domingo, 10 de setembro de 2017

Argentina: onde está Santiago Maldonado? Macri revivendo a ditadura militar argentina que assassinou mais de 30mil

Internacional

Direitos Humanos

Argentina: onde está Santiago Maldonado?

por Dafne Melo — publicado 06/09/2017 00h19, última modificação 05/09/2017 17h01
Testemunhas afirmam que jovem desapareceu após ser detido pela polícia durante repressão aos povos mapuches em região disputada pelo grupo Benetton
Eitan Abramovich / AFP
Santiago Maldonado
Em Córdoba, manifestante protesta em favor de Maldonado, na sexta-feira 1º
“Aparição com vida já!”. “Levaram-no vivo, vivo o queremos”. As palavras de ordem criadas na década de 70 por organizações de direitos humanos durante a última ditadura militar argentina – que deixou em sete anos um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos – voltaram a ecoar no país vizinho. Na sexta-feira 1º, milhares de pessoas foram às ruas de Buenos Aires, unidas pela mesma pergunta: onde está Santiago Maldonado?
O jovem de 28 anos foi visto pela última vez há um mês, no dia 1 de agosto, durante um protesto realizado por mapuches, povo indígena da Argentina e do Chile, na região de Cushamen, na província de Chubut, região da patagônia argentina.
Maldonado participava da ação junto aos indígenas quando a Gendarmeria, uma força policial militar que responde diretamente ao executivo nacional, reprimiu violentamente a manifestação, sem mandato judicial, em uma operação que contou com cerca de 14 veículos e 100 homens armados a fazer disparos de balas de borracha e de chumbo. Segundo testemunhas, Maldonado tentou fugir da repressão, mas foi capturado, agredido fisicamente e arrastado até um dos veículos. “Tenho um deles aqui”, teria gritado um policial. Desde então, nada se sabe sobre seu paradeiro.
O jovem era da província de Buenos Aires, mas vivia na cidade de El Bolsón, próxima à comunidade de Cushamen, da qual se aproximou por solidariedade à luta dos mapuches. Há séculos esse povo luta para permanecer em suas terras ancestrais e contra a criminalização.
Conforme a disputa de terras se acirra, também cresce a perseguição política aos mapuches. Um de seus principais líderes nessa região, Facundo Jones Huala, encontra-se atualmente preso sob a acusação de terrorismo. No dia anterior à desaparição de Santiago, mapuches haviam realizado um protesto pela libertação de Huala.
Santiago Maldonado
Durante protesto, manifestante é preso nas cercanias da Praça de Maio, em Buenos Aires, também na sexta-feira 1º (Foto: Raul Ferrari / Telam / AFP)
O principal grupo econômico atuante na região pertence à Benetton, empresa italiana mundialmente conhecida por sua atuação no ramo têxtil. A Benetton é a proprietária das terras ocupadas pela comunidade de Cushamen,
Silvia Adoue, argentina radicada no Brasil, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e representante dessa universidade no Conselho Estadual para os Povos Indígenas de São Paulo, afirma que o Grupo possui 900 mil hectares de terra na Argentina, sendo que a maior parte delas está na região patagônica. "O que a Benetton diz oficialmente é que o interesse na região é obter terras para criação de ovinos, para fins têxteis, mas há estudos que apontam para a presença de minerais na região. Ali estaria o real interesse em obter tanta terra na região patagônica", diz Adoue.
Ela lembra que o drama dos mapuches diante da pressão econômica é anterior ao governo neoliberal de Mauricio Macri. "Hoje, na Argentina, existe uma cadeia extrativista bastante predatória, do que a prática do fracking é um exemplo, e na ponta dessa cadeia estão os territórios de povos originários, como os mapuches", afirma. "Por isso também a resistência é tão importante para enfrentar esse modelo que não é algo de agora apenas, mas já havia se intensificado com o modelo neodesenvolvimentista anterior", diz, em referência ao governo de Cristina Kirchner. 
Omissão do governo
Um amplo espectro de personalidades e organizações políticas e de direitos humanos da Argentina vêm cobrando que o governo de Maurício Macri averigue as denúncias contra a Gendarmeria e busque os responsáveis pela repressão e pelo desaparecimento do jovem. Além das mobilizações pelo país, o assunto vem dominando as redes sociais e os meios de comunicação há um mês. Mesmo veículos oficialistas como El Clarín e La Nación se veem obrigados a tratar do tema, ainda que para reiterar a versão oficial que, até o momento, é de negação.
