terça-feira, 29 de novembro de 2016

Na morte de Fidel

28/11/2016 10:39 - Copyleft

Na morte de Fidel

É urgente um verso vermelho com todas as cores do arco iris e o vento natural do universo.


Boaventura de Sousa Santos
reprodução
É urgente um verso vermelho
que suspenda a animação deste desastre
pensado para durar depois do inverno
 
É urgente um verso vermelho
com todas as cores do arco iris
e o vento natural do universo





 
É urgente um verso vermelho
que ponha de novo em movimento os comboios da imaginação
azeite puro em manivelas de razão quente
o peso da história de novo levíssimo
a rodar sobre perguntas livres e ruínas vivas
a paisagem mudar primeiro lentamente
enquanto vão entrando vozes ainda submersas
e corpos mal refeitos da desfiguração da guerra e do comércio
das crateras e promoções
 
É urgente um verso vermelho
que desate os nós da memória e do medo
e resgate os rios da rebeldia
a palavra cristalina inabalável
inconfundível com as mordaças sonoras
à venda nos supermercados da ordem


É urgente um verso vermelho
para anunciar barco polifónico da dignidade
pronto a navegar
os rios libertos das barragens calcinadas
dos sistemas de irrigação industrial da alma
 
É urgente um verso vermelho
uma luz manual portátil que vá connosco
sem esperar a que virá no fundo do túnel se vier
porque a cegueira da viagem é sempre mais perigosa
que a da chegada
talvez só entrega
talvez só paragem
 
É urgente um verso vermelho
que trace um território inacessível
aos vendedores de mobílias espirituais
e turismo de acomodação
 
É urgente um verso vermelho
vinho de bom ano para acompanhar
sonhos sãos e saborosos
preparados em brasas de raiva e a brisa da alegria
 
É urgente um verso vermelho
sem solenidades nem códigos especiais
para devolver as cores ao mundo
e as deixar combinar com a criatividade própria dos vendavais


Créditos da foto: reprodução

Renúncia de Temer é a melhor saída para o Brasil

28/11/2016 11:33 - Copyleft

Renúncia de Temer é a melhor saída para o Brasil

Temer, Padilha e outras autoridades palacianas estão centralmente implicados nos crimes de tráfico de influência, advocacia administrativa e prevaricação.


Jeferson Miola
Marcelo Camargo/Agência Brasil
O estrago da denúncia do ex-ministro Marcelo Calero na “imobiliária Palácio do Planalto” é muito maior do que se poderia supor. O presidente usurpador, reconhecendo a gravidade do momento, promoveu inusitada entrevista num domingo, para se explicar pessoalmente.
 
A presença dos Presidentes da Câmara e do Senado na entrevista presidencial revela a tibieza de um impostor que perdeu qualquer capacidade de ação, que chegou ao fim.
 
Temer virou fantoche de um parlamentarismo informal, onde ele é um mero administrador de interesses anti-republicados das maltas partidárias que, em troca, ministram oxigênio para sua sobrevivência arrastada. Como disse FCH, Temer é frágil, “mas é o que se tem”.
 
Apesar da demissão do ex-ministro Geddel, os desdobramentos do escândalo ainda estão longe de terminar. A razão para isso é que os agentes imobiliários do Geddel – Temer, Eliseu Padilha e outras autoridades palacianas –, estão centralmente implicados nos crimes de tráfico de influência, advocacia administrativa e prevaricação.





 
Trata-se de crimes contra a administração pública, tipificados nos artigos 321, 332 e 319 do Código Penal brasileiro. O ministro Padilha e aqueles agentes implicados já deveriam ter sido demitidos, ou pelo menos afastados até esclarecerem os fatos narrados por Calero. No caso do Temer, que formalmente ocupa o cargo usurpado de presidente da República, o procedimento legal, em razão disso, é a instauração de um processo de impeachment.
 
Este escândalo é uma prova de fogo para a Procuradoria-Geral da República. É um teste para o procurador-geral Rodrigo Janot e seus justiceiros da moralidade pública demonstrarem retidão funcional e compromisso com o dever constitucional.
 
impeachment do Temer, ainda que seja um remédio previsto na Constituição e na Lei – diferentemente da fraude contra a Presidente Dilma para perpetrar o golpe de Estado – dada a natureza demorada do seu rito, postergará a superação da quebra do Brasil causada pelo governo golpista.
 
