sábado, 28 de julho de 2018

Haddad: 'A moldura do programa do Lula vem da interação entre nós dois'

Entrevista | Fernando Haddad | Parte I

Haddad: 'A moldura do programa do Lula vem da interação entre nós dois'

por Marina Gama Cubas e Miguel Martins — publicado 28/07/2018 03h20, última modificação 28/07/2018 12h06
Em entrevista a CartaCapital, o coordenador do programa do PT detalha propostas e explica a estratégia eleitoral do ex-presidente, preso em Curitiba
Wanezza Soares
Fernando Haddad
Fernando Haddad, coordenador do programa de governo do PT, durante entrevista em sua casa
Coordenador do programa do PT, Fernando Haddad tem mantido conversas frequentes com Lula em sua cela na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Após se tornar integrante formal da defesa do ex-presidente, o ex-prefeito de São Paulo consolidou algumas das principais propostas no constante convívio com a principal liderança do partido.
Ao receber CartaCapital em sua casa em São Paulo, na sexta-feira 27, Haddad aparentava o natural cansaço de quem passou a ser o principal porta-voz de Lula nas últimas semanas. Cotado nos bastidores como um plano B caso o ex-presidente não possa concorrer, ele tem se desdobrado entre entrevistas, agendas políticas e viagens ao Paraná. 
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Na primeira parte da entrevista, Haddad detalha algumas das principais propostas do programa de governo de Lula, cuja moldura surgiu de conversas iniciadas desde janeiro com o ex-presidente. Além de propor a revogação de medidas como o congelamento de gastos públicos por 20 anos e a reforma trabalhista aprovadas pelo governo de Michel Temer, o coordenador do programa defende a ampliação de mecanismos de consulta à população, como referendos e plebiscitos, para debater questões como o pré-sal e uma reforma tributária.
Sobre a disputa judicial em torno da candidatura de Lula, Haddad afirma que a prioridade do PT é registrar o nome do ex-presidente em 15 de agosto. "É essencial para nós do ponto de vista moral e político." O ex-prefeito também confia na possibilidade de Lula gravar vídeos de campanha enquanto seu registro for analisado pela Justiça Eleitoral. 
O coordenador do programa reconhece que 17 de setembro, data limite para mudanças nas chapas presidenciais, será um momento decisivo caso haja duas negativas à candidatura de Lula, do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal. Por ora, o discurso é de união em torno da maior liderança do partido. "Não vou abdicar do Lula. O eleitor menos ainda. Por que que faríamos isso? Nem se o eleitor tivesse feito, mas não fez."
CartaCapital: Em um artigo publicado pela revista Piauí em junho do ano passado, o senhor afirmou que Lula participaria de sua oitava eleição presidencial, estivesse seu nome ou não na urna. Como é encabeçar um programa de governo do ex-presidente nessas condições de tanta incerteza? Fernando Haddad: Convivo com o Lula já há algum tempo. Quando em janeiro ele me convidou pra coordenar o programa, nós estivemos até abril dialogando com muita frequência, pelo menos duas vezes por semana, conversando sobre o que ele estava imaginando para seu terceiro mandato. O Lula tem muita clareza, conhece o Brasil como ninguém e sabe tanto das possibilidades como dos gargalos, das adversidades que teriam de ser superadas. Então, fomos mapeando um conjunto de iniciativas e propostas. Por exemplo, Brasil não pode mais viver sem um sistema de crédito. Não dá mais. Precisa ter um sistema de crédito civilizado. Lula falou: “olha, essa agenda do crédito tem que voltar com muita força”. 
CC: A proposta de tributar bancos que não facilitem o crédito veio de Lula?
FH: Vem de um diálogo com o Lula. A moldura do programa foi fruto de uma interação entre nós dois. A partir da moldura, as peças vão se encaixando com a contribuição de centenas de pessoas. Sem a moldura, não vem a ideia. Vira uma coleção de insights. O que estamos apresentando não é uma coleção de insights, é uma coesão interna de enfrentamentos que pretendemos fazer. 

CC: No primeiro eixo do programa, por exemplo, o PT cita a revogação de medidas do governo Temer. De que forma isso será feito?
FH: Vai depender um pouco da correlação de forças no Congresso Nacional. Mas o teto de gastos tem que ser revogado imediatamente porque hoje ele é um freio enorme aos ajustes das próprias contas públicas. Imaginar que você vai manter congelado o Estado durante vinte anos, até para a busca de eficiência, isso não é inteligente. É uma regra única no mundo. Estamos buscando formas mais inteligentes de controle das contas públicas com a responsabilidade que é padrão do Lula. Ele é uma pessoa que demonstrou uma seriedade com as contas públicas reconhecida por seus adversários - todos os indicadores financeiros do Estado melhoraram na gestão dele. É preciso resgatar isso, mas dialogando com a realidade internacional nova, como Donald Trump, protecionismo, taxa de juros internacional, uma série de problemas para os quais temos de ter algum preparo.  
CC: Há a previsão de plebiscitos ou referendos já no primeiro ano de governo?
FH: O Lula entende que deveríamos produzir mais consultas. Não estamos utilizando os instrumentos que reforçam a democracia representativa, que são as consultas. Tem algumas reformas imprescindíveis.
A reforma tributária, por exemplo, tem uma dinâmica que nós estamos trabalhando, que vamos operar uma transição de um regime tributário muito irracional para um regime tributário mais racional e progressivo. Ele é muito regressivo. Impõe uma carga de tributos sobre os mais pobres muito alta. Vamos aprovar uma reforma tributária e consultar a população para referendar. É o exemplo do que pode ser feito.

