sexta-feira, 21 de julho de 2017

Eddie Bernays, o gênio do vício

Psicanálise

Eddie Bernays, o gênio do vício

por Nirlando Beirão — publicado 21/07/2017 00h30, última modificação 20/07/2017 17h33
Trafegando entre a fraude e Freud, sobrinho do psicanalista e pioneiro do marketing ensinou a América a tragar
Ilustração: Pilar Velloso/Foto:Istockphoto
Eddie Bernays
Desde os anos 30 se desconfiava dos efeitos maléficos do tabaco. Bernays pagou para ocultar
A promiscuidade entre a indústria de cigarros, cientistas sob contrato e marqueteiros de aluguel – que o doutor Drauzio Varella abordou na edição passada de CartaCapital – não vem de hoje e, lá na remota América pré-Depressão, produziu um personagem extraordinário, ele próprio um case de propaganda e autopromoção. 

A criatura chamou-se Edward L. Bernays. A família poderia ter-lhe também atribuído no berço o sobrenome da mãe, Anna – Freud, o mesmo do ainda desconhecido irmão dela, o médico austríaco Sigmund Freud.
Assim como titio Freud criou uma doutrina, a psicanálise, ao sobrinho Eddie atribui-se a descoberta de uma traquinagem: as relações públicas. Ambas tentavam dar significado, pelo bem ou pelo mal, a atitudes humanas.

Sigmund Freud morreu de câncer na garganta, aos 83 anos. Costumava fumar entre 20 e 22 charutos bávaros do tipo mata-rato (só quando virou celebridade é que os amigos passaram a abastecê-lo com puros habanos). Sem cerimônia alguma, costumava defumar os pacientes deitados no depois consagrado divã. O próprio Freud apressou-se a driblar uma possível interpretação freudiana de sua obsessão. Mais de uma vez disse: “Às vezes, um charuto é só um charuto”.

Já Wilhelm Reich, o mais delirante dos seus discípulos, prenunciando a tendência contemporânea de atribuir males dramaticamente físicos, como o câncer, a comportamentos mentais do tipo depressão e resignação, defendeu que o mestre pagou o preço de ter engolido muito sapo, a fim de tornar a psicanálise palatável ao establishment científico da época, desconfortáveis os figurões do saber com a ênfase que a doutrina freudiana oferecia à sexualidade.
A indústria recrutou o charme de Sinatra, mas a grande cartada foi transformar o malefício já conhecido num benefício à saúde, com o aval de médicos de aluguel (Foto: Reprodução)
Edward (Eddie) Bernays foi o primeiro grande spin doctor da América. Seu portfólio é eclético. Em 1917, divulgava a turnê do tenor italiano Enrico Caruso pelo país; em 1953, orquestrava, com a United Fruit por trás do pano, uma campanha de difamação contra o governo democrático de Jacobo Árbenz Guzmán na Guatemala, finalmente derrubado com a assistência norte-americana. Bernays jogava leve ou pesado, de acordo com as circunstâncias. Manipulou, fraudou, inventou, criou. Ao longo de sete décadas, seu maior cliente foi uma indústria que produzia câncer.

Sem exagero, Eddie Bernays e o cigarro devem um ao outro, nos Estados Unidos, sua notoriedade. Pouco antes de morrer, mais que centenário, em 1995, mas se vangloriando de suas façanhas eróticas junto à jovem enfermeira que o acompanhava, o RP número 1 da América gravou um depoimento autobiográfico em que confessava: desde os anos 30, desconfiava dos efeitos mortíferos do fumo.
Escreveu uma carta a um executivo da área em que usava a palavra “carcinoma”. “Devemos estar preparados para o dia em que a opinião pública buscar um esclarecimento”, alertava, em 1933. Nem por isso se arrependeu. “Era parte do negócio”, resumiu. O homem que ensinou milhões de americanos e americanas a tragar admitiu, não sem uma ponta de cinismo: “Eu, por mim, sempre preferi chocolate”.

Ele e, a rigor, toda a América. Até a Primeira Guerra Mundial, fumar era um hábito masculino, privado e ritualístico. Cavalheiros de polainas e relógios de corrente de ouro saboreavam seus charutos após as refeições, na adequada parceria com o Bénédictine ou o Porto. De repente, havia uma guerra na Europa, a tensão dos combates, a solidão das trincheiras, e o cigarro, no molde em que é conhecido hoje, entrou na ração diária dos soldados americanos, juntamente com o amendoim e o corned-beef.

De volta para casa, os ex-combatentes disseminaram o vício, mas não suficientemente a ponto de agradar a George Washington Hill, o chairman da American Tobacco Company. O consumo de cigarros crescia nas camadas populares, mas Hill percebeu que, ainda assim, seu mercado parecia condenado, como os de ceroulas e de tacos de beisebol, a ficar circunscrito à metade do país. Para seduzir a outra metade – as mulheres –, ele contratou, em 1928, Eddie Bernays. O sobrinho de Freud iria revelar-se um gênio no marketing – e o gênio do vício.

Não que as mulheres não fumassem – apontaram, logo, logo, as pesquisas encomendadas por Bernays. Elas faziam do cigarrinho uma diversão doméstica íntima, com ares marotos de uma pequena transgressão. O desafio era, portanto, levar as fumantes para a rua – dar um jeito de transformar suas baforadas públicas num ato feminino de orgulho, de afirmação e de coragem, e não de culpa.
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Titio fumava 20 charutos por dia. Morreu de câncer. Eddie foi mais esperto (Foto: Reprodução)
A Parada da Páscoa, na Quinta Avenida, faz parte das festas de rua de Nova York do mesmo modo como a balbúrdia irlandesa do Dia de São Patrício ou a malemolência latina do Columbus Day. Trata-se de uma parada elegante, basicamente feminina, em que as senhoras se esmeram em seus chapéus, luvas, sombrinhas, rendas e fragrâncias (não por acaso, quando virou filme, Easter Parade veio a convocar a diva Judy Garland ao lado da presença chique e esvoaçante de um Fred Astaire). 