Com a delação dos diretores da Odebrecht, a situação ficará insustentável para Temer e seus aliados, porque a força-tarefa da Lava Jato e a mídia não conseguirão agir com seletividade diante das dezenas de políticos do bloco golpista denunciados por corrupção.
 
A renúncia de Temer, neste sentido, é a melhor saída para o Brasil. É necessário abreviar o caos econômico e o sofrimento do povo, afetado por níveis crescentes de desemprego, recessão e supressão de direitos.
 
Com a renúncia ainda em 2016, a Constituição determina que se realize eleição presidencial após 90 dias [artigo 81]. A sociedade brasileira teria, então, a possibilidade de escolher um programa e um governo legítimo, com força política e moral para superar esta terrível crise.
 
É cada vez mais consensual no meio político a inviabilidade do Temer; sua permanência no comando do país até 2018 é insustentável. A oligarquia golpista, a despeito disso, manipula para mantê-lo até o início de 2017 para, dessa maneira, escolher um sucessor de sua confiança em eleição indireta no Congresso corrupto e ilegítimo, evitando o voto popular.
 
Esta estratégia esconde o pânico da oligarquia com a realização de eleição direta já. Como o justiceiro Moro ainda não concluiu seu plano obsessivo de condenar ou prender Lula, o ex-presidente poderá se candidatar para concorrer numa eleição direta, com chances reais de ser eleito novamente.


Créditos da foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A revolução por amor à liberdade e à justiça

28/11/2016 10:48 - Copyleft

A revolução por amor à liberdade e à justiça

Tal como o oxigênio é necessário ao nosso organismo vivo, a revolução foi o elemento insuflador da existência humana libertária nos anos 50 e 60.


Edson Teles
reprodução
De pé, ó vítimas da fome
De pé, famélicos da terra
 
Tal como o oxigênio é necessário ao nosso organismo vivo, a revolução foi o elemento insuflador da existência humana libertária nos anos 50 e 60. Para muitos viver sem lutar era o mesmo existir sem respirar. Diante de injustiças, desigualdades, preconceitos, racismos e opressão uma geração se inflou de ares revolucionários e acreditou ser possível, por suas próprias forças, transformar profundamente o mundo.
 
A partir dos anos 70 se assiste à consolidação da crítica aos elementos totalitários, conservadores e opressores na experiência do socialismo de Estado e do partido comunista. Participante desta reflexão surgiram as aberturas para outras formas de relações políticas e práticas sociais. Vivia-se o mundo da pílula anticoncepcional, da construção da nova fase do movimento feminista, da experimentação dos amores fora da heteronormatividade, do deslocamento final das lutas de resistência do campo para a cidade.
 





Se a crítica à revolução como um molde para outra forma de dominação era procedente, destacava-se neste mesmo passo as subjetividades revolucionárias que habitaram naquele mundo complexo: do cotidiano dentro do partido e da experimentação de uma nova sexualidade, da defesa do Estado socialista e do conflito com as castas sindicais, da militância centralizada e das novas possibilidades criativas de ação política.
 
Ao mesmo tempo e já desde os anos 50, o Brasil vivia o otimismo da burguesia, beneficiada pelos investimentos das grandes empresas e países capitalistas, bem como o aumento da presença social da classe operária e de suas demandas por direitos e o crescimento das lutas pela reforma agrária. 
 
Ocorria, neste contexto, o surgimento das Ligas Camponesas, em Pernambuco, o fortalecimento e a presença institucional do Partido Comunista, especialmente no governo do presidente João Goulart, e uma organização política cada vez mais elaborada.
 
Em 1964, com o apoio explícito do governo norte-americano e dos setores conservadores, como os partidos de direita e parte significativa da Igreja Católica, os militares deram um golpe de estado derrubando João Goulart. Encerrava-se os breves 19 anos de democracia (1945-1964). A força da ideia de revolução era tamanha que mesmo o movimento golpista se auto denominou “revolucionário”. 
 