A ministra de Segurança Pública, Patrícia Bullrich, desde o início, busca reiteradamente defender a ação dos gendarmes e sustenta que não há provas de que policiais sequestraram Maldonado. “A operação foi feita sob as regras do uso racional da força”, afirmou quando sabatinada por uma comissão do Senado, dia 16 de agosto.   
Na mesma ocasião, Bullrich disse que não havia como provar que o jovem havia estado de fato em Cushamen no dia da repressão, devido ao fato de que estavam todos com a cara coberta por lenços e, portanto, não identificáveis.
“Não há uma só testemunha, uma pessoa sequer que tenha se apresentado à promotoria ou ao juiz para dar dados que apontem que foi a Gendarmeria que o levou”, declarou, dessa vez em uma coletiva de imprensa. A tese, segundo seus críticos, ignora não só medo e a perseguição política e policial sobre a qual vivem os mapuches, mas o papel ativo das autoridades em buscar as testemunhas.  
Quando questionada na mesma comissão do porquê de não afastar os comandantes da Gendarmeria na região de forma preventiva e interrogá-los sobre os fatos, afirmou que não toma medidas baseadas em hipóteses.
A estratégia de culpar as vítimas também foi adotada. Bullrich afirmou que a família de Santiago demorou para dar queixa do desaparecimento, ainda que as provas indiquem que a denúncia foi realizada no mesmo dia. Depois, culpou-os de não colaborar com as investigações, o que o irmão do jovem, Sergio Maldonado, em entrevista ao jornal Pagina 12 e ao canal C5N, classificou de “cinismo”.
Santiago Maldonado
Com retrato de Maldonado, o ator argentino Pablo Echarri protesta contra o desaparecimento (Foto: Juan Mabromata / AFP)
Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz, e Nora Cortiñas, uma das mais reconhecidas mães da Praça de Maio, pediram a renúncia da ministra. “O Estado é o responsável direto pelo desaparecimento de Santiago Maldonado”, afirmou recentemente Esquivel, para quem os agentes do Estado estão encobrindo as investigações.
No dia 23 de agosto, as Avós e Mães da Praça de Maio foram recebidas pelo governo em uma reunião. “Não é que saímos como chegamos, sem nada. Saímos piores”, disse a representante das Mães, Taty Almeida, em coletiva. “É muito triste que depois de 40 anos tenhamos que seguir gritando ‘aparição com vida’. É lamentável”, concluiu.  
Dois dias depois, a promotoria mudou a forma como o incidente estava registrado – como um desaparecimento comum – para “desaparecimento forçado”. Juridicamente, o termo implica que necessariamente há envolvimento de forças do Estado. O governo federal, entretanto, continua negando o envolvimento da Gendarmeria. “Já não sabem o que dizer”, afirmou Esquivel.
A mudança no registro se deu apenas depois de muita pressão. A advogada da família de Maldonado, Veronica Heredia, criticou a atuação da promotora e afirmou que, após retirado o segredo de justiça da investigação, o que deve ocorrer na semana que vem, irá apurar o andamento da investigação e, caso testemunhos e dados estejam sendo ignorados, pedirá o afastamento da atual promotora do caso, Silvina Ávila.
O perito da causa, Ariel Garbarz, em sua conta de Twitter, no dia 1 de setembro, afirmou que tanto o juiz da causa como Silvina Avila estão retardando o andamento das perícias, previamente acordadas com a própria promotora.
Envolvimento do governo
O jornalista investigativo Ricardo Ragendorfer, do jornal Tiempo Argentino, apurou que o chefe de gabinete do Ministério da Segurança Pública, braço direito de Bullrich, Pablo Noceti, esteve ao menos duas vezes no local da repressão, no dia 1 de agosto.  
Noceti é advogado e conhecido por defender a Fabio Iriart e Néstor Omar Greppi, repressores da ditadura militar argentina que foram condenados por delitos de lesa humanidade.
Ragendorfer também apurou que a Gendarmeria mantém uma base logística informal – e, portanto, ilegal – dentro da Fazenda Leleque, que pertence ao Grupo Benetton. A reportagem ainda relata que Noceti mantém reuniões e contato frequente com as sociedades rurais das províncias de Chubut, Río Negro e Neuquén. Nelas, sempre presente está o administrador das propriedades de Benetton na Patagônia, Ronald McDonald. Em ao menos uma dessas reuniões, a ministra Patricia Bullrich também esteve presente.
Fonte: Carta Capital

