quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

NÃO SERÁ EM VÃO

não será em vão
Leandro Fortes


A morte de Dona Marisa Letícia é o triunfo físico da narrativa de ódio reinaugurada pela direita brasileira, a partir da vitória eleitoral de Dilma Rousseff, em 2014, contra as forças reacionárias capitaneadas pela candidatura de Aécio Neves, do PSDB.

Em sua insana odisseia pela retomada do poder, ainda quando o TSE contabilizava os últimos votos das eleições presidenciais, Aécio e sua turma de mascarados se agregaram, não sem uma sinalização evidente, aos primeiros movimentos da Operação Lava-Jato e com ela partiram, sob os auspícios do juiz Sergio Moro, para a guerra de tudo ou nada que se seguiu.

Foi esse conjunto de circunstâncias, tocado pela moenda de antipetismo e ódio de classe azeitada diuturnamente pela mídia, que minou a saúde de Dona Marisa, não sem antes submetê-la ao tormento da perseguição, do constrangimento, da humilhação pública, da invasão cruel e desumana de sua privacidade.

A perseguição ignóbil ao marido, Luiz Inácio Lula da Silva, aliada à permanente divulgação de boatos sobre os filhos, certamente contribuíram para que Dona Marisa Letícia, a discreta primeira-dama nascida na luta e na construção do Partido dos Trabalhadores, tivesse a saúde atingida.

Para atingir Lula, a quem não tiveram coragem de prender, o esgoto da mídia e seus serviçais da política envenenaram a nação com ódio, rancor e ressentimento, nem que para isso fosse preciso atingir a vida de toda a família do ex-presidente.

Nem que para isso fosse preciso levar à morte uma mulher digna, honesta e dedicada aos seus e ao País.

Não sem antes vazar as imagens de sua tomografia cerebral, como um troféu grotesco de certo jornalismo abjeto oferecido às hienas que dele se alimentam.

Todos sabem os nomes, os cargos, as redações e as togas de cada um dos responsáveis pela morte de Dona Marisa.

Não esqueceremos!


Luto Companheira de Lula por quatro décadas, Marisa Letícia tem morte cerebral

Luto

Luto

Companheira de Lula por quatro décadas, Marisa Letícia tem morte cerebral

por Redação — publicado 02/02/2017 11h06, última modificação 02/02/2017 12h08
Em comunicado em sua página oficial no Facebook, ex-presidente confirma doação de órgãos
Ricardo Stuckert / Instituto Lula
Marisa Letícia
'A pressão e a tensão fazem as pessoas chegarem ao ponto que a Marisa chegou', desabafou Lula


Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teve morte cerebral na manhã desta quinta-feira 2, em São Paulo, em decorrência de complicações de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) do tipo hemorrágico.
Às 10h29 da manhã, a página oficial de Lula no Facebook anunciou a doação de órgãos de Marisa. "A família Lula da Silva agradece todas as manifestações de carinho e solidariedade recebidas nesses últimos 10 dias pela recuperação da ex-primeira-dama Dona Marisa Letícia Lula da Silva", diz a mensagem. "A família autorizou os procedimentos preparativos para a doação dos órgãos."
Em boletim médico divulgado pouco antes, o hospital Sírio Libanês afirmou que foi realizado pela manhã um "Doppler transcraniano, sendo identificada ausência de fluxo cerebral". Diante do resultado, com autorização da família, afirmou o hospital, "foram iniciados procedimentos para doação de órgãos".
O desligamento dos aparelhos, e a confirmação da morte oficial, acontece após o procedimento de doação dos órgãos. 
De humilde família de sitiantes, que migraram da Itália para o Brasil, Marisa Letícia nasceu em 7 de abril de 1950 em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Aos nove anos, começou a trabalhar como babá na casa de um sobrinho do pintor Cândido Portinari.
Quatro anos mais tarde, tornou-se operária de uma fábrica de chocolates. Casou-se pela primeira vez com o motorista Marcos Cláudio da Silva, com quem teve um filho. O garoto não chegou a conhecer o pai, assassinado enquanto dirigia o táxi da família. A jovem mãe perdeu o marido enquanto estava no quarto mês de gestação.
Marisa conheceu Lula em 1973, ao ir para o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo carimbar documentos da pensão que recebia. O ex-presidente costuma contar que, quando soube que a esbelta mulher de 23 anos era viúva, fez questão de deixar cair um documento que mostrava que ele também era viúvo. O episódio serviu de justificativa para iniciar a conversa, que não tardou a evoluir para um longevo relacionamento.
Os frutos da união de mais de 40 anos são os três filhos do casal: Fábio, Sandro e Luís Cláudio. O ex-presidente também adotou o primeiro filho de Marisa Letícia, Marcos Lula, que tinha apenas dois anos quando o então líder sindical a conheceu.
Inicialmente avessa à política, Marisa preocupava-se com a segurança de Lula quando eclodiram as greves do ABC Paulista. Em 1980, chegou a liderar uma passeata das mulheres em apoio aos sindicalistas presos no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que integrava o aparato repressivo da ditadura. Nesse mesmo ano, participou de um curso de Introdução à Política Brasileira, promovido pela Pastoral Operária de São Bernardo, e filou-se ao recém-criado Partido dos Trabalhadores
Dedicada à família, Marisa teve uma atuação discreta nas primeiras disputas eleitorais de Lula. Em 2002, com os filhos já adultos, pôde se dedicar com mais afinco à campanha presidencial do marido. Em 1º de janeiro de 2003, tornou-se primeira-dama do Brasil.
Nos últimos meses, Marisa vinha sofrendo ao lado de Lula a pressão das investigações da Operação Lava Jato. Em dezembro, também ao lado do ex-presidente, foi convertida em ré pelo juiz federal Sergio Moro, sob a acusação de lavagem de dinheiro. De acordo com a denúncia, o casal adquiriu um imóvel vizinho ao apartamento do ex-presidente, em São Bernardo, com recursos da empreiteira Odebrecht. A acusação é negada com veemência pela defesa de Lula, que diz que imóvel é alugado.
"A pressão e a tensão fazem as pessoas chegarem ao ponto que a Marisa chegou. Mas isso não vai fazer eu ficar chorando pelos cantos. Vai ficar apenas batendo na minha cabeça, como mais uma razão para que a luta continue", desabafou Lula na segunda-feira 30, durante um encontro com representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens. Foi a primeira aparição pública do ex-presidente após a mulher sofrer o AVC.
Casamento
Em maio de 1974, seis meses após se conhecerem, Lula e Marisa se casaram (Acervo/Instituto Lula)
A evolução da doençaMarisa Letícia sofreu uma forte queda de pressão na manhã de 24 de janeiro. Chegou a receber os primeiros cuidados em um hospital de São Bernardo do Campo, mas logo foi transferida ao Sírio-Libanês, na capital paulista. Ao chegar, foi submetida a uma cirurgia de emergência, para a oclusão de um aneurisma que havia se rompido. Desde então, passou a maior parte do tempo sedada, em coma induzido.
O aneurisma é a dilatação anormal de uma artéria que irriga o cérebro. Ele costuma ocorrer em regiões enfraquecidas da parede de um vaso sanguíneo. Quando ocorre o rompimento, o sangramento pode provocar danos irreversíveis às células localizadas ao redor da lesão. a tensão fazem as pessoas chegarem ao ponto que a Marisa chegou. Mas isso não vai fazer eu ficar chorando pelos cantos. Vai ficar apenas batendo na minha cabeça, como mais uma razão para que a luta continue", desabafou Lula na segunda-feira 30, durante um encontro com representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens. Foi a primeira aparição pública do ex-presidente após a mulher sofrer o AVC.

