quinta-feira, 10 de abril de 2014

A República exige autocrítica

A República exige autocrítica

Roberto Amaral*

As circunstâncias externas muitas vezes ensejam golpes de Estado, como certifica o legado da Guerra Fria, recentemente reaquecida com o putsch conservador que instalou na Ucrânia um governo protofascista, sob os auspícios dos EUA e da União Europeia.

Na verdade, esse ‘golpe’ foi simplesmente uma manobra estratégico-militar de Obama-Merkel contra o sonho de reunificação, sob a bandeira da Federação Russa, dos territórios perdidos com o desmantelamento da URSS.

A projeção da geoestratégia das potências centrais sobre a vida dos países periféricos é fato objetivo, mas não encerra a verdade toda, porque há, também, processos autônomos, ou, pelo menos, primariamente autônomos.

A experiência brasileira de rupturas constitucionais e agressões à democracia representativa observa peculiaridades porquanto inicialmente gestada em nossas entranhas pela associação da caserna reacionária com a direita civil que, no Brasil e no mundo, jamais teve compromissos com a democracia, as liberdades e a via institucional. Esta existe tão-só para ser fraturada, e a democracia é invocada tão-só quando é preciso destruí-la. Assim, em nome da democracia brasileira - supostamente ameaçada pela ‘república sindicalista’ de Jango – as liberdades foram cassadas; em nome da defesa da Constituição - pretensamente ameaçada pelas ‘reformas de base’- a legalidade foi destroçada e instalou-se uma ditadura, por definição sangrenta. O divisor de águas é a sede dos interesses da classe dominante, eternamente presa à casa-grande, e eternamente temerosa dos rumores que partem da senzala. A emergência das massas, em qualquer nível, seja a organicidade, seja a ascensão social ou cultural, é, para as ‘elites’ alienadas, uma dessas ‘ameaças’ que precisa ser contida.

O mandarinato militar que se seguiu ao golpe de 1964 não tem história própria, pois produto de um processo social, mas suas características foram seguidamente alteradas no curso de seus longos 21 anos, como o atestam o discurso de posse do primeiro general presidente, e o ato institucional que se pensou único. Ele é a decantação de práticas e culturas reacionárias de nossa oficialidade e de nosso empresariado e da ideologia do anticomunismo, importada da Guerra Fria. Na verdade, a intentona de 1964 – este seu nome — começou a ser maquinada já em 1961, como declara o gal. Denis em suas memórias (Ciclo revolucionário brasileiro. Editora Nova Fronteira, 1980), com a autoridade que deriva de sua vida de insurgente e golpista, filho da tradição mais reacionária do ‘tenentismo’ que produziu Cordeiro de Farias, Juarez Távora e Eduardo Gomes, os mais notáveis, ao lado de figuras menores embora igualmente deletérias, como Filinto Muller e Juracy Magalhães, conspiradores remunerados pelo erário. Aliás, a história militar republicana é um rosário de levantes, de 1922 a 1964, passando pela ‘revolução’ de 30 e os golpes de 1932 e 1935. A ruptura consequente da condução vargo-castilista do movimento de 1930 divide politicamente os ‘tenentes’, mas não os afasta do golpismo que vai caracterizar a presença militar na história republicana.

Os golpes de Estado, comandados quase sempre pelas mesmas lideranças, voltam-se ora contra Vargas, como em 1932 (putsh da aristocracia cafeeira paulista) e em 1935 (levante comunista), ora para entregar-lhe o poder absoluto, como em 1937 (derruimento da Constituição de 1934 e instauração do ‘Estado Novo’), como na repressão aos comunistas e putsch integralista de 1938; até de novo atacá-lo (deposição de 1945), para, afinal, levá-lo ao suicídio (1954).

O episódio conhecido como 11 de novembro de 1955 é emblemático: de um lado, os generais que articulam um golpe para impedir a posse de Juscelino (que simbolizava o retorno do varguismo sem Vargas), de outro os que de fato executam o golpe (a deposição de Café Filho e Carlos Luz, via Congresso) para assegurar, em nome da legalidade, a posse do presidente eleito.

Sem minimizar a importância do apoio, inclusive logístico, dos EUA, entendo como prioritário, no momento, discutir a participação daqueles outros autores, mais ou menos relevantes, que permanecem ativos em nossa vida política, e, portanto, em condições de fazer História.

As esperanças da direita civil e militar de conquista eleitoral da presidência haviam malogrado com a renúncia de Jânio Quadros e sua frustrada tentativa de golpe, para serem reacendidas com o veto dos ministros militares à posse de seu sucessor constitucional. O levante popular, liderado pelo então governador Leonel Brizola, desfez em dias o planejamento de anos e trouxe para o proscênio a mobilização das massas. Foi a mais contundente derrota do militarismo no Brasil. O retorno à caserna não significaria, porém, a assimilação do desfecho desfavorável da crise por eles mesmos, militares, criada.

Antes de tomar posse, Jango estava condenado à deposição.

Enquanto o deputado e depois governador Carlos Lacerda tentava mobilizar a opinião pública, conspiradores contumazes como os marechais Cordeiro de Farias e Juarez Távora, com o concurso de figuras então menores como o cel. Golbery do Couto e Silva, trabalhavam os quartéis. A guerra ideológica era liderada pelos grandes jornais, à frente de todos O Estado de São Paulo e O Globo (que ganharia seu primeiro canal de televisão no governo Jango) cujos donos seriam figuras preciosas nas relações com grande empresariado e, só então, nos primeiros contatos com o governo dos EUA. Nascem o IPES e o IBAD, o primeiro reunindo empresários, militares e intelectuais orgânicos da direita, o segundo corrompendo o processo eleitoral

Jango unifica os conspiradores não quando ‘quebra a hierarquia militar’ comparecendo a uma assembleia de sargentos, mas quando opta pela radicalização nacionalista e o apoio popular, dos trabalhadores, mas igualmente dos estudantes, dos operários e dos camponeses. Para a classe dominante brasileira é intolerável o que lhes possa parecer cheiro de povo. Com esse povo compartilhar o poder, jamais. E é desse então o fortalecimento do movimento sindical e o ensaio das primeiras centrais. O movimento estudantil é liderado por uma União Nacional dos Estudantes legitimada pelo apoio de suas bases; surgem os Movimentos Populares de Cultura, e os primeiros governos estaduais progressistas, como o de Miguel Arraes em Pernambuco, sede das primeiras Ligas Camponesas e dos primeiros confrontos com o latifúndio. Fala-se em Reforma Agrária e em limitação das remessas para o exterior dos lucros das empresas estrangeiras, pleito ainda hoje atual. Os estudantes querem reforma universitária, o governo erradicar o analfabetismo, em sintonia com a Revolução Cubana, que mobiliza as massas e assusta o capitalismo caboclo. O governo reclama as reformas de base e de uma forma ou de outra o país se transforma numa grande assembleia que discute seu destino. O povo começa a acreditar no seu poder de escrever sua História.

