sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Temporais e mortes: é preciso inverter a prioridade dos investimentos públicos

Temporais e mortes: é preciso inverter a prioridade dos investimentos públicos

Desastres em Minas Gerais retiraram milhares de suas casas. Foto: Douglas Magno/AFP
DESASTRES EM MINAS GERAIS RETIRARAM MILHARES DE SUAS CASAS. FOTO: DOUGLAS MAGNO/AFP

Precisamos de prefeitos e vereadores que entendam a necessidade de inverter as prioridades e investir nas periferias e bairros populares

Nesta semana o Brasil todo assistiu estarrecido a mais uma tragédia provocada por escorregamentos generalizados provocados pelas chuvas. Desta vez foi em Minas Gerais (mais de 50 mortes até agora) e Espírito Santo. Há milhares de desabrigados.
Além dos escorregamentos, há as inundações. Cidades impermeabilizadas, ausência de áreas verdes por onde a água possa infiltra-se, rios canalizados para que sejam construídas avenidas de fundo de vale sobre suas lajes. Merece uma discussão específica, que não será abordada neste artigo.
Escorregamentos, enxurradas, inundações, De novo ao mesmo enredo. Como sempre. Como todo ano.
Voltando aos escorregamentos em morros, todo mundo sabe quando ocorrerão as tragédias: em dezembro, janeiro, fevereiro e março no Sudeste; em abril, maio, junho e julho no Nordeste. Todo mundo sabe também onde elas ocorrerão: nas favelas e nos morros das periferias.
Finalmente, sabe-se também o que precisa ser feito. Pequenas obras de drenagem (simples canaletas e escadas d’água basicamente) associadas a obras de contenção de encostas nas favelas, como passo inicial para a urbanização completa desses bairros populares, tem a capacidade de elevar significativamente o nível de segurança, equiparando-o ao que prevalece no restante da cidade.
São obras simples, mas que devem ser feitas aos milhares, em todas as áreas de risco das favelas da cidade. Exigem um planejamento sofisticado, baseado em mapeamento de risco atualizado, em diagnóstico de cada local com base em estudos geológico-geotécnicos, em projetos específicos e em processos de execução de obra que envolvam os moradores. Trata-se de engenharia e geologia sofisticadas, mas nada que não seja do domínio das nossas universidades e dos nossos escritórios de projeto.
Talvez, neste caso, o principal desafio seja a execução de obras no quintal das moradias, junto com os moradores. Mas nem mesmo isso é inédito. Na nossa história, várias prefeituras implantaram escritórios técnicos nos territórios populares capazes de apoiar tecnicamente as iniciativas de autogestão, envolvendo parcerias com o poder público: o programa Pouso, no Rio de Janeiro; o projeto Terra, em Vitória; o programa Guarda Chuva, em Recife, entre tantos outros. Hoje, com a Lei de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (Lei Federal nº 11.888/2008), as prefeituras têm muito mais facilidade para contratar equipes técnicas para viabilizar o apoio técnico às comunidades.
Sabemos também o que não resolve o problema: o prefeito se esconder; o vereador fazer de conta que não tem nada a ver com o problema, o governador falar que a culpa é da família que não obedeceu à ordem de abandonar casas dadas pelos bombeiros.
Tampouco resolve o problema o promotor exigir que a prefeitura remova todas as famílias que moram em áreas de risco; ou a prefeitura entrar com processos judiciais de reintegração de posse nas áreas municipais ocupadas, solicitando que a ordem de remoção seja dada de forma urgente devido à situação de alto risco. Processos em que, sob a alegação do risco, as prefeituras vezes escondem sua real intenção de “limpar” o terreno e mesmo entregá-lo às empresas privadas no âmbito das famigeradas parcerias público-privadas.
TEMPORAL CAUSOU ESTRAGOS EM CIDADES MINEIRAS NOS ÚLTIMOS DIAS. FOTO: DOUGLAS MAGNO/AFP
Não resolve porque, ao se retirar uma família de sua casa alegando uma situação de alto risco, sem lhe oferecer uma alternativa viável, o poder público agrava o problema. Primeiro porque a essa família, sem apoio, só sobra a alternativa de morar na rua ou de se abrigar em outra área de risco (que são as áreas mais baratas no mercado informal das favelas). Segundo, porque a área desocupada, permanecendo sem uso, acaba sendo ocupada por outra família e o problema continua presente.
Se todos sabem qual é o problema, quando e onde ele ocorre, e o que se pode fazer para resolvê-lo, por que nada é feito? Por que todo ano as mortes se repetem? A única resposta possível é que as prefeituras – responsáveis pela gestão do uso e ocupação do solo urbano – não priorizam implantar um programa que aumente a segurança dos territórios populares face aos eventos climáticos.
E que não se alegue que o problema é a falta de recursos financeiros! Desde 2010 o antigo Ministério das Cidades chegou a disponibilizar mais de 2 bilhões de reais no programa de contenção de encostas do PAC e poucas prefeituras usaram o total do recurso (que foi oferecido sem necessidade de contrapartida municipal!).
MAIS DE 100 CIDADES EM MINAS GERAIS SE ENCONTRAM EM ESTADO DE EMERGÊNCIA. FOTO: DOUGLAS MAGNO/AFP
É preciso lutar pela inversão da prioridade dos investimentos públicos. Os recursos orçamentários, assim como os recursos humanos, devem ser investidos nos locais que mais precisam e não nos locais que sempre foram privilegiados. É preciso investir na periferia, nos territórios populares, nos locais onde 1 real de orçamento faz mais diferença em termos de melhoria de qualidade de vida, em termos de segurança.
Além de necessária, a inversão de prioridades é urgente. As chuvas deste início de ano em Belo Horizonte (as maiores já registradas na história da cidade) vão ao encontro das previsões de especialistas que dizem que o clima da Terra já está mudando. As chuvas serão mais fortes, as secas mais severas, o calor e o frio mais intensos. E, apesar de atingir a todos, os efeitos serão mais graves nos bairros de urbanização precária.
Precisamos de prefeitos e vereadores que entendam a necessidade de inverter as prioridades e investir nas periferias e bairros populares, como forma de construir uma cidade mais equilibrada, mais segura, que resista melhor às chuvas que chegam todo ano e serão cada vez mais fortes. Um bom lembrete para um ano de eleições municipais.