Fonte: Carta Capital

O DESMONTE DO BRASIL AVANÇA A PASSOS LARGOS


O desmonte do Brasil avança a passos largos

A arrecadação federal despenca, a indústria definha e o desemprego galopa, enquanto o governo Temer se desfaz do patrimônio nacional.
Pedro Parente, presidente da Petrobras, já pode comemorar a queda de nossas reservas para o nível de 2001, após a venda de ativos e a contração dos investimentos em exploração e produção de óleo.
A cada dia que passa, a cada medida que adota, o governo Temer mais assume, agora sem rebuços, seu projeto mesquinho de desestruturação do País, por meio do desmantelamento do Estado e da desconstrução da economia nacional, a serviço de interesses internacionais e do rentismo. A política recessiva, o neoliberalismo, o monetarismo arcaico não são fins em si, mas instrumentos de que se vale o situacionismo para destruir o que ainda sobrevive de projeto de desenvolvimento. 
A arrecadação de tributos federais teve uma queda de 3% em 2016, em comparação com 2015, e o declínio não foi maior graças ao ingresso dos 46,8 bilhões de reais advindos da receita extra de impostos e multas da repatriação de recursos ilegais de brasileiros no exterior. Posta de lado essa receita, a queda sobe para 6%. Na comparação entre dezembro de 2016 e dezembro de 2015, a queda foi de 1,19%. A retração no início de 2017 superou 10%, mantendo a expectativa de contração no ano.
Dessa forma, a arrecadação cai pelo terceiro ano consecutivo e retorna ao nível de 2010. As principais quedas se dão entre os maiores empregadores de mão de obra, a saber, no comércio, na construção e na indústria, cujo faturamento caiu 12,1% em comparação com o ano passado.
E o ajuste fiscal?
Enquanto a receita míngua crescem as despesas. As contas do governo ficaram no vermelho pelo terceiro ano consecutivo, com um déficit primário de mais de 154 bilhões em 2016, o maior rombo desde 1997, resultado do aumento de despesas na ordem de 7,2% em 2016 sobre 2015.
A estimativa de crescimento de 0,5% do PIB foi revisada pelo Fundo Monetário Internacional para 0,2%, e pode ser ainda menor, enquanto a dívida das famílias cai na proporção em que sobe o gasto com seu pagamento. O crédito encolhe, o peso dos juros sobe de 41% (média de 2014) para 48% (novembro de 2016) e a taxa média dos juros ao consumidor chegou a 71,9% no final do ano passado. A contração da economia até 2016 chegou a 9%.
Os reflexos nas vendas do comércio de varejo são visíveis e imaginável é a queda das encomendas à indústria, com seu rol de consequências que começa com o desemprego, crescente. Já chegou a 15% e pode, até o final do ano, atingir 20%. Só no ano passado, foram eliminados três milhões de empregos com carteira assinada, o que significa três milhões de famílias de trabalhadores no desespero.
Os Estados, já em crise, enfrentando quedas crescentes de receita, são, ainda, apenados pela União com a cobrança de uma dívida pelo menos discutível.
Na impossibilidade de privatizar de uma só vez a Petrobras, o governo cuida de fragilizá-la ao limite de renunciar às expectativas do Pré-sal, a maior descoberta de petróleo do planeta nos últimos 30 anos. Parte para a venda fatiada, na Bacia das Almas, de ativos valiosíssimos de nossa maior empresa, como campos do Pré-sal e outros, de gasodutos, da Liquigás, de sua indústria petroquímica e tudo isso porque o projeto de destruição da estatal visa a reduzi-la à condição de mera produtora de óleo bruto, o que pode ser levado a cabo em pouco tempo.
À irresponsável venda de ativos soma-se a contração dos investimentos em exploração e produção de óleo, e assim o senhor  Pedro Parente, presidente da estatal, já pode comemorar a queda de nossas reservas para o nível de 2001. A atual direção da Petrobras, de forma criminosa, praticamente abandonou a atividade de exploração (perfuração de novos poços para ampliar reservas), o que fará com que, em pouco tempo, nosso mercado interno venha a ser atendido na maior parte pelas petroleiras estrangeiras.
Fica cada vez mais claro que o grande objetivo é o desmonte do Brasil qual o conhecemos e a entrega de nosso patrimônio, construído com tanto sacrifício e ao longo de tantos anos, a grupos internacionais que avançam sobre todos os setores estratégicos da economia brasileira, principalmente nos setores vitais da indústria de um modo geral, do comércio, da educação e da saúde.
Coerente com essa política verdadeiramente de terra arrasada, o governo pretende entregar a empresas estrangeiras o controle do tráfego aéreo nacional (o que comprometerá até a aviação militar e os deslocamentos de nossas autoridades).
Pretende liberar a aquisição integral das empresas brasileiras de aviação a empresas estrangeiras e a política de ‘céus sem fronteiras’ que permitirá a empresas estrangeiras explorar a aviação comercial doméstica, quando nossas empresas encolheram 5,47% no ano passado, o pior desempenho desde 2003.
Às empresas estrangeiras é liberada a captação de fundos públicos, o que contraria a lógica da atração de capitais estrangeiros, pois, por suposto, viriam eles aumentar a nossa capacidade de investir. Se nem mais capital têm de trazer, virão simplesmente abocanhar fatia crescente do capital privado nacional, acelerando, com a ajuda governamental, a desnacionalização de nossa economia. 
Pari passu é autorizada a instalação de 21 Zonas de Processamento de Exportação (ZPES) sem cobrança de contrapartidas, ao lado de concessões de serviços públicos sem a exigência de conteúdo local.
Enquanto isso segue o esforço da maioria parlamentar, guiada pelo Planalto, visando à destruição da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), à perversa precarização do trabalho em meio à recessão e ao desemprego, e a reforma da previdência que só cuida de prejudicar quem mais dela depende, o assalariado.
O governo que assim comanda a economia brasileira, permanentemente na corda bamba, sem credibilidade, carente de legitimidade e apoio popular, cuida do dia a dia sem saber se terá amanhã, pois pode e deve ser alcançado pelas delações dos executivos da Odebrecht, recentemente homologadas pela presidente do STF.
Se salvar-se dessa ameaça, saída improbabilíssima, o ainda presidente pode ter seu mandato cassado como consequência da eventual impugnação pelo TSE das contas da campanha de 2014, embora as chicanas jurídicas do ministro Gilmar Mendes, aquele que não disfarça sua condição de militante partidário e, agora conselheiro do presidente que mais tarde julgará, tenta ora desvincular as candidaturas Dilma-Temer, ora prorrogar ao máximo o julgamento. Enseja ao presidente a renovação de duas ou mais vagas no plenário, inclusive a substituição do relator, o que lhe daria absoluto controle da Corte.
Festeja-se a homologação das delações, mas é de lamentar a manutenção do sigilo, que só contribui para fortalecer suspeições difusas que são utilizadas para toldar o ambiente já de si tenso após tanta espera. O recurso ao sigilo, ademais, contraria o principio basilar da transparência, segundo o qual a publicidade deve ser a regra e o sigilo a exceção, e só tem servido para o ‘vazamento seletivo’ manipulado nas entranhas dos inquéritos e seus agentes.
Pelo que se comenta em todos os bastidores da política e dos templos da Justiça, a delação dos executivos e do principal acionista da Odebrecht é grave demais, para os destinos da República e da Lava-Jato, pelos seus aspectos intrínsecos, civis e criminais. De igual modo é importantíssima pelos suas evidentes implicações políticas e consequências institucionais, para ser tratada às escondidas, abrindo espaço para suspeições.
A homologação e o sigilo foram anunciados quando estávamos nas vésperas da eleição das mesas diretoras do Senado Federal e da Câmara dos Deputados que definirá, ademais, a linha sucessória da Presidência da República, podendo eleger futuros réus da Lava-Jato.
O que está posto à toda evidência é que a conjuntura aponta para uma crise político-institucional potencializada pela crise econômico-social. Neste momento, os partidos precisam de nitidez ideológica afirmada em sua fidelidade a princípios e programas.
Vencida pela reação sempre enérgica de sua brava militância, a bancada do PT na Câmara tende a ficar onde deve e de onde não pode sair, ou seja, na oposição ao governo títere. Precisa cumprir o papel – se puder fazê-lo – de aglutinador, sem veleidades hegemonistas, dos partidos de oposição (PDT, PCdoB, Rede e PSOL) num bloco parlamentar de resistência ao desmonte do Estado e da economia nacional.
Do movimento social, sindicatos à frente, a conjuntura exige capacidade de ação, mobilização permanente, dando sustentação, impulso e vigor à oposição parlamentar. É hora de ampliar nossos espaços e cuidar de alianças táticas – inclusive com o capital produtivo, que aos poucos vai descobrindo o erro que cometeu com a solidariedade ao impeachment.
Em tais circunstâncias, a superação da crise passa por entendimento que antecipe a eleição direta de novo Presidente da República. Este sim, ungido pelo voto popular, e só nesta condição, terá legitimidade para dar rumo ao País.