Faltava ao governo, porém, aquela correlação de forças político-militares necessária para dar sustentação a tal política, e, no plano internacional, a Crise dos Mísseis (1962) trouxera para a América Latina os holofotes da Guerra Fria. Nessa contingência era fácil aos conspiradores apresentarem o próprio governo como subversivo, responsabilizado pela iminente implantação ora de um regime castrista, ora de uma república sindicalista, falácias que, no entanto conquistavam adeptos e recursos.

O resto é simplesmente consequência, história contada e história sabida.

Essas notas não pretendem reduzir a importância do papel exercido pelos EUA no planejamento do golpe, na sua irrupção, na sua consolidação e em sua sustentação, general por general, até seu último vagido, nada obstante os estranhamentos com o governo Carter, retoricamente preocupado com a violação dos direitos humanos. Trata-se de história comprovada em fatos e documentos. Não padece dúvidas.

É preciso, porém, discutir atores nacionais como a grande imprensa e setores do grande empresariado. A grande imprensa foi decisiva na mobilização da classe-média contra o governo e na defesa aberta do golpe. Passaram para a história como antológicos e paradigmáticos os editoriais do Correio da Manhã, as campanhas dos ‘Associados’, o papel das emissoras de rádio do Rio e de São Paulo. A manipulação dos fatos, trabalhando a realidade em função de objetivos ideológicos, o jornalismo de campanha encontram seu melhor momento na linha editorial do O Estado de São. Paulo e de O Globo, inexcedíveis na preparação do golpe e, mais tarde, na sua sustentação. No fundamental, e eis a tragédia, e eis o que preocupa, a grande imprensa, passados tantos anos, continua presa a uma Guerra Fria extinta, permanece ideologicamente dependente dos centros hegemônicos, e por isso mesmo a serviço da ideologia da submissão, contra os interesses nacionais sempre que esses são confrontados com os interesses do centro hegemônico. E, hoje como ontem, contra a emergência das grandes massas.

A República exige dessa imprensa sua autocrítica, pelo papel que exerceu na preparação do golpe, na sua sustentação e no silêncio cúmplice diante da tortura e dos assassinatos, que agora reconhece por não mais poder negá-los. O diploma de conivência foi outorgado à nossa imprensa pelo mais luciferino de nossos ditadores: "Sinto-me feliz [dizia o general Médici] todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal [Jornal Nacional, da Rede Globo]. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho".

A recente autocrítica do jornal O Globo, admitindo haver errado ao apoiar o golpe, deve ser bem recebida, é, por enquanto, puro discurso retórico, mas é assim mesmo algo melhor do que o silêncio das Forças Armadas.

A honra da República exige das Forças Armadas sua autocrítica, pelo crime da ruptura democrático-constitucional, pelas torturas e pelos assassinatos que perpetrou em instalações do Estado e pelos crimes que ensejou, praticados pelas mãos de agentes terceirizados. Exige que as Forças Armadas, como instituição renunciem à cumplicidade com os criminosos e ajudem as autoridades na apuração dos crimes.

Estes são os dois primeiros passos para a verdadeira reconciliação nacional.


*Roberto Amaral é cientista político 

terça-feira, 25 de março de 2014

24 anos de escravidão

Rubens Nóbrega




A coluna é basicamente uma crônica política, que se diferencia da análise política clássica por não se prender ao factual nem à ordem ou pauta do dia. Contato com o colunista: rubensnobrega@uol.com.br




24 anos de escravidão

Fui domingo passado ao shopping assistir à história de Solomon Northup ('12 anos de escravidão'), levada às telas para mostrar ao mundo mais uma vez o quanto a soma da intolerância com o preconceito é capaz de condenar seres humanos à perda da própria humanidade. Ganhador do Oscar deste ano, o filme, baseado em livro de autoria do protagonista, narra o drama de um músico negro norte-americano que em 1841 vivia livre em Nova York até ser sequestrado e levado para trabalhar como escravo em fazendas de algodão da Louisianna.
Não, não vou fazer 'crítica de cinema' aqui, coisa de que desisti há muito tempo, depois de ler o que Antônio Barreto Neto e Martinho Moreira Franco produziram no set de jornalismo impresso da melhor qualidade que os dois faziam na Paraíba nos sessenta e setenta do século passado. Meu propósito, hoje, é tão somente confessar ao leitor os sentimentos com que saí do cinema. Porque saí comparando tristeza e injustiça vividas por Solomon a tudo o que o povo brasileiro sofreu sob a ditadura de 24 anos que infelicitou milhões, mutilou e matou milhares.
A comparação começa pelas cenas que antecedem o rapto, sequenciadas pelas torturas que o violonista passa a sofrer no cativeiro antes de ser desterrado do Norte livre para os horrores no Sul escravocrata. Antes, o músico cai na lábia de dois bandidos que o procuram disfarçados de artistas de circo; depois, é embriagado, adormece e dormindo é capturado. Roteiro semelhante àquele imposto ao Brasil de 1964 a 88, depois de uma imprensa flagrantemente golpista fazer a cabeça da população com fartas e falsas informações sobre uma comunização que o governo civil de então jamais pretendeu de verdade. Afinal, a ‘mudança radical’ que Jango almejava não ia além de reformas de base para fazer deste país uma nação menos injusta, menos desigual.

