segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Dragões que não passam de moinhos de vento: o comunismo e o PT

26 DE NOVEMBRO DE 2018, 19H10

Dragões que não passam de moinhos de vento: o comunismo e o PT

Raphael Silva Fagundes: “O golpe, realizado através de argumentos jurídicos, ainda precisa de uma estrutura ideológica que o garanta. Por isso depreciar a esquerda, o comunismo etc.”
Foto: Wikimedia Commons
Talvez a maior mentira que compõe essa empreitada do novo governo contra a ideologia seja a afirmação de que o PT é comunista. Aliás, os novos homens que se apoderaram do poder assemelham-se a Dom Quixote, pois lutam contra algo que não existe mais, não com a mesma pujança que possuía enquanto o Muro de Berlim estava de pé. Contudo, assim como o sucesso do clássico da literatura ocidental escrito por Miguel de Cervantes, os engravatados reacionários que assumiram o poder foram bem afortunados na luta contra o dragão reinventado que não passa de um depredado moinho de vento.
“Cinco novas empresas de Brasil, Espanha, Portugal e Panamá investirão no enclave industrial Mariel, totalizando assim 24 companhias estabelecidas no principal polo de desenvolvimento cubano”. “Embora os números de comércio sejam modestos, a França já é o terceiro investidor europeu na ilha com a presença de importantes companhias como a de bebidas Pernod Ricard, a hoteleira Accor e a companhia aérea Air France”. E o que falar do investimento da Itália em Cuba. Ou seja, não é porque o BNDES investiu em Cuba que o PT é comunista, Olavo de Carvalho. A não ser que todos esses países também o sejam. E nem uma foto de Lula com Fidel quer dizer isso, pois, sendo assim, poderíamos ter o mesmo entendimento em relação às fotos do comandante da ilha com Mandela.
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É muito fácil falar que uma coisa é ruim quando as pessoas não conhecem sobre o que se está falando. A Igreja católica usou dos mesmos procedimentos ao proibir o acesso a determinados livros. Quem não se lembra do livro de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, que virou um grande sucesso de Hollywood? A ideia aqui é relacionar o Lula ao comunismo, mas não porque este último seja uma ameaça, mas porque carrega a imagem do fracasso, de algo que não deu certo (embora, a URSS tenha passado de uma economia praticamente feudal para uma espacial em 40 anos).
No blog do nosso querido “liberal sem medo”, Rodrigo Constantino, nos deparamos com um artigo originalmente escrito para o Instituto Liberal. No texto, intitulado “Entendam: o PT é um partido comunista”, o artista plástico João César de Melo afirma que os comunistas da antiga União Soviética são hoje empresários russos. “Os comunistas que outrora impediam a influência capitalista, hoje são os maiores empresários do país. Os comunistas que trabalhavam para preservar um regime onde a propriedade privada e o lucro eram proibidos, hoje são proprietários de grandes fortunas”. O autor inventa uma contradição lógica para fundamentar sua tese, mas esquece que foram justamente esses empresários que puseram fim ao comunismo para ter lucro e propriedade privada. Eles não são mais comunistas. Não é porque Vladimir Putin foi agente da KGB que hoje ele é comunista. O próprio veterano Olavo de Carvalho já foi militante comunista em sua juventude e hoje é um conservador convicto.
Em seu artigo, muito bem argumentado, diga-se de passagem, o artista liberal diz que o comunismo não foi capaz de controlar o mercado e acabou por adotar outro caminho. Liberou o mercado e manteve o controle sobre a mídia, a política e a cultura. O que nos leva a crer que não há diferença entre o governo comunista do PT e a ditadura militar? Porque os anos de chumbo, tanto privatizaram quanto construíram empresas públicas. Além disso, foi bancado por muitos industriais. No entanto, a cultura, a mídia e a política eram controladas. Mas os militares não caçavam comunistas?
Caro João César de Melo, seu texto é muito bem argumentado. Repito! Diz que muitos militantes defendem o PT e o comunismo, mas “não têm a menor noção do que defendem”, e que “insistem em dizer que não são comunistas. Algo como se um eleitor de um partido que tem como símbolo a suástica dissesse que, apesar de apoiar algumas ideias específicas, não é nazista”. Sua estratégia argumentativa de comparar o comunismo a algo ainda mais depreciado, execrado por todos, foi fenomenal. Você só não tem fundamento. E um argumento sem fundamento é uma retórica suja, desonesta.
“O PT é comunista porque manifesta o mesmo viés totalitário, utiliza-se das mesmas estratégias que já foram empregadas por todos os outros movimentos comunistas da história”, diz Melo. Se o PT fosse realmente totalitário, você jamais teria a liberdade de dizer o que disse sem sofrer nenhuma punição. Não sei, mas até Hannah Arendt, que assemelhava o nazismo ao comunismo, discordaria das suas colocações.