Onde está o Valter? O NAZI-FASCISTA JOÃO DORIA TEM DE SE EXPLICAR

Sociedade

Refugiados Urbanos

Onde está o Valter?

por Antonello Veneri — publicado 10/09/2017 00h13, última modificação 06/09/2017 11h42
Animador cultural das ruas, ele é a nova vítima emblemática da violência do prefeito higienista
Antonello Veneri
Válter
O elfo se confunde com a gameleira da Praça Roosevelt
Conheci Valter há um ano e meio. Eu tinha acabado de chegar em São Paulo, depois de morar por alguns anos em Salvador, e fui fotografar Chinelada, uma peça de teatro do Pedro Guimarães que estava em cartaz no Teatro Estúdio H. Guariba, na Praça Roosevelt.
Depois da peça, parte do público ficou em uma rua batendo papo e entre as pessoas estava um cara de cabelão e barba enorme. Ele me chamou atenção, pois parecia um elfo dos contos de fada. 

Nesse momento, um morador de rua aproximou-se dele para pedir um dinheiro, ele o tratou de forma tão gentil e carinhosa que fiquei ainda mais curioso para conhecê-lo. Perguntei ao Pedrão, ator e diretor da peça, quem era aquele cara. Me falou que se chamava Valter e me passou o contato dele. Escrevi logo para ele que era um fotojornalista e que queria conhecer a sua história.

Dias depois, nos encontramos na Praça Roosevelt. Conversamos bastante e ele me contou que há 12 anos morava na rua e há dois anos embaixo do Viaduto Júlio de Mesquita Filho, no bairro da Bela Vista. Era um antigo estacionamento onde morava uma pequena comunidade de “refugiados urbanos”, como ele os chamava. 

Valter havia trabalhado num banco por anos, chegou a ser subgerente, depois foi iluminador de teatro, um dos melhores da cidade, e por uma série de circunstâncias foi parar na rua. Eu contei dos meus trabalhos fotográficos com população de rua e descobrimos que tínhamos vários amigos em comuns.  
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Válter provando um óculos de grau numa galeria do Centrão (Foto: Antenello Veneri)


Essa conversa se deu o tempo inteiro embaixo de uma gameleira gigante lá na praça. Resolvi tirar uns retratos dele dentro da abertura do tronco dessa árvore, que tem as raízes à vista. Ambos percebemos que era o começo de uma amizade, entre um elfo e um italiano. 

Logo no segundo encontro, Valter me convidou para conhecer o lugar onde morava, o ex-estacionamento embaixo do viaduto. Ele dormia na guarita do estacionamento e ao redor tinha construído uma espécie de centro cultural para todos – algo extremamente vivo, artístico e colorido.
No local havia alguns sofás, livros, sapatos, caso alguém precisasse, e centenas de outros objetos para pegar e interagir. Desenhos e grafites, bonecos e outros milhares de coisas completavam o centro cultural sem paredes. 

