sábado, 18 de novembro de 2017

MAIS OU MENOS MÉDICOS?

Mais ou menos médicos?

Emir Sader

A implementação do programa Mais Médicos serviu para trazer à luz publica o escândalo que é o processo de formação e profissionalização dos médicos das universidades públicas. O governo teve que apelar para médicos cubanos, porque os médicos brasileiros, formados gratuitamente nas melhores universidades brasileiros, se negavam a ir atender as pessoas onde mais se precisa que eles atendam.

Alegavam que o salário não era bom, que não havia condições de atendimento naquelas lonjuras etc. etc. Saíram para as ruas querendo vetar o programa e considerando que teriam poder, pela influência sobre seus pacientes, para derrotar o programa e a Dilma.

Deram-se muito mal. Apesar das exibições explicitas de racismo, o povo recebeu imediatamente da melhor forma possível o fato de que mais de 700 municípios, que nunca tinham tido médicos, passaram a ter médicos permanentes na sua própria cidade.

Uma médica cearense disse que "as médicas cubanas se parecem a empregadas domésticas", sem se dar conta de que fazia um enorme elogio a elas e a Cuba. Pessoas que aqui seriam empregadas domésticas, em Cuba são médicas.

As universidades públicas brasileiras formam grande quantidade de médicos, de que a grande maioria não tem compromisso algum com a situação de saúde do país. Sem contrapartida alguma, saem dos melhores cursos de medicina do país, que cursaram gratuitamente, para abrir consultórios em bairros ricos das grandes cidades brasileiras, atender clientela chique, que paga os tubos pelas consultas. Formados em universidades públicas, fazem da sua profissão uma fábrica para se enriquecerem, da medicina uma atividade mercantil.

Olhem onde está trabalhando a grande maioria dos médicos brasileiros e onde está a grande maioria de doenças no pais? Há distancia abismal. O médico deveria se ocupar das dores e dos sofrimentos das pessoas. Os médicos cubanos podem não ser melhores médicos do que os brasileiros, mas são certamente muito melhores cidadãos. Têm consciência de a quem tem que atender prioritariamente.

Para vergonha das faculdades de medicina públicas no Brasil, gente atendida pelos médicos cubanos diz que eles "olham pra gente", "tocam na gente", o que significa que aqueles que apareciam às vezes por lá não olham pros pacientes, não tocam nos pacientes.

A composição atual do programa Mais Médicos incorporou uma grande maioria de médicos brasileiros, que não consideram que a remuneração é insuficiente, que vão atender as cidades e os pacientes que antes não eram atendidos. Mesmo com o governo golpista querendo terminar ou diminuir o programa, a população e os prefeitos cujos municípios passaram a ser atendidos, não o permitem.

Mas os cursos de medicina, na sua grande maioria, continuam a formar, nas universidades públicas, médicos para atender a população rica, ganhando fortunas. A política de cotas começa a dar frutos, formando as primeiras gerações de médicos negros, pobres. Porém, isso se dá com grande dificuldade, por requerer que os estudantes dediquem 6 anos em tempo integral ao curso, com livros caros. Tratava-se de apoiá-los com bolsas de estudo, mas o governo atual cortou esse apoio.

A própria imagem do médico como um tipo branco, de avental engomado, alto, bonito, nas mãos de quem fica o destino dos pacientes, ficou questionado. No inicio do Mais Médicos, só saíam às ruas gente de direita, para questioná-lo. O pessoal de esquerda parece que se sentia constrangido. Mas o governo teve uma grande vitória – especialmente pela ação da presidente Dilma e do ministro Padilha -, hoje a maioria esmagadora, sempre acima de 90%, da população, apoia o programa e não quer mais ficar sem ele.

Agora, o governo golpista atende demanda elitista de setor dos médicos e proíbe a criação de novos cursos de medicina. Como se o Brasil não precisasse de mais médicos, mas o "mercado" quer manter a reserva para aqueles privilegiados que podem fazer cursos nas faculdades existentes e atender os pacientes que podem pagar as consultas que eles cobram.

É um crime de lesa humanidade. Reitera a imagem de que o governo golpista governa para os ricos. Forma médicos ricos, que atendem os ricos. E a saúde pública, o SUS, o Mais Médicos, que se danem.

Mais do que nunca um referendo revogatório se torna condição indispensável do resgate da democracia no Brasil. Que não se resume ao povo recuperar o direito de eleger o presidente da República, mas de ter seus direitos elementares atendidos, entre os quais a saúde de qualidade, gratuita, em todos os lugares do país, é um deles.


O Brasil precisa de mais e melhores médicos e não de menos médicos. Precisa de médicos formados com recursos púbicos para atender a massa da população, aquela que mais requer atenção. Dinheiro público para formar médicos para o povo. Quem quiser atender clientela rica, que busque faculdades privadas e pague por seu curso.

