segunda-feira, 12 de setembro de 2016

"Uma mensagem de perenidade diante da nossa vida breve"

23/05/2016 00:00 - Copyleft

"Uma mensagem de perenidade diante da nossa vida breve"

No mundo retratado por este livro com 32 fotografias, os humanos são tão fugazes que não têm lugar. Fantasmas, apenas surgem nas marcas deixadas


Esquerda.net
Divulgação
No mundo retratado por este livro, os humanos são tão fugazes que não têm lugar. Fantasmas, apenas surgem nas marcas deixadas. Texto da autoria do jornalista Luís Leiria que foi lido na apresentação do livro de fotografias intitulado " À Margem da Vida", de João M. Almeida.
O João Almeida oferece-nos hoje um livro de fotografias sobre margens da vida. São 32 imagens que retratam as bordas do poço em que caímos quando o chão nos foge debaixo dos pés e que testemunham, indiferentes, a nossa passagem pela vida, essa queda constante em busca do momento final em que nos chocaremos com o fundo. A nossa breve existência contrasta com a sua perenidade.

Esta é uma metáfora que o autor usa no texto que dá início ao livro. Mas poderíamos usar outra. A das margens que limitam o fluxo das águas de um rio, que condicionam tudo o que nelas navega, na corrida incessante em direção ao mar. É também destas margens que as fotografias deste livro nos falam, naturezas mortas feitas de objetos do passado, de edificações abandonadas, de construções indefeníveis, de texturas rugosas. Mudas diante do nosso olhar. Ou aparentemente mudas.

Há uma cena do filme “O Abraço da Serpente”, do realizador Ciro Guerra, em que o índio pergunta ao explorador alemão quantas margens tem um rio. “Duas”, responde o europeu, apontando: “aquela e esta, uma, mais a outra, dá duas.” Mas o índio abana a cabeça com ar de reprovação e censura: “Estás enganado. O rio pode ter três margens, quatro, tantas quantas a nossa imaginação conceber”. Quando vi esta cena lembrei-me de João Guimarães Rosa, genial escritor brasileiro, autor do conto “A Terceira Margem do Rio”. É o relato da história de um homem que depois de um enorme desgosto decide passar o resto da sua existência numa canoa no meio do rio, sem nunca regressar às margens, até à morte. Com isso, ele – e o filho, que lhe leva comida e procura convencê-lo a regressar – descobre que existe uma terceira margem.






As margens que João Almeida aborda são múltiplas, tantas quanto a sua imaginação criou, mas têm uma coisa em comum: são “vidas suspensas”, ou “vidas quietas”, possíveis traduções à letra de still life, o termo inglês para “natureza morta”. É curioso que a língua inglesa sublinhe o que tem de vida uma composição de objetos inanimados, enquanto o nosso idioma (e outros), ressaltam o que tem de morte. É a vida suspensa versus a natureza morta. No já citado texto que inicia este livro, o João mostra preferência pela interpretação da língua inglesa. Na minha opinião, com razão.

Porque há vida nas composições de elementos inanimados que as fotografias deste livro nos oferecem. Vida, não apenas no sentido de que, como o autor me dizia, “se voltares a qualquer um destes lugares, vais ver como mudaram, como hoje estão diferentesdestes lugares, vais ver como mudaram, como hoje estão diferentes”. Mas também porque as fotografias deste livro não são meros registos de um classificador; são criações do olhar do fotógrafo, e por isso estão muito, muito vivas.

O fotógrafo português Gerard Castello Lopes disse uma vez que “A fotografia é uma forma de ficção. É ao mesmo tempo um registo da realidade e um auto-retrato, porque só o fotógrafo vê aquilo daquela maneira.” As fotografias de João Almeida exibem instalações industriais abandonadas, escarpas, construções de formas estranhas cujo propósito nos escapa, tornando-se cada vez mais abstratas, até exibirem apenas pedras e superfícies indefinidas que fazem lembrar a pele de um elefante ou uma planície semelhante à superfície lunar.

Vidas suspensas, retratos do passado

Não há verdadeira fotografia sem o olhar do fotógrafo, e é esse olhar que lhe dá vida, é esse olhar que torna a imagem em algo único, uma existência que nasceu no cérebro do autor e que ganhou materialidade na película, e posteriormente no papel fotográfico ativado pelos líquidos revelador e fixador do laboratório de fotografia. Sim, é verdade, não me enganei: o João Almeida fez as fotos deste livro com a velha e boa película, preferiu o analógico ao formato digital.

Mas há também aqui uma ficção. João Almeida mostra-nos de alguma forma o seu próprio auto-retrato, pois cada um dos instantâneos impressos nas páginas do livro carrega uma carga cultural e afetiva que lhe foi outorgada pelo autor. Num dia em que se sentia particularmente triste – na fossa, como se diz no Brasil –, o João decidiu apelar para a fotografia, um hobby que sempre teve o condão de o transportar para outras paragens, para um mundo despojado das mágoas do quotidiano. Desta vez, porém, a melancolia acabou por se refletir na escolha dos alvos que fotografou. O nosso amigo estava com vontade de retratar exclusivamente pedras, cenas inanimadas, imagens sem pessoas. E assim começou este livro, que demorou quatro anos a completar.


Mas as vidas suspensas deste livro, pelo contrário, são retratos do passado. São testemunhos de outras épocas, objetos abandonados que não pereceram, cuja deterioração é lenta, que resistem ao passar do tempo. É como se estivessem a enviar-nos uma mensagem de perenidade diante da nossa vida breve. Nós desapareceremos, mas aquele poste de betão com os ferros da sua estrutura à mostra sobreviverá a muitas gerações de humanos. No mundo retratado por este livro, os humanos são tão fugazes que não têm lugar. Fantasmas, apenas surgimos nas marcas deixadas pelos operários que trabalharam na sala de controlos da mina, ou pelo moleiro que usou a mó para fazer farinha – se for realmente uma mó a pedra circular que aparece numa das fotografias.Há géneros fotográficos que vivem essencialmente do presente. O fotojornalismo, a fotografia de rua, por exemplo, vivem da captação do instante irrepetível, do momento em que determinados factos ocorrem conjugados e são capturados pela objetiva.

Porque o livro tem também uma narrativa. Começa com objetos e lugares abandonados mas identificáveis. Só que as fotografias vão-se depurando progressivamente, até chegarmos a formas de difícil identificação, onde ressaltam quase que só as texturas. Há uma planície pedregosa, com montanha ao fundo, tirada à distância? Ou será o efeito ótico de uma pedra áspera e plana que engana os nossos sentidos? E isso interessa realmente, ou não será apenas importante o sentimento que essa imagem desperta em nós outros, os que apreciamos a criação do prestidigitador João Almeida?

Mas eis que, no final, a surpresa nos aguarda: a última fotografia do livro mostra-nos, em vez de pedras, árvores. Árvores finas, secas, mas com folhas. Árvores vivas. Chegámos ao fim das margens. Voltámos ao mundo da vida.

_________________________________

Quem quiser comprar "À Margem da Vida" pode enviar uma mensagem a solicitá-loparalivrosdojoao@gmail.com. Trata-se de uma edição de autor, numerada e assinada e que custa apenas 15 euros. Se pretender uma dedicatória basta dizê-lo na mensagem.


Créditos da foto: Divulgação




Nenhum comentário:

Postar um comentário