terça-feira, 30 de maio de 2017

OEA incentiva violência na Venezuela, diz chanceler do país

OEA incentiva violência na Venezuela, diz chanceler do país


Mais cedo, presidente Maduro havia questionado "onde estava a voz da OEA quando se cometem crimes, em meio à violência que a direita provoca"
A chanceler venezuelana Delcy Rodríguez afirmou, na noite deste domingo (28/05), que a OEA (Organização dos Estados Americanos) incentiva a violência no país, a se apoiar nos “porta-vozes extremistas da oposição”. A declaração foi feita pelo Twitter da ministra.
“A OEA não só não condenará a violência na Venezuela, mas também incentiva e promove seus líderes para que não dialoguem e mantenham os crimes”, disse. O país iniciou o processo de retirada do OEA após a organização marcar uma reunião para discutir a situação venezuelana sem o consentimento de Caracas.
Mais cedo, o presidente do país, Nicolás Maduro, havia questionado, durante seu programa ‘Os Domingos com Maduro’, “onde estava a voz da OEA quando se cometem crimes, em meio à violência que a direita provoca”.

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Agência Efe

Para Delcy Rodríguez, OEA incentiva violência na Venezuela
As declarações vieram após a morte de Danny José Subero, oficial aposentado da Guarda Nacional Bolivariana, assassinado em uma comunidade na cidade de Palavecino. Segundo Maduro, os autores do que ele classificou como “assassinato de ódio” já foram identificados e serão buscados “até debaixo das pedras” para serem presos.
“É um crime de ódio, produto do fascismo: um crime que não só enluta a família, a mãe, ao pai, ao irmão, mas também enche de feridas o coração da pátria”, afirmou Maduro na TV.
Desde o início da série de protestos contra e a favor do governo, há cerca de dois meses, 59 pessoas já morreram.

Falta de alimentos, economia em baixa e protestos: entenda a atual crise na Venezuela