À época já era clara a contradição entre os programas políticos dos partidos alinhados a Moscou, de cunho reformista e aderente aos projetos das burguesias nacionais, e a prática dos militantes, envoltos na atmosfera revolucionária. Somava-se a isto o choque da ação política democrática com o centralismo das direções partidárias. No Brasil, surgem novos agrupamentos políticos, de origem marxista e outros nacionalistas, porém influenciados pelos novos ares e pela possibilidade de mudarem o mundo através da luta revolucionária. Diante do regime de exceção ganhava força a proposta de luta armada contra a ditadura.
 
Em 1966, o revolucionário comunista Carlos Marighella publica sua carta de rompimento com o PCB e dá o tom da opção pela luta armada:
 
Falta o impulso revolucionário, a consciência revolucionária, que é gerada pela luta. A saída do Brasil – a experiência atual está mostrando – só pode ser a luta armada, o caminho revolucionário, a preparação da insurreição armada do povo, com todas as consequências e implicações que daí resultarem.
 
Somado ao contexto histórico e político que levou as organizações de esquerda e nacionalistas a resistirem com armas à ditadura militar havia a construção da subjetividade revolucionária, cujas figuras mais universais foram a de Che Guevara e de Fidel Castro. Para este sujeito, existente no mundo pela forma do conflito, melhor seria morrer lutando do que viver sob a opressão de um regime autoritário ou diante de injustiças sociais.
 
O que os fazia agir? Por que aderir à “loucura” da luta armada, ou à revolução?
 
Uma geração de jovens acreditou com todas as forças de sua sensibilidade em um mundo igualitário e se dispôs, “com todas as consequências e implicações que daí resultaram”, a doarem suas vidas por este imaginário. Se os partidos objetivavam a tomada do Estado e a construção de um outro regime político e o discurso socialista ainda apresentava o líder como sendo macho, hetero e, de preferência, branco, os indivíduos revolucionários pareciam não aceitar o papel que o mundo capitalista a eles tinha reservado, tanto quanto tinham a certeza de criarem, pela luta, outras formas de relações humanas.
 
Neste momento da morte de Fidel Castro e em admiração aos revolucionários do século XX, aos seus amores à liberdade e à justiça e à coragem para fazerem a revolução, gostaria de homenagear dois lutadores brasileiros, simbolizando as centenas dos que fizeram de seus afetos uma vida dedicada à derrubada da ditadura e em defesa da liberdade:
 
Helenira Resende de Souza Nazareth, mulher negra, líder estudantil, valente combatente das forças guerrilheiras do Araguaia. Lembro seu nome porque a história, escrita e contada, insiste em invisibilizar negros e mulheres. Foi presa, após ser baleada em combate, no dia 28 de setembro de 1972. Testemunhos dão conta de que foi torturada, assassinada e teve seu corpo desaparecido pelo Exército. Até hoje seus familiares não puderam lhe dar um enterro digno.
 
Carlos Nicolau Danielli, assassinado aos 43 anos de idade, em 30 de dezembro de 1972. Comunista desde a adolescência quando era operário na construção naval, em São Gonçalo (RJ). Esteve em meados de 1962 em Cuba, nas ações de solidariedade ao povo cubano diante do ataque norte-americano conhecido como “Crise dos Mísseis”. Lembro dele, a quem chamávamos de “Tio Sig”, pois junto ao seu sequestro pelo DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, fomos presos eu e minha irmã Janaína, tínhamos 4 e 5 anos de idade respectivamente, bem como minha mãe (Amelinha), meu pai (César) e minha tia (Criméia), os quais testemunharam seu assassinato.


