terça-feira, 29 de novembro de 2016

Eu nunca fui a Cuba, mas guardo saudades dela

Eu nunca fui a Cuba, mas guardo saudades dela


Nunca fui a Cuba. Mas a ilha da revolução sempre viveu dentro de mim. E, na hora do adeus, é preciso ter grandeza
Na hora do adeus é preciso ter grandeza.
Milhões entre os melhores militantes da causa socialista se emocionam com a morte de Fidel. A vida me ensinou que quando os nossos choram, é importante demonstrar respeito. Respeito não é reverência. Respeito é consideração. Permanecer indiferente a esta reação seria uma arrogância perigosa.
O ódio contra Fidel e contra Cuba é expressão de um ódio social contra o igualitarismo, a fraternidade, a solidariedade, que são o coração da luta dos trabalhadores. Querem enterrar o símbolo que a revolução cubana foi para mais de uma geração. Porque Cuba provou que a revolução permanente, a simultaneidade, em um processo ininterrupto e acelerado de uma revolução democrática, uma revolução anti-imperialista, uma revolução agrária, uma revolução negra, com uma revolução anticapitalista era possível. Uma façanha histórica imensa.
Na hora do adeus é preciso ter perspectiva de classe.
Ouvi o ameaçador “Vai para Cuba”, pela primeira vez, no dia 20 de Junho de 2013, na Paulista. Era ecoado por uma coluna de extrema direita de algumas centenas de seguidores furiosos, coléricos, enraivecidos. Agora o ódio dos que nos ameaçam, insolentes, desassombrados, e defendem, descaradamente, o egoísmo, a desigualdade, e a competição se volta contra Fidel.
Tanto ódio assim precisa ser explicado. A razão é terrível, mas é simples. A pequena ilha de Cuba realizou proezas sociais fantásticas. Demonstrou que as relações sociais pós-capitalistas, apoiadas na socialização da propriedade, no planejamento, e no monopólio do comércio exterior, o tripé de uma estratégia socialista, eram superiores ao capitalismo. Cuba não pode ser comparada com países que já estavam, nos anos sessenta, em estágios de desenvolvimento histórico superior. Isso é anacrônico. Cuba merece ser comparada com aquelas nações que emparelhavam com ela quando Batista estava no poder: Guatemala, Honduras, Nicarágua e El Salvador. Ainda lembro de um episódio que me impressionou pela altivez. Quando o Papa polonês visitou Cuba, em 1998, um cartaz anunciava: “Milhões de crianças dormirão hoje na rua. Nenhuma delas é cubanaEu, que nunca fui castrista, senti orgulho.
Agência Efe

Na hora do adeus, é preciso ter grandeza, perspectiva de classe, lucidez

As dez formas mais curiosas que a CIA usou para tentar matar Fidel Castro

Errata: Mujica não é autor da carta a Fidel que circula na internet

Em edição especial, jornal Granma lembra passado de Fidel e discute futuro do modelo de sociedade do país

 
Fidel será castigado hoje, talvez mais do que nunca, com a acusação de que foi um ditador implacável. Aqueles que lutamos pelo socialismo devemos ser conscientes do significado deste ódio de classe: querem enterrar com Fidel a esperança que Cuba representou. Nós queremos que aquela inspiração, personificada no exemplo internacionalista de Che Guevara, renasça.
Na hora do adeus é preciso ter lucidez.
Mais do que nunca o marxismo do século XXI deve ser internacionalista. O socialismo não é possível em um só país. A fundação da OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade) foi um dos momentos mais elevados do impacto continental da revolução cubana. Estou entre aqueles que compreendem que o alinhamento incondicional de Cuba com a política de Moscou após, sobretudo, a invasão de Praga em 1968, foi uma inflexão desastrosa que teve consequências adversas na América Latina e, também, em Cuba. Os descaminhos da revolução cubana começaram com a consolidação do regime de partido único. A última oportunidade foi perdida, talvez, nas encruzilhadas da revolução nicaraguense e salvadorenha. O regime especial dos anos noventa, após a restauração capitalista na ex-URSS, foi o início da decadência.
Conheci Fidel Castro quando ele veio ao Brasil em 1990. Eu era membro da executiva nacional do PT, e uma reunião especial foi organizada no Anhembi. Luiza Erundina era a prefeita de São Paulo. Não éramos mais do que umas poucas dezenas. Fidel impressionava pelo gigantismo de sua personalidade: força de caráter, rapidez de pensamento, intensidade emocional, tudo parecia autêntico. Mas o culto à personalidade de um líder infalível já não era mais, somente, uma excentricidade caribenha. Era retrógado.
Eu nunca fui a Cuba. Mas a ilha da revolução sempre viveu dentro de mim.
Na hora do adeus, quero guardar essa saudade para sempre.

