sábado, 10 de maio de 2014

BLOGS & COLUNAS

Rubens Nóbrega

A coluna é basicamente uma crônica política, que se diferencia da análise política clássica por não se prender ao factual nem à ordem ou pauta do dia. Contato com o colunista: rubensnobrega@uol.com.br

Desmonte agropecuário

Cedo espaço mais uma vez ao Professor Antônio Carlos Melo para que apresente fundamentada crítica e justificada revolta diante do que considera “desmonte do setor agropecuário da Paraíba”, algo que teria se agravado, contraditoriamente, no governo de quem prometeu em campanha promover uma ‘revolução no campo’. Adianto que solicitei ao governador Ricardo Coutinho, por i-meio e twitter, posicionamento acerca do conteúdo reproduzido a seguir. Pra variar, nenhuma resposta.
***
Prezado Rubens, na qualidade de ex-Secretário Executivo do Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável (CEDRS-PB), quero registrar através de sua coluna a minha mais profunda indignação com o desmonte do setor agropecuário do Estado, mesmo tendo o atual governo prometido fazer uma revolução no campo. Esse órgão, criado por decreto em 2000 e reformulado em 2005 para incluir bem mais entidades representativas do setor rural, já em 2006 era considerado o melhor do país pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (Condraf).
O CEDRS assumiu o acompanhamento de todas as ações de desenvolvimento do campo, a exemplo do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), Garantia Safra, Programa de Assistência Técnica (inclusive com o cadastramento de todos os técnicos envolvidos), Programa de Crédito Fundiário, Programa de Aquisição de Alimentos e Pronaf Infraestrutura Territorial, além de ter encaminhado a reformulação e capacitação de todos os conselhos municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável, que funcionavam em condições precárias. Essas ações tiveram impacto bastante positivo em todos os 223 municípios paraibanos.
Lamento dizer, mas digo que o Conselho também foi atingido pelo desmonte. Neste 2014 não se reuniu uma vez, apesar de seu regimento exigir pelo menos uma reunião ordinária a cada 60 dias e tantas extraordinárias sejam necessárias. O desmonte a que me refiro teve início em 2011, quando se observava nitidamente a desmotivação de seus conselheiros, por falta de compromisso de um governo que só promete e pouco realiza em favor daqueles que vivem e sofrem no campo. Para que fique bem claro que não estou fazendo apenas denuncismo, é bom consultar algumas entidades participantes do Conselho – Fetag, Faepa e Incra, entre outras – e comprovar que nos últimos tempos a participação dos conselheiros tem sido pífia.

Milagre em Paris

O mesmo cidadão que expõe o esvaziamento do CEDRS encaminhou-me uma segunda mensagem na qual manifesta imensa surpresa diante da informação de que o Governo do Estado estaria para enviar representante a Paris e lá receber certificado de área livre de aftosa com vacinação do rebanho bovino e bubalino paraibano. “Apesar de ser uma ótima notícia, não consigo entender como ocorreu esse milagre, tendo em vista que o Ministério da Agricultura, entre outras coisas, exige uma cobertura vacinal do rebanho de pelo menos 90%, fato nunca registrado na história da Defesa Agropecuária da Paraíba que, todos sabem, vem sofrendo desde muito tempo um verdadeiro desmantelamento, principalmente em razão da falta de pessoal, embora existam pessoas classificadas em concurso na área que ainda não foram nomeadas”, comentou.

Sem fiscalização
Antônio Carlos informa também que o Serviço de Inspeção Estadual (SIE) há tempo não realiza qualquer fiscalização de produtos de origem animal porque dispõe de reduzido quadro de servidores para cobrir toda a Paraíba. Como se fosse pouco, “no mesmo setor existe desde 2007 uma van equipada com laboratório de análises que funcionou não mais do que três meses em 2011; hoje, vive encostado no Parque de Exposição de Animais, em João Pessoa, sede da Defesa Agropecuária”, denuncia. Lamenta, por último, que unidades de sanidade animal, instaladas em municípios estratégicos feito Sapé, há muito não têm médico veterinário. “Outro triste exemplo são os postos de defesa instalados nas divisas de Estado, que se encontram sucateados e também com falta de pessoal, com funcionamento muito precário”, acrescenta.

Perdão, Deputada

Cometi imperdoável erro de digitação na coluna de ontem (‘RC daria um show na CPI’) ao me referir à Deputada Daniella Ribeiro, a quem tenho respeito, apreço e rogo, com toda sinceridade d’alma e do coração, mil perdões por eventuais transtornos ou constrangimentos causados à sua imagem.

Diga aí, Professor
A política paraibana é a mais profunda incoerência. Tem de tudo, menos Ética. Não há uma única (desculpem o pleonasmo) discussão sobre políticas públicas ou projetos estruturantes. Ninguém discute a seca (o el Niño está retornando e agravará a situação no segundo semestre), o caos na Saúde e na Segurança (aliás, o titular da Pasta é tão incompetente que deveria ser chamado de Secretário da Violência), indicadores ínfimos da Educação, ausência de política agrícola e agrária... O que nós assistimos? Partidos e políticos andando com placa de ‘Vende-se’ ou ‘Aluga-se’. Negociatas feitas exclusivamente em cima de interesses financeiros, cargos e poder (o poder pelo poder). Eis um filme cujo título deveria ser ‘A Paraíba sem Futuro’. NEGO essa Vergonha.
(Texto do Professor Dimas Lucena).

segunda-feira, 5 de maio de 2014

"Bonnie e Clyde" retrata casal de sociopatas

'Bonnie e Clyde' retrata casal de sociopatas
O slogan publicitário da minissérie Bonnie & Clyde, que o History Channel reprisa no sábado, 09, revela de forma precisa sua abordagem da vida do casal de bandidos mais famoso da época da Depressão americana: "Quando ninguém tinha nada, eles arriscaram tudo". A história real, inclusive. Um dos produtores executivos da minissérie, Craig Zadan, fornece as pistas para entender as razões de Bruce Beresford, o diretor da minissérie, ter inventado uma Bonnie e um Clyde diferentes dos bandidos reais ou dos personagens criados pelo cineasta Arthur Penn no clássico homônimo de 1967. Zaidan define Bonnie Parker como a "primeira reality star" - ou seja, uma dessas garotas de reality show sem grande talento ou habilidade, à espera de que a celebridade a salve da vida medíocre.
Dito assim, pode parecer que a nova adaptação da história dos proscritos texanos Bonnie Parker (1910-1934) e Clyde Barrow (1909-1934) não compense as quatro horas da duração da minissérie. Ao contrário. Seria um exagero afirmar que ela seja tão boa como o filme de Arthur Penn, até mesmo porque o clássico dos anos 1960 teve melhores roteiristas (David Newman e Robert Benton) e nenhum erro na seleção do elenco, o que não se aplica à minissérie de Bruce Beresford (o diretor de Conduzindo Miss Daisy).