Tal e qual há 50 anos
Feito o Solomon livre escravizado nos Estados Unidos, boa parte da população brasileira acreditou naqueles que lhe sequestraram a liberdade, depois de embriagá-la com promessas enganosas de salvação da pátria para em seguida aprisioná-la e levá-la ainda adormecida às masmorras e porões onde amargariam os suplícios mais impiedosos. Nesse trajeto de ódio e sangue, quem não perdeu a vida, a família ou o convívio de seus mais queridos, alternativa não teve além de assistir ao aprisionamento dos direitos mais comezinhos da cidadania. A ditadura quebrou as pernas de quem queria ir e vir livremente, encarcerou as reuniões do povo, amordaçou a boca de quem queria discutir e falar sem medo sobre qualquer assunto, algemou as mãos de quem pretendia, escrevendo, informar e opinar sobre os problemas do país. Para a vitória das trevas não vamos esquecer que houve, antes do golpe, um evento que não deve ser esquecido, porque representou a mais expressiva prova de quão fácil é alienar e induzir gente desinformada a cometer atentados contra a dignidade e a integridade dos seus concidadãos, começando por querer fazê-los voltar à condição de escravos, porque viver sob ditadura é igual a viver na escravidão. Mas é exatamente isso o que dizem querer os novos enganados e alienados que pretendem reeditar este mês, 50 anos depois, a ‘Marcha pela Família, com Deus pela Liberdade’.

‘A turma do Bolsonaro’

Ainda bem que contra a infeliz iniciativa tem gente reagindo até mesmo com humor. Suponho que pela incapacidade de levar o movimento a sério. É o caso de um amigo que fez circular anteontem um certeiro comentário (leia adiante) sobre a intenção da turma do Bolsonaro, como ele chama os pretensos seguidores e admiradores do ultradireitista deputado Jair Bolsonaro que estariam entre os organizadores da marcha.
***
Vem aí a passeata (procissão?) Com Deus Pela Pátria e Liberdade, reeditando a famigerada iniciativa da ingênua Igreja, de apoiar um golpe militar na época de 1964. Depois amargariam profundamente. Hoje se sabe que essas passeatas foram estimuladas, financiadas e organizadas pelo governo americano, que enganou os otários com a desculpa que era para combater o comunismo. E aí, vão encarar? Passagens para o Rio de Janeiro estão em promoção, para o evento. Basta se identificar como direitista (alguém assume?!) e golpista; que quer derrubar a Dilma do cargo que conquistou no voto, dentro da lei, e não com golpes. Será que dará mais gente que as passeatas gueis? Com o resultado das últimas pesquisas, tenho cá minhas dúvidas...
Mas, para aqueles que não perdem as esperanças, aconselho a vocês, antes de embarcarem, que leiam o edificante depoimento dado, em tom de orgulho, por um aborto da natureza de nome Paulo Malhães, coronel reformado do Exército do Brasil, que viveu intensamente aquela época, chafurdando na merda dos bastidores da ditadura militar. Foi publicado no jornal O Globo, que aderiu, apoiou e cresceu na ditadura militar. Está logo aí, é só clicar com o botão esquerdo (êpa!) do mause na linha que selecionei abaixo (trata-se do link http://oglobo.globo.com/pais/vitimas-da-casa-da-morte-foram-jogadas-dentro-de-rio-diz-coronel-11940779).
Aconselho àqueles que tenham estômago mais fraco a colocar um comprimido de Vonau 8 mg sob a língua, antes de iniciar a leitura. Só para repetir o jornalista Kennedy Alencar (que está longe de ser militante de esquerda ou petista), a ditadura militar foi corrupta; apenas não existia liberdade (óbvio!) para denunciar a corrupção. Quem era besta?! Foi essa mesma ditadura (militar!) que gerou os Sarneys, Antonios Carlos Magalhães, Jaders Barbalhos, Romeros Jucás, Calheiros, Bragas, Crivellas, Garotinhos, Robertos Jefeersons, o Collor! e outras figuras nefastas da parada de sucesso da corrupção hodierna, além de Arena, aliás, PDS, aliás, PP, aliás, DEM, aliás, PSD. Gerou, também, milicianos, grupos de extermínio, grandes traficantes, etc.

A grande dúvida. Coluna de Rubens Nóbrega





Voltei ontem do Sertão com a certeza de que a grande dúvida do campeonato eleitoral deste ano, na Paraíba, é se o governador Ricardo Coutinho permanecerá em campo caso a partida vá para a prorrogação, quer dizer, para o segundo turno. A preço de hoje, como diria o saudoso Joelmir Beting, e a julgar pelo que vi e ouvi em Patos e no Sabugi, Ricardo não tem chances de vitória diante da popularidade de Cássio Cunha Lima e do potencial de crescimento da candidatura de Veneziano Vital.
O meu convencimento sobre o momento da disputa política na Paraíba baseia-se em avaliações de experientes observadores com os quais conversei e, também, em pesquisas sobre tendências atuais do eleitorado, disponíveis apenas para consumo interno. Todas elas indicam que o senador, mesmo ainda sem fazer campanha aberta como o governador faz há mais de um ano, Cássio teria mais do que o dobro das intenções de votos direcionadas para Ricardo.
Por sua vez, o governador não consegue se distanciar da mesma forma do ex-prefeito campinense. A vantagem sobre Veneziano não passa de um dígito atualmente, com previsão de se reduzir a décimos quando a guerra eleitoral propriamente dita começar. Aí, garantem quem é do ramo, a possibilidade de a candidatura do PMDB ultrapassar a do PSB na reta final do primeiro turno será enorme. Motivo: além de individualmente dispor do maior tempo de rádio e televisão na propaganda eleitoral, a candidatura peemedebista na Paraíba tem tudo para manter a aliança com o PT. Com isso, crescerá ela tanto nos grandes colégios eleitorais como nos pequenos, onde o apoio de Lula e Dilma daria um gás significativo à campanha de Vené.

Dá para desconstruir
Como se não bastasse, Ricardo será o alvo comum das críticas e ataques mais contundentes dos seus principais adversários, que devem se concentrar no desmonte da imagem de grande realizador que o governador vem construindo graças ao maior investimento em propaganda que já se fez na Paraíba. Cássio mostrou ontem que não será difícil desconstruir o cartaz de Ricardo na medida em que o governador se perde quando, até por arrogância e empáfia, acredita ter ‘(re)inventado’ a Paraíba e esquece ou não reconhece, por exemplo, que as duas maiores obras tocados pelo atual governo são, na verdade, continuação ou resultado do que fizeram seus antecessores

De Maranhão a Burity

O senador referiu-se inicialmente ao Canal Acauã-Araçagi, a maior obra hídrica da Paraíba, um investimento de mais de R$ 1 bilhão do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, do Governo Federal), planejada no Cássio I “e que somente existe porque, antes, José Maranhão fez a barragem de Acauã”, disse. Depois, lembrou que o Centro de Convenções da Capital, outra obra projetada em seu governo, destravada e iniciada pelo Maranhão III, não existiria sem a iniciativa do governador Tarcísio Burity de criar e prover a infraestrutura do Polo Turístico do Cabo Branco.