Em edição especial, jornal Granma lembra passado de Fidel e discute futuro do modelo de sociedade do país


Em edição especial, jornal Granma lembra passado de Fidel e discute futuro do modelo de sociedade do país

Com a manchete “Cuba é Fidel", o periódico se concentra em retratar a vida do ex-comandante em chefe cubano, ressaltar o papel popular no processo revolucionário iniciado na década de 1950
O jornal Granma, órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, circulou neste domingo (27/11) nas ruas de Havana com uma edição especial dedicada à memória de Fidel Castro, que faleceu na noite do dia 25.
Com a manchete “Cuba é Fidel", o periódico se concentra em retratar a vida do ex-comandante em chefe cubano, ressaltar o papel popular no processo revolucionário iniciado na década de 1950 e traçar um elo entre o passado de lutas pela independência e soberania da ilha, desde José Martí, e o futuro do modelo de sociedade implantado no país.
As 16 páginas do Granma informam também a população sobre a programação dos atos fúnebres dos nove dias de luto oficial decretado pelo Conselho de Estado da República de Cuba.
O jornal também traz espaço para o ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que morreu em 5 de março de 2013 e foi o principal responsável por dar um novo impulso na América Latina aos ideais perseguidos na Revolução Cubana, com a inauguração do Bolivarianismo, nos finais da década de 1990.

Havana silenciosa: cubanos vivem tristeza e incerteza sobre futuro após morte de Fidel

Mande um beijo a Fidel

As dez formas mais curiosas que a CIA usou para tentar matar Fidel Castro

 
Capa do jornal Granma deste domingo (27/11)
Capa do jornal Granma deste domingo (27/11)
A amizade com Chávez é retratada em fotos e no espaço dedicado a Nicolás Maduro, que sucedeu o ex-presidente e enfrenta a situação e adversa nos campos político e econômico desde então.
Vínculos internacionais
Os vínculos internacionais de Fidel e Cuba estão presentes na seção “O mundo ao lado de um gigante”, que traz as manifestações de lideranças políticas de várias partes do mundo, como os ex-presidentes Dilma Rousseff e Lula (Brasil), José Mujica (Uruguai), Cristina Kirchner (Argentina) e Manuel Zelaya (Honduras); e os atuais presidentes da Rússia, EUA, França, Portugal, Espanha, Nicarágua, Uruguai, Chile, Bolívia, Japão e Costa Rica. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, o papa Francisco, a Cepal e até o jogador de futebol argentino e amigo de Fidel, Diego Maradona, também têm suas mensagens publicadas. 
Mas é o foco na importância do povo cubano que domina a maior parte da edição especial. O objetivo é claramente fazer das cidadãs e dos cidadãos de Cuba os maiores responsáveis pela continuidade do processo revolucionário que teve Fidel como líder. Essa dimensão está expressa no tom dos textos e é mais evidente ainda nos títulos “A noite mais longa”, “Cumpriremos com ele”, “A unidade como a melhor homenagem”, “O Fidel da gente”, “O compromisso de seguir seu exemplo”, “Fidel tomará forma em nós” e na seção de cartas “Sua história com Fidel”, que recebe mensagens pelo email tuhistoria@granma.cu.