No entanto, há uma tentativa - ainda que mínima - de ser fiel à história da dupla de bandidos por parte de Beresford, o que não se pode dizer dos roteiristas do clássico de Penn, empenhados em acentuar o lado outsider da dupla. Glamourizando a marginalidade de Bonnie e Clyde, a produção e o roteiro de Newman e Benton levaram o filme de Penn à lista do Oscar e das melhores bilheterias de Hollywood - o filme foi um estrondoso sucesso, lançou moda e fez até a dupla Brigitte Bardot e seu namorado Serge Gainsbourg gravar uma balada em tributo aos criminosos.

O ponto de partida do clássico de Penn e da minissérie de Beresford não é o mesmo. Penn preferiu o caminho da investigação psicológica. Beresford, o da pesquisa sociológica, concluindo que a dupla de jovens bandidos - Clyde morreu aos 25 e Bonnie, aos 24 anos - era formada por sociopatas perigosos. Clyde, particularmente, era um sociopata incapaz de estabelecer uma relação amorosa por causa de sua impotência. O filme de Penn trata diretamente do assunto, ao colocar o motorista da gangue, C.W. Moss (Michael Pollard), como um possível amante dos dois. Já Beresford preferiu ignorar a sexualidade ambígua de Clyde, tratando-o como garanhão - o que, evidentemente, estava longe de ser.

Isso faz a diferença quando se pergunta a razão de Bonnie ter permanecido ao lado de Clyde quando descobriu sua impotência. Nesse ponto, Penn e Beresford concordam: Clyde buscava no poder de fogo das armas uma compensação para sua pistola disfuncional. Bonnie, autocentrada, via nessa fantasia de poder um espelho para quem fracassara na tentativa de ser uma atriz em Hollywood.

Beresford faz dela uma obcecada pelo poder da mídia promíscua, o de transformar simples bandidos em celebridades (após a morte da dupla, o xerife Frank Hamer, que orquestrou a emboscada final da dupla, vendeu vários objetos pertencentes aos dois, entre eles o saxofone de Clyde, o que comprova a fetichização do crime pela sociedade americana).

Cruzando satisfação sexual com violência, traço comum aos sociopatas, a dupla estabelece não uma relação de cumplicidade, mas de compromisso com os fetiches da Depressão americana - como os carros da Ford ou metralhadoras giratórias Thompson. Afinal, como justificou a ensaísta Liora Moriel, é bem mais fácil para um psicopata se relacionar com objetos do que pessoas. Clyde podia ser impotente, mas entendia um bocado de carros e armas, exibia o vigor de um ex-presidiário (ainda que estuprado na prisão) e impressionava a impiedosa Bonnie, que trocou a paixão física pela excitação de roubar bancos - e o prazer de matar, segundo a minissérie, que mostra a frieza com que abate a tiros um policial na cabeça e um pai de família no rosto.

O diretor Beresford faz de Bonnie uma espécie de Lilith, a encarnação feminina do demônio da tradição judaica, a serpente que teria provocado a expulsão de Adão do paraíso. É um pouco injusto. O fato é que Clyde já era bandido antes de conhecer Bonnie/Lilith, um ladrão de galinhas criado nas favelas urbanas de West Dallas. Pode ser que Bonnie, garçonete casada aos 16 anos, descendente de alemães e boa aluna na escola, identificasse em Clyde um sujeito iletrado pronto a ser dominado por uma aspirante a poeta e atriz. O fato é que, ao incorporar o dom da premonição ao personagem de Clyde, Beresford exagera, assim como ao transformar o bandido no narrador da história. Prevalece a voz de um morto, o que não é bom para a história. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Contas RC: porque tem que reprovar

Rubens Nóbrega




















A coluna é basicamente uma crônica política, que se diferencia da análise política clássica por não se prender ao factual nem à ordem ou pauta do dia. Contato com o colunista: rubensnobrega@uol.com.br




















Contas RC: porque tem que reprovar

Nem a milionária propaganda financiada com dinheiro público nem o recorrente discurso do autoelogio de Ricardo Coutinho conseguem encobrir o descalabro administrativo agravado pela incompetência que emerge da análise das contas do governador. A imagem de governante sério e operoso vendida por uma avassaladora (alguém aí disse ‘tsunâmica’?) campanha publicitária não resiste a um simples cotejo com a realidade da Paraíba. Muito menos a uma auditoria da qualificada e percuciente equipe do Tribunal de Contas (TCE), como aquela que passou um pente-fino na execução orçamentária do Estado no segundo ano do Ricardus I.
Tanto é assim que apenas um dado bastaria para justificar a reprovação das contas do governador pelo próprio Tribunal e, muito mais, pela Assembleia Legislativa: naquele período, a gestão comandada por Ricardo Coutinho aplicou pouco mais de 20% da receita líquida do Estado na manutenção e desenvolvimento do ensino. Pior: no desespero para tentar fechar a conta dos 25% (mínimo fixado pela Constituição da República em seu art. 212), o governo valeu-se até de gastos com o ensino superior que, como todo mundo sabe, é atribuição da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), detentora de autonomia administrativa, financeira e orçamentária (apesar do esforço de Ricardo Coutinho para acabar com tal prerrogativa da instituição).
Mesmo assim, mesmo juntando as despesas com o terceiro grau (que foge à esfera de competência do Estado, que deve cuidar prioritariamente do ensino fundamental e médio, conforme também manda a Constituição), ainda assim o governo não conseguiu atingir o piso de gastos com a educação. De acordo com os auditores do TCE, mesmo com todo o malabarismo contábil empreendido o que o governo de Ricardo Coutinho destinou à manutenção e desenvolvimento do ensino chegou a pouco mais de 24% da grana que arrecadou com impostos e transferências federais. Tirando o ensino superior da parada, o percentual baixa à casa dos 20%.