Bernays decidiu: a Parada da Páscoa de 1929 seria o Dia D do tabaco. Ele sabia como ninguém botar de pé um evento e, afinal de contas, precisava justificar aquele salário atordoante de 25 mil dólares ao ano (em dinheiro de hoje, 20 vezes mais). Começou a fazer aquilo que chamou de “cristalizar a opinião pública”. 

Espalhou a ideia de que cigarro era dietético. “Troque o doce por um cigarro”, dizia um anúncio da American Tobacco. Bernays pagou ao fotógrafo Nickolas Muray, o Steven Meisel da época, para que só clicasse suas tops magrelinhas com um cigarro na mão. Induziu o empresário da dança Arthur Murray a assinar uma carta, dizendo que a melhor coisa que suas bailarinas podiam fazer, para aplacar os rigores do regime severo, era se permitir um eventual cigarrinho. E foi aí que deu um passo em direção ao abismo ético: passou a contratar pareceres médicos.

De cara, foi logo buscar uma sumidade estrangeira: o doutor George F. Buchan, ex-chefe da Associação Inglesa de Médicos de Saúde Pública. “A melhor maneira de encerrar uma refeição é com uma fruta, café e um cigarro”, assinou resolutamente o doutor Buchan. “A fruta limpa os dentes. O café estimula o fluxo da saliva na boca e atua como um detergente bucal. Finalmente, o cigarro desinfeta a boca e acalma os nervos.”
Bernays distribuiu o dúbio paper entre os jornais amigos. E comprou espaço naqueles nem tanto. Bernays foi além. Tratou de encomendar novos atestados médicos. Tese: fumaça faz bem às cordas vocais. Foi ao Metropolitan e convenceu o primeiro time dos cantores de ópera a vender, em público, essa ideia. O cachê pagava a pena. 

Aproximava-se o grande dia: o domingo de Páscoa. Como o titio ilustre, Eddie Bernays parecia acreditar no inconsciente. E queria entender o oculto porquê da inibição das damas em pitarem à vista dos outros.
Consultou o doutor A. A. Brill, discípulo de Freud, o qual saiu-se com um interminável lero-lero: as mulheres tinham alcançado um grau de emancipação pessoal semelhante ao dos homens, mas lhes faltava um símbolo dessa emancipação. Cigarros poderiam vir a ser, para elas, as tochas da liberdade. Menção explícita a um dos símbolos mais queridos da América: a Estátua da Liberdade.

Sinos tocaram na cabeça do rapidíssimo Bernays. “Tochas da liberdade” – era o que lhe bastava. Cuidou pessoalmente do casting de modelos e acompanhantes – aqueles que iriam fazer o papel de casais da vida real. “Nada de atrizes conhecidas”, recomendou.
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Na Parada de Páscoa, modelos contratadas desfilaram o prazer de fumar (Foto: Reprodução)
Recrutou os mais notórios paparazzi da cidade. No dia seguinte ao desfile, em poses estudadas em que se destacavam os anéis fumegantes de suas baforadas, as damas de Nova York estampavam, com ou sem piteira, os novos emblemas de sua emancipação nas páginas dos jornais de costa a costa. De um dia para o outro, fumar em público passava a ser um sinal de distinção.

A relação com o tio distante – mas cada vez mais renomado – iria produzir um episódio desconcertante, se não caricato. Tio e sobrinho correspondiam-se com razoável assiduidade. Nas cartas, subjazia o desconforto de Freud em ver o sobrinho tão viciado na droga do consumismo. De repente, a sutil reposta de Eddie: convidar Herr Doktor a entrar no jogo. 

Freud refugiara-se em Londres quando o terror nazista começou a perseguir os judeus alemães e austríacos. Para reforçar o orçamento da família exilada, Eddie – que já agenciava o tio junto às editoras norte-americanas – inventou de pagar a Freud uma consultoria a respeito da correta cor da embalagem de um novo cigarro Lucky Strike. Freud, que estava longe de ser designer, apostou no verdinho-água. O palpite era um desastre – nunca foi adotado.

Em prol do fumo, Eddie Bernays, o mestre de cerimônias da grande farsa, ainda iria fazer uso, outras vezes, de suas ferramentas de dissuasão e de seus bem remunerados poderes de ilusionista. Mas, como notou seu biógrafo Larry Tye (The Father of Spin, Crown Publishers, NY, 1998, 306 páginas), Bernays, sempre agudo na hora de ressalvar seus verdadeiros interesses, chegou aos 104 anos invicto. Sem botar um único cigarro na boca.

Google, um gigante golpeado

Google, um gigante golpeado

por Carlos Drummond — publicado 21/07/2017 00h30, última modificação 20/07/2017 17h41
A Comissão Europeia aplica multa bilionária ao Google e traz alento a concorrentes prejudicados no Brasil
Shutterstock
Google
Poucas multinacionais são donas da internet, o que significa riscos para os indivíduos
A multa recorde de 2,4 bilhões de euros aplicada pela Comissão Europeia ao Googleno mês passado alimentou esperanças de alguma contenção, pela esfera pública, do poder dos monopólios globais que, no caso das empresas da internet, gera para a sociedade efeitos negativos muito além da economia e do consumo.

A punição foi aplicada por abuso da posição dominante do Google no mercado de mecanismos de busca, ao dar vantagem ilegal ao seu próprio serviço de comparação dos preços informados nos anúncios divulgados na internet, justificou a Comissão. Mais de 90% da receita da companhia provém de anúncios.

Caso o Google não interrompa a prática até setembro, receberá multa diária em valor correspondente a 5% do faturamento mundial da empresa-mãe, a Alphabet, que atingiu 26 bilhões de dólares no último trimestre do ano passado.  

Desde o início dos abusos, diz o relatório da Comissão, o serviço de comparação de preços do Google conseguiu aumentar seu volume de tráfego 45 vezes no Reino Unido, 35 na Alemanha, 19 na França, 29 nos Países Baixos, 17 na Espanha e 14 na Itália. As práticas ilegais provocaram baixas súbitas do tráfego para sites concorrentes, de 85% no Reino Unido, 92% na Alemanha e 80% na França. 