'Não é tão simples' reverter aproximação entre EUA e Cuba, alerta Casa Branca a Donald Trump


'Não é tão simples' reverter aproximação entre EUA e Cuba, alerta Casa Branca a Donald Trump


Presidente eleito dos EUA reiterou que pretende 'acabar com acordo' entre países; porta-voz de Obama ressaltou impacto econômico e diplomático de medida
A Casa Branca alertou nesta segunda-feira (28/11) que “não é tão simples” reverter a aproximação com Cuba iniciada pelo presidente dos EUA, Barack Obama, já que essas medidas teriam notáveis consequências “econômicas e diplomáticas”.

Clique e faça agora uma assinatura solidária de Opera Mundi


"Desfazer isso não é tão fácil quanto um golpe de caneta. Não é tão simples como pode parecer com base em um só tweet", disse o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, em sua entrevista coletiva diária, sobre ameaças feitas por Trump nas redes sociais.

Earnest se referia à mensagem publicada horas antes por Trump em sua conta oficial no Twitter, na qual afirmava que “se Cuba não estiver disposta a fazer um acordo melhor para o povo cubano, o povo cubano-americano e os EUA como um todo, eu vou acabar com o acordo”.

"Cancelar tudo representaria um enorme golpe econômico para os cidadãos cubanos", alegou Earnest, ao lembrar que várias empresas de turismo norte-americanas, como Airbnb, Marriott e Starwood, receberam licenças para operar em Cuba.
Agência Efe / Arquivo

Raúl Castro, presidente cubano, e Barack Obama, presidente dos EUA, em encontro em março no Palácio da Revolução em Havana


A política de normalização também promoveu "notáveis benefícios" às empresas norte-americanas e ao setor agrícola, lembrou Earnest, além de aumentar as viagens à ilha de turistas do país, que estimulam com seus gastos a economia local.

"Há 110 voos diários programados entre os EUA e Cuba nos próximos meses", lembrou o porta-voz de Obama.
 

Diego Maradona lamenta morte de Fidel Castro: 'foi como um segundo pai para mim'

Mande um beijo a Fidel

As dez formas mais curiosas que a CIA usou para tentar matar Fidel Castro

 
Earnest também falou que uma volta da inimizade com Cuba afetaria as relações dos EUA com o resto da América Latina, que estão no "melhor ponto" graças ao fim da "irritante" tensão com Havana.

O porta-voz também defendeu a decisão de Obama de não criticar Fidel Castro no comunicado divulgado no sábado (26/11) por causa do falecimento do ex-presidente de Cuba, no qual disse simplesmente que a história "julgará" o líder da Revolução Cubana. Já Trump tachou Fidel de "brutal ditador" que oprimiu seu próprio povo.

"Não se pode negar o tipo de violência que ocorreu em Cuba sob o regime de Castro. Divulgar um feroz comunicado e nos envolver em recriminações mútuas que estão atadas ao passado em nada servirá para melhorar as liberdades em Cuba", acrescentou o porta-voz.

O senador republicano de origem cubana Marco Rubio e outros anticastristas criticaram Obama por não mencionar a repressão de Castro a opositores na nota, mas Earnest destacou que o presidente prefere "olhar para o futuro", sem esquecer o passado.

Nem Obama nem o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, devem viajar a Cuba para o funeral de Fidel, informou Earnest, que não confirmou se a Casa Branca enviará uma delegação oficial à cerimônia.