Achei incrivelmente acolhedores esses sofás ao ar livre, embaixo de um viaduto. “Eu me sinto uma antena, sabe aquela antena para captar e difundir? É isso mesmo. As pessoas precisam conversar e ser escutadas.” A partir daí, bater um papo com Valter nos sofás culturais do viaduto virou rotina, mas eu quase nunca levava a câmera comigo, e, se levava, não fotografava, porque eu ia apenas para curtir a amizade, ele me contava da vida dele e eu da minha.
Achava-o de uma pureza humana rara, disponível 24 horas para com os outros. Morava “em situação de rua” e era ao mesmo tempo ativista do movimento da população sem-teto, sempre com alguma ideia genial na cabeça.
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De todas as fotos minhas que ele viu, escolheu para pendurar no estacionamento a de uma criança andando num barco num rio, à noite. Achei legal a escolha e agora entendo o porquê. Toda vez que eu voltava para Sampa, marcávamos encontro, tomávamos umas tubaínas e aos poucos conhecia outros moradores do estacionamento e me deparava com situações intensas e criativas. Ele sempre me dizia: “Nós somos invisíveis, mas tudo o que fazemos é visível”. 

Uma vez estava acontecendo um pequeno show improvisado com o pessoal do viaduto, cantando as músicas de Cazuza, Barão Vermelho e uma versão incrível da canção O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. Foi a primeira e única vez que escutei ao vivo essa música, tão linda e significativa. 

Vários episódios interessantes marcaram as minhas idas ao Viaduto Júlio de Mesquita Filho. Um dia, eu conheci o Tone Roll, um dos músicos mais talentoso que vi e ele tinha uma voz mais intensa do que a de Seu Jorge. Outra vez, quando estava por lá num fim de tarde, uma moça chamada Rita estava com uma sacola cheia de plantas que uma senhora tinha jogado de um prédio.
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Valter em sua casa-instalação sob o viaduto no Bexiga (Foto: Antonello Veneri)
E juntamente com o Valter e o Júlio César, outro morador do viaduto, plantaram e regaram as plantas num pequeno espaço verde ao lado do estacionamento. “Reaproveito de tudo o que a rua me dá, tentando transformar em arte e beleza. Nos chamam de moradores de rua, mas estão equivocados porque ninguém mora na rua. A rua é um lugar de passagem, de manifestações etc. Se você mora na rua, é atropelado, pisado... Então não moramos na rua, nós ocupamos espaços públicos, como calçadas, marquises, praças e viadutos.” 

Ele me levou a conhecer de verdade o Centro de São Paulo e a madrugada paulistana, quando a cidade se torna outro mundo e dava até para ouvi-lo respirar. 

Toda semana, Valter organizava com um ator e psicólogo, o Ricardo Florez, um jogo de xadrez humano. Num tabuleiro pintado no chão do estacionamento, as pessoas assumem o papel das peças “para levantar questões pessoais e sociais de forma lúdica e possibilitar o encontro e a convivência harmoniosa nessa subversão do jogo de xadrez oficial”.
Ele chamava isso de psicomédia. Para mim, foi uma experiência incrível ver as dinâmicas que se criavam entre os participantes. Nesse jogo, Valter conseguia juntar a galera do teatro, do vídeo, do grafite e da arte, e todos interagiam com o pessoal em situação de rua. Era antena, ponte e muito mais.

No último 29 de julho, sábado, antes de eu viajar de férias para a Itália, queria me despedir dele, então escrevi um recado pelo Face, nosso canal de comunicação. Recebo de volta a seguinte mensagem: “A casa caiu, hoje, antes de clarear o dia, chegaram as primeiras viaturas num Procedimento Operacional Padrão (POP) das equipes de remoção da prefeitura, também conhecidos como “Rapa” e “higienizaram” o espaço, tirando todos os ocupantes de lá”. 
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Com Julio César, a experiência de fazer um jardim no estacionamento (Foto: Antonello Veneri)

Fiquei muito preocupado. Essa remoção é mais uma dessas novas políticas de “higienização” e expulsão do prefeito João Doria, que, pelo visto, nesses primeiros meses de mandato não tem se preocupado com quem está em situação de vulnerabilidade social.
Eu resolvi contar a história do Valter porque atrás dessas ações e remoções há seres humanos, com sentimentos e vidas. E com muitas cores e poesia, como meu amigo Valter. “Não é bom sentir-se ingênuo, puro e besta vendo o trator passar por cima dos vasos de plantas que reguei e que também foram destruídos.” 