Sobre obras e obreiros
Na avaliação de um crítico mais ferino que vai na mesma direção do raciocínio de Cássio, mas prefere, além do conforto do sigilo da fonte, usar palavras mais duras para definir o comportamento do governador, “Ricardo se gaba de ter sido quem mais obrou na Paraíba, mas a maior parte dessa obra é orgânica, fisiológica mesmo, a julgar pelo mau cheiro que exala de algumas delas”. Pedi que fosse mais específico, mas ele limitou-se a dizer que “a outra parte dessa obra, a física, em pedra e cal ou asfalto, está sendo construída graças à capacidade de planejar, captar recurso e aprovar projetos das equipes e governos de Cássio e Maranhão. As estradas de que tanto se jacta o governador, por exemplo”.
“Nesse particular”, continuou, “abstraindo a milionária propaganda que faz de si mesmo, do permanente autoelogio e desqualificação dos adversários ou predecessores, a grande contribuição de Ricardo para expandir a malha viária do Estado foi assinar ordens de serviço para construção de estradas iniciadas no Maranhão III com empréstimo conseguido no Cássio II junto à Confederação Andina de Fomento (CAF) no valor de R$ 500 milhões”.
Ainda segundo o mesmo corrosivo avaliador, “seria imensa burrice – e de burro Ricardo Coutinho não tem sequer as penas – alguém pegar um filé desses e não comer. Ou não fazer o que deveria ser feito ou já encontrou feito ou em andamento, graças a muito asfalto novo que começou a ser espalhado pelo interior desde o Maranhão III”.
Mais: “Seria uma estupidez inimaginável, realmente, não dar andamento a um projeto dessa envergadura. Pena que na maioria do tempo, na sua compulsão para assumir a paternidade de iniciativas dos outros, nem o governador nem o seu governo tenham o mesmo apreço e empenho na conservação, manutenção e melhoria do patrimônio público já consolidado, aí incluídas as rodovias estaduais mais antigas e estratégicas para ligar municípios, micros e mesos regiões do Estado”.
Concluindo: “Tirando reformas pontuais que dão visibilidade e imagens para a campanha do governador, como as que vêm se arrastando no Dede e no Espaço Cultural, em João Pessoa, e recapeamentos de alguns trechos do Anel do Brejo (de Sapé a Guarabira, por exemplo), no mais multiplicam-se as queixas dos cidadãos que trafegam por essas PBs abandonadas – ou castigadas – pelo simples fato de precisarem de reparos que são extremamente importantes para os usuários, mas rendem pouco. Votos, inclusive”.
  

Ricardo encolhido e acuado



Ricardo encolhido e acuado


Circunstancialmente, sem combinação alguma, encontrava-me ontem em concorrido restaurante da Capital quando tive oportunidade de acompanhar uma impressionante avaliação da atual cena política paraibana, feita a partir da nova correlação de forças que se estabeleceu na Assembleia pós rompimento de Cássio Cunha Lima com Ricardo Coutinho.
Os pressupostos e consequências em cartaz foram medidos, pesados e peneirados por assessores parlamentares que atuam no Legislativo Estadual. A análise contou com o auxílio luxuoso de radialistas e jornalistas que cobrem assiduamente a Casa ou têm vários deputados como fontes primárias de informação ou subsídios privilegiados da opinião de cada um.
Pois bem, esse poderoso time de analistas chegou à conclusão que a base aliada governista encolheu para sete ou oito deputados, no máximo. Testemunha da conversa, fiquei impressionado com duas coisas. Primeiro, com o presumível tamanho que restou à bancada, digamos, ricardista. Depois, com a enorme dificuldade da roda em listar os parlamentares que, em tese, continuariam a seguir o comando da Granja Santana.
Mas, com ajuda de outros circunstantes e interlocutores, os involuntários e ocasionais colaboradores da coluna (confesso que pedi a lista) relacionaram os seguintes deputados que ainda carregam na testa ou nas costas a pecha de governistas: além do líder Hervázio Bezerra, Gilma Germano, Tião Gomes, Doda de Tião, Eva Gouveia, Wilson Braga e João Gonçalves.
Desses, os dois últimos seriam os mais propensos a deflagrar um novo processo de deserção em massa das hostes palacianas no caso de os ventos que arejam a expectativa de poder no Estado começarem a soprar com mais força para as bandas dos mais prováveis concorrentes diretos de Ricardo na disputa pelo governo: o próprio Cássio e o ex-prefeito Veneziano Vital.

Hervázio, um problema
Como se não bastasse, um nó adicional e bastante apertado aguarda o governador no abril que vai chegar logo mais: se quiser manter o seu aplicado líder em plenário, Ricardo Coutinho vai ter que arranjar dois deputados que aceitem abrir mão de tentar a reeleição em troca de um cargo de secretário de Estado. Difícil, muito difícil, dificílimo. Segundo suplente da coligação que há três anos reuniu na proporcional e na majoritária o PSB ao PSDB, Hervázio Bezerra está na Assembleia porque os deputados Manoel Ludgério e Adriano Galdino estão secretários. Mas esses terão que reassumir os mandatos até o dia 4 do próximo mês, sob pena de inviabilizarem a chance de retorno à Assembleia na legislatura a ser inaugurada em fevereiro de 2015.