O comunismo também não é necessariamente contra a propriedade privada como muitos pensam. Marx sempre se posicionou contrário ao latifúndio e à grande propriedade: “Propriedade adquirida, fruto do próprio trabalho e do mérito pessoal! Falais da propriedade do pequeno burguês, do pequeno camponês, que antecedeu à propriedade burguesa? Não precisamos aboli-la: o desenvolvimento da indústria já a aboliu e continua a aboli-la diariamente”. Logo, os supostos “comunistas russos” de João César de Melo, são exatamente o que o comunismo não o é. Portanto, as palavras do seu artigo estão muito mais próximas das gafes do presidente Michel Temer do que o que é o comunismo.
Apesar de forçar a barra em dizer que há no PT uma estrutura leninista que o manteve no poder e de outras sandices, a coluna de Marco Antonio Villa é mais realista, pelo menos os primeiros parágrafos. “Transformar Lula em Lênin é uma piada. Na política é indispensável, ao enfrentar um adversário, conhecê-lo. O petismo, nos últimos tempos, foi transformado em algo que nunca foi. Ora é bolivariano, ora comunista, ora populista, ora — para os mais exaltados e néscios — bolivariano-comunista-populista. Puras e cristalinas bobagens”. Assim é até possível dialogar.
Apesar do tom agressivo e de alguns juízos de valor, ao texto é menos desonesto. Contudo, a estratégia de se manter no poder, adotada pelo PT, não é leninista, como afirmará ao longo do artigo, mas maquiavélica, embora tanto Maquiavel quanto Lênin defendessem a importância da força bruta na vida política.
Nas estratégias de depreciar o PT, alguns setores da direita brasileira inventam uma situação de enunciação inconsistente para vender um enunciado. É a invenção retórica, nível da argumentação onde o orador busca os argumentos úteis para a persuasão. No entanto, a enunciação, isto é, as circunstâncias linguísticas, emocionais, históricas etc., que propiciam o discurso, é forjada para criar um enunciado falso.
Sabe-se que o PT não é comunista, aliás os latifundiários e os banqueiros nunca enriqueceram tanto nesse país. Em escalas, inclusive, internacionais. Privatizações e repressões aos movimentos populares estavam sendo realizadas pelo Partido dos Trabalhadores de forma intensiva (de modo mais maquiavélico que leninista). Mas é a direita quem está fazendo isto. A venda do pré-sal, que já estava em andamento no governo petista, teve como mentor José Serra. Mas era necessário o poder. Se a direita não tomasse o poder para adotar as medidas conservadoras que a presidenta Dilma Rousseff estava pondo em prática, iria perder a razão de ser. O PT iria confluir em si tanto aspectos da direita quanto de esquerda.
O golpe, realizado através de argumentos jurídicos, ainda precisa de uma estrutura ideológica que o garanta. Por isso depreciar a esquerda, o comunismo etc. Por isso inventar um projeto como o “Escola sem Partido” fundamentado em um espectro que não ronda lugar nenhum (embora os movimentos de esquerda estejam se expandindo ao redor do mundo, inclusive nos EUA).
A burguesia procura vender coisas que não custam, para depois vender seus produtos caros. Ela vende ideias facilmente acessíveis, em jornais baratos e veículos de comunicação populares. Nas igrejas ou através de rostos bem afeiçoados e jovens, respondendo de forma simples questões complexas e fazendo dos seus interesses os interesses de todos. Por isso, fortalecer a extrema direita, que usará seus asseclas desinformados para lutar contra algo que existe apenas no discurso; para defender políticas que dificilmente serão alcançadas, como a questão do desarmamento, a volta da família tradicional ou a severidade com o detento. O cidadão comum, ingênuo e desiludido, irá se revoltar não por empregos ou melhores condições de trabalho, mas pela sua moral, que não enche sua barriga, mas infla seu ego.
1 – “Cuba: mais empresas estrangeiras investem no enclave industrial de Mariel http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2017/03/cuba-mais-empresas-estrangeiras-investem-no-enclave-industrial-de-mariel-9745437.html#showNoticia=eypKSSp2N2MzMjM0MDk5NzM3OTM4MzYyMzY4KyhVNzAxMzEwMjY0ODM4NjA5NzExMC5EajI3ODQyODg5ODEyNTkzODY4ODA1KCokYU07SyZ7OWE2SSpqXio=
2 – Cuba e França assinam acordos nas áreas de petróleo e turismo
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/05/empresas-de-cuba-e-franca-assinam-acordos-nas-areas-de-petroleo-e-turismo.html
3 – Italia-Cuba – aumentano opportunita’ di investimento e commercio
https://www.fasi.biz/it/notizie/strategie/14832-italia-cuba-aumentano-opportunita-di-investimento-e-commercio.html
4 – BRASIL, Felipe Moura. Olavo de Carvalho e o papel do PT no comunismo
Olavo de Carvalho e o papel do PT no comunismo
5 – MELLO, João Cabral de. Entendam: o PT é um partido comunista http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/entendam-o-pt-e-um-partido-comunista/
6 – MARX, Karl. e ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Martin Claret, 2006. p. 60.
7 – VILLA, Marco Antonio. O PT e seu projeto de poder. https://oglobo.globo.com/opiniao/o-pt-seu-projeto-de-poder-16057391
8 – FERREIRA, Wilson Roberto Vieira. Como entender o impeachment com Baudrillard e Deleuze. http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/04/como-entender-o-impeachment-com.html#more