CC: Mas para revogar medidas como o teto de gastos públicos, a reforma trabalhista, o caminho a ser buscado será o Legislativo?
FH:  Via Legislativo. Mas o pré-sal, por exemplo: Não seria um objeto interessante de plebiscito? Por que se cada governo for fazer do seu jeito, qual a estabilidade que você dá para o modelo? Se você consultar as pessoas... Quem é o dono das reservas? É o povo que é o dono das reservas. E é intergeracional, não estamos falando de quatro anos de mandato. Estamos falando de quantos anos de exploração do pré-sal? Vinte, 30, 40, 50 anos de exploração do pré-sal? Não temos nem ideia da quantidade de reservas ainda. Pode chegar a 100 bilhões de barris, vamos supor. A gente consome, sei lá, dois milhões por dia? Quanto dá 100 bilhões?

Em uma questão como essa, talvez a melhor forma de resolver de uma vez por todas é o PSDB falar o que pensa, o PT falar o que pensa, e o povo selar o destino dessa história. Vai ter fundo do pré-sal? Vai ter vinculação pra saúde e educação? Define as regras de maneira que se dá uma estabilidade. 
CC: Qual seria a base aliada no Congresso no ano que vem em um governo do PT, uma vez que estamos em um cenário de muita polarização no Legislativo.
FH: Uma das formas de resolver uma polarização como essa que está acontecendo é uma maior participação da sociedade. Se a oposição entende que a proposta dela é melhor para o pré-sal, ela vai saber explicar isso na TV. Se nós entendemos que a nossa é melhor, temos a confiança que nós vamos saber explicar. Então se os dois lados forem contemplados com tempos iguais, igualdade de condições para explicar para população, qual vai ser o argumento contra um plebiscito?
É óbvio que a oposição pode derrotar a proposta de consultar, mas isso tem um custo. E o custo político é grande. De alguém dizer: “eu não quero que a população seja consultada sobre o pré-sal'. 
CC: No caso da reforma trabalhista, há algum ponto que o PT manteria?
FH: Ela é essencialmente errada. 

CC: Ela é toda errada?
FH: Você está falando de mais de 100 artigos. Tem artigo inócuo. Estou falando dos pilares.

CC: Por exemplo, o negociado sobre o legislado já não foi defendido pela CUT em outras ocasiões?
FH: Mas aí você tem uma situação que tem a ver com o fim do imposto sindical. Para citar um problema: o Brasil ficou num ponto cego em que não há imposto sindical, mas o acordo coletivo beneficia toda a categoria independentemente da filiação sindical. Isso é uma anomalia. Se não tem imposto sindical, você tem que estimular a sindicalização em virtude dos benefícios que o sindicato traz para categoria. É preciso recompor o equilíbrio entre capital e trabalho. Ficou desequilibrado, claramente desequilibrado. 
A CUT defende o fim do imposto sindical desde os anos 80. Mas sempre entendeu que para substituir o imposto sindical, a contribuição voluntária devia estar associada aos benefícios do acordo coletivo aos sindicalizados porque aí você estimula a sindicalização se o sindicato for bom.
Se o sindicato for ruim, ninguém vai querer pagar a filiação. Se o sindicato for bom, e você souber que ele está lutando pelos seus direitos, você acaba com o peleguismo sem acabar com o sindicato [risos]. O objetivo da reforma que a CUT propõe é acabar com o peleguismo, não acabar com o sindicato, é diferente. Do jeito que está, acaba o sindicato, não acaba o peleguismo. 
CC: O senhor gostou da reforma política que foi feita no Congresso no fim do ano passado?FH: Gostei de duas coisas que aconteceram que vai mudar muito a qualidade da representação. Uma do Supremo, que foi declarar inconstitucional a contribuição para campanhas eleitorais; e o fim da coligação proporcional, prevista infelizmente só a partir de 2022. Acho que o maior erro foi já não trazer para 2018.
A cláusula de barreira (que dificulta o acesso de legendas menores a recursos do fundo partidário e ao tempo de telvisão), apesar de não ser muito simpática, foi uma gradualidade que talvez seja benéfica. Mas considero que a existência de partidos pequenos é saudável, tanto à direita quanto à esquerda. 