Tem que convocar dois
Mas um só deputado licenciado não quebraria o galho de Hervázio? Não, não resolve. Não porque o primeiro suplente atende pelo nome de Francisco de Assis Quintans, cassista de carteirinha desde criancinha. Assim, para manter o seu líder deputado, o governador terá que convencer e convocar dois, e não apenas um parlamentar. Mas, se assim o fizer, Quintans manterá a titularidade de mandato, mui provavelmente votando contra os interesses e as matérias de governo em trâmite ou encaminhadas à Assembleia.
Sem reprovar as contas
Por falar em votar contra, ao menos de uma coisa o governador pode se despreocupar por enquanto. Reunido com sua bancada no final de semana, Cássio teria recomendado aos seus deputados não desaprovarem as contas de Ricardo (as que já se encontram lá, na agulha, pertencem ao exercício de 2011). A recomendação nada teria a ver, contudo, com suposto zelo pela regularidade na aplicação das verbas públicas no atual governo. Os cassistas teriam concluído que tentar inelegibilizar Ricardo pode transformá-lo em vítima e a vitimização, quando manejada habilmente, industrialmente, renderia peninha no eleitor e votos para o vitimizado. O próprio Cássio, com sua cassação em 2009 e consagração nas urnas de 2010, seria um exemplo clássico de feitiço que em processos eleitorais pode se voltar contra o feiticeiro.

As baixas programadas
De qualquer modo, o governador não deve baixar a guarda. Nesse encontro, teria sido desenhada uma estratégia de anúncios programados de retirada de apoio ao Ricardus I. O cronograma, inaugurado espontaneamente por Carlos Dunga semana passada, teve sequência anteontem, quando Branco Mendes confirmou as expectativas gerais e disse publicamente que ficaria ao lado de Cássio.

Ruy disse não a Ricardo
O governador teria dito anteontem à noite, em entrevista à TV Master, que Ruy Carneiro ofereceu-se em várias oportunidades, ano passado, para ser ‘o senador de Ricardo’. Conversei com o deputado a respeito. “Muito pelo contrário”, disse. Revelou ter sido procurado por diversos emissários de Ricardo, mas não quis conversa. Tanto assim que desde antes avisara a Cássio: se fosse mantida a aliança PSB-PSDB, ele, Ruy, jamais aceitaria integrar qualquer majoritária encabeçada pelo atual governador.

Do blog de Helder Moura



Barreto espera julgamento de denuncia contra RC há cinco anos: “Quero que ele me processe!”

Ricardo e Barreto
Há cinco anos, o ex-secretário e professor Francisco Barreto protocolou volumosa documentação junto ao Ministério Público Eleitoral, com várias denúncias envolvendo Ricardo Coutinho, especialmente quanto à sua prestação de contas como candidato à reeleição (a prefeito) em 2008. Pois, passado todo esse tempo, ele foi ouvido duas vezes pela Polícia Federal. Mas, o assunto morreu.
Ricardo chegou a ameaçar Barreto pelas acusações. Mas, aparentemente recuou. Hoje, Barreto insiste: “Esperei que RC me processasse como tanto ameaçou. E nada, faltou hombridade. Se escondeu por detrás dos blefes. Gostaria que ele me processasse.” Dentre as denúncias, constam “recibos com falsificação de assinaturas de supostos doadores…”
Segue: “Origem de dinheiro não explicada, lavagem e uso de terceiros, omissão e sonegação de doações e gastos irregulares, e muitos outros crimes previstos pela legislação eleitoral.” Barreto se diz desencantado: “É estarrecedor que até hoje não tenha havido nenhuma apuração definitiva, e as consequências legais por qualquer instancia judicial.”
O sentimento é de frustração: “O Ministério Público, que em principio deve ter provocado a apuração das denuncias, envolvendo a apuração policial pela PF, não traz à luz a informação pública do que resultou os citados inquéritos.”
“Fui convocado duas vezes a PF (2013 e 2014), compareci e reafirmei o teor das denuncias passados cinco anos, e perplexo, recomendei vivamente aos delegados que me ouviram que lamentava que ainda eles estivessem insistindo em apurar fatos que ocorreram há cinco anos, e que no meu entendimento era uma completa perda de tempo”, acrescenta.
Breve histórico – Barreto enviou texto ao Blog, acrescentando ainda alguns pontos: “RC assumiu em 2009 a PMJP, em 2010 o Governo do Estado, e é de novo candidato. Mesmo que houvesse uma remota chance de punição nada mais atingiria os mandatos que ocupou, nem tampouco a sua incolumidade política e eleitoral.
As denuncias sobre mensalão de RC em 2008/09 foram amplamente divulgadas, e mereceu o registro feito pelo site PBAgora em sua edição 20 de Março de 2009, que teve o patrocínio então corajoso  Jornalista Luís Torres.
O jovem e então arrebatado opositor Luís Torres, que hoje exerce o cargo de Secretário de Comunicação do Governo RC foi intimado perguntei ao Delegado da PF  em 19/03/2014 ? Afinal, talvez não seja o caso perturbar o inteligente e buliçoso Luís Torres que aderiu numa rendição incondicional a RC. Luisinho, como costumava chamar, foi um dos poucos aguerridos combatentes ao lado de Hervázio Bezerra, vereador Marcos Vinicius, Nicola Lomonaco,  Maurilio Batista, Clison Jr, e Janildo Silva cerraram um duro combate à RC. Destes, só não permanecem Hervázio  Bezerra e Luisinho, que por razões desconhecidas e inexplicáveis desembarcaram no Palácio da Redenção. Venderam as suas consciências e a força de trabalho. É uma lastima.
Fizemos um combate inglório, necessário e correto é certo, mas, sem consequências práticas. Esperei anos para ver se a justiça se exercia. Nada aconteceu. Não espero mais. Assim como, esperei que RC me processasse como tanto ameaçou. E nada, faltou hombridade. Se escondeu por detrás dos blefes.
Continuarei indo à PF, por dever de oficio e nada mais.”

Quem financiou, quem dirigiu e quem participou da Marcha da Família de 1964

Quem financiou, quem dirigiu e quem participou da Marcha da Família de 1964, a original



marcha da família 64

Publicado originalmente no Opera Mundi.