Créditos da foto: reprodução




Fidel Castro: Se fue el compañero

Fidel Castro: Se fue el compañero

Creio que o maior legado de Fidel Castro é ter ensinado ao mundo o que é ser companheiro.
Paulo Cannabrava Filho*
Paulo-150x150Mal interpretado por muitos, talvez o único que realmente bem interpretou Fidel Castro foi ele mesmo. E deixou isso muito bem explícito em sua obra.
Em discurso em Santa Clara, por exemplo, em comemoração à batalha decisiva travada pelos guerrilheiros contra o exército de Batista, Fidel fez um longo retrospecto da história de Cuba para demonstrar que o triunfo da Revolução era resultado de 100 anos de lutas, lutas que começaram com as revoltas dos escravos no século XVII, passaram pelas lutas pela independência no século XVIII e XIX e as lutas anticolonialista e anti-imperialistas no século XX, desmentindo os que lhe atribuíam a teoria do foco revolucionário. A guerrilha não teria sido vitoriosa sem o apoio dos movimentos sociais revolucionários nas cidades, arrematou.
A dimensão intelectual do líder impressionou o mundo. Vi nos fóruns internacionais como ele provocava deslumbramento e reverência. Reverência dos cultos, dos líderes respeitados em seus países, e deslumbramento nos párias arribados ao poder. O seu brilho realmente incomodava.
Sua geração se inspirou em José Martí, intelectual fecundo, líder das lutas pela independência no século XIX. Cuba liberta da Espanha era presa fácil dos Estados Unidos. Vivi no monstro e conheço suas entranhas, disse Martí. Como Bolívar, acreditava que somente a construção da Pátria Grande poderia colocar freio ou deter a marcha expansionista e hegemônica do novo império, já desenhada na Doutrina Monroe.
Fidel Castro reescreveu e escreveu a História de Cuba. “A história me absolverá”, sua defesa quando preso por comandar o assalto al quartel de Moncada, em 1956, é profética pois traça o que seria a obra da revolução no futuro. Em cada momento do processo revolucionário os discursos de Fidel Castro eram uma prestação de contas à população, honestamente falava dos êxitos e dos fracassos. Ele não deixou um só acontecimento no mundo sem marcar posição, agradasse ou não a quem quer que fosse.
Um povo que teve intelectuais –intelectuais e guerreiros-  da dimensão de Martí e Fidel não está fadado certamente ao fracasso.
Mesmo nos momentos mais duros de crise, sem o apoio da URSS e sob a férula do bloqueio implacável imposto pelos Estados Unidos, Cuba jamais deixou de privilegiar a atenção às crianças. Nenhuma menina nem nenhum menino deixou de ir para escola e voltar pra casa bem limpinho e alimentado.
Fidel subverteu Cuba e queria subverter o mundo. E tinha razões para isso. Como romper o isolamento imposto pelas potencias colonialistas e pelo novo Império que construía sua hegemonia?
Os Estados Unidos, desde o século XIX, consideravam que Cuba deveria ser parte de seu território, seja por sua posição estratégica no Caribe, seja por ter sido transformada em bordel e cassino dos ricos e mafiosos estadunidenses.
Desde Eisenhower e Kennedy, passando pelos Bush pai e filho, até Obama, onze presidentes dos Estados Unidos inconformados por perder a pérola do Caribe fizeram de tudo para liquidar com Fidel e a Revolução Cubana. Burrice típica dos fundamentalistas, talvez esse tenha sido o maior erro cometido pelo Império. Tivessem mantido a convivência com os cubanos, jamais teriam se radicalizado.
Eisenhower começou e Kennedy terminou a invasão de Playa Girón por um bando de mercenários treinados e armados pela CIA. Desde então e até hoje, todos os anos algo faziam para desestabilizar o governo. Mais de uma centena tentativas de assassinar a Fidel e sabotar a revolução.
Como Lenin que tendo subvertido todas as Rússias pretendeu subverter o mundo, Fidel criou a Conferência Tricontinental e a Organização Latino-americana de Solidariedade, a Olas, com o objetivo proclamado na ocasião por Che Guevara: criar muitos Vietnãs.
O colonialismo ainda se impunha na África e na Ásia. E deu-se o auge das lutas de libertação nacional. Cuba, sem dúvida, era uma luz, uma inspiração, a certeza de que a vitória era possível.
Vietnã, esgotado após ter derrotado militarmente o colonialismo da França se via agora lutando contra a maior potência militar no planeta. E o incrível aconteceu. O povo venceu o monstro agressor.
O mesmo na África, o colonialismo europeu foi caindo um a um. Sobravam as colônias portuguesas, sustentando uma ditadura das mais retrógradas que fez de Portugal o país mais atrasado da Europa.
Derrotado Portugal internamente, com a Revolução dos Cravos de 1974, o imperialismo inconformado pretendeu manter o domínio sobre Angola. Aí Cuba escreveu uma das mais belas páginas da solidariedade humana, ajudando militarmente a libertação de Angola.
Os países na América Latina, contrariando o sonho da Pátria Grande, viviam de costas um para o outro olhando e se inspirando na Europa ou nos Estados Unidos. Intelectuais brasileiros não conheciam o que ocorria no mundo da cultura argentina nem os argentinos sabiam o que ocorria na Colômbia ou no México. Cuba foi o ponto de encontro.
Foi Cuba, sem dúvida alguma, quem subverteu essa ordem, ao abrir as portas  para encontros de intelectuais e artistas e para formação de jovens através da Casa das Américas, do Instituto Cubano de Cinema, da Escola de Artes de Cubanacan e de suas Universidades.
Cuba, ao criar Prensa Latina em 1960, também foi pioneira em quebrar o monopólio absoluto sobre o noticiário internacional na imprensa exercido por quatro agências de notícias, duas estadunidenses, AP e UPI e duas europeias, AFP e Reuters.
Enquanto os Estados Unidos mandam suas tropas de saqueadores ou seus agentes desestabilizadores para atentar contra a soberania dos países de Nossa América, Cuba manda alfabetizadores, faz mutirões para operar cataratas devolvendo a visão a milhares de pessoas, manda engenheiros e principalmente manda médicos para que atuem junto dos esquecidos pelo sistema.
“O capitalismo é uma selva em que o homem luta contra o homem, e haverá um dia em que a humanidade será como uma família”. Essa é a utopia, esse é o sonho de Fidel e como dizia Paulo Freire, é inconcebível a humanidade sem o sonho e a utopia.
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*Jornalista editor de Diálogos do Sul, integrou a primeira equipe de correspondentes da Prensa Latina.