Parecer do MP é pela reprovação
No parecer defendido diante dos conselheiros do TCE, em 27 de janeiro deste ano, quando do julgamento das contas 2012 do governador, a Doutora Elvira Samara Pereira de Oliveira, Procuradora-Geral do Ministério Público de Contas da Paraíba, firmou o entendimento segundo o qual a falha apurada pela Auditoria (insuficiência de recursos para educação) não lhe deixou alternativa a não ser emitir “parecer contrário à aprovação das presentes Contas de Governo”. Detalhando o que os auditores encontraram na prestação de contas do chefe do Executivo, a Procuradora-Geral do MP/TCE ressalta que “mesmo incluindo os gastos com a educação superior, para fins de limite em Manutenção e Desenvolvimento do Ensino – MDE, o percentual representou apenas 24,22% da receita de impostos e transferências, não cumprindo o mandamento constitucional”. Ainda citando trechos do relatório de auditoria, ela revela que “a participação do ensino superior no bolo da aplicação mínima dos recursos de impostos e transferências leva uma significativa parcela desses. Para se ter ideia precisa dessa participação, (...) verifica-se que, no exercício de 2012, excluindo-se o valor referente às despesas com educação superior (R$ 200.587 mil) realizadas com recursos do tesouro (...), o percentual de aplicação na manutenção e desenvolvimento do ensino atinge apenas 20,83% da receita líquida de impostos e transferências, no presente exercício”.

Até obra de arte incluída no ‘bolo’
Outra revelação curiosa que se extrai do relatório de auditoria e do parecer do MP/TCE diz respeito à inclusão entre as despesas com educação de uma obra de arte (para enfeitar uma Central de Aulas) que o governo tentou ‘empurrar’ nas contas para alcançar os 25% que efetivamente não aplicou em manutenção e desenvolvimento do ensino. A esse respeito, a Procuradora-Geral lembra que nos termos do art. 70 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, a LDB, manter e desenvolver o ensino significa promover e garantir na prática o Direito à Educação, gastando o dinheiro do povo na remuneração e aperfeiçoamento dos professores e na compra de material didático-escolar e não em ‘obra de arte’. Segundo a Doutora Elvira Samara, além de indevida a absorção do ensino superior ministrado por instituição estadual, nessa matéria também não há “a mínima possibilidade de inclusão de gastos desconectados com a efetividade do desenvolvimento do ensino público”.

TSE: ato doloso de improbidade

Em julgamento realizado no mês de novembro de 2012, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve decisão do TRE paulista que indeferiu o registro de candidatura de José Luiz Rodrigues ao cargo de prefeito do município de Aparecida (SP). O alcaide foi enquadrado na Lei de Inelegibilidades (Lei Complementar 64/1990), modificada pela Lei da Ficha Limpa (LC 135/2010), e considerado inelegível porque aplicou em educação, em vez dos 25% determinados pela Constituição, apenas 22,85% da receita de impostos e do que recebia do Governo Federal. Com isso, ele teve contas rejeitadas por ‘irregularidade insanável’. O que ele fez configurou ‘ato doloso de improbidade administrativa’. Pelo que está no relatório de auditoria e parecer do MP/TCE, Ricardo Coutinho fez a mesmíssima coisa por aqui, em 2012. Dizendo de outro modo, não fez o mínimo que deveria fazer pela educação pública sob sua responsabilidade. Bem ao contrário do que dizem sua miliardária publicidade ‘institucional’ e sua impagável retórica autopromocional. 

sábado, 3 de maio de 2014

Governando para os ricos

Rubens Nóbrega























A coluna é basicamente uma crônica política, que se diferencia da análise política clássica por não se prender ao factual nem à ordem ou pauta do dia. Contato com o colunista: rubensnobrega@uol.com.br























‘Governando para os ricos’

Deixou-me estarrecido uma coisa que li no mais recente Fisco em Dia, boletim do Sindicato dos Auditores Fiscais do Estado da Paraíba (SindifiscoPB) publicado aos domingos neste jornal. Na edição válida para a semana de 17 a 23 deste fevereiro, sob o título que dá título à coluna de hoje, a entidade denuncia que “para agraciar grandes empresas, o governador Ricardo Coutinho (PSB) abriu mão de arrecadar, através de renúncia fiscal, aproximadamente R$ 5 bilhões”.
A denúncia é grave, muito grave, gravíssima. Tanto pela montanha de dinheiro envolvido quanto pela credibilidade do denunciante: nada menos que o sindicato representativo de uma categoria de servidor que tem como missão principal justamente, precisamente, a arrecadação de impostos que formam a principal fonte de receita do Estado da Paraíba. Para ter uma ideia mais abrangente do que essa renúncia fiscal representa para os cofres públicos, fundamental reproduzir o complemento do texto do SindifiscoPB. Confiram:
- Enquanto prioriza benesses e regalias aos grandes empresários, para o pequeno empreendedor, através do programa Empreender-PB, o governo investiu menos de R$ 50 milhões, equivalente a cerca de 1% do prejuízo ocasionado com a renúncia fiscal. Esse é o governo voltado para os ricos e de costas para a Paraíba e para as classes menos favorecidas. Por essas e outras, a Paraíba vive hoje um completo atraso.

Motivos de sobra para romper
Se o senador Cássio ainda estiver procurando motivos para justificar o rompimento da aliança com o governador, vai uma dica: eles são facilmente encontráveis no embate da realidade da Paraíba com a milionária propaganda bancada pelo erário para vender a imagem do chefe como o governante mais operoso e realizador da história. Basta ver o que aconteceu nos últimos três anos com a educação, a saúde, a segurança pública... Que obras, programas ou ações de governo resultaram em melhoria efetiva, palpável, mensurável da qualidade de vida do povo paraibano ou da própria qualidade dos serviços públicos de responsabilidade do Estado?

Até se o comércio vende mais...
Como se não bastasse divulgar como suas inúmeras obras que recebeu projetadas, com recursos assegurados e em caixa, outras já iniciadas, em andamento, licitadas e até concluídas por antecessores, o nosso governador não se peja de assumir como seus resultados alheios ao próprio poder público. Outro dia, por exemplo, Sua Majestade referiu-se a crescimento sazonal do comércio varejista ou do nível de emprego como se fosse realização de seu governo, como se nada disso tivesse a ver com a iniciativa privada paraibana e a fatores conjunturais de alcance nacional que por óbvio respondem pelo crescimento, mesmo pouco ou insuficiente, do Brasil como um todo.