Há 50 anos, em 19 de março de 1964, era realizada na cidade de São Paulo a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Estima-se que entre 500 mil e 800 mil pessoas partiram às 16h da Praça da República em direção à Praça da Sé, no centro, manifestando-se em resposta ao emblemático comício de João Goulart, seis dias antes, defendendo suas Reformas de Base na Central do Brasil. Passaram à história como as genuínas idealizadoras e promotoras da marcha organizações femininas e mulheres da classe média paulistana. No entanto, por trás deste aparente protagonismo feminino às vésperas do golpe que deu lugar a 21 anos de regime ditatorial, esconde-se um poderoso aparato financeiro e logístico conduzido por civis e militares que tramavam contra Jango. Um detalhe: quase todos eram homens.
Certamente, a atuação de alguns grupos femininos como “pontas-de-lança” da opinião pública contra o governo Goulart foi peça-chave na conspiração levada a cabo pelo complexo empresarial-militar do Ipês-Ibad (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Destas instituições femininas, as principais eram: a carioca CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia) e as paulistas UCF (União Cívica Feminina) e MAF (Movimento de Arregimentação Feminina).
Conforme disseca a historiadora Solange Simões em seu livro Deus, Pátria e Família: As mulheres no golpe de 1964, a inserção das mulheres na conspiração que resultou no golpe foi estratégica. Com o intuito de fomentar uma atmosfera de desestabilização política e convencer as Forças Armadas a intervir, as campanhas femininas buscavam dar “espontaneidade” e “legitimidade” ao golpismo, tendo sido as mulheres incumbidas — pelos homens — de influenciar a população.
“Aqueles homens, empresários, políticos ou padres apelavam às mulheres não enquanto cidadãs, mas enquanto figuras ideológicas santificadas como mães”, escreve a pesquisadora. A própria dona Eudóxia, uma das lideranças femininas, reconhece, em entrevista à historiadora, sua função tática:
Nós sabíamos que como nós estávamos incumbidas da opinião pública, os militares estavam à espera do amadurecimento da opinião pública. Porque sem isso eles não agiriam de maneira nenhuma. A não ser que a opinião pública pedisse. E foi isso que nós conseguimos.
Graças a uma bem-sucedida ação, eventos considerados aparentemente “desconexos” foram tomados como “reações espontâneas” de segmentos da população. Na verdade, essas manifestações apresentavam uma sólida coordenação por parte da elite.
Veja abaixo os principais aspectos desse movimento feminino que esteve à frente da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” de 19 de março de 1964.
1.) COMO SURGIU E QUEM LIDERAVA?
Quem eram, afinal, essas mulheres que despontavam na rua, em passeatas e comícios, como “donas-de-casa” e “mães-de-família brasileiras”, envolvidas na conspiração civil-militar? Já chamadas de “guerrilheiras perfumadas” ou confundidas com mulheres “das classes médias”, as direções dos movimentos eram constituídas, essencialmente, por mulheres com baixa formação intelectual da burguesia e das elites militares e tecnoempresariais.
Essa ala feminina do golpe foi criada meses antes das eleições gerais de outubro de 1962. Suas principais líderes eram parentes próximas dos grandes nomes do setor empresarial e militar envolvidos na conspiração. Contaram, obviamente, com todo o aparato financeiro e logístico de seus cônjuges, primos e irmãos para erguer suas instituições. “O meu marido me incentivava: ‘Eu ajudo no que precisar’, dizia ele”, relembra em entrevista concedida a Solange Simões, a vice-presidente da CAMDE, Eudóxia Ribeiro Dantas, mulher de José Bento Ribeiro Dantas, empresário ipesiano presidente da Cruzeiro do Sul, uma das maiores companhias aéreas do país.
Do lado carioca, por exemplo, a CAMDE foi criada por Amélia Molina Bastos, irmã do general Antônio de Mendonça Molina, do setor de informação e contrainformação do Ipês. A ideia partiu declaradamente do vigário de Ipanema, Leovigildo Balestieri, e dos líderes ipesianos engenheiro Glycon de Paiva e general Golbery do Couto e Silva. A CAMDE foi lançada no auditório do jornal O Globo, no Rio, oferecido por seu diretor-proprietário, Roberto Marinho. Na manhã do dia 12 de julho de 1962, o periódico carioca estampava na capa: “A Mulher Brasileira está nas Trincheiras”.
Já em São Paulo, nas reuniões de fundação da UCF, compareceram figuras como: Antonieta Pellegrini, irmã de Júlio de Mesquita Filho, diretor-proprietário do jornal O Estado de S.Paulo, e Regina Figueiredo da Silveira, primeira presidente da união paulista e irmã do banqueiro João Baptista Leopoldo Figueiredo, presidente do Ipês e primo do último presidente do ciclo militar.

