12 poetas do Recife no rádio, por Urariano Mota

Por Urariano Mota*
O projeto nasceu para a Rádio Frei Caneca, emissora pública, que em fase experimental toca música. Eu pensava, e penso ainda, que a poesia pode entrar no rádio como se fosse música nos intervalos das canções. Talvez com um anúncio: “a rádio que toca poesia”.  É possível, desde que o poema seja bem lido e organizado em um ambiente receptivo. Afinal, todo ouvinte é uma pessoa, e toda pessoa é capaz e carente de poesia.
Depois de mais de 2 meses sem resposta,  apresentei o roteiro à Rádio Universitária  99.9 FM, no Recife. Então gravei o texto com a técnica, e o jornalista Roberto Souza lançou a poesia no ar, no programa O Redator Comunitário, por mais de duas semanas. A cada manhã subia um ou uma poeta. Vocês bem podem imaginar o que aconteceu. O ouvinte primeiro teve um espanto, depois um acostumado espanto, e mais adiante a espera dos minutos de poesia.  
Como o projeto não visa lucro ou pagamento autoral,  divulgo a seguir o roteiro dos 12 poetas do Recife. Qualquer rádio do Brasil fique à vontade para usá-lo. O importante é que a poesia sobreviva.
A seguir, a poesia pra tocar no rádio.
12 POETAS DO RECIFE
LOCUÇAO: Ascenso Ferreira
Ascenso Ferreira nasceu em Palmares em 1895, e veio para o Recife aos 24 anos. Aqui escreveu a sua melhor poesia até o falecimento em 1965.  Homem de quase dois metros de altura, glutão a ponto de causar espanto pela quantidade de comida que devorava de uma só vez, Ascenso Ferreira tinha alma de menino, uma ternura e amor pelo seu povo a quem expressou de modo como nenhum poeta brasileiro, ninguém até hoje conseguiu expressar. Como neste poema:
“CINEMA
MAS D. Nina,
aquilo é que é o tal de cinema?
— O homem saiu atrás da moça,
pega aqui, pega acolá,
pega aqui, pega acolá,
até que pegou-la.
Pegou-la e sustentou-la!
Danou-lhe um beijo,
danou-lhe beijo,
danou-lhe beijo!...
Depois entraram pra dentro de um quarto!
Fez-se aquela escuridão
e só se via o lençol bulindo...
........................................
Me diga uma coisa, D. Nina:
        isso presta pra moça ver?!.”
Quem já esteve longe do Nordeste sabe o que a poesia de Ascenso significa, um abraçar e beijar a terra como num feitiço, saboreando os seus versos encantatórios. Mastigando-os, " como um fruto passado". Ruminando-os:
"Babá-do-Arroz-Doce, Sá-Biu-dos-Cuscuz,
'o home dos caranguejo e dos siri!'
Folha verde - Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti..."  
Era ler e ouvir
"A vaca Turina,
o cavalo Cachito,
o burro Manhoso,
o cachorro Vulcão"
Longe da terra, vinham nomes que não eram substantivos, eram idéias e visões claras de um paladar, de um gosto, da falta que faz esse gosto. Daí o sabor da fruta além de madura, "passada". Que diabo a gente veio fazer tão longe? "Eu quero virá arcanfô", gritava-nos Ascenso. E mais cruel, enquanto a gente olhava da janela do apartamento o mundo de outras cidades:
"Meteram uma peixeira no bucho de Colombina
que a pobre, coitada, a canela esticou!
Deram um rabo-de-arraia em Arlequim,
um clister de sebo quente em Pierrô!"
Ascenso Ferreira é o poeta, enfim, que o Brasil inteiro aprendeu a conhecer no Tem de Alagoas
TÉCNICA: Paulo Autran interpreta Trem de Alagoas
Música: Maracatu – Alceu Valença
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LOCUÇÃO: Manuel Bandeira
Manuel Bandeira nasceu no Recife em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro em 1968.  Ele é um  dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Olhem a delicadeza e quintessência de ternura no poema Porquinho-da-índia, que muitos brasileiros também chamam de preá-da-índia:  
“PORQUINHO-DA-ÍNDIA