Auditoria Cidadã da Dívida: Nota de repúdio

NOTA DE REPÚDIO: PLS 204/2016, PLP 181/2015, PL 3337/2015

 
NOTA DE REPÚDIO
PLS 204/2016, PLP 181/2015 e PL 3337/2015
A plenária do Seminário Internacional 2017, organizado pela Auditoria Cidadã da Dívida e apoiado por dezenas de entidades nacionais e internacionais, que se realiza em Brasília-DF com o tema “Esquema Financeiro Fraudulento e Sistema da Dívida – criação de ‘Estatais não Dependentes’ utilizadas para securitizar Dívida Ativa e lesar a sociedade”, que denuncia mecanismos financeiros perversos que aprofundam a financeirização e provocam, simultaneamente, a geração de dívida e o sequestro da arrecadação pública pelo setor financeiro, manifesta total R E P Ú D I O ao posicionamento dos governadores de alguns Estados da Federação, divulgada em jornais de grande circulação, no dia 08 de novembro de 2017, onde esses defendem a aprovação dos projetos de lei que ora tramitam no Congresso Nacional (PLS 204/2016, PLP 181/2015 e PL 3337/2015).
Tais projetos visam dar uma aparência de legalidade às operações de securitização que estamos denunciando como grandes fontes de expropriação de recursos públicos, em todos os entes da federação brasileira, com o aumento das dívidas públicas em milhões e até bilhões de reais embasadas em falsas contrapartidas.
O PLS 204/16, compromete gestões e gerações futuras, com graves consequências sociais, inviabilizando a sustentabilidade dos entes federados por se tratar de uma antecipação de receita qualificada com altos custos e sem contrapartida real.
Exigimos que governadores e parlamentares tomem conhecimento das graves evidências de ilegalidades comprovadas (com farta documentação) no Relatório nº 02/2017 (link https://goo.gl/DyT28V), produzido pela Auditoria Cidadã da Dívida, em apoio à CPI da PBH Ativos S/A, da Câmara Municipal de Vereadores de Belo Horizonte, destacando-se:
​⁃​ofensa a toda legislação de finanças do país, devido ao desvio de arrecadação tributária e não tributária e sequestro desses recursos durante o seu percurso pela rede arrecadadora, de tal forma que esses recursos sequer alcançarão o orçamento público e indo diretamente para bancos privilegiados;
​⁃​Perdas efetivas de grandes volumes de recursos públicos sequestrados e transferidos ao setor financeiro;
​⁃​Geração de operação de crédito disfarçada (ilegal) e não autorizada;
​⁃​Comprometimento público com garantias (ilegais) que colocam em risco as finanças atuais e futuras;
​⁃​Cessão fiduciária de créditos, que na prática significa a perda de controle estatal sobre a arrecadação tributária;
​⁃​Anarquia legal, devida à afronta à Constituição, ao CTN, à LRF, leis orçamentárias, Lei 4.320/64, Lei 6.385/76; Lei 8.666/93 e Resolução CMN 2.391, entre outras normas nacionais e locais.
Estas leis, se aprovadas, serão grandes fontes de expropriação de recursos públicos em todos os entes da federação brasileira, com o aumento das dívidas públicas em vários milhões e até bilhões de reais, embasadas em falsas promessas de contrapartidas que exploram a boa-fé da cidadania ao prometer serviços públicos que não virão.
O Brasil e suas unidades federativas precisam de recursos orçamentários para atender as necessidades básicas da população. Não é razoável comprometer recursos futuros para atender ganhos financeiros.
Diante disso, as centenas de pessoas participantes exigem o arquivamento imediato dos projetos de lei em andamento no Congresso Nacional: PLS 204/2016 no Senado, PLP 181/2015 e PL 3337/2015 na Câmara.
Brasília, 08 de novembro de 2017.

Por que foi fraca a resistência ao golpe no Brasil?

Por que foi fraca a resistência ao golpe no Brasil?

Armando Boito (*)


Por que, durante a crise política de 2015-2016, a presidenta Dilma Rousseff foi abandonada por setores sociais que, até então, vinham se beneficiando com as políticas implementadas por seu governo?

Essa pergunta vale, dentre outros, para o movimento sindical, para os trabalhadores da massa marginal e, também, para boa parte da burguesia brasileira. Vamos tentar oferecer alguns elementos de resposta para cada um desses casos.

Estamos preocupados, acima de tudo, com as disposições políticas presentes nos citados segmentos sociais. Iremos nos referir apenas ocasionalmente à estratégia do Partido dos Trabalhadores. Essa, regra geral, consistiu em travar a luta contra o golpe parlamentar no interior das instituições do Estado, desprezando a importância da luta de rua - luta de rua que, ironicamente, foi valorizada, com sucesso, pela direita brasileira.

A burguesia interna dividiu-se diante do golpe

Para obtermos informação sobre a posição dos setores burgueses frente à política governamental, podemos usar, com método e parcimônia, as reportagens da grande imprensa, mas devemos dar especial atenção à imprensa própria das grandes associações empresariais. A burguesia brasileira está organizada em sindicatos oficiais, agrupados em federações e confederações, e também em associações civis que reúnem segmentos empresariais determinados e que têm um papel importante na vocalização e na organização de interesses. Coordenamos um levantamento de informações no material publicado pela imprensa de algumas importantes entidades empresariais durante o primeiro governo Dilma e durante os anos da crise política. O levantamento contemplou confederações, federações, sindicatos e associações estratégicas da agricultura e da indústria – com destaque para a CNI, Fiesp, Sinaval, Abimaq, ABDIB, CNA e Abag. Partimos, como é necessário e inevitável, de alguns conceitos prévios relativos à burguesia e à sua relação com o Estado.

A burguesia brasileira mantém relações variadas e complexas com o capital internacional. Não há no Brasil uma burguesia nacional antiimperialista, mas tampouco chegou-se a uma situação na qual todas as empresas capitalistas aqui atuantes seriam empresas estrangeiras e empresas integradas ao capital internacional. Temos uma fração da burguesia brasileira, a burguesia interna, que, embora não hostilize o capital estrangeiro, concorre com ele, disputando posições na economia nacional e, em menor grau, também na economia internacional. Os governos do PT representavam essa fração da burguesia apoiados em setores das classes populares e o golpe contra o governo Dilma foi dirigido, justamente, pelo capital internacional e pelo setor da burguesia brasileira a ele associado, contando com o apoio ativo da fração superior da classe média. O fato notório e muito importante de o governo Michel Temer ter abandonado a política (moderadamente) nacionalista para a cadeia do petróleo e gás – regime de exploração, refino, fornecimento de navios, de equipamentos pesados etc. – serve para ilustrar essa tese. Pois, bem, por que é que a fração burguesa que vinha sendo beneficiada pelos governos do PT não defendeu o governo Dilma?

A burguesia e suas frações agem premidas por circunstâncias dadas. Elas não possuem a clareza de interesses, a unidade política, a capacidade de organização e a liberdade de ação que supõem muitos dos analistas de esquerda. No caso do Brasil, a burguesia interna era representada pelo governo organizado por um partido político que não fora construído pela própria burguesia, mas que, justamente por isso, teve maior liberdade para impor algumas concessões à burguesia interna, angariando-lhe com isso uma base de apoio popular. Foi o que permitiu que os interesses maiores dessa fração prevalecessem frente ao capital internacional e à burguesia associada. Nascia a frente política neodesenvolvimentista que encerrou a hegemonia exercida pelo capital internacional e pela burguesia associada durante a década de 1990. A leitura da imprensa das associações empresarias permite ver que, durante os anos de crescimento econômico, e quando ainda estava fresca na memória da burguesia interna a estagnação e a abertura econômica radical dos governos FHC, essa fração burguesa aceitou tais concessões – valorização do salário mínimo, transferência de renda, reconhecimento do direito dos trabalhadores à luta reivindicativa, expansão do serviço público, etc.. Os documentos das associações empresariais, quando arrolavam aqueles que seriam os problemas, gargalos e dificuldades da economia brasileira, não concediam destaque à política social dos governos do PT. Aceitavam-na, mesmo que sem entusiasmo.

