quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Bolívia e Chile rechaçam ameaças dos Estados Unidos de intervenção militar na Venezuela
Bolívia e Chile rechaçam ameaças dos Estados Unidos de intervenção militar na Venezuela
Procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, denunciou supostos planos colombianos, com apoio norte-americano, para uma invasão em seu país
O presidente da Bolívia, Evo Morales, e o chanceler chileno, Heraldo Muñoz, rechaçaram nesta terça-feira (13/02) as ameaças de uma intervenção militar na Venezuela pelos Estados Unidos.
Morales pediu que se realize uma reunião de emergência da Unasul (União Sul-Americana de Nações) para discutir as ameaças.
“Quero aproveitar esta oportunidade para expressar nossa solidariedade com a Venezuela, ante as constantes ameaças de intervenção. Os EUA têm que deixar de nos ameaçar. A Unasul deveria convocar uma reunião de emergência e fazer respeitar a soberania de um povo irmão”, disse, pelo Twitter.
Por sua vez, Muñoz afirmou, em Lima, que o Chile nunca estaria a favor “de uma intervenção militar ou de outra natureza na Venezuela”.
“Nos opomos aos golpes de Estado e ao uso da força; queremos uma saída pacífica, eleitoral, política para a situação”, disse o chanceler que, apesar disso, esteve reunido na capital peruana com outros representantes diplomáticos americanos e declarou rechaço às eleições presidenciais marcadas para 22 de abril.
Reprodução/Twitter
Evo Morales rechaçou ameaças de intervenção militar na Venezuela
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Venezuela marca data das eleições presidenciais deste ano: 22 de abril
Oposição da Venezuela se recusa a assinar acordo e negociações com governo são interrompidas
O Partido Comunista do Chile também se pronunciou sobre as ameaças. Em nota, a agremiação fez um chamado aos “democratas para defender a soberania e autodeterminação dos povos. “A política exterior estadunidense, tanto no passado, como no presente, nos mostra que está disposta a avalizar intervenções militares e golpes de Estado. (…) Não ao intervencionismo dos Estados Unidos na Venezuela”, diz o comunicado.
Ameaças dos EUA
Há uma semana, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, fez uma viagem por México, Peru, Argentina e Colômbia logo após sugerir, em uma palestra na Universidade do Texas, que militares poderiam intervir na Venezuela.
Logo após a viagem de Tillerson, o presidente colombiano Juan Manuel Santos anunciou medidas para restringir a entrada de refugiados venezuelanos no país e mobilizou 3.000 unidades militares para “reforçar” o controle militar na fronteira.
No começo da semana, o procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, denunciou supostos planos colombianos, com apoio norte-americano, para uma invasão em seu país. "Da Colômbia, estão planejando nada mais, nada menos que um bombardeio militar, a invasão militar, a ocupação a sangue e fogo de um país pacífico como a Venezuela", afirmou, em discurso transmitido pela emissora estatal VTV. "Aqui vamos combater e vamos resistir. Não temos medo!", completou.
(*) Com teleSUR
Tuiuti explica o golpe de 2016 para quem ainda não entendeu:
Tuiuti explica o golpe de 2016 para quem ainda não entendeu: http://youtu.be/LC6k0H8QdOU?a via @YouTube
A DIFERENÇA FUNDAMENTAL ENTRE BEIJA_FLOR E PARAÍSO DO TUIUTÍ. Leitura imperdível!
A DIFERENÇA FUNDAMENTAL ENTRE BEIJA_FLOR E PARAÍSO DO TUIUTÍ.
A primeira ajudando a Globo a desconstruir o recado do POVO, na segunda.
Por JOAQUIM DE CARVALHO_ DCM.
Globo apoia a Beija-Flor, mas Tuiuti tem a força do povo: algo soa familiar? Por Joaquim de Carvalho
Por Joaquim de Carvalho - 13 de fevereiro de 2018
O Carnaval do Rio em 2018 já entrou para a história, mas o último capítulo desta jornada será escrito com a divulgação do resultado do júri, nesta quarta-feira.
