática, se afastou das atribuições a ele conferidas pela carta magna. Algumas das prioridades traçadas constitucionalmente naquela ocasião, como a defesa dos direitos coletivos e difusos, a supervisão das penas de prisão e o controle externo das polícias, são, segundo o que revela o estudo, preteridas pela tarefa de atuar como parte acusatória nos processos penais.
 
As três maiores prioridades dos integrantes do MP, segundo os ouvidos pela pesquisa, são: combate à corrupção (para 62% dos entrevistados), investigação criminal (49%) e infrações penais envolvendo crianças e adolescentes (47%): “Observa-se que as três maiores prioridades são relativas à punição e prisão, o que revela a prioridade que o MP dá a esta esfera de atuação em detrimento de outras”, diz Ludmila.

 


 

Faca de dois gumes



 
Garantida pela Constituição de 1988, a conquista da independência em relação aos demais poderes da República serve, em tese, para que o MP possa cumprir com as atribuições para ele previstas. No entanto, segundo revela a pesquisa, esta autonomia funcional é uma faca de dois gumes. Para 91% dos entrevistados, ela é imprescindível para garantir a isenção do trabalho dos promotores. Mas, para 49% essa falta de controle facilita a omissão. Some-se a este dado o fato de que 90% dos entrevistados avalia que a população não tem conhecimento sobre as atribuições do MP: “Não existe um verdadeiro e efetivo controle externo do MP”, diz Julita, lembrando que quem preside o Conselho Nacional do Ministério Público é o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
 
A pesquisa do CESeC não obteve recursos públicos para sua realização nem despertou o interesse do CNMP que, embora convidado, sequer compareceu à apresentação dos resultados do estudo. Iniciada em 2013, o trabalho contou com recursos privados do Fundo de Investimento Social da Família A Jacob e Betty Lafer. Foram ouvidos 899 promotores e procuradores em todo o Brasil, em uma amostra representativa dos 12.326 integrantes dos MPs federais e estaduais existentes no Brasil em janeiro de 2015, quando a pesquisa começou efetivamente a ser realizada.
 
O envio das respostas pelos promotores e procuradores entrevistados aconteceu entre fevereiro de 2015 e fevereiro de 2016. Além disso, a enquete – que trazia 37 perguntas e que levou, em média, 45 minutos para ser respondida, também ficou disponível no site do CNMP por três meses. Segundo as pesquisadoras, a dificuldade do Ministério Público em lidar com a pesquisa foi notável: “Esta foi a pesquisa com maior dificuldade para recolher dados que eu já fiz”, resume Julita Lemgruber.


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PEC 55 é dramática porque abre mão do futuro

07/12/2016 12:49 - Copyleft

PEC 55 é dramática porque abre mão do futuro

Não há um debate sobre temas estratégicos como a trajetória de desindustrialização, a concentração do setor financeiro ou o papel do investimento público.


Patrícia Fachin - IHU Online
Lula Marques
Enquanto a PEC 55aprovada no Senado na semana passada, institui um novo regime fiscal para as próximas duas décadas, ainda não se viu a instituição de uma “política econômica voltada à retomada do crescimento”, critica Luciana de Barros Jaccoud, na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Na avaliação dela, a hipótese do governo federal de que o controle das contas públicas trará o retorno do crescimento econômico é “simplista”, e “não há um debate sobre temas estratégicos como o endividamento do setor privado, a trajetória de desindustrialização, a concentração do setor financeiro ou o papel do investimento público”.
 
Segundo Luciana, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea, um dos principais equívocos da PEC é que o ajuste proposto “preserva o gasto financeiro” e, portanto, “o governo continuará remunerando, agora sem limites orçamentários, o rentismo. (...) Este gasto pode inclusive se ampliar, sem qualquer constrangimento. Aprovada a PEC, a única despesa da União que poderá crescer nos próximos 20 anos será o gasto financeiro, que não alimenta dinâmicas produtivas ou crescimento econômico”.
 
Luciana de Barros Jaccoud explica ainda que a “dívida pública tem mais influência sobre a situação fiscal do que o gasto primário”, e “as deletérias taxas de juros praticadas no país, a recessão econômica e o contexto contracionista da economia mundial certamente exigem instrumentos muito mais poderosos e sofisticados da política econômica do que o ajuste de gasto primário preconizado pelo governo”.
 
Entre as alternativas que poderiam ser adotadas para evitar o novo regime fiscal, Luciana menciona uma “reforma tributária que criasse alíquotas para ganhos financeiros, tributação para herança ou para grandes fortunas”. E acrescenta: “De fato, o problema não é técnico, é político”.




 


 
Luciana de Barros Jaccoud é doutora em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, França, mestra em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE e graduada em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília - UnB. Atua como colaboradora da Escola Nacional de Administração Pública - ENAP e como pesquisadora associada ao Grupo de Pobreza e Políticas Sociais do Clacso (Conselho Latino-americano de Ciências Sociais).
 
Confira a entrevista. 

IHU On-Line - Segundo o governo, a PEC 241 é necessária para “reverter, no horizonte de médio e longo prazo, o quadro de agudo desequilíbrio fiscal”. A que você atribui o desequilíbrio fiscal das contas públicas?
 