SOCIEDADE PM contrário a Bolsonaro é aposentado aos 29 anos e pode ser expulso

PM contrário a Bolsonaro é aposentado aos 29 anos e pode ser expulso

O policial militar Martel Alexandre del Colle (Foto: René Ruschel)
O POLICIAL MILITAR MARTEL ALEXANDRE DEL COLLE (FOTO: RENÉ RUSCHEL)

‘Os militares não são educados, mas doutrinados. Somos treinados apenas para o combate, para o confronto’, diz o policial

Aos 29 anos, o aspirante a oficial da Polícia Militar do Paraná Martel Alexandre del Colle está aposentado. Afastado da corporação desde o final de 2018, recebeu, em setembro último, a intimação oficial. O motivo alegado pela PM é depressão. “Soube da notícia por intermédio de uma amiga, também militar, que ouviu no quartel”, afirma.
Agora, del Colle corre o risco de perder a aposentadoria e ser expulso da corporação. Um auto de sindicância da PM datado de 16 de janeiro o convocou a comparecer perante o Conselho de Disciplina para uma “audiência de qualificação”, onde foi “acusado oficialmente (…) de ter produzido diversos textos, além de um vídeo publicado no YouTube, trazendo a conhecimento público imputações graves contra a instituição, bem como em desfavor de autoridades civis constituídas”.
O histórico do oficial na corporação sempre contrariou as normas da caserna. Aberto ao diálogo, desde os tempos da academia preparatória se mostrou disposto a ouvir seus comandados. “Muitos colegas que foram meus subalternos costumam dizer que nunca tinham encontrado um superior que os ouvisse”, diz.
Ainda estudante percebia e questionava algumas decisões castrenses. “Era muito jovem, 18 anos, e tudo aquilo era novidade. O regime militar tem suas normas e para sobreviver lá dentro é preciso acatar. Eu fui aprendendo a reagir, embora discordasse de muitas coisas.”
Após uma década de experiência, del Colle reconhece que a formação dos cadetes, e mesmo de policiais com menor graduação, deixa a desejar. “Os militares não são educados, mas doutrinados. Somos treinados apenas para o combate, para o confronto. O pensamento é estritamente sob o viés militar. Ninguém sai de lá com a percepção social ou política do que se passa no mundo. Os alunos deveriam sair das escolas militares para conhecer a realidade.”
Conta que, já oficial, visitou um acampamento do MST e viu que as condições de vida e sobrevivência eram as piores possíveis. “Muito diferente de tudo o que ouvia dos meus comandantes e colegas de farda.”
Sugere que os cursos de formação de oficiais deveriam estar atrelados às universidades. “Os policiais são formados longe da sociedade, dentro dos quartéis, em um mundo à parte sob um regime de ideologia única.” Disciplinas como sociologia, psicologia, filosofia e direitos humanos fazem parte da grade curricular, porém são aplicadas por militares. “Seria importante que os alunos militares estudassem com professores universitários. Que pudessem debater com jovens de pensamentos diversos para entender o que se passa no dia a dia. Apenas matérias de cunho militar seriam ofertadas pela Policia Militar.”