Duas visões de mundo foram expostas nos desfiles deste ano e uma delas deve prevalecer, com o resultado das notas dos jurados.
Não significa que uma dessas duas escolas vá vencer, mas há uma disputa implícita entre a Paraíso do Tuiuti e a Beija-Flor de Nilópolis.
Não é uma questão técnica apenas, é uma questão política.
E é impossível dissociar o samba da política, não da política partidária, menor, mas daquela que define a relação entre as pessoas num território.
O samba trata do cotidiano, em geral das pessoas do morro, o morro que foi ocupado como resultado de um processo multissecular de exclusão social.
A arte do Carnaval está lá, desde sempre. Mas se encontra também em outras comunidades de excluídos.
Nesta Carnaval de 2018, de um lado, a Beija-Flor, se destacou pela apresentação com um enredo que poderia ser escrito por um editor do Globo, com alegorias que remetem à corrupção.
Ratos correndo com malas de dinheiro, o prédio da Petrobras em ruína, crianças abandonadas, miséria.
Como se todas essas mazelas fosse resultado da corrupção política exclusivamente.
É o roteiro da Lava Jato.
A Paraíso do Tuiuti, de outro lado, se destacou por apresentar a causa desse estado de coisas. Foi mais profunda, foi mais inteligente, foi intelectualmente mais sofisticada.
A escola, novata entre as grandes, retratou a escravidão, mas não como uma página virada da história do Brasil.
A escravidão que ecoa nos dias de hoje, através da ação uma elite insensível, gananciosa, mistificadora, manipuladora e sanguinária.
É o roteiro daqueles que denunciam a Lava Jato como um instrumento de afirmação de classe,da classe dos que mandam, daqueles que estão acima da política institucional..
Jack Vasconcelos, o carnavalesco, mostrou que o golpe que tirou Dilma Rousseff do poder é resultado direto da mesma correlação de forças que fez do Brasil o último país a abolir a escravidão nas Américas.
Abolição que não se seguiu da necessária política compensatória, como aconteceu nos Estados Unidos no século XIX e aqui, só a partir de 2003, ainda que timidamente, no governo do PT.
Jack Vasconcelos criou os manifestoches, brasileiros manipulados a ponto de se apropriarem de símbolos que não lhe são exclusivos, como a camisa da Seleção Brasileira, ou que não lhe pertencem, como o bater de panelas, próprio de quem passa fome.
Manifestoches manipulados por uma mão grande, que pode ser a Globo, mas não só. Refere-se a todos os donos do poder.
Carteira de trabalhado queimada não é uma crítica à falta de trabalho regular, que obriga o brasileiro ao trabalho informal, como mentiu o jornalismo da Globo, ao descrever o desfile.
Foi uma alegoria que denuncia a extinção dos direitos, resultado da reforma trabalhista e da terceirização irrestrita, ambas frutos de uma intensa e antiga pressão dos donos da Globo.
A Tuiuti mostrou que a raiz dos nossos problemas está na desigualdade social, que se ampliou com o golpe e deve se ampliar ainda mais se o golpe não for contido.
A Beija-Flor mostrou o peso dos impostos na vida dos brasileiros, fazendo eco ao MBL, que não contam que quem paga imposto no Brasil é pobre, porque rico ou sonega, ou não é tributado.
O pobre, quando compra uma aspirina, paga imposto.
Para manter este estado de coisas é que se move a máquina da corrupção.
Tem, a propósito, uma afiliada da Globo, a RBS, flagrada na Operação Zelotes, o raio x dos senadores, sem que até agora tenha sido incomodada pela Justiça.
Os donos da Globo foram denunciados por crime contra a ordem tributária, num processo da Receita Federal que descobriu sonegação milionária na aquisição dos direitos de transmissão da Copa de 2002.
O processo desapareceu da Receita Federal na véspera da denúncia ser enviada ao Ministério Público Federal.
Uma neta de Roberto Marinho teve seu nome encontrado na papelada do escritório brasileiro da Mossack Fonseca, que tinha uma única atividade: abrir as portas dos paraísos fiscais para a lavagem de dinheiro ou ocultação de patrimônio.