Fidel Castro, mais vivo que nunca

Fidel Castro, mais vivo que nunca

Em Assunção, regressando de uma longa viagem de trabalho, fui surpreendido pela notícia sobre Fidel Castro. Não posso dizer “sua morte”, tampouco “seu falecimento”… e menos ainda aceito a ideias de alguns comentaristas de que com ele termina a Guerra Fria… na América Latina.
Martin Almada*
M.A. Y F.C. 2005
“…trata-se de Cuba, onde um livro vale mais que um fuzil”
Fidel Castro passou a um outro nível e a força das ideias e a resistência contra o imperialismo ganhará nova vida e energia no contexto mundial que se vislumbra, para continuar trabalhando na segurança de que “outro mundo é possível” porque “o Condor continua voando”.
É fruto de conhecimento dos processos históricos e das memorias motivadoras. Foi assim com as lutas independentistas latino-americanas, com as ideias de Rousseau, Miranda e tantos outros; em Cuba, José Martí iluminou o caminho da Revolução Cubana. Assim também Fidel Castro, mais vivo que nunca nas ideias.
Uns tentam esquecê-lo, outros manchar sua imagem. Nestes dias se fala mais dele do que durante todo o tempo e aparecem suas obras imensas em educação, ciências e saúde que a própria ONU reconheceu oficialmente.
Pessoalmente reconheço sua enorme generosidade e decisão. Em La Habana, em 2 de junho de 2005, no Encontro Internacional contra o Terrorismo, pela Verdade e Justiça, com apoio da Rede de Intelectuais pela Defesa da Humanidade, terminada minha conferência ele me cumprimentou e pediu meu livro testemunho “Paraguay, la cárcel olvidada, el país exiliado”. Humildemente lhe entreguei uma cópia. Horas mais tarde, dispôs por sua edição e no dia seguinte o livro estava publicado com o prólogo da prestigiosa jornalista Stella Calloni e apresentado publicamente diante de um auditório de mais de duas mil pessoas. A edição foi distribuída em todas as universidades cubanas e sei que alguns estudantes paraguaios tiveram acesso a ele. Bom, trata-se de Cuba, onde um livro vale mais que um fuzil.
*Colaborador de Diálogos do Sul, de Assunção do Paraguai
Baixe gratuitamente o livro testemunho “Paraguay, la cárcel olvidada, el país e