Não foi falha ou desleixo, mas um efeito planejado, dizem especialistas. “As pesquisas do Google não foram projetadas para fornecer os resultados mais relevantes e os melhores preços aos consumidores, mas para ele próprio ganhar mais dinheiro. Os consumidores ficam sujeitos a uma escolha reduzida de bens e serviços e, em última análise, pagam preços mais elevados do que se os resultados das buscas para compras oferecessem de fato as melhores opções”, sintetizou o FairSearch, grupo de empresas e entidades dedicadas à defesa da concorrência na busca online, a propósito da multa aplicada pela Comissão Europeia. 

O Google teria abusado de sua posição dominante também nos mercados do seu sistema operacional Android, para dispositivos móveis, e do serviço próprio AdSense, que permite aos sites publicar anúncios segmentados. Os dois casos, o primeiro deles denunciado pelo FairSearch, estão sob investigação pela Comissão Europeia.

A decisão da Comissão deu novo alento a sites brasileiros e empresas que lutam no Conselho Administrativo de Defesa Econômica contra o que consideram abusos de poder do gigante da internet no País. A E-Commerce, detentora dos sites Buscapé e Bondfaro, apresentou ao Cade duas denúncias contra o Google. Em 2013, acusou-o de “raspagem” de conteúdo do Buscapé e sua apresentação no Google Shopping americano, prática conhecida como scraping. A companhia disse que isso ocorreu apenas uma vez e se deveu a um erro. 

Em 2014, a E-Commerce alegou que o Google Shopping beneficiava o próprio site, em detrimento dos demais comparadores de preço, por meio do posicionamento privilegiado na modalidade chamada de “busca orgânica” e ainda com a apresentação do respectivo link na busca patrocinada, com fotos e em posição de destaque. As denúncias geraram processos em andamento no Conselho.

Outra denúncia foi encaminhada no ano passado ao Cade pela Yelp, empresa com site e aplicativos dedicados à avaliação de estabelecimentos comerciais sediada nos Estados Unidos. O Google estaria utilizando seu poder de mercado para favorecer o próprio mecanismo de buscas locais na internet por informações específicas sobre estabelecimentos no Brasil. Um processo foi aberto no órgão de defesa econômica.

O Google é objeto ainda de um inquérito do Cade instaurado em 2013, a partir de uma denúncia da Microsoft de imposição de restrições à operação entre plataformas de busca patrocinada pela interface AdWords. O resultado seria a criação de dificuldades para a realização do multihoming ou veiculação e gestão de campanhas de busca daquele tipo em mais de uma plataforma.
Lá e cá, o modo de operação é o mesmo.
“As práticas investigadas no Brasil possuem semelhanças com condutas do Google sob exame em outros países, embora em cada local os casos tenham suas particularidades. O exame dos processos, bem como as decisões proferidas sobre eles, é independente. No entanto, o andamento das investigações conduzidas por autoridades de outras jurisdições pode servir de subsídio à análise realizada pelo Cade”, informou à CartaCapital aquela autarquia, vinculada ao Ministério da Justiça.
A punição do órgão executivo da União Europeia ao Google amplia a perspectiva de alguma contenção do poder dos monopólios globais

Assegurar a concorrência em benefício do consumidor é importante, mas há um grande número de outros direitos violados. “A atenção de organismos europeus para a proteção da concorrência em ações de uso de poder dominante para autofavorecimento não se restringe ao comércio online. Há também posicionamentos acerca da coleta de dados pessoais”, sublinha Marina Pita, coordenadora do Coletivo Intervozes, parceiro de CartaCapital.
A agência alemã antitruste, diz, investiga se a maior rede social do mundo, o Facebook, abusa de sua dominância, forçando os usuários a aceitar termos injustos acerca da utilização de dados pessoais. 

Vários levantamentos mostram um grau de concentração da propriedade igual ou superior ao existente na mídia tradicional, reconhecido como elevado. Quanto mais rápido a sociedade se desvencilhar das ilusões de liberdade na internet e olhá-la com espírito crítico, portanto, melhor para ela. Christian Krell, diretor da Friedrich Ebert Foundation, da Alemanha, resume a situação nesta autocrítica: “Tivemos sonhos de que todos pudessem se informar de forma mais rápida e barata sobre tudo o que nos afeta.
E que pudessem compartilhar sua visão das coisas com os outros. O resultado foi um algoritmo do Facebook que usa cerca de 100 mil indicadores para escolher o que lemos com uma precisão espantosa, individualmente orientada para cada pessoa e seus pontos de vista, ao mesmo tempo que os reforça. Sem o menor vestígio de discussões ou debates mútuos sobre questões de interesse coletivo”.

O pesquisador recorre a um exemplo específico para reforçar seu argumento: “Quando a busca de nomes afro-americanos provoca o surgimento, na tela, de propaganda de agências de proteção ao crédito que fornecem informações sobre infratores, esse padrão é baseado em julgamentos de valor incorporados em uma lógica racista, segundo a qual afro-americanos são considerados com maior frequência criminosos”.

Krell propõe estabelecer uma dimensão ética para a internet, mas é necessário saber quem deverá defini-la. A autorregulação não é solução, por se tratar de um oximoro, conforme alertou o economista Joseph Stiglitz. A impossibilidade de as empresas vigiarem a si próprias, sublinhada pelo Nobel de Economia, é demonstrada todos os dias com revelações de práticas corporativas ilegais, não só contra os consumidores, mas em prejuízo também dos cofres públicos, a exemplo da sonegação sistemática. 

Na especialidade de tungar governos e contribuintes, os gigantes da internet são insuperáveis, mostrou o economista Gabriel Zucman, em levantamento abrangente sobre a utilização dos paraísos fiscais. “Os grandes países europeus e os Estados Unidos, onde os reis da sonegação – os Googles, Apples e Amazons – produzem e vendem a maior parte dos seus produtos e serviços, mas com frequência pagam poucos impostos, são os maiores prejudicados.
Grande parte do lucro do Google, que é transferido para as Bermudas, é ganha na Europa; na ausência de paraísos fiscais, essa empresa pagaria mais impostos na França e na Alemanha”, denuncia Zucman.