A conta dos R$ 6 bi não fecha

Não admira que o nosso soberano insista em convencer a população de que ele, a excelsa pessoa dele, e não o Estado, com o dinheiro do contribuinte, estaria investindo R$ 6 bilhões na Paraíba. Já mostrei mais a de uma vez que a soma não bate com informações fornecidas pelo próprio governo. Ao Sagres, por exemplo, que é a ferramenta do Tribunal de Contas do Estado (TCE) onde estão armazenados os números de receitas, despesas e aplicações do dinheiro público confiado ao governador e aos prefeitos. E agora, corroborando dados e argumentos do colunista, temos “a palavra mais certa pra doutor não reclamar”, da fonte mais gabaritada para cuidar do assunto. Trata-se mais uma vez do SindifiscoPB, que no seu último Fisco em Dia publicou também a nota a seguir reproduzida.

‘Mentindo com dinheiro público’

“Desde o início da atual gestão, em 2011, o governo Ricardo Coutinho (PSB) gastou mais de R$ 100 milhões do dinheiro público divulgando mentiras, na tentativa de enganar a população sobre investimentos na Paraíba. O governador Ricardo Coutinho insiste em propagandear que investiu R$ 6 bilhões em sua gestão, quando a verdade é que de acordo com o Sistema Sagres do Tribunal de Contas da Paraíba, o investimento com recursos do Estado foi da ordem de R$ 1,34 bilhão, ou seja, pouco mais de R$ 440 milhões por ano, muitíssimo abaixo das necessidades do Estado e do alardeado pelo governador. Quem investiu algo parecido com o que diz a propaganda do Governo do Estado foi o Governo Federal, com recursos da ordem de R$ 6,4 bilhões, não aplicando mais na Paraíba devido à incompetência da gestão estadual em apresentar projetos”. (Do Fisco em Dia nº 8, Ano XVII, disponível em sindifiscopb.org.br).

Vitória dos procuradores no TJ
Os procuradores de carreira do Estado venceram ontem mais uma batalha importantíssima na guerra que travam em defesa de suas prerrogativas. Graças a uma ação ajuizada pela Aspas, a associação representativa da categoria, o Tribunal de Justiça da Paraíba reconheceu por unanimidade a inconstitucionalidade de dispositivo de lei complementar que regulamenta a estrutura da Polícia Militar do Estado e permitia atribuir a comissionados competências típicas dos procuradores efetivos. Com isso, além de decretar a extinção da Procuradoria Jurídica da PM, o TJPB desmontou mais um cabide de emprego onde desde 2008 os nossos governadores costumam pendurar afilhados políticos ou cabos eleitorais que tenham diploma de bacharel em Direito. 

A HUMANIDADE NA BEIRA DO ABISMO

A HUMANIDADE NA BEIRA DO ABISMO
Miguel Urbano Rodrigues
A Humanidade está sendo empurrada para a beira do abismo. Desde a chamada crise dos mísseis, em 1962, nunca foi tão transparente o perigo de uma guerra que poderia levar à sua destruição. A responsabilidade cabe ao imperialismo e prioritariamente ao sistema de poder dos Estados Unidos, a potência que o hegemoniza, aspirando à dominação planetária.
O foco da crise localiza-se hoje na Ucrânia. Partidos e organizações neofascistas instalaram-se no poder em Kiev com o apoio e o aplauso de Washington e da maioria dos governos da União Europeia.
Após os acontecimentos da Crimeia, a campanha contra a Rússia intensificou-se, assumindo uma amplitude extraordinária. Sucessivos pacotes de sanções, aprovados pelo presidente Obama e pelos seus aliados europeus, atingiram aquele país, acusado de crimes que não cometeu e de mirabolantes projetos agressivos. São, aliás, sanções inéditas que visam personalidades e empresas, tão absurdas que Putin as qualificou de "repugnantes".
Na ofensiva em curso, Obama e aliados repetem diariamente que é preciso "travar a Rússia" porque ela se prepara para invadir a Ucrânia e anexar as suas províncias do Leste, maioritariamente russófonas, que exigem uma maior autonomia. Mas não apresentam provas dessas supostas intenções.
Um gigantesco coro desinformativo, montado pela grande mídia internacional, funciona como complemento da campanha anti-russa. Cadeias de televisão, jornais e rádios do Ocidente fazem a apologia dos "governantes democratas de Kiev" e apresentam como bandoleiros e terroristas os grupos armados que não lhe reconhecem legitimidade.
Cabe lembrar que o Parlamento de Kiev exibe com despudor a sua simpatia pelo fascismo, debatendo um projeto que suprime o feriado do 9 de Maio, comemorativo do "Dia da Vitória" que assinalou o final da Segunda Guerra Mundial, após a tomada de Berlim pelo exército vermelho.
Neste contexto explosivo, a OTAN já reforçou o seu dispositivo militar na Polônia e enviou para ali aviões de combate.
O atentado contra o presidente da Câmara Municipal de Kharkov, favorável à autonomia das províncias russófonas, inseriu-se na série de ações terroristas promovidas por bandos de arruaceiros, armados e financiados por organizações ocidentais.
Michel Chossudovsky revelou pormenores chocantes da intervenção militar indireta dos EUA no sudeste ucraniano. Segundo ele, uns 150 mercenários norte-americanos da empresa dita de "segurança" Greystone Ltda., com sede em Barbados, semeiam a violência no território, com o objetivo de semear o caos. Sergei Lavrov, o ministro dos Estrangeiros da Rússia, confirmou a informação.
Os governos da Polônia e das repúblicas bálticas lançam achas na fogueira, empenhados em empurrar os EUA para um choque frontal com a Rússia.
Não é de estranhar que a extrema-direita europeia acompanhe com entusiasmo o agravamento da crise. Segundo as últimas sondagens, os partidos neofascistas da França, da Inglaterra, da Holanda, da Áustria, da Suécia, da Itália e da Bélgica serão beneficiados nas próximas eleições para o Parlamento Europeu pela atmosfera de violência que envolve a crise ucraniana. O secretário-geral cessante da OTAN, cão de guarda do imperialismo, aprofundou o seu discurso bélico.
Nunca desde 1962, repito, o perigo de uma guerra, que seria uma tragédia para a Humanidade, foi tão real. A angústia das populações russófonas do sudeste ucraniano é compreensível. Mas os seus apelos à solidariedade da Rússia não ajudam a resolver a crise. Pelo contrário.
Não creio também que seja positivo o alarmismo de prestigiados intelectuais anti-imperialistas - James Petras e Paul Craig são dois exemplos - que admitem já a iminência de uma terceira guerra mundial, com recurso eventual a armas nucleares.
Do imperialismo norte-americano pode-se sempre esperar o pior. O desenvolvimento e o desfecho da explosiva situação criada na Ucrânia são imprevisíveis. Mas a força mais poderosa capaz de impedir uma guerra apocalíptica é a luta dos povos em defesa da Paz.
Somente milhões de homens e mulheres tomando as ruas em dezenas de países para condenar a guerra podem contribuir decisivamente para conter a loucura imperialista.
Tomar consciência dessa realidade é muito difícil. Esbarra com tremendos obstáculos. Mas é uma exigência de defesa da Humanidade.
*Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor português, editor de O Diário.info