Fonte: Fórum

Mais um fascista eleito. Como se explica isso?

Valentão, quem cheira a merda é você…

O valentão marombado Daniel Silveira, policial militar que se elegeu deputado federal pelo partido de Jair Bolsonaro e que se exibiu como um dos vândalos que destruiu a placa em homenagem a Marielle Franco colocada na Cinelândia está de novo em evidência.
Agora, em um vídeo onde faz ameaças a outra mulher – ele parece especialista em ser valente com mulheres -, Andrea Nunes Constâncio, diretora do Colégio Pedro II em Petrópolis (que é da rede estadual), região serrana do Rio.
Ficou irritado porque, depois de ter ido, segundo ele, “fiscalizar” a escola, a diretora admoestou os funcionários que deram entrada a ele, policial militar, no estabelecimento escolar.
E está espalhando um vídeo onde faz ameaças.
“Se você tem medo, diretora, que um deputado federal esteja na sua escola, ainda mais um deputado com a minha vertente, conservadora, que combate a ideologia socialista comunista, frequente à sua escola, isso me cheira a ​merda. E se cheira a merda eu vou fazer um favor a você, e você será uma das primeiras que vou solicitar auditoria”.
Não, senhor Daniel, para usar a sua linguagem,  quem cheira a merda e a burrice é você, porque é um prevalecido e um covarde.
O senhor não é deputado federal. Não foi diplomado pela Justiça Eleitoral e não tomou posse no cargo. Não é o “rei do pedaço”.
É o mesmo que um sujeito que passa num concurso para PM e quer sair direto dando carteiradas e pedindo documentos a torto e a direito. O senhor ou qualquer outra pessoa não pode entrar em um estabelecimento escolar – ou em qualquer outro – sem pedir autorização ao responsável e a responsável é a diretora.
Ela tem o poder e o dever de saber quem entra e sai no colégio e fez muito bem em repreender os funcionários que o teriam chamado, se é que chamaram, por sua entrada não autorizada na escola.
Pode ser gente de mau caráter e perigosa para a educação de adolescentes,  como o senhor prova que é espalhando um vídeo de ameaças. Imagine agora como se sentirá qualquer jovem com problemas de comportamento pode agir, depois do seu asqueroso exemplo, em relação a professores e diretores. Será que pode gravar e espalhar vídeos com ofensas aos que o senhor chama de “socialistas comunistas”?
Ainda que fosse, como alega, para saber como ajudar a escola – não parece que sistemas de lançamentos de notas e presenças seja algo a ir discutir com quem não tem poder administrativo na colégio – o mínimo que se exigiria seria ser recebido formalmente, após um telefonema, no mínimo, de contato.
Mas fica claro que quem o levou foi seu “assessor” (assessor pode ser substituído por “X-9”, porque Daniel, até agora, é só um PM) que confessadamente já entrou em choque com a direção escolar, pelo que se relata no vídeo.
Aí está um belo exemplo das “Comissões de Ética” a que deve estar se referindo o novo ministro da Educação, Ricardo Rodriguez. Estas hordas de microcéfalos vão intimidar e acabar por afastar das escolas todas as pessoas com consciência e brio. Para que ser diretor de escola se logo um marombado, com as costas quentes, virá lhe fazer ameaças? Para ganhar uma gratificação desprezível sobre um salário injusto? Para  ficar à mercê de um boçal como Daniel?
Alexandre Frota terá companhia em Brasília, pelo visto. Só não se pode dizer que será boa companhia.

