terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Ocupação do MTST em São Bernardo é um retrato do Brasil pós-golpe

Ocupação do MTST em São Bernardo é um retrato do Brasil pós-golpe

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Pesquisa com ocupantes desmonta estigmas e mostra maioria de trabalhadores pobres, ocupando empregos precários e com salários baixos
Por Rodrigo Gomes
Da Rede Brasil Atual
Estão na escola: 93,6% dos que têm 4 e 5 anos de idade; 97,6% dos que têm de 6 a 14 anos; e 83% daqueles com idade entre 15 e 17 anos. População economicamente ativa: 73,1%. Renda média: R$ 1.137. Taxa de desemprego: 41,8%. Esses dados poderiam ser de qualquer cidade brasileira, mas são de uma pesquisa conduzida pelo Dieese para traçar o perfil dos moradores da Ocupação Povo Sem Medo, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em São Bernardo do Campo,  na região do ABC paulista. O estudo põe abaixo uma série de estigmas sobre os ocupantes e mostra que a situação social do país é muito grave.
“As famílias da ocupação são tipicamente brasileiras. O que significa que a maior parte da população do país está em uma situação de vulnerabilidade muito grande”, ressaltou a socióloga do Dieese Adriana Marcolino. Para ela, os dados mostram a forte desigualdade que ainda existe no Brasil. “É um retrato da situação brasileira. Mostra que retomar o crescimento é importante, mas é preciso priorizar os programas sociais. E demonstra que o trabalho formal pode ser sinônimo de pobreza, se não acompanhado de políticas sociais, como a valorização do salário mínimo”, afirmou.
Segundo a pesquisa, o perfil dos moradores da ocupação está muito distante do estereótipo de “vagabundos”, “aproveitadores” ou “fazedores de filhos pra receber Bolsa Família”, como disparam algumas críticas baseadas no senso comum. Os 73,1% de população economicamente ativa dentre os moradores da ocupação é bem superior aos 62,1% da população que vive na região metropolitana de São Paulo. As taxas de frequência escolar de crianças e adolescentes estão muito próximas da média nacional. Porém, a taxa de desemprego e a renda média destoam.
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“A pesquisa é uma enorme arma para quebrar o preconceito na luta pela moradia com as ocupações. São trabalhadores, muitos desempregados por essa política econômica criminosa que vem sendo tocada no país. Existe estereótipo de que sem teto é morador de rua. Não. A maioria é de trabalhadores de baixa renda, que não aguentam mais pagar aluguel ou se humilhar para viver de favor”, afirmou o coordenador nacional do MTST Guilherme Boulos.
“O Brasil vive uma recessão terrível. O país andou 8% para trás na economia. 14 milhões de desempregados. A última informação do PIB revelou que os empregos criados são majoritariamente informais. Nesse momento que o Estado devia intervir mais promovendo políticas públicas, o governo faz exatamente o contrário. Há dois anos não temos uma contratação nova do Minha Casa, Minha Vida faixa 1. A questão da moradia é um barril de pólvora”, disse Boulos.
As ocupações mais frequentes dos moradores são diarista; ajudante geral; auxiliar de limpeza; garçom; motorista, auxiliar administrativo, operador de telemarketing e pedreiro. A maior parte dos ocupantes é composta por mulheres ( 53,4%) e negros (59,8%). O levantamento também revelou que 30,7% das 12 mil famílias – cerca de 33 mil pessoas – moradoras da ocupação Povo Sem Medo recebe o benefício do Bolsa Família. E que a maior parte das famílias é composta por até três integrantes: 62,2%.
“São pessoas que, com qualquer problema no orçamento, veem explodir as contas do mês. Deixam de pagar alguma conta, pedem dinheiro emprestado. Mas qualquer problema e a situação delas se agrava”, explicou Adriana. E um agravamento significativo foi justamente o aumento do preço dos aluguéis nos últimos nove anos. Enquanto os rendimentos ficaram estáveis, o valor dos aluguéis subiu quase 100 pontos no índice Fipe Zap Imóveis. Com isso, 77,3% das famílias ocupantes estava comprometendo mais de 30% da renda apenas com aluguel nos últimos meses.
Ainda segundo a pesquisa, 59,4% dos ocupantes foram para lá porque não conseguem mais pagar aluguel. Outros 22% moravam de favor. Além disso, 67,9% nunca conseguiram acessar programas habitacionais e veem no MTST um instrumento para conseguir dialogar com Estado, já que as políticas não chegam nelas. Dos moradores, 8,9% dizem acreditar que o caminho pra conquista da casa é a luta social.
O presidente da CUT São Paulo, Douglas Izzo, ressaltou que o país nunca teve uma política habitacional efetiva. “A terra aqui é trabalhada somente na lógica do lucro de uns poucos e não na sua função social. E essa política equivocada do governo Temer tende a aprofundar essa situação”, afirmou.