Lavagem cerebral

O curso na academia militar é de 3 anos, em regime de internato, onde convivem entre si com uma realidade muitas vezes diversa do que se passa do outro lado dos muros. Uma verdadeira lavagem cerebral. Ali prevalece a tese que “bandido bom é bandido morto”. No campo de ação, são ensinados que apenas os fortes irão sobreviver e se destacar na carreira. Essa prática faz com que a quase totalidade dos estudantes, ao deixar a academia, queira atuar no que chamam de operacional. “Estar na rua, no confronto direto com bandidos é o sonho da maioria destes jovens. Principalmente fazer parte das chamadas tropas de elite, que agem como batalhões de choque. Os setores administrativos e inclusive de inteligência são considerados de menor importância”.
Toda essa postura não nasce, segundo ele, com os policiais, mas é a estrutura da PM que os incentiva a serem duros. No Paraná, um episódio acontecido em 2018 mostra essa realidade. Em edital de concurso da Policia Militar, um dos itens exigia dos candidatos “masculinidade, capacidade de o indivíduo não se impressionar com cenas violentas, não se emocionar facilmente, tampouco mostrar interesse em histórias românticas e de amor”.
A machista medida, que excluía inclusive a chance de mulheres postularem vagas na corporação, causou enorme repulsa nos movimentos de direitos humanos, em setores do Ministério Público Estadual e Ordem dos Advogados do Brasil. A pressão fez com que a exigência fosse retirada do regulamento, mas, na prática, nada mudou sua concepção. A surpresa é que, à época, tanto o estado como a Policia Militar eram dirigidos por mulheres: Cida Borghetti, governadora, e a coronel Audilene Rosa de Paula Dias Rocha, comandante da PM.
Na ativa, logo começou a sentir os efeitos de sua postura democrática e aberta ao diálogo com as constantes mudanças de função ou transferências de cidades. Em uma estrutura hierarquizada, onde os subordinados apenas obedecem às ordens que recebem, del Colle debatia e discutia com seus comandados temas como racismo, homossexualidade, transexualidade, violência, além de ouvir rap com o grupo para debater as letras com críticas aos próprios militares.
Estudioso no tema de segurança pública, a partir de 2015 começou a opinar pelas redes sociais. “Percebi que a sociedade não tinha noção da importância de se discutir algumas questões. A maioria dos comentários era que eu deveria, ao invés de ficar escrevendo, estar na rua prendendo e matando bandidos.”
MARTEL ALEXANDRE DEL COLLE (FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK)
Mais uma vez sentiu na pele o quanto a rígida estrutura militar é avessa a mudanças. Após um exaustivo estudo, apresentou ao comando do Batalhão de Polícia Escolar, onde atuava, uma proposta de aprimoramento do Programa Educacional de Resistência às Drogas – Proerd, parceria entre a PM, escolas e famílias. Na pesquisa, descobriu que se tratava de um projeto americano denominado DARE, da polícia de Los Angeles. “Pelas estatísticas, observei que o programa não obteve resultados satisfatórios nos EUA, uma vez que o combate às drogas era focado apenas na repressão. Seus idealizadores, inclusive, já haviam feito várias alterações para aprimora-lo, mas aqui permanecia a proposta antiga e ultrapassada.”
Reuniu documentos e sugeriu uma série de mudanças no modelo local, sempre seguindo normas e regras da proposta original. “O comandante ouviu minhas argumentações. Achou interessante, mas ao final da conversa, para minha surpresa, simplesmente devolveu tudo aquilo que havia preparado. Sequer teve a curiosidade de ler.”
Das redes sociais, del Colle passou a publicar artigos em sites – incluindo um, no segundo semestre de 2018, em que apoiava o movimento #EleNão. Foi aí que a PM reagiu e agora o convocou para se explicar. Os títulos das matérias tocam o dedo na ferida da corporação e na atuação dos policiais. “’A ordem de um oficial está acima da lei’, explica policial sobre funcionamento da PM”, “O que a polícia almeja é poder. O objetivo não é melhorar a segurança, diz policial”. Faz críticas da apologia à violência nascida dentro das escolas: “Criou-se o delírio que policial corajoso é o que executa. Covarde é o cumpre a lei, diz PM”. Ou quando questiona “A promíscua relação entre polícia e judiciário”. Não poupa o governo do ex-capitão Jair Bolsonaro. Aliás, no processo do Conselho de Disciplina, onde se lê “imputações graves (…) em desfavor de autoridades civis constituídas”, leia-se o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador da República, Deltan Dallagnol.
Enquanto aguarda o encaminhamento do processo, onde os advogados terão 40 dias para apresentar sua defesa, o jovem oficial aposentado se debruça em estudos e pesquisas. Pretende escrever um livro. Acredita que qualquer mudança no sistema deve começar pela estrutura básica do ensino militar. Para justificar, em um de seus artigos cita o líder revolucionário africano, Thomas Sankara, quando afirmou que “um militar sem formação política ideológica é um criminoso em potencial”. No Brasil, já temos um exemplo deste personagem.