Como imprensa construiu imagem de Fidel Castro e da Revolução Cubana

Como imprensa construiu imagem de Fidel Castro e da Revolução Cubana

Para compreender os discursos sobre Fidel Castro, é importante pensar que tudo que é dito é sustentado por uma memória, não psicológica, como lembrança, mas como prática de linguagem. Por isso que para algo faça sentido no presente, é porque ele já fez sentido antes.
Por Amanda Cotrim (*)
Boa parte da memória sobre Cuba, e consequentemente sobre Fidel, foi construída pela imprensa, que por sua vez não é isenta de uma posição discursiva e ideológica. Os jornais, dessa maneira, repetiram alguns enunciados sobre Fidel, silenciaram outros e regularizaram algumas interpretações sobre o líder cubano.
Para falar sobre Fidel é preciso falar de Cuba:
Cuba era um local estratégico para a política comercial da região do Caribe, sendo palco, no final do século XIX, de duas tentativas de independência. A primeira ficou conhecida como a Guerra dos 10 anos (1865-1875); já a segunda ocorreu em 1895 e teve como líder José Martí, que morreu em combate
Desde o segundo processo de independência cubana (1895-1898), a imprensa brasileira produziu informações sobre o que ocorria em Cuba, por meio do jornal O Estado de S. Paulo. O veículo foi o primeiro a veicular uma opinião, no dia 27 de abril de 1895, se colocando a favor do movimento cubano que pedia a independência e se alinhando ao discurso norte-americano da época, que tinha interesse na independência de Cuba.
Cuba tornou-se independente da Espanha, mas foi capturada pelos EUA, que interviram militarmente, economicamente e politicamente na ilha. A Ilha viveu a ditadura de Machado, na década de 1930 e de Fulgencio Batista, na década de 1950.  Cuba era uma espécie de “ilha da fantasia” para a burguesia norte-americana, com cassinos, pobreza, desigualdade, analfabetismo, praias paradisíacas; um lugar de exploração, de todas as formas que possamos imaginar.
No período da guerrilha cubana (1957 a 1959), o jornal The New York Times construiu Fidel Castro como um “líder rebelde”, fato que contribuiu para produzir um efeito psicológico para o processo histórico que se iniciava na ilha. A guerrilha cubana aconteceu como exigência histórica na relação de Cuba com suas contradições sociais, com a ditadura de Fugencio Batista e com a submissão aos EUA, mas seu processo foi, discursivamente, produzido como sendo de responsabilidade de um sujeito: Fidel Castro. Talvez por isso faça sentido até hoje ouvirmos “a ilha de Fidel”. Noticiar que a Revolução Cubana, enquanto processo histórico, político e coletivo, foi mérito ou culpa de um único sujeito acabou silenciando os (outros) sentidos que poderiam surgir sobre a Revolução. Não por acaso há quem pense que se eliminando Fidel, se elimina a Revolução.
Como a Imprensa noticiou a Revolução Cubana:
Os jornais, em sua maioria, alimentados pelas agências de notícias norte-americanas viam no início com “bons olhos” a guerrilha em Sierra Maestra, saudando Fidel Castro e seus companheiros como heróis e revolucionários. No dia 3 de janeiro de 1959, o jornal brasileiro Diário de Notícias (do grupo Diários Associados) trouxe como manchete: “O exemplo cubano”.
Mas logo após o triunfo da Revolução Cubana, houve uma transformação discursiva dos jornais e das agências de notícias em relação à Ilha. Os guerrilheiros e Fidel Castro, até então enunciados como heróis, passaram a vilões quando Cuba começou a se “esquerdizar”:
Com o triunfo da Revolução Cubana (1959), o governo revolucionário, logo nos primeiros anos, nacionalizou todas as empresas privadas, realizou uma campanha voluntária de alfabetização, julgou os crimes de guerra (sobre os quais a imprensa se posicionou, afirmando serem os paredões), promoveu a reforma agrária e disse que os EUA não iam mais intervir em Cuba. Essas ações do novo governo revolucionário romperam com uma norma social, econômica e política em Cuba. Além disso, dizer “não” para os EUA também lembrou a independência cubana, que não tinha vindo no final do século XIX.
O medo dos jornais era de uma Cuba comunista:
O medo dos jornais não era de uma Cuba guerrilheira, mas de uma Cuba comunista. No meio da Guerra Fria, Cuba surgia como uma ameaça para os demais países da América Latina, e por sua proximidade geográfica tornou-se o alvo da maior potência política do mundo. Os jornais esqueceram do Fidel herói para que novos sentidos sobre ele surgissem, apagando outros possíveis.
Cuba teve sua primeira constituição, pós Revolução, em 1961. No dia 11 de março do mesmo ano, o relatório da CIA (Agência de Inteligência Americana) apresentava o objetivo dos EUA em relação a essa “nova” Cuba:
“Há aproximadamente um ano, a agência foi orientada a colocar em ação a organização de uma ampla oposição ao regime de Castro; uma grande campanha de propaganda; o apoio para atividades de resistências pacíficas e violentas; e o desenvolvimento de forças aéreas e terrestres paramilitares treinadas, compostas por voluntários cubanos. Conclusões: o regime de Castro não cairá por si, o enfraquecimento gradual da oposição interna cubana deve ser esperado. Se usadas com eficiência, as forças paramilitares têm grande chance de depor Castro, ou causar uma prejudicial guerra civil, sem a necessidade dos EUA se comprometerem com a ação manifesta contra Cuba”.
O relatório da CIA foi elaborado pela maior potência militar e política na era capitalista. Fidel Castro foi nomeado o responsável pela Revolução em Cuba e, portanto, tornou-se o alvo político e discursivo dos EUA e, consequentemente, dos jornais que apoiaram os estadunidenses em relação à Ilha.
Como o discurso histórico é constituído politicamente, podemos questionar: até que ponto os dizeres sobre Cuba pelos jornais não foram movidos pelos dizeres dos EUA?
O silêncio da ditadura militar
No Brasil, assim como na maioria dos países da América Latina, a ditadura civil militar (1964-1985) é peça chave para a compreensão dos discursos dos jornais sobre Cuba e Fidel, pois a ditadura organizou uma memória sobre a Ilha. A ditadura civil militar não se mostrou apenas um regime “militar”, mas político, cultural, econômico, social, discursivo. Com a censura, quase nenhuma informação sobre Cuba chegava pelos jornais. Nesse período, o perigo era o inimigo interno: o comunismo. E onde “morava” o comunismo, o perigo vermelho? Em Cuba. Desse modo, a Ilha foi apagada dos jornais. Afinal, proíbem-se certas palavras para se proibirem certos sentidos.
A desintegração da URSS
Os jornais especulavam se, com a desintegração da URSS, Cuba também abandonaria o “comunismo”. A manchete da Folha de S. Paulo, de maio de 1991, dizia: “Fidel defende ditadura no seu 30º aniversário”.
Em 1992, os EUA aprovaram a Lei Torricelli, proposta pelo Partido Democrata do Estado de Nova Jersey, Roberto Torriceli. O presidente da época era Bush pai. A lei é extraterritorial, ou seja, aplicada além das fronteiras dos EUA; é como se uma lei brasileira pudesse ser aplicada na Argentina. A lei proíbe que barcos que atraquem em portos cubanos realizem negócios com os EUA, além de autorizar o presidente estadunidense a aplicar sanções a governos que prestem assistência a Cuba. “Meu objetivo é executar a destruição em Cuba… Minha tarefa é rebaixar Fidel Castro”, disse o autor da lei. Esse enunciado, que relaciona, pela memória, Cuba a Fidel, se propagou. O sentido é que, quando Fidel não existir mais, o sistema socialista em Cuba desaparecerá. Esse discurso é mais eficaz, porque elimina a ideia de que a Revolução existe pela conjuntura e adesão popular, mas pela perversidade de uma mente.
Agora, com o desaparecimento físico de Fidel Castro, estamos diante de um acontecimento histórico dos mais importantes, porque Fidel sofreu mais de 600 tentativas de assassinato; os EUA tentaram muito e tentaram de tudo. Agora mesmo estão tentando por outro caminho, o diplomático. Mas Fidel ajudou a construir algo chamado Revolução, um processo político que produziu nos cubanos uma ética que muita gente nunca conseguirá entender, por isso arrisco dizer que o povo cubano é soberano e não retrocederá.
(*) Amanda Cotrim é Jornalista e Doutoranda em Análise de Discurso pela Unicamp. Estudou cinema na Escola internacional de Cinema e TV de Cuba, foi correspondente na ilha pela revista Caros Amigos em 2012 e é Mestre pela Unicamp com pesquisa sobre a representação de Cuba na mídia mundial.