O controle público esbarra em barreiras nacionais, enquanto as múltis da internet contam com ampla liberdade de articulação transnacional. “Tanto a infraestrutura de rede como os serviços oferecidos e os estoques de dados gerados são, sobretudo, propriedade privada de algumas empresas multinacionais. Essa estrutura faz a digitalização moldar toda a nossa vida e a torna altamente vulnerável”, alerta Krell.

Enquanto, na Europa, instituições e fóruns diversos enfrentam os monopólios, no Brasil, o governo paralisou o funcionamento do Comitê Gestor da Internet, considerado referência internacional na governança multissetorial da rede, denuncia o Intervozes. Composto de representantes do governo, do setor privado, da sociedade civil e de especialistas técnicos e acadêmicos, coordena a atribuição de endereços ou protocolos (os IPs) e o registro de nomes de domínios com o sufixo “br”. Além disso, estabelece diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da rede no Brasil, como estabelecido no Marco Civil da Internet e em seu decreto regulamentador. 

O órgão corre, entretanto, risco de desmonte, pois há mais de um mês o governo segura a edição de uma portaria interministerial de nomeação dos novos integrantes do CGI e resolveu paralisar as atividades do órgão, enquanto as designações não saírem.
Resultado, na avaliação do Intervozes, do incômodo de determinados setores, notadamente os operadores privados e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), com as ações do Comitê Gestor, contrário ao estabelecimento de franquia de dados na internet fixa e defensor da neutralidade de rede, rejeitada pelas empresas de telecomunicações atuantes no setor, empenhadas na adoção de modelos de negócio mais lucrativos à custa de prejuízos para os usuários.

Belluzzo: "Lava Jato e Carne Fraca produziram 5 a 7 milhões de desempregados"

19/07/2017 18:41 - Copyleft

Belluzzo: "Lava Jato e Carne Fraca produziram 5 a 7 milhões de desempregados"

Economista analisa prejuízos causados pela conduta de setores do Poder Judiciário no Brasil


Daniel Giovanaz - Brasil de Fato
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A operação Lava Jato paralisou obras em todo o Brasil, causou desemprego e contribuiu para a desindustrialização do país. Se os governos do PT esboçaram alguma tentativa de superar o desmonte da economia nacional promovido nos anos 1990, esse projeto foi por água abaixo nos últimos dois anos.

Em entrevista ao Brasil de Fato Paraná, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo apresenta um cenário de desorientação e falta de perspectivas no campo econômico. O golpe de 2016 representou um retrocesso, e as reformas que estão por vir não devem melhorar esse cenário. "É como se o motor do carro começasse a pifar no meio da estrada, e o motorista quisesse consertar a lataria", ironiza.

Professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Belluzzo também é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e faz parte do conselho deliberativo do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento.

Confira os melhores momentos da entrevista:

Brasil de Fato: A força-tarefa da Lava Jato trabalha com a possibilidade de se recuperar R$ 38,1 bilhões em acordos com pessoas físicas e jurídicas. Esse valor é suficiente para reparar os danos aos cofres públicos?
Luiz Gonzaga Belluzzo: Esse valor não chega nem perto do prejuízo causado à indústria e à economia brasileira. Se você for balançar os efeitos sobre as cadeias produtivas, que foram afetadas pelas decisões da Lava Jato e da Carne Fraca, os R$ 38 bilhões são uma coisa ridícula. Cinco a sete milhões de desempregados foram produzidos por essas ações, além da recessão e da entrega do pré-sal.

Outro efeito desses movimentos, como a Lava Jato, é que se concentrou toda a atenção da sociedade na questão da corrupção, que é algo realmente importante. Mas, como disse o Papa Francisco, não vamos conseguir extirpar a corrupção de uma sociedade cujo maior valor é o dinheiro. É preciso confiná-la, controlá-la.

A relação entre empresas gigantes e o Estado exige uma vigilância muito grande. É preciso "cercar o bicho", sabendo que não tem como matar o bicho. Tratar a corrupção como o único problema da sociedade é um problema.

No caso específico da Lava Jato, o Poder Judiciário não poderia ter evitado os prejuízos que foram causados com a suspensão dos contratos da Petrobras?
Os indivíduos, especializados em suas funções, não são capazes de compreender os efeitos ou as consequências de seus atos. Esse é um fenômeno muito comum na sociedade contemporânea.

Os juízes e procuradores estão praticando, digamos, de boa fé e com boas intenções, uma série de ações que estão produzindo efeitos muito negativos na vida de outras pessoas.

Eu não posso supor que eles estão fazendo isso de má fé, nem na Lava Jato nem na Carne Fraca. Mas isso é muito parecido com as preposições do mercado financeiro e dos seus porta-vozes, a imprensa, que reclamaram um ajuste fiscal a todo custo.






As duas iniciativas são muito parecidas. A economia vinha desacelerando, mas com resultados ainda bem razoáveis em termos de déficit público e de comportamento da dívida pública, que é o que os preocupa, de fato: a dívida pública estava em 53% do PIB [Produto Interno Bruto].

No caso do mercado financeiro, eu não diria que as intenções são tão boas. Os interesses deles pesam mais do que as intenções.

Ou seja, a Lava Jato converge com os interesses do mercado financeiro, mas não está necessariamente orientada por eles?
Ela não está orientada pelo mercado financeiro. Mas essa maneira de pensar, de analisar, nos dois casos está orientada por abstrações que não levam em conta como o mundo concreto funciona. A economia virou isso. Hoje em dia, o que há são elucubrações, não são observações.

Tanto no Judiciário como entre os economistas, nós temos pessoas que não sabem nada do que está sendo discutido em outras áreas. Isso é verdade para os dois campos. Mas não é exatamente uma questão individual: é o tipo de formação que se está dando aos profissionais, especializando demais, e às vezes de maneira ridícula. Não se pode subtrair a economia aos condicionantes sociais e políticos em que ela está metida, assim como o Direito.

Se você olha o currículo dos juízes e procuradores, todos eles tiveram alguma passagem por escolas dos Estados Unidos. E muitos economistas também. Eu conheço pessoas que foram estudar na Alemanha, na França, e o nível é diferente.