Guedes e Moro são faces do mesmo Bolsonaro, goste ou não a grande mídia


31 janv. à 19:16
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Guedes e Moro são faces do mesmo Bolsonaro, goste ou não a grande mídia

Trata-se de farsa ideológica e ética a grande imprensa brasileira tentar apresentar-se como isenta e independente face ao governo Bolsonaro, quando, de fato, o apoia, como apoiou o golpe de 1964 e a era Campos-Bulhões-Delfim, como apoia todo governo de força que promova o império do capital, efetivo condutor de seus movimentos. E é este, exatamente, o regime de nossos dias, a aliança antipopular neoliberal e ao mesmo tempo autoritária que assegura a absoluta liberdade do mercado e impõe restrições aos direitos civis, às liberdades e aos interesses dos trabalhadores. Nesse regime, que ajudou a implantar (desde a preparação do impeachment), o papel da grande mídia é o de legitimadora, junto às grandes massas, dos interesses da classes dominante, promovendo a sistemática distorção da realidade, a construção do falso como substituto do real. Critica em editoriais os excessos autoritários do capitão, no mesmo tom em que se dedica à defesa da “pauta Guedes” e entoa odes e loas ao ex-juiz feito ministro como recompensa aos seus deslizes na Lava Jato, buscando passar para a população a falsa imagem de que estamos diante de entidades distintas, e não de duas faces da mesma moeda. Repete e amplia essa falsa percepção como se reproduzisse a realidade. Ora, esses personagens, e seus projetos, são inseparáveis e interdependentes como vasos comunicantes.
A “pauta Guedes” – nota promissória que caucionou o apoio do mercado à candidatura do capitão – foi levada ao governo pelo atual presidente, e é um dos esteios de sustentação do bolsonarismo junto ao grande capital, e, para operar, de mãos e pés livres como agora, depende do projeto autoritário militar-civil em plena consolidação. Pois só um Estado autoritário pode levar até às últimas consequências uma pauta econômica neoliberal em país de economia estagnada, crivada por uma patológica desigualdade social e algo como 13 milhões de desempregados, epidemia que, segundo a FGV, mais atinge os jovens de 19 a 29 anos, principalmente os jovens mais pobres.
Os jornalões que aqui e acolá fazem restrições, justas,  ao capitão e sua caterva são os mesmos que, em suas páginas de fundo e nos textos de seus principais articulistas, exalta o ex-juiz, como se pudessem ser medidas as diferenças entre essas duas espécimes de autoritarismo caboclo.  Pensará essa gente que o juiz das falcatruas da Lava Jato é menos próximo do fascismo do que seu chefe de hoje?
De manipulação em manipulação, a chamada grande imprensa (gráfica e tecnológica)   faz o jogo da direita e da extrema-direita, pois, para nossa atrasada classe dominante, são válidos todos os expedientes quando se trata de afastar as forças progressistas de qualquer expectativa de poder, mesmo quando a alternativa poupada seja o autoritarismo, com o qual, aliás, em todo o mundo e em todos os tempos, o capital sempre dialogou muito bem, servindo e servindo-se.
O mesmo jornalismo que se abespinha com os excessos canhestros da súcia governante – acima de tudo porque não contribuem para a coesão em torno do chefe – canta os “avanços” da economia brasileira, a pílula dourada com a qual tenta vender à população um país que só existe nos contos de carochinha.
Mente para sustentar o bolsonarismo.
No regime do ajuste fiscal – um dos pleitos do golpe de Estado parlamentar que derrubou Dilma Rousseff –, a dívida pública federal sobe 9,5% e vai a R$ 9 trilhões. O crescimento do PIB continua medíocre e a renda per capita dos brasileiros permanece estagnada, quando a taxa de crescimento demográfico cai a níveis de países europeus desenvolvidos. No período 2010-2019 o PIB marcou sua pior taxa em 12 décadas, mesmo considerando a previsão otimista de crescimento de 1,7% do Boletim Focus do Banco Central para 2010. O PIB do quarto trimestre de 2010 cresceu apenas 1,0%.
As contas externas têm hoje um rombo de US$ 50,7 bi, o pior resultado desde 2015. A crise econômica internacional, a crise geral do comércio e a desaceleração da China (embora ainda seja a economia que mais cresce no mundo, a previsão de aumento do PIB para 2019 é de 6,1%, a menor taxa em 29 anos), nosso principal parceiro comercial, fazem antever a continuidade da queda das vendas externas e, ao mesmo tempo, se o país não tiver sua crise interna agravada, a expectativa é de aumento das importações de matérias-primas, insumos e bens de consumo final. A dívida externa bruta saltou de US$ 320,61 bi, em 2018, para US$ 323,59 bi em 2019, e o quadro só não é mais grave porque o governo está deitado no colchão de US$ 356,9 bilhões acumulados como reservas internacionais a partir dos governos Lula.
No entanto, a “confiança do empresário é a maior desde 2010”, diz o Valor de 24/01/2020.