sábado, 19 de abril de 2014

Brasil exportou para o Chile técnicas de tortura

Do Boletim Semanal do Sen. João Capiberibe

         Brasil exportou para o Chile técnicas de tortura


É o que apontam depoimentos de ex-exilados brasileiros ouvidos nesta segunda (14) no Senado. Um deles definiu o consulado do Brasil no Chile como “covil de torturadores”. Subcomissão, presidida por João Capiberibe (PSB-AP), pedirá ao Ministério da Defesa e ao Itamaraty lista de oficiais e diplomatas que serviram à época naquele país.
Veja a reportagem da TV Senado: http://bit.ly/1m7s80W

 [Leia na íntegra a matéria da Agência Senado]
Brasileiros vítimas de tortura no Chile reclamaram da omissão das autoridades diplomáticas nacionais e alertaram para o fato de agentes do Brasil terem ensinado técnicas de tortura e interrogatório aos chilenos. Os ex-presos políticos foram detidos no Estádio Nacional, em Santiago, transformado em campo de concentração de prisioneiros políticos após o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende, em 1973. Eles participaram, na manhã desta segunda-feira (14) de uma audiência da Subcomissão da Memória, Verdade e Justiça do Senado para esclarecer ações ilegais de integrantes da polícia política brasileira.
Segundo os convidados, após o golpe no Chile, uma das primeiras providências dos militares foi perseguir estrangeiros, que passaram a ser considerados inimigos do regime, inclusive aqueles que não estavam ligados a nenhuma atividade política.
– Temos informações de que o Ministério das Relações Exteriores e a embaixada brasileira sabiam da situação, só que eles estavam atrelados à ditadura e não à proteção de seus cidadãos. Eles estavam lá para ensinar os chilenos a torturar. Entre os brasileiros presos, havia pessoas que não tinham nada a ver com atividade política e não receberam atenção nenhuma do governo brasileiro – afirmou o ex-preso e advogado Vitório Sorotiuk, que entregou à Subcomissão um documento do Ministério das Relações Exteriores com uma lista de nomes de torturados no Estádio Nacional.
- Se alguém ainda tem dúvidas a esse respeito, basta assistir ao documentário da diretora chilena Carmen Luz Parot, intitulado Estádio Nacional, de 2002, em que ela revela que os verdugos chilenos receberam a assessoria de militares brasileiros. E essa assessoria não foi apenas para ensinar como é que se torturava. Eles também levaram equipamentos elétricos de tortura que não existiam no Chile – relatou Vitório.
O presidente da Subcomissão, senador João Capiberibe (PSB-AP), disse  que vai apresentar requerimento ao Ministério da Defesa solicitando os  nomes de todos os oficiais das três armas que estiveram no Chile naquele  período e também para o Ministério das Relações Exteriores, com os  nomes de diplomatas e cônsules que atuaram na época. Na opinião dele, as Forças Armadas precisam reconhecer seus erros e pedir desculpa à sociedade brasileira.
A  deputada Janete Capiberibe (PSB-AP) afirmou que Chile, Argentina e  Uruguai, ao contrário do Brasil resgataram a verdade e não absolveram os  criminosos ditadores. Ela pediu a mudança na Lei da Anistia, editada em  1979 para perdoar crimes políticos cometidos entre 1961 e 1979, período  que inclui a ditadura militar.
Antro
Depois de narrar seu sofrimento, outra vítima da tortura, Ubiramar Peixoto de Oliveira, classificou o consulado brasileiro no Chile de um “antro e covil de torturadores”. Já Tomás Togni Tarqüinio disse que o mais trágico foi que as prisões no Estádio Nacional foram a primeira cooperação internacional de tortura e repressão.
– Apenas a ditadura brasileira teve esse papel de enviar policiais brasileiros para interrogar e torturar e ensinar os chilenos esse tipo de prática – afirmou.
Os perseguidos políticos pediram a investigação da atuação das embaixadas e consulados no regime militar.
Zuzu
O senador Capiberibe lembrou que em 14 de abril de 1976 (há exatos 38 anos) morreu num acidente de carro a estilista Zuzu Angel, cujo filho havia sido assassinado pela ditadura cinco anos antes.
– A versão do acidente só foi desmentida em 1998, até então ela criara muitos embaraços à ditadura – afirmou ele.
A deputada Janete Capiberibe acrescentou que os jovens que não viveram a repressão precisam saber do que ocorreu na época para que erros do passado não sejam novamente cometidos.
Resgate
Instalada em abril do ano passado, a Subcomissão Permanente da Memória, Verdade e Justiça funciona no âmbito da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado, com o objetivo de resgatar os fatos ocorridos durante o regime militar (1964-1985) e contribuir para a Comissão Nacional da Verdade, instalada pelo Executivo.
Também relataram suas experiências à Subcomissão na manhã desta segunda-feira (14) os ex-presos Dirceu Luiz Messias, Otto Brockes, Vicente Faleiros, Nielsen de Paula Pires e Osni Geraldo Gomes, que vive na Suécia e enviou um emocionado depoimento em vídeo.
Eles vão colaborar com a Comissão Nacional da Verdade na tentativa de reconhecer os torturadores brasileiros que atuaram no Chile. Já na tarde desta segunda-feira, eles serão recebidos pela Comissão da Verdade.




Agência Senado
(Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Reforma Agrária Popular.