Milhares de pessoas vão à praça da Revolução, em Havana, para dar adeus a Fidel


Milhares de pessoas vão à praça da Revolução, em Havana, para dar adeus a Fidel


Na mesma hora em que começava a homenagem na praça, foram disparados, simultaneamente em Havana e Santiago de Cuba, 21 tiros de canhão em homenagem a Fidel
Atualizada às 15:39
Interrompendo o silêncio que dominou as ruas de Havana desde o anúncio da morte de Fidel Castro, milhares de moradores da capital cubana acordaram cedo nesta segunda-feira (28/11) e foram em massa para o Memorial José Martí prestar sua homenagem à memória do líder revolucionário.
Desde as primeiras horas do dia, o afluxo de gente é crescente e constante. A variedade é grande: idosos, jovens e crianças, com as mais diversas formações e atividades profissionais. As pessoas estão tranquilas, falam abertamente do momento histórico e fazem questão de reforçar: Fidel se foi, mas o caminho deve seguir o mesmo.
Camilo Toscano / Opera Mundi

Fila para se despedir de Fidel Castro em Havana
"Não se pode prever o futuro, mas Fidel já não estava à frente do governo. Não vai acontecer nada de diferente", diz Michel Carles, 46, médico ortopedista, que faz questão de dizer que a liberação do trabalho para poder prestar a homenagem não foi impositiva. "Ninguém está aqui hoje por obrigação, se não por vontade própria", conta.
A papiloscopista militar aposentada Yolanda Carrera, 86, que conheceu Fidel em uma oportunidade e esteve por duas vezes em missões em Moçambique nos anos 1980, corrobora a avaliação. "Agora é Raul que comanda o país. Depois, o povo vai eleger quem vai ser o presidente, mas tem muitas pessoas com capacidade para isso, que se prepararam para isso", afirma.
 

O Fidel que conheci, por Ignacio Ramonet

Mande um beijo a Fidel

Eu nunca fui a Cuba, mas guardo saudades dela

 
Segundo os que esperam na fila que se formou na Av. Paseo e se estendia por volta das 11h (14h de Brasília) até o cruzamento com a Zapata, as primeiras pessoas chegaram às 7h ao local – há ainda outros dois pontos de acesso. A abertura para o adeus a Fidel se deu pontualmente às 9h, como previsto, depois da salva de 21 tiros, uma marca das honras militares.
Há forte esquema de segurança, mas nenhum registro de tumulto ou problemas até o momento. A reportagem não conseguiu confirmar o número de funcionários que dão suporte médico aos que, com o sol intenso, sentem algum mal-estar. Muitos trouxeram guarda-sol e podem contar com distribuição de água depois que cruzam a grade inicial que fecha a avenida. Além dos caramelos, dados especialmente aos mais novos.
Camilo Toscano / Opera Mundi

Multidão se reúne para prestar homenagem a Fidel Castro em Havana
"Para o bem e para o mal, Cuba é um país distinto. Não passamos fome, apesar das dificuldades. Isso por causa do que Fidel fez pelo país", diz Rosa Viene, 60, que trabalha na aviação civil e veio acompanhada de duas colegas de trabalho. "O povo cubano está nas ruas para dizer que cabe a cada um de nós seguir este caminho", conclui.
As homenagens a Fidel Castro fazem parte das atividades dos nove dias de luto nacional. As cubanas e os cubanos de Havana terão até as 22h desta segunda-feira (28/11) e amanhã das 9h às 12h para darem seu último adeus ao comandante. A partir da quarta-feira (30/11), uma caravana fúnebre com as cinzas de Fidel parte da capital até a Província de Santiago, no extremo leste da ilha, onde Fidel nasceu. O trajeto relembra a Caravana da Liberdade, de 1959, que marcou a ascensão ao poder do movimento revolucionário. O ato final acontece no próximo domingo (4/12).

O JUIZ SÉRGIO MORO

O JUIZ SÉRGIO MORO

Percebam a 'imparcialidade' do magistrado nesse diálogo:

Advogado de Lula: Vossa Excelência está violando o princípio da ampla defesa, está perguntando à testemunha sobre fatos que não foram objeto da inquirição de hoje

Sergio Moro: [levantando a voz] Essa é a posição do juízo, doutor. Neste caso, é o que estou fazendo.

Advogado de Lula: Então fica o protesto da defesa contra o comportamento de Vossa Excelência, que viola o código de processo penal.