“O Brasil será uma 'zona de sacrifício' na geopolítica dos EUA”

Entrevista

“O Brasil será uma 'zona de sacrifício' na geopolítica dos EUA”

por Radio France Internationale — publicado 25/11/2018 09h10
As forças democráticas precisam se organizar, avalia o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos
Wikimedia
"O Brasil será uma 'zona de sacríficio' na geopolítica dos EUA"
Santos esteve no Foro do Pensamento Crítico em Buenos Aires
A uma semana da Cúpula de Líderes do G20 em Buenos Aires, evento no qual Estados Unidos e China trarão sua guerra comercial, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, em entrevista à RFI Brasil, traçou o cenário de como essa disputa pode impactar na América do Sul a partir da posse do presidente eleito brasileiro Jair Bolsonaro em 1° de janeiro.
Para o diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e estudioso dos movimentos políticos na América Latina, Bolsonaro, como aliado automático dos Estados Unidos, deve ser a peça fundamental de Donald Trump para conter o avanço da China na região. Santos participou em Buenos Aires do Foro do Pensamento Crítico, "a contra-cúpula do G20" que levou líderes progressistas a analisar o caso brasileiro.
O acadêmico, que mantém diálogo direto com líderes políticos e sociais na região, aponta a unidade da esquerda em Portugal como um modelo. Ele também exprime o seu principal temor hoje com o Brasil, país que classifica como uma "zona de sacrifício" dentro da estratégia geopolítica dos Estados Unidos.
RFI: A unidade da esquerda em Portugal pode ser um exemplo para a esquerda fragmentada na América do Sul que desde 2015 perde todas as eleições?
Boaventura de Sousa Santos:  Penso que temos em Portugal uma inovação política de primeira qualidade, sobretudo porque supera divergências históricas de uma maneira muito inteligente. É uma articulação e uma unidade pragmática que não visa superar de maneira nenhuma as divergências que há entre socialistas e comunistas.
Foi fundamentalmente um acordo para pôr termo à austeridade produzida pelo neoliberalismo, às privatizações, aos cortes dos salários, aos congelamentos das carreiras dos funcionários públicos. Isso realmente contribuiu de maneira extraordinária para fazer uma prova única e muito importante tanto para a Europa quanto para a América Latina. Hoje, por todo o mundo que vou, me perguntam sobre essa inovação política. Como foi possível a união entre socialistas e comunistas, antes inimigos? Foi o neoliberalismo.
RFI: De que maneira essa unidade pode ser replicada?
BSS:   Portugal teve uma inovação que foi mostrar que o neoliberalismo é uma mentira. É fundamentalmente um processo político para enriquecer mais os credores dos nossas nações endividadas e, obviamente, empobrecer o país. Portanto, nesse sentido, a lição de Portugal é também útil para o continente latino-americano uma vez que eu vejo que as receitas aplicadas aqui, na Argentina ou no Brasil, são as mesmas que nós sofremos em Portugal entre 2011 e 2015.
RFI : O senhor vê algum risco da volta dos militares ao poder, não porque os militares queiram fazer política, mas porque a população, ao ver que a intervenção militar na segurança pública teve resultados positivos, pede a volta dos militares à política?
BSS:  O Brasil é um caso especial. Não vejo esse perigo na Argentina, mas vejo esse perigo no Brasil porque, ao contrário da Argentina, a transição democrática no Brasil foi feita através de um pacto com os militares que impuseram uma série de artigos na própria Constituição para que não houvesse nunca um julgamento do terrorismo de estado durante a ditadura. Portanto, os brasileiros nunca puderam criar uma memória dos crimes da ditadura. Isso foi proibido pelo modo em que se fez a transição democrática.
É por isso que os militares hoje aparecem com superioridade moral, dizendo que são menos corruptos doque os civis, que são melhores para administrar o país. Os brasileiros não fizeram essa cura anti-ditatorial que deveriam ter feito. O resultado é uma transição pactada pelas elites no Brasil. Portanto, esse perigo existe, mas não penso que hoje os militares queiram regressar ao poder de forma ditatorial. Eles podem querer regressar de uma maneira democrática, isto é, militarizarem o governo civil.