Luciana de Barros Jaccoud - O atual desequilíbrio das contas públicas decorre diretamente da recessão e da queda de arrecadação que ela promove. A recessão é hoje o nosso principal problema. Contudo, não vemos uma política econômica voltada à retomada do crescimento. Ao contrário, o governo está dizendo que basta o controle das contas públicas para que a economia volte a crescer. O controle do gasto público levaria ao aumento da confiança dos agentes privados e, assim, à redução dos juros e à retomada do investimento. Esta é uma hipótese simplista, que se assenta na ideia de que a mão livre do mercado fará os ajustes necessários para enfrentar a recessão, desde que o Estado se retire. Não há um debate sobre temas estratégicos como o endividamento do setor privado, a trajetória de desindustrialização, a concentração do setor financeiro ou o papel do investimento público.
 
PEC implicará ainda em queda expressiva do gasto social, com impactos nos recursos com educaçãosaúde. Mas como sustentar uma trajetória de crescimento com redução dos gastos públicos em educação? Como promover o crescimento sem recursos públicos para o financiamento do investimento e da infraestrutura? O controle das contas públicas tal como proposto pela PEC, e já praticamente aprovado pelo Congresso Nacional, é dramático sob vários aspectos, entre eles pelo fato de que causará a redução continuada, por 20 anos, dos investimentos públicos que já estão em níveis extremamente baixos.
 
IHU On-Line - Quais diria que são os equívocos da PEC no enfrentamento do problema fiscal das contas públicas?
 
Luciana de Barros Jaccoud - O diagnóstico do governo traz vários equívocos. O primeiro eu já citei. É a crença de que o mero equilíbrio fiscal propiciaria a redução dos juros e levaria à retomada do investimento produtivo. Não há bases empíricas por trás de tal afirmativa. Ao contrário, este projeto contracionista anuncia um aprofundamento do quadro recessivo.
 
O segundo equívoco está no fato de que este ajuste preserva o gasto financeiro. O governo continuará remunerando, agora sem limites orçamentários, o rentismo. Ao focar apenas as despesas primárias, a PEC preserva o gasto financeiro de qualquer limitação. Este gasto pode inclusive se ampliar, sem qualquer constrangimento. Aprovada a PEC, a única despesa da União que poderá crescer nos próximos 20 anos será o gasto financeiro, que não alimenta dinâmicas produtivas ou crescimento econômico.
 
O terceiro equívoco é a ideia subliminar nesta reforma de que crescimento econômico é sinônimo de desenvolvimento. Ora, mesmo que a PEC propiciasse uma retomada do crescimento, seria um crescimento com aumento da desigualdade, como já aconteceu em outros momentos da história do país. A PEC determina o enfraquecimento progressivo e contínuo, ao longo de 20 anos, dos mecanismos de redistribuição e das políticas sociais.
 


Contudo, enfrentar a desigualdade precisa ser entendido como uma prioridade neste país. É necessário por vários motivos, mas vou destacar somente dois. O primeiro, que tem sido cada vez mais destacado na literatura internacional – inclusive por atores insuspeitos para os economistas de matizes conservadores, como o FMI –, é que a desigualdade é um obstáculo ao crescimento. O segundo é que a desigualdade é obstáculo para a democracia e para a coesão social. Estamos caminhando para uma sociedade mais dividida, mais fragmentada e mais conflituosa. A PEC sinaliza seguramente para um país pior.
 
IHU On-Line - Por que um ajuste fiscal no gasto primário do governo não seria suficiente para resolver o problema fiscal?

Luciana de Barros Jaccoud - A dívida pública tem mais influência sobre a situação fiscal do que o gasto primário, como mostram indicadores econômicos, como o próprio monitoramento fiscal do FMI. O Brasil não foge das médias internacionais dos países emergentes no que se refere ao gasto financeiro. Ele sai da média na conta de juros que em agosto foi de 6% do PIB.
As deletérias taxas de juros praticadas no país, a recessão econômica e o contexto contracionista da economia mundial certamente exigem instrumentos muito mais poderosos e sofisticados da política econômica do que o ajuste de gasto primário preconizado pelo governo.
 
Mas o ajuste proposto pela PEC não é somente insuficiente, ele é prejudicial. O equívoco desta proposta já é revelado pelo seu ineditismo: não há nenhuma experiência internacional similar. Nenhum país com expectativa de desenvolvimento reduz gasto em educação ou bloqueia a capacidade do Estado de financiar os investimentos públicos e privados. Como mostrou estudo do FMI sobre experiências internacionais em ajuste fiscal, a maioria dos países que congelou o gasto também aplicou esta regra para a dívida pública. Nenhum adotou o congelamento das despesas primárias por período tão longo e independente da variação do PIB ou do contexto econômico. Outro agravante é que, devido ao crescimento da população, o congelamento no Brasil implica redução do gasto social per capita.
 
IHU On-Line - Já é possível estimar quais serão as áreas sociais mais atingidas pela PEC?
 