CC: Há alguma proposta do PT para a reforma política neste momento?FH: Estamos propondo alguns complementos. Por exemplo, a eleição dos parlamentares no segundo turno. Entendemos que isso pode ajudar a organizar situação e oposição de uma maneira mais clara, em torno de projetos mais nítidos. Isso, por exemplo, pode valer só pra eleição presidencial. Ou pode valer para os parlamentos locais, inclusive, mas tem que se ter uma negociação.
CC: E a democratização dos meios de comunicação? Também não é uma pauta nova.FH: É a primeira vez que aparece com muita clareza no programa de governo. Dessa maneira assim, mais contundente, é. Sempre se falou nela, mas eu acho que está na hora de enfrentar os oligopólios no país. A concentração da propriedade, em geral. Bancos e meios de comunicação, terras, são coisas importantes para se enfrentar, sobretudo terra improdutiva. Terra improdutiva que está concentrada na mão de alguém. 
CC: Isso seria enfrentado no primeiro ano de governo do PT?
FH: Sim. Até porque você está mais forte para enfrentar no primeiro.
CC: Mas como reagir à reação da mídia contra a regulação dos meios de comunicação? 
FH: Eles (os grandes grupos de mídia) vivem impondo medo na sociedade para manter seus privilégios. Vamos mostrar a legislação da França, da Inglaterra, dos EUA. Nós queremos discutir a partir disso, vocês estão de acordo? Alguém vai dizer que esses países são atrasados do ponto de vista democrático? O berço da democracia ocidental são esse três países. Qual que é o medo que isso pode gerar? O que é incrível é que os jornais brasileiros entraram com uma ação judicial junto ao Supremo para que sites de agências internacionais de língua portuguesa saíssem do ar, ou vendessem 70% do capital. Isso é censura.
FH: E qual é a proposta do PT para uma reforma tributária que atinja o andar de cima? 
Nossa ideia é promover a transição com duas garantias. Nós vamos garantir ao Congresso que não pretendemos aumentar a carga tributária líquida durante a transição. Dar segurança ao Congresso. E que os entes federais não perderão receita real. Com essas duas travas o Congresso vai se sentir encorajado em promover a transição do modelo porque essas são as duas preocupações: qual é o estado e o município que vai perder e vai aumentar a carga. Nós vamos dar garantias formais que isso não vai acontecer.
Com essa garantia a gente consegue ir aumentando os impostos sobre renda e patrimônio a medida que diminui o imposto sobre o consumo, sobretudo dos bens essenciais. E a partir desse mecanismo, você torna o sistema tributário mais racional e menos regressivo. Isso é feito imediatamente, mas a operação disso é mais ampla. Mas a aprovação é imediata.
CC: Recentemente, Ciro Gomes declarou que Lula só terá chance de sair da cadeia se ele assumir o poder. Como o senhor interpreta essa afirmação?
FH: É muito difícil comentar declarações sem entender o contexto. Eu geralmente evito comentar declarações de terceiros. Primeiro, porque eu não vi o contexto. Segundo, porqeu depois houve um esclarecimento. Enfim, é difícil falar. Você está no meio de uma campanha. Eu pessoalmente tenho apreço pelo Ciro, sempre procuro interpretá-lo da melhor maneira possível.
CC: O Ciro estaria do ministério de um governo petista?
FH: Bom, aí eu tenho que perguntar para o presidente Lula, mas já esteve, né.
CC: Hoje há uma resistência forte ao Ciro no PT? Até pelo fato de ele não ter ido, por exemplo, à vigília no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC antes da prisão?
FH: Eu não acredito nisso, em resistência forte. Uma coisa é o PT querer ter candidato próprio, outra coisa é falar que isso é uma resistência a candidatos de outros partidos. Essas coisas têm que ser separadas.
Haddad
Foto: Wanezza Soares
CC: Na mesma entrevista que Ciro falou das chances de Lula sair da cadeia com sua vitória, ele afirmou ser o único capaz de dar continuidade ao projeto do ex-presidente. FH: Quando você está numa disputa eleitoral, você tenta demonstrar que é a pessoa mais adequada para assumir o posto. Eu relativizo muito isso, não absolutizo.
CC: O PDT negocia alianças com o PSB e o PCdoB, assim como os petistas, mas a indefinição sobre Lula dificulta uma definição por parte das legendas. Para o PT, essas alianças são ou não essenciais no primeiro turno?
FH: Para o PT é essencial registrar o nome do Lula, é isso que as pessoas precisam entender. Para nós o essencial é defender o Lula. O registro da candidatura dele é essencial para nós do ponto de vista moral e político. Eu não vou abdicar do Lula. O eleitor menos ainda. Por que faríamos isso? Mesmo que o eleitor fizesse - o que não fez -, nós não faríamos porque nós conhecemos o Lula. Pelas pesquisas dá impressão de que o eleitor também conhece o Lula. Ele também não está querendo abrir mão do Lula. Então é uma questão para nós muito importante, chegar no dia 15 [de agosto] registrando a candidatura do Lula.
CC: E o vice seria um petista?
Posto que nós vamos registrar o Lula, os outros partidos podem se agregar ou não. Podem ter candidato próprio.
CC: Mas qual que é a vontade do PT?
FH: Que nós estivéssemos juntos em torno do Lula, inclusive com um vice de outro partido. Não tenho nenhum problema com isso. Sempre tivemos o vice de outro partido, com uma exceção. A definição para nós é assim: quem quer estar conosco, é quem quer estar com Lula.
CC: A própria Luciana Santos, presidente do PCdoB, afirmou que não houve um convite de vice por parte do PT ao seu partido. O PT não tem um vice ainda porque nenhum dos possíveis aliados têm interesse ou porque há uma espera por um cenário mais definido?
FH: Ninguém tem vice ainda. Qual é o partido que tem vice? O Alckmin não tem vice, o Bolsonaro não tem vice, a Marina não tem vice, o Ciro não tem vice. Por que que o Lula tem que ter vice na frente de todo mundo?
CC: É uma eleição atípica.
FH: Ela é atípica porque tem uma prisão sem prova do maior líder popular da história.
CC: O vice do PT escolhido teria um valor simbólico por conta da indefinição?
FH: Sim. Por isso que não é o momento de escolher o vice agora. Você vai esgotar os prazos todos como tudo mundo está fazendo.
CC: O PT está organizando uma manifestação em frente ao Tribunal Superior Eleitoral para 15 de agosto, data do registro das candidaturas. Essa pressão popular pode sensibilizar ou pressionar a Justiça Eleitoral de alguma forma?
FH: Esse tipo de manifestação dialoga com a sociedade como um todo. Não é para dialogar com os membros do tribunal, é para dialogar com a sociedade. É um gesto político de afirmação de valores, de princípios, da liderança do Lula. É um gesto de solidariedade. 
CC: Mas o senhor considera importante mobilizar a população para fazer essa pressão, ou não?
FH: É que eu não vejo como uma pressão. Então é diferente. Eu vejo como um gesto de solidariedade e de afirmação da maior liderança política do país. Não vejo como um gesto de pressão.
CC: Rosa Weber vai assumir a presidência do TSE. Ela negou o habeas corpus a Lula em abril, embora seja contra as prisões em segunda instância. Por outro lado, ela rejeitou um pedido para considerar Lula inelegível desde já. O que se pode esperar da condução do caso do ex-presidente pela futura presidente da corte eleitoral? 
FH: Acho complicado fazer considerações pessoais sobre a conduta de uma ministra do Supremo. O fato concreto é que seis dos onze ministros do STF consideram a prisão do Lula inconstitucional. Esse é o fato relevante, não é?
CC: O dia 17 de setembro, prazo limite para qualquer alteração em uma chapa presidencial, será um momento decisivo para o PT.
FH: Se nós tivermos duas negativas. Uma do TSE e uma do STF.
CC: E se não tiver negativa? E se o processo ainda estiver correndo e chegar o dia 17 de setembro e ainda tiver chances de disputar judicialmente a candidatura do Lula? O PT vai até as últimas consequências, podendo arriscar ser excluído da disputa?
FH: Aí é uma decisão dele (Lula), né? Obviamente se ele obtiver os documentos do TSE ou a liminar do STF ele vai até o fim.
CC: E como será o programa eleitoral do PT? O senhor participará em nome de Lula?
FH: Nós pretendemos que enquanto esteja em discussão o registro ele possa gravar e participar.
CC: Mas não há o veto da juíza de execução penal Carolina Lebbos para gravar entrevistas e vídeos?
FH: Mas aí entra a Justiça Eleitoral. Ela pode reverter essa decisão. Ela pode declarar que, enquanto está em discussão, Lula deve ter os direitos assegurados. É a Justiça Eleitoral que tem a jurisdição de decidir quem pode participar dos programas eleitorais. Se ele puder enquanto estiver em discussão o registro, ele vai gravar.
CC: Há relatos da dificuldade de comunicação da própria defesa do Lula. Um dos exemplos é o caso do advogado Sepúlveda Pertence, que discordou de algumas teses por parte dos advogados criminais. O PT tem um enfrentamento grande para encarar no Judiciário, mas ele está vivendo um problema interno na defesa dele. Como está sendo pactuada uma harmonia na defesa? FH: Estou trabalhando mais na questão eleitoral, juntos aos advogados desse tema. Este assunto está bem administrado no campo eleitoral. Os advogados que vão cuidar do registro, cuidarão só do registro, e portanto a campanha ficará com outra parte. O que eu estou cuidando é com os advogados do registro. Não vou cuidar de campanha nem de criminal. 