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Segundo o governo, Assembleia Constituinte foi convocada para superar o esgotamento do diálogo com a oposição e buscar a paz entre os venezuelanos, que enfrentam uma grave crise política e econômica desde meados de 2014
No 1º de Maio, Dia do Trabalhador, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou a intenção de chamar uma Assembleia Nacional Constituinte para redigir uma nova Carta Magna para o país. Em seu principal argumento, está o esgotamento do diálogo com a oposição e a necessidade de buscar a paz entre os venezuelanos, que enfrentam uma grave crise política e econômica desde meados de 2014.
A Venezuela é governada por uma aliança de partidos de esquerda desde 1999. Esse conjunto de forças é capitaneado pelo PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) e tem como liderança maior o ex-presidente Hugo Chávez, falecido em março de 2013. Maduro, o atual mandatário, venceu as eleições meses depois da morte de Chávez. Na Venezuela, em caso de vacância do presidente, o vice assume somente para convocar novas eleições. Os mais de 18 anos de governo convencionou-se chamar de "chavismo" ou de "revolução bolivariana".
Renda petroleira
Com a maior reserva petrolífera comprovada do mundo, a Venezuela tem sua economia baseada na renda do petróleo, que corresponde a 70% dos investimentos do poder público. Assim, mudanças nos preços do hidrocarboneto no mercado mundial afetam diretamente o cotidiano dos venezuelanos. Durante os últimos 80 anos de exploração no país, o petróleo sempre foi motivo de ascensões e derrocadas de governos.
Desde 2013, o petróleo tem enfrentado mais um ciclo de queda sistemática nos preços, que nas boas épocas do chavismo chegou a custar US$ 120 e hoje acomodou-se em US$ 50, mas que nos momentos mais radicais desta crise chegou a custar parcos US$ 30, como no primeiro trimestre de 2016.
A maior parte das políticas públicas e programas sociais, chamados no país de Missões, implantados pelo ex-presidente Chávez, foram resultado direto da venda média de três milhões de barris diários do ouro negro, dos quais dois terços vão para os Estados Unidos.
A Misión Vivienda, por exemplo, que é o programa de construção de moradias, apresenta resultados surpreendentes para um país de cerca de 30 milhões de habitantes, com mais de 1,5 milhão de moradias doadas ou vendidas sob forte subsídio público. Ou ainda a Misión Barrio Adentro, que levou para as periferias do país sul-americano milhares de médicos cubanos.
A própria Caracas, com prédios públicos imponentes, como o complexo cultural Tereza Careño, ou as grandes avenidas de seu centro financeiro, é um retrato das épocas áureas de lucro petroleiro dos anos 1970 e 1980, a despeito da pobreza extrema que sempre marcou as áreas periféricas e o interior do país. Tal situação, no entanto, teve no governo Chávez uma radical virada.
Início da atual crise
Desde sua vitória eleitoral, em abril de 2013, Maduro enfrenta uma forte oposição dos partidos agrupados na MUD (Mesa da Unidade Democrática) que, em primeiro ato, não reconheceram a vitória do chavista, para, depois, pedirem a recontagem dos votos.
O sistema eleitoral venezuelano é reconhecido como confiável por centenas de técnicos de diversos países ao longo das diversas eleições realizadas pelo chavismo e chegou inclusive a ser considerado pelo Instituto Carter, do ex-presidente estadunidense Jimmy Carter, como um dos mais seguros do mundo. "Das 92 eleições que observamos, eu diria que o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo", disse Carter em setembro de 2012.
Assim, nos últimos quatro anos, a oposição não deu trégua ao governo de Maduro. A chamada “guerra econômica” levada a cabo no país gerou uma situação de desabastecimento de comida e escassez de produtos básicos, golpeando fortemente a população.
"Há um mercado especulativo, mas que no fundo a intenção é política, de gerar uma série de desequilíbrios que terminam provocando descontentamento na população, a chamada guerra econômica, principalmente em uma economia com tantos produtos importados", explica o economista com mestrado em Sociologia do Desenvolvimento pela Uarcis (Universidade de Artes e Ciências Sociais do Chile), Luis Salas.
Neste cenário, o governo enfrenta uma queda consecutiva em índices de popularidade, sendo mal avaliado por 68,9% da população, segundo a última pesquisa da Venebarómetro, divulgada pela agência de notícias AFP em 15 de março. Para Salas, esse é o reflexo de um "caldeirão" de fatos.
Um deles é a queda dos preços das commodities, como os grãos, os minérios e o petróleo. "A Venezuela, em 2012, terminou o ano com um crescimento de 5,5% no PIB. Era mais que o dobro da média mundial. Isso devido aos preços altos do petróleo, investimentos sociais e à política econômica do chavismo de estímulo à demanda", explica Salas.
Outro fator foi a morte de Hugo Chávez, em março de 2013, como explica o economista, para quem o fato foi um "golpe simbólico" no governo, pelo que ele representava para o país.
Soma-se a isso a "manipulação" do câmbio, que se tornou outro fator da atual crise. A Venezuela tem uma moeda fortemente desvalorizada ante o dólar. A moeda estadunidense é vendida, de forma paralela, nas ruas, por até 10 vezes mais em comparação com o câmbio oficial.
Endurecendo o discurso
Para Diego Sequera, jornalista e analista político do site Misión Verdad, a oposição percebeu que poderia endurecer o discurso contra Maduro visto que, embora alçado por Hugo Chávez, o político não tinha sua popularidade e estava em outra situação econômica.
"As primeiras experiências com as barricadas, toda a narrativa da crise começou por aí, e se fortaleceu com o decreto Obama", disse Sequera, referindo-se ao decreto executivo do então presidente dos Estados Unidos, de março de 2015, declarando a Venezuela uma "ameaça incomum e extraordinária" à segurança do país.
Mas é em dezembro de 2015 que a oposição confere o mais duro golpe ao governo Maduro, quando a MUD ganha a grande maioria das cadeiras da Assembleia Nacional, com 112 deputados contra 51 do PSUV. O fato praticamente paralisou o governo.
Desabastecimento
De 1999 a 2012 o governo Chávez logrou afastar do país um fantasma histórico que tirava o sono do venezuelano: o desabastecimento de alimentos. Embora o problema nunca tenha sido completamente sanado, visto que o país ainda importa, em média, 70% do que consome, o chavismo não poupou esforços no que chamou de impulso à segurança alimentar.
Segundo o próprio governo, o país já produz o que consome em quase 100% de frutas como mamão, limão, maracujá, melancia, etc; hortaliças, como pimentão, cebola, tomate, mandioca, e derivados do leite. Muito dessa produção é fortemente subsidiada e até produzida pelo Estado, que também tomou como política vendê-los e distribuí-los por redes de supermercados estatais.
Mas desde 2014 a falta de itens básicos nos supermercados e farmácias da Venezuela se agravou, atingindo diretamente a população mais pobre.
Agência Efe