É um braço do escândalo mundial Panamá Papers, mas nada aconteceu com Paula Marinho, a neta de Roberto Marinho.
A mesma neta usufruiu durante muitos anos de um imóvel construído ilegalmente numa área de proteção ambiental em Parati.
O processo é antigo, tem mais de seis anos, e até agora a Justiça não conseguiu tomar o depoimento de uma mulher que é a laranja dos verdadeiros proprietários.
Essa mulher, que mora no Rio de Janeiro, ignora as intimações, e a Justiça Federal não cogita condução coercitiva, nesse caso absolutamente justificável.
No escândalo da Fifa, que envolve corrupção grossa, a Globo até agora se safa, como bagre ensaboado na mão de um pescador.
Seu diretor envolvido nas negociações de direitos de transmissão foi abatido pelas denúncias, mas permanece de boca fechada.
A lista de suspeitas envolvendo a Globo é extensa.
Mas nesta quarta-feira, depois do resultado, se der Beija-Flor, como parece ser seu desejo— até comentarista internacional da emissora elogiou a escola —, a Globo repetirá a ladainha — o brasileiro não tolera corrupção, etc.
O buraco é mais embaixo, e a Tuiuti mostrou onde ele começa, mas, nas relações que se tecem a partir de um grupo de comunicação, a verdade — e o mérito — é o que menos importa.
A Beija-Flor, a propósito, tem relações antigas com a família Marinho.
Seu patrono, Anísio Abraão David, presidente de honra da Beija-Flor, comprou em 2004 de Roberto Marinho o triplex de cobertura em Copacabana, onde o fundador da Globo costumava receber convidados para uma famosa festa de Reveillon.
O triplex, já em nome de Anísio, acusado de explorar jogo ilegal, foi alvo em 2011 de uma operação cinematográfica da Polícia Civil, com agentes descendo de rapel de helicóptero para cumprir mandado de busca.
Anísio, condenado a mais de 47 anos de prisão, está solto e a escola em que ele manda se sente à vontade para denunciar a corrupção na avenida, com o incentivo e o elogio da TV da família Marinho.
Já a Tuiuti, este ano, chega ao júri do Carnaval com uma única força, a do povo.
Nunca o Carnaval espelhou tanto a realidade brasileira.
A Crítica Social volta à Marquês de Sapucaí: a luta de visões sobre a realidade brasileira
Ricardo Lodi
A Crítica Social volta à Marquês de Sapucaí: a luta de visões sobre a realidade brasileira
Nesse “palco iluminado”, onde outrora foram vivenciadas, nos anos de 1980, memoráveis críticas sociais como as antológicas apresentações da Caprichosos de Pilares e São Clemente, tem havido, nos últimos anos, com honrosas exceções bissextas, um verdadeiro silêncio sobre a realidade em que vivemos.
Esse ano, esse silêncio foi quebrado pela apresentação de três escolas do Grupo Especial: Paraíso do Tuiuti, Estação Primeira de Mangueira e Beija-Flor de Nilópolis, a despeito a visão bem diferente das três apresentações.
A da Mangueira foi uma crítica necessária, mas pontual, à redução da subvenção que o Prefeito Crivella deu às escolas de samba esse ano. Assim, a crítica, embora muito oportuna, se limita ao descontentamento do comportamento do governo municipal com as escolas de samba do Rio de Janeiro e à influência da religião na folia.
Já a Beija-Flor fez uma aguda crítica ao quadro de desestruturação da nossa sociedade, o que, por si só já é uma boa notícia, uma vez que a Deusa da Passarela, que em 1989, com o gênio de Joãozinho Trinta, chocou o mundo do samba e apavorou os conservadores com o inesquecível e revolucionário “Ratos e Urubus, larguem minha fantasia”, há muito abandonou o estilo mais crítico, preferindo enredos patrocinados constituídos a partir da bajulação de figuras polêmicas , como Boni, da exaltação de produtos comerciais como o Mangalarga marchador, e da celebração de cenários bastante controvertidos, como a Guiné Equatorial do ditador Nguema Mbasogo, trazendo a recordação de enredos da primeira metade dos anos de 1970, com explícita apologia à ditadura militar brasileira.