Luciana de Barros Jaccoud - Todas as áreas sociais serão atingidas. Serão atingidas as que detêm maiores orçamentos, como previdência social, educação, saúde e assistência social, mas também as demais áreas como saneamento, habitação, cultura ou trabalho. Infelizmente, esta proposta de ajuste fiscal é uma proposta de reversão da cobertura já alcançada pelas políticas sociais. E a justificativa usada tem sido a de que as políticas sociais pressionam o gasto público e oneram o setor produtivo. E implicitamente há a ideia de que o mercado seria capaz de operar serviços sociais com melhor qualidade e competência. Não é verdade. No patamar de desigualdade e de baixa renda de parte majoritária da população brasileira, o acesso a políticas de educação e de saúde de qualidade só poderão ser garantidas pelo Estado. E a oferta destas políticas públicas com qualidade é um caminho incontornável para o desenvolvimento.
 
As políticas sociais são essenciais para a manutenção de patamares mínimos de vida da população brasileira. Outro exemplo é o da previdência social. Ela é um dos mais importantes instrumentos de redução da desigualdade de renda no país e assegura que milhões de famílias brasileiras não caiam na pobreza. São 27 milhões de benefícios, mais da metade deles no valor de um salário mínimo e 2/3 deles no valor de até 2 salários mínimos. A taxa de pobreza entre pessoas com mais de 65 anos no Brasil está em 8,7%, e a taxa de extrema pobreza é de menos de 1%. São taxas muito reduzidas, e expressam uma conquista da previdência social pública, incluindo seus pilares urbano e rural. Se perdidas, o impacto social será muito forte.
 
IHU On-Line - Os críticos da PEC 55 dizem que ela irá gerar um impacto enorme nas áreas de saúde e educação. Já é possível estimar quais tendem a ser os impactos nessas áreas? Que percentual do investimento tende a ser reduzido?
 
Luciana de Barros Jaccoud - Sim, várias estimativas foram realizadas por pesquisadores do Ipea e mostram impactos expressivos na educação e na saúde. O congelamento do gasto social promoverá a progressiva redução da participação destas áreas com relação ao PIB e com relação à receita corrente líquida da União. Isto ocorrerá porque a PEC estabelece a desvinculação entre a receita pública e as despesas com saúde e educação.
 
Na educação, de acordo com as estimativas de pesquisadores do Ipea, a PEC produzirá uma redução da despesa obrigatória da União de 18% da receita líquida de impostos (atual regra constitucional) para 13% em 10 anos. Em 20 anos, a despesa obrigatória em educação cairia para 10%, ou seja, se reduziria em quase metade. Na saúde as reduções são igualmente graves. Os colegas do Ipeacalculam perdas da ordem de 415 bilhões de reais. Em relação ao PIB, a queda seria de aproximadamente 30% num cenário de crescimento econômico de 2% ao ano. Nesta projeção, o gasto federal em saúde, que em 2016 esteve na faixa de 1,7% do PIB, cairia para 1,2%.
 
IHU On-Line - Que implicações o novo regime fiscal irá gerar nas políticas de assistência social no país? 

Luciana de Barros Jaccoud - Os estudos do Ipea também têm sinalizado perdas expressivas para a área de assistência social. Em pouco mais de uma década já teríamos voltado a patamares inferiores aos de 20 anos atrás, antes do aparecimento do Programa Bolsa Família ou do Sistema Único de Assistência Social. Para cumprir o disposto na PEC, na assistência social será necessário constranger fortemente o pagamento do Benefício de Prestação Continuada - BPC, que garante um salário mínimo mensal aos idosos e às pessoas com deficiência em condição de extrema pobreza. Seguramente será necessário restringir o Programa Bolsa Família e o funcionamento dos equipamentos em que as famílias vulneráveis são atendidas nos Centros de Referência de Assistência Social. O impacto será sentido na ampliação das taxas de pobreza e de indigência, bem como na redução do atendimento às famílias em vulnerabilidade.
 
IHU On-Line - O que seria uma alternativa à proposta do regime fiscal?
 


Luciana de Barros Jaccoud - Vários economistas têm apresentado alternativas. Importantes espaços fiscais poderiam ser produzidos por uma reforma tributária que criasse alíquotas para ganhos financeiros, tributação para herança ou para grandes fortunas. De fato, o problema não é técnico, é político. É preciso retomar o debate de que não basta só crescer, é preciso crescer de forma sustentável e crescer reduzindo a desigualdade. O crescimento precisa ser acompanhado de medidas que fortaleçam a economia e sua base produtiva. E, da mesma forma, precisa ser acompanhado de mecanismos redistributivos e por políticas de proteção e de promoção social.
 
É dramático acolhermos um instrumento legal determinando que durante 20 anos o crescimento econômico não poderá ser repartido com a sociedade na forma de políticas públicas. Durante 20 anos, o crescimento do PIB não poderá ser canalizado para medidas que ampliem e aperfeiçoem a educação, a formação profissional, que melhorem a saúde, que promovam políticas urbanas e interfiram nas periferias ou que favoreçam a inclusão social. É dramático porque é abrir mão do futuro.


Créditos da foto: Lula Marques