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Um estudo da economista Pasqualina Curcio para o Banco Central do país identificou que, entre 2003 e 2013, houve um incremento das importações em mais de 500%, acompanhando o crescimento do consumo da nova classe média do país. Também ocorreu com a produção nacional de alimentos, que cresceu, nesses 10 anos, 25%.
Para Curcio, a falta de alimentos nas prateleiras e a escassez aguda que sofrem os venezuelanos, principalmente nos dois últimos anos, se deve basicamente à falta de iniciativa dos importadores (embora recebam dólares subsidiados para fazer compras fora e vender no país), à ocultação e ao contrabando de alimentos.
O economista Luis Sala concorda: "Nos últimos 10 anos, enquanto na Venezuela dobramos a importação de remédios, na Colômbia as importações se mantiveram praticamente estáveis. Muitos remédios são contrabandeados da Venezuela para a Colômbia, até para o Brasil, assim como os alimentos", denunciou.
Protestos e barricadas: as 'guarimbas'
Desde abril, quando se iniciou a nova onda de protestos oposicionistas, o governo conta 55 mortes relacionadas a esses embates. Entre os mortos, 14 são relacionados a confrontos violentos, oito a acidentes de trânsito relacionados às barricadas em pistas e ruas, seis relacionados a disparos de armas por parte das polícias, 14 relacionados a pessoas que transitavam próximas aos protestos, três policiais mortos e outros casos que estão sendo investigados.
As barricadas, chamadas de "guarimbas" na Venezuela, são o tema do momento. Elas derivam dos protestos, pretensamente pacíficos, chamados pela MUD. Sempre ocorrem após a marcha, que vem à frente com as lideranças oposicionistas. A rota dos protestos sempre é direcionada para um órgão público, o que faz com que as forças de segurança do governo se posicionem para interrompê-la e, consequentemente, aconteçam os embates.
Desde que a reportagem do Brasil de Fato chegou a Caracas, em um lapso temporal de sete dias, já foram cinco marchas convocadas, todas saindo da região leste da capital, onde se concentram os bairros de classe média e média alta.
O pesquisador e cientista social Carlos Lanz acredita que todas as ações da paralisação realizadas pela oposição são cuidadosamente planejadas como uma estratégia comunicacional.
"Estamos em uma guerra não convencional que tem um tripé: inteligência tecnológica, pressão psicológica e ações cinematográficas, que são as pessoas vestidas como se estivessem em uma operação especial para enfrentar as instituições, principalmente a polícia", disse.
Lanz se refere aos jovens vestidos com máscaras, luvas, escudos e armas artesanais, que rotineiramente entram em confronto com as forças policiais. "Ou personagens como uma fisiculturista que se vestiu de Mulher Maravilha e participou de protestos expondo seu corpo escultural e lançando pedras. Tudo é compulsivamente distribuído nas redes sociais", explica.
Reação do governo Maduro
Um aspecto muito importante e pouco explorado pela imprensa internacional sobre as eleições parlamentares de dezembro de 2015 é que, a despeito da vitória acachapante, a grande maioria dos deputados da oposição se elegeu por uma pequena margem de diferença, o que comprova que o chavismo, embora debilitado, ainda tem força e base social.
Outro aspecto é que a grande maioria dos prefeitos das pequenas cidades posiciona-se no oficialismo, o que reforça e mantém o chavismo em rincões do país.
A última pesquisa Interlaces, de 14 de maio, indica que para 83% dos venezuelanos, "não há novas lideranças na oposição", assim como 65% estão "de acordo" com esperar pelas eleições de 2018 para presidente. Além disso, 61% não confiam que a oposição possa superar os problemas econômicos do país.
Depois de ter passado por uma eleição apertada em 2013, por uma crise energética em 2014, por embates com a Assembleia Nacional, com a OEA (Organização dos Estados Americanos) e enfrentado forte desabastecimento em 2015 e 2016, Maduro colocou as cartas na mesa.
Na reunião da Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo) em 2016, Maduro foi um dos que mais defendeu uma redução na produção para, consequentemente, conseguir uma melhora nos preços do barril.
Em um esforço de reação, criou também em 2016 os Claps (Comitê Local para Abastecimento e Produção), uma iniciativa local que organiza a distribuição dos alimentos subsidiados pelo governo e incentiva a pequena produção.
Segundo os três entrevistados da reportagem, os Claps são um ponto positivo para o governo, por diminuir a atividade de vendedores de alimentos nas ruas por preços altos, os chamados "bachaqueros", e ter restabelecido a distribuição das cestas básicas nas comunidades e pequenas cidades.
Constituinte
Para sair das cordas no ringue político, Maduro lançou as bases legais para a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, que tem sido fortemente rechaçada pela oposição.
Publicamente, o chavismo já começou a escolher seus candidatos que se inscreverão para concorrer a uma vaga na Assembleia.
A ação traz a oposição para o campo do embate político-eleitoral e deixa o governo em uma posição protagonista.
Assim, os próximos rounds serão, além da Constituinte, que será realizada em julho, as eleições para governador, em 8 de dezembro e, enfim, para presidente, em 2018.