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2.) EM TERMOS PRÁTICOS, O QUE FIZERAM?
Desde sua fundação, a CAMDE carioca e a UCF paulista se engajaram na ação política de combate e desestabilização do governo Goulart, orientadas ideologicamente e materialmente pelo complexo Ipês-Ibad.
“Caravana a Brasília”: pelo veto a Santiago Dantas
Em 1962, as mulheres organizaram uma “Caravana a Brasília” com o objetivo de formar um efetivo “coro popular” para impedir a posse de San Tiago Dantas como primeiro-ministro. Esse movimento integrava parte da política de rejeição, pela elite, de uma composição com a ala moderada do trabalhismo. Para tanto, entregaram ao presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, 60 mil cartas pedindo a não aprovação do plebiscito antecipado, bem como o impedimento da delegação de poderes ao conselho de ministros, fundamental à continuidade das Reformas de Base do governo Goulart.
Boicote ao Última Hora, o “diário da guerra revolucionária”
Um dos poucos jornais que se atreveram a criticar a tentativa de deturpar o processo eleitoral por parte dessas organizações femininas, o Última Hora, de Samuel Wainer, foi sistematicamente perseguido pela CAMDE e UCF. Caracterizando o periódico como “o diário da guerra revolucionária que se travava no Brasil”, as senhoras passaram a formar comissões de visitas a empresários, industriais e comerciantes que anunciavam no jornal, pedindo para que suas verbas publicitárias fossem suspensas. A coordenação dessa campanha de boicote foi feita em grande parte em sincronia com o Ibad, liderado pelo integralista Ivan Hasslocher, outra figura central na campanha anti-Jango. Hasslocher se exilou em Genebra depois de comprovados, pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) de 1963, os atos de corrupção de seu instituto no processo eleitoral de outubro de 1962.
“Marchas da Família com Deus pela Liberdade”: quem convocou, dirigiu e financiou
Logo após o discurso de Goulart na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, a CAMDE se engajou em campanhas por telefone, incitando as mulheres a permanecerem em casa e acenderem velas em suas janelas como sinal de protesto e fé cristã. A massiva “Cruzada do Rosário em Família”, do padre norte-americano Patrick Peyton, pároco de Hollywood, foi o ensaio-geral para as marchas anticomunistas de abril e março de 1964, fundadas no lema “A família que reza unida permanece unida”.
Seis dias depois do comício de Jango, em 19 de março, data em que se comemora o dia de São José, padroeiro da família, realizou-se em São Paulo a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, coroando o auge dos esforços das associações femininas orientadas pelo Ipês.
A marcha reuniu entre 500 mil e 800 mil pessoas para protestar contra o comício de Goulart na Central do Brasil. A idealização da marcha partiu do deputado federal Antônio Sílvio Cunha Bueno (PSD), um grande proprietário de terras e diretor da norte-americana Willys-Overland Motors do Brasil, cuja matriz ficou famosa pela fabricação, em parceria com a Ford, do jipe usado pelos norte-americanos na Segunda Guerra Mundial. Ao contrário da propagandeada supervalorização do papel dessas mulheres na condução dos protestos, a organização da marcha não ficou a cargo nem da UCF nem do MAF, ambas entidades sediadas em São Paulo. Quem levou o evento adiante foi o próprio Cunha Bueno, além de outros políticos paulistas, como o vice-governador Laudo Natel, Roberto de Abreu Sodré (UDN) e Conceição da Costa Neves (PSD), deputada mais votada no estado nas eleições de 1962.
Acompanhados de suas esposas, políticos importantes se fizeram representar nas marchas: Adhemar de Barros e sua mulher, dona Leonor; além de Carlos Lacerda, governador do Rio, e dona Letícia. O deputado Herbert Levy, integrante da UDN e líder do Ipês, bradava: “o povo não quer ditaduras, o povo não quer comunismo, o povo quer paz e progresso”. Cunha Bueno discursava: “Todos vocês nessa praça representam a pátria em perigo de ser comunizada. Basta de Jango!”.
Em São Paulo, os banqueiros Hermann Morais Barros (Banco Itaú), Teodoro Quartim Barbosa (Comind) e Gastão Eduardo Vidigal (Banco Mercantil), líderes ipesianos do primeiro escalão, ficaram incumbidos de articular e obter adesão das entidades de classe de todo o país para as marchas.
“O Ipês de São Paulo também fez contribuições diretas e em dinheiro para o movimento feminino: consta do relatório de despesas de 1962 e do orçamento de 1963 uma contribuição mensal para a UCF”, conclui a historiadora Solange Simões.
A organização logística da marcha foi feita no prédio da Sociedade Rural Brasileira, supervisionada pelo Ipês e contando com a presença de membros de diversas entidades patronais e associações industriais. No bem aparelhado quartel-general do movimento feminino fizeram-se ainda pôsteres, cartazes e bandeiras com as seguintes palavras de ordem:
Abaixo o Imperialismo Vermelho
Renúncia ou Impeachment
Reformas sim, com Russos, não
Getúlio prendia os comunistas, Jango premia os traidores comunistas
Vermelho bom, só o batom
Verde, amarelo, sem foice nem martelo

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3.) HOUVE PROTAGONISMO FEMININO?
Uma vez vitorioso o golpe de Estado de 1º de abril de 1964, foi deflagrada a chamada “Marcha da Vitória”, reunindo 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro. Logo no dia 3 de abril, o líder do Ipês João Baptista Leopoldo Figueiredo, que estava em reunião na Guanabara na qual discutiam a escolha do “novo candidato” à presidência, telefonou para sua irmã Regina Figueiredo Silveira, presidente da UCF. Motivo: o banqueiro primo-irmão do último presidente militar solicitava à irmã-ativista que o lançamento da candidatura de Castello Branco fosse feito pela própria UCF.
Paulo Ayres Filho, outro líder ipesiano e empresário da indústria farmacêutica, ficou incumbido de elaborar, junto com uma equipe da UCF, o manifesto feminino de apoio ao marechal, levado às estações de TV e jornais pelas senhoras.
O general Olympio Mourão Filho, que marchou de Minas Gerais em 31 de março, antecipando-se ao plano dos conspiradores do eixo Rio-São Paulo, comentou, sobre as marchas das mulheres, que “como todos os homens que participaram da revolução, nada mais fez do que executar aquilo que as mulheres pregavam nas ruas para  acabar com o comunismo”. Cordeiro de Farias foi ainda mais longe, de acordo com Solange Simões, “ao afirmar que a revolução foi feita pelas mulheres”.
Historiadores que estudaram o período são mais céticos: não veem a movimentação das mulheres como sintoma do engajamento universal da população brasileira no combate a Jango. Na verdade, essas mulheres, teriam funcionado como massa de manobra dos conspiradores — todos homens — para criar uma sensação de “espontaneidade” e “clamor popular” apta a dar “legitimidade” ao novo governo. Como aponta a pesquisadora Solange Simões, a marcha foi “ostensivamente uma manifestação das classes média e alta”. E mais: foi muito restrita, pois em uma cidade de 6 milhões de habitantes, como São Paulo, apenas 500 mil pessoas participaram.
Até o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, notório por seu apoio ao golpismo, percebeu a falta de apoio popular no movimento, conforme relata a Washington em um telegrama de 2 de abril de 1964: “A única nota destoante foi a evidente limitada participação das classes mais baixas na marcha”. Seu espião militar no Brasil, o coronel Vernon Walter também atesta que, até a realização das passeatas, havia um receio de que o movimento para derrubar João Goulart fracasse por falta de apoio popular.
Desferido o golpe em 1º de abril, as marchas do Rio e São Paulo foram seguidas de outras menores, organizadas pelas associações femininas em Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Santos.
“Se antes os maridos enalteciam o papel de mãe e esposa para manter a mulher no lar e discriminadas na esfera pública, passam agora a enaltecer aquele papel para comprometê-la na ‘política’”, arremata Solange Simões. Assim, revelando o ilusório protagonismo vislumbrado pelo espetáculo dessas marchas de massivas mobilizações, “a ‘mulher-dona-de-casa’ que respeitava, no lar, a autoridade do chefe da família, deveria, enquanto mulher-cidadã procurar a autoridade do Estado – autoridade que residia principalmente no seu braço armado”, conclui a historiadora.