Fonte: Blog do Roberto Amaral

* Roberto Amaral é jornalista, professor, ex-presidente do PSB e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ROMBO DA PREVIDÊNCIA É UM DISCURSO FALACIOSO

Rombo da previdência é um discurso falacioso

Com o falacioso discurso de rombo da previdência e de que o objetivo da reforma é garantir o sistema para as novas gerações, tentam amedrontar a população, inclusive com uma campanha publicitária com dados, no mínimo, controversos.

Esther Dweck*

A proposta em nada tem a ver com a sustentabilidade no futuro. O impacto é de curtíssimo prazo, atingindo grande parte dos que poderiam se aposentar nos próximos 10 anos, e priva diversos cidadãos do direito ao sistema público de previdência. A esses restará o sistema assistencial, que também é destruído enquanto garantia uma renda real mínima.

A proposta traz mudanças drásticas e descoladas da realidade da população brasileira, que não pode ser representada por uma média, dada a desigualdade.

A idade mínima de 65 anos, independentemente do tempo de contribuição, igualdade completa entre homens e mulheres, retirada de todas as condições especiais de professores e dos segurados especiais, desvinculação do salário mínimo das pensões e dos benefícios assistenciais e a exigência de 25 anos de contribuição mínima e de 49 anos de contribuição para o benefício integral estão entre as principais perversidades da PEC da Previdência.

Assim como no caso da EC 95 (ex-PEC 241 ou 55), há argumentos falaciosos, simplificadores e de geração de pânico, que não sobrevivem a uma análise mais criteriosa e escondem consequências desastrosas para o tecido social brasileiro.

O regime geral de previdência social (RGPS) e os benefícios assistenciais têm reconhecido efeito distributivo e de garantia de uma renda estável, ao longo de toda a vida, para grande parte da população brasileira. A previdência rural tem efeitos fantásticos incluindo a geração de condições fundamentais à agricultura familiar, principal forma de produção de alimentos no Brasil.

O RGPS se encontrava relativamente equilibrado. Enquanto a economia crescia, as receitas da seguridade cresciam mais do que as despesas, principalmente entre 2006 e 2013. Além disso, do ponto de vista demográfico, até 2030 o Brasil estará vivendo o chamado “boom demográfico” com a menor razão de dependência, a população em idade ativa será muito superior à população de crianças e idosos, o que não demandaria qualquer alteração durante esse período por questões demográficas.

Aparentemente, há dois motivos a uma proposta tão draconiana. Em primeiro lugar, a EC 95 exige uma grande redução da despesa pública nos próximos 10 anos e para que o teto da seja alcançado é necessário desmontar os gastos sociais que têm um crescimento acima da inflação decorrente do próprio crescimento vegetativo.

Somado a isso há uma clara intenção de retirar do sistema uma grande parte da população. A proposta praticamente impossibilita o acesso aos que tem menor expectativa de vida e aos que estão em ocupações mais precárias, com maior informalidade e maior rotatividade. Aos mais abastados, está garantida a previdência complementar.