RFI: Mas isso não pode ser até mais perigoso?
BSS:  Pode ser mais perigoso porque pode ser mais autoritário e porque pode ser uma repressão imposta pela via democrática. Os militares não sabem o que são políticas sociais. Os militares sabem reprimir, punir e atuar com as forças de segurança contra qualquer distúrbio social, contra qualquer protesto social.
Portanto, é a criminalização do protesto social que vai existir no Brasil. Aliás, estão anunciando. Não são os militares que anunciam, mas tem todo o apoio do poder militar. Alguns militares da reserva têm dito isso nas suas entrevistas. Falam de uma democracia no Brasil sem o PT e sem o PSOL. Ou seja: sem os vermelhos. Que democracia é essa? Se os partidos todos não tiverem liberdade, não estamos numa democracia. Estamos numa ditadura de tipo novo, uma ditadura disfarçada.
RFI: No Brasil, por outro lado, parte da esquerda já disse que quer fazer uma oposição a Bolsonaro, mas sem o PT. Isso vai de encontro ao que o senhor defende como exemplo português.
BSS: A esquerda brasileira ainda não digeriu a derrota e está cometendo muitos erros. Apresenta uma atitude hegemônica por parte do PT, que ao meu entender não tem realmente neste momento legitimidade para isso. Penso que a esquerda foi derrotada de uma maneira brutal. Nas redes sociais, houve muita manipulação. Também houve realmente uma apropriação do descontentamento popular por parte da extrema-direita e a esquerda não foi capaz de falar da insegurança das, da violência que existe no Brasil.
Portanto, a esquerda tem que se repensar. Eu creio que vai haver uma renovação na esquerda. Eventualmente, vai surgir mais um partido. O Brasil é um país com muitos movimentos sociais. É o país do Fórum Mundial Social. Um país que não tem um partido de movimento como, por exemplo, o Podemos na Espanha.
Portanto, é possível que o MST ou a Frente Povo Sem Medo pensem na criação de novas formações políticas e que sobretudo tentem unir o movimento democrático e, dentro desse movimento democrático, o movimento de esquerda. Eu penso que ainda é muito cedo e penso que as declarações que se fizeram recentemente não ajudaram para uma unidade.
RFI: Considera que o Brasil possa ser um exemplo negativo para a região, alastrando o componente militar aos vizinhos?
BSS: Pode. Pode, sim. Os Estados Unidos são uma variável muito importante nesta região e estão numa rivalidade sem qualquer limite com a China. Querem o alinhamento do continente com os Estados Unidos. Querem que a região deixe de ter relações comerciais e diplomáticas privilegiadas com a China.
O Brasil é um dos líderes dos BRICS que justamente estava criando uma alternativa (à hegemonia dos Estados Unidos). É uma rivalidade brutal e eu penso que, neste momento, esse alinhamento é muito importante para dois grandes países: Brasil e Colômbia. Já se fala de o Brasil e a Colômbia colaborarem numa intervenção na Venezuela. Estou muito preocupado com isso. Temo realmente que aconteça.
RFI: Qual é o seu maior temor sobre o que pode acontecer no Brasil?
BSS:  Neste momento, é a criminalização do protesto e a prisão dos líderes sociais. Na Colômbia, estamos a assistir a uma morte de líderes sociais terrível e, neste momento, a lógica da violência contra líderes sociais e líderes políticos está instalada no discurso brasileiro.
RFI: É uma variante moderna da perseguição política dos anos 70? Há paralelismos?
BSS: Vejo fundamentalmente que agora, em vez de ser a guerra militar, é o que chamamos de lawfare. Isso, no Brasil, foi feito de uma maneira despudorada. O homem que fez a investigação criminal foi quem julgou o Lula sem provas. E agora é ministro da Justiça e vai ser, penso eu, em 2022, provavelmente, o grande candidato das direitas internacionais e norte-americanas a presidente da República.
Eu penso que este é o alinhamento que está em causa e o Brasil pode realmente ser esse exemplo. Eu acho que o Brasil vai ser uma zona de sacrifício e vai obrigar que as forças democráticas em geral e que as forças de esquerda em particular pensem muito bem qual vai ser a melhor estratégia para poder vencer.