A situação começou a mudar a partir de 2013. Os fatos relevantes foram o baixo crescimento econômico, a ofensiva ideológica do capital internacional contra a nova matriz de política econômica ensaiada pelo Ministro Guido Mantega e, finalmente, o ajuste fiscal do segundo governo Dilma. Foi nessa nova conjuntura que a burguesia interna passou a ver as concessões que garantiam o apoio popular ao neodesenvolvimentismo como um preço alto demais. Se em 2005, na crise do governo Lula, a grande burguesia interna saiu a campo em defesa do presidente, o mesmo não ocorreu quando o governo Dilma Rousseff entrou em crise dez anos depois.

As associações de industriais e do setor agrícola pesquisadas arrolam algumas reivindicações que aparecem de modo recorrente ao longo de todo o segundo mandato Dilma Rousseff e durante o período de crise. Nesse elenco de reivindicações recorrentes destacam-se dois grupos. O primeiro aponta contra os interesses do capital internacional e financeiro, enquanto o segundo aponta contra os trabalhadores; o primeiro prevaleceu durante o primeiro biênio do governo, enquanto o segundo foi ganhando destaque a partir do ano de 2013. No primeiro grupo de reivindicações recorrentes, temos: juro baixo, câmbio depreciado, financiamento público a juro subsidiado para os investimentos, investimento em infraestrutura, política de conteúdo local (protecionismo), política industrial e outras. No segundo grupo de reivindicações recorrentes, temos: reforma da previdência social, reforma trabalhista, ajuste fiscal baseado na redução dos gastos sociais e no arrocho do funcionalismo e outras. Acompanhando a imprensa das associações empresariais, fica claro que o segundo grupo de reivindicações vai ganhando proeminência à medida que o período de crescimento baixo e de crise econômica prolongava-se e que a campanha da fração burguesa rival pelo ajuste fiscal ganhava força.

A burguesia interna não fez esse movimento em bloco. Parte dela foi perseguida judicialmente, graças ao fato de as forças articuladas do imperialismo, da burguesia associada e da alta classe média terem utilizado a corrupção como arma para isolar e mesmo destruir as empresas nacionais de construção e engenharia pesada; parte aderiu ativamente ao golpe – os casos mais importantes são a CNI, a Fiesp, pelo que se pode constatar lendo a imprensa dessas associações. A indústria de transformação encontrava-se, desde 2011, em trajetória declinante devido à penetração dos manufaturados chineses; parte da burguesia interna, ainda, ficou neutra na crise – foi o caso da indústria de construção naval que, tendo crescido a taxas de 19% ao ano, relutou em aderir ao golpe do impeachment e hoje está em campanha contra o desmonte da política de conteúdo local pelo governo Michel Temer.

A resultante, contudo, foi que se abriu uma crise de representação. O representado, a grande burguesia interna, não se reconhecia mais no representante, o governo Dilma – governo que, repito, fora apoiado e aplaudido por essa fração burguesa até pelo menos o ano de 2012. A ofensiva restauradora do grande capital internacional e da fração da burguesia brasileira a ele associada, apoiados na mobilização da alta classe média, encontrou, então, caminho livre para avançar.

Os trabalhadores da massa marginal permaneceram passivos

O capitalismo dependente brasileiro sempre manteve um grande contingente de trabalhadores apenas periférica e superficialmente integrado à produção estritamente capitalista. A maneira específica de o capitalismo integrar o trabalhador é o assalariamento para a produção e a realização da mais-valia. Pois bem, os camponeses com pouca terra, os trabalhadores urbanos por conta própria, os chamados camelôs, os prestadores de serviços domésticos variados, os subempregados e outros integram-se ao capitalismo brasileiro apenas como assalariados eventuais, como vendedores ocasionais e autônomos de mercadorias eventualmente produzidas pelas empresas capitalistas ou, no limite, apenas como consumidores. Estão na margem do sistema. O modelo capitalista neoliberal e dependente fez crescer a massa de trabalhadores marginal. Como é sabido, esses trabalhadores votavam, em sua grande maioria, nos candidatos à presidência do Partido dos Trabalhadores. Eles foram a base eleitoral de massa dos governos do PT.

Essa relação política nada tem a ver com aquilo que imaginam e apregoam os liberais, os seus partidos e a imprensa comercial. Não se trata de cidadãos cuja opção de voto resultaria da desinformação, do suposto carisma de Lula ou do clientelismo. Os governos do PT atenderam a interesses reais desses setores e o fizeram com uma política de massa e não com favores pontuais em troca de apoio político, como é próprio do clientelismo. Não custa lembrar os programas de transferência de renda e de fornecimento de bens e de serviços que tiveram os trabalhadores da massa marginal como beneficiários: programa “Bolsa Família”, estímulo ao usufruto do “Auxílio de Prestação Continuada”, “Luz para Todos”, “Minha Casa, Minha Vida”, programa de construção de cisternas na região semiárida (“Programa Cisternas”), o “Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego” (Pronatec), dentre outros. Os trabalhadores da massa marginal ao descarregarem o seu voto no PT procediam, portanto, do mesmo modo que procedem todas as demais classes e camadas sociais: votavam no candidato que, de algum modo e com maior ou menor amplitude, atendia aos seus interesses.

Apesar desse elemento geral, a relação desses trabalhadores com os governos do PT apresentava uma particularidade. Era uma relação de tipo populista, ou, para ser mais preciso, neopopulista. Sabemos bem que esse conceito é mal visto por grande parte dos intelectuais de esquerda. Mas, atenção, não convém se perder em discussões terminológicas. Já mostramos, no parágrafo anterior, que, embora usemos a palavra populismo, não utilizamos o mesmo conceito (= ideia) de populismo que é utilizado pelos liberais. Para esses, o político populista obtém apoio popular engabelando, tapeando ou até hipnotizando as “massas incultas”. Já indicamos que na relação populista o político deve atender, minimamente, os interesses de sua base social. No caso do Brasil, esse interesse é a distribuição de renda que, pelo seu caráter popular e progressista, diferencia o populismo do bonapartismo, já que nesse último a demanda da base social é conservadora.