Sergio Moro: Na sua interpretação, doutor. Na interpretação correta do código, o juiz pode fazer...

Advogado de Lula: Na interpretação de todos que trabalham com processo penal. Somos professores de processo penal.

Sergio Moro: Tá ótimo então, eu vou seguir com minhas indagações aqui, se a defesa permitir, evidentemente..." (Link da Veja)

O juiz famoso passeia com desenvoltura nos espaços mais elitizados, faz palestras de destaque para embaixada norte-americana, visita com extrema simpatia a imprensa conservadora
O imenso prestígio veio montado nas sentenças contra  empresários e o heroísmo, cavalgando nas prisões de petistas. Consciente de seu poder, deita e rola nas conturbações golpistas de um país, que  nada de braçadas em busca de um lugar de destaque entre as republiquetas da América Latina

Na nota dos advogados, tem-se uma ideia do nível de sua isenção:
" Descobriu-se a tramitação de um procedimento oculto perante a 13ª. Vara Federal de Curitiba a partir da referência feita pelo Ministério Público Federal e ingressou-se  com Reclamação no Supremo Tribunal Federal contra o juiz Sérgio Moro por violação à Súmula Vinculante nº 14 que assegura à defesa amplo acesso a qualquer procedimento investigatório... O juiz está agindo de forma ilegal ao impedir que a defesa de Lula tenha acesso a procedimento investigatório".

Extrapolou sua competência de juiz de 1ª instância para executar gravações de Lula com membros do Congresso e com a presidente da República, atribuições exclusivas do Supremo.
Ordenou escutas clandestinas no escritório dos advogados do ex-presidente e de todos seus familiares, além de fazer malabarismos retóricos e investigativos  para forçar a culpabilidade de Lula em relação ao duplex e o sítio em Atibaia.
Um breve parêntese  para lembrar que o implacável juiz, durante o principado do sociólogo, não encontrou culpa para condenar os gatunos que surrupiaram 500 bilhões do Banestado.

Numa ação criminosa, liberou para a imprensa uma fita gravada e já devidamente arquivada, com o escancarado objetivo de interferir num conturbado momento  politico do país. Antes, já havia  dispensado os serviços do oficial de justiça, para determinar   que a PF procedesse a intimação ao ex-presidente. 

Com todas essas 'isenções' e 'imparcialidades' e o meritíssimo é festejado na capa da Veja - "O homem que salvou 2015"; participa de reunião festiva com socialites, bancada pelo milionário João Dória e, suprema honraria, ganha  o prêmio "Faz a Diferença", homenagem da rede Globo, em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro

Já se falou nesse espaço da profunda e injusta estratificação da sociedade brasileira. Um punhado de ricaços, que atende pelo nome de elite, a mover os cordões da imprensa, da política, da justiça e com a mania recorrente  de eleger e derrubar presidentes, conforme suas vontades e interesses. De quebra, ainda se empenha em remover todos os  obstáculos que ameace a manutenção do establishment.
Em outros tempos, cassaram Juscelino, deportaram João Goulart e num rabo de foguete foram-se Brizola e Arraes. Não ficou ninguém.


* Sebastião Costa – Médico e colunista do 247

Fidel, o teimoso

28/11/2016 10:35 - Copyleft

Fidel, o teimoso

Fidel é inesgotável. Impossível de explicar ou definir. Por isso, me contento em lembrar de sua obstinação.


Mario Santucho *
reprodução
Minha prima ainda vive em Cuba. Ela nunca voltou do exílio. Visita a Argentina com cada vez maior frequência, mas sempre regressa à ilha. Na sexta-feira, ela tomou um voo que saiu de Havana às 18h e aterrizou em Buenos Aires às 9h do sábado. Mal ligou seu telefone e se deparou com a minha mensagem: “que tristeza, o que faltava para coroar este ano de merda”, acompanhado de um link com a notícia da morte de “el Fifo”, como o chamávamos desde a nossa infância. María respondeu: “recém aterrizada, tragarei meu café com esta notícia horrível. Mas, está confirmado? Lembra que já o mataram muitas vezes antes”.
 