Defesa afirma que ação contra Lula é mais golpe no Estado de direito

 
Política

Defesa afirma que ação contra Lula é mais golpe no Estado de direito

O advogado Cristiano Zanin divulgou nota nesta segunda-feira (26) onde afirma que a denúncia do Ministério Público de São Paulo contra Lula é mais um ato de perseguição política sem precedentes contra o ex-presidente. A denúncia acusa Lula de ter obtido vantagens da empresa ARG que teria sido indicada por ele ao presidente da Guiné Equatorial. Segundo o advogado “acusação foi construída com base na retórica, sem apoio em qualquer conduta específica praticada por Lula”.

 Cristiano Zanin constesta mais uma ação da lava jato contra Lula Cristiano Zanin constesta mais uma ação da lava jato contra Lula
Em denúncia apresentada nesta segunda-feira (26), a chamada força-tarefa da Operação Lava Jato em São Paulo denunciou Lula por lavagem de dinheiro. O Ministério Púbico apresentou à Justiça Federal acusa~ção onde afirma que, 'usufruindo de seu prestígio internacional, Lula influiu em decisões do presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang, que resultaram na ampliação dos negócios do grupo brasileiro ARG no país africano'. Segundo a Procuradoria da República, em troca, o ex-presidente recebeu R$ 1 milhão dissimulados na forma de uma doação da empresa ao Instituto Lula. 

Para o advogado Cristiano Zanin, responsável pela defesa do ex-presidente Lula, “a denúncia pretendeu, de forma absurda e injurídica, transformar uma doação recebida de uma empresa privada pelo Instituto Lula, devidamente contabilizada e declarada às autoridades, em tráfico internacional de influência e lavagem de dinheiro”. Segundo Zanin “ a acusação foi construída com base na retórica, sem apoio em qualquer conduta específica praticada pelo ex-Presidente Lula, que sequer teve a oportunidade de prestar qualquer esclarecimento sobre a versão da denúncia”. Para ele, a iniciativa do MP é espetaculosa e aniquila as garantias constitucionais da presunção de inocência e do devido processo legal. O advogado espera que a justiça rejeite a denúncia.

Leia a íntegra da nota:

A denúncia oferecida hoje (26/11/2018) pelos Procuradores da autointitulada “Lava Jato de São Paulo” contra o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é mais um duro golpe no Estado de Direito porque subverte a lei e os fatos para fabricar uma acusação e dar continuidade a uma perseguição política sem precedentes pela via judicial. É mais um capítulo do “lawfare” que vem sendo imposto a Lula desde 2016

A denúncia pretendeu, de forma absurda e injurídica, transformar uma doação recebida de uma empresa privada pelo Instituto Lula, devidamente contabilizada e declarada às autoridades, em tráfico internacional de influência (CP, art. 337-C) e lavagem de dinheiro (Lei n. 9.613/98, art 1º. VIII).

A acusação foi construída com base na retórica, sem apoio em qualquer conduta específica praticada pelo ex-Presidente Lula, que sequer teve a oportunidade de prestar qualquer esclarecimento sobre a versão da denúncia antes do espetáculo que mais uma vez acompanha uma iniciativa do Ministério Público – aniquilando as garantias constitucionais da presunção de inocência e do devido processo legal.

Lula foi privado de sua liberdade contra texto expresso da Constituição Federal porque não existe em relação a ele qualquer condenação definitiva; tampouco existe um processo justo. Lula teve, ainda, todos os seus bens bloqueados pela Justiça; busca-se com isso legitimar acusações absurdas pela ausência de meios efetivos de defesa pelo ex-presidente.

Espera-se que a Justiça Federal de São Paulo rejeite a denúncia diante da manifesta ausência de justa causa para a abertura de uma nova ação penal frívola contra Lula.