Getúlio Vargas (1930-1954), no populismo clássico brasileiro, apoiou-se no proletariado recém-chegado do campo e sem experiência organizativa – a nova geração proletária que substituía a geração de operários imigrantes da República Velha (1889-1930) – amealhando apoio popular para a política desenvolvimentista de industrialização. Sua arma e bandeira foi a Consolidação dos Direitos do Trabalho, a CLT, estatuto legal que, até os dias de hoje, assombra os neoliberais. Na década de 1980, o novo sindicalismo evidenciou que a classe operária e demais assalariados urbanos tinham maior capacidade de organização e de luta que os trabalhadores do período pré-1964. Lula da Silva e Dilma Rousseff, para implantarem o neopopulismo, apoiaram-se, não nesse novo e mais combativo operariado do qual, por ironia, provinha Lula, mas, sim, nos trabalhadores da massa marginal, composta por segmentos das classes trabalhadoras com baixa capacidade de organização e de pressão, encontrando então nesses segmentos apoio popular para o neodesenvolvimentismo, a política que reformou o modelo capitalista neoliberal até hoje vigente no Brasil. A tradição populista brasileira encontrou um novo assento e falou mais alto que as intenções iniciais dos fundadores do Partido dos Trabalhadores que visavam, segundo proclamavam insistentemente, a superar a Era Vargas pela esquerda.

Pois bem, a relação populista imobiliza politicamente o trabalhador. Um setor social com baixa capacidade de organização, interpelado do alto por políticos profissionais ou governos, torna-se prisioneiro daquilo que poderíamos denominar o culto ou fetiche do Estado protetor. Ele delega ao Estado capitalista, cujas instituições parecem situar-se acima das classes sociais, a função de “proteger os pobres”. É verdade que parte dos trabalhadores da massa marginal organiza-se e luta em movimentos pela terra e por moradia. Essa parte esteve, de resto, muito ativa na resistência ao golpe. Contudo, ela representa ainda uma ínfima minoria. O grande contingente de trabalhadores da massa marginal ausentou-se da luta e deixou a caravana do golpe passar. Esse contingente vê o Estado como uma entidade livre e soberana, a qual deve tomar a iniciativa de proteger os “pobres” e cuja ação independeria da relação de forças entre as classes sociais – residindo aí o motivo de utilizarmos também a expressão fetiche do Estado.

Os trabalhadores da massa marginal foram de fundamental importância para as vitórias eleitorais dos candidatos do PT à presidência, mas eles não têm consciência clara desse fato. Não percebem o impacto do seu próprio voto na situação política nacional; não percebem que se os seus interesses dependiam dos governos petistas, esses, por sua vez, dependiam, e ainda mais, do apoio político e não apenas eleitoral da massa marginal. E o PT não teve interesse nenhum em mudar tal percepção.

No momento da crise, quando a força e a soberania do governo petista desmancharam-se no ar, os trabalhadores da massa marginal não tinham condições ideológicas e nem organizativas para saírem na defesa do governo. Os governos Lula e Dilma e o próprio PT abriram mão de organizar essa massa, de levá-la a superar o populismo e fazê-la ver que ela deve contar com as suas próprias forças. Não quiseram e não puderam recorrer a ela em sua defesa.

No populismo clássico, em agosto de 1954, a passividade política dos segmentos populares mantidos sob o fascínio do populismo transformou-se no seu contrário e idêntico. Interpelados pela pungente “Carta testamento” de Getúlio Vargas, irromperam nas ruas em grandes, embora impotentes, quebra-quebras, ataques à grande imprensa comercial e a consulados estadunidenses. Carlos Lacerda, o jornalista que chefiara a campanha de imprensa contra Getúlio, apavorado, fugiu para a Bolívia. Em agosto de 2016, Dilma Rousseff não apelou ao povo e sequer esse espetáculo de revolta impotente o neopopulismo nos ofereceu.

Os trabalhadores sindicalizados foram neutralizados

Três fatores explicam a quase ausência do sindicalismo brasileiro na resistência ao golpe parlamentar de 31 de agosto de 2016. Primeiro, Dilma Rousseff traiu o discurso da campanha eleitoral. O segundo fator é que o sindicalismo sempre ocupou uma posição subordinada na frente política neodesenvolvimentista que sustentou o governo Dilma Rousseff. O terceiro fator é a peculiaridade da estrutura sindical brasileira e do pessoal que dirige os sindicatos.

A campanha eleitoral de Dilma Rousseff em outubro e novembro de 2014 foi centrada na defesa do crescimento econômico, da distribuição de renda e na crítica às políticas de ajuste fiscal. A candidata fez isso de modo sistemático, pedagógico e eloquente. Talvez, tenha sido a campanha eleitoral mais à esquerda das candidaturas presidenciais do PT. Por isso, tal campanha logrou atrair forças e organizações de esquerda, como o Partido do Socialismo e Liberdade, o Psol, que tradicionalmente são críticos dos governos do PT. Ocorre que, assim que assumiu o governo, Dilma passou a implantar um ajuste fiscal pesado sem sequer se preocupar em apresentar justificativas a quem a tinha apoiado. Convidou para ocupar o Ministério da Fazenda um economista, Joaquim Levy, tradicionalmente vinculado ao setor financeiro, que implantou cortes de todo tipo transformando uma conjuntura de crescimento baixo em recessão. O movimento sindical progressista passou a criticar o governo e afastou-se dele.

A relação do movimento sindical com os governos petistas nunca foi tranquila. A melhor fase foi a do segundo governo Lula (2007-2010), quando o boom das commodities, o aumento do salário mínimo e o investimento público puxaram o crescimento econômico. Porém, os governos do PT ignoraram ao longo dos anos reivindicações históricas que os sindicalistas levaram a eles em ocasiões simbolicamente fortes, como foi o caso do comício de Dilma Rousseff dirigido a 40.000 sindicalistas na campanha eleitoral de 2010 no Estádio Municipal do Pacaembu em São Paulo. Esses governos não atenderam a reivindicação de redução da jornada de trabalho legal, a reivindicação de regulamentação restritiva da terceirização, de melhoria no sistema de pensões dos aposentados, de alteração nas faixas e percentuais do imposto de renda e outras. O que o sindicalismo obteve foi, principalmente, um ganho indireto: o crescimento econômico e a enorme redução do desemprego, que caiu de 13,5% em 2003 para 4,6% em 2014, possibilitaram o fortalecimento da luta sindical na base e a conquista, pelos trabalhadores em luta, de significativos ganhos salariais. O ganho direto, resultante de ação deliberada do governo, foi a valorização do salário mínimo que teve aumento real de 75% entre 2003 e 2012.