Sabíamos que o momento estava próximo, e ainda assim não nos acostumávamos com a ideia. Com Fidel, algo estranho acontecia. Algo que não queríamos que terminasse, embora fosse evidente que era algo que fazia parte do passado. Confesso que depositei algo de imortal em sua figura, mesmo sendo algo restrito aos nossos sonhos. Enquanto o símbolo mais intenso da Revolução Cubana permanecesse vivo, manteria vigente um pedaço daquele Século XX socialista, como um último suspiro. Até que, enfim, chegou a hora.
 
----------------------
 
Fidel Castro teve a satisfação de morrer aos 90 anos, após alguns anos distanciado do exercício diário do poder. Em 2008, ele teve que deixar ao seu irmão a responsabilidade de conduzir o governo de Cuba, devido a uma doença que exigia um longo tratamento, que o debilitou bastante. O corpo impôs um limite que sua consciência não admitia. Porém, diferente do ocorrido com Hugo Chávez e Néstor Kirchner – dois presidentes da alvorada do novo século que chegaram a entusiasmá-lo, e claro, mais o primeiro que o segundo – Fidel conseguiu entregar o comando, sair deixar o poder para observar o tabuleiro de fora. Para o que resta da Revolução Cubana essa forma de partir, sábia e prolixa, é uma bênção enorme. Seu povo se despedirá dele hoje como quem homenageia um pai, aquele avô por quem havia um carinho especial. O mais importante: sem o trauma de estar diante de uma crise política iminente. Por mais que agora, em Miami, seus detratores estejam babando mais que nunca.





 
Não obstante, a pergunta que me intriga é sobre o que ele viu durante estes últimos anos em que permaneceu como observador de luxo da História. Mais precisamente nestes últimos meses. Teria ele acompanhado e analisado a vitória de Trump? Tenho a impressão de que o balanço não deve ter sido favorável. Intuo que sua fé moderna na primazia da razão e no progresso da espécie se estremeceu, e talvez tenha se despedaçado diante de tantas evidências adversas. De certa forma, a morte de Fidel não poderia ter sido mais oportuna. É preciso começar de novo. Uma temporada da longa marcha anticapitalista chegou ao seu fim. A imortalidade não existe e os revolucionários nunca tiveram Papa. É hora de imaginar o novo argumento da emancipação.
 
----------------------
 
Fidel é inesgotável. Impossível de explicar ou definir. Por isso, me contento em lembrar de sua obstinação.
 
Fui criado em Cuba. Vivi no país durante longos e felizes 18 anos. Me emocionavam os discursos do “Barba”. Nunca vi uma retórica e uma paixão política semelhantes. Ao escutá-lo, não se podia simplesmente concordar ou discordas. Ou ele te envolvia por completo, ou você o rechaçava de uma vez. Agora percebo que ele é o grande responsável pelo fato de que Hugo Chávez ou Cristina Kirchner me parecessem oradores medíocres, mesmo superando a performance de qualquer político contemporâneo. Creio que a essência dessa potência discursiva era sua obstinação.
 
O obstinado é um sujeito tenaz, teimoso porém consequente, que sabe viver nos limites da loucura. Fidel sempre se moveu nessa fronteira. Por isso foi o artífice de uma das criações políticas mais fascinantes e valentes que o mundo conheceu. Também por isso, seus últimos anos de governo são recordados pela resistência a todo tipo de transição, adaptação ou qualquer coisa que significasse “um retrocesso” no caminho do socialismo. Ao seu lado, o inflexível Raúl terminou sendo um reformista e um melhor intérprete do sentido comum popular. Ainda paira no imaginário político um dos últimos escritos de Fidel, a respeito da visita de Obama, no qual ele se referia a uma essencial desconfiança para com as elites estadunidenses. Uma mensagem apimentada em meio ao descongelamento das relações.
 