Cristiano Zanin Martins



 Do Portal Vermelho

Ação do MPMG obriga Aécio a devolver R$11,5 milhões por 1337 voos irregulares

Rogério Correia, sobre ação do MP que obriga Aécio a devolver R$11,5 mi por 1.337 voos irregulares: ”Condenações justas, provadas”
Divulgação e Lula Marques/Agência PT
DENÚNCIAS

Rogério Correia, sobre ação do MP que obriga Aécio a devolver R$11,5 mi por 1.337 voos irregulares: ”Condenações justas, provadas”


26/11/2018 - 14h20

Da Redação, com MPMG e deputado Rogério Correia
Em outubro de 2015, o deputado estadual Rogério Correia (PT-MG) entrou com uma representação (na íntegra, ao final) no Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG) pelo uso de aeronaves do estado em viagens particulares quando era governador  (janeiro de 2003 a março de 2010).
Três anos e um mês depois, o resultado.
O MPGM ajuizou uma ação civil pública contra Aécio, que terá que responder na Justiça sobre:
 o uso irregular das aeronaves oficiais do estado, piloto e combustível em benefício próprio, sem comprovação de necessidade de satisfação do interesse público, em 1.337 deslocamentos realizados para as cidades do Rio de Janeiro, Cláudio e outros municípios.
Caso a Justiça acate o pedido do MPMG, Aécio  terá que devolver aos cofres públicos R$11.521.983,26.
Esses valores já corrigidos referem-se às diversas despesas públicas (combustível, manutenção das aeronaves e remuneração de tripulação) com os 1.337 voos questionados.
Segundo o MPMG, grande parte dos voos foi para transporte de passageiros não identificados no momento do embarque:
“A circunstância, por si só, não se harmoniza com a alegação, encetada pela defesa na fase inquisitiva, de que a finalidade dos voos tinha o objetivo de garantir a segurança do requerido na qualidade de então chefe do Executivo”.
Para o MPMG, a prática adotada pelo ex-governador configura ato de improbidade administrativa que importa enriquecimento ilícito, conforme o artigo 9o da Lei 8.429/92.
Para garantir o pagamento do valor em caso de condenação, o MPMG pede, liminarmente, o bloqueio de bens do ex-governador até o limite equivalente ao montante a ser ressarcido.
O deputado Rogério Correia comemorou a abertura dessa ação civil contra o tucano mineiro.
”As condenações que Aécio vem sofrendo são justas porque provadas” diz ao Viomundo o deputado.
”Aécio quebrou Minas e iniciou o golpe contra a Dilma que vem desgraçando o Brasil”, prossegue.
”De intocável, Aécio passou a boi de piranha para que justifiquem a perseguição ao PT, como se fosse igual para todos!”, arremata Rogério Correia.

    
Leia também:

O INACREDITÁVEL ACONTECE! O governo de Olavo de Carvalho

Protagonismo

O governo de Olavo de Carvalho

por Fred Melo Paiva — publicado 24/11/2018 00h45, última modificação 23/11/2018 18h37
O ideólogo do bolsonarismo emplaca dois ministros, o da Educação e o das Relações Exteriores, e firma sua influência em Brasília
Reprodução
O governo de Olavo de Carvalho
Carvalho, de astrólogo obscuro a Richelieu candango
Jair Bolsonaro acaba de escolher o professor colombiano Ricardo Vélez Rodríguez para o Ministério da Educação. É a segunda indicação de ministro feita pelo ideólogo do bolsonarismo, o autointitulado filósofo Olavo de Carvalho. O outro foi o futuro chanceler Ernesto Araújo, cuja retórica é muito semelhante àquela do padrinho. Assim como Rodríguez.
Bolsonaro chegou a cogitar para a Educação o executivo do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos. Embora filiado ao liberal Instituto Millenium, Ramos é crítico do Escola sem Partido e, diz Olavo, favorável à “ideologia de gênero”, uma obsessão de evangélicos e de bolsonaristas mais empedernidos.
“Mozart Ramos cotado para o MEC é palhaçada”, escreveu o “filósofo” no Twitter. A pressão, reforçada pela bancada de pastores no Congresso, funcionou. Rodríguez segue à risca a cartilha: abomina a tal “ideologia de gênero” e promete livrar a educação da “influência comunista”.
Em número de indicações para o futuro governo, Olavo só perde para o DEM, com três ministros. No tamanho de sua influência sobre Bolsonaros e “bolsominions”, seu sarrafo encontra-se muito acima dos demais. Ler o que escreve e ouvir o que diz são chaves para entender o momento atual. Na forma e no conteúdo, chega a ser engraçado.
No início de novembro fiz uma longa entrevista com Olavo de Carvalho. Foi uma conversa intrigante, embora, e até por isso, suas declarações me remetessem ao narrador de “A Lua Vem da Ásia”, de Campos de Carvalho, um personagem que pensa estar em um hotel quando na verdade está no manicômio.
Foi também um diálogo respeitoso, ainda que ele tenha uma estranha predileção pelas palavras “porra”, “cu” e “caralho”, com as vênias do leitor e a bênção de Sigmund. Pediu que, na edição final da conversa, não o classificasse como “fascista, filho da puta, assassino, matador de criancinha”.
Limitei-me a “Napoleão de hospício”. Mas Olavo, antes cordial, escreveu depois no Facebook: “O mínimo que tenho a dizer do repórter da Carta Capetal, Fred Melo Paiva, é que para chegar a ser um porco só lhe falta um pouquinho de QI (SIC)”. Para chegar a escritor, falta a Olavo dedicar-se às vírgulas.
Com o perdão daqueles que se encontram preocupadíssimos e com toda a razão, essa loucura começa a me parecer extremamente engraçada. Passeei pelos comentários do post de Olavo a rachar o bico. O jingle do Bozo se aplica à perfeição ao governo: “Sempre rir, sempre rir, pra viver é melhor sempre rir”.
No Brasil atual, Campos de Carvalho, adepto do realismo fantástico, seria tomado como autor de não-ficção. No Brasil atual, Olavo de Carvalho é um “pensador”. Eis algumas pérolas de seu pensamento vivo na conversa com CartaCapital
  1. “O PT é o criador de Hugo Chávez.”
  2. “Banqueiros e grandes capitalistas sempre investiram no movimento socialista.”
  3. “A linhagem fascista é apenas uma dissidência interna do socialismo.”
  4. “Bolsonaro não é fascista, fascista é o cu da mãe.”
  5. “Há mais de 50 anos, o empresariado brasileiro está vinculado à esquerda.”
  6.  “A esquerda trabalha para os banqueiros, mas é burra demais para perceber.”
  7. “Gays pensam que seus gostinhos sexuais são superiores a todos os valores morais, religiosos, culturais, filosóficos. Agora vamos ter uma política baseada no gosto sexual?”
  8. “Vamos supor que eu goste de transar com cachorro. Então vamos fazer um partido político baseado nisso? É um acinte!”
  9. “Kit gay é coisa do Haddad, um mentiroso compulsivo que incentiva o incesto.”
  10. “A Escola de Frankfurt defende a relação incestuosa entre mãe e filho como meio de derrubar o capitalismo. Esses caras são todos loucos!”
  11. “Uma contraparente foi presa (na ditadura). Entre os esquerdistas dizem que foi torturada e perdeu um rim. Mas fui o primeiro a vê-la quando saiu. Estava muito melhor do que quando entrou, forte, saudável, bem alimentada.”
  12. “Quem matou Herzog? O serviço secreto inglês.”
  13. “Lenin acabou com a delinquência juvenil na Rússia matando todos. Isso não é um bom método?”
  14. “Esse negócio de neoliberalismo é uma bolha de sabão que inventaram para uma ala da esquerda combater a outra, com a qual no fundo está aliada. Assim sobem as duas juntas ao poder. Exatamente o que se deu no Brasil (com PT e PSDB).”
  15. “Eu não pertenço à direita brasileira nem sou ideólogo dela. Não faço planos para governo nenhum, e não estou dirigindo bosta nenhuma.” 

Olavo de Carvalho foi astrólogo obscuro. Certa vez construiu no porão de casa uma barca egípcia e, trancando-se nela, planejava alcançar o universo paralelo. Acabou desembarcado numa clínica psiquiátrica pela família.
Agora, aos 71 anos, o guru de Bolsonaro quer ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos, onde vive na zona rural da Virginia a “passar fogo em urso, ou você acha que eu vou deixar comer alguém da minha família, ou mesmo o meu cachorro?”
Com a nomeação do fã Ernesto Araújo para o Itamaraty, é possível que consiga.