*O fotógrafo e jornalista italiano Antonello Veneri mora e trabalha no Brasil desde 
2009. Já publicou suas reportagens na National Geographic, Le Monde, La Repubblica, CartaCapital, Corriere della Sera, Folha de S.Paulo, Vice e Yorokobu. Desenvolve projetos de documentação social, narrando através da fotografia as histórias e o cotidiano da periferia e das principais cidades brasileiras.
Fonte: Carta Capital

JBS pagava R$ 40 mi por ano a Meirelles e ele não sabia de nada

JBS pagava R$ 40 mi por ano a Meirelles e ele não sabia de nada

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Já que nossa imprensa sofreu uma súbita amnésia sobre as ligações entre Henrique Meirelles, Joesley Batista e o grupo JBS, trago algumas insuspeitas memórias, publicadas há cinco anos, pela insuspeitíssima revista Exame, do grupo Abril, quando da contratação do hoje Ministro da Fazenda pelo agora empresário-delator :
Evidentemente, não foi apenas para melhorar a competitividade de uma grande empresa brasileira com projeção global que o ex-presidente mundial do BankBoston aceitou o convite de Batista. Há muito, mas muito dinheiro envolvido na sua contratação. Segundo executivos que acompanharam o processo, o contrato prevê uma remuneração anual de até 40 milhões de reais.
Além disso, existe a possibilidade de Meirelles tornar-se sócio do conglomerado, decisão que ele só deve tomar ao longo do ano. Para amigos do ex-banqueiro, o pacote foi fundamental em sua decisão: seus oito anos à frente do BC foram justamente aqueles em que o mercado financeiro brasileiro mudou de patamar.
  É lógico que, para ganhar R$ 40 milhões por ano, Meirelles tinha controles sobre os negócios da empresa.
Antes de dar o “sim” a Batista, Meirelles assegurou-se de que não correria nenhum risco. Ao longo de pouco mais de um mês, reuniu-se com advogados e consultores para esmiuçar os balanços da JBS. Recorreu a alguns conhecidos para checar o histórico empresarial dos Batista (apesar de serem todos de Goiás, Meirelles e Joesley só se conheceram em 2008, durante as conversas para a abertura do banco JBS). 
E com tudo isso, admita-se, Meirelles não tinha o menor sinal de um processo de corrupção que Joesley diz agora que superou a casa do bilhão de reais?
Será que alguém vai perguntar ao divino ministro da Fazenda se ele não desconfiou de nada em quatro anos no conselho da empresa?
Será que não aparecia nada nas auditorias? Neste caso, para que auditorias?
Será que um homem que, se não participou, nem sequer percebeu o oceano de falcatruas na empresa que dirigia  pode presidir um país que está querendo abolir toda a corrupção?
Respostas para a portaria da Rede Globo. O primeiro a responder ganha a informação de quando as empresas do grupo gastaram de propaganda global.