CC: E os casos dos 145 candidatos a prefeito que puderam concorrer nas eleições mesmo com o registro indeferido? Não conhecemos muitos detalhes, eles são realmente semelhantes ao do ex-presidente Lula?FH: Eles vão ser divulgados um por um para que a própria imprensa possa fazer uma avaliação da Jurisprudência do Supremo. Alguns são idênticos. Não todos. 
CC: Temos informações de que são quatro casos muito próximos. Mas são municípios pequenos...
FH: A lei é a mesma. 

CC: Mas no caso de Lula vai direto para o TSE, não passa por tribunais regionais...
FH: Sim, mas estou falando da jurisprudência do TSE.  Estamos levantando as decisões. Essas coisas em direito funciona assim: é preciso levantar se houve uma decisão diferente dessas 145.  É preciso fazer um levantamento de todos os casos. 

CC: O fato de ir direto para o TSE não tende a tornar mais célere o processo do Lula?
FH: Se vai ser célere ou não, não sei. Estamos levantando as decisões. Não sei quanto tempo vai levar.  

CC: Sancionar a Lei da Ficha Limpa foi um erro de Lula?
FH: Há muita controvérsia sobre isso. Não em função do caso do Lula. Tanto é que o TSE tem mantido o registro, apesar da Ficha Limpa. Estamos falando de um levantamento pós-Ficha Limpa. O tribunal tem mantido o registro. Mas por exemplo: A Comissão Interamericana de Direitos Humanos entende que a Ficha Limpa é restritiva da soberania popular. Há entendimentos internacionais e de convenções internacionais  que colocam em questão a constitucionalidade da maneira como essa lei está sendo aplicada. É uma coisa muito nova, tem que avaliar os efeitos. 

CC: Recentemente, o ex-ministro Eugênio Aragão, atual advogado de Lula, afirmou que o PT nunca entendeu a natureza do Judiciário, e por isso ele errou na escolha de seus ministros. O senhor concorda?
FH: Na verdade temos um processo de indicação que é pouco participativo, é uma decisão quase idiossincrática. Um círculo muito restrito do presidente vai lá e leva nomes, tem prazo, porque geralmente houve uma aposentadoria, ou um falecimento. Eu diria até que é uma coisa um pouco amadora. Mas isso não é dos governos do PT, é a maneira como nós fazemos o Brasil. Na minha opinião, talvez precisamos ouvir mais entidades. Estamos falando de 11 pessoas com muito poder.  Na minha opinião, talvez uma escuta mais ampla fosse importante. Ouvir mais pessoas. A escolha é muito de cocheira. Ministro da Justiça vai com um nome, o ministro da AGU (Advocacia-Geral da União) vai com outro. E acho que mais confunde o presidente do que ajuda. É algo muito de bastidor. E não é que o presidente escolhe mal ou bem, ele é pouco informado. Não estou falando do Lula, mas de todos. Do Fernando Henrique Cardoso também. 