Esse empresário não tomou conhecimento da queda das vendas do varejo, que se deu apesar das campanhas de liquidação de Natal e fim de ano e da Black Friday. O mais de grave de tudo é que esse empresário ignora a queda da produção industrial (-1,2%).
Depois da estagnação, começamos a andar para trás.
Entre 2015 e 2018 o Brasil perdeu 17 fábricas por dia. Em 2019, sob o reinado da “pauta Guedes” que encanta nossa imprensa, a produção da indústria de transformação operou 18,4% abaixo do pico de março de 2014 (dados da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física do IBGE). Cada ponto percentual de queda representa o fechamento de 5,9 mil unidades produtivas. Ao todo, 25.376 unidades industriais encerraram suas atividades, diz levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). As instituições patronais não apuram ou não informam o número de desempregados, mas os dados do ICT-DIEESE do terceiro trimestre de 2019 comprovam a degradação do trabalho: “O índice registrado em 2019 foi o menor do ICT-DIEESE para todos os terceiros trimestres desde o início da série  histórica. A economia brasileira tem apresentado baixo crescimento (em torno de 1%, anualizado), abrindo postos de trabalho  em ritmo lento e, essencialmente, em condições mais precárias. Com isso, o ICT-DIEESE mantém-se em patamar  baixo e sem perspectivas de melhora estrutural, diante do rebaixamento de direitos e da precarização do trabalho” (https://www.dieese.org.br/analiseict/2019/042019.html).
Sabe-se que a pecariedade das condições de trabalho e o desemprego só tendem a crescer, alimentados pelas reformas antitrabalhistas do governo, pela crise geral do trabalho em face das novas tecnologias, pela  desindustrialização, pela desarticulação da engenharia nacional e pela desmontagem das estatais e as demissões em setores industriais estratégicos, como a BR-Distribuidora e a Casa da Moeda, como as subsidiárias da Petrobrás vendidas na bacia das almas, e mais adiante o complexo Eletrobras, cobiçado pela especulação.
Qual a resposta da “pauta Guedes”?  Desaparelhar o Estado e investir no austericídio. Nenhum plano estratégico de desenvolvimento, que requer, aqui e em qualquer parte do mundo, investimentos públicos e privados (estes puxados por aqueles). Na sua lógica, a pauta econômica é fenômeno autônomo, tem vida própria e independente, e não pode se comover com questões sociais.
De sua parte, o dito mercado aguarda, ávido, as prometidas privatizações, quando espera fazer grandes negócios. Não tem do que reclamar de seu preposto.
A queda do setor industrial parece sem fim. Apesar de ainda possuir o 9º maior parque industrial do mundo, o Brasil perde relevância no comércio internacional de produtos manufaturados. Em 2018 nossas vendas representaram apenas 0,62% do mercado internacional; caímos da 29ª para 32ª posição no ranking dos maiores exportadores (dados da OMC). O único mercado para nossas manufaturas é o Mercosul, visto de revés pelo “posto Ipiranga”, e, nele, a Argentina, cujo governo, hostilizado pelo capitão, é nosso principal importador, dando fôlego à indústria automotiva aqui instalada.
A indústria de alta/média tecnologia (veículos e peças automotivas, aviões e remédios) tem o menor peso em 24 anos; retornando aos níveis de 1995 respondeu, em 2019, por 32% das vendas externas da indústria de transformação, a menor participação desde 1995. Essa indústria, porém, é a medida do desenvolvimento nacional pelo seu potencial gerador de emprego e  renda e de atração de dólares para a balança comercial. Envolve, como a indústria da construção civil, mais insumos e produtos de outros fabricantes na cadeia de fornecedores, gerando empregos.
De atraso em atraso, vivemos uma nova “revolução dos caranguejos”, andando para trás na ordem política e na ordem econômica.
Retornamos aos meados do século passado e voltamos a depender das exportações de matérias-primas, dependentes dos preços das commodities. Estima-se já em 10 bilhões de dólares os prejuízos que advirão em consequência do acordo provisório entre Washington e Beijing de que resultará, de imediato, a substituição de commodities brasileiras por equivalentes chinesas.
Quando as políticas públicas de educação, ciência e tecnologia e inovação são cruciais para a retomada da indústria nacional e a recuperação de nossa capacidade industrial exportadora, o governo da Fiesp-Febraban aposta no desmonte da universidade brasileira, do ensino público e da pesquisa.
É importante evitar ilusões em relação aos atritos epidérmicos que se dão no seio da classe dominante: seus agentes se entendem no fundamental: a manutenção do governo dos mais ricos. É preciso mobilizar a maioria da população, desprezada pela “pauta Guedes”, que hoje assiste como que bestializada à destruição dos seus direitos e o encurtamento do seu horizonte. Mas para isso precisamos de oposição e estratégia.