As medidas adotadas são aquelas preconizadas por aqueles que dizem que “a constituição não cabe no PIB”, jogando todo o ajuste para a população. O regime contributivo e solidário irá ruir, ao invés de se tornar sustentável, e com isso os mecanismos redistributivos presentes nas políticas públicas brasileiras pouco a pouco serão eliminados.

*Esther Dweck é professora do Instituto de Economia da UFRJ.


 Fonte: Brasil de Fato

‘ESTAMOS EM UMA ÉPOCA DE RETROCESSO MUITO GRANDE’

‘Estamos em uma época de retrocesso muito grande’
Anita Prestes, filha de Olga Benário e Luiz Prestes, se prepara para lançar livro sobre a mãe baseado em 2 mil documentos inéditos da Gestapo.
Leia entrevista de Anita Prestes à CULT
Paulo Henrique Pompermaier
Personagem histórica retratada no livro-reportagem Olga (1985), do escritor Fernando Morais, Olga Benário Prestes, esposa do revolucionário comunista Luiz Carlos Prestes, vai ganhar, neste ano, novo estudo que pretende esmiuçar seus últimos anos de vida passados em prisões e campos de concentração nazista, até seu assassinato em 1942.
O projeto é uma iniciativa de sua filha, a historiadora Anita Leocádia Prestes. Baseando-se em quase dois mil documentos inéditos da Gestapo, a polícia nazista, a historiadora acaba de finalizar a obra, que será publicada ainda neste ano pela editora Boitempo.
Os documentos, traduzidos do alemão durante cerca de um ano, estavam na Rússia desde que foram confiscados na tomada da Alemanha nazista pelos soviéticos no final da Segunda Guerra Mundial. A documentação foi digitalizada e disponibilizada na internet pouco tempo antes, iniciativa que encorajou Anita Prestes a escrever uma nova obra sobre a vida da mãe.
“Há muita coisa sobre o comportamento dela. São impressionantes os relatos de como ela enfrenta os nazistas. Fica claro como a Gestapo e as altas autoridades nazistas foram explícitas em afirmar que ela não poderia ser liberta de maneira alguma”, afirma a historiadora, que nasceu em 1936 na uma prisão nazista em que Olga estava detida.
Em 2015, a historiadora já havia publicado uma obra sobre o pai, Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro, que só conheceu aos nove anos, quando ele foi foi libertado, em 1945, pela anistia política. “Minha mãe já tinha sido assassinada na Alemanha. Eu vim para o Brasil com a minha tia e conheci meu pai. Ele também sempre me falava muito de minha mãe, então fui criada nesse ambiente sabendo muito bem quem eles eram, conhecendo a história desde cedo”, relata.
Outro trabalho de Anita Leocádia, uma reunião das correspondências trocadas entre seus pais, também ganhou novas luzes com a liberação dos documentos. “Só vimos agora que houve correspondência que a Gestapo vetou. No livro, publicando em anexo alguns documentos, entre eles essa correspondência inédita entre meu pai e minha mãe”.
Em entrevista à CULT, Anita Prestes revela alguns detalhes sobre o livro e comenta os rumos políticos do Brasil que, segundo ela, ainda precisa “passar pelo caminho da revolução socialista”.
·        CULT – O que esses documentos da Gestapo dizem de novo sobre o fim da vida de Olga?
Anita Prestes – Até eu ser separada dela, estávamos em uma prisão para mulheres em Berlim. Depois de minha retirada ela é mandada para dois campos de concentração e é assassinada. Isso já se sabia, mas agora há novas informações, muita coisa que nem nós da família, como minha avó e minha tia que acompanharam os acontecimentos de perto, não sabíamos. Não posso entrar em muitos detalhes, mas há muita informação sobre o comportamento dela. A gente sabia que ela era uma mulher de muita coragem, mas são impressionantes os relatos de como ela enfrentava as autoridades nazistas. Há uma frase em que ela diz: “Se houve gente que virou traidora, eu jamais o serei”. Compreende? Nisso ela era totalmente intransigente, jamais entregou qualquer pessoa, recusava-se peremptoriamente a passar qualquer informação – o que, sem dúvida, foi um dos motivos do seu assassinato. O que fica claro é que a Gestapo e as altas autoridades do governo alemão sabiam o que estava sendo feito com ela e foram explícitos em afirmar que ela não poderia ser libertada de maneira alguma, e que deveria ser violentamente castigada. Estavam muito mais preocupados com a atividade dela como comunista do que com o fato dela ser judia. Ela não foi assassinada por ser judia, embora isso pudesse pesar. O fundamental é que ela era comunista, tinha participado das atividades do Comintern e era mulher de Luiz Carlos Prestes.
E são quase dois mil documentos, é um volume grande de informação.
E só sobre ela. Os arquivos da Gestapo são gigantescos, tem tudo o que você quiser lá. Mas é interessante que ela é a pessoa que tem o maior volume de documentação. Há documentos sobre todos os partidos comunistas do mundo, sobre a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, mas só sobre a Olga há cerca de duas mil páginas. A Gestapo dá muita importância à figura dela. Há uma parte bem interessante que são mensagens que vêm de toda a Europa e dos Estados Unidos, inclusive diretamente à Heinrich Himmler [um dos principais líderes do Partido Nazi] e outras autoridades, protestando contra a prisão dela, exigindo sua libertação, exigindo a minha libertação. Houve uma pressão muito grande da chamada “Campanha Prestes”. Se não fosse a pressão política, eu naturalmente iria para um orfanato nazista, onde a criança perdia o nome e virava um número.
·        Você já pensava em escrever um livro sobre a sua mãe antes de ter contato com esses documentos?
O que de melhor podia ser feito, foi feito pelo Fernando Morais, então eu não ia repetir. Até então não tinha documentação nova que justificasse um novo livro. Agora apareceu e, por isso, eu resolvi fazer esse trabalho importante, um resgate da época, para não só conhecerem Olga e o comportamento dela, mas também saberem o que era a Gestapo, o horror que foi o nazismo. O requinte de maldade e de perversidade que existe é uma coisa impressionante. É importante divulgar até para que não se repita essa história trágica.
·        Como você, estudiosa e herdeira de um dos maiores comunistas do Brasil, enxerga as movimentações de esquerda do país atualmente?
A esquerda no Brasil está muito ruim. Você vê, há trinta anos, na década de 1980, o meu pai já dizia isso, que não tem esquerda no Brasil, que acabaram os partidos de esquerda e ficaram apenas as pessoas de esquerda. Mas os partidos se desgastaram, se desmoralizaram. Estamos em uma época de retrocesso muito grande. E eu também sigo a opinião dele quando dizia que a mudança vai ser na luta, pois o capitalismo está aí, a exploração está aí, as pessoas estão sentindo na própria carne o que está acontecendo. E aí elas vão começar a lutar, se organizar, procurar caminhos. E o caminho para levar à vitória vai ser o caminho da revolução socialista, não tenho a menor dúvida disso. Mas no Brasil vai demorar um pouco, porque aqui a tradição sempre foi de muita repressão, as classes dominantes impediram o movimento popular de se organizar. Sempre que se tentou qualquer tipo de rebeldia, ela foi esmagada com uma violência muito grande. A gente tem quatro séculos de escravidão, um Império que durou até o final do século passado. O povo foi muito penalizado pelo poderio das suas classes dominantes, senhores de terras e de escravos. A realidade brasileira é muito pesada, muito difícil, então demora um tempo até isso mudar. Mas não sou pessimista. Quem leu O capital de Marx sabe que o capitalismo não tem futuro. Mas sozinho ele não vai cair, tem que haver as forças capazes de derrubá-lo. Provavelmente não vou ver isso nos meus dias, mas não tem importância. Como meu pai dizia, eu só quero colocar um tijolinho nesse processo.