CC: Em uma entrevista no ano passado para CartaCapital, o historia Lincoln Secco, autor do livro história do PT, afirmou: “O golpe não foi dado para devolver o poder a Lula”. Muitos setores, inclusive da esquerda, tendem a concordar com essa tese. O senhor acha que, diante do que acompanhamos, a frase do professor da USP faz sentido?
FH: Se você resgatar as declarações do próprio Lula, ele mesmo já chegou a dizer isso. Publicamente, inclusive. O golpe só fecha se impedirem de ele concorrer. Ele mesmo disse isso. Porque, efetivamente, se ele concorrer, ele ganha. 

CC: Recentemente, houve um debate de representantes dos partidos de esquerda. No encontro, defendeu-se uma candidatura única, mas parecia que esse candidato poderia ser qualquer um menos Lula. Você considera uma traição de parte da esquerda?
FH: Não acho isso. Traição é o PT abrir mão de Lula. Os outros partidos têm todo o direito de lançar candidatos. Não são do PT. Para nós, seria gravíssimo nós antecipar a qualquer decisão e abrir mão daquele que a gente considera o quadro mais importante para tirar o País dessa crise. Se alguém fará isso, não seremos nós. 

NO RIO DE JANEIRO Festival no Rio terá lançamento de livro-manifesto pela liberdade de Lula


NO RIO DE JANEIRO

Festival no Rio terá lançamento de livro-manifesto pela liberdade de Lula

Lula Livre/Luva Livro reúne relatos, poemas e cartuns de 86 artistas. Lançamento ocorrerá no Festival Lula Livre e na Festa Literária de Paraty (Flip)
por Redação RBA publicado 27/07/2018 16h23, última modificação 27/07/2018 16h54
DIVULGAÇÃO
Livro manifesto Lula
Laerte, Chico César, Alice Ruiz, Augusto de Campos, Marcia Denser e Chico Buarque são alguns dos artistas que participam do livro
São Paulo – Escritores e cartunistas lançam, neste sábado (28), livro manifesto pela liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A antologia Lula Livre/Lula Livro reúne relatos, poemas e cartuns que expressam o inconformismo de 86 artistas diante dos desdobramentos do golpe de 2016 que resultou na prisão política de Lula, conforme analisa o poeta, jornalista e um dos organizadores do livro, Ademir Assunção, em entrevista à Rádio Brasil Atual.
O lançamento será feito no Festival Lula Livre e no período da noite, na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Circuito OFF-Flip, na Casa para Todos. Os eventos ocorrem no Rio de Janeiro.
O livro-manifesto conta também com a organização do escritor Marcelino Freire. E foi concebido a partir de encontro entre Ademir e manifestantes na Vigília Lula Livre, em Curitiba. Tocado pela experiência, Marcelino buscou com o livro somar as vozes dos defensores do ex-presidente às dos artistas, como Laerte, Chico César, Alice Ruiz, Augusto de Campos, Marcia Denser, Chico Buarque, entre outros, que, segundo ele, aderiram à ideia mesmo com o prazo curto estipulado, cerca de um mês. 
"O livro tinha de ser feito agora que estamos vivendo os efeitos nefastos do golpe contra a presidenta Dilma e que atingiu seu auge com a prisão de Lula", explicou o organizador. "Infelizmente essa questão nefasta é que criou esse inconformismo dos artistas e os levou a se unir e se manifestar novamente. Fazia algumas décadas que a gente não via uma união dessa forma, para engrossar a voz de todos que estão se manifestando contra esse estado terrível que vivemos no Brasil."
Segundo Ademir Assunção, uma página on-line será criada para oferecer a versão digital do livro, que contará também com a parceria de entidades sociais e sindicais na distribuição a preços populares.

MST Encontro de sem-terrinhas mostrou que diversão também forma cidadãos


MST

Encontro de sem-terrinhas mostrou que diversão também forma cidadãos

Evento em Brasília foi realizado pelo MST e coordenado pelas próprias crianças. Em quatro dias de atividades, cerca de 1.200 pequenos ativistas brincaram e aprenderam a lutar pelos seus direitos
por Redação RBA* publicado 27/07/2018 12h07, última modificação 27/07/2018 12h25
ELITIEL GUEDES/MST
ato sem terrinha.jpg
Depois de entregar manifesto ao MEC, crianças fazem ato na Praça dos Três Poderes
São Paulo – O Encontro Nacional das Crianças Sem Terrinha foi encerrado nesta quinta-feira (26), em Brasília. O evento realizado pelo MST reuniu 1.200 crianças de 24 estados com o lema "Sem Terrinha em Movimento: Brincar, Sorrir, Lutar por Reforma Agrária Popular!". E trouxe como temas principais direitos da criança a educação e a uma alimentação saudável. O movimento é um dos maiores produtores orgânicos do Brasil. 
O ensino no campo foi o assunto da terça-feira (24). A plenária lançou o Manifesto das Crianças Sem Terrinha, elaborado durante dois anos de discussão e lido por diversas crianças. 
A sem-terrinha Kaylane Dourado, de Goiás, ressaltou a importância de o poder público garantir escolas em assentamentos e acampamentos. "Quando  a gente vai para a escola, passamos mais tempo dentro do ônibus do que na própria escola. Um dia eu estava indo para escola e a van quebrou. Eu estava de calça branca e lá estava cheio de lama. Minha calça ficou vermelha”, contou. "A gente sai da roça para estudar na cidade, sendo que a gente tem direito de ter escola na roça." 