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada”.
Manuel Bandeira é autor de versos que atingiram aquele estado raríssimo de ir além do gosto da gente culta. Viraram quase uma reflexão, um provérbio. Por exemplo, quando ele escreve e fala: “A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”. Mais de uma vez ouvimos isso, quando nada mais resta fazer.  Outra: “Foi o meu primeiro alumbramento”. Todos apreendemos de imediato o significado, porque o poeta assim nos fala depois de “Um dia eu vi uma moça nuinha no banho/ Fiquei parado o coração batendo”. Assim como também apreendemos pelo poema o sentido de “Vou-me embora pra Pasárgada” – fugir, sumir, buscar abrigo em uma terra utópica de felicidade.
Na  voz do poeta, escutemos “Vou-me embora pra Pasárgada”  
TÉCNICA:
Músicas (a escolher):
O impossível carinho
Testamento
Desencanto 
Belo Belo
Azulão 
Vou-me embora pra Pasárgada 
Cantiga – Pedro Luis e a Parede 
Trem de ferro 
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LOCUÇÃO: Alberto da Cunha Melo
Alberto da Cunha Melo foi poeta, jornalista e sociólogo. Nasceu em Jaboatão em 1942, e faleceu no Recife em 2007. 
Em vida, Alberto da Cunha Melo já era um clássico da nossa poesia. Cultuado nas cidades brasileiras onde há resistência de escritores, ele já se encontrava há muito como o poeta dos poetas independentes de todo o Brasil. A poesia viva do poeta pode ser vista no trecho do seu Oração pelo Poema :

“A cem quilômetros por hora
solto a direção do automóvel
para escrever alguma coisa
mais urgente que minha vida...

Ó meu Deus, eu quero escrever
a minha vida, não teu Céu.
Eu estou só e enlouquecido
como as ovelhas mais longínquas.

Dá pelo menos a esperança
de terminar o doloroso
poema. Dá isso a teu filho,
caído, e coberto de sal...

Senhor, dá-me a palavra brisa,
irmã das fontes, dá-me agora
qualquer palavra que suavize
a minha vida, para sempre”.

Um pouco antes do  falecimento de Alberto da Cunha Melo, vimos esse poeta com a idade de 65 anos, que os amigos ouviam com a voz gasta por milhares de cigarros. Em Alberto da Cunha Melo ninguém enxergava roupas, corpo, cabelos, mas só  os olhos com uma névoa, no  homem que era um clássico. Escutem o seu poema Relógio de Ponto:
“Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas, com o verniz das estrelas”.
Melhor ouvir Lirinha, que interpreta o belo poema de Alberto da Cunha Melo, Cantos Emigrantes. Poesia necessária neste tempo do mundo agitado por ondas de  imigrantes, que dão a face deste século. 
TÉCNICA:
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LOCUÇÃO: Valmir Jordão
Poeta, compositor e performer , nasceu no Recife em 5 de abril de 1961 Participou do Movimento dos Escritores Independentes .
Pode-se dizer que Valmir Jordão vem de uma geração de poetas urbanos, radicais no seu fazer poético, que fazem da poesia morte, vida e profissão.
No enterro do poeta França, um outro grande do Recife independente,  enquanto outros choravam, Valmir se acercou do caixão e, de frente para o poeta negro, fez um recital. Somente para França, em voz alta, como se conversasse na melhor língua que sabe fazer, poesia. Um monólogo cuja força era um diálogo, possível, impossível, real e imaginário. Ali o poeta falou para França da radical opção de suas vidas, na certeza de que razões de viver também são razões de morrer.  
O poeta Valmir Jordão sempre surpreende. De repente, ele pode aparecer com a cabeça rapada, de chapéu e óculos escuros e não será bem uma nova performance. Será um novo personagem, um heterônimo vivo, porque não quer ser um poeta morto.
Valmir Jordão é autor de um poema que hoje corre mundo, tão antológico que virou quase domínio público. Como este:

“Coca para os ricos
Cola para os pobres
Coca-Cola é isso aí”.

É autor, também, de poemas que falam não dos marginalizados, mas como um próprio marginalizado, de consciência poética. Como este aqui, por exemplo:

AH, RECIFE

Dizem os bardos que uma cidade
é feita
de homens,
com várias mãos
e
o sentimento do mundo.
Assim Recife nasceu no cais
de um azul marinho e celestial,
onde suas artérias evocam:
Aurora, Saudade, Concórdia,
Soledade,
União, Prazeres, Alegria e Glória.
Mas nos deixa no chão,
atolados na lama
de sua indiferença aluviônica:
a ver navios com suas hordas
invasoras
e o Atlântico
como possibilidade
de saída...”
TÉCNICA: A cidade com Chico Science
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LOCUÇÃO: Miró
De nome de batismo João Flávio Cordeiro da Silva, o poeta Miró nasceu no Recife em 1962.
Miró, quando recita a sua poesia,  usa a imagem, física,  usa o próprio corpo, porque ele faz evoluções pelo auditório,  como um cantor de rap. Mas sem microfone. E não só. Ele acrescenta caretas, esbugalha os olhos, fecha-os, e aponta os seus versos com um dedo contra a assistência.
A platéia, divertida, sorri, gargalha, diante de versos que não chegam a ser bem cômicos. Como neste qui:
"Tinha lido num livro de auto-ajuda, de um
desses psicólogos
De araque, que aparecem nesses
programas matinais que dão
Receitas pra tudo, inclusive de bolo,
Que na hora que a vida vira uma merda
O melhor é sair da fossa"
Ou nestes versos
"Acho que foi a primeira vez que conheci a dor
Um domingo de 1971
Naquele tempo o domingo era o dia mais
feliz,
Minha mãe fazia um macarrão com carne de
lata e Q-suco
Ficávamos brincando de mostrar a língua
vermelha
Pra provar que éramos felizes...
Norma era tão linda com seus cabelos
negros,
Que me deu um branco aos 11 anos
Quando me pediu um biscoito maizena e um
gole de fratele vita...
Domingo era o dia mais feliz
Antes de Norma beijar um outro na boca"
A graça do poeta Miró, a sua arma é a verdade. Aquelas coisas mínimas, constrangedoras, que nem às paredes confessamos, ele, como um novo louco, arrebenta de si. Mais do que escrever por vezes transcreve. Com uma sensibilidade que observa o inobservável.  Como neste poema belíssimo:
"O amor passou na tarde
Com a mão direita sobre o ombro de um
filho com síndrome de Down...
Aldeota, um jumento espera inquieto a
volta do seu dono que foi tomar uma
sopinha com pão, com o dinheiro das
migalhas que catou.
E eu fiquei tão emocionado,
Que não consegui escrever mais nada".
Enquanto o público, no recital do poeta,  espera dar mais uma risada, ele faz uma prece, um poema que não precisa da pessoa do poeta. Basta uma sensibilidade. Como este aqui:
"Deus, Tu que agora carregas um homem,
Puxando pelas rédeas o seu cavalo e uns
sacos de cimento
De cada lado um sol insuportável...
Deus,
Choves agora no meu coração
Para que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas de balas
E fazer justiça com as próprias mãos".
TÉCNICA
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LOCUÇÃO: Allan Sales
Músico, compositor e poeta. Nasceu no Crato-CE em 1960,  radicado no Recife desde 1969.Dedica-se à música popular e à literatura de cordel e promove eventos poéticos musicais ecléticos na cidade do Recife. Também se dedica ao ensino de violão popular, sendo compositor de música instrumental em violão e viola sertaneja.
Segundo suas informações:
“Estudou violão erudito e compõe desde 1982 peças de música popular. Fez 15 trilhas originais para teatro e recebeu 7 prêmios por esse trabalho. Ganhou em 2002, 2003 e 2005 o CONCURSO DE MÚSICAS CARNAVALESCAS DO RECIFE.
Começou na literatura de cordel em 1997 publicando EPOPÉIA CORDELISTICA DO BRASIL (a História do Brasil em cordel de Cabral a FHC). Em 1999 fez artesanalmente meu primeiro folheto, O TRABALHO DE BRENNAND. Hoje é autor de mais de 700 folhetos publicados pela UNIVERSALES CORDELARIA, a menor editora de cordel do Brasil, pois tem apenas um diagramador, ilustrador, editor e produtor: ele mesmo, Allan Sales”.
O poeta Allan Sales possui  uma cultura que os seus modos de arrebentar tudo, de crítica geral, escondem. Quem o vê como um homem sem conteúdo cultural fortíssimo, muito se engana. Nas suas apresentações como novo menestrel, ou seja, como poeta e músico que anda pelas ruas e cidades, ele abre espaço para a tradição que respeita e à qual se filia. Muitas vezes como um filho renegado. Rebelde. Iconoclasta, essa palavra feia no rádio, iconoclasta, que apenas quer dizer: o sujeito que destrói imagens, símbolos, tudo que cheire a hipocrisia e a tradição burra, enfim. 
Allan Sales é uma usina de criatividade. Satírico, irreverente, de forte consciência política, é capaz de criar em 10 minutos um folheto inteiro. Aqui, Allan Sales em um soneto que possui eco da lírica de Camões:
"Melindrada
Não censures meu jeito rude e bruto
De dizer o que penso tão somente
Iludir é o dom de quem lhe mente
De um modo sutil e tão arguto