Por último, é preciso ter em mente que o movimento sindical brasileiro é dependente do Estado. Essa estrutura começou a ser montada no primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1934), mesma época em que Salazar em Portugal e Franco na Espanha implantavam sindicalismos de Estado na Península Ibérica. No Brasil, ainda hoje, um sindicato para ser reconhecido como tal tem de obter a carta sindical do Estado. Uma vez obtida essa carta, ele pode negociar em nome de um segmento dos trabalhadores que é definido na carta expedida pelo Estado. Ademais, ele o fará em regime de monopólio da representação – unicidade sindical – e terá acesso ao fruto proibido que todo o sindicalismo disputa: abundantes recursos financeiros que, provenientes da contribuição obrigatória de todos os trabalhadores, sindicalizados ou não, entram regularmente nos cofres dos sindicatos oficiais.

Graças a esse sistema, o governo pode intervir de modo sistemático e capilar na vida sindical: distribui cartas sindicais de acordo com os seus interesses, controla o uso das finanças dos sindicatos, as suas eleições e intervem, por intermédio do judiciário, depondo ou suspendendo diretorias sindicais. Os resultados políticos são variados: o Brasil tem um número cada vez maior de sindicatos cada vez menores, uma grande porcentagem dos dirigentes são agentes do Estado no seio do movimento sindical – os chamados pelegos – e a distância entre as direções, encasteladas no sistema, e as bases é grande. No momento do golpe, vimos de tudo. Centrais sindicais de pelegos apoiando o golpe parlamentar, direções de sindicais progressistas temerosas de sofrerem ingerências do Estado caso mobilizassem politicamente suas bases contra o golpe e sindicalistas progressistas que se surpreenderam com a reação negativa das bases quando solicitadas a se mobilizar. O resultado geral foi desastroso para a esquerda. A cúpula das três centrais sindicais progressistas – a CUT, a CTB e a Intersindical – mobilizaram-se contra o golpe parlamentar. Forneceram recursos financeiros, apoio logístico e meios de comunicação para a resistência. Porém, os sindicatos de base ficaram imóveis, não compareceram e nem mobilizaram os trabalhadores. Nas manifestações contra o golpe parlamentar, tínhamos lá o movimento estudantil, alguns movimentos populares, como os movimentos por terra e por moradia, setores progressistas da classe média, mas não víamos os petroleiros, os metalúrgicos, os bancários, os trabalhadores da construção civil, enfim, não víamos lá nenhum setor ativo e forte do movimento sindical.

A direita ganhou, de longe, a luta de rua. Suas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff apresentavam um contingente de manifestantes muitas e muitas vezes superior ao contingente presente nas manifestações que defendiam o mandato da presidente eleita.

Depois do golpe

Consumado o golpe em 31 de agosto de 2016, quando a presidente Dilma Rousseff, que se encontrava afastada desde 17 de abril do mesmo ano, foi definitivamente deposta, esses mesmos atores começaram a manifestar insatisfações pontuais ou oposição aberta diante do governo Michel Temer.

Os empresários do setor produtivo passaram, por intermédio de suas associações, a criticar o ajuste fiscal, a redução e o encarecimento do crédito, a nova vaga de abertura comercial e, inclusive, a elevar a polêmica para o nível doutrinário, criticando o “ultraliberalismo” do governo. Nada disso significou, contudo, que tivessem passado à oposição.

Os sindicalistas, diante da ampla e profunda política de retirada de direitos – reforma trabalhista e reforma previdenciária do governo Michel Temer – passaram a se mobilizar. Com a importante colaboração dos movimentos populares, lograram fazer uma greve geral significativa em 28 de abril deste ano de 2017. Mas, aí, como diriam os portugueses, Inês já era morta. A reforma trabalhista, que revoga os pilares do direito do trabalho brasileiro, foi aprovada. Ademais, nem o movimento sindical, nem o movimento popular, lograram, até aqui, demonstrar força suficiente para resistir à política reacionária em toda linha do novo governo.

E os trabalhadores da massa marginal? Estão recebendo a “visita” de Lula. É a chamada “Caravana da Cidadania” com a qual o ex-presidente percorre os nove Estados do Nordeste, a região mais pobre do país. Lá, Lula é abraçado por multidões, faz discursos prometendo dias melhores e aterroriza todos reacionários ao exibir sua grande popularidade. Pratica o neopopulismo, esse que se apoia nos trabalhadores da massa marginal, diferente daquele de Getúlio Vargas que se apoiava na jovem classe operária recém-chegada do campo. É, em todas as pesquisas de intenção de voto, o candidato favorito para vencer a eleição presidencial de 2018. Se a perseguição judicial da qual é vítima não impedir a sua candidatura e se houver eleição em 2018, a esquerda, penso eu, não terá outra opção a não ser apoiá-lo.





(*) Armando Boito é professor de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade de Campinas (Unicamp). É ainda diretor do Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) e editor da revista ‘Crítica Marxista’. Desenvolve pesquisa sobre as relações de classe no capitalismo neoliberal no Brasil e na América Latina. Entre as suas obras publicadas contam-se O Golpe de 1954: a burguesia contra o populismo (Editora Brasiliense, 1982), O sindicalismo de Estado no Brasil - uma análise crítica da estrutura sindical (Editoras Hucitec e Unicamp, 1991), Política neoliberal e sindicalismo no Brasil (Editora Xamã, 1999), O Sindicalismo na política brasileira (Editora IFCH-Unicamp, 2005) e Estado, política e classes sociais (Editora da Unesp, 2007). É também organizador de diversos volumes coletivos, entre os quais A obra teórica de Marx - atualidade, problemas e interpretações (Editora Xamã, 2000),A Comuna de Paris na História (Editora Xamã, 2001), Marxismo e Ciências Humanas(Editora Xamã, 2003), Marxismo e socialismo no século XXI (Editora Xamã, 2005) ePolítica e classes sociais no Brasil dos anos 2000 (Alameda Editorial, 2012)

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OS IMPOSTOS E OS EMPRÉSTIMOS


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

OS IMPOSTOS E OS EMPRÉSTIMOS

Todo cidadão esclarecido sabe que os impostos são pagos pelas pessoas quando compram algum produto ou consomem algum serviço. É comum vermos pessoas (principalmente empresários do comércio) que pagam mais impostos que vários trabalhadores juntos e por isso acham que merecem serem melhores tratados pelos serviços prestados pelo Estado! Se impostos são pagos quando do consumo de algum produto e serviços, quem paga os impostos pagos pelos empresários são os compradores dos produtos e serviços que eles vendem por intermédio das empresas que possuem.