Brincadeiras e palavras de ordem

A quarta-feira (25) foi marcada pela diversão, e também por luta. As crianças fizeram uma visita cultural à Esplanada dos Ministérios. Depois entregaram ao Ministério da Educação o manifesto que denuncia o fechamento de escolas nas áreas de Reforma Agrária e em defesa da educação do campo.
As brincadeiras foram seguidas por palavras de ordem e as músicas das crianças tomaram conta da Esplanada. Do MEC, o cortejo seguiu para a Praça dos Três Poderes, onde realizaram intervenções culturais na defesa da educação.
JULIANA ADRIANO/MSTencontro nacional de sem terrinha
Crianças fazem ato de encerramento do Encontro em Brasília, que começou no último dia 23

Aprendizado

O encontro também foi marcado por atividades educacionais. Durante as tardes, os sem terrinha se dividiam em oficinas culturais e lúdicas. Foram 35 durante o segundo e o terceiro dia. 
As crianças contavam suas próprias e, integradas à equipe de comunicação do Encontro, foram produzidos fotos, textos, vídeos, uma cobertura de rádio sobre o evento. Ao final do encontro, um Jornal Sem Terrinha foi impresso para que os presentes levassem para casa.
Josué Rodrigues Costa, de 11 anos, participou da oficina Construção de Histórias. Nela, o garoto, que deseja se tornar escritor, relatou sua vida no assentamento Dom Tomás Balduíno, na cidade de Formosa, em Goiás. Escreveu sobre plantação e colheita de alimentos saudáveis, e também o descontentamento quando o assunto são os agrotóxicos e a caça de animais.
"Eu gosto de plantar e colher alimentos orgânicos, sem agrotóxicos, sem qualquer adubo, porque além de prejudicar nossa vida, prejudica a vida dos animais silvestres, como, por exemplo, matam muitos peixes. A regra que tem que ser cumprida é que não poderia usar nenhum tipo de química nas plantas", escreveu Josué. 
JÉSSICA MOREIRA/MSTjosué.jpg
Josué expressa seu gosto pela plantação e colheita de alimentos saudáveis

Alimentação saudável

No último dia do encontro as crianças também debateram como o modelo agrícola predominante no Brasil, que transforma alimentos em mercadoria, é responsável por danos à saúde humana e às culturas alimentares regionais.
Durante as falas das crianças, foi apontada a necessidade de preservação das sementes crioulas como contraponto ao modelo mercadológico. A sem terrinha vinda do Ceará Dandara dos Santos Feitosa, de 10 anos, destacou a importância de sua família para a compreensão de que um modelo agrícola alternativo é possível..
"Minha escola é dentro do assentamento. Lá, a merenda escolar é produzida por assentados e assentadas. Os sem terrinha se alimentam do fruto da reforma agrária. Com as pessoas e a natureza convivendo em harmonia, teremos comida saudável em nossa mesa todo dia", disse.
O 1º Encontro Nacional das Crianças Sem Terrinha foi coordenado pelas próprias crianças durante os quatro dias de atividades, com ajudo de cerca de 400 educadores.
Com informações do MST

VIOLÊNCIA NO CAMPO Famílias de acampamento em Marabá são ameaçadas e atacadas por pistoleiros

VIOLÊNCIA NO CAMPO

Famílias de acampamento em Marabá são ameaçadas e atacadas por pistoleiros

Ação aconteceu na madrugada deste sábado no acampamento Hugo Chávez, do MST. Pertences das famílias foram destruídos pelo fogo
por Redação RBA publicado 28/07/2018 11h04, última modificação 28/07/2018 11h48
MST
acampamento hugo chavez 28 jul18.jpg
Pertences das famílias, inclusive automóveis, foram destruídos pela ação dos pistoleiros, que atearam fogo no acampamento
São Paulo – As famílias do acampamento Hugo Chávez, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), na região de Marabá, sudeste do Pará, foram ameaçadas e atacadas por pistoleiros na madrugada deste sábado (28). As 450 famílias reocuparam na manhã de ontem a fazenda Santa Tereza, que é uma área grilada.
Durante a noite, homens armados ameaçaram a retirada do acampamento e fizeram disparos com armas de fogo. A assessoria de imprensa do MST informou que não há feridos até o momento, mas que os pistoleiros atearam fogo em todo o acampamento. Algumas pessoas estão desaparecidas.
Segundo as últimas informações da assessoria de imprensa do MST, todo o ataque foi feito pela policia da região. Um dos policiais que estava no ataque é da Delegacia do Conflitos Agrários, e foi reconhecido por uma acampada.
As famílias relataram os momentos de pânico e terror que sofreram. O MST divulgou nota de repúdio, para denunciar e informar a sociedade e as autoridades para que tomem medidas contra mais esta tentativa de assassinato e intimidação de trabalhadores e trabalhadoras no campo.