Se pro modo servil nunca permuto
É porque aprendi sobrevivente
Neste mundo lupino e decadente
A moral já morreu sem deixar luto

Mas eu digo à luz de uma verdade
De olhar no olhar sinceridade
Expressar o que pede tal momento

Pois no fundo sincero muito gosto
E assim que diante a ti me posto
Ao abrir coração e sentimento”
Na  música que ouviremos agora, Allan Sales reúne habilidade musical e  letra, a falar dos poetas de Pernambuco:
TÉCNICA: Música Galope em Blues
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LOCUÇÃO: Lucila Nogueira
Lucila Nogueira foi  poeta, ensaísta, contista,crítica e tradutora.  Professora da Pós-Graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal de Pernambuco. Nascida no Rio em 1950, deixou o Recife num vou ali e não volto, no Natal de 2016. 
Lucila Nogueira foi mulher generosa, amiga incondicional, professora querida por alunos de várias gerações. Poetisa intensa, de calor humano e rebelde contra os padrões de conformismo, na vida, no modo de vestir, no cotidiano, nos poemas. Mais de um crítico observou que a poesia de Lucila Nogueira movia-se entre a sexualidade mais clara e os níveis mais abstratos da espiritualidade. Falava-se que Lucila Nogueira às vezes possuía a serenidade do lago mais tranquilo até atingir os trovões de uma tempestade.
Como neste poema:
“Se ainda houver amor
Se inda houver amor eu me apresento.
E me entrego ao princípio do oceano.
E se me atinge a onda, úmida eu tremo
esquecida de insones desenganos.
E se inda houver amor eu me arrebento
feliz, atravessada de esperança
e mesmo lacerada inda assim tento
quebrar com meu amor todas as lanças.
E se inda houver amor terei alento
para aguentar o inútil desses anos
e não me matarei, sonhando com o tempo
em que me afogarei no seu encanto.
e se inda houver amor, ah, me consente
ser pasto de tua chama, astro medonho.
E se inda houver amor, eu simplesmente
apago esta ferida do meu sono”.
Lucila Nogueira escrevia do íntimo da mulher até os temas sociais. Mas sempre intensa. Como neste poema:
VÉU DE PIRILAMPO