"O neodesenvolvimentismo chegou ao seu limite"
João Pedro Stédile

"A reforma agrária fixa o homem no campo e desfaveliza o país." É a ideia central, hoje, do discurso que, com perseverança, põe em prática há 35 anos, o fundador e uma das lideranças mais expressivas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o economista gaúcho João Pedro Stédile, de 61 anos. Carismático, um dos pensadores de raiz marxista e dos ativistas de esquerda mais importantes do país, Stédile não hesita em dizer: "Perdeu-se a oportunidade histórica de fazer a chamada reforma agrária clássica no Brasil." Para ele, o importante agora é a luta resultante da aliança entre os trabalhadores do campo e os da cidade - os que farão a reforma agrária popular. E acrescenta: "A cidade grande é o inferno em vida para o camponês, pois sobra para ele a favela e a superexploração."

Gaúcho nascido na cidade de Lagoa Vermelha, região de agropecuária do nordeste do Rio Grande do Sul, nesta entrevista exclusiva a Carta Maior João Pedro relembra três datas seminais do MST, 17 de abril: o Dia Nacional da Luta pela Reforma Agrária, o Dia Mundial da Luta Campesina e os 18 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, no sul do Pará, quando 1500 trabalhadores rurais foram brutalmente agredidos pela Polícia Militar do estado e 18 trabalhadores foram por ela assassinados. Privatizações de terras, de acesso aos minérios – do subsolo do país -, de águas, fontes naturais, lençóis freáticos, e até do ar da Amazônia estão na pauta da nossa conversa assim como o tema do agronegócio: "A mídia é a arma para protegê-lo e aos seus lucros," lembra o líder do MST.

Carta Maior: Quais as mudanças nas ações do MST a partir deste ano?

Stédile: A reflexão coletiva no MST e na Via Campesina Brasil é a de que, no passado, estava posto um programa de reforma agrária que visava resolver o problema de terra, de trabalho, e ao mesmo tempo desenvolver as forças produtivas, o mercado interno para a indústria nacional e assim participava do processo de desenvolvimento nacional.

Esse tipo de reforma agrária ficou conhecido como reforma agrária clássica. Ele se realizava quando havia condições de uma aliança tácita entre os camponeses que precisavam de terra e a burguesia industrial, que precisava de mercado interno. No Brasil, chegamos mais próximo dessa possibilidade na crise da década de 60 quando o governo Goulart apresentou um projeto de reforma agrária clássica, que era também revolucionário para a época. Ele apresentou o projeto no dia 13 de março e caiu dia 1º de abril. Mais tarde, esse programa poderia ainda ter sido implementado na redemocratização do país, no governo Tancredo, quando José Gomes da Silva, nosso maior especialista em reforma agrária clássica foi presidente do INCRA. Ele preparou um plano que previa assentar 1,4 milhão de famílias em quatro anos. Apresentou ao Sarney dia 4 de outubro e caiu dia 13 de outubro de 1985. Quando Lula chegou ao governo também imaginávamos que esse programa poderia ser retomado. Mas aí o contexto econômico e político já era outro. E a reforma agrária clássica ficou nas calendas.

CM: A reforma agrária clássica, então, não tem mais sentido aqui no Brasil? E o que é projetado no lugar dela para que se cumpra, enfim, a justiça social e econômica no campo?

Stédile: Como eu disse: a reforma agrária clássica visava resolver a questão do trabalho no campo e o desenvolvimento industrial com mercado interno. Nos tempos atuais, o que hegemoniza o capitalismo é o capital financeiro e as empresas transnacionais que controlam o mercado mundial de alimentos. Para essa classe dominante não interessa mais reforma agrária, de nenhum tipo, pois eles não precisam de mercado interno, nem de camponeses, nem de indústria nacional. E por isso estão implementando um novo modelo de controle da produção agrícola pelo capital, que é o agronegócio.

O agronegócio representa os interesses apenas dos grandes proprietários de terra, do capital financeiro e das empresas transnacionais. Um modelo baseado na monocultura, em que cada fazenda se especializa num só produto como soja, cana, pastagens ou eucalipto. (No Brasil de agora, 80% de todas as terras se dedicam apenas a esses quatro cultivos.) Em lugar de usar mão-de-obra eles fazem uso intensivo de máquinas agrícolas e de venenos, ambos controlados pelas empresas transnacionais. Destroem o meio ambiente, pois o único objetivo é o lucro máximo. E estão completamente dependentes do capital financeiro, que adianta o crédito para que comprem os insumos das empresas transnacionais - e assim se fecha o ciclo.

Meia dúzia de empresas fica com o lucro, e o povo fica desempregado e com passivo ambiental, que já está afetando o clima até nas cidades. Por isso, não interessa mais reforma agrária clássica para a classe dominante atual. E ela está inviabilizada para os camponeses. Então, nós temos levantado a tese da necessidade de lutar por um novo tipo de reforma agrária que chamamos de reforma agrária popular.

CM: O que você chama de "reforma agrária popular"?

Stédile: Diante dessa nova realidade agrária, com o domínio do capital internacional e financeiro, fizemos um intenso debate dentro do MST que envolveu toda nossa militância, nossa base, intelectuais e professores, amigos, durante dois anos. E terminamos com a realização do evento do VI Congresso Nacional há menos de dois meses, em fevereiro deste ano onde aprovamos essa formulação da necessidade de uma reforma agrária popular.

Reforma agrária popular porque agora ela precisa atender não só as necessidades dos camponeses sem terra, que precisam trabalhar. Mas as necessidades de todo o povo. E o povo precisa de alimentos, alimentos sadios, sem venenos, precisa de emprego, precisa de desenvolvimento da agroindústria, precisa de educação e cultura. Então, o nosso programa de reforma agrária de novo tipo, parte da necessidade de democratização da propriedade da terra, fixando limites, e propõe a reorganização da produção agrícola, priorizando a produção de alimentos sem venenos. Para isso precisamos adotar e universalizar uma nova matriz tecnológica que é a agroecologia. E foi isso que pedimos ao Silvio Tendler para mostrar em seu novo documentário, O veneno está na mesa 2.