O pensar compartimentado tem relação com a escola americana. A filósofa [estadunidense] Martha Nussbaum faz uma crítica muito aprofundada a respeito da degradação do ensino nos Estados Unidos. E não é só ela. O universitário americano está começando a se ressentir disso. E a excessiva especialização também ocorre no Brasil.

Os meios de comunicação, que poderiam oferecer uma análise mais ampla das repercussões da Lava Jato, também não cumprem esse papel.
Todas essas circunstâncias, todas essas condições devem ser levadas em conta para se fazer uma avaliação do que está fazendo aqui. E quem adota os parâmetros da imprensa brasileira fica submetido a critérios de observação da realidade que são absolutamente impróprios.

Tudo foi transformado em uma disputa entre o bem e o mal. Isso é muito ruim, porque o mundo moderno não se compadece dessas separações e oposições. Tanto não se compadece que até mesmo o Papa tem procurado fazer um contraponto. Ele diz que nós não podemos pretender ser perfeitos: nós temos que melhorar. E se nota nas manifestações dos procuradores de Curitiba que eles imaginam que podem, através de uma truculência moral, melhorar o mundo.

Não é condenável querer melhorar o mundo. Ao contrário, é uma coisa justa e boa. A questão é que, para fazer isso, é preciso levar em conta o ambiente em que se opera.

De volta aos efeitos econômicos da Lava Jato, eu inverto aquela frase “há males que vêm para bem”, e digo “há bens que vêm para o mal”. Isso não é uma ironia: é uma constatação.

Se você não tem paciência para compreender os efeitos das suas ações, você vai certamente provocar um mal.

Além de aprofundar o rombo na Petrobras, a Lava Jato paralisou empreendimentos e “quebrou” empresas privadas, acusadas de corrupção. O senhor analisa esses dois efeitos separadamente, ou eles são parte de um mesmo processo de desmonte da economia?
O processo é o mesmo. O Brasil, depois da crise da dívida externa, por razões compreensíveis, sociológicas e culturais, ingressou em outra etapa do capitalismo. Essa etapa é conhecida como período neoliberal e dura até agora, apesar dos fracassos que produziu.

Esse foi um divisor de águas. O Brasil vinha estruturando sua indústria desde os anos 1930, e depois no pós-Guerra, com Getúlio [Vargas] e o Juscelino [Kubitschek], e uma pequena interrupção entre 1961 e 1963. E os militares [a partir de 1964] retomaram o projeto de industrialização, mantiveram o arranjo produtivo institucional entre crédito dirigido, bancos públicos, empresas estatais e articulação com o setor privado. E o “milagre brasileiro” se apoiou nisso, até chegar no [Ernesto] Geisel, que cometeu o pecado do endividamento externo.

E depois da chamada “década perdida”, de várias tentativas de estabilização, vimos uma interpretação simplificada e ideológica do período hiperinflacionário. Vendeu-se a ideia de que era preciso abrir a economia, sem nenhum cuidado, manter a empresa brasileira letárgica à concorrência para ganhar musculatura, e diminuir o papel do Estado. Parecia óbvio que nós precisávamos privatizar tudo.

O essencial é que o governo tucano, do Fernando Henrique Cardoso, desarticulou o arranjo anterior e promoveu a destruição da indústria brasileira. Se, no final dos anos 1980, a indústria tinha quase 25% de participação no PIB, hoje tem 9%. E isso não foi revertido no período subsequente, com o Lula.

O senhor parece considerar os governos PT como parte do período neoliberal, que começou nos anos 1980. Houve tentativas, ao menos, de se retomar o projeto de industrialização do país nos governos Lula e Dilma Rousseff?
Quando eu digo que os governos PT fazem parte do período neoliberal é porque não se tocou em questões fundamentais. Tivemos um movimento de expansão da economia, por conta de um ciclo de consumo mundial que envolvia o ciclo de commodities, e isso o Lula fez muito bem. Ou seja, “puxar” o pessoal de baixo para cima. Os programas sociais melhoraram muito a vida das pessoas.

Mas, em termos de indústria, houve certa hesitação. É claro que ele não contava mais com aquela articulação dos períodos anteriores. Era preciso reconstruir tudo aquilo. Seja como for, o pré-sal foi concebido para fazer esse papel, com o chamado “conteúdo nacional”.

Por que a China, com todas as ressalvas necessárias, conseguiu altos índices de crescimento econômico, e o Brasil não?
A China fez exatamente o contrário do que o Brasil fez, no início do período neoliberal. A China deflagrou o ciclo de commodities, em uma relação simbiótica com os Estados Unidos, e avançou com muita velocidade em todos os setores industriais, usando bancos públicos, empresas públicas e articulação com o setor privado. Foi assim que eles construíram a maior rede de metrôs do mundo, a partir dos anos 1990.
São as empresas estatais chinesas que definem a relação que vão manter com o setor privado. O que aconteceu com a Petrobras, de certa forma, é que se inverteu a relação: as empresas privadas começaram a determinar as políticas da Petrobras. Com o neoliberalismo, houve uma tremenda invasão do privado sobre o público.
A gente costumava dizer, antes do neoliberalismo, que o Brasil era um país que tinha essa gana de construir. Tínhamos um empresariado que era apoiado pelo Estado, muitos deles até criados pelo Estado, e que tinha um compromisso com as suas empresas e com o desenvolvimento nacional. Nós conseguimos desmontar tudo isso, enquanto os chineses estavam montando. E a nossa economia ficou estagnada.
Não vamos nos iludir. A taxa média de crescimento, até os anos 1980, era de 7% ao ano. No período Fernando Henrique, caiu para 2,3%. No período Lula, houve uma corcova em função do choque positivo internacional, mas depois a coisa voltou ao nível normal, por causa desse histórico de destruição da indústria.

E o que se pode esperar das reformas trabalhista e previdenciária, diante da necessidade de recuperação econômica do país?
A reforma trabalhista e a reforma previdenciária não tem nada a ver com o que vai acontecer nos mercados de trabalho daqui para frente. É como se o motor do carro começasse a pifar no meio da estrada, e o motorista quisesse consertar a lataria. Você entende? Pifou o motor, conserta a lataria. Isso é brincadeira! É claro que a economia vai ter suspiros, mas sempre funcionando lá embaixo, porque não tem dinamismo. É só olhar os últimos vinte anos.