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Povo não quer candidato do governo e impedir Lula não será pacífico

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ARTIGOS E DEBATES
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Datafolha: sinal fechado para a candidatura governista

Por Tereza Cruvinel 
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A pesquisa Datafolha mostra que a população entendeu e está entendendo tudo – do golpe contra Dilma aos retrocessos do governo Temer, terminando com as ameaças à candidatura Lula -, planeja dar sua resposta nas urnas, elegendo Lula, e avisa que não há espaço para uma candidatura governista.
 
A população entendeu que a derrubada de Dilma Rousseff foi um golpe e traduz sua compreensão em dois pontos da pesquisa:  71% rejeitam Michel Temer e 62% dizem que o governo dele é pior que o da antecessora deposta. Estes dois indicadores já complicam muito a estratégia dos governistas de disputarem com um candidato único, seja ele Alckmin, Meirelles ou qualquer outro. Apoio de Temer ou identificação com o governo são beijo da morte.
 
O que move as pessoas na eleição é o que elas sentem, não números  e estatísticas. O governo e a mídia tocam bumbo para o pibinho de 0,1% no terceiro trimestre, para a criação de empregos, embora sejam majoritariamente informais, a queda dos juros e da inflação e outras mudanças macroeconômicas. Mas a população não está sentindo nada disso, como já mostrou o IBOPE e agora o Datafolha confirma.
 
A população é pessimista em relação a quase tudo na economia e na vida pessoal, mostra o Datafolha: 60% acham que a inflação vai subir, 50% acreditam em aumento do desemprego,  37% acham que a economia ficará na mesma em 2018 e 32% acham que a situação vai piorar. Só 27% acreditam na prometida melhora.  Entre os mais ricos, apenas 31% avaliam que sua situação econômica pessoal piorou, e 42% acham que isso aconteceu ao país como um todo.    Entre os mais pobres,   68% acham que o país piorou e 60% acham que isso aconteceu também em suas vidas. Os pobres são a maioria do eleitorado e neste segmento Lula nem é favorito, é dominante.
 
Com este quadro, não há espaço para a candidatura de direita que querem chamar de centro, e que uniria todas as forças do golpe. PMDB, PSDB, Centrão e quejandos.  Como diz FHC, é tarde para os tucanos negarem o golpe e o governo que apoiaram.  Mas eles já sabem o tamanho da pedra que colocaram no próprio caminho.  Por isso, contra o Lula, só vai lhes restar o tapetão. Mas isso também representará outro golpe, e desta vez a população talvez não aceite tão passivamente o roubo de seu direito de votar no preferido.

 Tereza Cruvinel é uma jornalista brasileira.
 

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Santuário indígena é ameaçado por bairro de alto padrão em Brasília

ESPECULAÇÃO

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"Quando a gente não se vende, morre. O branco é assim: ou compra o índio ou manda matar", denuncia liderança Guajajara