Publicado originalmente no site do jornal Brasil de Fato

'A polícia chegou atirando': sobreviventes de massacre no Pará descrevem execução e tortura

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Policiais militares do Pará teriam rendido e torturado trabalhadores rurais sem terra antes de disparar tiros fatais contra eles, relatam os sobreviventes do massacre que tirou a vida de dez pessoas no sudeste do Estado
Os policiais militares do Pará teriam rendido e torturado os trabalhadores rurais sem terra antes de disparar tiros fatais contra eles, relatam os sobreviventes do massacre que tirou a vida de dez pessoas no sudeste do Estado. O crime ocorreu no dia 24 de maio na fazenda Santa Lúcia, área de Pau D’Arco, então ocupada por posseiros.
Repórter Brasil colheu o relato de dois deles e teve acesso ao depoimento de um terceiro. Todos deram depoimentos ao Ministério Público Federal, que já ouviu seis de quinze sobreviventes. Há dois considerados como desaparecidos.
As revelações não apenas contestam a versão da Polícia Civil e Militar, que declarou ter sido recebida na fazenda a tiros, como sugere que o crime envolveu tortura e crueldade.
A versão do confronto fora questionada desde o início porque os policiais não apresentavam ferimentos, enquanto os dez trabalhadores foram levados mortos ao hospital. A movimentação dos corpos foi apontada como adulteração do local do crime pela subprocuradora-geral da República Deborah Duprat, que participou da perícia.
Os relatos são fortes.
Tudo começou quando o grupo de posseiros relata ter visto o comboio da polícia chegando, de longe, e  correram para se esconder na mata fechada. Foi quando eles  abriram uma lona preta para se proteger da chuva, que a polícia os teria surpreendido, aos gritos de: “É a polícia, porra. Quem correr, morre”.
Os sobreviventes fugiram sob fogo, alguns alvejados de raspão na cabeça ou pelas costas. “A polícia chegou atirando”, foi frase repetida por mais de um sobrevivente. Um deles diz ter ouvido: “pode matar. Corre atrás, não é pra deixar um vivo”.
“Eu fiquei perto, muito perto, vi o olhar de um companheiro que caiu quase por cima de mim quando levou o tiro. Era um olhar triste”, diz outra testemunha. A maioria dos sobreviventes não conseguiu ver o que aconteceu, apenas ouviu, pois tiveram que ficar escondidos. Foi o caso dos relatos seguintes:
“A gente ouviu alguns colegas chorando antes de morrer, dizendo ‘não faz isso, ninguém vai correr'”.
Um deles diz que se arrastou pelo chão e ficou deitado dentro da mata fechada a cerca de 70 metros de onde ocorria a chacina. Ele relata ter ouvido os policiais agredindo os trabalhadores com chutes aos gritos de “vira para cá, vagabundo, cadê os outros?”
Segundo essa testemunha, depois de gritar e chutar cada trabalhador, a polícia atirava. Ritual repetido, na sequência, com a próxima vítima. O massacre teria durado cerca de duas horas.
“Barulho de paulada, porrada que a polícia dava. Depois matavam, um por um”, diz outro sobrevivente. “Eles humilhavam, xingavam”.
De acordo com os relatos, a maioria das vítimas tombou logo na chegada da polícia. Os que ficaram vivos teriam sido executados a queima roupa. A reportagem viu ao menos um corpo com perfuração na face.
Repórter Brasil