A Alemanha está desenvolvendo seu programa de indústria 4.0, a China e os Estados Unidos também, com menos eficácia, e nós aqui estamos fazendo o quê? Não existe nem a suposição de que nós vamos fazer algo parecido.

Estamos, cada vez mais, caminhando para uma economia de quinta classe. Sinto muito, e fico preocupado. A economia brasileira não só está estagnada, como não há nenhuma proposta de mudança estrutural.

Qual a mudança estrutural necessária para o Brasil neste momento, do ponto de vista econômico e industrial?
A mudança passa pelo fortalecimento do Estado. Não se pode esperar, a não ser através da iniciativa clara do setor público, que haja investimentos em tecnologia e inovação, para desenvolver o país. A economista italiana Mariana Mazzucato demonstra que o sistema de inovação exige um aporte muito grande de recursos, tanto humanos quanto financeiros. Porque a inovação tem um risco muito grande, e o Estado tem que mitigar esse risco.

O Ipad, por exemplo, é originário de um investimento da indústria bélica e espacial americana. Depois é que entrou o Steve Jobs, no final do processo.

Eu não estou querendo minimizar, pelo contrário, eu estou exaltando o papel do empresário. Só que, hoje em dia, objetivamente, a articulação é essa.
Edição: Ednubia Ghisi

Vídeo: Naomi Klein e Jeremy Corbyn debatem o mundo que queremos

18/07/2017 16:05 - Copyleft

Vídeo: Naomi Klein e Jeremy Corbyn debatem o mundo que queremos

Confira aqui o bate-papo entre duas das mais importantes figuras da esquerda anglo-saxã sobre como chegarmos ao mundo que nós queremos


The Intercept Brasil
Reprodução






 

Naomi Klein: Jeremy Corbyn, que maravilhoso te encontrar novamente. A última vez que nos vimos foi em Paris, durante a Conferência do Clima.


Jeremy Corbyn: Foi durante a Conferência do Clima. Foi uma noite úmida e tormentosa. Mas que reunião maravilhosa tivemos, com pessoas maravilhosas.

 

NK: Está sendo extraordinário estar aqui no Reino Unido esta semana e ver o espaço político que você criou. E ver que agora os Tories estão tentando se valer de alguns dos seus projetos, se mexendo para tentar atrair os jovens, falando em acabar com as anuidades das universidades.
 
JC: Bem, justiça social não está protegida por direitos autorais, então tudo bem.
 
NK: Queria conversar sobre esse momento extraordinário em que o projeto iniciado por Thatcher neste país, e por Reagan nos Estados Unidos – o tal consenso que, na verdade, nunca foi um consenso -, a guerra à coletividade está desmoronando. Mas é também um momento perigoso, de vácuo ideológico, porque ideias perigosas também estão surgindo. Então, qual o plano para garantir que as ideias progressistas e benéficas ocupem esse vácuo?
 
JC: Eu acho que o sentimento de confiança está crescendo, principalmente entre os jovens, que são os que podem fazer alguma coisa, e o futuro pertence a eles. E também entre todos aqueles que… As certezas trazidas por um sistema de verdadeiro bem-estar, a segurança do bem-estar, é por isso que estamos lutando.
 
Acabamos de sair de uma campanha de eleição geral, que começamos numa situação política muito difícil e terminamos ganhando três milhões de votos a mais do que em 2015. Foi o melhor resultado do Partido Trabalhista em muitas décadas.
 
Houve uma grande guinada pró-trabalhista, mas não foi o suficiente, infelizmente, para formar maioria no Parlamento. Então, agora vivemos um momento de grande sentimento de confiança entre os que fizeram campanha pelo fim da desigualdade salarial no setor público, por mais investimentos nos serviços públicos, uma grande confiança. E um alto nível de incertezas por parte da direita e do Partido Conservador.




 
NK: Minha impressão é que o que sua campanha fez foi provar que quando você apresenta suas ideias, sua visão ousada de um mundo que nós queremos – não apenas como uma oposição à austeridade, sabe? Não apenas um “não”, mas principalmente uma visão de um mundo que poderia ser bem melhor do que nós temos. E isso empolga as pessoas.
 
JC: Com certeza, a mensagem mais forte da campanha eleitoral… Falei isso em vários comícios e eventos que organizamos: “Olhem em volta, olhem a multidão. Olhem uns para os outros. Vocês são todos diferentes. São todos únicos. São todos indivíduos. Têm trajetórias, línguas diferentes. Comunidades étnicas diferentes. Mas vocês estão todos unidos. Unidos em prol do que querem em termos de coletividade para a sociedade”. E eu acho que a campanha eleitoral foi uma mudança de rumo, saindo do individualismo supremo da direita em direção à ideia de que somos uma sociedade melhor quando pensamos no bem coletivo.
 
NK: E como fica a visão de mundo após a vitória? Qual a importância disso?
 
JC: É crucial apresentarmos nossa visão de mundo. Trata-se de agir para lidar com questões como injustiça, desigualdade, pobreza e, acima de tudo, esperança e oportunidade para os jovens. Esperança de ir à faculdade, à universidade; oportunidade de conseguir um emprego decente. Trata-se também de pensar em como contribuiremos para o resto do mundo e como vamos nos relacionar com o resto do mundo.
 
Eu quero uma política externa que tenha por base os direitos humanos, o respeito à lei internacional, a identificação das causas das ondas de refugiados, das causas da injustiça em todo o mundo. Estamos trabalhando para isso. E, de fato, ocorreram coisas horríveis durante a campanha eleitoral. Logo antes da eleição começar, teve um ataque em Westminter e no Parlamento. Depois, foi a terrível bomba em Manchester. E também um ataque em Londres, na London Bridge.
 
NK: E você praticamente cometeu uma heresia política ao falar de algumas das causas disso tudo. Mesmo assim, as pessoas pararam para ouvir.
 