A gente vê que a coisa está feia mesma, quando até a Beija-Flor mostra o quadro devastador por que passamos.
Porém, apesar do belíssimo desfile e da costumeira garra do povo de Nilópolis, a visão crítica apresentada soou equivocada e conservadora, bem ao gosto da explicação do establishment para a crise nacional, baseada na lenda do patrimonialismo herdado de Portugal.
A leitura que a Beija-Flor ofereceu é a de que a causa da crise nacional, muito bem demonstrada com a desagregação do tecido social representada pela violência urbana, pela desestruturação da saúde e da educação e pelo abandono das nossas crianças, é a corrupção de nossa classe política. Sob essa ótica, o problema está no Estado.
Nesse sentido, tivemos uma lindíssima representação dramática da dominante visão lavajatista de que a corrupção dos políticos é a causa de todas as nossas chagas, passando ao largo da escandalosa desigualdade brasileira, herdada da escravidão e perpetuada por um modelo que retira recursos das camadas mais pobres e dirige ao mercado financeiro, a partir da cooptação de todas as instituições nacionais a esses interesses.
Simbólica da imperdoável omissão sobre a desigualdade é a interessantíssima imagem da cabeça de Frankenstein, belíssima homenagem aos 200 anos da obra, formada por várias fatias onde se lia palavras como “preconceito”, “racismo”, “misoginia”, “intolerância”. Faltou a menção à expressão “desigualdade”. Mas isso é só um revelador detalhe.
A instigante reprodução dos políticos como ratazanas não destoa do que é reproduzido nos noticiários da grande mídia, e é crítica que, quando desacompanhada da revelação de que a corrupção é fenômeno inerente à subordinação da esfera política aos interesses do mercado e não fruto do desvio pessoal dessa ou daquela pessoa, soa como a negação da política. Apesar da visão equivocada do cenário nacional, a azul e branco da Baixada fez um dos seus mais belos desfiles dos últimos anos e é séria candidata ao troféu da Liesa.
No entanto, a principal vicissitude da exibição da Beija-Flor é a comparação com o desfile apresentado na véspera pela Paraíso do Tuiuti, que, ao mesmo tempo que celebra os 130 anos de abolição da escravatura, questiona se houve, de fato, a liberação do cativeiro social.
O desfile, que começa com uma das mais impressionantes comissões de frente que já passaram pela Sapucaí, com os barbaramente realistas açoites nos escravos impostos pelo feitor negro, encontrando bálsamo nas bênçãos do Preto Velho que lhes embala ao “grito de liberdade”. Cena indiscritível justamente premiada com o Estandarte de Ouro.
O enredo segue mostrando as vicissitudes do povo negro, das torturas e do cativeiro, passando pela Lei Áurea, até chegar aos dias atuais que revelam as condições terríveis a que são submetidos como subempregados e celetistas, que têm os seus direitos usurpados pela reforma trabalhista do presidente vampiro, sustentado pelos “manifantoches”, batedores de panela com a camisa da CBF, manipulados como marionetes pela corte do vampiro do neoliberalismo.
Em um desfile histórico a Tuiuti, em uma coragem invejável para uma escola que se segura para ficar no Grupo Especial, em tempos de macarthismo cultural, mostra como se coloca o dedo na ferida de verdade, revelando a escravidão como a principal causa dos nossos problemas, na linha destacada por Jessé Souza, e dos traços escravocratas que até hoje definem a sociedade brasileira.
Com isso, o desfile faz uma conexão corretíssima entre as causas e as consequências da crise nacional apontando o Golpe de 2016 como um mecanismo usado pelas elites para restringir os direitos dos pobres e negros no Brasil, por meio da Reforma Trabalhista, como meio de perpetuação da escravidão.