Mudança no regime de partilha e privatização são crimes de lesa-pátria, diz Gabrielli

PRÉ-SAL

Mudança no regime de partilha e privatização são crimes de lesa-pátria, diz Gabrielli

Ex-presidente da Petrobras explica o que está em jogo com o projeto de lei que prevê mudanças no regime do pré-sal

Rede Brasil Atual, 
Contra fatiamento, Gabrielli diz que força da estatal está na integração entre exploração, refino e distribuição / Reprodução/TVT
O ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli classifica a retirada da exclusividade da estatal na operação de exploração do pré-sal, com a ampliação da participação das empresas estrangeiras, previsto no Projeto de Lei 4.567, que atualmente tramita na Câmara dos Deputados, como "crime de lesa-pátria".
A mudança no regime de partilha que vigora atualmente foi proposta pelo senador licenciado e atual ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB-SP). Em entrevista ao Seu Jornal, da TVT, Gabrielli detalha os impactos sociais da mudança. Segundo ele, trata-se de mais uma tentativa de enfraquecer a empresa para depois entregá-la ao capital privado, em um processo de privatização por fatias.
Essa mudança também coloca em risco o fundo social do pré-sal e a destinação dos royalties da exploração do petróleo para a saúde e educação, associados ao regime de partilha agora revisto.
"Isso tudo está sendo desmontado agora e, ao desmontar isso, tirando a Petrobras da operação, reduzindo o tamanho da empresa e mudando o regime de partilha, vai voltar ao sistema antigo e, com isso, você vai dispersar as atividades e aumentar a parcela da renda petroleira que vai ficar nas mãos das empresas. Portanto, vejo isso, do ponto de vista nacional, como um crime de lesa-pátria", analisa Gabrielli.
"A ideia da privatização da Petrobras é vender pedaços da Petrobras. Fatiar e vender. O que eu acho um erro, porque a Petrobras é muito mais forte integrada do que só focada na produção do pré-sal", diz ele, a respeito de propostas aventadas sobre a venda de ativos da BR Distribuidora, da Transpetro, ou ainda a participação da estatal no setor petroquímico.
Segundo Gabrielli, o pré-sal brasileiro vai ser a segunda área de exploração mais importante para os próximos dez anos, atrás apenas da produção norte-americana, que tem avançado com a produção de óleo não-convencional, conhecido como xisto betuminoso.
"A Petrobras não é uma empresa que esteja quebrada, nem é um antro de corrupção. A Petrobras, ao contrário, é uma empresa eficiente. É uma empresa que está crescendo a produção", diz o ex-presidente, destacando o crescimento de cerca de 10% no primeiro semestre, alcançando a produção de 2,2 milhões de barris de petróleo por dia, somando o pré-sal e as áreas tradicionais.