Para impulsionar o consumo, os Estados e municípios, facilitaram a criação de indústrias e empresas dando incentivos fiscais e muitas vezes subsidiando a produção. Mas nem sempre o dinheiro arrecadado pelos impostos são suficientes para financiar a estrutura das industrias e de serviços e o Estado recorre a bancos privados (geralmente estrangeiros) para obter o dinheiro necessário.

O Estado brasileiro tomou um grande empréstimo, junto aos bancos ingleses, por ocasião da independência e isso sem falar que conseguiu a independência assumindo a Dívida Externa da Coroa Portuguesa (na prática comprou a independência), ou seja, o Estado brasileiro nasceu devendo. Todo empréstimo foi gasto para criação da estrutura do país que surgia e a grande maioria desse empréstimo foram investidos (gastos) na capital Rio de Janeiro.

A outra ocasião em que o Estado brasileiro tomou um grande empréstimo foi quando os empresários paulistas (os Barões do Café) chegaram ao poder central (1889 - Governo Prudente de Morais). Os Barões do Café, para desenvolver suas propriedades e facilitarem sua produção cafeeira, tomaram empréstimos triliardários junto aos Rothschilds , Lloyds e demais banqueiros ingleses a juros absolutamente escorchantes. Todo o dinheiro do empréstimo foi utilizando para construir a infra-estrutura do Estado de São Paulo.

Os empréstimos são utilizados para melhorar a infra-estrutura nos Estados do grupo que detém o poder, mas para o pagamento desta dívida, a cobrança,  vai para toda a população em todas as regiões país!
A foto acima ilustra perfeitamente o ocorreu na Sociedade Brasileira. A favela do lado esquerdo (Paraisópolis - SP) é habitada em sua maioria por imigrantes nordestinos (no nordeste houve muito pouco investimentos dos vultuosos empréstimos tomados pelo governo da união). Do lado direito a grande elite financeira do Estado de São Paulo que foi o Estado que mais se beneficiou com construção de uma infra-estrutura industrial na maioria dos casos bancados por vultuosos empréstimos do Governo da União.
Os impostos são pagos pelo consumo de serviços e produtos para toda a população e no caso do Brasil são justamente as classes sociais com menor poder financeiro que pagam mais impostos, mas os serviços prestados por esses impostos são feito na grande maioria nas regiões das pessoas que controla o Estado. Basta fazer uma pesquisa e irá notar que na grande maioria das cidades brasileiras é justamente nos bairros das classes mais poderosas financeiramente que os Estado (administrações estaduais e municipais) presta os melhores serviços.

Com a venda dos produtos provenientes da industria paulistas em todo território nacional e a devida cobrança de impostos sobre esses produtos, os consumidores estarão pagando  serviços em um Estado onde não residem. Ficando uma falsa impressão que os Estados consumidores, destes produtos, pagam poucos impostos em comparação ao grande arrecadação do Estado de origem de tais produtos (no caso citado São Paulo).Essa concentração no recebimento dos impostos se agrava mais com as compras efetuadas via internet!

Nos últimos anos, os investimentos na industria e agricultura nas demais regiões do Brasil (principalmente no Nordeste) sofreu uma melhor distribuição e em consequência os impostos, cobrados sobre os produtos, também acompanharam essa distribuição. Mesmo assim é necessário estudar e implantar novo métodos para a cobrança dos impostos, sobre produtos e serviços, para que o cidadão pague impostos pelos serviços que sejam ou serão ofertados no locais onde residem.

Texto original: CARLOS GEOGRAFIA

CARTA ABERTA EM DEFESA DA EDUCAÇÃO

CARTA ABERTA EM DEFESA DA EDUCAÇÃO
Aloizio Mercadante


Buscando esconder as imensas dificuldades de gestão, o ministro da Educação, Mendonça Filho, volta a atacar, em matéria publicada no UOL, na última segunda-feira (16), os governos Lula e Dilma no intuito de criar uma cortina de fumaça sobre os retrocessos que o governo Temer impõe à educação brasileira.

Há quase um ano e meio no cargo, a gestão Temer - Mendonça Filho é marcada pelo desmonte e truculência e pela falta de diálogo, sendo que as sequelas, infelizmente, já estão em cada escola e universidade pública do país.

Sobre o orçamento do MEC, o ministro afirmou em outra oportunidade que nos governos Lula e Dilma havia uma “orgia fiscal”, que sobravam recursos para a educação. Agora, muda o discurso e afirma que recuperou R$ 4,6 bilhões, que tinham sido contingenciados em 2015.

Em primeiro lugar, é importante considerar que os governos Lula e Dilma construíram um novo padrão de financiamento público para a educação brasileira, por conceberem como a mais importante e estratégica política pública para o país. A Constituição de 1988 deixou avanços no financiamento, especialmente à vinculação dos 18% da receita fiscal federal e os 25% para estados e municípios.

Apesar do governo FHC ter criado o Fundef, dentro de uma política de foco prioritário na educação fundamental, que não incluiu a educação infantil, o ensino médio, o ensino profissionalizante e as universidades públicas federais, aprovou também a Desvinculação das Receitas da União (DRU), que retirou 20% da verba vinculada pela Constituição para a educação.

Nossos governos criaram o Fundeb, que incluiu a educação infantil e o ensino médio nos repasses de recursos, rompendo com a falsa oposição e segmentação, implantando uma política educacional sistêmica, da creche à pós-graduação. Além disso, acabamos progressivamente com a DRU e, no Governo Dilma, foi aprovada a lei que vinculou os recursos dos royalties do petróleo e do Fundo Social do Pré-Sal para a educação, a mais promissora fonte de financiamento de médio e longo prazo.

Esse novo padrão público de financiamento, construído nos governos Lula e Dilma, assegurou um crescimento real no orçamento da educação, descontada a inflação, de 206%. No governo Dilma, tivemos R$ 54 bilhões acima do piso constitucional, de 18% da receita bruta federal, superando a marca de 23% da receita federal com a educação.

Em 2015, a articulação golpista bloqueou o parlamento, apostando na política do quanto pior melhor, para inviabilizar a gestão orçamentária do governo Dilma. É preciso lembrar que Congresso não votou o ajuste do déficit fiscal proposto pelo governo Dilma e, de forma inédita, em 2016, liderados de forma dissimulada por Michel Temer e publicamente por Eduardo Cunha, não instalou nenhuma das comissões da Câmara dos Deputados, até o mês de maio.

A devolução de R$ 4,7 bilhões ao orçamento do Ministério da Educação, tão comemorado pelo atual ministro, só foi possível após o fim do bloqueio das atividades legislativas, com a retomada das votações orçamentárias, que só ocorreu depois do afastamento da presidenta Dilma Rousseff, sem crime de responsabilidade.