Independentemente do resultado oficial, Tuiuti realizou um desfile que entra para a história como um resgate das tradições das escolas de samba do Rio de Janeiro que, desde os anos de 1960 após a revolução que Fernando Pamplona fez no Salgueiro e nos desfiles em geral, sempre se prestou a ser a voz do povo negro que teimosamente se recusa a entregar a festa por ele criada aos patrocinadores.
Parabéns, Paraíso do Tuiuti!!!!
A Crítica Social volta à Marquês de Sapucaí: a luta de visões sobre a realidade brasileira
Nesse “palco iluminado”, onde outrora foram vivenciadas, nos anos de 1980, memoráveis críticas sociais como as antológicas apresentações da Caprichosos de Pilares e São Clemente, tem havido, nos últimos anos, com honrosas exceções bissextas, um verdadeiro silêncio sobre a realidade em que vivemos.
Esse ano, esse silêncio foi quebrado pela apresentação de três escolas do Grupo Especial: Paraíso do Tuiuti, Estação Primeira de Mangueira e Beija-Flor de Nilópolis, a despeito a visão bem diferente das três apresentações.
A da Mangueira foi uma crítica necessária, mas pontual, à redução da subvenção que o Prefeito Crivella deu às escolas de samba esse ano. Assim, a crítica, embora muito oportuna, se limita ao descontentamento do comportamento do governo municipal com as escolas de samba do Rio de Janeiro e à influência da religião na folia.
Já a Beija-Flor fez uma aguda crítica ao quadro de desestruturação da nossa sociedade, o que, por si só já é uma boa notícia, uma vez que a Deusa da Passarela, que em 1989, com o gênio de Joãozinho Trinta, chocou o mundo do samba e apavorou os conservadores com o inesquecível e revolucionário “Ratos e Urubus, larguem minha fantasia”, há muito abandonou o estilo mais crítico, preferindo enredos patrocinados constituídos a partir da bajulação de figuras polêmicas , como Boni, da exaltação de produtos comerciais como o Mangalarga marchador, e da celebração de cenários bastante controvertidos, como a Guiné Equatorial do ditador Nguema Mbasogo, trazendo a recordação de enredos da primeira metade dos anos de 1970, com explícita apologia à ditadura militar brasileira.
A gente vê que a coisa está feia mesma, quando até a Beija-Flor mostra o quadro devastador por que passamos.
Porém, apesar do belíssimo desfile e da costumeira garra do povo de Nilópolis, a visão crítica apresentada soou equivocada e conservadora, bem ao gosto da explicação do establishment para a crise nacional, baseada na lenda do patrimonialismo herdado de Portugal.
A leitura que a Beija-Flor ofereceu é a de que a causa da crise nacional, muito bem demonstrada com a desagregação do tecido social representada pela violência urbana, pela desestruturação da saúde e da educação e pelo abandono das nossas crianças, é a corrupção de nossa classe política. Sob essa ótica, o problema está no Estado.
Nesse sentido, tivemos uma lindíssima representação dramática da dominante visão lavajatista de que a corrupção dos políticos é a causa de todas as nossas chagas, passando ao largo da escandalosa desigualdade brasileira, herdada da escravidão e perpetuada por um modelo que retira recursos das camadas mais pobres e dirige ao mercado financeiro, a partir da cooptação de todas as instituições nacionais a esses interesses.
Simbólica da imperdoável omissão sobre a desigualdade é a interessantíssima imagem da cabeça de Frankenstein, belíssima homenagem aos 200 anos da obra, formada por várias fatias onde se lia palavras como “preconceito”, “racismo”, “misoginia”, “intolerância”. Faltou a menção à expressão “desigualdade”. Mas isso é só um revelador detalhe.
A instigante reprodução dos políticos como ratazanas não destoa do que é reproduzido nos noticiários da grande mídia, e é crítica que, quando desacompanhada da revelação de que a corrupção é fenômeno inerente à subordinação da esfera política aos interesses do mercado e não fruto do desvio pessoal dessa ou daquela pessoa, soa como a negação da política. Apesar da visão equivocada do cenário nacional, a azul e branco da Baixada fez um dos seus mais belos desfiles dos últimos anos e é séria candidata ao troféu da Liesa.