Brasil de Fato | Brasília (DF)
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Construído há mais de 40 anos, Santuário dos Pajés é considerado lugar sagrado para as três comunidades indígenas que hoje vivem no local / Fotos: Mídia Ninja
Na capital federal, no coração do cerrado, uma comunidade indígena resiste ao avanço da especulação imobiliária que tomou conta do país especialmente na última década. Localizada no chamado "Santuário dos Pajés", a comunidade vive hoje sob intenso aliciamento por parte de construtoras que avançam sobre o território para expandir um bairro de classe alta conhecido como Noroeste. A região tem o metro quadrado mais caro da cidade, orçado em R$ 9,4 mil.
Para retirar os indígenas da terra, os especuladores têm feito de tudo: desde prometer bens como carros e imóveis em outras áreas da cidade até promover invasões de fato, com o objetivo de provocar uma migração dos três grupos  Guajajara, Fulni-Ô e Kamuu  que hoje habitam o terreno. Para o indígena Kamuu Dan Wapishana, a atitude ignora o valor dado pela comunidade à terra. "Nós não nos enquadramos na destruição do cerrado pra virar via pra carro. Nós precisamos do carro — eu tenho um carro velho porque eu preciso sair —, mas, se for preciso eu plantar uma árvore e deixar o carro, prefiro plantar a árvore", afirma.
O avanço da especulação imobiliária compromete não só a cultura indígena, mas também a preservação da natureza. Para se ter uma ideia, a área, que no passado já teve 180 hectares, hoje é alvo de um impasse judicial para o reconhecimento de pelo menos 51 hectares.
Representante do Santuário, Márcia Guajajara
A medição consta numa ação — ainda sem sentença judicial — movida pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2003 para que a área seja reconhecida como terra tradicional indígena. O local tem cerca de 3 mil espécies vegetais catalogadas. Uma riqueza de grande estima para a representante do Santuário, Márcia Guajajara: "Pra mim, isso tem muito mais valor do que um saco de dinheiro que o governo me oferece todo dia", diz. 
A área também já foi rica em mananciais, mas sofreu grave redução do volume de água por conta da construção do bairro Noroeste. O luxo dos prédios vizinhos contrasta com a situação precária em que vivem os indígenas, que não têm água encanada e contam apenas com uma ligação improvisada para o abastecimento da comunidade.
Cerca de 150 pessoas vivem no local, sendo 69 crianças. Os moradores contam que a história do Santuário remonta à criação de Brasília: no final da década de 1950, um grupo de indígenas Tapuya chegou à cidade juntamente com a leva de trabalhadores que veio ajudar na construção da nova capital.
Indígenas refazem cerca de território invadido pela Novocap
Por conta da tradição, eles precisavam ter uma "casa de reza" e, de acordo com a cosmovisão indígena, a área onde hoje fica o Santuário é um local sagrado e apropriado para a instalação da casa. Assim, os recém-chegados deram início ali à construção do Santuário.
O local hoje é ameaçado, entre outras coisas, pela construção de uma estrada reivindicada pelos moradores do novo bairro. O conflito de interesses envolvendo construtoras e indígenas teve início há cerca de dez anos, quando o Governo do Distrito Federal (GDF) começou a anunciar a criação do Noroeste, inaugurado com a promessa de ser o primeiro bairro ecológico do país. Para Kamuu Dan Wapishana, a iniciativa carrega uma contradição. "É uma sociedade que a gente vê que está destruindo o planeta. E nós fazemos o contrário: estamos defendendo o território", compara.
O conflito envolvendo o Santuário dos Pajés conta com mais de 30 processos na Justiça. Uma disputa sentida à flor da pele pelos indígenas no cotidiano da comunidade. O episódio mais recente se deu na última quarta-feira (29), quando 11 funcionários da Novacap, empresa de construção de obras do GDF, desmataram cerca de 1,5 hectare do terreno. Segundo os moradores, eles teriam agido com violência e ameaçado os dois indígenas que estavam no local, entre eles Márcia Guajajara.
"Todos nós indígenas sabemos que, quando a gente é liderança de uma terra e não se vende, você morre, porque o branco é assim: ou compra o índio ou manda matar", desabafa a representante, ao falar sobre o episódio. 
Veja a galeria de fotos do Santuário:

Os moradores sustentam que a área desmatada está no perímetro protegido por uma sentença cautelar da Justiça Federal de 2013. A decisão resulta de uma ação movida pela própria comunidade para proteger o Santuário enquanto a ação do MPF não tem decisão final. O advogado dos indígenas, Ariel Foina, destaca que a ação da Novacap pode ser considerada ilegal. "É uma desobediência direta à ordem judicial expressa que proibia exatamente aquilo que foi feito", pontua.
Em nota enviada à imprensa, a Novacap negou as acusações e disse que a área desmatada não pertence ao terreno que é objeto de disputa judicial. Questionada pelo Brasil de Fato sobre o motivo da obra, a empresa respondeu apenas que agiu a mando da Terracap, agência de terras do GDF. A reportagem também procurou a Terracap com o mesmo questionamento, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O episódio está sendo investigado agora pelo MPF.
Edição: Vanessa Martina Silva

Recebido por centenas de pessoas, Lula inicia caravana em Vitória (ES)

#LULAPELOBRASIL

Recebido por centenas de pessoas, Lula inicia caravana em Vitória (ES)

Ex-presidente chega amanhã à noite ao Rio de Janeiro; acompanhe Minuto a Minuto no Brasil de Fato