Porém, em um período tão curto, a gestão golpista de Temer aprovou a PEC 95, que congela os gastos primários pelos próximos 20 anos, desmontando o padrão de financiamento anterior, revogando o piso de 18% da receita fiscal bruta federal e ameaçando todo esforço dos últimos anos para a educação.

Na educação técnica profissionalizante, o governo FHC havia interditado as experiências de integração da educação regular com o ensino profissionalizante e interrompido os investimentos nas instituições federais de educação técnica e profissionalizante. Os governos Lula e Dilma criaram e expandiram de 140 para 600 os campi dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia. E implantaram o PRONATEC, em parceria com o “Sistema S”, que realizou 9,4 milhões de matrículas em educação técnica e profissionalizante, entre 2011 e 2015.

Em função da crise fiscal e da paralisia do Congresso Nacional, nossa gestão deixou pronto para ser assinado um acordo com os parceiros do “Sistema S”, que já havia sido anunciado em março de 2016, que, permitiria a abertura de mais 2 milhões de vagas para formação técnica profissionalizante em 2016. Por decisão política da atual gestão, o acordo com o “Sistema S” não foi efetivado e a abertura de inscrições no PRONATEC foi cancelada.

Quanto ao ProUni, convém lembrar que o atual ministro da Educação é do DEM, partido que combateu o Enem, votou contra o ProUni e foi ao STF para impedir o programa. Apesar de todo o esforço do partido do ministro Mendonça Filho, em impedir o programa, o Prouni, já distribuiu mais de 1,7 milhões de bolsas de estudos para estudantes de baixa renda em universidades particulares do Brasil, além de ser importante ferramenta na indução para a qualidade.

O mesmo comportamento teve o partido do atual ministro, o DEM, em relação a Lei de Cotas, que aprovamos em 2012 e que está assegurando metade das vagas das universidades federais para os estudantes das escolas públicas, com recorte de renda e raça, enfrentando os desafios da desigualdade social e da discriminação racial. Destaco que todas as pesquisas acadêmicas demonstram o êxito dessa política, na qual o desempenho dos cotistas é semelhante aos não cotistas no final dos cursos.

São inacreditáveis os ataques que o ministro Mendonça Filho faz ao Fies – Programa de Financiamento Estudantil. O Fies foi criado no governo FHC e reformulado, em 2010, como ferramenta estratégica para o Brasil resgatar um passado de exclusão e educação superior. Para isso, foi estruturado como um financiamento reembolsável, com prazos mais longos, tendo já beneficiado 2,6 milhões de alunos. Sem o Fies, as matrículas na educação superior seriam aproximadamente 25% menores.

As ofertas de bolsas reembolsáveis do FIES cresceram depois de 2013, a partir das mudanças nas exigências dos avalistas dos estudantes beneficiados, por decisão do Congresso Nacional, que retirou as medidas protetivas e sobrecarregou o fundo garantidor do programa. Quando um novo cenário econômico com restrições fiscais se apresentou, em 2015, uma série de medidas prudenciais foi adotada, com o redirecionamento das vagas para cursos considerados mais estratégicos, além da vinculação ainda mais exigente à qualidade das instituições ofertantes nas avaliações do Ministério da Educação.

Além disso, reduzimos o patamar de renda familiar para 2,5 salários mínimos per capita e adotamos uma proporcionalidade para as cinco regiões do país. As taxas de juros foram elevadas de 3,5% par 6,5% a.a. No cenário de crise fiscal fizemos um ajuste com qualidade no Fies, com consequente redução da oferta de vagas, mas mantendo o compromisso de inclusão educacional.

O volume de crédito do Fies representa menos de 3% do total de crédito público ofertado para atividades empresariais, imobiliárias, agrícolas ou infraestrutura. A oferta de crédito público é historicamente subsidiada, em decorrência das abusivas taxas de juros praticadas pelo sistema financeiro brasileiro.

Programas de crédito educativo existem em praticamente todos os países desenvolvidos. Nos EUA, por exemplo, o crédito educativo na educação superior já ofertou US$ 1,3 trilhão desde sua criação. Na crise de 2009, quando da explosão da inadimplência, o governo Obama aumentou a oferta em 40%, alongou os prazos de pagamentos para 30 anos, mantendo a prioridade da educação.

Esse conjunto de políticas públicas de acesso, permanência e indução da qualidade, como: o ProUniI; o FIES; a Lei de Cotas; o ReUni, que expandiu de forma inédita as vagas na rede de universidades federais; acompanhados pela reformulação do Enem e o SISU permitiu ampliar as matrículas de 3,4 milhões de estudantes para 8,1 milhões na educação superior durante o nosso período de governo. E o mais importante, 35% dos formandos que fizeram o ENADE – Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, em 2015, eram os primeiros da família a serem diplomados. Uma mudança histórica no acesso à educação superior! A crise econômica associada ao desmonte destas políticas já tem como consequência a redução do número de matrículas presenciais nos cursos de graduação universitária.

Sobre o IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, sistema de avaliação criado e aperfeiçoado em nossos governos, no último resultado de 2015, o ensino fundamental, anos iniciais (1º ao 5º ano) foi a etapa de destaque. A meta prevista era de 5,2 e o resultado alcançado foi de 5,5. Só nesta etapa são 117,9 mil escolas e 15,5 milhões de alunos, considerando a rede pública e a rede privada, sendo que 82,5% dos alunos desta etapa pertencem à rede pública municipal.

No ensino fundamental anos finais (6º ao 9º ano), a meta era de 4,7. O resultado alcançado foi de 4,5. Apesar de não ter alcançado a meta, o número representa um aumento de 0,3 se comparado ao IDEB de 2013. Ao todo, nesta etapa, são 62,4 mil escolas e 12,4 milhões de alunos. Ao considerar apenas a rede pública, os dados demonstram que 41,7% dos alunos estão vinculados aos municípios e 43,6% aos estados.

No ensino médio, tivemos um importante avanço no acesso e fluxo. Eram 3,7 milhões de estudantes em 1991, atingindo 10,6 milhões, em 2016. A taxa de matrículas dos jovens entre 15 e 17 anos passou de 41,9%, em 1992, para 88,7% em 2014. No fluxo, a proporção de estudantes com mais de dois anos de atraso nesta etapa, que era de 40,3% em 1992, caiu para 19,1%, em 2014. O resultado do IDEB foi de 3,7 frente a uma a meta de 4,3.