Ponte para o futuro? Andamos 10 anos para trás

Ponte para o futuro? Andamos 10 anos para trás

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Os arautos do “corte de gastos” não dizem nos seus discursos tecnocratas que, além da degradação dos serviços públicos de saúde e educação, atira na paralisia tudo o que vinha sendo feito no Brasil em matéria de habitação, mobilidade urbana e infraestrutura em geral.
A matéria publicada hoje pela Folha mostra o tamanho do retrocesso em investimentos em obras e instalações públicas.
Na comparação até julho, uma volta a patamares de dez anos atrás. Como o Governo tem de cortar e cortar mais desesperadamente a partir de agora, para tentar cumprir a meta do “rombo ampliado”, é provável que ao final do ano, o nível caia mais alguns anos, na comparação, aos tempos em que Lula recebeu o país quebrado de FHC.
“As despesas com obras, conservação de estradas e Minha Casa, Minha Vida despencaram 40% no período (de 2013 para cá).Em julho (somando as despesas dos últimos 12 meses), esses gastos somaram R$ 19 bilhões, ante os R$ 32 bilhões despendidos em 2013.
Despencaram, não: seguem despencando. Em 2016, o acumulado no programa de habitação, nos sete primeiros meses do ano, caiu de R$ 9 bilhões para apenas R$ 3 bi. Agora, baixou para R$ 1,65 bi.
Nas não é só o investimento público que está caindo. O privado, já paralisado pela crise, ainda vai perder a sua fonte maior, o BNDES, que será forçado a devolver, este ano e em 2018, R$ 180 bilhões em títulos públicos que lastreiam seus empréstimos, para ajudar as fechar as contas de Henrique Meirelles.
No Brasil, para investir, não há outra alternativa para investir senão o crédito do BNDES, exceto para quem tem tamanho para tomar crédito em dólar no exterior. E olhe lá se farão isso neste momento de dólar subvalorizado e tensões mundiais à vontade, criando um risco imenso para endividar-se em moeda estrangeira.
É por isso que o “espetáculo do crescimento” que Meirelles anuncia para amanhã só pode acontecer como bolha financeira. Farsa, como tudo o que acontece por aqui, ultimamente.

sábado, 9 de setembro de 2017

"Jacobinos" da Lava Jato provam do próprio "terror"


Política

Justiça

"Jacobinos" da Lava Jato provam do próprio "terror"

por André Barrocal — publicado 08/09/2017 00h45, última modificação 08/09/2017 06h52
Casos Miller-Friboi e Moro-Duran colocam carrascos na posição de alvo, como na Revolução Francesa
Marcelo Camargo / ABr e Lula Marques / AGPT
Janot e Moro
Janot e Moro: e agora?