Sergio Gabrielli: “Engenharia brasileira está desmontada”

Sergio Gabrielli: “Engenharia brasileira está desmontada”

Em entrevista, ex-presidente da Petrobras analisa novo contexto da estatal

Brasil de Fato | São Paulo (SP), 
"É necessário que a sociedade abrace um novo conjunto de lutas para que haja a transformação do Brasil" / Agência Brasil
Uma das medidas anunciadas pela Petrobras em 2017 foi uma licitação para a retomada da construção da unidade de processamento de gás natural do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). A novidade é que a estatal convidou apenas empresas estrangeiras para participar do processo de seleção.
Brasil de Fato entrevistou Sergio Gabrielli, ex-presidente da companhia em um dos períodos de maior expansão da estatal (2005 – 2012), para debater o atual contexto da empresa. Para ele, como “centro de uma política industrial”, a nova orientação tomada pela Petrobras levou a uma situação na qual “a engenharia brasileira está esgotada”. Essa nova política resultaria na geração de “emprego e renda em outros países e não aqui, no Brasil”.
Gabrielli comentou também o atual momento da política nacional e os desafios postos para a superação desse contexto, a partir da perspectiva das forças de esquerda.
Confira a entrevista abaixo.
Brasil de Fato: Como o tratamento dado aos casos de corrupção contribuiu para que a gente chegasse ao momento político que vivemos hoje?
Sergio Gabrielli: A ideia principal que a direita tentou passar para o país é que nós vivemos em um mar de lama, ou seja, vivemos em um país de corrupção generalizada e que a Petrobras é uma empresa completamente corrupta. Mas, na verdade, quando a gente tira a espuma dos fatos já apurados, o volume de pessoas envolvidas é relativamente muito pequeno dentro da Petrobras. Poucos diretores estão envolvidos, na realidade são três, e envolve pouquíssimos gerentes. A Petrobras chegou a ter nessa época 80 mil empregados, então, não é possível generalizar que a empresa é corrupta.
A própria Petrobras reconhece que considerando todos os contratos que o Paulo Roberto Costa, o Pedro Barusco, o Renato Duque e o Nestor Cerveró fizeram, considerando a corrupção por cima, dá 3% do que eles fizeram de contrato. Isso significa um volume absoluto gigantesco, que é de R$ 6 bilhões. No entanto, a Petrobras fatura por ano R$ 380 bilhões. Foram 6 bilhões para 15 anos de atividade corrupta desses indivíduos, valor relativamente pequeno em relação ao volume da Petrobras.
No entanto, no imaginário feito pela mídia, dos grandes veículos de comunicação é como se tudo fosse corrupção na Petrobras. Isso tentou transformar, portanto, a corrupção em um programa político, um problema político nacional. Quando, na verdade, o problema da corrupção tem que ser tratado de forma adequada, com a polícia, do ponto de vista judicial, com a sobriedade que a Justiça exige para tratar dessas questões, e é geralmente um comportamento individual e esses indivíduos devem ser punidos exemplarmente.
Transformar a corrupção o principal tema político do país, em geral, leva ao desrespeito dos direitos fundamentais, democráticos e das garantias constitucionais e, portanto, ameaça a democracia brasileira.
Recentemente, houve uma licitação na qual só vão participar empresas estrangeiras. É possível falar em desmonte da empresa como pólo de dinamização da economia brasileira?
A Petrobras era o centro de uma política industrial que envolvia a utilização de uma grande riqueza descoberta, que é o pré-sal brasileiro. Na verdade, o problema de investimento da Petrobras tentava viabilizar a exploração de petróleo, mas impedindo aquilo que é comum em vários países que é a chamada doença holandesa, que acontece quando o petróleo cresce muito e nada cresce em torno.
Como que era feito isso? A ideia de conteúdo nacional apontava que tudo aquilo que era possível  produzir no Brasil seria produzido no Brasil, isso significava, portanto, aumentar a capacidade de produção dos estaleiros, da indústria naval, da indústria mecânica, da indústria de tubulações, de compressores, de sistemas submersos, e isso faria com que tivesse um impacto sobre a economia brasileira, geração de emprego e renda associada à expansão de produção de petróleo. Com a lava-jato, com a crise da Petrobras de curto prazo e com a queda do preço do petróleo, esse problema acabou.
Então, consequentemente, como resultado dessas coisas, a Petrobras agora faz uma licitação para a grande obra que vai ser feita no Comperj, no Rio de Janeiro, e chama 30 empresas, nenhuma delas brasileira. Então, a engenharia brasileira está esgotada. A engenharia brasileira voltada para a produção de sondas, para embarcações, plataformas, sistema submerso de produção de petróleo, de submarino nuclear para defesa brasileira, está desmontada. Isso faz com que uma empresa internacional venha ocupar o seu lugar e, em um curto prazo, algo mais grave ainda, as importações aumentam. Então vai gerar emprego e renda em outros países e não aqui no Brasil.
Como você avalia as alterações na política internacional? Como isso repercute aqui no Brasil econômica e socialmente?
O que nós estamos vivendo hoje com o Trump na mudança do governo americano é, ao mesmo tempo, aumento da política nacionalista de defesa da atividade econômica dentro dos EUA, o que significa que provavelmente alguns investimentos que viriam para fora serão desestimulados para ficar dentro dos EUA. É uma perspectiva de redefinição da política de juros americana de tal maneira que deixará de ser atraente para o capital americano sair dos EUA e, portanto, teremos um refluxo de investimentos para dentro dos EUA.
Por outro lado, eles não vão deixar de ter expansão militar, o complexo militar vai aumentar e a presença militar vai crescer em alguns lugares e acredito que eles vão consolidar a expansão da capacidade nuclear que eles estão construindo nesse momento. Então, vamos ter dois movimentos, um movimento de influxo dos investimentos para dentro dos EUA, ao mesmo tempo que consolida sua ação militar. Por que isso? Os conflitos internacionais tendem a aumentar e os EUA vão tentar estabelecer a garantia da sua hegemonia como sempre fizeram: usando as forças armadas e a violência.
Vamos ter, provavelmente, uma situação de instabilidade nas relações internacionais.
Como podemos combinar elementos de uma discussão programática para que um nome a ser pensado para 2018 seja uma resposta a essa ofensiva conservadora que a gente vem vivendo?
O MST é um movimento especial, tem uma unidade programática e uma organicidade bem maior do que a maioria dos movimentos hoje no Brasil. Ele não é o exemplo do que está acontecendo na organização popular brasileira. O que estamos vendo é um movimento sindical enfrentando dificuldades na relação entre direção e base, uma situação de mobilização muito difícil, uma dificuldade de sair da luta econômica imediata dos coletivos para fazer uma luta geral em defesa dos direitos e contra a ameaça dos direitos. Estamos vendo os partidos de esquerda com dificuldades, particularmente o PT - massacrado pela mídia -, de mobilizar a sociedade. Estamos vivendo também certo esgotamento do programa, em termos que acabou o ciclo em que era possível um crescimento com diversos segmentos da sociedade ganhando. Esse ciclo se acabou. Agora, para que haja crescimento de alguns, alguém tem que perder.
Essa redistribuição desses recursos, dessa renda, envolve reformas estruturais importantes e para definir essas reformas têm que envolver uma recomposição de alianças com a sociedade. Não é necessariamente com os órgãos que estão nos governos ou no parlamento. "
De um lado, Dilma ensaiou uma agenda mais voltada à indústria, mas o setor não aderiu a essa política. De outro lado, muitos avaliam que não há força para um programa de reformas estruturais. Há empecilhos para a conciliação e também para a radicalização. Como sair dessa situação?