Como é possível e necessária a matriz da agroecologia para produzir alimentos sadios que beneficiam toda a população e evitam as enfermidades, sobretudo o câncer, provocado pelos alimentos contaminados por agrotóxicos. O Instituto Nacional do Câncer advertiu que, neste ano de 2014 teremos 526 mil novos casos de câncer entre os brasileiros. A maior parte deles de mama e de próstata. Precisamos de uma reforma agrária que valorize a vida no interior, gerando emprego para jovens. E para isso propomos a implantação de milhares de pequenas agroindústrias na forma de cooperativas que vão dar emprego a milhões de jovens que precisam estudar. Propomos a democratização da educação para que todos tenham os  mesmos direitos e oportunidades sem sair do meio rural.

CM: Você tem denunciado que nesse modelo do agronegócio privatiza-se até o ar. Como é isso?

Stédile: De fato, entre as características desse novo modelo do capital, é que este, agora mais poderoso, pois é dominado pelo capital financeiro e pelas empresas transnacionais, quando chega à agricultura, e procura se apropriar de todos os recursos naturais para tirar lucro máximo.

Em períodos de crise capitalista no hemisfério norte, como o que estamos vivendo, essa necessidade deles aumenta, pois a apropriação privada dos recursos naturais, seja terra, minérios, água, energia elétrica, é fonte inesgotável de uma renda extraordinária, mais além da exploração do trabalho. Pois os recursos estão na natureza, e eles, ao se apropriarem desses recursos, colocam no mercado a preços bem acima do seu valor, medido pelo custo de produção.

Para isso, desde a implantação da hegemonia do neoliberalismo, foram impondo condicionamentos jurídicos, em todos os países do mundo, sob orientação dos Estados Unidos e dos organismos internacionais a seu serviço, como FMI, OMC, Banco Mundial, para garantir a propriedade privada de bens da natureza. Então, pela lei de patentes (aprovada em 1995), eles agora podem ser donos das sementes. Para isso fazem mudanças genéticas e dizem que é um novo ser vivo, transgênico, produzido em laboratório. Privatizaram as águas. Seja nos lençóis freáticos, seja nas fontes naturais. Privatizaram o acesso aos minérios.

CM: As riquezas do subsolo do país, propriedade da população e que deveriam estar a serviço do povo não escaparam desse processo de espoliação.

Stédile: O Brasil concedeu, nos últimos anos, sob a gestão da velha Arena, que até hoje não largou a teta do Ministério de Minas e Energia, mais de oito mil licenças de mineração no nosso subsolo para empresas privadas que deveriam estar a serviço de todo povo. E agora, como você disse, estão tentando privatizar o oxigênio produzido pelas florestas nativas. Medem pelo GPS a quantidade de oxigênio produzido pelas florestas, emitem um documento que estabelece certo valor e isso se converte em dólares como crédito de carbono que é vendido na Europa para as empresas poluidoras se justificar e assim continuarem poluindo. Aqui, no Brasil, até a empresa Natura está praticando isso.

CM: Como agem as transnacionais dessa área no Brasil, hoje?

Stédile: Para se ter uma ideia, por outro lado, em termos de valores,  da crise mundial de 2008 para cá entraram no Brasil mais de 200 bilhões de dólares que foram aplicados em recursos naturais. Somente no setor sucrooalcoleiro, que era propriedade da tradicional burguesia nacional, agora apenas três empresas transnacionais (Cargill, ADM e Bungue) controlam mais de 50% de todo setor.

CM: Muito importante você enfatizar estes temas: mudança de parâmetros da agricultura no país e uma agricultura voltada para a produção de alimentos. Quais os novos parâmetros?

Stédile: Nossa análise coletiva considera que a organização da produção de alimentos e dos produtos agrícolas tem que estar submetida a outros parâmetros. Os capitalistas, com seu modelo do agronegócio, fundam sua ação baseados apenas no paradigma da produção de mercadorias para o mercado mundial, na busca incessante do lucro máximo, do aumento da produtividade do trabalho e da produtividade física de cada palmo de terra.

Nós queremos reorganizá-la baseada em outros parâmetros. Baseados na história da civilização que sempre viu os alimentos como um bem - e não como mercadoria. Visão de que todos os seres humanos têm direito a se alimentar. Na produção agrícola em equilibro com a natureza, e não contra ela. E, sobretudo, organizando a produção para dar trabalho para as pessoas, para que  elas tenham renda e possam viver em boas condições e felizes, no interior, sem cair na ilusão de que somente serão felizes se vierem para a cidade grande. Cidade grande é o inferno em vida para o camponês. Pois sobra para ele apenas a favela e a superexploração.

CM: Mas e a bancada ruralista, com trânsito livre nos palácios de Brasília... e o agronegócio - não aceitam esses parâmetros...

Stédile: Claro, eles são os porta-vozes da classe dominante. Os capitalistas, para manterem seus altos lucros no campo espoliam a natureza e expulsam o povo do interior e se protegem num estado burguês, que é o estado brasileiro. Protegem-se fazendo leis apenas para seus interesses, como fizeram nas mudanças do código florestal etc. Protegem-se com o seu poder judiciário que é o poder ainda monárquico, que inviabiliza as desapropriações para reforma agrária, que impede a legalização das terras indígenas e de quilombolas, que impede inclusive as desapropriações das fazendas com trabalho escravo, como determina a Constituição - mas que eles não cumprem.

E tudo isso é respaldado pela mídia televisiva, sobretudo a Globo, a Bandeirantes, SBT, que manipulam todos os dias o nosso povo para lhes dizer que o agronegócio é a única solução. Que o agronegócio é que sustenta o Brasil, quando é justamente o contrário. A mídia é a arma ideológica para proteger o agronegócio e seus lucros.

CM: Como se dará a mudança do foco das ações, deslocado para o urbano? Como é esta aliança do MST com as cidades?

Stédile: O nosso programa de reforma agrária popular implica agora em envolver todo o povo, pois ela não interessa apenas aos sem-terra. E, portanto, temos que explicar ao povo, à classe trabalhadora que a reforma agrária é necessária para ele se alimentar melhor, de forma sadia, sem venenos. Que o programa de agroindústrias vai dar emprego, que universalizar a educação no interior vai gerar milhões de empregos para educadores etc.

Esta aliança vai se fazendo através da construção de uma consciência coletiva de todas as classes trabalhadoras. Por um plano de lutas conjunto que envolva a todos na luta por mudanças sociais. E, sobretudo, num programa político de mudanças para o país que unifica todos os setores da classe trabalhadora da cidade e do campo.