O que a teimosia de Fidel nos diz aqui e agora? Será que o receio do velho e astuto estadista antecipou a visível direitização do mundo ocidental? Será que seu encarniçado questionamento sobre a exaltação hipócrita das democracias capitalistas recupera toda a sua vigência, ainda que ele mesmo, o mais brilhante dos comandantes guerrilheiros, tenha decretado – com respeito ao processo vivido pela Colômbia – a inviabilidade da luta armada nos tempos de hoje?
 
Fidel se foi num instante muito difícil para aqueles que o admiram. Há momentos em que a obstinação é a única forma de não render-se.
 
* Mario Santucho é jornalista e diretor da revista Crisis. Seu pai, o guerrilheiro Mario Roberto Santucho, líder do ERP (Exército Revolucionário do Povo), foi assassinado pelo Exército argentino em 1976 – pouco antes do crime, quando o pai já estava preso, ele viajou com a mãe, irmãos e tios à Cuba, onde viveram no exílio durante anos.
 
Tradução: Victor Farinelli


Créditos da foto: reprodução




QUE RUFEM AS PANELAS!

Que rufem as panelas!

                     Onde estão os manifestantes que exigiam a prisão de corruptos?

Desde que Michel Temer assumiu a Presidência através do golpe parlamentar que derrubou a presidente Dilma, a crise política e econômica só fez piorar. Seu governo está mergulhado em escândalos e mais escândalos de corrupção. O próprio Temer é acusado de usar o cargo para favorecer amigos e correligionários.
Alessandra Murteira*

Onde estão os manifestantes que até há algum tempo atrás exigiam prisão para os corruptos? Onde estão os manifestantes que até há algum tempo atrás exigiam prisão para os corruptos?  Sem legitimidade e tampouco popularidade, o presidente golpista agoniza e a classe média assiste calada. Nem uma batida de panela ecoa das varandas gourmets.

Enquanto isso, a Câmara dos Deputados se articula para anistiar políticos que tenham praticado caixa 2 nas eleições passadas, beneficiando diretamente Temer e seus aliados. Nenhum pio se ouve daqueles que berravam palavras de ordens e xingamentos contra a presidente eleita, que, sem cometer crime algum, foi julgada e arbitrariamente condenada.

A economia vai de mal a pior. A taxa de desemprego subiu de 8,9% em 2015 para 11,3% este ano, segundo dados do IBGE referentes ao terceiro trimestre. Já somos o sétimo país com o maior número de desempregados em todo o mundo, com mais de 12 milhões de cidadãos nesta situação.

Pela primeira vez em 11 anos, o brasileiro começa perder o poder aquisitivo. A renda média das famílias brasileiras despencou 5% em 2015 em relação a 2014 e este ano deve cair ainda mais.

Cadê as panelas vazias simbolizando a indignação do brasileiro com a situação caótica em que transformaram o país para poderem justificar a derrubada da presidente eleita?

O Pré-Sal foi entregue às multinacionais, a Petrobras está sendo dilapidada, o Banco do Brasil vai fechar mais de 500 agências, os Correios vão se transformar em parcerias privadas, a Eletrobrás e as outras estatais que sobreviveram à privataria tucana nos anos 90 estão com os dias contados... O
Plano de Desestatização do governo Temer promete ser pior do que os que foram implementados por Collor, Itamar e FHC.

Nenhum dos patriotas que foram às ruas com camisa e bandeira do Brasil se manifesta. Não ouvimos apitaços, nem panelaços em protesto contra a entrega do patrimônio público e a quebra da soberania nacional.

Por que os milhares de teleguiados que foram às ruas pedir o impeachment de uma presidente inocente agora se calam diante dos escândalos de um governo golpista? O silêncio de suas panelas é a mais contundente resposta aos inocentes úteis que não acreditaram que estavam sendo massa de manobra do que há de mais retrógrado na política brasileira.

* Federação Única dos Petroleiros (FUP)