sábado, 8 de novembro de 2014

Argentinos revivem ascendência negra


Argentinos revivem ascendência negra apesar da colonização branca

8/11/2014 13:37
Por Redação, com agências internacionais - de Buenos Aires

Noelia Maciel integra o movimento afro-uruguaiano Ubunto, e apoia a iniciativa argentina de reviver seu passado
Noelia Maciel integra o movimento afro-uruguaiano Ubunto, e apoia a iniciativa argentina de reviver seu passado
No censo de 2010, apenas 150 mil argentinos – menos de 0,5% da população de 41 milhões – se identificaram como negros. Ainda assim, nos últimos anos, o país está recuperando suas raízes africanas. Neste sábado, a Argentina comemora o Dia Nacional do Afro-Argentino, graças a uma lei aprovada em 2013.
– Escolhemos essa data em homenagem a Maria Remédios del Valle, uma heroína na guerra da independência, que trabalhou como enfermeira e lutou como militar. Ela ganhou o título de Capitã e Mãe da Pátria, mas morreu na miséria no dia 8 de novembro – lembrou Sara Chaves, afro-uruguaia que vive em Buenos Aires e pertence ao Movimento Afro Cultural argentino.
A cantora Laura Omega sempre soube de suas raízes africanas e que sua bisavó foi escrava.
– Minha família mantém viva a cultura negra, mas aqui a história dos negros é ignorada. Parece que não existem negros na Argentina, porque muitos se misturaram aos brancos, para clarear a pele e não sofrer discriminação. Mas não é verdade que nossos antepassados baixaram todos dos navios de imigrantes, muitos vieram nos navios negreiros – acentua.
A sede do Movimento Afro Cultural fica no bairro boêmio de San Telmo, conhecido por seus antiquários, a feira de antiguidades e os artistas de tango. Nos fins de semana, o grupo sai às ruas com seus tambores para tocar candombe. Esse ritmo africano foi herdado dos negros escravizados, trazidos pelos espanhóis para as colônias do Rio da Prata. No Uruguai, o candombe sobreviveu e hoje é tão popular quanto o samba no Brasil. Noelia Maciel, que integra o movimento afro-uruguaiano Ubunto, apoia a iniciativa argentina de reviver seu passado. Na Argentina, poucos sabem acompanhar a batucada.
– É preciso lembrar que a população negra na Argentina foi dizimada. Nos tempos da colônia, um terço da população argentina era negra. Mas muitos foram enviados para as frentes de batalha, nas guerras internas e também na Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (1864-1870). Outros morreram em sucessivas epidemias de febre amarela, a pior delas, em 1871, matou 8% dos habitantes de Buenos Aires. Como a economia local não dependia de mão de obra intensiva, vários argentinos vendiam seus escravos ao Brasil – afirmou.
Enquanto a população negra minguava, Buenos Aires era invadida por ondas de imigrantes europeus. Quase 3 milhões de italianos desembarcaram na Argentina, entre 1861 e 1914, sem contar os espanhóis, ingleses, alemães e russos. Em 1920, mais da metade dos habitantes da capital argentina era estrangeira.
– Mas muitos dos que acham que descendem dos europeus, porque tem sobrenomes italianos ou espanhóis, tem um pé na África e não sabem – disse Sara.
É o caso de Carina Vlajovich, de 34 anos.
– Quando fui apresentada ao candombe, sei lá, senti a batucada no sangue e não sabia explicar o porquê – conta Carina.
Mesmo com a pele branca e o sobrenome croata, herdado do avô europeu, ela descobriu antepassados africanos vasculhando a história da família materna.
– Assumi a minha negritude e hoje me considero afro-argentina – disse Carina que tem um bisavô negro.

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