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Ao final da matança, dois sobreviventes relataram que a polícia saiu “gargalhando”, como se comemorasse uma vitória. E que os policiais fizeram varreduras com as viaturas pela fazenda, como que à caça de sobreviventes. A chuva pode ter salvado os que fugiam, dificultando o acesso de carro às áreas mais isoladas da fazenda.
“Eu fiquei andando perdido, sem força, às vezes de joelhos, sempre pedindo a Deus pra ajudar” diz testemunha que buscou socorro das 8 da manhã até quase o fim da tarde.
“A versão dessa pessoa é conflitiva com a versão da polícia, mas coaduna com o que a gente encontrou no local”, diz o procurador Igor Spíndola do Ministério Público Federal ao ouvir o primeiro depoimento. Ele estava na primeira perícia no local do crime e chama atenção para diversos elementos que contrariam a versão de que os trabalhadores reagiram. “Se você investiga o caso sem a versão da polícia, você conclui que não teve confronto. Que um lado chegou atirando”, diz o procurador.
Outra evidência apontada por ele que vai contra a versão da polícia é o local do crime. Os posseiros estavam escondidos em uma mata fechada, o que daria vantagem para eles. “Se essas pessoas quisessem atirar, elas teriam uma visão maior do que a polícia tinha. Mas não há sinal de nenhum policial ferido”.
A Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará informou que um inquérito foi aberto para investigar o caso e que afastou 29 policiais envolvidos na ação. Os policiais militares que estavam na operação também foram ouvidos pelo Ministério Público Federal.
Segundo o advogado da Comissão Pastoral da Terra José Batista Afonso, esse crime teve elementos muito próximos ao massacre de Eldorado dos Carajás, que completou 20 anos em 2016. Em 17 de abril de 1996,  a Polícia Militar do Pará matou 19 trabalhadores do Movimento Sem Terra. “Tiveram características parecidas: não só de surpreender e assassiná-los a sangue frio, como atestam os depoimentos, mas também de usar espancamento e tortura. É uma forma de mostrar força, dar um recado aos movimentos”.
Uma das suspeitas de motivação para o crime é a escalada de violência no conflito por terra que levou ao assassinato de um segurança particular da fazenda ocupada, além da morte de um policial militar da região. Segundo a CPT, que acompanha os conflitos na região, essas mortes geraram uma reação forte do setor agropecuário e uma indignação entre os policiais. A entidade já vinha chamando a atenção para a grande vulnerabilidade dessa área: só no sul e sudeste do Pará há mais de 150 fazendas ocupadas.
A violência devido a conflitos agrários passa por uma escalada em todo o país. Há três anos, o Brasil é onde mais morrem lideranças ambientais e do campo. No ano passado, batemos nosso recorde com 1.295 conflitos por terra, número mais alto dos últimos dez anos. Só até maio desse ano, já são 36 mortes de lideranças ou ativistas do campo, sendo 12 delas no Pará.
O procurador também chama atenção para o desnível de armamento entre os grupos, já que a maior parte das armas com os posseiros eram antigas. Segundo o sobrevivente, em seu depoimento, os posseiros tinham espingardas, um fuzil e uma pistola .380.
“A gente não pode concluir nada, é a sentença que vai determinar. Mas podemos falar que há sérias dúvidas sobre a versão da polícia”.
(*) Publicado originalmente em Repórter Brasil