Brasil de Fato | Vitória (ES)
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Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou, na noite desta segunda-feira (4), mais uma etapa de sua caravana "Lula pelo Brasil / Ricardo Stuckert
“Esse governo que está aí está rasgando tudo o que conquistamos nos últimos anos sem nenhuma legitimidade. Estou aqui para mostrar que ainda é possível fazer esse país voltar a crescer, recuperar a autoestima, voltar a ser alegre, gerar emprego com carteira assinada, colocar meninos e meninas das periferias na universidade”.
Foi com essas palavras que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou, na noite desta segunda-feira (4), mais uma etapa de sua caravana "Lula pelo Brasil", em que vai percorrer os estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. A abertura da caravana pelo estado capixaba aconteceu na praça Costa Pereira, no centro de Vitória, com um grande ato, que reuniu centenas de pessoas.
Em seu discurso, Lula ainda garantiu que vai ser candidato em 2018, mesmo que o mercado tente impedir. “Quero voltar a ser Lulinha paz e amor e não adianta o mercado fazer terrorismo, porque eu não vou pedir voto ao mercado. O mercado sabe que quando cheguei na Presidência a gente devia R$ 30 bilhões ao FMI e hoje o FMI é quem deve dinheiro para nós”, acrescentou.
O ex-presidente ainda falou sobre a atenção que deu ao estado do Espírito Santo durante seu mandato, através do investimento na indústria naval. “Quando cheguei na presidência, eram 2.6 mil trabalhadores no setor, que passou a ter 86 mil trabalhadores. Estão desmontando a indústria naval porque estão comprando plataformas na Coreia, dizendo que é mais barato. Não tem nada mais barato do que ver o povo brasileiro trabalhar, comprar o que comer e pagar seus impostos”, argumentou.
Lula ainda falou que o país precisa recuperar seu protagonismo internacional, o que está na contramão da política diplomática feita pelo governo de Michel Temer. “A gente tem que parar com esse complexo de vira-lata de se subordinar aos Estados Unidos e Europa. A gente tem que olhar para a América Latina”, afirmou.
Antes do discurso de Lula, o advogado capixaba João Carlos, que se formou em direito graças ao ProUni, entregou seu diploma para que o ex-presidente o assinasse.
“Sou filho de mãe cabeleireira, fui muito pobre, quanta luta tive na minha vida. Hoje sou exemplo vivo de que uma política séria voltada para o povo dá muitos resultados. Venci e voei muito alto porque tive oportunidade” disse emocionado.
O trabalhador da área da construção civil, Joventino Schneider, 67 anos, também esteve no ato para dar apoio ao ex-presidente, que melhor governou o país, em sua opinião.
“Um torneiro mecânico, como ele, chegar a presidência e criar a quantidade de empregos como ele fez nunca teve igual. Hoje, você vê, obra civil acabou. O povo acreditou que esse aí que entrou seria o bonzão, olha só no que deu”, afirma.
Neuci Sanchez, 58 anos, também garantiu presença no ato para prestigiar Lula. “Nosso grande presidente, que governou para o povo, para a classe trabalhadora, merece todo o nosso respeito, quem não entende isso deve estar alienado”, acrescenta.
Depois de Vitória, o segundo destino da caravana é Cariacica, onde o ex-presidente desembarca nesta terça-feira (5), para visitar o Instituto Federal do Espírito Santo(IFES-ES), criado durante seu governo e parte do processo de expansão e interiorização do ensino técnico e superior. Na ocasião, Lula vai conversar com diretores e com o reitor, como tem feito em outras visitas a institutos federais nas etapas anteriores da caravana.
Em seguida, o ex-presidente será recebido no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Campos dos Goytacazes. A caravana ainda passará por Maricá, Itaboraí, Duque de Caxias, Belford Roxo e Nova Iguaçu. O encerramento acontece na próxima sexta-feira (8), quando desembarca no Rio de Janeiro.
Ao longo dos cinco dias da passagem do ex-presidente pelos dois estados, o Brasil de Fato estará presente com uma cobertura em tempo real, mostrando histórias e realidades do povo capixaba e fluminense.