E eu coloquei meus óculos escuros
contra a mediocridade dos neons
contra a agressão das almas monstruosas
e a crueldade oculta nas manhãs
— na penumbra amnésica anteparo
o cotidiano fogo dos dragões.
E eu ajustei meus óculos escuros
mas vi gente comendo carne humana
crianças assaltando à mão armada
cheirando cola ou sendo trucidadas
enquanto os vaidosos declamavam
a sua dor tão dicionarizada.
E eu saio à rua de óculos escuros
porque me cega a cena da injustiça
porque a lei só legitima a força
descobriu a platéia o fundo falso
do palco onde encerrou-se o último ato
e se esqueceram de fechar o pano.
E eu uso sempre os óculos escuros
porque o mundo é uma faca nas pupilas
trapézio inteiro de arame farpado
sobre a rede de areia movediça
a pele triturada e sem aplausos
prossigo encantadora de serpentes
E eu saio à noite de óculos escuros
porque meu corpo acende nessa hora
meus óculos são véu de pirilampo
me resguardam de dentro para fora
escondem o meu sol subcutâneo
— são a nave em que chego até os homens.
TÉCNICA: O Rappa, Minha Alma
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LOCUÇÃO: Maria de Lourdes Hortas
Maria de Lourdes Hortas nasceu em São Vicente da Beira, Beira Baixa, Portugal em 1940. Com 10 anos de idade, acompanhada da família, veio para o Recife, onde reside até hoje. É poeta, escritora, ensaísta e artista plástica. 
Da sua própria poesia, Maria de Lourdes Horta falou certa vez:
“Quando a poesia me chama,  abstraio-me do tempo e do espaço. Então o  que importa é a urgência da escrita.
Inspiração e transpiração, esses dois ingredientes são quase sempre necessários para que aconteça a química da poesia. Não creio em poesia por encomenda, ou como jogo de palavras. No meu processo de escrita há sempre algo que detona o poema: um sentimento, um som, uma palavra, uma lembrança… Isso seria a inspiração. Depois vem o segundo momento,  a tão decantada transpiração. Enfim: poesia é Arte e, como tal, tem os seus bastidores, a sua oficina. Raramente o poema vem pronto. Mas pode acontecer. Por exemplo, uma vez sonhei com um poema:  acordei, anotei-o  e ficou exatamente como o li no meu sonho”.
Maria de Lourdes Horta é uma poetisa delicada e fina, como nestes poemas:
PEQUENOS ANÚNCIOS
1. Perdeu-se uma alegria:
impossível precisar o instante
e muito menos o ano, o mês ou dia.
gratifica-se a quem a devolver
mesmo danificada:
é bem melhor meia alegria
do que nada.
2. Foi roubada a lua
da noite da minha rua:
implora-se ao ladrão
que a devolva
em mãos.
AQUARELA
Um pássaro veio
pousou no peitoril da varanda
e depois saltou para a haste de uma avenca
onde brincou com o meu deslumbramento.
Na casa
a beleza maior é haver espaço
para a visita gratuita deste pássaro
voo dentro do voo da vida.
TÉCNICA: Canta Passarinho, de Geraldo Azevedo
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LOCUÇÃO: Micheliny Verunschk
Micheliny Verunschk nasceu no Recife em 1972Poetisa e historiadora. Em 2004 foi indicada ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura. Tem trabalhos publicados na França, Portugal, Espanha, Canadá e estados Unidos.
Assim falou Micheliny  Verunschk  do próprio ofício:
“Escrevo poesia porque é inaceitável este mundo legado pela máquina de aniquilações. Escrevo poesia porque resisto e a resistência é própria do movimento das células. Mas isso não é um idealismo, no sentido comum que se dá à palavra "ideal", de devaneio, de inalcançável utopia. É uma visão concreta de mundo, que talvez não pareça eficaz como a força revolucionária que pega em armas (mas que historicamente não pareceu capaz de se contrapor de forma medular ao capitalismo), mas que pretende construir aqui e agora as condições para um novo estado de coisas. É por isso que escrevo poesia. Porque esse mundo que se apresenta não é o bastante e ainda se conforma a uma pauta simultaneamente suicida e assassina. Porque acredito que seja possível o acesso a outra imaginação, a outra criação e possibilidade de vida. É por isso, portanto, que escrevo. E me parece bom que seja assim.”
E assim Micheliny Verunschk  fala da própria alma em forma de poesia:
“naquela antiga carta
eu dizia eu te amo
a frase enxuta
exata e ritmada
que não traduzia
o descompasso
dos meus dias
sem você
ave cega
era o que eu era
o que eu achava
que eu era
ave cega pairando
no céu tão claro
do papel pautado
onde eu dizia
em caneta preta
eu te amo
eu te amo
tão inequívoca
e correta
minhas asas de cera
eu às avessas
naquela carta
antiga carta
aquele voo
em que eu dizia eu te amo
em que meu corpo escrevia
traduzia mal e porcamente
o que eu sentia
eu te amo
era a mensagem
e o pedido
a viagem
e o sentido
mas agora a carta
bem sabemos
você e eu
bússola falhada
não diz
não diz mais nada”
A seguir, ouviremos o seu poema Para Sandra e Cauã musicado: 
TÉCNICA:
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LOCUÇÃO: Cida Pedrosa 
Advogada e poetisa. Nasceu em Bodocó, interior de Pernambuco em 1963. Coordenou o Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco, que promovia recitais de rua e publicações alternativas. Militante comunista, é  autora de poemas traduzidos para o espanhol e francês.
Quem a vê, quem a escuta, não pode adivinhar que na fragilidade física dos seus um metro e cinquenta e seis, articulados em cinquenta e nove quilos, vive uma escritora em que se misturam três pês: poesia, política e partido comunista. Ou como ela fala, numa entrevista:
“O que é mais fundamental pra mim, o que me decidiu pra essa saga de escrever, que é uma coisa muito doída, porque só sabe a dor de escrever quem é escritor, é muito doloroso. Eu acho que a dor do outro é a dor da humanidade, a divisão de classes, isso pra mim foi o que sempre me moveu. É tanto que a minha literatura inicial ela chega a ser quase panfletária, depois é que tomo o meu rumo. Mas ninício eu queria tanto ser braço dessa dor, sabe?.. quando cheguei no Recife vi montanha de cegos, de mendigos, uma horda na verdade, uma horda de pessoas sem nada. Eu acho que isso rachou minha cuca e meu coração. Eu acho que isso foi fundamental. Aí eu começo a escrever pra não enlouquecer..”
Ou como Cida Pedrosa fala na poesia:
“Não te direi o simples convite
Pois o meu corpo é dúvida
Cavalga em mim as incertezas
É dessa matéria a minh’alma