No entanto, a principal vicissitude da exibição da Beija-Flor é a comparação com o desfile apresentado na véspera pela Paraíso do Tuiuti, que, ao mesmo tempo que celebra os 130 anos de abolição da escravatura, questiona se houve, de fato, a liberação do cativeiro social.
O desfile, que começa com uma das mais impressionantes comissões de frente que já passaram pela Sapucaí, com os barbaramente realistas açoites nos escravos impostos pelo feitor negro, encontrando bálsamo nas bênçãos do Preto Velho que lhes embala ao “grito de liberdade”. Cena indiscritível justamente premiada com o Estandarte de Ouro.
O enredo segue mostrando as vicissitudes do povo negro, das torturas e do cativeiro, passando pela Lei Áurea, até chegar aos dias atuais que revelam as condições terríveis a que são submetidos como subempregados e celetistas, que têm os seus direitos usurpados pela reforma trabalhista do presidente vampiro, sustentado pelos “manifantoches”, batedores de panela com a camisa da CBF, manipulados como marionetes pela corte do vampiro do neoliberalismo.
Em um desfile histórico a Tuiuti, em uma coragem invejável para uma escola que se segura para ficar no Grupo Especial, em tempos de macarthismo cultural, mostra como se coloca o dedo na ferida de verdade, revelando a escravidão como a principal causa dos nossos problemas, na linha destacada por Jessé Souza, e dos traços escravocratas que até hoje definem a sociedade brasileira.
Com isso, o desfile faz uma conexão corretíssima entre as causas e as consequências da crise nacional apontando o Golpe de 2016 como um mecanismo usado pelas elites para restringir os direitos dos pobres e negros no Brasil, por meio da Reforma Trabalhista, como meio de perpetuação da escravidão.
Independentemente do resultado oficial, Tuiuti realizou um desfile que entra para a história como um resgate das tradições das escolas de samba do Rio de Janeiro que, desde os anos de 1960 após a revolução que Fernando Pamplona fez no Salgueiro e nos desfiles em geral, sempre se prestou a ser a voz do povo negro que teimosamente se recusa a entregar a festa por ele criada aos patrocinadores.
Parabéns, Paraíso do Tuiuti!!!!
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Universidade disponibiliza acervo online com 2500 livros sobre África e Oriente Revista Prosa Verso e Arte
Universidade disponibiliza acervo online com 2500 livros sobre África e Oriente
A biblioteca digital da Universidade de Aveiro já permite ler através da internet obras digitalizadas de Angola, Cabo Verde, Goa, Guiné, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor.
O Portal das Memórias de África e do Oriente é um projeto da Fundação Portugal-África desenvolvido e mantido pela Universidade de Aveiro e pelo Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento desde 1997. É um instrumento fundamental e pioneiro na tentativa de potenciar a memória histórica dos laços que unem Portugal e a Lusofonia, sendo deste modo uma ponte com o nosso passado comum na construção de um identidade coletiva aos povos de todos esses países.
O projeto “Memória de África e do Oriente“, já tem online mais de 2500 obras, referentes à história dos países de Língua Portuguesa, durante a administração colonial. O projeto é executado pela Universidade de Aveiro e pelo Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento (CESA) de Lisboa e tem contado com a participação de instituições de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Goa.
Além de registos bibliográficos para orientação de investigadores e curiosos, estão agora disponíveis e com livre acesso obras digitalizadas que vão desde livros da escola primária do tempo colonial, a relatórios de antigos governadores das então colônias e outros documentos oficiais. Entre outras “preciosidades” já digitalizadas contam-se os três volumes da “História Geral de Cabo Verde”, várias obras do cientista e poeta cabo-verdiano João Vário, toda a coleção do Boletim Geral das Colônias, a revista do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa de Bissau Soronda (1986-2009), o Boletim Cultural do Huambo em Angola, e “O Oriente Português”, da responsabilidade da Comissão de Arqueologia da Índia Portuguesa, publicado entre 1905 e 1920 e retomado entre 1931 e 1940.