Leia mais em www.ramaral.org

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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

TVT - A TV dos trabalhadores

https://www.youtube.com/watch?v=KOqwWGnj2L4

Uma realidade radical pede uma luta radical

https://www.youtube.com/watch?v=Dv3Rxm2jqRQ&feature=push-sd&attr_tag=eH77HdnjfTCC0wyO%3A6

Em áudio, Carolina Ferraz questiona Regina Duarte por uso de sua foto: “não votei no Bolsonaro”

Em áudio, Carolina Ferraz questiona Regina Duarte por uso de sua foto: “não votei no Bolsonaro”

A atriz Carolina Ferraz não gostou de ver sua foto em um mural de supostos apoiadores de Regina Duarte e do governo Bolsonaro e mandou um áudio para a colega; "Muito indelicado da sua parte"
Carolina Ferraz questiona Regina Duarte por uso de sua foto.
Carolina Ferraz questiona Regina Duarte por uso de sua foto. (Foto: Reprodução)
 
Revista Fórum - A nova secretária de Cultura do governo Bolsonaro, Regina Duarte, utilizou de forma indevida uma foto da atriz Carolina Ferraz em um mural publicado no Instagram. A montagem é composta por fotos de artistas que supostamente apoiam Regina Duarte e o governo.
Carolina Ferraz, uma das que aparecem na foto posta por Regina, no entanto, desaprovou a utilização de sua imagem. “Eu não imaginei que você fosse colocar minha foto ou de qualquer um, colega nosso, sem pedir autorização da gente”, diz Carolina Ferraz em um áudio enviado a Regina e que foi obtido pela reportagem da Fórum.
Ouça o áudio na Fórum.