É uma pergunta difícil de ser respondida. Na eleição de 2010, a chamada burguesia brasileira deu sinais do que estava pensando, já deixou de apoiar o governo Lula parcialmente e de forma crescente passou a apoiar um projeto que era basicamente capitaneado pelo PSDB e também pela campanha da Marina, que era um projeto de terceira via. Já em 2010 se vê, do ponto de vista político, a burguesia brasileira desembarcar da política do Lula, que era uma política de que todos podem ganhar com o crescimento.
O Lula tinha uma visão e, evidentemente, isso aconteceu durante alguns anos, de que todos os segmentos da sociedade brasileira melhoraram, os de baixo e os de cima. É evidente que isso chega a um ponto que se esgota com a crise internacional. E com o prolongamento da crise, essas políticas que foram adotadas a partir desse momento de desoneração fiscal e de estímulo para a demanda, é uma política de curto prazo. Nós chegamos a uma fase em que, para que os debaixo melhorem os de cima vão ter que perder.
É necessário fazer avanços nas reformas, só que isso acontece em um quadro político em que, institucionalmente, a oposição ao governo [de Temer] é um quarto do Congresso. Portanto, é difícil que com o Congresso, a gente consiga fazer essas mudanças.
Como é possível construir isso? A escolha de algumas reformas que devem vir primeiro e a partir daí tentar construir força na sociedade para tentar a redefinição do Congresso. Então, não vamos fazer um programa máximo, temos que tentar um programa mínimo de reforma básicas e que possam viabilizar a pressão da sociedade para isso.
Edição: José Eduardo Bernardes