De acordo com Carlos Sangreman, da Universidade de Aveiro, o projeto “Memória de África e do Oriente” em dezembro atingiu 353.991 registos bibliográficos e 343.819 páginas digitalizadas e a base de dados já vai ser acrescentada. “Temos trabalhado com muitas instituições portuguesas, sendo a última a Biblioteca Nacional que nos disponibilizou 67 mil registos que irão ser colocados na base à medida que formos conseguindo compatibilizar o formato”, esclarece aquele responsável.
Carnavalesco Jack Vasconcelos: 'Tem que se posicionar' Com críticas à Reforma Trabalhista, enredo da Paraíso do Tuiuti foi o mais comentado da Avenida
Carnavalesco Jack Vasconcelos: 'Tem que se posicionar'
Com críticas à Reforma Trabalhista, enredo da Paraíso do Tuiuti foi o mais comentado da Avenida
Por Bruna Fantti
Atualizado às 13/02/2018 10h20

Rio - Com críticas à Reforma Trabalhista, ala chamando manifestantes pelo impeachment de fantoches e um 'presidente vampiro', o enredo da Paraíso do Tuiuti foi o mais comentado da Avenida. Confira a entrevista com o carnavalesco da escola, Jack Vasconcelos.
O DIA: Seu desfile teve tom crítico à política vigente. O senhor é filiado a algum partido político ou um cidadão inconformado o atual governo?
Sou um inconformado por natureza, todo artista tem esse inconformismo dentro dele. Se a arte não proporcionar o pensamento, a discussão, ela não tem muita função.
O presidente vampiro do neoliberalismo foi entendido por todos como sendo Michel Temer. A última ala como uma crítica à Reforma Trabalhista. Foi um posicionamento político?
Sou formado pelo ensino público, fui uma criança de escola pública, me formei em uma federal, em Belas Artes. Então, a população ajudou a me formar, foi dinheiro público que ajudou a pagar meus estudos e a manter as instituições em que me formei. Preciso de alguma forma retribuir para a população esse investimento. É a maneira que eu posso prestar o serviço a ela (à sociedade), através da minha arte. Acho que é bom as pessoas se posicionarem mesmo. Acho bacana que o Carnaval tenha esse espaço e papel.
Acha que a Sapucaí é um bom espaço para isso?
No Carnaval as pessoas liberam aquilo que guardam dentro delas durante o convívio social educado e civilizado no resto do ano. E o Carnaval sempre foi o espaço para esse tipo de ideia, para as pessoas colocarem para fora o que sentem, aquilo que elas querem gritar. E na verdade o que eu sou é uma antena. Vou captando essas ideias, anseios à minha volta e construindo o meu trabalho. Porque o meu trabalho representa uma comunidade, os anseios de parte da população.
Qual sua ala favorita e por quê?
Eu não tenho uma ala preferida. Todas elas tinham uma função e é uma sequência natural de outra. Mas sei das alas que causaram e cada um terá sua preferida por conta das suas convicções. O último setor que eu falo da escravidão ou da exploração da mão de obra dos mais desvalidos, dos mais pobres, o último setor foi o mais bacana. Exercitei minha cidadania.
A recepção do público e os comentários na internet foram grandes. O senhor atingiu o seu objetivo?
As pessoas precisam aprender a ficar mais espertas ao que chega de informação para elas, que vão comprando ideias e repassando isso como se fosse verdade, sem se dar o trabalho de ouvir outra fonte, ideia ou visão. E esse poder dessa propaganda forte que vai disseminando uma ideia a ser replicada. E nisso as pessoas vão mantendo sistemas que as prejudicam e não percebem. Acho que o desfile desse ano teve esse conceito no seu interior, na sua raiz. Se as pessoas conseguiram perceber isso de alguma forma, valeu a pena.
Algumas pessoas disseram que se sentiram desrespeitadas. O senhor teve esta intenção?
Sinto muito (se alguém se sentiu ofendido). Seria bom as pessoas pararem para pensar antes de tomar a decisão de seguir uma moda ou algo que uma campanha de jornal ou de TV diga para elas fazerem.
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