JC: De maneira nenhuma estou minimizando o horror do que aconteceu ou as coisas terríveis que esses indivíduos fizeram. Mas eu só disse que temos que olhar para o contexto internacional no qual esse tipo de coisa foi crescendo. E lembro como se fosse ontem de falar, em 15 de fevereiro de 2003…
 
NK: É muito importante, nesse momento, que os norte-americanos entendam que você conseguiu falar sobre isso, e que as pessoas pararam para ouvir porque elas sabem que é verdade. Nós não sabemos o que vai acontecer durante o governo Trump. Mas sabemos que Donald Trump tem toda a intenção de tirar vantagem de qualquer crise levar adiante seus projetos extremamente reacionários e xenófobos. Ele tentou até explorar os ataques de Manchester, dizendo que isso tinha acontecido por conta de imigrantes cruzando nossas fronteiras. Tentou se beneficiar do ataque à London Bridge, dizendo que era por isso que precisávamos proibir muçulmanos de entrar nos Estados Unidos.
 
JC: E ele também insultou o prefeito de Londres, que é o primeiro muçulmano eleito para um cargo importante na Europa Ocidental. As pessoas ficaram furiosas por conta das palavras que ele usou para falar de Sadiq Khan.
 
NK: O que você tem a dizer a alguns líderes mundiais que acham que não podem fazer muita coisa para fazer frente a Trump? Sabe, talvez até eles bolem um meme sacana ou algo assim. Mas basicamente vão acolher Trump de braços bem abertos. Qual você acha que deve ser a postura de outros líderes mundiais que querem defender valores progressistas neste momento?
 
JC: Bem, eu acho que eles têm que se encontrar com Trump e debater com ele, como fariam como qualquer outro líder. Eu fiquei chocado com a linguagem usada por ele durante a campanha eleitoral – sobre mulheres, muçulamanos e mexicanos, sobre outras pessoas que fazem parte da sociedade. Também fiquei horrorizado com as palavras usadas para falar das discussões da Conferência do Clima de Paris. São problemas globais muito, muito sérios. Que tipo de mundo vamos deixar no futuro? O que estamos fazendo com esse planeta? E ele achou que seria uma boa oportunidade para promover indústrias poluidoras.
 
NK: No caso, ele disse inclusive que ia negociar um acordo melhor.
 
JC: Bem, não sei direito o que ele quer dizer com “acordo melhor”, seria um debate interessante. Mas tendo trabalhado, como você trabalhou, por muito tempo com essas questões, o fato da Índia e da China terem finalmente, numa negociação formal, concordado com a ideia de que deve haver limites para as emissões, para a poluição. Os Estados Unidos também terem concordado com isso no governo Obama e agora desistirem no governo Trump, é algo muito triste.
 
NK: Mas como eles estão sendo tão desonestos nessa questão do clima, acho que há um senso de responsabilidade que está levando todo o resto a fazer mais neste momento. Não é apenas: “Ok, ele baixou tanto o nível que, em comparação, qualquer um fica bem na foto”. Estamos vendo muitos exemplos disso. Estamos vendo – inclusive nos Estados Unidos, estamos vendo cidades chamarem para si a responsabilidade, dizendo que vão acelerar a transição para energias renováveis. Internacionalmente isso também vem acontecendo.
 
JC: Eu acho que a imagem dos Estados Unidos está sendo frequentemente apresentada como a imagem do que Donald Trump diz todo dia. Enquanto que, no mundo real, veja quantos empregos na área de energia renovável a Califórnia cria sozinha, são centenas de milhares. Veja o aumento de sistemas de energia renovável nos Estados Unidos, quantos estados e cidades levam a sério a proteção do meio-ambiente e contenção das mudanças climáticas.
 
NK: Queria falar um pouco sobre como meus amigos nos Estados Unidos estão se sentindo neste momento. Você foi uma fonte de inspiração com sua campanha eleitoral e sua ascensão à liderança do Partido Trabalhista.
 
Tenho que lhe dizer que as pessoas estão se sentindo meio desestimuladas nos Estados Unidos. São contra Trump, mas também contra um Partido Democrata que não quer saber de saúde pública, de acesso universal à saúde. Parece que querem continuar a traçar o que eles veem como um caminho seguro de centro. Mas o que a gente vem observando é que não é nada seguro, é um caminho errado. Não tratam da demanda urgente por bons empregos, por educação pública e gratuita, por uma saúde acessível. O que você tem a dizer para essas pessoas que apoiaram Bernie [Sanders] e agora estão se sentindo muito frustradas?
 
JC: Bernie me ligou no dia seguinte à eleição. Eu estava meio dormindo, assistindo a alguma coisa na TV. E Bernie me ligou para dizer: “Parabéns pela campanha. Fiquei interessado nas suas ideias. De onde você as tirou?” E eu disse: “Então, foi de você, na verdade”.
 
O que eu diria para as pessoas: não desanimem. No fim das contas, seres humanos sempre querem fazer as coisas juntos. Querem coletividade. E esse é o tipo de sociedade que estamos tentando construir. Começamos a campanha numa situação política muito delicada e divulgamos um manifesto com uma abordagem coletiva, bem específico nas suas intenções, defendendo o fim das anuidades, o aumento do salário mínimo, e o resultado foi o maior aumento de votos no nosso partido desde a Segunda Guerra Mundial. Ganhamos o apoio e a participação de um número muito grande de pessoas. Não ganhamos a eleição. Eu queria que tivéssemos ganhado. Mas conseguimos mudar o debate da campanha, do mesmo modo que a candidatura do senador Bernie Sanders nas primárias democratas provocou muita mobilização.
 
NK: Mas você ganhou a liderança do Partido Trabalhista. E essa campanha não foi tão bem-sucedida dentro do Partido Democrata. Você acha que as pessoas têm que continuar lutando pela alma do partido?
 
JC: Bem, essa é a alma das pessoas, não é?
 
Não sou eu quem tem que dizer que organizações as pessoas têm ou não têm que ter nos Estados Unidos, até porque o sistema partidário norte-americano é bem diferente.
 