Descaso do poder público

Desde dezembro, quando foram despejadas às vésperas do natal, as famílias estavam em uma área provisória. Cansadas do descaso do poder público e como forma de denúncia da paralisia da reforma agrária retornaram para área que é grilada pelo latifundiário Rafael Saldanha.
Desde 2014, a área é reivindicada para reforma agrária e as famílias camponesas sofrem constantes ameaçadas de pistoleiros da região. Vários foram os episódios de violências inúmeras situações de violação de direitos humanos relatados e denunciados nacionalmente e até internacionalmente, segundo o MST.
Os camponeses e camponesas retornaram para reconstruir a escola, fazer as roças e produzir seu próprio alimento. Fazer do lugar moradias para famílias e não servir de pasto e degradação do meio ambiente.
No final do ano passado na região Sul e Sudeste do Pará, mais de 20 áreas reivindicadas para a reforma agrária receberam reintegração de posse durante o período do Natal e inúmeras pessoas ficaram desalojadas.
As famílias que retomaram o acampamento afirmam que continuarão na terra resistindo. A ação também faz parte da Jornada de lutas que ocorre em todo país por terra, em defesa da Reforma Agrária que reivindica o assentamento imediato das mais de 150 mil famílias Sem Terra e contra a judicialização da política.
Durante o governo de Michel Temer nenhuma família foi assentada no ano de 2017 e os cortes no orçamento para na área chegaram a 80%. No Pará, segundo os dados preliminares divulgados recentemente do IBGE, do Censo Agropecuário de 2017 apresenta 281 mil produtores rurais, mas a maior uso da terra é destinada somente para pastagem. No entanto, é sabido também que mais de 70% da produção de alimentos no campo advém de pequenos produtores rurais, de famílias camponesas e que o estado do Pará continua campeão em mortes no campo.
MST / TWITTERfamilias no acampamento hugo chavez.jpg
Famílias retomaram ontem a ocupação, cansadas de esperar por uma ação do poder público em favor da reforma agrária
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SÉCULO 21 Cuba: Constituição incorpora anseios de novas gerações e moderniza economia


SÉCULO 21

Cuba: Constituição incorpora anseios de novas gerações e moderniza economia

Texto ainda passará por consulta popular. Projeto torna constitucionais mudanças econômicas introduzidas por Raúl Castro, suprime comunismo e permite casamento entre pessoas do mesmo sexo
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 28/07/2018 14h05
OMARA GARCÍA/CUBADEBATE/FOTOS PÚBLICAS
Miguel Díaz-Canel e Raúl Castro
Raúl Castro (esq.) e Miguel Díaz-Canel, representando duas gerações da revolução cubana
São Paulo – Cuba se prepara para novos tempos. No último fim de semana, a Assembleia Nacional aprovou um novo projeto de Constituição, que reforma a Carta cubana de 1976. A nova Lei Maior do país ainda passará pelo crivo do povo, em consulta popular que será realizada de agosto a novembro, para incorporar demandas da sociedade. Posteriormente, o texto será objeto de um referendo e só então entrará em vigor.
“A Constituição de 1976 marcou de forma orgânica a vinculação de Cuba com o socialismo real, então em vigor na União Soviética e Leste europeu. O objetivo final era o comunismo, segundo a lógica do marxismo-leninismo”, lembra Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp). 
No modelo que está agora legalmente virando passado, o socialismo era uma etapa da transição entre o capitalismo e o comunismo, no qual o Estado controla os meios de produção, o Partido Comunista é a única agremiação e todos trabalham de alguma forma para o Estado.
A nova Carta Magna cubana torna constitucionais as mudanças econômicas introduzidas principalmente por Raúl Castro, com estímulo para os cidadãos trabalharem por conta própria, à formação de microempresas, aceitação do capital estrangeiro e de formas de propriedade não estatais. “Com todas essas mudanças, uma nova Constituição passa a ser necessária para incorporar a realidade que já vigora em Cuba”, diz Ayerbe.
Uma modificação significativa trazida pela atual proposta é a retirada do comunismo como horizonte da revolução. O texto aprovado aponta para o socialismo como modelo guia. “O socialismo como etapa da transição entre o capitalismo e o comunismo fica aparentemente eliminado da nova Constituição. O socialismo em si seria o horizonte. Mas ainda não está claro que socialismo seria esse”, avalia Ayerbe.
Apesar do novo mandamento, o Partido Comunista como regente do Estado continua. O presidente do país terá um mandato de cinco anos, podendo ser reeleito pelo mesmo período. A mídia ocidental não poderá mais chamar o mandatário cubano de "ditador".
Embora a mídia brasileira esteja destacando o “adeus ao comunismo” e o reconhecimento do mercado e da propriedade privada como pontos principais, essa abordagem é parcial e limitada. Mas não só porque as cautelosas mas necessárias reformas econômicas introduzidas por Castro precisavam ser parte da lei. O texto constitucional em construção vai muito além de introduzir princípios capitalistas e suprimir o comunismo como objetivo final.
O projeto contempla anseios das gerações que nasceram depois da revolução. “Essa é uma questão importante, porque a geração anterior sempre viveu o antes e o depois da revolução, com os contrastes e as perspectivas relativos a esse marco”, observa o professor da Unesp. “Para as novas gerações, que não conheceram o que era Cuba antes, a ideia de transformação tem características diferentes.”
No texto aprovado, por exemplo, o casamento é definido como a “união entre duas pessoas”, e não mais entre homem e mulher. “Era algo impensável para a geração anterior”, observa Ayerbe. A discriminação contra homossexuais sempre foi um dos aspectos mais criticados da revolução cubana.
A ideia da propriedade e do mercado, acesso a um consumo diferenciado, à internet e aos meios de comunicação estão também entre as demandas das gerações mais jovens de Cuba, podendo-se incluir entre elas o novo presidente Miguel Díaz-Canel, que nasceu mais de um ano depois de os revolucionários derrubarem Fulgêncio Batista, em 1° de janeiro de 1959. Díaz-Canel assumiu em abril deste ano.
 “Trata-se de uma geração que tem novas expectativas e necessidades, inclusive em termos de comportamento e sexualidade. A nova Constituição tenta sinalizar para essa perspectiva, que é também a de Díaz-Canel, embora ele seja um quadro do partido e esteja afinado com Raúl Castro”, diz Ayerbe.
O formato como as demandas da sociedade cubana serão parte da nova Constituição ainda está em aberto, já que o processo está em debate e a consolidação só se dará depois do referendo.
Simbolicamente, a filha de Raúl Castro, Mariela, deputada e diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), tem sido voz importante dessas novas gerações, inclusive como uma das defensoras dos direitos LGBT. “Ela impulsionou essa questão no debate em Cuba”, lembra o professor da Unesp.
Em matéria da BBC há uma década, Mariela Castro reconhecia os erros da revolução quanto à questão LGBT. “Cometemos atos lamentáveis, que ficaram mais visíveis porque se esperava que uma revolução socialista não os cometesse. Agora, tanto a sociedade como o governo estão conscientes disso e querem evitar a sua repetição”, disse em 2008. Sobre o pai, afirmou à época: “Eu o via como machista e homofóbico. Mas à medida que cresci e me transformei como pessoa, também o vi mudar".