Há muitos anos curvas e círculos me habitam
Não te direi poesias de amor
Nem cantarei canções desesperadas
Mas se quiseres trago no peito o cheiro das estações
Na língua a infâmia dos oprimidos
Enfim, eu tenho o colo em chamas
Para fazer morada.”
E aqui na bela poesia Milena:
“gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite

é a única voz soante
nesta cantina de repartição

onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril

sem a voz de milena
o café desce amargo “
TÉCNICA:
Geni e o Zepelim 
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LOCUÇÃO: Lenilde Freitas          
Lenilde Freitas nasceu em Campina Grande, Paraíba. Fez Mestrado em Teoria da Literatura pela UFPE e especializações em poesia pela Universidade Vanderbilt (EUA). É poeta e tradutora.
Sobre a poesia de Lenilde Freitas, o crítico Artur A. de Ataíde l destacou  os encantos da sua poesia,  apresentando as três razões pelas quais a obra pode ser prazerosa: a música, pela delicadeza do verso que não se seduz pela métrica; pela precisão do discurso e; por fim, por esta autora encarar não apenas a poesia pelo projeto verbal, mas, sobretudo, pelo projeto existencial. 
Como nestes poemas:
AQUÁRIO

O amor em mim
está maduro como um peixe.
De tanta água repleto,
ele não nada.
Pesado cochila sob pedras
— completo.  
O mascate 

Pelos bairros, pelas ruas
pelos becos do Recife
o homem passava sempre
vendendo quinquilharias.
Fitas, linhas e colchetes
agulhas, elásticos, botões
caixa de grampos, alfinetes.
Brandindo sua matraca
passava dia após dia
gritando alto bem alto
pelas ruas da cidade.
Lá vem o homem passando
pela Rua da Saudade
TÉCNICA: Música “No cordão da saideira” com Edu Lobo, de Edu Lobo
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LOCUÇÃO: Jussara Salazar
Jussara Salazar é poeta e artista visual. Nasceu no Recife em 1959. Publicou “Inscritos da casa de Alice” (1999), “Baobá, poemas de Leticia Volpi”, (2002), “Natália” (2004), “Coraurissonoros” (Buenos Aires, 2008), “Carpideiras” (2011) com a Bolsa Funarte, ficando entre os 20 finalistas do Prêmio Portugal Telecom na edição de 2012, e O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas” (2014).

Tem sua obra publicada em diversas revistas e traduzida para o inglês, o espanhol e o alemão. É doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/São Paulo e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná.
Sobre ela falou o crítico Pedro Serra:
“É verdade tudo o que a poesia toca.  Tudo o que os poemas de Jussara Salazar tocam, vive”. Escutem a poesia trabalhada de Jussara Salazar neste poema:
FIA AO REVÉS
[Da nascente do Capibaribe no Sítio Araçá]
“oh santa rosa de todos os dias
as tuas paredes
teu chão de histórias e brisas
de folhas e da ferrugem dos barcos
os barcos todos que passam por teu horizonte
[e teu cais roçando leve
o cascalho das águas]
as tuas marcas
a tua pátina
e as vozes do tempo

oh santa fia que costura a terra ao mar
teus mistérios gozosos
teus mistérios dolorosos
teus mistérios gloriosos
teu cais hoje dilacerado
teu rosário antes de pretos e putas
cortado por ruas e estrelas
teu signo de salomão
tuas cinco pontas
tua linha de pedras árabes mouras
todas as linhas de teu horizonte
tapúia minha tapúia, tapúia de canindé

oh santa dos homens e das mulheres
dos trens carregados de sementes negras
derramando seus unguentos
espalhando o ouro negro de teu melaço
escuta o lamento e as loas
e no teu próximo pôr-do-sol derramai versos
sobre o chão de pedras e mato
pois não queremos te deixar
quem tem dá?
areia no mar
e esse povo que tanto chora
é pankará que vai embora
TÉCNICA: Clementina de Jesus