O que fizemos foi mudar os termos do debate. Mas o outro ponto fundamental, e isso vale para os dois lados do Atlântico, é a estratégia de campanha. Você tem que bater de porta em porta e identificar eleitoras. Isso é fundamental, crucial. Mas se você só é visto pelo prisma da mídia, que tem uma visão bastante de direita e conservadora, o que vai acontecer quando você bater à porta de um eleitor é que você só vai ouvir o eco do que ele ouviu num canal de TV de direita ou pela mídia impressa.
 
A mídia social, a tecnologia e as técnicas disponíveis nessas redes são uma oportunidade inédita de divulgar sua mensagem. Pense bem, a única coisa que as pessoas que militavam por justiça social na Chicago dos anos 20 podiam fazer era imprimir os próprios jornais, se pudessem pagar por isso, fazer panfletos e distribuí-los na fila do pão. Eu sou da época que você tinha que imprimir seus próprios panfletos e sair distribuindo. Hoje você pode mandar qualquer coisa via mídia social e sua mensagem chega a milhões de pessoas em cinco minutos. As oportunidades estão aí. E não é regulado, não é censurado, não é controlado.
 
NK: Eu acho que você foi tratado pela mídia e pela elite midiática da pior maneira possível. E mesmo assim, não funcionou. Na verdade, o tiro saiu pela culatra e contribuiu para um sentimento geral de perda de confiança em muitas dessas instituições elitistas.
 
JC: Acho que é por aí. Depois de um certo tempo, o discurso abusivo da mídia acaba por criar uma curiosidade sobre você.
 
NK: Você fala em mudar o debate, e isso tem claramente acontecido. Vimos isso no caso da catástrofe da Torre Grenfell, aquela cena de crime. E esse acontecimento terrível está sendo interpretado pela sociedade britânica como uma prova clara de um sistema falido que não valoriza a vida humana, que hierarquiza vidas.
 
JC: O que ficou exposto foi o estilo de vida moderno e urbano. Esse é o bairro de Londres mais rico do país. É um bairro muito, muito rico. E o conselho do bairro deu um desconto para os maiores pagadores de impostos no ano passado. Deu a eles um presentinho.
 
NK: O dinheiro de volta.
 
JC: O prédio tinha algumas centenas de moradores. Alguns deles eram inquilinos do conselho local, do distrito de Kensington e Chelsea. Alguns apartamentos tinham sido comprados de maneira independente, eram sublocados ou sub-sublocados. Ninguém sabia muito bem quem morava no prédio. O sistema inteiro ruiu. O prédio virou fumaça e o resultado foi uma catástrofe, muitas e muitas mortes. Provavelmente nunca saberemos quantas pessoas morreram lá. E a realidade é que foi uma consequência da regulação insuficiente, da desregulação. Foi um inferno na torre de pobres sendo queimados no bairro mais rico do país.
 
É um alerta para a segurança nos prédios. É um alerta para essa ideia de que se pode viver nesse maravilhoso mercado livre, a Valhalla do futuro, rasgando qualquer tipo de regulação que possa ser um entrave às oportunidades de negócio do setor privado. Então o debate em torno dessa questão amadureceu bastante. Eu fui lá no dia seguinte e passei muito tempo conversando com gente que escapou da torre, com bombeiros, paramédicos, motoristas de ambulância e policiais traumatizados, que se preparavam para entrar no prédio, que estava sendo resfriado após o incêndio, para buscar corpos. Eles são os verdadeiros heróis nisso tudo.
 
NK: Tem uma parede – que você já deve ter visto – sobre a qual moradores colaram perguntas para as autoridades. E essas perguntas são de cortar o coração. Crianças que perguntam: “Minha escola é segura?”. Tem uma pergunta de uma criança de 10 anos: “Por que precisamos disso para nos unir?”
 
JC: Essa é uma boa pergunta.
 
NK: É a mesma lição aprendida a cada período de crise, quando somos testados. Podemos nos fechar e nos voltar uns contra os outros. Vimos muito disso depois do 11 de Setembro nos Estados Unidos, quando muçulmanos foram usados como bodes expiatórios e perdemos muitos das nossas liberdades tanto no nosso país quanto no resto do mundo, com leis draconianas sendo aprovadas. Guerras foram declaradas em nome daquele ataque.
 
JC: Com certeza, a resposta ao racismo, à pobreza, à desregulação está na força da comunidade e do coletivo. Se Grennfell deixa uma lição, tem de ser essa.
 
NK: Queria lhe perguntar se tem algum momento específico dessa campanha que você vai lembrar como um momento de esperança, em que você tenha visto o país no qual você gostaria de viver, ou um sinal dele.
 
JC: Um senhor foi a um comício em Hastings, uma cidade de pescadores na costa sul. Ele tinha 91 anos. Eu brinquei com ele porque tinham me dito que ele tinha 92. E ele me perguntou como eu tinha coragem de dizer que ele tinha 92 se ele só tinha 91. Ele entrou para o Partido Trabalhista em 1945, é membro desde essa época. Muito ativo a vida toda. E ele me falou que este era o período de sua vida em que estava se sentindo mais esperançoso. Me contou que a mãe dele tinha sido uma sufrafista que tinha militado pelo direito das mulheres ao voto na época da Primeira Guerra Mundial. E que o avô dele tinha participado do cartismo em 1850, um movimento que ajudou a trazer alguma democracia à Grã-Bretanha. E eu pensei: esse homem veio a um comício no sábado de manhã com essa idade porque ele está cheio de esperanças para os jovens.
 
Ficamos marcados como uma campanha cheia de pessoas jovens e idealistas. Claro, tinha mesmo muitos jovens conosco, e muitos deles com ideais e imaginação brilhantes. Tinha também muita gente mais velha que chegou dizendo: “Eu quero algo melhor para meus netos. Quero algo melhor para a sociedade do futuro”. Foi um encontro de muitas pessoas. 
 
NK: Eu queria agradecer muito sua liderança e sua ousadia, porque elas não estão inspirando pessoas só aqui neste país. Acho que estão arrebatando gente do mundo inteiro, pessoas que estão precisando de uma força inspiradora neste momento, e principalmente nos Estados Unidos.
 
JC: Muito obrigado. Não é só uma questão de mim ou de você como indivíduos. Quando as mentes estão abertas, não há limite para o possível.
 
Tradução: Carla Camargo Fanha




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