Edição: Vivian Virissimo

Caravana de Lula pelo Brasil

Lula, agora, falando para estudantes, professores e funcionários do IFES, em Cariacica, ES.


https://www.brasildefato.com.br/2017/12/04/minuto-a-minuto-or-caravana-lula-pelo-espirito-santo-e-rio-de-janeiro/

Odebrecht: os laços de família são o dinheiro

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Estarrecedora a reportagem da Folha sobre o clima de apreensão no império Odebrecht com a iminente soltura do delfim Marcelo, preso há dois anos.
Ao contrário do que deveria ser um momento de alegria, com a volta ao convívio com o filho do patriarca Emílio, “o ambiente, de acordo com executivos e delatores ouvidos pela Folha, é de preocupação”.
De acordo com pessoas com acesso ao empresário na prisão, ele se mostra insatisfeito com um acordo cujo resultado considera extremamente injusto, principalmente no que se refere à sua participação no pagamento de propina. Há o temor de que aponte omissões e imprecisões no acordo, tema frequente de conversas de quem o visita em Curitiba.
Ou seja, de que comece a evidenciar que as dezenas de delações de executivos da empresa – todos devidamente recompensados com prêmios em dinheiro do “patrão” – foram, na verdade, uma “conta de chegar” ao que deles exigia a Procuradoria Geral da República, no que até então – antes da JBS – era a “jóia da coroa” do jusdedurismo implantado no Brasil.
Porque, como registra o jornal,  a delação “foi arquitetada por Emílio, que via nesse instrumento a única maneira de salvar os negócios da falência” e causou o rompimento entre  pai e filho. Se um filho não importa à construção de uma narrativa que renda frutos nos negócios do império, o que importaria a verdade?
Tanto é assim que o jornal diz, já no título que o medo é que ele “aponte mentiras” no que foi delatado ou, é possível imaginar, que construa as suas próprias inverdades, para melhorar ou manter os termos de sua condenação.
Além do pai, Marcel, diz a Folha, estaria “rompido” com a irmã, Mônica, com o cunhado, Maurício Ferro, que também é diretor no grupo, e com a mãe, a quem era muito ligado, além do diretor jurídico do grupo, Adriano Maia, operador do acordo de  delação.
Não admira que, para um clã que se confunde com um império de negócios, os laços de família sejam mais fracos que as correntes do dinheiro.
O que admira é que a Procuradoria da República não dê a mínima importância ao que pode haver de mentiras num acordo de delação que – sem tirar nem pôr de forma idêntica ao da JBS – é apenas uma operação de salvação comercial, ainda que isso custe a honra e a liberdade de terceiros.

Doria: a ruína da ambição sem caráter

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Alguém pode se surpreender com o fato de o Datafolha revelar que João Doria Júnior, depois de 11 meses no cargo que usa como plataforma de suas ambições, tenha saído da condição de “grande novidade” da política para se tornar um governante rejeitado pelo povão e sustentado apenas pela elite rica de São Paulo?
Ainda sustentado, diga-se, porque à medida em que se evidenciar que Doria é fósforo queimado, ela o abandonará por algum brinquedo novo, por um novo boneco que com que possa engambelar a classe média  e manter o poder.
Fósforo queimado, sim, porque os 39% de ruim e péssimo que a pesquisa publicada hoje pela Folha lhe atribui se iguala, dentro da margem de erro, à avaliação que tiveram Celso Pitta (42%), Maluf (41%) e Jânio Quadros (40%).  E iguala, pelo avesso,  à que teve Haddad, com seu erro de crer que a São Paulo “cult” é maior que a São Paulo do povão, com o qual não soube dialogar e se fazer entendido.
O fracasso rotundo de João Doria é um destes momentos em que, nos tempos duros que vivemos, realimenta a convicção de que a seriedade política tem seu valor e que os aventureiros estão fadados a desmascararem-se em sua farsa.
Essa é a diferença que faz com que Dória, em 11 meses de comando da maior cidade do país, com farta promoção e publicidade, atinja um nível de rejeição que exigiu anos e anos de acusações, perseguições e morices  a construírem para Lula e que vai se desfazendo, porque o Lula real sobrevive, enquanto o Doria “gestor” se desfaz.
A verdade, dizia sempre Leonel Brizola, é a realidade. E a realidade teima em surgir, teimosa,  mesmo quando sobre ela se derrama a crosta da propaganda e da manipulação.
Doria é, de fato, o “anti-Lula” que apregoaram ser. Não porque pudesse vencê-lo eleitoralmente, o que nunca pôde,  mas porque é fugaz como tudo o que não brota da vida real.
Ah, e na fria realidade da política, que descarta o inservível, o ex-candidato a presidente caminha para ser, também, o ex-candidato a Governador.
Ou para, aventureiro que é, empurrar todas fichas à mesa e levar junto Geraldo Alckmin, que chora lágrimas de arrependimento de ter criado seu “gremlin”.