FINANCIAMENTO COLETIVO PARA FILME DO PAUL SINGER

Filhos de ex-repressores rompem silêncio contra violações na Argentina

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De vergonha, ódio e rancor à denúncia dos pais na tentativa de ajudar as vítimas

POR 
Miguel Etchecolatz durante julgamento em La Plata, em 2006 - Carlos Cermele
BUENOS AIRES — A recente decisão da Corte Suprema de Justiça da Argentina de favorecer um ex-militar preso por violações dos direitos humanos aplicando a chamada “Lei do 2 x 1” (que permite a redução de condenações) teve consequências inesperadas. Além de provocar uma reação unânime de rechaço por parte da sociedade argentina, a medida levou filhos de ex-repressores a romperem o silêncio e expressarem publicamente sentimentos como vergonha, ódio e rancor em relação a seus pais. A primeira a falar foi Mariana D (ela mudou seu sobrenome e preferiu não revelar sua nova identidade), filha de Miguel Etchecolatz, figura sinistra da polícia da província de Buenos Aires, condenado à prisão perpétua em 2006. Suas palavras tiveram forte impacto em outros filhos como Erika Lederer, que em artigo publicado na revista “Anfibia” propôs a união de “filhos de genocidas, com um objetivo inabalável: memória, verdade e justiça”.
Pessoas como Mariana e Erika têm informações, conhecem o passado de seus pais e poderiam ajudar nas dezenas de processos sobre crimes da ditadura que continuam avançando nos tribunais. Para facilitar o contato, foi criada uma página na rede social Facebook chamada “Historias Desobedientes y con Faltas de Ortografia” (histórias desobedientes e com faltas de ortografia).
Clínica clandestina
Erika é filha do médico Ricardo Lederer, que trabalhou na clínica clandestina de Campo de Maio, onde nasceram muitos filhos de presas políticas, posteriormente entregues a famílias de militares ou próximas às Forças Armadas. Ou seja, o pai de Erika foi cúmplice do roubo de bebês, muitos dos quais ainda hoje, mais de 40 anos após o golpe de Estado de 1976, não conhecem sua verdadeira origem. “O relato de Mariana emociona, convoca e, de certa forma, obriga. Nos interpela a contar, a dizer o que sabemos, por pouco ou mal articulado que seja. Ajudar na construção da História é um compromisso coletivo. Ainda faltam aparecer netos, e corpos ainda devem ser despedidos. Ler o depoimento da filha de Etchecolatz gerou em mim, além da angústia pelas lembranças, a possibilidade de transformar essas lembranças em ação plena de sentido, o qual é mais útil e consequente”, escreveu Erika.
O pai dela suicidou-se em 2012, sem passar pelo banco dos réus. Este ano, quando o país relembrou, em 24 de março passado, o golpe que deu início à repressão mais violenta e atroz já vivida pelos argentinos, a filha de Erika, de apenas 9 anos, lhe perguntou, pela primeira vez, se seu avô estaria preso se não tivesse morrido. “Sim, respondi de forma imediata. Nunca a vi chorar como nesse dia. Algo tinha se quebrado em sua infância e não podia ser de outra maneira”, contou.

Ela, como muitos filhos de desaparecidos, teve uma infância dura, com medo, crises de asma e a permanente sensação de não encaixar em sua família. Erika foi a ovelha negra da família, a que se atreveu a enfrentar o pai, a fazer perguntas que incomodavam. Hoje ela diz: “Não o perdoo, não sei se o odeio.” Mas está disposta a concentrar esforços e energias na construção de um futuro melhor para as vítimas de uma ditadura que também destruiu sua família. (J.F.)


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