Estrela cadente

Caso Sheherazade do SBT
Jandira Feghali

O governo federal estuda suspender a verba publicitária que repassa à terceira maior emissora de TV do país, o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). O caso é examinado pela equipe do ministro Thomas Traumann, da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, a pedido da líder do PCdoB na Câmara, Jandira Feghali(RJ).

A deputada acusa a emissora de ter praticado apologia e incitação ao crime, à tortura e ao linchamento ao exibir comentários da apresentadora Rachel Sheherazade que, segundo a parlamentar, exaltavam a ação de chamados “justiceiros” no Rio de Janeiro contra um jovem de 16 anos, acusado de furto. “A Secom me deu um primeiro retorno dizendo que concorda com o conteúdo do nosso pedido e que estuda quais providências tomar”, disse Jandira Feghali ao Congresso em Foco.

A assessoria da Secretaria de Comunicação da Presidência confirmou que a pasta estuda o assunto, mas afirmou que só o ministro Thomas Traumann poderia confirmar se concorda ou não com a suspensão da verba. A reportagem aguarda retorno da Secom desde ontem (18) à tarde.
Em 2012, o SBT recebeu R$ 153,5 milhões em publicidade de verba publicitária do governo federal. Ficou atrás apenas da Globo (R$ 495 milhões) e da Record (R$ 174 milhões). O valor destinado à TV de Silvio Santos corresponde a 13,64% do bolo publicitário das emissoras. “Como o governo pode subsidiar um canal que tem uma editorialista que incita à violência e à justiça com as próprias mãos?”, questiona Jandira Feghali.

"Na edição do telejornal SBT Brasil, do último dia 4 de fevereiro, Rachel disse que era “compreensível” a ação de um grupo de pessoas que acorrentou a um poste um adolescente acusado de furto no bairro do Flamengo, na Zona Sul do Rio. O jovem foi acorrentado, nu, pelo pescoço com uma trava de bicicleta. Ele teve parte da orelha cortada e só foi solto após a intervenção de uma moradora.

Para Rachel, a ação dos “justiceiros” se justifica por causa do clima de insegurança nas ruas e da ausência de Estado. Ela também criticou a atuação de militantes dos direitos humanos. “Faça um favor ao Brasil. Leve um bandido para casa”, declarou. Dias depois de ser acorrentado e solto, o adolescente foi detido novamente, desta vez por tentar assaltar um turista na cidade. Até o mês passado, o menor acumulava três passagens pela polícia.

Perda da concessão

A líder do PCdoB na Câmara trabalha em duas frentes contra o SBT. Além do ofício enviado diretamente à Secom, no dia 20 de fevereiro, ela também apresentou umrequerimento à Procuradoria-Geral da República (PGR) em que pede a abertura de inquérito contra a TV e Rachel Sheherazade e o corte da verba enquanto durarem as investigações. Como mostrou o Congresso em Foco, em caso de condenação, Jandira solicita que o SBT perca até o direito à concessão pública. Caberá ao procurador-geral, Rodrigo Janot, dar andamento ou não aos pedidos.

A deputada diz que não há censura em sua iniciativa. Segundo ela, uma coisa é externar uma opinião, outra é defender um crime como “fazer justiça com as próprias”. “Não podemos ser coniventes com nenhum crime. O único poder capaz de julgar a proporcionalidade da punição é a Justiça, que dá direito de defesa. Temos de defender o estado democrático de direito.”

Compreender, sem aceitar

A reportagem procurou Rachel Sherazade e o SBT por meio da assessoria de imprensa da emissora. Mas, até o fechamento desta reportagem, ainda não havia recebido retorno da TV do empresário Sílvio Santos.

Em artigo publicado em 11 de fevereiro, na Folha de S. Paulo, a apresentadora diz que apenas expressou sua opinião e que não defendeu os chamados “justiceiros”. “Em meu espaço de opinião no jornal SBT Brasil, afirmei compreender (e não aceitar, que fique bem claro!) a atitude desesperada dos justiceiros do Rio”, escreveu Rachel. Em nota divulgada à época, o SBT alegou que a opinião da apresentadora era de responsabilidade dela, e não da emissora.

Jandira não concorda. Para ela, como concessão pública, a TV tem total responsabilidade em relação ao que leva ao ar. “A emissora vai ter de assumir. Não estamos provocando a Rachel Sheherazade, é o SBT que está em questão. Não é uma questão dela especificamente, mas dela vinculada ao canal. A gente espera que isso sirva de parâmetro para outras TVs”, disse a deputada.
Em 2000, o SBT chegou a ficar com 20% do “bolo” publicitário do governo entre as emissoras de TV. Naquele ano, ainda na gestão Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a emissora recebeu R$ 135 milhões para divulgar ações do governo federal. Na época, era vice-líder de audiência, posto que perdeu, de lá para cá, para a Record, de Edir Macedo.

Outras representações

Este não é o único caso envolvendo a apresentadora e a emissora que Rodrigo Janot terá de analisar. Ainda em fevereiro, o Psol acionou a PGR contra Rachel e o SBT por apologia ao crime, à tortura e ao linchamento. No encontro com os parlamentares, Janot se comprometeu a designar um procurador para investigar o caso.

“A violência é feita em palavras pela Rachel Sheherazade tentando justificar uma violência absurda. E ela diz isto num meio de comunicação que é uma concessão”, afirmou o líder do Psol na Câmara, Ivan Valente (SP). “A liberdade de imprensa, que é importante e necessária, não poder ser refúgio de declarações irresponsáveis”, acrescentou o deputado.

Ainda em fevereiro, a presidente da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado, senadora Ana Rita (PT-ES), pediu à Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo que abra procedimento para apurar o conteúdo do comentário de Rachel. Para a senadora, a apresentadora violou os direitos humanos e fez incitação à violência. Com o ofício, foi encaminhada uma nota de repúdio publicada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro sobre as violações de direitos cometidas pela jornalista.

A assessoria da Secretaria de Comunicação da Presidência disse que o ministro Thomas Traumann estava em reuniões na Presidência da República e não poderia poderia confirmar, como disse Jandira Feghali, se ele concorda com a suspensão da verba do SBT.


Fonte: Brasil de Fato