quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Meu amigo Fidel, por Frei Betto


Meu amigo Fidel, por Frei Betto


Com Fidel, desaparece o último grande líder político do século 20, o único que logrou sobreviver mais de 50 anos à própria obra: a Revolução Cubana
Perco um grande amigo. Nosso último encontro foi a 3 de agosto, quando completou 90 anos. Recebeu-me em sua casa, em Havana, e, à tarde, fomos ao Teatro Karl Marx, onde um espetáculo musical o homenageou. Embora tivesse o organismo debilitado, caminhou sem apoio da entrada do teatro à sua poltrona.
Com Fidel, desaparece o último grande líder político do século 20, o único que logrou sobreviver mais de 50 anos à própria obra: a Revolução Cubana. Graças a ela, a pequena ilha deixou de ser o prostíbulo do Caribe, explorado pela máfia, para se tornar uma nação respeitada, soberana e solidária, que mantém profissionais da saúde e da educação em mais de cem países, inclusive o Brasil.
Conheci Fidel em 1980, em Manágua. O que primeiro chamava atenção era sua imponência. Parecia maior do que era, e a farda lhe revestia de um simbolismo que transmitia autoridade e decisão. A impressão era de que qualquer poltrona era demasiadamente estreita para o seu corpanzil. Quando ingressava num recinto era como se todo o espaço fosse ocupado por sua aura.
Todos ficavam esperando que ele tomasse a iniciativa, escolhesse o tema da conversa, fizesse uma proposta ou lançasse uma ideia, enquanto ele persistia na ilusão de que sua presença era uma a mais e o tratariam sem cerimônias e reverências. Como na canção de Cole Porter, ele devia se perguntar se não seria mais feliz sendo um simples homem do campo, sem a fama que o revestia. Certa ocasião, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, de quem era grande amigo, perguntou se ele sentia falta de algo. Fidel respondeu: “de ficar parado, anônimo, numa esquina”.
Cubadebate

Frei Betto em encontro com Fidel Castro em fevereiro de 2014
Outro detalhe que surpreendia em Fidel era o seu timbre de voz. O tom em falsete contrastava com a corpulência. Às vezes soava tão baixo que seus interlocutores tinham de apurar os ouvidos. E quando falava não gostava de ser interrompido. Porém, não monopolizava a palavra. Jamais conheci alguém que gostasse tanto de conversar como ele.
Desde que não fossem encontros protocolares, nos quais as mentiras diplomáticas ressoam como verdades definitivas, Fidel não sabia receber uma pessoa por dez ou vinte minutos.
A convite de Fidel e dos bispos de seu país, atuei no resgate da liberdade religiosa em Cuba, facilitado pela entrevista contida no livro “Fidel e a religião” (Fontanar), na qual o líder comunista aprecia positivamente o fenômeno religioso.
Não saberia dizer quantas conversas privadas tive com Fidel. Uma curiosidade é que este homem, capaz de entreter a multidão por três ou quatro horas, detestava, como eu, falar ao telefone. Nas poucas vezes que o vi ao aparelho sempre foi muito sucinto.

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Minhas frequentes viagens a Havana estreitaram nossos laços de amizade. No prefácio que generosamente escreveu para a minha biografia, lançada na última semana de novembro pela editora Civilização Brasileira, Fidel ressalta que defendo Cuba “sem deixar de sustentar pontos discrepantes ou diferentes dos nossos”. Na década de 1980, quando expressei críticas à Revolução, o Comandante frisou: “é seu direito. E mais: o seu dever”.
Todas as vezes que eu o visitava em sua casa, depois que deixou o governo, levava-lhe chocolates amargos, seu preferido, castanhas e livros em espanhol sobre cosmologia e astrofísica. Conversávamos sobre a conjuntura política mundial, a sua admiração pelo papa Francisco e, em especial, sobre cosmologia. Contei-lhe que ao visitar Oscar Niemeyer, pouco antes da morte do arquiteto brasileiro, já centenário, este me disse, animado, que toda semana reunia em seu escritório um grupo de amigos para receber aulas de cosmologia.
O fato de dois eminentes comunistas se interessarem tanto pelo tema, comentei com Fidel, me fez recordar uma cena do filme “A teoria de tudo”, no qual o protagonista, o famoso físico inglês Stephen Hawking, ainda estudante em Cambridge, pergunta à jovem com quem iniciava o namoro: “o que você estuda?” “História”, ela responde, e devolve a curiosidade. Ele informa: “Estudo cosmologia.” “O que é isso?”, indaga ela. E ele frisa: “uma religião para ateus inteligentes”.
Tenho para mim que Fidel, aluno interno de colégios religiosos ao longo de dez anos, abandonou a fé cristã ao abraçar o marxismo. De alguns anos para cá, deixou-me a nítida impressão de que se tornara agnóstico. Várias vezes me pediu, ao nos despedirmos: “Ore por nós”. Tenho certeza de que  Fidel transvivenciou feliz com a sua coerência de vida.

Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.

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