Tudo isso leva tempo, exige energias, mas é o caminho para construirmos verdadeiras mudanças na cidade e na agricultura. Para isso teremos que travar muitas batalhas, passar por muitos "pedágios" que a classe dominante vai nos impor.

CM: E as cidades? A cidade virou um grande negócio que alija os mais pobres cada vez mais para os seus confins. Mas como mudar isto?

Stédile: Os territórios urbanos, as cidades e suas periferias também estão sendo vitimas desse modelo do grande capital que igualmente quer a renda extraordinária nas cidades, conquistada através da especulação sobre os preços dos prédios, dos terrenos, dos espaços urbanos. A diferença entre o valor real de uma casa, de uma praça, de um prédio, e o preço de mercado, que eles impõem, é que representa a renda da qual eles se apropriam e que toda sociedade acaba pagando.

Pior, os trabalhadores acabam sendo expulsos para as periferias de uma maneira permanente, e ali os transportes públicos não chegam. Ou foram privatizados. Ou são caríssimos. Por isso, a bandeira de luta de tarifa zero para os transportes públicos em todas as grandes cidades é mais do que justo e é necessária.

A par de tudo isso, como tem defendido nossa querida professora Ermínia Maricato, somente uma grande reforma urbana que devolva ao povo o direito de usar a sua cidade. As cidades foram usurpadas do povo, e agora pertencem apenas aos especuladores, aos bancos e à indústria automobilística.

CM: O mais recente governo do PT foi decepcionante?

Stédile: Os governos Lula e Dilma não foram governos do PT, nem da classe trabalhadora. Foram governos de composição de classe, que gerou um programa de governo do neodesenvolvimentismo, que se propunha a fazer a economia crescer, distribuir renda e retomar o papel do estado suplantando o mercado (dos tempos do neoliberalismo). Nesse sentido eles cumpriram o programa, e nesse programa todas as classes ganharam um pouco, sendo que, como diz o próprio Lula, os banqueiros foram os que mais ganharam.

Mas esse programa e essa composição de classes, na opinião dos movimentos sociais, bateram no teto. E agora já não conseguem mais resolver os problemas fundamentais do povo que ainda padece com falta de moradia digna, emprego qualificado, acesso à universidade, e transporte público civilizado. As manifestações do ano passado foram o sinal de que o modelo do neodesenvolvimentismo chegou ao seu limite.

E como disse antes, espero que os setores organizados da classe trabalhadora construam um programa unitário de mudanças, e retomem a iniciativa das mobilizações de massa. Isso permitiria termos, no futuro, governos também populares, que possam fazer as mudanças estruturais de que precisamos. Por ora, os movimentos sociais de todo país construíram uma unidade em torno da necessidade de uma reforma política que devolva ao povo a soberania para escolher seus representantes.

Já que, no regime atual, as empresas sequestraram as eleições. Veja: segundo o TSE, em torno de 2262 empresas gastaram mais de 4,6 bilhões de reais, nas últimas duas eleições sendo que 80% desses recursos foram de apenas 117 empresas. Ou seja, o novo colégio eleitoral que decide quem deve ser eleito, são essas 117 empresas que usam o dinheiro para elegê-los. Isso precisa mudar, para salvar uma democracia frágil e capenga. Então, a necessidade urgente de uma reforma política. Para tanto, será necessário convocar uma assembleia constituinte soberana (na forma de ser eleita) exclusiva para essas mudanças.

CM: Mas a força do MST está intacta - ou não? Vinte mil trabalhadores foram protestar defronte do Planalto, dois meses atrás. Acabaram sendo recebidos pela Presidenta Dilma.

Stédile: O MST é uma pequena parcela do conjunto das forças populares do povo brasileiro. Nós temos procurado nos manter unidos, resistindo à avalanche do capital e mantendo nossos projetos de mudança. Outros setores da classe, influenciados pela pequena burguesia ou pela mídia, foram derrotados em seus projetos. Levamos nossos 15 mil militantes ao VI Congresso, como um espaço de unidade e de celebração de nossa mística da mudança. Por isso, fomos recebidos pela Presidenta, e apresentamos nossas ideias, sem ilusões. As mudanças não vêm de palácios; vêm das ruas e de um povo consciente e organizado; sempre foi assim na historia da humanidade. E nós vamos seguir esse caminho.

CM: Esta semana, dia 17 de abril, mais uma vez é lembrada a data dos 18 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 1500 trabalhadores sem terra foram brutalmente agredidos pela Polícia Militar do Pará e 18 deles cruelmente assassinados por agentes daquela PM. Como está a situação do processo de punição dos policiais que participaram da ação criminosa? Como o MST está agindo sobre o assunto?

Stédile: Nunca mais poderemos esquecer aquele  17 de abril de 1996, sendo presidente Fernando Henrique, quando a Polícia Militar do Pará, financiada pela empresa Vale, assassinou cruelmente 19 companheiros nossos. Posteriormente, outros dois vieram a falecer e há ainda até hoje 69 feridos, com sequelas graves.

O processo judicial se arrasta até os nossos dias. Apenas os dois comandantes foram condenados a mais de 200 anos de prisão. Porém apelaram, e estão em prisão domiciliar num quartel da PM de Belém, em apartamentos com todas as regalias de oficiais. Tradicionalmente, todos os anos repetimos, no mesmo local, um grande acampamento com a nossa juventude do MST da regional amazônica, para que os nossos jovens não se esqueçam, e ajudem a lutar por justiça e por reforma agrária.

Em todo Brasil vamos fazer manifestações, cultos ecumênicos, e protestar perante o poder judiciário, que protege descaradamente apenas os interesses dos ricos e fazendeiros do país. Entre as suas reformas estruturais, o Brasil precisa de uma reforma do judiciário que democratize e coloque esse poder sob controle da sociedade. Haja vista como se comporta o imperador Joaquim Barbosa, com suas estripulias, megalomanias e diárias em tempos de férias. Ainda bem que ele comprou um apartamento em Miami, e imagino que seu sonho é ir morar lá...

Em todo mundo, nos mais de cem países em que a Via Campesina está organizada haverá manifestações, pois esse dia 17 de abril foi declarado Dia Mundial da Luta Camponesa. E até aqui no Brasil, envergonhado, no último ano de seu governo, FHC assinou um decreto, declarando o dia 17 de abril, Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária. Então, nesse dia, é até legal você lutar pela reforma agrária.