Um ex-procurador de Justiça da Operação Lava Jato, Marcelo Miller, é suspeito de ter tramado com a JBS-Friboi um jeito de induzir o presidente Michel Temer se incriminar, e agora tem de se explicar. O juiz Sérgio Moro, estrela da operação, tem um padrinho de casamento acusado de comercializar vantagens para delatores lá na 13a Vara Federal de Curitiba, e também tem de se explicar.
No Congresso, símbolo maior da presa nas caçadas de Miller e Moro, a classe política, há quem considere os episódios pedagógicos.
“Estamos vendo acontecer aqui o que aconteceu com os jacobinos dos comitês de salvação pública da Revolução Francesa: os algozes – juízes, procuradores – viraram vítimas”, diz o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP). “É para a sociedade ver que o problema do Brasil é um pouco mais complexo, não é só da política, dos políticos.”
Os jacobinos eram os radicais da Revolução Francesa (1789), mais ligados às massas. Comandaram a segunda fase do movimento, a do “Terror”, em que a guilhotina trabalhou sem descanso. Criaram os Comitês de Salvação Pública para defender a Revolução e depois membros dos comitês acabaram sem a cabeça, caso de Danton. Quando terminou a fase do Terror, o máximo líder jacobino também perdeu a dele, Robespierre.
Miller deve depor nesta sexta-feira 8 na Procuradoria-Geral da República (PGR), onde trabalhou por anos até ser exonerado em abril. Terá de esclarecer suspeitas sobre si surgidas das confidências trocadas pelos criminosos delatores da JBS Joesley Batista e Ricardo Saud em uma gravação conhecida nos últimos dias.
Na gravação, há indícios de que Miller sabia do plano da dupla friboiana de escapar da cadeia grampeando figurões da República – caso de Temer naquela conversa na calada da noite no Palácio do Jaburu em 7 de março – para entregar a cabeça deles à PGR em troca de um acordo generoso de delação. Não só sabia, como teria sido uma espécie de co-autor do plano.
Ao anunciar a existência da gravação, o procurador-geral, Rodrigo Janot, comentou que poderia ter havido crime de improbidade por parte de Miller. Ex-amigo e hoje desafeto de Janot, o ex-ministro da Justiça Eugenio Aragão explicou em entrevista recente a CartaCapital qual seria o pepino.
“As conversas dão conta de um acerto entre o então procurador Marcelo Miller e os investigados antes da ida de Joesley Batista ao Palácio do Jaburu. Parece claro um método e um objetivo: o empresário agiria para colocar palavras na boca de Michel Temer. Ou seja, o Joesley atuou, sem autorização judicial, como uma longa mão do Ministério Público.”
“Longa manus do presidente Michel Temer” foi como Janot descreveu o homem da mala, Rodrigo Rocha Loures, em um dos pedidos de prisão do maleiro apresentados à Justiça.
Na conversa com Saud, Joesley expôs sua intenção de ser um “longa manus” do PGR. “Nós vai acabar virando amigo desse Ministério Público, cê vai ver. Nós vai virar amigo desse Janot, nós vai virar funcionário desse Janot.”
O que torna a situação de Miller complicada não é a gravação friboiana isoladamente, mas uma sequência de fatos que o levou à condição de “longa manus” da JBS.
Miller pediu demissão da Procuradoria em 23 de fevereiro. Saiu de férias em março e encontrou Joesley. Foi em março que ocorreu a conversa das confidências entre Joesley e Saud (dia 17). Miller foi exonerado de fato em 5 de abril e seis dias depois ia à Procuradoria para uma reunião na qualidade de um dos advogados da Friboi, a fim de negociar um acordo de leniência.
Na PGR, um subprocurador-geral tem impressão parecida com a de Aragão sobre o papel duvidoso de Miller na delação da Friboi.
“Fiquei com a impressão de que ele cavou as delações, elas não foram voluntárias. Isso é que torna o acordo de delação nulo, e não a apregoada omissão do Joesley e do Ricardo em contar todos os crimes. Afinal, não levaram a gravação no último dia de prazo? Não vajo omissão deles.”
E o caso de Moro, o Robespierre tupiniquim? Viu-se enrolado em uma trama pouco noticiada até agora, uma história publicada inicialmente na Folha de S. Paulo.
Um ex-advogado da empreiteira Odebrecht, Rodrigo Tacla Duran, acusa um padrinho de casamento do juiz, Carlos Zucolotto Junior, de comercializar delações na 13a Vara Federal de Curitiba. Zucolotto não priva apenas da intimidade de Moro enquanto amigo. Foi sócio da mulher do magistrado, Rosangela, em uma banca de advogados.
Um documento da Receita Federal mostra que o escritório de Duran contratou serviços do escritório de Zucolotto e Rosangela. Esse elo, revelado pela revista Veja, poderia levar ao questionamento da imparcialidade de Moro para julgar casos a envolver Duran e, quem sabe, a Odebrecht, cliente de Duran entre 2011 e 2016.
Logo após a acusação de Duran, Moro divulgou uma nota em que diz, entre outras coisas, que a Folha não deveria dar crédito ao relato de um foragido (Duran está na Espanha, onde tem cidadania).
Diante da resposta do juiz, um famoso criminalista atuante em Brasília, defensor de encrencados na Lava Jato, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, divulgou um texto a mostrar como o algoz Moro poderia ser vítima do próprio jacobinismo.
“O juiz diz que não se deve dar valor à palavra de um ‘acusado’. Opa, isto é rigorosamente o que ele faz ao longo de toda a operação!”, diz.
“O fato de o juiz ter entrado em contato diretamente com o advogado Zucolatto, seu padrinho de casamento, para enviar uma resposta à Folha, ou seja combinar uma resposta para a jornalista, seria interpretado como obstrução de justiça, com prisão preventiva decretada com certeza”, prossegue.
“Ou seja, embora exista a hipótese de os fatos serem falsos o que nos resta perguntar é como eles seriam usados pela República do Paraná? Se o tal Deuslagnol não usaria a imprensa e a rede social para expor estes fortes "indícios" que se entrelaçam na visão punitiva. Devemos continuar dando a eles a presunção de inocência, mesmo sabendo que eles agiriam de outra forma.”
Agiriam com guilhotina.