RECURSOS PARA O SUS Pré-candidatos defendem revogação da emenda 95 e reforma tributária


RECURSOS PARA O SUS

Pré-candidatos defendem revogação da emenda 95 e reforma tributária

Em debate no Rio, promovido pelo Conselho Nacional de Saúde, Boulos, Padilha, Goulart e Jandira Feghali defendem revogação da Emenda que congela investimentos por 20 anos e taxação de grandes fortunas
por Redação RBA publicado 28/07/2018 09h41, última modificação 28/07/2018 09h59
REPRODUÇÃO
padilha boulos e goulart no rj.jpg
Padilha traz a mensagem de Lula: 'Saúde é direito. Não é algo que pode ser comprado ou vendido'
São Paulo – Uma reforma tributária que inclua a taxação sobre grandes fortunas, heranças e transações financeiras de grande porte e a revogação da  Emenda à Constituição nº 95/2016, que congela por 20 anos investimentos da União em áreas sociais e traz prejuízo ao SUS estimado em R$ 400 bilhões até 2036 são as principais medidas defendidas por pré-candidatos à Presidência da República e seus representantes em debate realizado na tarde de ontem (27). A mesa foi promovida pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) na sede da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e integra a programação do 12º Congresso Nacional de Saúde Coletiva (Abrascão 2018), que termina neste domingo (29). 
"Uma vergonha nacional: uma pesquisa daqui da Fiocruz estima que até 2032 mais de 20 mil crianças morrerão em função do congelamento de gastos imposto pela Emenda 95 e pela redução da Estratégia de Saúde da Família", destacou a representante da pré-candidata Manuela D´àvila (PCdoB), a deputada federal pelo Rio de Janeiro Jandira Feghali, do mesmo partido. "Ensaiamos avanços sociais com os governos populares de Lula e Dilma. Agora, precisamos de referendo revogatório para derrubar a emenda. Mas precisamos também taxar as grandes fortunas e tributar as grandes transações financeiras para a seguridade social". Jandira é autora de projeto de lei nesse sentido que tramita no Congresso Nacional.
O pré-candidato do Psol, Guilherme Boulos, disse que a revogação da emenda deve ser um compromisso de todos os candidatos que se dizem comprometidos com a saúde pública. "Nosso compromisso tem de ser com a revogação. Senão, é conversa mole", enfatizou, lembrando a necessidade de um referendo que derrube, "no atacado", todas as reformas. "Temos de fazer um referendo no atacado dos atos desse governo ilegítimo, e revogar a reforma trabalhista, a entrega do pré-sal".
A revogação sem outras medidas, porém, é insuficiente segundo ele. Por isso defende a necessidade de pautar a reforma tributária progressiva para financiar serviços públicos, taxando grandes fortunas conforme previsto na Constituição promulgada há 30 anos. "Uma reforma tributária arrecada R$ 120 bilhões ao ano. Dá pra dobrar o orçamento do SUS em um ano". Para Boulos, é inaceitável a visão "vendida pela mídia", segundo a qual o problema do SUS é de modelo, falido. "O modelo é virtude. O problema todos sabemos é de financiamento".
O pré-candidato João Goulart destacou que sua primeira medida, se eleito, será revogar a EC 95. Para ele, não há motivos para a atual política de austeridade fiscal, que reduz drasticamente os investimentos sociais. “Temos que reduzir os juros cobrados no nosso país, que estão entre os cinco maiores do mundo”. O candidato explicou que “o subfinanciamento do SUS está dentro da lógica do Estado mínimo neoliberal”, que deve ser combatido. 
Representado pelo ex-ministro da Saúde do governo Dilma Rousseff, Alexandre Padilha, o pré-candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enviou uma carta dirigida ao povo brasileiro e aos participantes do congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). O ex-presidente destacou conquistas como o maior programa de vacinação do mundo, a quebra de patentes dos medicamentos para HIV/Aids, a redução da mortalidade infantil e outras políticas e programas sociais executados no período em que foi presidente e durante a gestão da presidenta Dilma Rousseff. “Saúde é direito. Não é algo que pode ser comprado ou vendido. Temos que lutar contra o desmonte do SUS e da nossa Constituição”, disse Lula. 

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