Apesar dos avanços e de todo este esforço, continuamos tendo um imenso desafio na educação em geral e no ensino médio em particular. Por isso, deixamos pronta a Nova Base Nacional Curricular, depois de uma consulta pública com mais de 12 milhões de participantes, que pretende flexibilizar o currículo, dialogar com os interesses dos estudantes, mas mantendo o mesmo direito de aprendizagem. Depois de dois anos de discussões no Congresso Nacional deixamos pronto, também, o relatório de um novo marco legal para o ensino técnico profissionalizante e sua integração com o ensino médio.

A atual gestão de forma autoritária e truculenta tentou impor por Medida Provisória, de cima para baixo, sem qualquer diálogo ou participação social, uma mudança que eliminava disciplinas e impunha alterações no ensino médio sem qualquer consulta a comunidade. Tal medida gerou uma ocupação estudantil prolongada em mais de 1 mil escolas e greves generalizadas dos professores.
O Congresso retomou o projeto que havíamos deixado amadurecido, fez correções importantes e aprovou um novo marco legal. Porém, a Nova Base Nacional Curricular para o ensino médio foi paralisada pela atual gestão, impedindo a reforma do ensino médio, que é necessária, mas só poderá ocorrer dentro de um processo de diálogo e participação efetiva dos professores e estudantes.

Agora, o que o ministro Mendonça Filho não fala é da deliberada omissão que realizou na divulgação dos resultados do último IDEB, escondendo em um primeiro momento o resultado das escolas públicas federais que tiveram um desempenho igual ou superior ao setor privado. No Pisa - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, tivemos um destaque sem precedente na América Latina, novamente com o desempenho dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, que se fossem um país ficariam em 11º lugar, entre os 70 países mais ricos do planeta.

O verdadeiro problema é que, só neste ano, estes IFETs – Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia tiveram um corte de 40% nos investimentos e 15% no custeio e enfrentam uma situação dramática para manter a qualidade e a estratégia de expansão de vagas.

Nos governos do PT, o Brasil diminuiu o percentual de crianças e jovens fora da escola em todas as fases da educação básica. Nos anos iniciais do ensino fundamental, o percentual de crianças que abandonaram a escola passou de 8,2% em 2001 para 1,1% em 2014. Nos anos finais, caiu de 11,4% para 3,5%. No ensino médio, foi reduzido de 15% para 7,6%, no mesmo período.

O ministro Mendonça Filho conhece bem os números do IDEB de Pernambuco de 2007 que avaliou a sua gestão como governador do estado na educação. Os resultados daquele IDEB apontam que nos anos iniciais Pernambuco foi 19º estado da federação em desempenho, nos finais foi o pior colocado (27º) e no ensino médio 22º. Melhorou muito depois de seu governo, especialmente na gestão de Eduardo Campos, com uma forte e republicana parceria com o governo federal.

Por isso tudo, ao invés de tentar responsabilizar os governos anteriores pelo fracasso que esse governo já é na educação, o ministro deveria lutar para recolocar a educação como eixo estratégico capaz de colocar o Brasil na sociedade do conhecimento. A educação deve ser concebida como política de estado e precisa de continuidade.

Nós incorporamos e procuramos aperfeiçoar muitos programas do passado, como por exemplo, o novo significado que demos, por exemplo, ao FIES, ENEM e ENADE, cujas primeiras iniciativas vinham do governo FHC. O que é grave é o desmonte completo de programas como o PRONATEC, Ciência Sem Fronteiras, Hora do ENEM, acompanhado de um discurso que procura uma legitimidade que esse golpe nunca teve ou terá. Não se constrói nada em educação quando o único esforço é a desconstrução do passado. O bom gestor na educação está sempre olhando para o vidro da frente do automóvel e não para o retrovisor.

Toda a comunidade da educação brasileira sabe os avanços no acesso, na permanência e na qualidade da educação que realizamos e o retrocesso que está ocorrendo.

A emenda constitucional 95 transformará a grave crise dos recursos públicos para a educação em uma situação dramática, já em 2018. É por tudo isso, que na educação brasileira, com tantas correntes do pensamento e pluralidade, o único verdadeiro consenso é: Fora Temer!


São Paulo, 18 de outubro de 2017

Doria: “Você acha que pobre tem hábito alimentar? Se comer, tem que dizer graças a Deus”

Doria: “Você acha que pobre tem hábito alimentar? Se comer, tem que dizer graças a Deus”

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Frase foi dita em 2011, quando Doria apresentava o programa “O Aprendiz”, em um momento em que discutia com os participantes “alimentação saudável” para moradores de rua. Agora como prefeito, seguiu na mesma linha ao anunciar a “ração humana”. Assista
Por Redação
A vereadora Sâmia Bomfim (PSOL-SP) postou em suas redes sociais um vídeo que mostra o prefeito João Doria (PSDB) já em 2011 expondo o que viria a concretizar, este ano, com o lançamento da polêmica “ração humana” – um granulado de restos de alimentos processados que seria distribuídos a moradores de rua em São Paulo.
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Na ocasião do vídeo, Doria era apresentador do programa da Record “O Aprendiz”, um reality show de empresários que, nos Estados Unidos, era apresentado por Donald Trump. Neste episódio em questão, o tucano discutia com os participantes uma tarefa que consistia em fornecer “alimentação de qualidade” a moradores de rua quando disparou a frase que já dava uma prévia do “Allimento” que iria lançar como prefeito.
“Você acha gente humilde, pobre, miserável vai ter hábito alimentar? Se ele se alimentar, tem que dizer graças a Deus”, disse.
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O programa Alimento para Todos foi lançado em um vídeo nas redes sociais publicado pelo prefeito na semana passada e anunciado na página da Secretaria de Direitos Humanos. De acordo com o texto, o programa faria a distribuição de um composto, feito com base em alimentos que não seriam vendidos, para populações com carências nutricionais. O resultado é uma uma espécie de pedra sem cor, que mais parece uma ração, e teria o nome de “allimento”. A distribuição seria feita a partir de uma parceria com a empresa Plataforma Sinergia.
O Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região (que engloba São Paulo) manifestou posição contrária à proposta, entendendo que ela “contraria os princípios do Direito Humano à Alimentação Adequada”.
Depois da péssima repercussão, a prefeitura de São Paulo não aguentou a pressão e voltou atrás sobre sua decisão de lançar o programa. A última informação é que não existe nenhuma parceria firmada e que ainda não sabe se distribuirá o produto.
Fonte: Forum